segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O Brasil é feito disto aí

Do que é feito o Brasil? 


por Fernando Horta



Sul21





Não, a destituição de Dilma Rousseff não nos incomoda. Precisamos falar sério. Dilma não era líder de massas, não tinha história na política. Era uma burocrata alçada à presidência por um processo de impressionante transferência de votos que vieram de Lula. Dilma não fazia um bom governo, pendia irregularmente entre um trabalhismo conservador pontificado por um neoliberalismo (mal) disfarçado e um discurso garantista à la “onda rosa” europeia dos anos 70 e 80. Dilma não tem o dom da retórica. Tem história, mas não sabia usá-la. Seu maior discurso, até então, era uma resposta ao senador Agripino Maia dada ainda quando ministra da casa civil, entre 2005 e 2007. Rousseff se embananava na imensa maioria de suas falas e pouco conseguia instilar e inspirar na sua audiência. Como um “poste” se transformou na “coração valente”? Como se deu este milagre sabendo-se que sua assessoria de comunicação era a parte mais ignóbil e incapaz de todo seu staff (com folga)?


Em primeiro lugar, é preciso recordar que o processo de interpretação da realidade é sempre subjetivo. Falando mais abertamente, quem interpreta as coisas vê nelas o que quer ver ou o que consegue ver. O “coração valente”, portanto, está em quem olha, assim como está a “vaca” ou o “poste”. A trajetória de Dilma é pródiga em atos de coragem, mas isto pouca coisa significou até os últimos 60 dias. O que catapultou Dilma a condição que tem hoje foi a percepção da diferença entre ela e o Brasil. O contraste que nos foi oferecido durante o processo de impeachment é tão violento que não interessa quem foi (ou é) Dilma Rousseff, interessa entender do que é feito o Brasil.


Ainda incrédulos com o espetáculo dantesco nos oferecido pela Câmara dos deputados em 17/04 nós brasileiros, de direita, de centro e de esquerda nos horrorizamos com o que vimos. Brasileiros com cérebro custaram a acreditar que aquilo ali era uma parte substancial de nossa elite política. E a Câmara ficou órfã. Ninguém queria assumir a paternidade daquele horrendo monstro. A esquerda culpava a direita, a direita culpava a “ignorância” do povo, o povo … enfim o povo não entendia o que acontecia, mas sabia que aquilo era uma “luta entre ricos” e, portanto, também negava a paternidade. Os “deputados de ninguém”, aquele conhecido fenômeno (muito comum no RS) de políticos eleitos sem que “ninguém” tenha neles votado.


Depositamos nossa confiança no senado. Ali, diziam analistas, teremos um melhor espelho do que realmente é o Brasil. Assim também pensou o constituinte, pois atribuiu ao senado a obrigação da decisão final do impeachment. O que vimos nas manifestações dos senadores ocorridas até às 3 da manhã do dia 30 para o dia 31 de outubro foi, contudo, outro choque de Brasil. Não é possível que os discursos não tenham se alterado uma vírgula entre o início do processo de impeachment e o final. Horas de depoimentos de especialistas, de provas, de debates, arguições, textos e etc. tudo em vão. Era como se nada existisse. A acusação continuava com a catilinária barata do “quebrou o Brasil” e a defesa com o purismo do “não há crime, não há dolo”. Assistimos a um diálogo de surdos no senado. Desculpe, mas Isto não é o “devido processo legal”. Nunca se viu tamanho cinismo e desfaçatez.


Eis que os brasileiros com cérebro, seja de direita, de esquerda, de frente ou de ré; brasileiros vermelhos, azuis, amarelos ou cor-de-rosa; quaisquer seres pensantes que pisem sobre este imenso território estamos chocados. Se a Câmara nos mostrou um espetáculo de ignorância e incapacidade cognitiva o Senado nos mostrou um cinismo e uma inoperância política de impressionar. Este veredito não é difícil de se justificar. De fato, o brasileiro há muito é ensinado a desdenhar a política, isto é parte do jogo que os militares ensinaram e os políticos se jactam. Enquanto nós, cidadãos sérios, de direita, esquerda, ou de ponta cabeça não participarmos da política aquele show dos horrores continuará. Até aqui, entretanto, nada nos é novo. De onde, patavinas, sai a “coração valente”?


Eis que Dilma entra para a História do Brasil como o metro com que conseguimos medir nossa mediocridade. Enquanto nem a oposição pode chama-la de corrupta, mais de 70% dos senadores respondem a inquéritos ou estão condenados por crimes desta natureza. Enquanto o interino fazia conchavos nas sombras e se escondia em carros oficiais, ela adentrou o senado de cabeça erguida e lá ficou por mais de 14 horas. Kim sei lá eu o quê, convidado da direita no Senado, não suportou três horas na “tribuna de honra”. Tirando selfies, sentiu as dores do sentar no corpo jovem e retirou-se. A mulher de quase 70 anos que tinha sido escolhida como presidente, manteve-se incólume, sendo ofendida, maltratada, acusada e a tudo respondendo, calma e ponderadamente. O contraste foi tão evidente que até uma senadora, esposa de apoiador da ditadura e com patrimônio escondido da justiça eleitoral, congratulou a presidenta. Se errou, Dilma foi defender-se abertamente e ofereceu a si mesmo como prêmio a um Senado cínico. A diferença foi tão gritante que o Mundo não entende a nossa troca de Dilma por Temer.


Mas aí está sobre o que precisamos refletir. Dilma é de outra cepa. O Senado e a Câmara são feitos da mesma substância do Brasil. Esta é a beleza da Democracia. A ignorância de Felicianos e Magnos Malta é a mesma que se encontra aos cântaros Brasil afora. O empolamento elitista e preconceituoso de um Aloysio Nunes ou de um Cunha Lima é parte indelével de nossa classe média. O cinismo mudo de um Jucá ou de um Renan é característico de nossas elites. O desprendimento pueril de um Lindemberg ou de uma Grazziotin é também parte da nossa juventude. Aquilo lá é o Brasil, com seus acertos e erros, seus pontos fortes e fracos, suas barbaridades e tristezas. Os conchavos, as mutretas, a venda dos votos por cargos, o fisiologismo, a corrupção entranhada como modus operandi da política … é tudo o mais puro Brasil. Encontramos aquilo em qualquer canto do nosso país. Na coisa pública de cada cidadezinha e também nas empresas privadas. A Zelotes, quem diria, mostra isto todo o dia. Mega-empresários que faziam parte de “conselhos de gestão” são corruptos e sonegadores. Ninguém se salva, do médico que faz consulta mais barata sem recibo, passando pelo professor que inventa uma “saída de campo” sem sentido para diminuir suas aulas, ninguém se salva.


O Brasil é Lula, mas também é Fernando Henrique. Ali é disputa de brasis. O congresso muito bem nos representa. Daquilo ali tudo é que é feito o Brasil. É do fazendeiro escravocrata como Caiado ou da fazendeira autoritária (embora impressionantemente digna) de Katia Abreu. Tudo é Brasil. Dilma não. Dilma não é daqui. Dilma é feita de algo diferente e este contraste constrangeu até os perpetradores do golpe. A segunda votação pela retirada dos seus direitos políticos fez com que até um dos mais cínicos entre os cínicos, Cristóvão Buarque, ficasse envergonhado de si. A diferença entre ele e Dilma não cabe nesta galáxia e o pouco de humanidade que ainda lhe restava rasgou-lhe as vísceras. “Eu fico com ela” disse o golpista, num misto de sincericídio e vergonha.


Dilma finalmente se achou no Brasil. Ela viu que não é daqui. Porém, ao fazer isto Dilma nos mostrou do que somos feitos, do que o Brasil é feito, desde o tempo do império (que por sinal tinha representante da família real na “tribuna de honra” a favor do golpe). O Brasil é feito disto aí. Não há como se exigir mais. Não se pede aos outros o que eles não têm. Nossa pequenez nos saltou aos olhos, nos magoou a alma, deu-nos calafrios por compreendermos que nos falta substância. Foi terrível. Aquela mulher íntegra, altiva de mais de três metros de altura e uma voz tonitroante a nos humilhar fazendo chacota daqueles anões sórdidos e mentecaptos com suas teses insustentáveis.


Vá embora do Brasil Dilma! Vá e deixe-nos com nossa histórica pequenez. Não suportamos vê-la como você é, por isto criamos a ideia de um “coração valente”, porque não sabemos reconhecer nossa tacanhice.



.oOo.Fernando Horta, professor, historiador, doutorando em Relações Internacionais UnB.
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