sexta-feira, 10 de março de 2017

uma mulher negra pode falar sem ser questionada de maneira hostil?


Admitam: vocês não querem ouvir as mulheres negras


Eu tive uma enorme esperança de que a internet brasileira seria resetada após o Grammy, principalmente em razão da “holy mother” Beyoncé. Porém, pelo o que tenho acompanhado já nessa manhã de segunda-feira, ainda estamos sobre a vigência sobre a polêmica que a moça branca instaurou, então eu vou tentar com muita paciência, escrever mais uma vez sobre as coisas que ninguém quer ler, mas que a gente escreve mesmo assim.
O primeiro fato sobre essa história toda é atestar o quanto a credibilidade da branquitude é forte. Ainda não há nenhuma comprovação da veracidade da história contada pela moça. As machetes de jornais e veículos da mídia online chama de “polêmica após usar turbante”, mas a polêmica não se instaurou pelo uso do turbante. A polêmica se instaurou porque a garota contou uma história e essa história foi lida automaticamente como verdadeira. Na postagem a moça narra uma história que é difícil de engolir para qualquer pessoa que é militante do movimento negro ou convive com uma. E a primeira parte da cegueira da esquerda branca reside aí. A pouca ou quase nenhuma convivência com pessoas negras faz com que passe facilmente um cenário que qualquer negro acha no mínimo questionável.
A polêmica não se instaurou pelo uso do turbante. A polêmica se instaurou porque a garota contou uma história e essa história foi lida automaticamente como verdadeira.
Eu também vivo no sul do Brasil, no Rio Grande do Sul mais precisamente, e por aqui o racismo bate numa frequência constante. Preto no sul do Brasil é praticamente invisível. A peculiaridade do relato da moça é que não há como verificar o que ela diz. Descreve uma situação onde não há nomes de quem supostamente atacou, numa descrição do suposto fato que aparenta ser bem ficcional. Chamo atenção inclusive para o apontamento a respeito da beleza das supostas agressoras.
Na historieta contada por Thauane ela diz : “Comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás[…]”. O uso da linguagem aqui é bem alegórico, a menção a beleza parte daquele velho estratagema de se afastar previamente da pecha de racista, afinal, como a moça poderia ser racista se ela inclusive é capaz de ver a beleza das pessoas negras que a agrediram?
O relato de Thaune reascendeu a discussão sobre apropriação cultural e lugar de fala, ambas ignoradas frequentemente pela branquitude, mas que tomaram o centro desse debate porque foram trazidas a baila por uma pessoa branca. E reside aí o principal sobre esses termos. Essa discussão é sempre ignorada por pessoas brancas. Agora, além de ignorada ela tem sido deturpada.
A primeira questão sobre o debate referente a apropriação cultural, que me parece fundamental explicitar aqui, é que ele não passa sobre uma proibição coercitiva do uso de elementos culturais. Sempre achei que isso fosse uma obviedade, mas pelo que tenho lido, inclusive de pessoas eruditas da intelectualidade branca, não é. Portanto explico: a questão nunca foi sobre quem pode ou não usar turbantes, cocares, estampas africanas ou etc. A questão é: porque a estética dos povos não brancos pode ser tão facilmente utilizada pelos brancos e, quando é utilizada pelos povos que originaram essa estética (e sim, eu sei que não foram as mulheres negras que inventaram o turbante) ou colocaram algum significado de resistência sobre ela a mesma estética é ridicularizada ou fetichizada?
Porque uma mulher não negra que utiliza um turbante é vista com admiração e a mulher negra é vista com escárnio? Porque um turbante na cabeça de uma mulher preta é tido como uma “coisa” ridícula, caricata e na cabeça de uma mulher branca é uma peça “high fashion”? E, mais importante do que tudo isso, porque a branquitude se preocupa tanto com o seu direito de utilizar o que for, quando for, mas não tem a menor empatia com a ausência de direitos básicos das populações subalternas?
A internet comprou a história da moça sem nem pestanejar, a empatia automática se dá por dois fatores: primeiro, ela é branca. Segundo, ela tem leucemia.
As pessoas brancas já geram uma empatia automática, mulheres brancas ainda mais. A construção da ingenuidade e inocência da branquitude foi muito bem articulada no imaginário coletivo. De forma concomitante se construiu a imagem de ameaça, bestialidade e agressividade das pessoas negras. Essa condição é histórica e permanente, simples de observar quando se têm olhos de ver. A própria produção cinematográfica clássica atuou nessa construção: o branco herói, defensor de seus direitos tradicionais (propriedade, casamento, civilidade) contra os indígenas e negros bárbaros e violentos. Mulheres negras e indígenas sendo estupradas e vilipendiadas nas telas dos cinemas por fazerem parte desses povos bárbaros, enquanto mulheres brancas ostentavam nas telas beleza, doçura e a angústia pela vida dos heróis que defendiam sua honra e castidade. Essa construção, que esta incutida em todos nós, é responsável pela aceitação tão automática e não questionável de relatos como o de Thauane.
Por outro lado, quando uma mulher negra discorre sobre qualquer situação de violência ou constrangimento, ela está se vitimizando e é, na mesma hora, bombardeada com um sem fim de indagações sobre os “comos” e “porquês”.
Outro aspecto relevante que tenho observado nas redes a partir desse debate, é a insistência da branquitude em infantilizar e domesticar o negro. Lélia Gonzales aponta isso com primazia em seu artigo “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira”, e os discursos que surgiram com a tentativa de “colocar o negro no seu devido lugar”, a maioria tirando proveito desse episódio para negar o que se tem acumulado sobre as pautas das mulheres negras, demonstra o quão correta é análise da autora.
A branquitude, intelectualizada infantiliza os intelectuais negros, escreve sobre esses conceitos como se nós não tivéssemos conhecimento suficiente para articular por nós mesmos o que é relevante o que não é. Considerando os aspectos do processo de escravização, as construções sociais criadas pelos brancos sobre o negro, e o racismo enquanto fenômeno estruturante das relações sociais, há aqui um contínuo da percepção do negro como um ignorante que quase nada sabe sobre o que fala ou pensa, logo, é nas articulações da intelectualidade branca que se fundamenta o que é valido. A própria concepção do que seja conhecimento, a partir da ideia neutralidade se dá sobre uma centralidade branca. Logo, difícil fazer qualquer tipo de debate fundamentado com a branquitude, ela está demasiado acostumada com a ideia de falar e, jamais, de ouvir.
A branquitude está demasiado acostumada com a ideia de falar e, jamais, de ouvir.
Na outra ponta das interações da branquitude temos a atuação pelo escárnio dos setores da direita. E o episódio da garota paranaense caiu como uma luva para essas pessoas. Pouco tempo depois do episódio, soube que a moça foi contratada pela Alezzia, e aparentemente as mulheres brancas feministas que querem o “direito”(que aliás, nunca foi negado) de usar turbante esqueceram do recente episódio onde a marca de móveis não só veiculou uma peça publicitária que objetificava mulheres como, não satisfeita, ironizou as acusações de machismo com requintes de crueldade típicos dos trolls de internet. Nem mesmo o contrato firmado pela moça com esse tipo de empresa colocou os setores de esquerda que estão firmes na desarticulação das falas e opiniões das mulheres negras para refletir sobre o que de fato está inscrito nesse episódio. E ainda tem a capacidade de cobrar empatia e a famigerada “sororidade” feminina.
Por fim, quero convidar os meus leitores a uma reflexão breve, meus leitores não negros, especialmente aqueles que acham que local de fala, protagonismo das minorias que em verdade são maiorias são besteiras e que tudo se resolve com o critério eurocêntrico de classe. A proposta é simples: vocês conseguem, por um segundo, imaginar uma situação em que uma mulher negra pode falar sem ser questionada de maneira hostil? Vocês são capazes de compreender que a necessidade desses conceitos se dá porque durante toda a história da humanidade a produção de conhecimento e toda a formulação política existente se deu ignorando totalmente o que a população negra tem a dizer ? É possível compreender que a gente troca fácil o uso indiscriminado do turbante pelo direito a ter uma expectativa de vida que supere os atuais índices? Dá para empreender o mesmo esforço em desarticular as construções e contributos da negritude em fortalecer a luta contra o genocídio da população negra e pela equiparação dos índices sociais entre não negros e negros? Dá para entender que inclusive, quem inventou o negro no Brasil foram vocês?
No continente africano meus antepassados não eram negros. A resistência dos povos não negros, como judeus e irlandeses, é tão facilmente reconhecida e tão naturalmente heroicizada exatamente porque são não negros. Nós, por outros lado, somos vistos como bárbaros pouco agradecidos. O esforço imaginário, sei, é profundo para todos vocês, mas sem ele, não há debate possível.
Por Winnie Bueno, originalmente publicado no medium da autora
Imagem destacada: still do clip “Baby Got Back“, de Sir Mixalot, que originou a “Becky de cabelo bom” cantada por Beyoncé na canção Sorry




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