domingo, 12 de dezembro de 2010

agência gaúcha de desenvolvimento e promoção do investimento

Mauro Knijnik: “Hoje, a capacidade de investimento do RS beira o zero”

Sul21


Bruno Alencastro/Sul21
Foto: Bruno Alencastro/Sul21

Igor Natusch

A tarefa de Mauro Knijnik à frente da Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI) longe está de ser das mais fáceis. Afinal, a pasta, que será criada pelo governo de Tarso Genro (PT), vai tratar diretamente da busca de investimentos para o estado, além de estabelecer projetos de desenvolvimento para as regiões e microrregiões do RS. O economista, formado pela UFRGS, já vivenciou desafio semelhante no final dos anos 70, quando foi secretário de Fazenda do governo de Amaral de Souza, ainda nos dias de ditadura militar. Mas, segundo o próprio Knijnik, a situação agora é bem mais espinhosa. “Hoje, a capacidade de investimento do RS beira o zero”, afirma o empresário, que também trabalhou como técnico no Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).

Mauro Knijnik recebeu a reportagem do Sul21 para uma breve conversa em seu escritório, em Porto Alegre. Estava cercado de tabelas e relatórios – segundo ele, parte do estudo que faz para se preparar para a tarefa que o aguarda. “Não tenho tido tempo para quase nada, sempre tenho coisas me esperando”, comentou Knijnik, em tom de brincadeira. Na entrevista, Mauro Knijnik fala sobre algumas dessas coisas – entre elas, a situação dos cofres públicos, as baixas taxas de desenvolvimento da Metade Sul do RS, a possível adoção de linhas diferenciadas de crédito e a necessidade de atrair investidores comprometidos com os principais aspectos da matriz produtora do estado.

Sul21 – O senhor será responsável pela Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI). Trata-se de uma pasta nova, criada especificamente pelo governo Tarso. Quais são as principais atribuições dela? Como vai ser o trabalho com as secretarias de Desenvolvimento e de Planejamento e Gestão?

Mauro Knijnik - Nós vamos ter a Secretaria de Desenvolvimento, e abaixo dela virá a Agência de Desenvolvimento (AGDI). Tem muita gente confundindo a secretaria com a agência, mas não é a mesma coisa. A agência será o braço executivo da secretaria, assim como a agência de fomento será a Caixa. Nós pretendemos dar uma força muito grande para a Caixa, através de um processo de capitalização, para que ela se transforme de fato em um banco de desenvolvimento. Com essa inversão de recursos, a Caixa vai também poder, de uma forma restrita, atender também as linhas que não estão enquadradas dentro do BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul) e que o estado tenha interesse. Então, o programa de desenvolvimento será composto pela secretaria, pela agência, Caixa Estadual e BRDE. Será um conjunto.

Sul21 – E quais são as principais funções da AGDI? Será uma pasta dedicada especificamente a trazer investimentos para o RS, ou terá outras atribuições?

MK – Antes de trazer (investimentos), vamos ter um contato muito grande com o comércio e a indústria locais. Ver o que eles precisam para crescer. Em um segundo momento, vamos ver os planos que o atual governo (Yeda) está trabalhando com algumas empresas, e tentar abrir o leque. Mas nunca vamos tentar buscar empresas por empresas, queremos empresas que se insiram no cenário econômico do estado do Rio Grande do Sul. Por exemplo, o estado é um grande produtor de grãos. Tem alguma empresa, em nível mundial, que beneficie grãos, agregando valor? É esse tipo de investimento que nos interessa. Estive visitando recentemente o reitor da Unisinos, e ele me mostrou um plano que eles desenvolvem na área acadêmica, que pretende começar a fazer estudos a respeito. Temos que buscar, de forma concreta, quais são as aptidões econômicas do estado, e trabalhar no sentido de potencializá-las.

Bruno Alencastro/Sul21
Foto: Bruno Alencastro/Sul21

Sul21 – Nesse sentido, não resta dúvida que um dos principais desafios está no desenvolvimento da Metade Sul do estado. É uma área que sofre há muito tempo, e que não consegue alcançar níveis significativos de crescimento. Existem planos específicos para essa região?

MK – Nós vamos pensar o Rio Grande como um todo, mas é claro que vamos ver essa região com cuidado. Ela é atingida por um problema que se mantém há muito tempo e que nós vamos tentar ajudar a encontrar uma solução. Chamo atenção que Polo Naval de Rio Grande já é um grande caminho para isso. Rio Grande tem um problema de mão de obra, inclusive. É um exemplo, mas é claro que temos que buscar outras soluções para os problemas da Metade Sul.

Sul21 – Então, a Metade Sul é uma prioridade? Vai receber investimentos em peso?

MK – É o nosso propósito. Não sei se conseguiremos atingir todos os objetivos, mas haverá um esforço enorme nesse sentido. Se dará certo, o tempo dirá. Esperamos que sim.

Sul21 – Será dado algum tipo de prioridade a investimentos que se proponham a atuar na Metade Sul?

MK – Na verdade, não. Daremos prioridade à viabilidade dos investimentos, de acordo com suas regiões. Para decidir se é melhor investir em um segmento ou outro, uma região ou outra, temos que avaliar a partir da viabilidade de cada projeto. Não podemos localizar um investimento em uma região que, por suas características, acabe o tornando menos competitivo. Isso é algo que os empresários irão escolher. Mas vamos dar uma atenção especial para a Metade Sul, em um processo de negociação e diálogo com os investidores.

Sul21 – E para atrair esses investidores? Como essas pessoas serão atraídas para o RS?

MK – Isso é algo que ainda está sendo estudado. Há poucos dias, por exemplo, uma pessoa que trabalha comigo abriu na internet vários sites de agências como a nossa, no Brasil e no mundo. Estudamos essas agências, e nossa conclusão acabou sendo no sentido de que todo mundo está oferecendo, basicamente, a mesma coisa. Ele abriu, por exemplo, o site de uma agência na Lituânia, que oferece as mesmas coisas: incentivos, terrenos… Então, cada caso vai ser um caso, e iremos ver se conseguimos atender nossas necessidades com os mecanismos que já temos, ou se vamos ter que aprimorá-los para chegarmos lá com mais eficiência.

Bruno Alencastro/Sul21
Foto: Bruno Alencastro/Sul21

Sul21 – Iremos oferecer linhas de crédito, terrenos, redução de ICMS?

MK – Isso seria, digamos, o tradicional. Nós queremos ver se conseguimos ir um pouco além, encontrar algum diferencial. Isso nós ainda não temos, mas estamos em busca.

Sul21 – O senhor atuou como secretário de Fazenda do governo de Amaral de Souza (entre 1979 e 1983, época em que o país ainda era comandado pela ditadura militar). O que mudou daquela época para agora? É mais difícil conseguir investimentos agora? Qual é a nossa realidade, em comparação com aquela época?

MK – Bom, uma diferença grande é que naquela época eu tinha 38 anos (risos). Mas é importante dizer que, naquela época, a situação financeira do estado era muito melhor. Isso não é culpa de ninguém em especial, porque ninguém assume um governo pensando “agora vou dificultar a situação financeira do estado”. Temos que levar em conta as circunstâncias, características do estado, como o fato de sermos um estado com um setor público mais antigo, o que gera aposentadorias maiores. Hoje, a capacidade de investimento beira o zero. Então, nossos companheiros da área fazendária, junto conosco (da Agência) e com todo o governo liderado pelo Tarso, terão que achar algum tipo de solução para essa situação. Senão, nós vamos ser apenas gerentes de pessoal – ou seja, vamos arrecadar recursos só para pagar a folha salarial.

Bruno Alencastro/Sul21
Foto: Bruno Alencastro/Sul21

Sul21 – E quanto ao panorama do RS dentro do cenário brasileiro e internacional? O que mudou?

MK – Acho que a internacionalização e a globalização já se tornaram fatos reais, e essa realidade precisa ser estudada e levada em consideração. Cabe aos países ditos subdesenvolvidos examinar o que é interessante para eles próprios, de forma muito específica. Não globalizar apenas por globalizar, entende? Dou um exemplo concreto: acompanhei a abertura do mercado de informática, que eu acho que era realmente algo muito necessário, mas que, em minha opinião, foi mal negociado (pelo Brasil). Nós não abrimos, nós escancaramos, sem nenhuma contrapartida. Hoje, a gente importa quase tudo, e as empresas produtoras de componentes para esse mercado encaram o Brasil quase que como um grande depósito de distribuição. Ora, com o mercado que nós temos… Não quero ser fechado, não se trata disso. Mas vamos abrir com alguma negociação, em termos que beneficiem o estado.

Sul21 – O senhor acabou de se referir às dificuldades financeiras do RS. Sem equilíbrio nas contas públicas, fica quase impossível investir. Como enfrentar esse cenário?

MK – Olha, essa é a pergunta mais difícil que tu fizeste nessa entrevista (risos). Posso te dizer apenas que vamos tentar. É a nossa prioridade total. Sem isso, não se pode fazer mais nada.

Sul21 – O senhor acredita que isso pode ser mudado? Está confiante?

MK – Estou confiante. Acho que o governo Tarso será muito marcante na história do Rio Grande do Sul.

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