sexta-feira, 8 de maio de 2026

Conversando

 André Luiz Thiago

Hoje eu estava conversando com uma pessoa e, inevitavelmente, o assunto chegou na política.
E quando ela percebeu que eu sou de esquerda, soltou aquela frase pronta, repetida como um mantra por quem nunca parou pra pensar profundamente no Brasil:

“Mas o Lula tirou o pobre da fome e da pobreza?”

Eu fiquei alguns segundos em silêncio.
Porque às vezes a resposta não cabe numa discussão rápida.
Ela cabe na memória.
E eu respondi:

“Claro que tirou. Mas depende da idade de quem está falando.”

Quem tem menos de 30 anos talvez não consiga compreender totalmente o que era ser pobre no Brasil há 25 ou 30 anos. Não entender por ignorância. Entender porque simplesmente não viveu aquilo. Não viu o Brasil dos boias-frias, dos cortadores de cana, do operário metalúrgico destruído pelo trabalho pesado, da empregada doméstica que passava a vida inteira limpando a casa dos outros e morria sem nunca ter tido uma casa digna pra chamar de sua.
O pobre brasileiro daquela época não sonhava.
O pobre sobrevivia.
Estudar?
Pra maioria, estudar era luxo.
Universidade então parecia coisa de outro planeta. Filho de pobre fazia, no máximo, um curso técnico no Senai, quando conseguia. E isso já era considerado uma vitória gigantesca dentro de casa. Não existia essa conversa bonita de intercâmbio, faculdade particular financiada, cotas, expansão universitária, FIES, ProUni. O sistema educacional brasileiro foi construído durante décadas pra selecionar quem podia subir e quem deveria permanecer servindo.
E pobre aceitava isso porque aprendeu desde cedo que “cada um nasce pra uma coisa”.
Casa própria?
O pobre não escolhia onde morar. O pobre aceitava o que dava. Conjunto habitacional apertado, periferia sem asfalto, bairro sem saneamento, sem ônibus decente, sem segurança. A família inteira espremida em poucos cômodos, muitas vezes levantados aos poucos, no fim de semana, com ajuda de parentes e vizinhos.
Carro? Moto?
Isso era símbolo de classe média.
Pobre andava de ônibus lotado. Quando tinha dinheiro pro ônibus.
E muita gente que hoje fala com desprezo de políticas sociais esqueceu que existia uma época em que pra tomar leite mais barato a população acordava de madrugada pra enfrentar fila em associação de bairro. Esqueceu da inflação destruindo salário. Esqueceu da geladeira vazia no fim do mês. Esqueceu da humilhação de comprar fiado no mercadinho e pedir “pra anotar”.
O Brasil sempre foi especialista em fazer o pobre acreditar que sua dor era normal.
E talvez a maior inteligência do sistema tenha sido exatamente essa: permitir uma melhora na vida do pobre sem permitir que ele desenvolvesse consciência de classe.
Porque hoje muita gente mora num apartamento de 250 ou 300 mil reais. Tem carro. Tem moto. Tem televisão gigante na sala. Viaja parcelado. Tem filho na faculdade.
Mas continua sendo pobre.
Só que agora é um pobre convencido de que virou rico.
O sistema colocou na cabeça dessas pessoas que pobreza é apenas passar fome. E não é. Pobreza também é viver sem segurança financeira, trabalhar até adoecer, depender de salário pra sobreviver, ter medo do desemprego, parcelar comida, não conseguir acumular patrimônio real e continuar sendo explorado enquanto acredita que “venceu”.
O pobre brasileiro melhorou de vida, sim.
E melhorou muito.
Mas essa melhora não caiu do céu. Não foi bondade de empresário. Não foi milagre do mercado. Foi resultado de pressão popular, políticas públicas, acesso à educação, valorização do salário mínimo, programas sociais e inclusão econômica.
Tudo aquilo que durante décadas disseram que era “gasto”, “esmola” ou “coisa de comunista”.
O problema é que parte das pessoas ascendeu um pouco socialmente e começou imediatamente a odiar os pobres que ainda ficaram pra trás. Como se esquecer a própria origem fosse prova de sucesso.
Mas quem tem memória… lembra.
Lembra do pai chegando do trabalho com a mão destruída da fábrica.
Lembra da mãe pegando dois ônibus pra trabalhar como doméstica.
Lembra da marmita fria do boia-fria no meio do canavial.
Lembra do chão de terra.
Lembra da roupa doada.
Lembra da carne sendo comida só no domingo.
Lembra do medo constante de faltar tudo.
E principalmente: lembra que o pobre brasileiro nunca teve privilégios. O que ele teve, pela primeira vez na história, foi um pequeno acesso à dignidade.
E talvez seja exatamente isso que incomode tanta gente até hoje.

Ass : André Luiz Thiago também conhecido por André negrão

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