sexta-feira, 16 de novembro de 2012

e você... tem medo?


Quem tem medo do lobo mau?

Por Fernando Falcão (*)
É o lobo! É o lobo! Já gritava Pedro, aterrorizando sua aldeia. Assim como Pedro, Chapeuzinho Vermelho e os Três Porquinhos também são vítimas daquele que incorpora a representação do mal nas estórias infantis. Embora seja recorrente, o lobo, nem sempre é apresentado como a personificação do mal. No Subcontinente Indiano, temos a estória de Mogli, o menino-lobo, onde diversamente do que ocorre nas estórias de origem europeia, eles representam um papel “bom”, salvando e protegendo Mogli das ameaças da floresta. Neste caso o papel do vilão é reservado a outro predador, mais poderoso: o tigre Jangal Kan, também capaz de “assustar” e ameaçar os lobos.
Além do universo infantil, também nos deparamos com a associação do lobo a características negativas e sobrenaturais. Expressões como “lobo em pele de cordeiro”, “homem, lobo do homem”, a lenda do lobisomem, o lobo Fenris ouFenrir, da mitologia nórdica, e assim por diante. Para confirmar a regra, como exemplo “positivo”, temos a lenda da loba que salva Rômulo, fundador de Roma, e seu irmão gêmeo Remo, amamentando-os.
Relativas a um tempo em que constávamos no cardápio de “(…) grandes e terríveis feras comedoras de carne”, conforme Quammen [1] , hoje, certamente, com a grande maioria da população vivendo nas cidades, são poucos os que ainda estão expostos a esse tipo de perigo. Também é bastante claro o objetivo didático dessas estórias, no sentido de transmitir a necessidade de cuidado e prudência. Mas porquê elas fascinam ainda hoje, quando vivemos tão longe dessa realidade e os perigos que enfrentamos são outros? Certamente o uso dos automóveis mata muito mais que qualquer predador, no entanto, temos uma fascinação infantil por estas máquinas. Quem não se lembra, por exemplo, do fusca Herbie, do filme Se meu fusca falasse [2] . Como ele temos outros tantos exemplos de estórias, filmes e desenhos animados onde os automóveis são apresentadas de maneira humanizada.
A persistência desse “mito” é que não deixa de ser surpreendente. Embora esse medo talvez esteja “(…) entre as formas mais primitivas de autoconsciência humana estava a consciência de se ser carne (…)” e ancestralmente presente em nosso subconsciente, algumas análises apontam que a partir da Idade Média, isso haveria se exacerbado. Ao utilizar a metáfora do rebanho para o seu conjunto de fiéis, a Igreja Católica, por analogia, associou a ameaça que o lobo (predador) representa para os rebanhos, aos perigos que o demônio e todas as tentações representam para os seus fiéis. Certamente, em uma sociedade monopolizada pela Igreja Católica, onde o seu poder estava acima de tudo, a metáfora foi poderosa, potencializando antigos temores e, persistente, herdeiros que somos das “culturas neoeuropeias” [3]. Mesmo quando projetamos o futuro, como é o caso das estórias de ficção científica, os vilões assumem as características dos predadores. O filme Alien, o oitavo passageiro [4] é só mais um exemplo dessa persistência.
Recentemente, numa feira de livros de sua escolinha, minha filha escolheu um livro dos personagens Gaspar e Lisa [5], da série As catástrofes de Lisa. Para aqueles não familiarizados com o universo infantil atual, são dois cachorrinhos amigos e suas famílias representados de maneira humanizada. Neste livro, após assistir a um filme, Lisa passa a ter pesadelos. Adivinhem quem aparece todas as noites para aterrorizá-la? O lobo! O vilão nosso de cada dia, mesmo Lisa vivendo em um ambiente totalmente urbano. O pai, para auxiliar a filha a superar seu medo, leva-a ao zoológico, onde Lisa se depara com um lobo real. Ao conhecê-lo, naquela condição, vê um animal melancólico, triste, apático, inofensivo.
Mas afinal quem é nosso “vilão favorito”? Dentre as três espécies de lobos, os lobos cinzentos (Canis lupus), são ancestrais de nossos cães (Canis lupus familiaris) e identificados com os vilões das estórias por terem sua área de ocorrência principalmente na Europa e Ásia, regiões colonizadoras e com ocupação humana mais remota. Como todos os predadores, estão no topo da pirâmide alimentar dos ecossistemas em que vivem. Necessitam de grandes áreas para sobreviver e atuam como agentes reguladores dessas áreas promovendo a manutenção do equilíbrio ecológico desses hábitats.
Apresentados como espécie bandeira em nossa mitologia, podemos, na verdade, utilizá-los para simbolizar o drama vivido por todas as espécies de grandes predadores como os tigres, leões,ursos, crocodilos, alguns exemplos “internacionais”, ou as onças[6], pumas [7] , tubarões [8] , lobos-guará [9], dentre tantos outros exemplos brasileiros. Seja pela caça, seja pela destruição sistemática dos locais onde vivem, a cada ano milhares desaparecem da face da terra. Vítimas da nossa arrogância e ignorância, elas correm risco iminente de extinção. Alguns especialistas apontam 2150 [10] como o ano em que atingiremos nosso objetivo. Quando isso ocorrer, talvez só restem aqueles indivíduos encarcerados tais como o lobo de Lisa: tristes, melancólicos, apáticos, a espera da “morte eterna” de sua espécie e a Pedro só restará gritar: é o homem!
(*) Arquiteto

(**) Agradecimento a Cibele Indrusiak pelos comentários
NOTAS
[1] Quammen, David. Monstro de Deus: Feras predadoras:história, ciência e mito, p.11.Companhia das Letras. São Paulo, 2007.

[2] Filme do diretor Robert Stevenson, 1968.
[3] Crosby, Alfred W.: Imperialismo ecológico: A expansão biológica da Europa 900-1900. Companhia de Bolso, São Paulo, 2011.
[4] Filme do diretor Ridley Scoth, 1979.
[5] Gutmann, Anne. Hallensberg, Georg: Os pesadelos de Lisa. Cosac Naify. São Paulo, 2003.
[6] Decreto Estadual nº 4.672/2002 – Lista de animais ameaçados de extinção no RS. Panthera onca – Categoria de ameaça: Criticamente em perigo.
[7] Idem. Puma concolor – Categoria de ameaça: Em perigo.
[8] Instrução Normativa nº 05 / 2004 – Ministério do Meio Ambiente: Várias espécies
[9] Decreto Estadual nº 4.672/2002 – Lista de animais ameaçados de extinção no RS. Chrysocyon brachyurus – Categoria de ameaça: Criticamente em perigo.

[10] Quammen, David. Idem, p.21.
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