segunda-feira, 1 de novembro de 2010

as anas, marias, noras

Dilma, Aninha e a confiança das mulheres


por Rodrigo Vianna


Só tenho filhos homens – três garotos. O mais velho já está com 15 anos. O segundo fez 13 (13!) essa semana. O caçula completa 2 anos sábado que vem. Meu irmão também: dois filhos homens. Nossa família parece aquela velha propaganda de Malboro: “onde os homens se encontram”. A única garotinha na nova geração é minha sobrinha Ana, filha da irmã Heloisa. Eu estava olhando pra Dilma na TV, e pensando na Aninha.


A Aninha vai crescer num país governado por uma mulher. Imagino o caráter simbólico disso. É um efeito semelhante ao produzido pela presença de Lula na presidência, para milhares e milhares de brasileiros que vêm dos rincões e das periferias. Acostumados a baixar a cabeça para os “doutores”, ganharam confiança e auto-estima ao ver que um “de baixo” chegou lá. E sem trair a origem.

Imagino que o mesmo vá acontecer com as mulheres frente à vitória de Dilma. Para as mais velhas, servirá como bálsamo por anos a anos de alguma subserviência. Para as novas e as novíssimas (como a Aninha), será uma novidade difícil de dimensionar, algo que nem passa pela esfera do ”político”.

Dilma não fez uma campanha martelando a questão feminina. Não. Ela não ganhou por ser “mulher”. Mas por representar a continuidade de um projeto que deu certo – apesar das limitações e dos erros do governo Lula. E por representar a continuidade do “fio da história”. Dilma representa as lutas que “vêm de longe”, como escrevi aqui.

Mas, mesmo sem ter feito a campanha da “mulher”, Dilma será a “mulher” no poder. Será a demonstração de que as mulheres podem comandar, podem liderar.

No meu dia-a-dia, trabalho com muitas mulheres. As redações, no Jornalismo do século XXI, são majoritariamente femininas. Mas nas chefias há pouquíssimas mulheres. Ok, há uma questão prática, biológica. As mulheres geram filhos, isso trunca um pouco as carreiras. Apesar dos homens - cada vez mais – assumirem certas funções na criação dos filhos, nada substitui a mãe no primeiro ano de vida. E é bom que seja assim. É essa presença da mãe que dá confiança e auto-estima pros filhos. Os pais ajudam, tem um papel importante no médio e longo prazos. Mas na primeira infância, a mãe é a mãe.

Apesar disso, acho que a presença reduzida de mulheres nas chefias (e não só na minha profissão) não se explica só por esse fato. Há um dado cultural, há uma tendência a se subestimar. Quantas vezes, vejo os homens cantarem de galo, enquanto as mulheres – mesmo as que escrevem bem e são boas profissionais – parecerem intimidadas: “será que eu sei fazer?”

A campanha de Serra jogou com isso: “será que, sem o Lula, Dilma dá conta?” Também nesse ponto, a campanha de Serra foi conservadora, nefasta, contrária às mudanças. O curioso: isso pega mais entre as mulheres do que entre os homens! Sim, as pesquisas mostraram que Dilma teve vantagem mais larga entre os homens do que entre as mulheres – que parecem ainda não confiar totalmente em entregar o comando ao sexo feminino.

Lembro de minha vó, que dizia: “não gosto de médica mulher, não passa confiança; só vou em médico homem”. Isso nos anos 80. É uma pena que tantas mulheres passem pela vida com essa sensação ainda – de certa “incapacidade”. Mulheres podem ser boas ou más. Como os homens. Podem ser solidárias ou egoístas. Podem ser de direita ou de esquerda. Mas antes de mais nada precisam confiar mais na sua (delas) capacidade!

Dilma pode ajudar as mulheres a superar esse complexo de vira-latas que ainda afeta tantas brasileiras. O mundo ficará um pouquinho melhor se isso acontecer.

E a Aninha – minha sobrinha querida -vai crescer ainda mais confiante do que já é!

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