sábado, 26 de novembro de 2016

Condene-me, não importa, a história me absolverá.


A história me absolverá…Morre o maior líder político do século XX





fidel_castro_-_mats_terminal_washington_1959Ele falou isso aos 26 anos, quando ainda era um jovem revolucionário.


Depois do ataque ao quartel Moncada de Santiago de Cuba, em 26 de julho de 1953, e depois de passar 76 dias “preso em uma cela solitária”, como denunciou na época, ele fez a própria defesa no julgamento. E encerrou com estas palavras:

“Sei que a prisão será dura como nunca foi para ninguém, cheia de ameaças, de enfurecimento ruim e covarde, mas não a temo, como não temo a fúria do tirano miserável que arrancou a vida de 70 dos meus irmãos. Condene-me, não importa, a história me absolverá.”

Fidel Castro foi condenado no dia 16 de outubro daquele mesmo ano. Depois de passar 22 meses na prisão, foi libertado graças a uma anistia e partiu para o exílio no México.

Fidel Alejandro Castro Ruz (Birán, 13 de agosto de 1926 — Havana, 25 de novembro de 2016, o Fidel Castro, foi um político e revolucionário cubano que governou a República de Cuba como primeiro-ministro de 1959 a 1976 e depois como presidente de 1976 a 2008. Politicamente, era um um cubano nacionalista e marxista-leninista. Ele também serviu como Primeiro Secretário do Partido Comunista de Cuba de 1961 até 2011. Sob sua administração, Cuba tornou-se um Estado socialista unipartidário; a indústria e os negócios foram nacionalizados e reformas socialistas foram implementadas em toda a sociedade. Castro morreu em Havana na noite de 25 de novembro de 2016, aos 90 anos.

Nascido em Birán como filho de um rico fazendeiro, Castro adotou a política anti-imperialista de esquerda enquanto estudava direito na Universidade de Havana. Depois de participar de rebeliões contra os governos de direita na República Dominicana e na Colômbia, planejou a derrubada do presidente cubano Fulgencio Batista, lançando um ataque fracassado ao Quartel Moncada em 1953. Depois de um ano de prisão, viajou para o México onde formou um grupo revolucionário, o Movimento 26 de Julho, com seu irmão Raúl Castro e Che Guevara. Voltando a Cuba, Castro assumiu um papel fundamental na Revolução Cubana, liderando o movimento em uma guerra de guerrilha contra as forças de Batista na Serra Maestra. Após a derrota de Batista em 1959, Castro assumiu o poder militar e político como primeiro-ministro de Cuba. Os Estados Unidos ficaram alarmados com as relações amistosas de Castro com a União Soviética e tentaram sem êxito removê-lo através de assassinato, bloqueio econômico e contrarrevolução, incluindo a invasão da Baía dos Porcos em 1961. Contra essas ameaças, Castro formou uma aliança com os soviéticos e permitiu que eles colocassem armas nucleares na ilha, o que provocou a Crise dos Mísseis de Cuba – um incidente determinante da Guerra Fria – em 1962.

Adotando um modelo marxista-leninista de desenvolvimento, Castro converteu Cuba em uma ditadura socialista sob comando do Partido Comunista, o primeiro no hemisfério ocidental. As reformas introduziram o planejamento econômico central e levaram Cuba a alcançar índices elevados de desenvolvimento humano e social, como a menor taxa de mortalidade infantil da América, a erradicação do analfabetismo e da desnutrição infantil, mas foram acompanhadas pelo controle estatal da imprensa e pela supressão da dissidência interna. No exterior, Castro apoiou grupos anti-imperialistas revolucionários, apoiando o estabelecimento de governos marxistas no Chile, Nicarágua e Granada, além de enviar tropas para ajudar os aliados na Guerra do Yom Kipur, da Guerra Etío-Somali e da Guerra Civil Angolana. Essas ações, aliadas à liderança de Castro no Movimento Não Alinhado de 1979 a 1983 e ao internacionalismo médico cubano, melhoraram a imagem de Cuba no cenário mundial e conquistaram um grande respeito no mundo em desenvolvimento. Após a dissolução da União Soviética em 1991, Castro levou Cuba ao seu “Período Especial” e abraçou ideias ambientalistas e antiglobalização. Na década de 2000 ele forjou alianças na “onda rosa” da América Latina e assinou a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América. Em 2006, transferiu suas responsabilidades para o vice-presidente e irmão Raúl Castro, que assumiu formalmente a presidência em 2008.

Castro era uma figura mundial controversa e divisiva. Ele foi condecorado com vários prêmios internacionais e seus partidários o elogiam por ter sido um defensor do socialismo, do anti-imperialismo e do humanitarismo, cujo regime revolucionário garantiu a independência de Cuba do imperialismo estadunidense. Por outro lado, os críticos o classificam como um ditador totalitário cuja administração cometeu múltiplos abusos ao direitos humanos, Através de suas ações e seus escritos, ele influenciou significativamente a política de vários indivíduos e grupos em todo o mundo.



Marcha combatiente por el Malecón y frente a la oficina de intereses de EEUU en Cuba en protesta por las medidas que quiere imponer George W. Busch a Cuba para la transcición a la democracia. La misma estuvo presidida por el Comandante en Jefe Fidel Castro Ruz y también participó el genewral de ejército Raúl Castro Ruz. (foto:Juvenal Balán) 14.05.04 SINA01N0
com Wikipédia e Granma




a humanidade ainda não acordou... muito menos o Brasil



RESQUÍCIOS DA CASA GRANDE EM TEMPOS DE CONQUISTA DE DIREITOS PELA SENZALA







MAGDA BIACASCHI e MIGUEL ROSSETTO.





A PEC 241, aprovada na Câmara, é estruturante do modelo ultraliberal que buscam implementar, como também a reforma da Previdência, a prevalência do negociado sobre o legislado, o projeto da terceirização, entre outros. O movimento é de regresso. Nessa dança, a Casa Grande dá o tom e o som Publicado em Brasil Debate

As desigualdades se aprofundam em tempos de capitalismo globalizado e hegemonizado pelos interesses das finanças. Enquanto em 1973 a população 1% mais rica detinha 10% da renda, em 2013 passou a deter 20% (PIKETTY, 2014). Nesse cenário, os direitos sociais sucumbem à força bruta e às políticas de ajuste que, apesar de comprovadamente ineficazes, continuam sendo “recomendadas” pelos organismos emprestadores de dinheiro.

Movido por um desejo insaciável de acumulação de riqueza abstrata (BELLUZZO, 2013), o capitalismo vai engendrando novas formas de organização, buscando eliminar quaisquer obstáculos ao seu livre trânsito. No Brasil, por exemplo, as políticas sociais públicas inclusivas, o Direito do Trabalho e a Justiça do Trabalho. Não à toa, em recursos extraordinários, está sendo postulado do STF que “roube a fala” do TST para que este, em suas decisões, não ofereça limites “à livre iniciativa”, como se estivéssemos no século XIX, em tempos da Constituição liberal de 1891.

Gilberto Freyre, em Casa Grande & Senzala, desnudou o caráter despótico da sociedade escravocrata brasileira. Uma sociedade centrada na vontade e no poder do senhor da Casa-Grande, o qual não conhece o bem e o mal; apenas seus desejos, a tudo e a todos objetivando para realizá-los (BIAVASCHI, 2007).

Em 1888, a Abolição livrou o país de seus inconvenientes. Quanto aos negros, porém, abandonou-os à sorte. Nesse processo, consolidou-se a exploração de uma mão de obra barata, em uma sociedade cujo tecido era costurado pelo signo da desigualdade e da exclusão (OLIVEIRA, 1990). As dificuldades de integração à sociedade eram atribuídas à inferioridade racial: marcas de uma herança que acabaram inscritas na estrutura social, econômica e política deste Brasil de mil e tantas misérias. Assim, a relação entre escravo e senhor apenas formalmente acabou por culminar no homem “livre”, sem que fossem superadas as condições instituintes da dominação e sujeição (BIAVASCHI, 2007).

Ainda hoje há resquícios dessa herança que se expressam, por exemplo, na ausência de uma política eficaz de democratização do acesso à terra e à renda; nas dificuldades enfrentadas para regulamentar a “PEC das domésticas” e a PEC 57A/1999 que permite a expropriação da propriedade quando evidenciada exploração da força de trabalho análoga à de escravo; nas tentativas de flexibilização do conceito de trabalho escravo; nas formas de preconceito e discriminação presentes na formação da sociedade brasileira que, extrapolando a esfera doméstica, volta e meia afloram em diversos setores da sociedade, da política e do Judiciário (BIAVASCHI, 2007).

A partir de 1930, em processo não linear completado pela Constituição de 1988 – que elevou os direitos do trabalho à condição de direitos fundamentais sociais e condicionou a livre iniciativa aos princípios da dignidade humana e do valor social do trabalho -, mulheres e homens trabalhadores, a ferro e fogo, foram conquistando o status de sujeitos de direitos trabalhistas, passando pela: criação das Juntas de Conciliação e Julgamento, em 1932; CLT, em 1943; regulamentação da Justiça do Trabalho em 1939, instalada em 1941 e integrante do Judiciário em 1946.

Justiça essa incumbida de concretizar um direito novo, profundamente social que, desde sua gênese, buscou compensar a assimetria nas relações de poder entre empregado e empregador, colocando diques à ação trituradora do movimento do capital. Daí porque esse Direito e as instituições aptas a dizê-lo têm sofrido duros golpes em tempos de regresso liberal (BIAVASCHI, 2007).

Nos governos Lula e Dilma, a política de valorização do salário mínimo, os programas sociais como Bolsa Família e outros, os benefícios da Previdência, o Pro-Uni, os sistemas de quotas, enfim, constituíram um patamar civilizatório que melhorou a vida dos menos favorecidos. Mesmo assim, ainda que os dados da distribuição de renda evidenciem melhoras, o Brasil permanece entre as piores posições, como os gráficos a seguir mostram-no em relação a alguns países do mundo e a evolução recente do índice no País.
































Ainda que muito se precise andar para completar a caminhada de superação das heranças coloniais, interesses econômicos e financeiros internos e externos ao Brasil interromperam esse processo. O impeachment da Presidente Dilma, sem prova de crime que o justifique, golpeou a democracia brasileira.

As forças que se aglutinam em torno dele deixam a cada dia evidente que, além dos temas relacionados à soberania nacional, a questão que as move é introduzir uma agenda ultraliberal, com potencial altamente desigualador e impacto negativo às políticas inclusivas, justo em tempos em que as desigualdades são acirradas pela ditadura dos mercados financeiros (BIAVASCHI, KREIN, 2016).

A PEC 241, aprovada na Câmara, é estruturante do modelo que buscam implementar, como também: a reforma da Previdência; a prevalência do negociado sobre o legislado; o PLC 30/2015 (PL 4330/04 na Câmara) que libera a terceirização para quaisquer atividades; a flexibilização do conceito de trabalho escravo; a redução da idade para o trabalho, entre outras.

Os que as defendem apostam no aprofundamento do ajuste fiscal, com severo corte de gastos públicos. E ao argumento falacioso da conquista da “modernidade”, maior produtividade e competitividade, clamam pela “quebra” da “rigidez” das normas da CLT de 1943, verticalizadas pela Constituição de 1988. O movimento é de regresso. Nessa dança, a Casa Grande dá o tom e o som.

O programa “Uma Ponte para o Futuro”, do PMDB, fundamenta muitas das propostas do governo Temer. Acaso aprovadas, mais uma vez serão colocados obstáculos à difícil caminhada superadora das heranças coloniais rumo a uma nação moderna e industrializada, hoje integrante do G20 e dos Brics. Sua não adoção pela então Presidente – segundo o Presidente Temer referiu nos EUA em encontro com empresários – teria sido uma das razões do impeachment.

Daí causarem perplexidade as declarações do Ministro do STF, Gilmar Mendes, incumbido de zelar pela Constituição, sobre Bolsa Família, afirmando ser “compra de voto”, e sobre a Justiça do Trabalho. Em liminar, que se confia não terá chancela da Corte, suspendeu o andamento das ações sobre ultra-atividade de normas coletivas, forte na Súmula 277 do TST, assinalando que essa interpretação atende a uma “lógica voltada a beneficiar apenas os trabalhadores”, cogitando de “fraude hermenêutica”, “jurisprudência sentimental”.

Em São Paulo, vaticinou: “Tenho a impressão de que houve uma radicalização da jurisprudência, no sentido de uma hiperproteção do trabalhador, tratando-o quase como um sujeito dependente de tutela”, afirmando que o Brasil é “desenvolvido industrialmente” com “sindicatos fortes e autônomos” e, inclusive, um Presidente “vindo da classe trabalhadora”.

Em um país de profundas desigualdades, com desemprego novamente alarmante e formas de contratação burladas que retiram da proteção social milhares de brasileiros, tais afirmações privilegiam um dos polos da relação, o capital. Opção que, contraposta ao princípio constitucional do valor social do trabalho que fundamenta a ordem social e a econômica (artigos 1º, IV e 170), acirra as inseguranças, fomenta a violência e traz sérias dificuldades à construção de uma sociedade civilizada e democrática. Sonho do qual a humanidade ainda não acordou. Muito menos o Brasil.



domingo, 6 de novembro de 2016

Uma “esquerdopata”, certo?


Processos, confissão de uso de drogas, corrupção: o triste fim dos movimentos pró-impeachment. Por Donato




Diário do Centro do Mundo









Postado em 06 Nov 2016


por : Mauro Donato




Ela se contrapõe a Olavo de Carvalho. Critica fortemente Janaína Pachoal. Compartilha um meme que diz facilitar a vida das pessoas ao indicar ‘personalidades’ que devem ser bloqueadas: Kim Kataguiri, Reinaldo Azevedo, Fernando Holiday, Gilmar Mendes.


Desce a lenha nos movimentos que arquitetaram o impeachment. Uma “esquerdopata”, certo? Nada disso. Trata-se de Daniela Schwery, uma ativa participante desses mesmos movimentos, que divulgava vídeos dessa essa turma toda e era defensora desse pessoal até ontem. O que está ocorrendo com a direita ‘vencedora’?


Há alguns dias um áudio do revoltado online Marcello Reis vazou e o que se ouviu foi, além de seu característico estilo pouco diplomático, aparentemente alterado, uma lavação de roupa imunda que expõs o estágio atual de guerra declarada entre aqueles que foram às ruas patrocinados por Fiesp e patota, atingiram o primeiro objetivo (expulsar Dilma e o PT), mas que depois não encontraram vaga no camarote.


Reis dirige-se a Carla Zambelli, do “Nas Ruas”, outra ‘expoente’ verde-e-amarela da avenida Paulista, como ‘vaca, filha da puta’ e por aí vai. De quebra, cita Daniela Schwery. Daniela também sai atirando para todos os lados.


“Não deixem não, amiguinhos, esfreguem na carinha deles que o bonitão da família da Carla, o cunhadinho querido, com malas de dinheiro é o DONO da OAS e queria contar com a morosidade da justiça e ministros de bolso para livrar a cara dos companheiros, o que a Carla bota na prática alinhando e aparelhando os protestos aos interesses das empresas ligadas a lava jato, como a Suzano, tendo os Feffers como seu patrocinador – família que está aparelhando a FIESP – contando com a ajudinha do industrial que não tem indústria, o Skaf, que tem seu filho casado com a fefferlandia”, escreveu Schwery nas redes sociais, revelando que ali todo mundo se conhece, tem relacionamento muito próximo. O ‘cunhadinho’ de Carla Zambelli é Bruno Brasil, da empreiteira OAS.


Daniela Schwery agora se diz ‘empenhada em desmascarar essa gente, em denunciar suas práticas’. Agora quer posar de indignada, que foi enganada. Daniela Schwery, Marcello Reis e companhia limitada creem fielmente que somos idiotas ou eles é que são? Não sabiam de nada?


O áudio de Marcello Reis o contradiz bem rapidamente. Admite conhecer Carla há muito tempo. “Muuuuuito tempo”, ele diz. Admite ter tido um convívio próximo ao cunhado empreiteiro dela durante os anos de luta pelo impeachment de Dilma. Cunhado que ele afirma ser quem levava malas de dinheiro (e aí, Polícia Federal, vai chamar o cara para depor?).


Carla e Reis (ao centro) em outros tempos



Em tempo: Carla Zambelli postou um esclarecimento em sua defesa (que no pedantismo típico desse pessoal ela chamou de ‘Nota Oficial’) afirmando que Bruno Brasil é em ex-cunhado e que não fala com ele ‘desde que começaram as prisões da Lava Jato’.


Agora querem dar uma de inocentes? Não sabiam do rabo preso, das segundas intenções? Agora se referem ao MBL e demais golpistas como ‘bando de moleques’, ‘quadrilhas financiadas’?


“Então podemos considerar como Premissa (sic) de que (sic 2) qualquer um que lute contra o Establishment jamais ganhará popularidade sem o apoio dos senhores do capital?”, pergunta um aturdido seguidor de Daniela Schwery. “Podemos sim, infelizmente”, responde ela em tom misto de Margarida Arrependida com Pedro Bó.


O admirador de Daniela muito provavelmente tenha citado falta de popularidade em referência ao fracasso de Schwery nas eleições. Ela candidatou-se a deputada estadual pelo PSDB e não foi eleita. Obteve míseros 1.101 votos. Ela que sempre foi ligada ao partido tucano, aliada de José Serra, agora publica na internet que o PSDB ‘deveria ser varrido’. Neste ano fez campanha para o Major Olímpio. Melhorou, hein? Daniela é apoiadora dos militares faz tempo.


A ex-tucana se esforça para desgrudar-se do cordão umbilical e está em campanha por uma ‘CPI dos Movimentos Já!’. Diz não sofrer de indignação seletiva e quer investigados o NAS RUAS, o MBL, CUT, MST. “Acompanhando as últimas notícias, vídeos e áudios relacionados aos movimentos sociais ficou claro que tem muita coisa errada e que não se encaixa dentro do contexto político que vivemos. São denúncias que envolvem partidos políticos, empresas envolvidas na lava jato e muito dinheiro. Acredito que os envolvidos devam se pronunciar e colocar tudo em pratos limpos, caso contrário seremos a piada da esquerda”, postou ela e completou: “Não temos bandidos de estimação.”


É curioso ver a direita se batendo. Além da profundidade típica dos debates ‘políticos’ (se xingam, ameaçam, agridem fisicamente, ofendem, carregam argumentos rasteiros, são reativos emocionais sem um pingo de respeito pelo contraditório) é fundamental, entretanto, saber quais interesses deixaram de ser atendidos para declararem guerra desse jeito.


Como louvaram e idolatraram empresas e pessoas com a ficha tão suja durante tanto tempo e agora vêm com esse mimimi auto-acusatório? É o roto falando do remendado.


Dizer que só descobriu hoje que ‘Janaína Pachoal é uma articuladora para blindar o PSDB’ e que tudo nasceu com o propósito de brecar a Lava Jato é um 171 fajuto demais. Até para a direita golpista.


Por uma CPI dessa pilantragem.






domingo, 30 de outubro de 2016

Quem matou Eloá?

Violência de Gênero



Quem matou Eloá?
a mídia e a violência contra a mulher


Carta Capital


por Ingrid Matuoka — publicado 28/10/2016 15h15, última modificação 29/10/2016 08h37


Documentário de Lívia Perez analisa a espetacularização do feminicídio de Eloá Cristina



Reprodução
Uma das entrevistadas comenta: "é uma coincidência né, a polícia ter entrado na hora em que todos os programas policialescos estão com a câmera ligada para lá"





























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Foi um “crime de amor”, um “crime passional”, diziam os noticiários em outubro de 2008 sobre os cinco dias em que Lindemberg Alves, o “jovem trabalhador de 22 anos que gostava de jogar futebol e teve uma crise de ciúmes”, manteve Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, em cárcere privado sob constante ameaça e violência.

As 100 horas em que ela ficou presa foram transmitidas por diversos canais da tevê aberta, em tempo real, com ar de filme de ação. O desfecho se deu no dia 17, quando a polícia invadiu o apartamento e Lindemberg matou a ex-namorada com um tiro na cabeça e outro na virilha.

Do caso nasceu o documentário “Quem matou Eloá?”, de Lívia Perez, que participou de 16 festivais brasileiros e internacionais, e ganhou cinco prêmios. A proposta da obra é discutir a naturalização da violência contra a mulher e a abordagem da mídia televisiva.

"Houve uma postura muito machista por parte da imprensa que enalteceu a personalidade do criminoso e romantizou o tipo de crime", diz a diretora em entrevista a CartaCapital. Ela também afirma que esse tipo de jornalismo é um dos pilares que mantém os altos índices de feminicídio no país.

CartaCapital: O que a motivou a fazer um documentário sobre o caso de Eloá?

Lívia Perez: Minha maior motivação foi o fato de que em nenhum momento da intensa cobertura midiática do crime se utilizou a expressão "violência contra a mulher" apesar de estarmos diante de um caso clássico deste tipo de crime e de o Brasil ser um dos países líderes em feminicídio no mundo.

CC: Como você avalia a atuação da imprensa durante o sequestro?

LP: Em primeiro lugar, o crime não deveria ter sido noticiado, pois esta é normalmente a conduta em casos de sequestro: o crime só é noticiado após a resolução, a fim de evitar qualquer tipo de interferência.

A imprensa não só noticiou como explorou intensamente o sequestro na ânsia de conseguir um furo. Praticamente todas as tevês abertas e os principais jornais do estado entrevistaram o sequestrador durante o crime. Alguns deles o fizeram ao vivo com jornalistas e repórteres se posicionando como negociadores.

Além disso, houve uma postura muito machista por parte da imprensa que enalteceu a personalidade do criminoso e romantizou o tipo de crime que era praticado naquele momento.

A atuação da imprensa foi abusiva pois o feminicídio é um problema muito sério no Brasil que é o quinto país que mais mata mulheres no mundo e apesar da imprensa explorar intensamente o crime não o discutiu de forma séria. Isso é um problema principalmente no caso das tevês abertas que se tratam de concessões públicas.


Assista ao trailer:





CC: O caso é de 2008. Desde então, notou alguma diferença na cobertura jornalística de casos similares ou o padrão se manteve?

LP: Apesar de tudo, acho que houve avanços, mas apenas porque o público, por meio da internet, tomou certa consciência do problema de concentração de mídia no Brasil e já não aceita mais alguns tipos de abordagens.

O próprio sequestro e assassinato de Eloá causou uma reflexão e até um processo contra uma das tevês. Por outro lado, ainda há muita exploração da violência contra mulheres, negros e classes sociais mais baixas nos programas policialescos que ocupam a faixa das 18h na grade de programação.

Num caso mais recente, em que uma adolescente foi vítima de estupro coletivo no Rio de Janeiro, os veículos de comunicação tentaram dar a notícia como um “suposto crime” quando na verdade os próprios criminosos já haviam postado na internet fotos e provas que os incriminavam. A audiência reagiu na internet pedindo que se reconhecesse o crime como tal e não apenas como suposto.

CC: Parte da mídia chamou o caso de "crime de amor". Como você avalia isso?

LP: Esta é a abordagem mais perversa que se pode dar para este tipo de crime. Nós, mulheres, estamos pedindo a revisão desta trágica expressão, assim como "crime de honra", desde a época do assassinato de Ângela Diniz nos anos 1970.

É muito nocivo quando tevês abertas, que são concessões públicas e, portanto, falam a milhões de brasileiros, retratam este tipo de crime muito frequente no Brasil desta forma. É como se legitimassem o assassinato de milhares de mulheres que acontece no país em nome do "ciúme", da "dor de amor" e da "honra" dos homens.

CC: Quais são algumas consequências de romantizar um feminicídio?

LP: A consequência é a legitimação deste tipo de crime na opinião pública, a criminalização das vítimas e portanto a manutenção dos altos índices de feminicídio no país.


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

RBS/Grobobo... Nossas diferenças são inconciliáveis


Resposta ao jornal da Globo que tentou me contratar. 

Por Leo Mendes



Diário do Centro do Mundo


Postado em 22 Sep 2016
por : Leonardo Mendes







Fui convidado a escrever uma coluna no jornal Diário Catarinense, do grupo RBS, braço da Globo no sul do país. Abaixo a minha resposta, em forma de carta aberta:

Queridxs amigxs da RBS/Globo,

confesso que fiquei bastante feliz com o convite, mas sou obrigado a decliná-lo.


É uma questão de princípios: eu não trabalho para empresas que atentam contra a democracia e que atuam de modo tão sujo quanto a Globo, a serviço de ideais tão mesquinhos.

Confesso também que perguntei quanto vocês estariam dispostos a me pagar, apenas por curiosidade, e peço desculpas por isso.

É que eu assisti esses dias ao filme Nove Rainhas, em que um dos personagens diz que não faltam garotos de programa, o que falta é potencial de investimento.

Digamos que por 1 milhão de reais eu aceitaria o cargo, por dois meses. E depois passaria a vida me purificando da experiência de trabalhar para a Globo.

Sabia que o valor oferecido não seria esse, e que eu não aceitaria, por isso peço desculpas por ter feito vocês perderem tempo elaborando uma proposta.

Eu prefiro vender o meu corpo na esquina mais imunda, a vender meu trabalho como jornalista a uma empresa como a Globo.

Não julgo aqueles que o fazem, e inclusive tenho grandes amigxs nessa empresa, que considero pessoas maravilhosas.

Acredito que essxs amigxs acreditem que a Globo pode mudar, que elxs possam ajudar nessa mudança.

Já eu acredito que o jornalismo da Globo não tem salvação, e é uma questão de tempo perder a pouca credibilidade que lhe resta, junto à parcela mais ignorante da sociedade, ou seja, a classe média que vai às ruas com a camisa da CBF contra a corrupção.

Um avanço civilizatório fatalmente acabará com isso, e a família Marinho terá que aceitar que não lhe resta futuro no jornalismo, talvez apenas no entretenimento e dramaturgia (a série Justiça é ótima).

Por isso entrar para o time de jornalistas da Globo, para mim seria lutar contra esse avanço civilizatório.

Eu espero ainda poder comemorar o fim do Jornal Nacional, o fim do Diário Catarinense, a venda de toda a estrutura jornalística a disposição da família Marinho e de seus comparsas.

A Globo é hoje a minha Bastilha. Sua queda é a minha vitória.

Nossas diferenças são inconciliáveis.

Sinceramente,









Leo Mendes



quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Agora vai... vai? Mas para onde?


Desculpa, Mil desculpas!


Mauro Baitasar



Agora vai... vai? Mas para onde?



antes que qualquer coisa seja dita, eu quero pedir desculpas aos professores e professoras das escolas da rede pública do povo gaúcho, o povo mais politizado do braZil. todos os envolvidos e envolvidas na eleição do governador $artori já sabiam de tudo que iria e está acontecendo: as mortes invisíveis que o jornalismo de excelência não repercute, o toque de recolher em porto alegre, por isso, e só por isso, riram dos nossos avisos, os petralhas, lembram da resposta para nossas perguntas? repetiam e repetiam, entre muitos risos, Vocês vão se ..der! vocês lembram o que diziam, certo? não é preciso repetir: vocês já sabiam do parcelamento dos salários, da paralisia da polícia civil, mas vocês contavam com a força competitiva e punitiva da brigada militar. lembram das selfs? domingos ensolarados, palavrões, gritos de ódio

mas claro, seus ensinamentos e análises profundas não haviam acabado. e todos e todas foram gritar, Fora Dilma, Fora PT, cansados e cansadas deste jeito de governar para todos. e olha que nem foi tanto assim, não conseguimos governar para todos os excluídos, mas então, inconformadas vestiram primeiro seus uniformes verde-amarelos, estilo neymar; depois o preto do luto, e tombaram-se às ruas. pareciam bêbados de tanto ódio. conseguiram! parabéns a todos e todas envolvidas, vocês e só vocês poderiam saber dos planos arrojados e futuristas para a Educação Pública Brasileira que nos chega através da mente pura e sensível do Alexandre, aquele mesmo: a substituição das disciplinas de Filosofia e Sociologia por Moral e Cívica. uau! agora vai! Sócrates, Platão, Antão, Gringão, Romário, é tudo a mesma coisa, Um dois feijão sem arroz, três quatro batendo panela, Dois passos para frente, Oito para trás, Mais um passo para frente, Calem a boca, Silêncio, Vocês são crianças, mas aqui é a escola e na escola todos vêm para aprender ficar em silêncio. Ouviram? Em SILÊNCIO!

e, às vezes, marchar

mas tem mais...

quero dedicar esse parágrafo a todos e todas da educação física envolvidas com esse outro achado futurista para a educação física: O Plano do Ensino Médio - elaborado depois de uma exaustiva discussão com os coxinhas da educação física (vocês já vinham discutindo, certo?) - decidiu abrir mão da disciplina de Educação Física, e também da outra disciplina de merda: Artes! isso é coisa pouca, quem se importa com cultura para os alunos e alunas nas escolas públicas, né? e com o corpo quem se importa, né?

Viva o Novo Ensino Médio das Escolas Públicas Brasileiras!

desculpem, eu me prometi nenhum palavrão, mas não consegui evitar três.

agora vai... vai pra onde?

fui aconselhado colocar uma nota explicitando que o texto acima contém ironia, está bem, este texto esquisito acima chega ser platônico de tanta ironia. então, para deixar explícita a proposta do MEC Golpista, estou adicionando aqui o resumo genial do Carlos Fabre Miranda, em sua linha de tempo no facebook, sem ironias:


" Escola sem partido, sem contraditório, sem crítica, sem reflexão, sem arte, sem corpo e sem sentido!"




Na prática, já tínhamos duas escolas no BraZil! Uma escola para os ricos e uma escola para os pobres! Agora, o braZil Golpista, anuncia que é isso mesmo, chega de adornar e contornar, daqui para frente vai ficar bem claro, acabamos com ENEM, Cotas, e toda essa esculhambação inventada pelo PT. Lugar de aluno pobre é em escola pobre, aprendendo a servir com silêncio e resignação os filhos amados da ESCOLA dos RICOS!

Saudações A TODOS E TODAS ENVOLVIDAS!



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Plano do ensino médio abre mão de artes e educação física e repete meta



NATÁLIA CANCIAN
MARINA DIAS

DE BRASÍLIA


PAULO SALDAÑA

DE SÃO PAULO
22/09/2016 15h15 - atualizado às 17h50



Rivaldo Gomes/Folhapress



Escola estadual Antonio Vieira de Souza, em Guarulhos, na Grande São Paulo



O novo modelo para o ensino médio, apresentado nesta quinta-feira (22) pelo governo Michel Temer (PMDB), flexibiliza o currículo da etapa, acaba com a obrigatoriedade de disciplinas de artes e educação física e traz um incentivo à expansão do ensino em tempo integral.


As mudanças propostas serão agora levadas ao Congresso por meio de uma MP (medida provisória), para acelerar a tramitação legislativa.




REFORMA DO ENSINO MÉDIO





Análise de Sabine Righetti: Reforma não resolve problemas que desembocam no ensino



O texto da MP assinada por Temer provoca a maior alteração já feita na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), de 1996. As mudanças terão implementação gradual nas redes de ensino dos Estados, a quem caberá definir a transição para o novo modelo. A expectativa do governo, no entanto, é ter turmas já com a nova proposta a partir de 2018.


O novo modelo irá prever flexibilização do percurso do estudante. Hoje, todos os alunos do ensino médio devem cursar 13 disciplinas em três anos. Com a mudança prevista na MP, somente parte da grade –equivalente a cerca de 1 dos 3 anos da etapa– será comum a todos. Para o restante, haverá a opção de aprofundamento em cinco áreas: linguagens, matemática, ciências humanas, ciências da natureza e ensino técnico.


Ao aluno caberá a escolha da linha na qual deseja se aprofundar. Mas a oferta dessas habilitações dependerá das redes e das escolas. Ao menos duas áreas, entretanto, devem ser oferecidas.


O ensino de língua portuguesa e matemática será obrigatório nos três anos do ensino médio. Mas, ao contrário do que previa a LDB, as disciplinas de artes e educação física deixam de ser obrigatórias nessa etapa. Elas continuam obrigatórias apenas da educação infantil ao ensino fundamental.


O secretário de educação básica, Rosseli Soares da Silva, no entanto, nega a mudança. Segundo ele, as duas disciplinas devem fazer parte da base nacional comum. O texto da MP, no entanto, retirou as duas disciplinas do texto anterior da LDB nos trechos sobre o ensino médio.


"Tudo o que constar na base nacional será obrigatório. A diferença é que quando coloca a [oportunidade de escolher] ênfases, só colocamos os alunos que tem interesse em seguir naquelas áreas. Não podemos continuar pensando que vamos ensinar tudo a todos."



'FALÊNCIA'


Em discurso no Palácio do Planalto, o ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM-PE), disse que a reformulação ocorre diante de um cenário de "falência do atual ensino médio", com baixo desempenho em avaliações como o Ideb e altos índices de evasão. "O desempenho de português e matemática é menor hoje do que em 1997. Os jovens hoje têm menor conhecimento em matemática e português do que na década de 90", afirma.


Segundo ele, uma comparação com o sistema aplicado em outros países mostra que o Brasil está hoje "na contramão do mundo". "Temos aí um exemplo do que é o ensino médio brasileiro, com 13 disciplinas obrigatórias, bastante engessado e que coloca o jovem com disposição de não continuar na vida educacional", disse. "O novo ensino médio tem como pressuposto principal a autonomia do jovem. É muito comum o jovem colocar que aquela escola não é a escola que dialoga com ele."


Segundo o ministro, o governo deve investir de R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão em dois anos no projeto de fomento ao ensino integral no ensino médio.


Já a meta é atender 500 mil jovens nessas escolas de tempo integral até 2018. "Teremos a responsabilidade de mais do que dobrar o número de alunos beneficiados", afirma ele, que também disse esperar que o texto da MP seja votado na Câmara e Senado até o fim deste ano.


O país registra 1,7 milhão de adolescentes entre 15 e 17 anos fora da escola -16% da população nessa faixa etária, que seria a ideal para o ensino médio.


INTEGRAL


De acordo com o texto da medida provisória, a carga horária mínima de 800 horas anuais para a etapa deve ser ampliada progressivamente para o mínimo de 1.400 horas anuais. Isso representa 7 horas de aulas por dia, o que caracteriza a educação em tempo integral. O texto afirma que essa ampliação deve seguir as metas já dispostas no PNE (Plano Nacional de Educação).


A previsão do PNE é ter, até 2024, ao menos 25% dos alunos de cada etapa de ensino em tempo integral. O país registra hoje 6% das matrículas nessa modalidade no médio. Dessa forma, de acordo com o texto, o governo não revoga a carga mínima de 800 horas já prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996.


Para expandir a oferta de tempo integral, o projeto prevê aporte financeiro do governo federal, de forma temporária, às redes estaduais que criarem novas vagas na modalidade. No entanto, esse valor –calculado por aluno– só será pago nos primeiros quatro anos e "respeitada a disponibilidade orçamentária para atendimento.


O ensino médio ainda poderá ser organizado em módulos e adotar o sistema de créditos ou disciplinas com terminalidade específica, "observada a Base Nacional Comum Curricular", a fim de estimular o prosseguimento dos estudos.


Assim, se um aluno tiver optado por se aprofundar em uma área, mas quiser mudar de opção, ele poderá solicitar a troca. Neste caso, receberá um certificado parcial a cada módulo concluído. "Ele será o protagonista do seu percurso", disse Mendonça Filho.


O texto também flexibiliza a contratação de professores sem concurso para atender a ampliação do ensino técnico. Permite ainda a contratação de professores sem formação específica na disciplina na qual vão atuar, desde que tenha "notório saber".


Para Eduardo Deschamps, do Consed (órgão que representa os secretários estaduais de Educação), a maior oferta de ensino profissional com o novo modelo de ensino médio "cria um enorme incentivo aos jovens que não seguem diretamente para a universidade". "E o mais importante é que a nova legislação não impõe um único modelo para o ensino médio. Ela permite criar novas formas de oferta sintonizadas com as aspirações dos estudantes", afirma ele, para quem a reforma é "urgente e prioritária".


O formato como o governo encaminhou as mudanças, por meio de uma medida provisória, no entanto, gerou polêmica entre educadores. Questionado, o ministro Mendonça Filho negou que a reformulação tenha sido imposta. "Foi uma mudança discutida", disse.



















terça-feira, 20 de setembro de 2016

Porto Alegre em chamas!

Mauro Baitasar



Como a cidade de Porto Alegre, capital de todos os gaúchos e gaúchas, referência no mundo em solidariedade, humanidade e urbanidade, em QUATRO governos sucessivos do PT, desde 1989 até 2004, se torna em 2016 – 12 anos depois do último governo petista portoalegrense - referência mundial em violência urbana? No ranking criminalidade, a cidade de Porto Alegre está entre as DEZ cidades mais violentas do MUNDO! Não dá para culpar o PT. Não dá para dizer que é uma maldita herrança petista! Mas dá para sentir muita saudade dos governos petistas em Porto Alegre.

Cada um/uma dos portoalegrenses deve – e precisa – elencar razões para essa honraria da mediocridade administrativa. Em DOZE anos perdemos espaço para sediar o Fórum Social Mundial, nos tornamos invisíveis, até que chegou o toque de recolher imposto pela criminalidade. Isso não é retórica, é a formalidade do nosso cotidiano. Não é frase de efeito, mas o efeito do que estamos vivendo.

Não existe apenas uma razão para tanta violência, mas muitas escolhas equivocadas dos/das portoalegrenses, somadas ao povo eleitor gaúcho: A escolha do mesmo boneco golpista das liberdades e conquistas sociais. Escolher esse boneco só por burrice, desatenção ou interesse empregatício explica em parte tanta violência invisível. Gritos que não ouvimos porque não queremos ouvir.

Devido a gravidade da vida de medo, que chamo de não-vida, vou tentar delucidar o protagonismo da burrice e desatenção nesta tragédia coletiva. O interesse empregatício, por óbvio, não vou atentar nem usar do seu ou do meu tempo. Todo vilão é medíocre, não porque lhe falte inteligência ou esperteza, porque é fingido, incorreto e injusto. É um traidor da vida, despreza todas as vidas que não se submetem ao seu protagonismo conquistador. Um agente bárbaro e sanguinário, mas um ator eficaz. Um candidato pelo empregatício é um ator eficaz. Todos e todas estamos sujeitos a uma ou muitas atuações fingidas pelo empregatício. Importante, mas não determinante. 
Mas a fofoca quando assume o caráter de profecia dá convicção e torna a cidadania invisível. Os direitos e os espaços de ninguém e de todos desaparecem. Voltamos à mendicância e ao roubo da vida.

Então, o que dá formato a tudo isso? 


Do ponto de vista do retorno rápido, é o jornalismo. O mais mentiroso praticado no MUNDO. Olha só, de novo, estamos lá no alto da pirâmide das comparações, encontramos homens e mulheres que usam os meios de comunicação de massa para inventar fatos ou esconder fatos, conforme os interesses deles mesmos ou em acordo com a relevância para o patrão. E não se engane, o leitor, telespectador ou ouvinte não é o patrão. Não somos o patrão, somos o efeito colateral. Aproveitemos.

Um jornalismo criminoso produz uma sociedade de criminosos. Um jornalismo mentiroso fabrica uma sociedade de mentirosos. Um jornalismo cínico concebe uma sociedade de cínicos. Um jornalismo de ódio ensina e educa para o ódio. Um jornalismo que reconhece nos efeitos colaterais, apenas isto, mortes possíveis de absorver, é cúmplice de cada morte em Porto Alegre. Esse jornalismo ideológico e partidário reinventou a sociedade desumana, mentirosa, cínica e canalha. Aproveitemos.

Tenho medo dos adultos crescidos das crianças que não brincam aos 5, 6 e 7 anos, a infância perdida para a alfabetização precoce (desculpem, mas não consigo resistir à piada: por que tanta estupidez destes pais? qual a razão para tanta pressa? pais... os seus filhos trabalharão até os 70 anos! calma, deixem que eles curtam a vida, pelo menos, nos seus primeiros 7 anos!), mas tenho uma pequena esperança. Afinal, são apenas crianças. Ainda não cresceram, mas vão crescer. Aproveitemos.

Tenho medo dos adultos que consomem esse jornalismo criminoso como se estivessem mascando tabaco ou chicletes. Adultos midiotizados. Não tenho esperanças. Nenhuma. Está fácil imaginar uma sociedade cada vez mais violenta, indiferente, egoísta, sem emoção ou sentido humano. Todo o humano que tínhamos substituído pelo sentido do dinheiro. Com esse jornalismo é um caminho sem volta. The Wall está a poucos metros e continuamos pisando no acelerador. Os homens e mulheres desse jornalismo criminoso são uma peste social, somatizam medos e mentiras em seus leitores/leitoras. Modelam uma couraça de preconceitos e conceitos que poupam os amigos e criminalizam os não-amigos. Aproveitemos.

Enganam-se aqueles que acreditam que protegem seus filhos/filhas com mais e mais policiais nas ruas (desculpem, novamente, não consigo resistir, não seja tolo de acreditar que não quero policiais nas ruas. e, por favor, sem esse seu catecismo estutipificado que deseduca: os direitos humanos só se preocupam com bandidos). Começaremos proteger nossos filhos/filhas quando assegurarmos uma vida de oportunidades dignas para todos os jovens da periferia, das vilas e das escolas públicas.


As curvas da vida com sonhos.

Não esperemos ver que os jovens se decidiram pela vida do crime para agirmos (desculpem, de novo, não consigo aguentar: matar esses jovens não é solução, nunca foi nem vai ser solução, só irá criar a aceitação da morte pela mão do Estado. naturalizar a violência e a ganância pelo acumulo de riqueza faz brotar como musgo a pobreza. hoje, temos cada vez mais jovens inspirados por bandidos, sonham com o mundo do crime. esse é o seu modelo de sucesso).

E a solução? Não temos a solução? É isto, e pronto?

E a Educação? Mas qual Educação?

A Educação do silêncio?

Cala a boca, Vocês não querem aprender!


Mas aprender o quê, professora?

Qual Educação? A Educação Formatadora que forma mão-de-obra acessível e barata; matadora de sonhos?

Estamos satisfeitos? Poderia ser pior? Nem quero imaginar esse pior.

Pense: É essa educação medíocre oferecida em nossas escolas públicas que você quer para o seu filho/filha (desculpem, é irresistível, não grite por falta de condições etcetcetc, esses chefes – prefeito e governador – foram eleitos com o seu voto, nunca prometem nada, mas desmancham o pouco que foi construído)?

Confiança, perdemos a confiança na sociedade que nos tornamos. Não acredito em solução mágica, mas o templo da perdição do governo golpista, não por acaso do PMDB, eles propõem mais uma ruptura na Educação Básica: fim da Filosofia, Sociologia, História, volta da Educação Moral e Cívica. Agora vai, iremos obrigar nossas crianças contar passos para entrar e sair das salas de aula, Um dois feijão ou arroz, Três quatro sem comida no prato! Sublimamos Hitler! Não precisamos queimar livros, estamos queimando a Filosofia, Sociologia, História e seus professores. As próximas gerações nem saberão que tudo isso já existiu!


Dois para frente, cinco para trás, Um dois nem feijão nem arroz, Três quatro nem comida nem prato!

Tenho apenas uma certeza, Enquanto não neutralizarmos esse jornalismo criminoso, não teremos chance de um outro jeito de viver. Nos tornamos o que sempre fomos: uma sociedade golpista. Mas também nos tornamos o que nunca fomos: referência no mundo, entre as DEZ cidades mais violentas do MUNDO!

Parabéns, a todos/todas envolvidas. Aproveitemos.



segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O Brasil é feito disto aí

Do que é feito o Brasil? 


por Fernando Horta



Sul21





Não, a destituição de Dilma Rousseff não nos incomoda. Precisamos falar sério. Dilma não era líder de massas, não tinha história na política. Era uma burocrata alçada à presidência por um processo de impressionante transferência de votos que vieram de Lula. Dilma não fazia um bom governo, pendia irregularmente entre um trabalhismo conservador pontificado por um neoliberalismo (mal) disfarçado e um discurso garantista à la “onda rosa” europeia dos anos 70 e 80. Dilma não tem o dom da retórica. Tem história, mas não sabia usá-la. Seu maior discurso, até então, era uma resposta ao senador Agripino Maia dada ainda quando ministra da casa civil, entre 2005 e 2007. Rousseff se embananava na imensa maioria de suas falas e pouco conseguia instilar e inspirar na sua audiência. Como um “poste” se transformou na “coração valente”? Como se deu este milagre sabendo-se que sua assessoria de comunicação era a parte mais ignóbil e incapaz de todo seu staff (com folga)?


Em primeiro lugar, é preciso recordar que o processo de interpretação da realidade é sempre subjetivo. Falando mais abertamente, quem interpreta as coisas vê nelas o que quer ver ou o que consegue ver. O “coração valente”, portanto, está em quem olha, assim como está a “vaca” ou o “poste”. A trajetória de Dilma é pródiga em atos de coragem, mas isto pouca coisa significou até os últimos 60 dias. O que catapultou Dilma a condição que tem hoje foi a percepção da diferença entre ela e o Brasil. O contraste que nos foi oferecido durante o processo de impeachment é tão violento que não interessa quem foi (ou é) Dilma Rousseff, interessa entender do que é feito o Brasil.


Ainda incrédulos com o espetáculo dantesco nos oferecido pela Câmara dos deputados em 17/04 nós brasileiros, de direita, de centro e de esquerda nos horrorizamos com o que vimos. Brasileiros com cérebro custaram a acreditar que aquilo ali era uma parte substancial de nossa elite política. E a Câmara ficou órfã. Ninguém queria assumir a paternidade daquele horrendo monstro. A esquerda culpava a direita, a direita culpava a “ignorância” do povo, o povo … enfim o povo não entendia o que acontecia, mas sabia que aquilo era uma “luta entre ricos” e, portanto, também negava a paternidade. Os “deputados de ninguém”, aquele conhecido fenômeno (muito comum no RS) de políticos eleitos sem que “ninguém” tenha neles votado.


Depositamos nossa confiança no senado. Ali, diziam analistas, teremos um melhor espelho do que realmente é o Brasil. Assim também pensou o constituinte, pois atribuiu ao senado a obrigação da decisão final do impeachment. O que vimos nas manifestações dos senadores ocorridas até às 3 da manhã do dia 30 para o dia 31 de outubro foi, contudo, outro choque de Brasil. Não é possível que os discursos não tenham se alterado uma vírgula entre o início do processo de impeachment e o final. Horas de depoimentos de especialistas, de provas, de debates, arguições, textos e etc. tudo em vão. Era como se nada existisse. A acusação continuava com a catilinária barata do “quebrou o Brasil” e a defesa com o purismo do “não há crime, não há dolo”. Assistimos a um diálogo de surdos no senado. Desculpe, mas Isto não é o “devido processo legal”. Nunca se viu tamanho cinismo e desfaçatez.


Eis que os brasileiros com cérebro, seja de direita, de esquerda, de frente ou de ré; brasileiros vermelhos, azuis, amarelos ou cor-de-rosa; quaisquer seres pensantes que pisem sobre este imenso território estamos chocados. Se a Câmara nos mostrou um espetáculo de ignorância e incapacidade cognitiva o Senado nos mostrou um cinismo e uma inoperância política de impressionar. Este veredito não é difícil de se justificar. De fato, o brasileiro há muito é ensinado a desdenhar a política, isto é parte do jogo que os militares ensinaram e os políticos se jactam. Enquanto nós, cidadãos sérios, de direita, esquerda, ou de ponta cabeça não participarmos da política aquele show dos horrores continuará. Até aqui, entretanto, nada nos é novo. De onde, patavinas, sai a “coração valente”?


Eis que Dilma entra para a História do Brasil como o metro com que conseguimos medir nossa mediocridade. Enquanto nem a oposição pode chama-la de corrupta, mais de 70% dos senadores respondem a inquéritos ou estão condenados por crimes desta natureza. Enquanto o interino fazia conchavos nas sombras e se escondia em carros oficiais, ela adentrou o senado de cabeça erguida e lá ficou por mais de 14 horas. Kim sei lá eu o quê, convidado da direita no Senado, não suportou três horas na “tribuna de honra”. Tirando selfies, sentiu as dores do sentar no corpo jovem e retirou-se. A mulher de quase 70 anos que tinha sido escolhida como presidente, manteve-se incólume, sendo ofendida, maltratada, acusada e a tudo respondendo, calma e ponderadamente. O contraste foi tão evidente que até uma senadora, esposa de apoiador da ditadura e com patrimônio escondido da justiça eleitoral, congratulou a presidenta. Se errou, Dilma foi defender-se abertamente e ofereceu a si mesmo como prêmio a um Senado cínico. A diferença foi tão gritante que o Mundo não entende a nossa troca de Dilma por Temer.


Mas aí está sobre o que precisamos refletir. Dilma é de outra cepa. O Senado e a Câmara são feitos da mesma substância do Brasil. Esta é a beleza da Democracia. A ignorância de Felicianos e Magnos Malta é a mesma que se encontra aos cântaros Brasil afora. O empolamento elitista e preconceituoso de um Aloysio Nunes ou de um Cunha Lima é parte indelével de nossa classe média. O cinismo mudo de um Jucá ou de um Renan é característico de nossas elites. O desprendimento pueril de um Lindemberg ou de uma Grazziotin é também parte da nossa juventude. Aquilo lá é o Brasil, com seus acertos e erros, seus pontos fortes e fracos, suas barbaridades e tristezas. Os conchavos, as mutretas, a venda dos votos por cargos, o fisiologismo, a corrupção entranhada como modus operandi da política … é tudo o mais puro Brasil. Encontramos aquilo em qualquer canto do nosso país. Na coisa pública de cada cidadezinha e também nas empresas privadas. A Zelotes, quem diria, mostra isto todo o dia. Mega-empresários que faziam parte de “conselhos de gestão” são corruptos e sonegadores. Ninguém se salva, do médico que faz consulta mais barata sem recibo, passando pelo professor que inventa uma “saída de campo” sem sentido para diminuir suas aulas, ninguém se salva.


O Brasil é Lula, mas também é Fernando Henrique. Ali é disputa de brasis. O congresso muito bem nos representa. Daquilo ali tudo é que é feito o Brasil. É do fazendeiro escravocrata como Caiado ou da fazendeira autoritária (embora impressionantemente digna) de Katia Abreu. Tudo é Brasil. Dilma não. Dilma não é daqui. Dilma é feita de algo diferente e este contraste constrangeu até os perpetradores do golpe. A segunda votação pela retirada dos seus direitos políticos fez com que até um dos mais cínicos entre os cínicos, Cristóvão Buarque, ficasse envergonhado de si. A diferença entre ele e Dilma não cabe nesta galáxia e o pouco de humanidade que ainda lhe restava rasgou-lhe as vísceras. “Eu fico com ela” disse o golpista, num misto de sincericídio e vergonha.


Dilma finalmente se achou no Brasil. Ela viu que não é daqui. Porém, ao fazer isto Dilma nos mostrou do que somos feitos, do que o Brasil é feito, desde o tempo do império (que por sinal tinha representante da família real na “tribuna de honra” a favor do golpe). O Brasil é feito disto aí. Não há como se exigir mais. Não se pede aos outros o que eles não têm. Nossa pequenez nos saltou aos olhos, nos magoou a alma, deu-nos calafrios por compreendermos que nos falta substância. Foi terrível. Aquela mulher íntegra, altiva de mais de três metros de altura e uma voz tonitroante a nos humilhar fazendo chacota daqueles anões sórdidos e mentecaptos com suas teses insustentáveis.


Vá embora do Brasil Dilma! Vá e deixe-nos com nossa histórica pequenez. Não suportamos vê-la como você é, por isto criamos a ideia de um “coração valente”, porque não sabemos reconhecer nossa tacanhice.



.oOo.Fernando Horta, professor, historiador, doutorando em Relações Internacionais UnB.

domingo, 21 de agosto de 2016

CEGUEIRA E LINCHAMENTO

RADUAN NASSAR




Cegueira e Linchamento




O inglês Robert Fisk, em artigo no jornal londrino "The Independent", afirma que, segundo as duras conclusões do relatório Chilcot sobre a invasão do Iraque, o ex-primeiro ministro Tony Blair e seu comparsa George W. Bush deveriam ser julgados por crimes de guerra, a exemplo de Nuremberg, que se ocupou dos remanescentes nazistas.

O poodle Blair se deslocava a Washington para conspirar com seu colega norte-americano a tomada do Iraque, a pretexto de este país ser detentor de armas de destruição em massa, comprovado depois como mentira, mas invasão levada a cabo com a morte de meio milhão de iraquianos.

Antes, durante o mesmo governo Bush, o brutal regime de sanções causou a morte de 1,7 milhão de civis iraquianos, metade crianças, segundo dados da ONU.

Ao consulado que representava um criminoso de guerra, Bush, o então deputado federal Michel Temer (como de resto nomes expressivos do tucanato) fornecia informações sobre o cenário político brasileiro. "Premonitório", Temer acenava com um candidato de seu partido à Presidência, segundo o site WikiLeaks, de Julian Assange.

Não estranhar que o interino Temer, seu cortejo de rabo preso e sabujos afins andem de braços dados com os tucanos, que estariam governando de fato o Brasil ou, uns e outros, fundindo-se em um só corpo, até que o tucanato desfeche contra Temer um novo golpe e nade de braçada com seu projeto de poder -atrelar-se ao neoliberalismo, apesar do atual diagnóstico: segundo publicação da BBC, levantamento da ONG britânica Oxfam, levado ao Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, a riqueza acumulada pelo 1% dos mais ricos do mundo equivale aos recursos dos 99% restantes. Segundo o estudo, a tendência de concentração da riqueza vem aumentando desde 2009.

O senador Aloysio Nunes foi às pressas a Washington no dia seguinte à votação do impeachment de Dilma Rousseff na exótica Câmara dos Deputados, como primeiro arranque para entregar o país ao neoliberalismo norte-americano.

Foi secundado por seu comparsa tucano, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, também interino-itinerante que, num giro mais amplo, articula "flexibilizar" Mercosul, Brics, Unasul e sabe-se lá mais o quê.

Além de comprometer a soberania brasileira, Serra atira ao lixo o protagonismo que o país tinha conseguido no plano internacional com a diplomacia ativa e altiva do chanceler Celso Amorim, retomando uma política exterior de vira-lata (que me perdoem os cães dessa espécie; reconheço que, na escala animal, estão acima de certos similares humanos).

A propósito, o tucano, com imenso bico devorador, é ave predadora, atacando filhotes indefesos em seus ninhos. Estamos bem providos em nossa fauna: tucano, vira-lata, gato angorá e ratazanas a dar com pau...

Episódio exemplar do mencionado protagonismo alcançado pelo Brasil aconteceu em Berlim (2009), quando, em tribunas lado a lado, a então poderosa Angela Merkel, depois de criticar duramente o programa nuclear do Irã, recebeu a resposta de Lula: os detentores de armas nucleares, ao não desativá-las, não têm autoridade moral para impor condições àquele país. Lula silenciou literalmente a chanceler alemã.

Vale também lembrar o pronunciamento de Lula de quase uma hora em Hamburgo (2009), em linguagem precisa, quando, interrompido várias vezes por aplausos de empresários alemães e brasileiros, foi ovacionado no final.

Que se passe à Lava Jato e a seus méritos, embora supostos, por se conduzirem em mão única, quando não na contramão, o que beira a obsessão. Espera-se que o juiz Serio Moro venha a se ocupar também de certos políticos "limpinhos e cheirosos", apesar da mão grande do inefável ministro do STF Gilmar Mendes.

Por sinal, seu discípulo, o senador Antonio Anastasia, reproduz a mão prestidigitadora do mestre: culpa Dilma e esconde suas exorbitantes pedaladas, quando governador de Minas Gerais.

Traços do perfil de Moro foram esboçados por Luiz Moniz Bandeira, professor universitário, cientista político e historiador, vivendo há anos na Alemanha. Em entrevista ao jornal argentino "Página/12", revela: Moro esteve em duas ocasiões nos EUA, recebendo treinamento. Em uma delas, participou de cursos no Departamento de Estado; em outra, na Universidade Harvard.

Segundo o WikiLeaks, juízes (incluindo Moro), promotores e policiais federais receberam formação em 2009, promovida pela embaixada norte-americana no Rio.

Em 8 de maio, Janio de Freitas, com seu habitual rigor crítico, afirmou nesta Folha que "Lula virou denunciado nas vésperas de uma votação decisiva para o impeachment. Assim como os grampos telefônicos, ilegais, foram divulgados por Moro quando Lula, se ministro, com sua experiência e talento incomum de negociador, talvez destorcesse a crise política e desse um arranjo administrativo".

Lula não assumiu a Casa Civil, foi rechaçado no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Gilmar Mendes, um goleirão sem rival na seleção e, no álbum, figurinha assim carimbada por um de seus pares, Joaquim Barbosa, popstar da época e hoje estrela cadente: "Vossa Excelência não está na rua, está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro... Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar".

Sugiro a eventuais leitores, mas não aos facciosos que, nos aeroportos, torciam o nariz ao ver gente simples que embarcava calçando sandálias Havaianas, que acessem o site Instituto Lula - o Brasil da Mudança.

Poderão dar conta de espantosas e incontestes realizações. Limito-me a destacar o programa Luz para Todos, que tirou mais de 15 milhões de brasileiros da escuridão, sobretudo nos casebres do sertão nordestino e da região amazônica. E sugiro o amparo do adágio popular: pior cego é aquele que não quer ver.

A não esquecer: Lula abriu as portas do Planalto aos catadores de matérias recicláveis, profissionalizando-os, sancionou a Lei Maria da Penha, fundamental à proteção das mulheres, e o Estatuto da Igualdade Racial, que tem como objetivo políticas públicas que promovam igualdade de oportunidades e combate à discriminação.

Que o PT tenha cometido erros, alguns até graves (quem não os comete?), mas menos que Fernando Henrique Cardoso, que recorria ao "Engavetador Geral da República", à privataria e a muitos outros expedientes, como a aventada compra de votos para sua reeleição.

A corrupção, uma enfermidade mundial, decorre no Brasil do sistema político, atingindo a quase totalidade dos partidos. Contudo, Lula propiciou, como nunca antes, o desempenho livre dos órgãos de investigação, como Ministério Público e Polícia Federal, ao contrário do que faziam governos anteriores que controlavam essas instituições.

A registrar ainda, por importante: as gestões petistas nunca falaram em "flexibilizar" a CLT, a Previdência, a escola pública, o SUS, as estatais, o pré-sal inclusive e sabe-se lá mais o quê, propostas engatilhadas pelos interinos (algumas levianamente já disparadas), a causar prejuízo incalculável ao Brasil e aos trabalhadores.

Sem vínculo com qualquer partido político, assisto com tristeza a todo o artificioso esquema de linchamento a que Lula vem sendo exposto, depois de ter conduzido o mais amplo processo de inclusão social que o Brasil conheceu em toda a sua história.



RADUAN NASSAR, 80, é autor dos livros "Lavoura Arcaica" (1975), "Um Copo de Cólera" (1978) e "Menina a Caminho e Outros Textos" (1997). Recebeu neste ano o Prêmio Camões, principal troféu literário da língua portuguesa

sábado, 6 de agosto de 2016