sábado, 8 de março de 2014

"o que é redondo?"


Lembrar Simone no dia da mulher


Juremir Machado - 8 de março de 2014 -


Escrevi este texto quando foi necessário.

Simone não fez cem anos

Ela foi a mulher essencial do século XX, se deixarmos de lado musas da aparência como Greta Garbo, Marlene Dietrich e Marilyn Monroe. Rompeu com tudo. Rasgou o sutiã, teve amores necessários e amores contingentes, renegou a família burguesa e garantiu que não se nasce mulher. Torna-se mulher. Estava falando da condição cultural do papel feminino, que seria preponderante em relação ao aspecto anatômico. Afinal, segundo o seu mestre e amante, a existência precede a essência. Em alguns casos, porém, nem a soma da anatomia com a cultura salvava as aparências. A solução foi mesmo abandoná-las. Muita gente de anatomia oposta aproveitou essa deixa e foi no embalo do liberou geral. No último dia 9 de janeiro (2008), se estivesse viva, a feminista, escritora, polemista, pensadora e existencialista francesa Simone de Beauvoir, a eterna companheira do filósofo Jean-Paul Sartre, teria completado cem anos. Mas ela teve a elegância de morrer antes, em 1986.

Escapou de muitas coisas impressionantes, entre as quais a queda do muro de Berlim, a ascensão do fundamentalismo islâmico, os anos Britney Spears e as reportagens sobre pessoas que fazem cem anos. Já imaginaram o encontro que poderia ter sido promovido entre ela e Oscar Niemayer em Paris ou no Rio de Janeiro? Afinal, ambos produziram obras que, apesar de fracassadas quanto à funcionalidade tão almejada, continuam chamando atenção por uma aparente grandeza. Sem querer, os dois foram excepcionais praticantes de uma técnica conhecida como trompe-l’œil através da qual se provoca uma ilusão de perspectiva. « Os mandarins », romance de Simone, Prix Goncourt de 1954, que descreve o imaginário francês entre 1944 e 1948, lembra certos monumentos de Niemayer em Brasília: é grande, sufocante e pouco funcional ou simplesmente inútil.

Um sucesso!

Em 1949, Simone publicou “O segundo sexo”. É nesse livro que ela expõe o essencial das suas idéias sobre a condição feminina. É dele que lhe vem a fama. É ele que inspirou a primeira geração de feministas a dar um jeito na vida. Depois disso, Gilles Lipovetsky já escreveu a “Terceira mulher”. Pelo jeito, há uma inflação de sexos. Um alerta: “O terceiro homem”, de Graham Greene, nada tem com isso. Simone acreditava que toda a sua vida, mesmo a mais corriqueira e banal, merecia figurar em livros. Nunca lhe faltou, portanto, material para encher páginas e páginas de confidências, memórias, ficções quase verdadeiras e verdadeiras ficções sobre como as coisas de fato aconteceram. Era uma máquina de narração do seu cotidiano.

Tudo lhe parecia interessante. Tornava-se.

Simone e Sartre viveram uma “relação aberta”, nome que se dava, na época, à possibilidade de pular a cerca sem ser cobrado ostensivamente, salvo se a coisa ficasse séria demais e ameaçasse o amor principal, pois tudo sempre tem uma hierarquia. O mestre adorava traçar uma seguidora. O ciúme devia ser recalcado ou transformado em obra literária. Isso deve em parte explicar a extensa produção do casal. Os cem anos de Simone, que não aconteceram, deixam uma indagação no ar: por que essa nossa fixação por datas “redondas”? Por que cem é redondo é não 99? Por que não comemoramos os 84 anos, quatro meses e vinte e um dias que algum gênio completaria hoje se não tivesse sido obrigado a partir mais cedo? Fazer o quê?

A mídia não crê em obras. Só em datas redondas.

O que é redondo?
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