sábado, 4 de janeiro de 2014

escravos de um alucinado


Para melhor entender os amuos de FHC com Joaquim Barbosa


qui, 02/01/2014 - 20:43 - Atualizado em 03/01/2014 - 10:59

Luis Nassif


Para entender esse sentimento de FHC em relação a Joaquim Barbosa, é necessário retroagir um pouco. Como se recorda, FHC apressou-se a vir a público não recomendando qualquer aposta política em Barbosa.

Na sua origem, o PSDB era visto como o partido dos intelectuais, dos técnicos, o candidato à social democracia brasileira, imune ao conservadorismo obtuso do PFL-DEM e ao radicalismo da primeira infância do seu irmão univitelino, o PT.

A legitimação do partido dava-se através do republicanismo de um Franco Montoro, do sentido público de Mário Covas, de um punhado de intelectuais de centro-esquerda.

FHC nunca foi liderança orgânica do partido. Era um troféu enfeitado por um belo currículo acadêmico. Sua ascensão ao posto de guru máximo do partido foi fruto de uma sucessão de acidentes: a indicação para Ministro da Fazenda de Itamar, a articulação dos financistas do partido em torno do plano Real, e a morte das lideranças referenciais, que o transformou na única referência intelectual do partido.

O líder da oposição

Com a democracia assegurada, a estabilidade monetária, as políticas de inclusão, o grande desafio do PSDB seria a estruturação de uma oposição viável, que permitisse uma competição sadia e uma alternância no campo das ideias, das propostas e do poder.

O golpismo nasce fundamentalmente da incapacidade de uma oposição em apresentar-se como uma alternativa politicamente viável.

A inação, a falta de propostas, o vazio intelectual de FHC, sua posição de mais impopular ex presidente da história, tornavam quase inexplicável sua ascendência sobre o partido.

Foi entronizado no posto porque sua falta de ideias e de propostas, sua inércia, encaixavam-se à perfeição aos objetivos de um partido de caciques que se recusavam a abrir espaço para a renovação.

Anos atrás, em um Congresso de deputados estaduais em Foz do Iguaçu, assisti a uma palestra do governador mineiro Antônio Anastasia na qual, com ideias claras e palavras acessíveis, delineava um programa político objetivo, com posições didáticas sobre cada tema relevante, saúde, educação, segurança. Onde está Anastasia? Debatendo-se entre ser candidato a senador, a contragosto, ou abandonar a vida política. E foi o melhor nome de segunda geração do PSDB mineiro.

Em São Paulo, Gabriel Chalita tornou-se o primeiro Secretário de Educação tucano popular junto à categoria mais crítica ao tucanato: a dos professores. Era o único nome com potencial da segunda geração de políticos do partido. Foi limado por José Serra.

No Rio, Eduardo Paes só alçou voo depois de deixar o PSDB carioca. No Paraná, Gustavo Fruet cresceu depois de sair das amarras partidárias.

A culpa pessoal e intransferível de FHC foi ter endossado e estimulado o mais anacrônico recurso do jogo político brasileiro do século: a exploração do anticomunismo, um fantasma ainda presente no imaginário nacional.

Sob sua liderança, o PSDB endossou essa loucura midiática e tornou-se mais retrógrado que o DEM, mais radical que o PT infante, sendo conduzido pelas manchetes e escândalos, ao invés de conduzir a mídia pelas ideias.

A indústria do anticomunismo e a experiência dos cinco macaquinhos

Eram cinco macaquinhos, uma escada e, no alto, um cacho de bananas. Cada vez que um macaquinho tentava subir a escada, todos eles recebiam um banho de água fria. Com o tempo, sempre que um macaquinho ameaçava subir a escada, era contido pelos demais.

Aí tiraram as bananas do alto da escada. Um a um foram trocados os macaquinhos originais. O novo na turma tentava subir a escada e imediatamente era contido pelos demais. Passava um tempo, entrava na nova rotina.

Quando o quinto macaquinho original foi substituído, na memória coletiva não existiam mais bananas. Mas permaneciam os controles internos para impedir qualquer macaquinho de subir a escada.

Esse caso, contado nos manuais de psicologia, é similar ao que ocorreu com a indústria do anticomunismo brasileiro.

Nos anos 20 e 30 houve um conjunto de episódios consolidando o anticomunismo no imaginário de muitos setores.

Devido às perseguições religiosas em países comunistas, para a Igreja o comunismo passou a significar o ateísmo anticlerical.

Para o Exército, havia as lembranças do que foi chamado de Intentona Comunista, dos oficiais mortos de madrugada, e da doutrina internacionalista que abominava o conceito de nação, além dos ecos da guerra fria.

Para os empresários, tratava-se do regime que acabou com a propriedade privada e instituiu o planejamento estatal férreo.

De lá para cá, tudo mudou.

A Guerra Fria terminou no encontro de Kennedy com Kruschev em 1963.

O comunismo acabou no início dos anos 90. Por aqui, o comunismo já havia perdido a liderança dos movimentos populares para o recém-criado Partido dos Trabalhadores, conduzido por um líder, Lula, que era filho direto da industrialização das multinacionais no ABC. E se havia alguma dúvida sobre suas intenções social-democratas, a Carta aos Brasileiros eliminou-as.

Uma a uma foram retiradas as bananas do alto da escada. Mas permaneceu a exploração do anticomunismo no imaginário nacional. Tornou-se a maneira mais simples de conduzir qualquer discussão política pública.

Na sua versão século 21, esse anticomunismo tosco assumiu a face do chavismo, bolivarismo, farquismo, castrismo e outros ismos que passam a léguas de distância da realidade política e econômica do país.

Será possível que Arnaldo Jabor acredite que nós acreditemos que ele acredita que o chavismo seja uma ameaça ao país? Pouco importa: basta o Hommer Simpson acreditar.

O anticomunismo - seja lá o que for hoje em dia - unifica tudo, como creme de leite jogado em cima de doces de má feitura. Soma a indignação moral da religiosidade obtusa, com o desejo de legitimação dos militares, com a indignação do empresariado com a burocracia e o aparelhamento do Estado, com a indignação da opinião pública com a corrupção política. Vira tudo um discurso único.

Não são mais vícios históricos que precisam ser combatidos. Com o anticomunismo ganham forma, corpo, identidade, seja lá o que o Hommer Simpson entenda por chavismo, bolivarismo e castrismo. E cria a figura do inimigo comum a ser eliminado.

Dia desses comentaram aqui no Blog sobre um programa da Globonews no qual quatro direitistas jactaram-se da inteligência superior da direita.

Deveriam envergonhar-se de ter reduzido a direita a essa montanha de chavões de segunda linha.

Para quê a sutileza cortante de Roberto Campos, a navalha afiada de Nelson Rodrigues, a consistência sóbria de Gustavo Corção, a profundidade dos verdadeiramente conservadores, como José Murilo de Carvalho, Paulo Mercadante?

Tudo virou um MMA do pior nível, um caldeirão de impropérios tão fácil de ser reproduzido que gerou uma multidão de seguidores.

Em todo o espectro do mercado de mídia abriram-se vagas para anticomunistas radicais, de colunistas de opinião a humoristas, de roqueiros a acadêmicos de pouco brilho. Basta se dispor a brandir uma retórica primária, tão velha quanto os discursos do Almirante Penna Botto, para ganhar visibilidade.

Virou um autêntico coral dos Bigodudos: o discurso brandido pelo comentarista de rádio pretensamente intelectual é o mesmo do humorista de "stand up" é o mesmo dos historiadores de terceira linha.

Foi para esses primatas que FHC entregou a bandeira da oposição embrulhada no sensacionalismo e dramaturgias baratas dos grupos de mídia. Logo ele, filho de uma família historicamente vítima desse anticomunismo primário e generalizador.

A manipulação do anticomunismo poderia ser uma jogada de esperteza se o resultado final fosse a viabilização da oposição. A unica esperteza foi ter aberto mercado de mídia para essa multidão vociferante que passou a compor a cadeia improdutiva do anticomunismo.

A dura mudança de imagem

Dia desses, uma das mais agressivas militantes tucanas na blogosfera fez uma sincera autocrítica. Mostrou a ineficácia desses métodos de agressão, de substituir a disputa de ideias pelos ataques descabelados.

Coincidiu com a avaliação dos partidos de oposição - do novo PSDB, com Aécio Neves, ao PSB de Eduardo Campos - de que o estilo esgoto adotado por José Serra mais afastava do que atraia eleitores.

Agora, tenta-se a todo custo mudar a imagem.

Aécio Neves esforça-se por parecer um bom moço. Ele e Eduardo Campos evitam as baixarias consagradas por Serra. Mas o partido não logrou desenvolver propostas; Aécio não conseguiu desenvolver um discurso.

Pior, tornaram-se prisioneiros de uma opinião pública restrita e doente que só sabe exercitar a retórica do anti, permanentemente atrás da catarse, da vindita, da vingança.

Quando o partido tenta se desvencilhar da imagem radical, essa opinião pública sente-se órfã e sai atrás de outros salvadores.

E aí entramos no ponto central: porque a preocupação de FHC com o fenômeno Joaquim Barbosa?

Serra nunca foi esse profeta louco que passou a encarnar. A melhor definição para ele é que se trata de um estelionatário de ideias, criando personagens fictícios para iludir os seguidores. Enganou a mídia (incluindo-me aí) posando de desenvolvimentista, de anti-privatização selvagem. Depois, tentou enganar a direita com seu discurso à Malafaia. Não convence mais ninguém.

Já Joaquim Barbosa é autêntico, autenticamente radical, autenticamente jacobino, autenticamente cruel, disposto a qualquer gesto para conquistar o espaço junto às celebridades que o estimulam para a grande vindita.

É esse o receio de FHC. Como promover o ajustamento do partido, procurar uma nova legitimação, sem se esvaziar em favor de um alucinado?

Nao reclamaria se o alucinado estivesse sob seu controle.
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