quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Machismo? É possível. Covardia? Talvez.


Fábio Júnior, os brazucas-nova-iorquinos e o palavrão



Mauro Cezar



Este não é um texto em defesa de político algum. São apenas algumas linhas tentando provocar uma reflexão sobre a necessidade de o brasileiro aprender a conviver com a democracia sem passar do ponto, sem cair na baixaria gratuita, sem aderir a oportunismos que agridem e não nos levam a avanço algum. Se não for capaz de pensar a respeito, não leia, por gentileza.



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Em Nova York, no Brazilian Day, domingo passado, Fábio Júnior, cantor e ator de 61 anos, aproveitou um intervalo em sua apresentação para se enrolar na bandeira brasileira e falar em orgulho etc. Em seguida, atacou a corrupção, o que poderia ser louvável, não fosse a forma seletiva que caracteriza tantos “insatisfeitos” por aí.



O cantor e ator Fábio Júnior em Nova York



Não demorou a motivar o dissimulado cântico “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, entre os brazucas-nova-iorquinos. Atacou Dilma, Lula, Zé Dirceu, PMDB… Até então ok, direito de expressão é isso aí, concordem ou não com Fábio Júnior. Mas então vem o escorregão. Os palavrões da platéia e a carona do artista.

“Ei, Dilma, vai tomar no cu”, gritavam alguns. E o que fez Fábio Júnior? Ergueu o microfone com a mão direita enquanto com a esquerda segurava o violão. Fez questão de amplificar a baixaria, a forma deselegante e machista com a qual a presidente da República tem sido tratada nesses protestos. O cúmulo da falta de argumentos.

Não foi o bastante. O cantor ainda mandou um “Ei, Dilma” em meio aos gritos e em seguida, disparou: “Vocês sabem onde está aquele dedinho que o Lula perdeu, não? Onde é que ele enfiou? No nosso. E dói pra caramba”. Não tenho condições de avaliar a dor de Fábio Júnior nesse momento, mas se ele diz que dói, é porque deve doer mesmo.







Mas por que mandam Dilma “tomar no cu”? Algum dos agressores verbais tem provas de que ela roubou? Conseguiram fazer uma inquestionável conexão entre ela e os escândalos correntes a ponto de derrubá-la? Já pensaram que é no governo de Dilma que José Dirceu, outrora o todo-poderoso do petismo, entre outros, foi merecidamente condenado e preso? E empreiteiros também?

Seria sensacional se Fábio Júnior discursasse apresentando fatos, argumentos e relatando situações que expliquem sua repentina transformação em ativista político. Ele realmente agregaria algo. Não sei se é capaz disso, mas poderia pelo menos tentar. Pois abrir o microfone enquanto mandam alguém “tomar no cu” não exige muito esforço intelectual dos envolvidos.

Há, sim, motivos de sobra para que as pessoas questionem o atual governo e a própria presidente fez uma espécie de mea-culpa quando disse no dia seguinte “se cometemos erros, e isso é possível, vamos superá-los e seguir em frente”. Protestem, peçam renúncia, que se faça tudo o que o ambiente democrático permite. Mas é preciso baixaria tamanha?

Mesmo Fernando Collor de Mello, afastado da presidência há pouco mais de duas décadas, não era xingado dessa forma. Machismo? É possível. Covardia? Talvez. Falta de argumentos seguros e razoáveis por parte de tantos? Com certeza. A forma como se protesta é muitas vezes baixa, vil e até mesmo cretina.

Nos anos de chumbo, levantar a mão contra o governo poderia ser a assinatura da própria sentença de morte. Pessoas eram sequestradas pelo regime, torturadas e assassinadas. No ano passado, a Comissão Nacional da Verdade confirmou 434 mortes e desaparecimentos de vítimas da ditadura militar, sendo que 210 nunca mais foram encontradas — clique aqui para ler.

E naquela década de 1970, Dilma Vana Rousseff foi torturada nos porões da ditadura. Em Juiz de Fora, “foi colocada no pau de arara, apanhou de palmatória, levou choques e socos que causaram problemas graves na sua arcada dentária”, como detalha o texto que você pode acessar clicando aqui.

Vivemos num ambiente democrático e quem hoje ocupa a presidência lutou e se arriscou para chegarmos a tal cenário, no qual até mesmo quem ocupa o mais importante cargo do país pode ser xingado. E se é democrático assim deve ser. Mas está mais do que na hora de parte do povo aprender a conviver com tal liberdade.

A ofensa pura e simples, o “Ei, Dilma, vai tomar no cu” não alimenta o debate, não esclarece, não leva a nada. Por que no passado as pessoas não saíam às ruas dando a mesma sugestão aos generais no poder? E havia motivos para indignação, além dos assassinatos de quem era contra o regime — clique aqui e conheça histórias de corrupção durante a ditadura militar, e também aqui para entender melhor como funcionava. Aproveitando, conhecem quantos torturadores e/ou corruptos daqueles tempos que foram condenados e presos?

Fábio Júnior tinha entre 18 e 19 anos e já havia iniciado a carreira artística enquanto Dilma era torturada. Era bem grandinho. Jamais ouvi dizer que tenha de alguma forma se envolvido com política ou contestado a ditadura. É possível até que o tenha feito algo, afinal, jovens de sua geração reagiram e muitos foram presos, torturados, mortos.

Mas desconheço qualquer ação do gênero que dele tenha partido. Compreensível. Não era seguro protestar. Ainda bem que tudo mudou. Hoje ele e tantos brasileiros insatisfeitos que vivem em Nova York mas seguem apaixonados pelo Brasil podem mandar a presidente “tomar no cu”. E sabem que não serão mortos por isso. E por aqui alguns ainda comparam o momento de nosso país ao da Venezuela, por exemplo. Santa ignorância.

Não, eu não sou fã das músicas de Fábio Júnior, o preferia como ator em “Ciranda Cirandinha” no ano de 1978, ainda sob regime militar, quando usava visual um tanto rebelde. Na televisão, naturalmente. Assim, pior do que levar o microfone em direção à própria boca para cantar, foi erguê-lo ao público com o intuito de amplificar um xingamento oportunista, vazio. Como sua repentina indignação.



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