quarta-feira, 1 de março de 2017

Porto Alegre: e já fomos referência em avanços e cuidados...

... agora temos o prefeito dos retrocessos descuidados!




Apoie a manutenção do Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre”. Em nome do combate ao racismo, da diversidade e da democracia.



Manoel José Ávila da Silva:

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Igreja Nossa Senhora das Dores está no percurso dos Territórios Negros



Depois de superar muitos obstáculos, o Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre” passa hoje pela seu maior desafio, que é continuar atendendo estudantes, professores e comunidades de Porto Alegre, da região metropolitana, do interior do estado, de outros estados e até de outros países, mostrando que nossa cidade tem uma população afrodescendente e que essa população desenvolveu e desenvolve relações, práticas e vínculos sociais que definiram e configuram espaços públicos e privados de nossa cidade. Somos desafiados a continuar promovendo uma política pública de superação do racismo, da discriminação racial e das injustiças que ainda persistem em nossa sociedade, oriundas dos tempos da escravidão. Somos desafiados a continuar afirmando que Porto Alegre é uma cidade multirracial e pluriétnica. Somos desafiados a continuar tratando de temas como o racismo, desconstruindo as suas lógicas perversas no cotidiano escolar. Somos desafiados a perceber que as políticas de reparação e de ação afirmativas são imprescindíveis para que tenhamos uma sociedade brasileira mais justa. Somos desafiados a ver nossa cidade como um espaço que é compartilhado por diferentes culturas, em territórios específicos e justapostos, e que garantem mesmo a sobrevivência e a manutenção dessas culturas. Somos desafiados a contribuir para que tradições como o carnaval, a religiosidade, os espaços de convivência, entre tantas outras, e a memória viva dessas manifestações afro-brasileiras se mantenham vivas e ativas, reconhecidas e pulsantes. Somos desafiados a desenvolver uma atitude que estimule o reconhecimento das nossas, dos nossos outros e outras, que nos dê o sentido e a vitalidade da alteridade... Somos desafiados a construir políticas públicas dialogando com as comunidades. Enfim, somos desafiados a continuarmos sendo, tendo, praticando o princípio que vem no significado da expressão UBUNTU... eu sou quando todos somos!

A nova administração municipal, levando adiante a lógica do “Estado mínimo” e do desmanche dos órgãos públicos, da negação da diversidade e do não reconhecimento das diferenças, que se condensa na ação e na figura do prefeito Nelson Marchezan Júnior, e através da Companhia Carris Porto Alegrense especificamente, mas também por meio da Secretaria Municipal de Educação e das demais instituições governamentais municipais, quer extinguir o Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre”.


Estive na equipe que elaborou e colocou em prática o projeto, a partir de 2008, e participei intensamente e com muita emoção, do momento em que ele se tornou regular, em outubro de 2010, junto com colegas brilhantes, empenhados e dedicadíssimos. Comprometidos que éramos, e ainda somos, com o perfeito funcionamento dos serviços públicos de toda ordem.

Desde então já passaram por essa experiência de conhecimento/reconhecimento/identificação da e com a cidade e sua população negra mais de 50 mil estudantes, professores e cidadãos, mulheres, homens, jovens e crianças que recompuseram e reconfiguraram suas perspectivas em relação às suas próprias vidas. Negros, brancos, indígenas, locais e estrangeiros, que se fortaleceram nas suas falas e ações, na sua estima e no respeito ao olhar para um outro, uma outra, que se fazia vivo, viva bem diante de seus olhos...

Tudo isso ocorreu quando escolas infantis, do ensino fundamental, do ensino médio, universidade com alunos de graduação e pós-gradução, percorreram o trajeto dos territórios negros de nossa cidade no projeto que a atual administração municipal quer extinguir.

Porque não concordamos com o retrocesso, com a negação de nossa diversidade, porque desejamos a democracia, queremos que o Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre” seja mantido.


Manoel José Dos Porongos



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SAC DA CARRIS, E DA CHEFIA DE GABINETE DA
PRESIDÊNCIA DA CARRIS,




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Algumas imagens da formação de professores e professoras nos Territórios Negros de Porto Alegre: mulheres, homens, jovens e crianças que recompuseram e reconfiguraram suas perspectivas em relação às suas próprias vidas como um espaço que é compartilhado por diferentes culturas

















































Algumas imagens dos estudantes (adultos, jovens e crianças) sendo desafiados a ver nossa cidade como um espaço que é compartilhado por diferentes culturas
































sábado, 25 de fevereiro de 2017

porto alegre: não esculhamba nossa educação... siô prefeito do PSDB

depoimento de ex-aluno da rede pública municipal de porto alegre


não esculhamba nossa educação siô prefeito



"Depoimento de ex aluno da EMEF PROFESSOR ANISIO TEIXEIRA, Lucas L. Ramos.

Sou filho da educação pública municipal (ensino fundamental) e estadual (ensino médio). Estudei apenas dois anos em uma escola particular.


Portanto, toda a minha formação tem origem no ensino público. Não só a minha. Minha irmã mais velha também estudou na mesma escola municipal, localizada no bairro onde crescemos e até hoje residimos.

Tenho acompanhado a questão dos professores municipais.
A prefeitura, aos 45 minutos do segundo tempo (pouco antes do início das aulas), resolveu mudar o tempo dos períodos em sala de aula para o ensino fundamental.

Tal distribuição temporal, diga-se, é a mesma desde, pelo menos, o ano de 1996 quando ingressei na primeira série.

Mas o nosso atual prefeito, sob o subterfúgio de estar focado no "aluno", resolveu modificar isso e esculhambar tudo.

O prefeito diz mais: que os alunos da rede pública municipal saem da escola sem saber absolutamente nada.

Sr. Prefeito, com todo o respeito. Toda a minha formação é pública (excetuando, óbvio, o ensino superior).

Não seria razoável deduzir que hoje, ao desempenhar a minha função de advogado, pudesse fazê-lo se eu tivesse saído da minha BASE sem saber nada. Digo mais: é provável que nem formação superior eu tivesse.

Vou usar outro exemplo, caseiro: a minha irmã teve acesso ao mesmo sistema de educação. É fisioterapeuta.

Nós, assim como grandes amigos que fiz na escola, saímos da educação pública municipal e, cada um de acordo com as suas escolhas, traçou seus caminhos e está tentando subir na vida. Nós aprendemos. Nós tivemos acesso ao ensino que o Sr. diz ser insuficiente.

O que me diferenciou, Sr. Prefeito, não foi a educação recebida na escola. Foi a ESTRUTURA FAMILIAR que eu, minha irmã e alguns amigos, sempre tivemos.

Estrutura que a maioria dos nossos colegas, vindos de comunidades extremamente carentes, jamais tiveram. Isso não é culpa da educação municipal, Sr. Prefeito.

Vou além: nunca fomos ricos. Mas meu pai sempre teve condições de nos oferecer o MÍNIMO necessário. Ele sempre teve EMPREGO e RENDA, tendo autonomia e proporcionando dignidade para a nossa família.

Repito: não somos e nunca fomos ricos. Talvez, jamais seremos, aliás.

Mas eu jamais poderei me comparar aos meus colegas que não tinham absolutamente nada. Essa é a realidade da maioria dos alunos que frequentam a rede municipal de ensino.

Eles têm acesso ao mesmo ensino que eu tive, porém, em condições absolutamente diversas.

Então o problema não é a educação municipal. Não são os professores. Não é a estrutura das escolas.

O problema é que ninguém (políticos) pensa a respeito de uma plataforma que aprendi muito com o meu amigo Nelson Naibert: geração de emprego e renda. É a famosa tríade sempre presente em época de campanha: educação, saúde e segurança. E isso não é entregue para a população, pois, desde sempre temos problemas nestas áreas. Insistem sempre nessas teclas.

Deveriam pensar em formas de garantir o acesso ao emprego e renda. Isso afetaria de forma positiva as 3 áreas "chaves". O Nelson sempre falou sobre isso e, como bom ouvinte, compreendi e tirei as minhas conclusões. Me vejo como um exemplo claro disso.
É isso.

Não sou brilhante. Não sou excepcional. Não sou melhor que os demais. A única coisa que me diferenciou, foi isso: a minha família tinha essa autonomia e, infelizmente, a família de muitos que estudaram comigo beirava a miserabilidade. A única refeição, por exemplo, era dentro da própria escola.

A minha família, estruturada, me educou. Na escola MUNICIPAL, busquei o CONHECIMENTO.

Mas, reitero, o acesso ao ensino foi o mesmo. Os professores foram os mesmos e a estrutura era a mesma.

Jogar para a torcida é fácil, Sr. Prefeito.

Toca na ferida. Vai no ponto certo. Não esculhamba a nossa educação com medidas irrelevantes e prejudiciais."

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Porto Alegre: INCRÍVEL ISSO, MAS CONTAMOS COMO AULA ALUNOS NAS SUAS SALAS COM SEUS PROFESSORES!!

Sou de um tempo em que...



... os professores após as férias e o recesso escolar tinham reencontros, hoje temos conflitos de guerras e mentiras e sprays de pimenta no retorno dxs professorxs. o psdb de porto alegre vai repetir o richa do paraná? vai piorar? vai imitar o pmdb do governador Sartori do rs e do golpista? não vai pagar em dia?



"Texto da competentíssima colega Marileise Caldeira. Mitou!!!



Parte 2: Do café da Manhã e Almoço


Minha colega Soraya da Silveira Franke já esclareceu, mas é sempre bom repetir.


Mentira 1: De acordo com o Secretário os pro...f. ficam das 7H 30m até as 8h olhando os alunos mascarem pão e contam como aula.

A VERDADE: Os alunos tomam café a partir das 7h 15m. 7h 30m quando dá o sinal nos levamos a turma para sala e damos aula. INCRÍVEL ISSO, MAS CONTAMOS COMO AULA ALUNOS NAS SUAS SALAS COM SEUS PROFESSORES!!




Mentira 2: Tb de acordo com o secretário passamos mais de 1 hora no refeitório sem fazer nada enquanto os alunos almoçam.

A VERDADE: os alunos do 5º ano em diante almoçam depois das 12h. Eles tem aula das 7h 30m até às 12h em sala de aula com seus profs. Do 1º ao 4° ano nós os levamos ao refeitório para almoçar. E aqui uma pausa para a fala da Ranzolim que pergunta: Pra que precisa? Nas escolas privadas e do estado os prof. ñ acompanham!! Pelo amor de Deus quanta desinformação em uma única frase!

Ficou até feio!! desde quando escola privada DÁ almoço? (me corrijam se estiver errada, ñ quero pagar o mesmo mico). Escola estadual com almoço? Jesus, eles mal ganham um leite com bolacha e com muita sorte meia cumbuca de arroz ou massa. E os profs os levam sim até o refeitório para receber esse parco lanche.

Nas escolas municipais eles tem almoço: feijão, arroz, salada e carne. E usam garfo, faca e pratos de vidro (a Secretaria da Saúde proíbe utensílios de plástico) . Acham que não precisam ser acompanhados? Em casa os pais deixam seus filhos pequenos lidarem com esses objetos e comida quente sozinhos? E os alunos com necessidades especiais? Nas escolas tem alunos que são os profs que os alimentam. Além disso é pedagógico SIM porque falamos da importância de cada alimento, das vitaminas, ñ encher o prato, ñ desperdiçar alimento e como manejar os talheres. Outro motivo é que em nossos refeitórios cabem em torno de 6 turmas, bem espremidos, por isso o almoço dos porque é escalonado e não demora mais de 20 min. E à tarde o almoço ocorre da mesma forma q o café, antes do sinal de entrada.

As DUAS HORAS que o sr. Secretário diz que passam comendo não dura mais de 20 MINUTOS.




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

ERA DE AUTORITARISMO, SUPERFICIALIDADE E INCOMPETÊNCIA

sobre autoritarismo e competência para ser incompetente




"Vale muito a pena ler esse texto. Ele explica com riqueza de detalhes o que os educadores de Porto (ex) Alegre estão defendendo com tanta garra e determinação. Não vamos nos calar frente a tamanha arbitrariedade."



"Texto do ex-colega da rede e hoje professor universitário de instituição federal no Nordeste Mateus Gonçalves!"



"Não pensem que nos calaremos ou desistiremos facilmente, golpistas covardes!

É estarrecedor o que acontece no sul de nosso país. A capital que já foi farol do mundo em matéria de educação, hoje agoniza nas mãos de irresponsáveis que destroem o que levamos décadas para construir coletivamente, e com participação popular.

O sonho de uma escola cidadã, com sensibilidade e respeito à municipalidade, hoje acordou entristecida, e vive momentos que nem nos piores pesadelos se pôde imaginar.

Vejo, à distância e impotente, minhas/meus companheir@s de anos sendo menosprezad@s e enganad@s, atingid@s pelas costas por uma ação covarde de uma prefeitura que age arbitrariamente e antes do retorno de professoras/es a suas escolas.

Chamam de "folga" aquilo que foi conquista daquelas/es que vieram antes de nós, e que construíram com muito suor, espaços de discussão coletivos, e que possibilitaram por décadas, a concretização de escolas onde o diálogo e a participação popular eram o desejo e a realidade.

A cada dia em que nos encontrávamos com noss@s estudantes às 7h30min, muitos dos que hoje acusam educadoras/es de preguiços@s e corrupt@s (sim, pq quem recebe e não trabalha não tem outro nome!), estavam dormindo e começavam seu expediente somente às 9h (nem uma, nem duas vezes tínhamos que esperar até essa hora para conseguir falar com pessoas dentro de gabinetes, longe da realidade que nós profes tão bem conhecemos). Sempre trabalhamos a mais todos os dias em que estávamos nas escolas, o dia em que não comparecíamos era tão somente uma compensação, uma vez que não recebíamos horas-extras. Pergunte a qualquer servidor/a na escola municipal mais próxima.

Nossas reuniões pedagógicas sempre foram trincheiras de luta de ideias, debate de pensamentos, fruição de criatividade. Nas reuniões sempre pudemos discutir e construir um projeto de escola comum e coerente! Quem tem dúvida, procure quaisquer conselheir@s escolares, elas/es saberão explicar em detalhes a razão e a importância de cada reunião no interior das escolas municipais.

Não sejamos ingênu@s ao ponto de acreditarmos que não tínhamos problemas, nem tampouco superficiais em acreditar no que a mídia apresenta como "fatos" (sabemos que a verdade exposta nos grandes veículos de comunicação de massa, muitas vezes não passa de uma versão q prevalece).

Procure @s profes municipais, procure a equipe diretiva das escolas, fale com @s conselheir@s escolares, verdadeir@s guerreir@s q vêm sendo subestimad@s a cada gestão que têm ocupado lugares de poder na capital gaúcha.

Hoje estou deveras entristecido, mas não vou deixar com que tudo que construímos JUNT@S seja esquecido!! Estou aqui no sertão do nordeste, e cada estudante, futuro professor/a de teatro, saberá que numa cidade bem longe daqui, no sulzão de nosso país continental, fizemos de nossas utopias a realidade!

Essa realidade nos constituiu como educadoras/es, corre em nossas veias a força da escola cidadã! Quem viveu numa Porto, hoje não muito alegre, não esquecerá! Quem vive hj que continue acreditando em sua força! E quem, como eu, já fez parte desse maravilhoso coletivo de transformadoras/es de vidas, que não se cale e conte a todo mundo o que pode ser esse lugar de incríveis possibilidades chamado ESCOLA!

Força colegas!! Para sempre estaremos junt@s, crític@s e à frente da boa luta!!!

(*) Perdoem quaisquer erros ao longo desse texto, ele é daqueles que vêm do fundo da alma, cheio de caráter e talvez nem tão gramaticalmente correto quanto a correção que sempre pautou minha vida profissional, quando fui servidor na prefeitura de Porto Alegre."



* LEMBRO QUE QUEM ABRIU PORTAS E JANELAS PARA OS BONS DEBATES, PARTILHA DE IDEIAS E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS, ORGANIZOU FÓRUNS NACIONAIS E INTERNACIONAIS DE EDUCAÇÃO FORAM AS GESTÕES POPULARES, PT E PC DO B. DEPOIS DA SAÍDA DELES INICIOU-SE UMA ERA DE AUTORITARISMO, SUPERFICIALIDADE, INCOMPETÊNCIA."




Porto Alegre que já foi referência na educação, hoje tem um prefeito que...

Sou de um tempo em que...



... os professores após as férias e o recesso escolar tinham reencontros, hoje temos conflitos de guerras e mentiras e sprays de pimenta. o psdb de porto alegre vai repetir o richa do paraná? vai piorar?



"Texto da competentíssima colega Marileise Caldeira. Mitou!!!


Parte 1: Folga e Férias

Professor NÃO TEM FOLGA.


Funcionário de empresa privada que trabalha a mais que seu contrato junta os minutos e no fim do mês recebem em dinheiro = hora extra.

Professor tem por turno regime de 20 horas de trabalho semanal. Fazemos 4h e meia, meia a mais por dia que COMPENSAMOS em um dos dias da semana. Não recebemos em dinheiro. Neste dia o aluno é atendido por seus outros professores. Sim, alunos da rede municipal de POA tem mais de um professor. Cada aluno tem um conjunto de professores (Artes, Ed. Física, Volante, Língua estrangeira, Hora do Conto).

60 dias de férias?


NÃO. Professores tem 30 dias de férias. Não fazemos só horas a mais durante a semana, fazemos dias a mais, trabalhamos 20 sábados por ano que estão fora do nosso regime de trabalho. Esses dias a mais tb não ganhamos em dinheiro. Compensamos no mês de fevereiro.

Agora, quem convive diretamente com um professor sabe que não são essas horas a mais só. É noite, domingos e feriados trabalhando em casa sem contar como hora. Quantas vezes deixei de ir passear, viajar, no cinema, na casa de algum amigo porque tinha que: preparar aula, fazer provas, corrigir provas, somar notas, fazer cartaz, jogos... SEMPRE fiz por prazer e por saber que faria diferença na vida do meu aluno.


O que me deixa PDC, PDV, FURIOSA é ver que ainda assim nos chamam de vagabundos que não querem trabalhar e não pensam no seu aluno.


Você aí que sai do teu servicinho e vai tomar uma cerveja com teus amigos e depois vai pra casa se esborrachar no sofá .... passa uma semana em uma escola trabalhando como professor e depois vem me contar o que achou dessa vida de MOLEZA e VAGABUNDAGEM que levamos!!!!!!!!"

Marileise Caldeira

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

No Brasil, o ponto de corte é o ensino fundamental


A escola exclui e o crime acolhe



Extra Classe




Efeito da educação na criminalidade


Um ano a mais de escolarização no ensino médio resulta em menos 10 pontos percentuais nas chances de um branco ser preso nos EUA e em 37 pontos percentuais as chances de um negro ser preso.

O mais impressionante é que, quando separamos os dados por tipo de crimes praticados, descobrimos que o maior impacto da educação está associado à redução das taxas de homicídio, agressões e roubo de veículos.




Por César Fraga




Foto: Igor Sperotto





Em seu novo livro A formação de jovens violentos – Estudo sobre a etiologia da violência extrema (Appris Editora, 285 páginas), o sociólogo Marcos Rolim busca respostas para a origem da violência praticada por jovens que estão apartados da sociedade por conta dos crimes extremos que cometeram. A pesquisa contou com entrevistas em profundidade com jovens detentos e em medidas socioeducativas e aponta para questões preocupantes. A principal delas é que o estado virou o grande organizador do crime sem se dar conta do papel que exerce. O principal motivo passa pela evasão escolar precoce, que deixa esses jovens vulneráveis ao assédio do tráfico em suas comunidades, onde são treinados e socializados. Depois, esses jovens vão parar na Fase, para cumprir medidas socioeducativas, ou nos presídios, que acabam sendo a graduação e pós-graduação no crime, pois é lá que se organizam as facções criminosas que mandam nas ruas. A chave do problema estaria na educação, mas a realidade que se apresenta é de uma rede pública incapaz de manter esse jovem na escola por mais tempo do que os anos iniciais. Rolim é jornalista, sociólogo, professor no Centro Universitário Metodista e consultor em segurança pública e direitos humanos.


Extra Classe – Você está lançando um livro sobre a origem do jovem que pratica atos de violência extrema. Como chegou ao livro e ao tema?

Marcos Rolim – O tema da violência é um tema que me acompanha há décadas. Trata-se de um assunto que eu estudo, leio, acompanho, trabalho. Principalmente na prevenção à violência, tema a que me dedico há bastante tempo. Mas, nessa trajetória de estudar o assunto e de pesquisar sobre esses temas me deparei com um problema específico que me chamou muito a atenção dentre tantos outros. Trata-se de um problema básico, um tipo especial de violência, que é a violência extrema, aquela praticada numa circunstância sem qualquer motivação direta, como, por exemplo, sem a provocação por parte da vítima. O sujeito vai praticar um assalto, a vítima não reage e este sujeito executa a vítima ainda assim. Ou seja, existem outras situações de violência que se consegue entender o que aconteceu, mas nesses casos parece gratuito, porém, aparentemente existe uma predisposição. Esse tema não é objeto de estudo na criminologia. Não se estuda esse recorte. Muitas vezes é tratado como algo ligado a uma maldade preexistente e acaba caindo numa simplificação e, no maniqueísmo, até por uma dificuldade de compreensão. E eu queria compreender isso. Então, o mote da pesquisa é esse, entender a violência extrema, que é um recorte pouco ou não estudado.


EC – O objeto desse estudo são menores de idade ou jovens de uma maneira geral?

Rolim – A princípio, o recorte são jovens, tanto cumprindo medida socioeducativa, como do sistema prisional adulto.

EC – São universos que não trocam muita informação nem cruzam dados, inclusive.

Rolim – Sim, esses arquivos não dialogam e esse é um dos grandes problemas quando se pretende traçar políticas de segurança e prevenção.


EC – Mas, voltando para a sua pesquisa…

Rolim – Uns vinte anos atrás fiquei muito impressionado com uma linha de pesquisa de um jornalista que apresentava o trabalho de um criminólogo norte-americano chamado Lonnie Athens. Esse cara estudou presos no corredor da morte, condenados e aguardando a execução de suas sentenças. Ele, portanto, entrevista dezenas de prisioneiros sobre suas histórias de vida. Foram entrevistas longas e em profundidade. O mesmo método que eu usei na minha com os jovens da Fase, todos eles envolvidos com atos de extrema violência. Ao fazer essas entrevistas ele identifica no grupo de condenados à morte um certo padrão de brutalização da infância. Foram criminosos que, quando crianças e adolescentes, passaram por uma sucessão de cenas de violência, de violentização, que é o nome da teoria dele.


EC – E o que é essa violentização?

Rolim – Só para deixar bem claro, isso é de onde eu parti. Minha pesquisa vai confirmar em parte isso, mas vai apresentar coisas diferentes. Para Lonnie Athens, essas pessoas que são especialmente capazes de praticar cenas de violência extrema, absurdas, são resultado de uma experiência social que começa na infância, em geral na figura do pai, padrasto, que espanca, que humilha e que depois vai ensinando esse jovem a ser ele próprio violento. Coisas como: tem de bater primeiro antes que te batam. Quando o garoto briga com alguém e ele bate é elogiado. Ele vai percebendo que na medida em que ele for violento, mais respeito ele adquire e mais valorização ele terá naquele núcleo.



Foto: Igor Sperotto



EC – Com a ausência da figura masculina paterna, ela é substituída por outra figura na comunidade?

Rolim – Esse é o tema que a pesquisa vai mostrar depois. O que o cruzamento estatístico permite afirmar é o seguinte: há uma dinâmica perversa em curso nas cidades brasileiras, que envolve evasão escolar muito precoce. Esses guris saem muito jovens da escola. Pobres todos. Fracassam na escola, que não consegue atraí-los e permanecer com eles. Ou seja, não cria vínculos. E, ao ficarem em sua comunidade sem trabalho e sem escola, semialfabetizados, eles se aproximam dos grupos armados que recrutam esses jovens, primeiro para serviços básicos do tráfico, em que são socializados nos valores da violência, quando alguém lhes dá uma arma.


EC – O papel socializador da escola acaba sendo substituído pelo crime?

Rolim – Sim. Esse papel de socialização é feito por outra escola, uma escola do crime. Ali, onde a escola está excluindo, o crime acolhe. Essa é a dinâmica. Essa relação chamada treinamento violento responde por mais de 54% da disposição violenta dos jovens. Mais da metade do problema está aí. Existem outros fatores associados, mas o central é esse. Se a pesquisa estiver correta, óbvio que ela precisa ser testada com um número maior de jovens em outras cidades brasileiras. Mas a relação estatística é muito forte e significativa. Tenho a impressão de que encontramos uma coisa que é muito expressiva como fenômeno social. Se confirmou algo que até agora não se deu a devida importância. Se a pesquisa estiver correta, é impossível falar sobre a redução da violência no Brasil sem abordar o tema da evasão escolar. Esse passa a ser um tema central. A pesquisa indica claramente isso. Não é nem uma opinião minha e nem é o que eu achava. Eu imaginava, inspirado no Athens, que o problema central estava na violência contra a criança. Minha hipótese era a de que o cara que está matando na rua é o cara que apanhou em casa. E essa tese não foi confirmada. Então, a pesquisa confirma uma parte da teoria do Athens, que é a parte do treinamento violento. É um dos estágios dessa violentização, mas não confirma o primeiro, que é o da violência contra a criança como sendo um fator importante para esse fenômeno.


EC – Mas existem, paralelo a isso, políticas equivocadas de segurança pública, principalmente a de repressão às drogas?

Rolim – Evidente, porque esses grupos armados se organizam no mercado ilícito de drogas, e só se organizam e só há grupos armados porque as drogas são ilegais. Se elas fossem vendidas em farmácias, não haveria tráfico. Isso é subproduto de uma política proibicionista. Aliás, o tráfico é filho do proibicionismo. É o proibicionismo quem cria o tráfico!


EC – Há um capítulo do seu livro que diz que a polícia é sócia do tráfico.

Rolim – A primeira parte da minha pesquisa foi qualitativa, em que comparei dois grupos de jovens: 17 jovens internos da Fase, cumprindo medida de privação da liberdade por atos infracionais especialmente graves e com 11 amigos desses jovens que consegui encontrar, que não se envolveram com o crime. Um grupo de jovens matadores, capazes de praticar atos de extrema violência e outro composto por jovens trabalhadores que estão estudando. Essa é a primeira parte da pesquisa. Depois tem a parte quantitativa, mas daí é outra conversa. Realizando entrevistas em profundidade com esses dois grupos de jovens, se percebe que as histórias que eles vão contando dão conta de muitas associações. Uma delas é a associação deles com a polícia ou com as polícias. O que todos os jovens da Fase relatam é que todos eles tiveram envolvimento com a polícia militar e com a polícia civil antes de irem parar na Fase e todos eles têm histórias de corrupção para contar. Lá na ponta do sistema, eles pagavam policiais para não serem presos, o chamado pedágio. Isso, tanto com a polícia militar quanto com a polícia civil. Há um relato de um jovem que é especialmente grave.




Foto: Igor Sperotto / Arquivo Extra Classe



EC – Explique melhor o pedágio pago aos policiais.

Rolim – A polícia aborda o traficante e vai na boca semanalmente receber seu dinheiro. Óbvio que isso não envolve todos os policiais, mas o número dos que fazem já não é um número pequeno. Aquela visão de que é um desvio de conduta, uma maçã podre. O que a pesquisa sugere é que o cesto está podre. Então temos algo grave aí. Uma das histórias dá conta do seguinte: o rapaz estava numa esquina vendendo drogas na vila; chegam os policiais que ele não conhecia. Ele é pego em flagrante com arma e várias pedras de crack. Os caras prendem, algemam e colocam ele dentro da viatura com quatro policiais. Ele começa a ser conduzido até a delegacia mais próxima. No meio da viagem toca o telefone. É o patrão da boca ligando de charqueadas, na Pasc, onde cumpre pena. “Vocês prenderam meu guri, não é para isso que a gente paga vocês”, diz o traficante. O policial na viatura responde que não sabia, desliga o telefone e retorna para o local onde havia prendido o rapaz e o devolve com as drogas e a arma. Só faltou pedirem desculpas pela prisão. Uma cena dessas é sinal de que alguma coisa de grave está acontecendo. Isso me deixa muito preocupado. A Polícia Militar, muito especialmente, no passado, sempre teve problemas de violência, abuso de autoridade aqui e ali, mas a corrupção não era uma coisa disseminada. Quando tinha um caso de corrupção, rapidamente a estrutura da Brigada expelia esse cara. Existia uma hierarquia muito presente e com um controle muito maior. Os mecanismos de disciplina, hierarquia e controle foram afrouxados com o tempo e se perdeu o controle da ponta. Os oficiais não sabem o que está acontecendo na ponta, porque eles não têm mais o acompanhamento diário. Então, muitos desses soldados estão soltos. Tem bons profissionais, que estão se esforçando, mas existe um grupo, e a discussão é qual o tamanho desse grupo, que é sócio do negócio. São sócios do tráfico.


EC – E será que não existe uma profundidade dessa sociedade na hierarquia mais alta também?

Rolim – Não tem como saber. Isso é difícil de especular, porque a pesquisa é feita na ponta, com quem atua na ponta do tráfico que fala dos policiais, que também atuam na ponta. Mas é possível que sim. Um dos grandes problemas do tráfico de drogas, que em geral não é tematizado na mídia, é o potencial corrosivo que tem nas instituições. No Brasil, a gente já tem bancadas de deputados inteiras eleitas pelo tráfico. O Rio de Janeiro já comprovou isso na CPI das Milícias. A Assembleia Legislativa do Rio já teve deputados bancados e eleitos pelo tráfico. Existem juízes na folha de pagamento do tráfico. Há magistrados agenciados e pagos regiamente pelo tráfico. Evidente que tem muitos policiais e muita gente de governo trabalhando para o tráfico. Então, quando se movimenta um volume muito grande de recursos e isso se faz à margem da lei, por ser uma economia clandestina, isso tem um potencial corrosivo do estado. É um drama que o Brasil está vivendo. Hoje o tema da segurança pública está muito em torno do tráfico.


EC – É um capital que já é caixa 2 na sua origem e se presta a financiar também a política.

Rolim – Sim. Enorme. E o Brasil está vivendo esse drama por conta de uma política antidrogas equivocada.


EC – Até que ponto foi possível aprofundar o estudo para aferir a influência da escola na prevenção da violência e de apontar algum caminho para enfrentamento dessa realidade?

Rolim – A primeira coisa é o seguinte: existe a possibilidade, e os gestores públicos deveriam assumir isso como prioridade, de se desenvolver projetos para disputar cada um dos jovens na escola com o tráfico. Ou seja, nenhuma criança ou jovem fora da escola, especialmente no caso dos homens. Pois isso tem uma repercussão direta na segurança pública. As meninas acabam saindo da escola por outros motivos, especialmente quando engravidam precocemente. No caso dos meninos, o tema central é esta possibilidade de, ao saírem da escola, se vincularem ao crime organizado.


EC – Tem uma coisa de status também desse jovem envolvido com o tráfico na comunidade.

Rolim – Esse jovem que não é nada, que é pobre e está marginalizado. Não tem autoria e não é reconhecido em lugar nenhum, que não existe, é um fantasma social, no momento em que ele entra para o tráfico de drogas ele passa a ser alguém. Passa a ter um valor. Ele passa a ser reconhecido pelos seus pares. Ele passa a impor respeito aos demais porque ele tem uma arma na cintura. Ele tem o dinheiro que o pai dele nunca teve. Ele passa a ser cortejado pelas meninas, que passam também a disputar essa figura, porque também representa status para elas. Ou seja, esse guri vira alguém. Ele se enche de poder. O tema da disputa desses jovens com o tráfico é um tema central. São raríssimos os municípios no Brasil que possuem programas para disputar esses jovens com o tráfico. Canoas tem um exemplo muito interessante. O município desenvolveu uma política de segurança e um dos projetos que acho mais interessantes que eles têm lá se chama Todo Jovem Conta. Eles conseguem, via guarda municipal, fazer uma abordagem dos guardas com as escolas, com as direções. Identificam jovens em situação de risco ou que tenham mais dificuldade de trato. As famílias desses jovens passam a ser acompanhadas pelo pessoal da prefeitura na área da saúde, assistência social, e uma série de mecanismos que vão permitindo chegar no problema que o jovem vai enfrentando. Aí se consegue abarcar a situação desse menino como uma situação para ser resolvida, sem que ele sequer saiba que está sendo selecionado.


EC – Mas com a mudança de gestão esse projeto pode ser descontinuado.

Rolim – Não se sabe se esse projeto terá continuidade com a próxima administração, mas Canoas conseguiu, com essa abordagem, abrir um caminho que é muito frutífero, e que é um desafio para a escola, que é não perder esse jovem. Às vezes eles saem da escola por motivos completamente banais.


EC – Antes você falava do comparativo entre os dois grupos de jovens da mesma origem…

Rolim – Ao final das entrevistas em profundidade com esses grupos de 17 jovens privados de liberdade na Fase, vários deles respondiam por mais de um homicídio, um deles, que respondia por dois homicídios, durante a entrevista assumiu pelo menos sete. O detalhe é que as conversas foram todas gravadas. Claro que na transcrição a gente toma o cuidado de não usar os nomes para que essa pessoa não seja identificada. Mas as histórias estão ali e elas são impressionantes. Dão conta de uma guerra em que eles estão matando e morrendo.


EC – Uma guerra circunstancial?

Rolim – Um dos principais contrastes entre os grupos de jovens estudados com esse perfil mais agravado e o grupo de amigos de infância que eles me indicaram, que não se envolveram com o crime, foi de que todos esses 17 meninos saíram da escola precocemente, aos 11 ou 12 anos, em média. E todos os 11 que eu consegui encontrar, que não partiram para o crime, continuavam estudando com 19 ou 20 anos. Também pobres, se atrasaram nos estudos e não concluíram o ensino médio. Outros já haviam concluído, mas seguiam batalhando para tentar entrar em alguma universidade. Mas todos eles estavam vinculados a alguma perspectiva educacional e se mantiveram longe do crime. Enquanto os demais perderam essa perspectiva muito cedo.


EC – Na pesquisa encontrou algum jovem pressionado a abandonar os estudos para ingressar no tráfico?

Rolim – Não, nada nesse sentido. É possível que aconteça, mas não houve nenhum caso no grupo que entrevistei. A dinâmica que eu encontrei foi uma dinâmica quase que sistêmica, pois acontece naturalmente. Isso é impressionante também, porque muitas vezes se comenta aqui fora, mesmo sem dados ou estudos sobre isso, que o problema do jovem que entra para o crime é a família desestruturada, porque não tem pai nem mãe, o que não é bem verdade. Grande parte desses meninos tem pai e mãe. Alguns não têm pai, mas sabem quem é o pai. Muitos deles tiveram relações em casa bem sólidas no que se refere a cuidados e honestidade. Alguns dizem o seguinte, quando começaram a entrar no tráfico: “pô, comecei a ganhar dinheiro e quero ajudar minha mãe em casa, mas não tenho como explicar o dinheiro”. Sabem que o pai e a mãe nunca aceitariam isso. Então, montavam uma estratégia, de combinar com uma irmã que trabalhava para assumir o dinheiro. Então, o tema não está só na família. A família é só uma parte. Mas há um momento da adolescência em que a relação deles com os seus pares é determinante. Eles enfrentam uma dupla negação: não são mais crianças e também não são adultos. Ou seja, ele não é duas vezes. Mas então o que ele é? Ele está à procura da sua identidade e precisa muito dos seus pares, do grupo. E os adolescentes se organizam em tribos, sempre horizontalmente. A família pode ser muito legal. O jovem pode ser muito bem-educado. Mas lá pelos 11 ou 12 anos, se ele entrar num grupo que não seja legal, esse grupo vai puxar esse adolescente. Então, o tema dos amigos, o tema da relação de proximidade, do pertencimento, é fundamental, porque é ali que ele identifica o seu grupo e sua própria identidade. Ele vai ser diferente do pai e da mãe porque ele quer ser alguém. É justamente por isso que a escola é decisiva para os adolescentes. Em última instância, a escola é o principal vínculo que ele tem. Ele rompeu simbolicamente o vínculo com o pai e com mãe e ainda não construiu os vínculos do mundo adulto. Ele não tem emprego, ele não tem filho, ele não casou. Ele está muito solto. Essa é a razão pela qual o adolescente transgride a norma com maior facilidade. Ele está solto no mundo. Já o adulto tem uma série de vínculos que o detêm.


EC – Com essa descoberta que se começa a fazer e diante do atual cenário político, dos rumos do país e das políticas educacionais que estão aí, qual o teu nível de otimismo?

Rolim – Uma das coisas que são muito dolorosas nesse tipo de trabalho é que quanto mais a gente vai conhecendo essas dinâmicas sociais, essas realidades que são pouco conhecidas no Brasil, por conta de que existe pouca pesquisa nessa área, a gente vai se dando conta do abismo que separa esse conhecimento da gestão pública. Os gestores públicos, especialmente na área da segurança, em geral eles não conhecem o tema. Eles respondem sempre reativamente aos fatos. São síndicos de um incêndio permanente, sempre atrás da última chama para apagar, produzindo factoides para a mídia para dar respostas ao clamor da população, no intuito de dizer que algo está sendo feito. Vivem o drama de enxugar gelo com as polícias, que não sabem a rigor o que fazer. O gestor público, como todos os governos, é parte desse mesmo non sense. Eles estão batendo cabeça. Eu acho isso apavorante.


EC – Há perspectiva?

Rolim – Você olha para frente e vislumbra quantos anos de gestão pública no Brasil teremos no futuro sem uma política efetiva de segurança pública e sem política educacional. Aí temos uma reforma de ensino médio por decreto, por pacotes, sem discussão prévia com ninguém. São temas que deixam a gente muito desanimado. Fico muito desesperançoso. Não se consegue enxergar ali adiante a possibilidade de uma virada nesse jogo. O Brasil precisa de uma ampla reforma política, mas também de uma ampla reforma cultural. A gente precisa valorizar cada vez mais as evidências. Precisa trabalhar com diagnósticos para medir o que está acontecendo, trabalhar como os países da modernidade trabalham, respeitando a ciência. Chegamos ao cúmulo, no Brasil, de apresentar Proposta de Emenda à Constituição da redução da maioridade penal sem nenhum argumento favorável da redução, mas com duas citações bíblicas a favor. Então, quando um país chega a esse ponto… O Congresso devia ter recusado a emenda por ser inepta. Não é possível que se apresente uma proposta de mudança à Constituição que não tenha um fundamento. E isso vira uma coisa tradicional e comum. A segurança pública é um caos. A gente está vivendo uma situação de muita violência, de muita criminalidade e, a rigor, o estado brasileiro não sabe o que fazer.


EC – Mas o estado sabe entender as razões da violência, consegue entender o que está acontecendo ou nem isso?

Rolim – É difícil responder. Não sei em que medida há um entendimento. Há pessoas que ocupam funções públicas importantes e que percebem a gravidade do problema, mas elas se sentem incapazes de alterar o quadro institucional, de fazer as reformas necessárias para resolver os problemas. Hoje, no Brasil, precisaríamos de um a política de segurança pública que tivesse a coragem de dizer o seguinte: o que estamos fazendo? Estamos prendendo aleatoriamente milhares e milhares de jovens traficantes. É um erro gravíssimo. O gestor tem de dizer isso para a população: que está errado. Mas está errado por quê? Se eu prendo jovens na periferia envolvidos com drogas, traficantes, usuários ou ambos, muitos são presos como se fossem traficantes, mas são usuários. Esse tipo de prisão não produz nenhum efeito no combate ao tráfico, porque essa mão de obra é rapidamente reposta. Mas o efeito disso é desagregador na segurança pública. Por que eu superloto os presídios e, ao superlotar os presídios com esses jovens, o estado organiza esse pessoal em facções criminosas. Então, o guri que estava na ponta, no seu embolamento, vendendo drogas, agora está dentro do Presídio Central e vai passar alguns anos ali e faz parte de uma facção prisional. Quando ele sair do presídio, ele não vai ser mais só um traficante. Ele, nas ruas, vai ter de assaltar para mandar dinheiro para a facção. Quem faz isso é o estado. O estado virou o grande organizador do crime sem se dar conta do que está fazendo. Como se discute isso com a sociedade, com as polícias e com o Congresso?


EC – As penitenciárias se transformaram nas universidades do crime organizado?

Rolim – É universidade e pós-graduação. E é pós-graduação mesmo, não é figura de linguagem. O sujeito que se iniciou no crime vai ter ali sua especialização e, portanto, condições de ser muito mais danoso para a sociedade do que era antes de entrar na prisão.


EC – Vivemos uma realidade que já vem de muitos anos de sucateamento progressivo do ensino estadual público, que é justamente quem disputa esses jovens ou deveria disputar nas periferias.

Rolim – E a tendência é que isso piore, porque a crise da educação não tem data para acabar, tanto quanto a gente consegue olhar para frente a gente só vê o quadro piorando.

EC – Dá para dizer que se piorar a educação aumenta a criminalidade?

Rolim – Sem dúvida. Tem pesquisas nos Estados Unidos que mostram que o corte das prisões americanas é o final do ensino médio. O sujeito concluiu o ensino médio, não vai mais preso ou dificilmente vai preso. Significa que o cara tem uma formação média, maior condição de empregabilidade, maior mercado de trabalho. Uma parte vai entrar no ensino superior, mas conseguiu passar um grau da criminalidade. Concluindo o segundo grau, dificilmente ele será alcançado pela dinâmica prisional. No Brasil, o ponto de corte é o ensino fundamental. O cara concluiu o ensino fundamental. Então, a relação de educação e prisão no Brasil é muito mais pronunciada do que nos EUA. Se a gente conseguisse aumentar os anos de escolarização média e combater a evasão, a gente diminuiria muito essa demanda de encarceramento. Isso fica muito claro, porque temos um número enorme de jovens, muito jovens, que são semialfabetizados. Esse cara vai fazer o que na sociedade que nós temos hoje? Vai arrumar emprego onde se os caras que têm pós-graduação batem de porta em porta e não conseguem? Então, é uma realidade muito difícil para quem não tem nenhuma formação. O cara está na periferia, não tem nada e o tráfico está do lado dele. Evidente que ele vai ser recrutado.



ONDE ENCONTRAR O LIVRO: O livro em formato impresso ou e-book pode ser adquirido sob demanda na Appris Editora: editoraappris.com.br ou pelo fone (41) 3156.4731.

domingo, 4 de dezembro de 2016

os melhores na saúde e na educação



Realmente devia ser um inferno viver em Cuba sob Fidel




Milton Ribeiro


Publicado em 3 de dezembro de 2016




Imagens de ontem em Cuba. Como disse um comentarista abaixo, “Cuba é uma ilhota se comparada com seu todo poderoso vizinho. Mesmo assim possui índices melhores na saúde e na educação. Então, se quiserem criticar Cuba e Fidel, primeiro façam melhor”.































quando o lugar não é o lugar nem é do lugar


Temer teve o que mereceu em Chapecó: o desprezo silencioso. 






Postado em 03 Dec 2016


por : Paulo Nogueira




O que é pior: ser vaiado ou desprezado? Ser apupado ou ignorado?

Não são questões fáceis estas que devem estar ocorrendo agora a Michel Temer.

Para resumir, pode-se dizer que ele teve o que merecia nesta sábado em Chapecó.

Depois de uma série de idas e vindas, em que o pânico das vaias falou alto para sua alma medrosa como de hábito, ele decidiu ir ao estádio do Chapecó para as homenagens às vítimas da tragédia.

Seu nome foi anunciado. Nenhuma manifestação. Nem vaia, nem aplauso. Foi como se tivessem dado a hora.

O nome do embaixador da Colômbia foi anunciado: palmas. Palmas de pé.

O contraste foi humilhante para Temer. Foi um silêncio gritante.

Se tinham vontade de vaiar Temer, os presentes ao estádio deram uma lição de civilidade e humanidade. Não era, definitivamente, hora de misturar política e tributo. Cada coisa tem sua hora e seu lugar.

Vaiar Temer seria desrespeitar muito mais as vítimas da tragédia do que o próprio Temer.

O silêncio foi um gesto de grandeza da multidão. Ao mesmo tempo, foi mais uma prova de que Temer é menor que os brasileiros.

Muito menor.




quarta-feira, 30 de novembro de 2016

estamos voando pela janela, deitados na cama

O Bacanal braZil!




"Dizem que a sociedade brasileira está cega pois enquanto se pensa "apenas" no Chapecoense os políticos estão "metendo" aquilo na gente por conta da votação da PEC. O que eu digo é o seguinte: já estão fazendo isso há muito tempo. E não precisou cair um avião para tal. Derrubaram uma presidente. Do mesmo modo que sinto pela tragédia sinto por nossa política. Eu não consigo pensar 100% apenas em política. E tenho direito de pensar e sentir ao meu modo e meu gosto. Sinto muito mas não fui eu que provoquei o BACANAL que ocorre agora no Brasil."
Maurício dos Reis Santos





Queimando na Água, Afogando-se na Chama, Bukowski




e um sofá voou pela janela
uma parede chacoalhou feito areia molhada
o cara na cama
não se importou ou deu bola pra isso






amor


amor, ele disse, gás
me beije todo
beije meus lábios
beije meus cabelos
meus dedos
meus olhos meu cérebro
faça-me esquecer

amor, ele disse, gás
ele tinha um quarto no terceiro andar,
rejeitado por uma dúzia de mulheres
35 editores
e por meia dúzia de agências de serviços,
agora eu não estou dizendo que ele valesse alguma
coisa

ele abriu todas as bocas
sem acendê-las
e foi para cama

algumas horas depois um cara a caminho
do quarto 309
acendeu um charuto no
corredor

e um sofá voou pela janela
uma parede chacoalhou feito areia molhada
uma chama púrpura bailou doze metros no ar

o cara na cama
não se importou ou deu bola pra isso
mas eu precisava dizer
que ele esteve muito bem
naquele dia






"Votação da PEC nesse momento no Senado...
as cenas mais horríveis acontecendo em Brasilia, na esplanada. ...Assustador...
Estamos tentando localizar algumas pessoas. Não há confirmação de mortos. Mas muitos feridos em hospitais, alguns estado grave. Foi uma linda manifestação, porém os golpistas transformaram numa guerra.
E tem gente que vai morrer assistindo novelas... Sem Aposentadoria, Sem Educação e Sem Saúde! Quem ta velho não vai perceber ta no fim da vida, mas os jovens vão viver pra ver essa nova fase do Brasil em uma viajem no passado voltando aos anos 90!!!!!."
Patrícia Valença


"PEC da morte aprovada, que Deus tenha misericórdia do Brasil.
Jovens em defesa da educação e saúde foram violentamente agredidos.
Canalhas bebem e comem nosso dinheiro em jantares caros, enquanto tiram tudo de nós.
E um bando de fascistas, igualmente canalhas baterem panelas pra isso, ver pobre sem direito a nada."
Evinha Alves


"Jornalistas Livres
PM ataca estudantes que foram lutar por EDUCAÇÃO em Brasília!

Em um ato pacífico que tinha por objetivo lutar por uma melhor educação no país, foi duramente reprimido pela PM, que de forma arbitrária jogou inúmeras bombas de gás lacrimogênio, bala de borracha e o uso de cavalaria para cima dos estudantes. Uma verdadeira covardia gratuita e anti-democrática! #OcupaBrasília"
José Dunga













































"#HastaSiempreFidel ‏@marcostalhari
Infiltrados do @MBLivre em manifestação contra a PEC 241/55 incitam violência policial na esplanada. #VoltaDilma"

Sergio Pinto Ribeiro Filho

























Entendeu?






























"Aqueles manifestantes, ao fundo, sendo reprimidos e apanhando da polícia, estão pagando o coquetel que os parlamentares estão degustando, enquanto celebram a aprovação da PEC 241/55.
Parabéns, Brazil Paneleiro!"
Samantha Costa







O resumo...

Sabe aquele salário mínimo que nos governos do PT tinha aumento todo ano? Foi congelado por vinte anos! Ainda não entendeu? Não se preocupe você terá 20 anos para entender! Você terá até 2036 para viver ou morrer para os ricos!

Foi bom odiar o PT?

Então, você estão amando o que já foi votado e estar por ser votado! Ainda não acabou...

Não vamos vê-lo chorar e você não se verá chorando, durante os próximos 20 anos estará gritando que tudo é culpa do PT. 

E repetirá aos netos que traballho é tudo que existe antes dos 70 anos... por culpa do PT.

Quanto a mim?

Posso dizer aos filhos e neta que é bom amar o PT e o seu sonho de mundo diferente e possível.

Eu sei, apesar das suas falhas humanas... ou erros humanos.

Mas jamais poderia estar ao lado de gente desumana egoísta e ignorante por desejo de ter tudo e ser nada.

Não posso ser conivente com a violência contra as mulheres.

Não posso fechar os olhos para a vontade explícita de transformar em braços escravos de ricos... nossos jovens e nossas jovens.

Não posso ficar calado com o gueto da violência para os jovens pretos e pobres.

Estávamos prestes a acordar, mas fomos jogados de volta na caverna.

Você continua com medo de descobrir que o mundo pode ser diferente. É uma pena que você está nos arrastando para sua caverna. 

Fique com a sua caverna. 

Deixe-nos com o sol, as estrelas, o vento, a generosidade, a amorosidade, deixe-nos com a vida.

Não queremos a violência!

Você é que procura pela violência para justificar seu ódio pela não vida. 

Você já se olhou dormindo?

Então, tente se olhar odiando, escute as asneiras que repete aos ouvidos desatentos. Tente sentir vergonha das mentiras que diz.

E lembre-se, ninguém se vê chorando depois que morre.








Fotos: Vinicius Borba / Jornalistas Livres / Gisele Arthur e outras sem crédito


domingo, 27 de novembro de 2016

Em janeiro veio o primeiro assédio

A violência dentro da corporação: mulheres policiais relatam assédio moral e sexual




SUL21



Daiane Vivatti





Casos de violência sofrida por mulheres dentro da polícia foram relatados em seminário promovido pela Ugeirm. Foto: Ramiro Furquim/Sul21

































Em janeiro veio o primeiro assédio. “Quando eu estava com a viatura, deixava um dos meus colegas em casa, depois largava o material para o delegado despachar e me despedia. Em uma das vezes que eu fui dar tchau, ele me segurou pelos dois braços e me beijou o braço até o pescoço dos dois lados. Fiquei com os braços esticados, sem reação. Eu pensei ou ele é louco ou é tarado, será que ele faz isso com a minha colega também?” Laura* é escrivã, trabalha em uma delegacia no interior do Estado e sofreu assédio sexual de um delegado no primeiro mês de trabalho. Depois da primeira vez, ainda vieram outras duas, dentro do próprio local de trabalho.

“Na segunda vez, ele me chamou para ir à delegacia em um sábado de manhã. Eu estranhei, mas minha colega tinha alertado que ele chamaria pra ficar contando ‘causos’. Eu não queria ir, mas diz que tem uma lei que quando o delegado chama, tem que ir. Quando disse que precisava ir embora fui dar tchau e quando olhei pra frente ele tava fazendo “biquinho” pra eu beijar ele na boca. Aí eu virei o rosto e nisso ele me agarrou pelo quadril. Eu fiquei paralisada, olhei minha bolsa que estava do lado da porta e saí”. Laura lembra que quando chegou em casa contou para a mãe e foi orientada pela família a sair da polícia, mas não achou justo desperdiçar os anos de estudo por sofrer essa violência.

“Em fevereiro, aconteceu outro assédio dentro da delegacia, ou seja, ele não ia parar. Eu contei para os meus colegas (…) um deles, que tinha experiência em plantão e já havia tratado de casos de violência contra a mulher disse: só um pouquinho, tu não pode deixar assim, tu é vítima, se tu ficar quieta vai dar margem pra ele continuar fazendo isso”. Laura rompeu o silêncio e denunciou o caso. A escrivã recebeu apoio de muitos colegas, do sindicato, mas passou por momentos difíceis: “O mais horrível, além de toda aquela decepção de entrar na polícia (chora) (…) a gente pensa que é uma coisa e é outra, né?! Teve audiência do Conselho Superior de Polícia e foi pior, porque o lugar onde achei que ia ter pessoas com uma capacidade intelectual, um ambiente sério, que iam ouvir, eu fui atacada. A autoridade processante disse na minha cara que a culpa foi minha. Primeiro ele disse pra mim que quando um delegado chama eu tenho obrigação de ir (…) e depois ele disse que eu fui porque eu quis, porque eu sou uma mulher adulta e que a culpa foi minha. Mas se Deus quiser, no Fórum é diferente”.




Denise Dora (Foto: Guilherme Santos/Sul21)




Para Denise Dora, Ouvidora-Geral da Defensoria Pública do Estado, mesmo com todas as dificuldades e o medo de realizar uma denúncia de violência sexual ou assédio – já que isso implica não só em enfrentar um colega, mas toda organização daquela Instituição – a importância do ato está no fato de que existem “muitos casos demonstrando que quando uma mulher toma coragem pra denunciar o caso, aparece uma enxurrada de outras denúncias contra aquela mesma pessoa. Já que em um ambiente de trabalho, muitas vezes um sujeito assediador não faz isso só com uma mulher, mas faz com várias e é preciso quebrar esse ambiente de impunidade”.

Foi o que aconteceu com Laura: após a acusação, outra colega também denunciou o delegado por assédio. No dia seguinte à denúncia, a regional onde a escrivã atua baixou uma portaria, e o delegado foi trocado de delegacia. “Ele acha que está tão certo o que ele faz, que, pra ele, isso [a denúncia] é um golpe (…) pra ele é normal, então eu penso que ele fez isso com tantas outras vítimas e as mulheres têm medo de falar pra não serem humilhadas e eu entendo, quando eu fui no Conselho eu vi, em vez de ser vítima tu entra lá como culpada” – desabafa Laura. A policial precisou realizar tratamento psicológico e psiquiátrico.



Mãe policial castigada


E o assédio sexual não é a única forma de violência que atinge as mulheres policiais. Um debate acerca do tema foi realizado na última sexta-feira (25) no evento “Vamos falar sobre nós”, primeiro seminário da Ugeirm Sindicato “Construindo a Identidade Feminina na Segurança Pública”. A painelista, diretora de gênero do sindicato e idealizadora do encontro, Neiva Carla Back Leite, enfatizou que piadas discriminatórias são ouvidas diariamente pelas profissionais, além da existência de assédio moral e diferença nos trabalhos desempenhados – como, por exemplo, trabalhos na rua e de investigação – porque as mulheres necessitam provar diariamente que são capazes, o que não acontece com os homens. “Todas nós sofremos assédio, por mais que a gente não perceba, existe, e isso é uma coisa que não é falada”.

Carla* é inspetora há 6 anos e conta que, desde que entrou na polícia, os comentários preconceituosos de colegas pelo fato de ela ser mulher sempre existiram, além da constante necessidade de provação: “tu sempre tem que comprovar não [apenas] que tu é competente, mas que tu é duas, três vez mais competente que o colega, só que é uma coisa mais velada”. Mas o assédio moral já atingiu a profissional também de maneira explícita. Com a previsão de entrada de novos policiais, Carla e o marido – que trabalha como inspetor no mesmo local – acharam uma boa oportunidade para pedir a troca de delegacia, já que o processo envolve conversar com diversos superiores. Inicialmente, o delegado disse que “não havia problema”, mas a inspetora conta que depois lhe foram impostas represálias. “Ele parou de falar comigo, fez uns dois churrascos na delegacia e não me convidou, ele não me cumprimentava mais e o meu marido ele continuava cumprimentando, conversando”.


Mulheres policiais em encontro recente da categoria | Foto: Divulgação/Ugeirm









A inspetora é mãe e, na época, a filha estava com um ano de idade, em período de amamentação. Como no local de trabalho existia plantão 24 horas, o delegado passou a tentar colocar Carla nessa escala de trabalho. “Eu tava amamentando, mas mesmo que eu não estivesse, como eu ia deixar a minha filha sozinha? Ela já passa todo o dia na creche, eu não poderia ficar com ela à noite” – conta a policial. Ela pediu ajuda para as chefias acima do delegado, expôs a situação e, inicialmente, conseguiu auxílio. “Mas a forma que ele achou de me castigar foi fechando o plantão 24 horas. Agora o registro de ocorrências é das 8h ao 12h e das 13h30 às 18h, ele me colocou lá, então eu fico lá o dia inteiro registrando ocorrência. Ele disse para os colegas que foi a forma que encontrou de me castigar” – relata Carla. A inspetora avalia que obteve apoio de superiores, mas aponta que alguns pendem para a defesa do delegado. Enquanto ela e o marido aguardam a transferência, é necessário apoio psiquiátrico.

A diretora Neiva Carla Back Leite destaca que debater os casos de violência é de extrema importância para que as próprias mulheres identifiquem as agressões: “Quando se fala em violência contra a mulher, a gente pensa logo nas mulheres fora da Instituição. Não! Nós também sofremos violência. E é isso que nós temos que ter presente, é isso que nós temos que parar, desnudar, pensar, a gente sofre alguma violência quase todos os dias nas delegacias de polícia”.

Denise Dora explica que esse empoderamento – independente do local onde a violência acontece – é necessário para a integridade pessoal das policiais que realizam atendimento: “Eu sou advogada, já fiz muitos atendimentos de mulheres em situação de violência. Se a gente tiver passando por uma situação de violência, se a gente tiver passando por uma situação de assédio, se a gente não estiver segura dessa integridade, dessa autonomia, obviamente que o relato da outra nos atinge em cheio, desestabiliza, a gente tem dificuldade de atender, então tem uma questão que é subjetiva, mas acaba produzindo um efeito nos procedimentos objetivos, portanto a gente tem que estar empoderadas, a gente tem que conhecer os direitos”. Neiva reforça que, para as profissionais, é necessária uma mudança dentro da Instituição: “A gente sabe que é terrível o número de feminicídios e para que a gente possa prestar um bom serviço, para que as pessoas possam ter direitos uma segurança de qualidade, é necessário que nós, mulheres policiais, sejamos incluídas nessa estrutura de segurança, sejamos enxergadas e respeitadas”.

*Os dois nomes utilizados são fictícios para preservar a identidade das vítimas

sábado, 26 de novembro de 2016

90 Anos

Fidel Castro



































"Para os ignorantes de plantão que estão comemorando a morte de Fidel Castro, fica aqui minha compreensão. Eu os compreendo. Eu sei, deve ser muito difícil pra essa gente que nunca fez nada pelos demais (e mal faz por si mesma) imaginar que este senhor que morreu aos 90, aos 27 anos comandou a tomada do quartel de Moncada e que aos 30 e poucos estava à frente de uma das revoluções mais importantes para compreender a geopolítica e a história do século XX. 

Deve ser duro mesmo olhar para nossas vidinhas insignificantes, uma existência que talvez não seja lembrada nem sequer pelos descendentes, e se deparar com uma biografia como a do Fidel Castro. Imagina que esse cara era de uma família rica de Cuba e deixou o conforto familiar para lutar numa revolução. Como pode? 

E tu aí não topa sequer entrar em greve pra não estragar os planos de férias, afinal, o pacotinho pago parcelado da CVC é mais importante do que qualquer causa coletiva. Não topa ir a um protesto pra não atrasar a janta e fica chamando quem protesta de vagabundo. Realmente, para quem pensa assim só sobra o deboche, a zombaria. Eu entendo, mentes assim, vidas como essas, não têm condições de compreender um personagem como Fidel Castro." 


Por Natalia Pietra