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sábado, 16 de janeiro de 2016

Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.


Agora eu não sou mais 'Charlie Hebdo'








Por Flavio Aguiar, na Rede Brasil Atual:


Agora eu não sou mais Charlie Hebdo. Eu sou um refugiado sírio, eu sou um muçulmano perseguido, eu sou um norte-africano afogado no Mediterrâneo, um judeu em Auschwitz, um africano escravizado, um índio desaparecido em nome da Conquista europeia, uma criança vietnamita bombardeada com napalm nos anos 60 ou setenta etc. … Um menino morto na praia onde ele deveria brincar.

Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.

Quando houve o atentado contra a redação do Charlie Hebdo, perpetrado por uma quadrilha de fanáticos que agiam em nome de uma visão completamente distorcida do Islã, eu e minha esposa saímos aqui nas ruas de Berlim, portando na lapela, com luto e orgulho, a divisa "Ich bin Charlie Hebdo", "Eu sou Charlie Hebdo".

A loja vizinha, de amáveis quinquilharias, de propriedade de um sírio, pusera na porta, em destaque, uma bandeira francesa. Não sou amigo de bandeiradas nacionalistas, mas aquilo era muito diferente Muito mais do que isto, era uma homenagem ao luto diante da estupidez do ato perpetrado, que incluía um ataque covarde a um supermercado de produtos judaicos.

Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.

Tenho visto e já escrevi sobre a paranoia histérica que vem tomando conta da Europa depois desta série de atrocidades – não vamos brincar com isto – cometidas, tomando o nome de Alá em vão. Se os terroristas perpetradores destes crimes lesa-humanidade pensam que serão recebidos no Paraíso, espero que se deem conta do que na realidade fizeram ao arderem no mármore do inferno pela eternidade.

Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.

A histeria paranoica piorou muito desde o "arrastão sexual" perpetrado por um milhar de energúmenos embriagados no Hauptbahnhof de Colônia, na Alemanha, atacando covardemente mulheres indefesas com todo o tipo de ofensa, que foram do roubo de celulares ao estupro. Agiam em nome de Alá? Foram descritos como "de aparência árabe ou norte-africana". Não duvido.

Mas a raiz deste comportamento não é islâmica, não é o Corão. A raiz é o descaso com que a juventude é tratada nas nossas metrópoles ocidentais. Isto justifica a barbárie que cometeram? De jeito nenhum. Existem milhões de jovens que são tratados com o mesmo descaso e que reagem de modo inteiramente diferente, construindo vidas próprias distantes destes ensurdecimentos ou fanatismos, entregando-se a militâncias generosas em nome da tolerância, da igualdade, da fraternidade, humanidade, da solidariedade – é bom não esquecer este conjunto de palavras –, ou simplesmente em busca de uma vida decente e digna.

Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.

O cruel massacre dos jornalistas do Charlie Hebdo deixou cicatrizes. Mas a gente sabe que uma cicatriz pode ser tanto a lembrança da superação de uma ferida, como também a permanência da Marca da Maldade, assim com maiúscula, como no imortal filme de Orson Welles. Agora, a equipe do Charlie Hebdo cedeu diante da Marca da Maldade. Covardemente, atacaram uma criança.

Mais covardemente, atacaram uma criança morta. Quem não se lembra das fotos do pequeno Aylan, de bruços, tendo como leito de morte uma praia onde ele deveria brincar? E aí o desenhista do CH, embriagado por um sentimento aparente de ironia, mas na verdade de profunda xenofobia, faz uma "piadinha", perguntando, o que seria dele, se tivesse sobrevivido. E completa com a pseudocharge, onde o adulto resultante tem, inclusive, um nariz de porco na imagem, que ele teria se transformado num "beliscador de bundas na Alemanha".

Decididamente, não sou mais Charlie Hebdo.

Isto faz o serviço para as Marine Le Pen, as Front Nationale, as Pegidas alemãs, os neonazis de todo lado, os fascistas da Ucrânia, os reacionários da Polônia, os governantes idiotas que dizem estupidamente que seus países só receberão "refugiados cristãos" (dá vontade de perguntar: quer dizer que os judeus também não têm vez?), os antissemitas da Hungria, os canalhas no mundo inteiro que se valem das histerias estimuladas pelo sensacionalismo curto e grosso de mídias semeadores da idiotice.

Charlie Hebdo, adeus. Adeus, Charlie Hebdo.

Como já disse, eu agora me chamo Aylan, me chamo refugiado, me chamo muçulmano, me chamo tudo, menos esta profanação da memória de um inocente.

Liberdade de expressão é uma coisa. Desfaçatez, desrespeito, grossura, idiotice, covardia, canalhice para vender um exemplar a mais, é outra. Isto se chama jornalismo selvagem. Aliás, capitalismo selvagem.

Adeus, Charlie Hebdo. CH, adeus. O resto é silêncio.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O pai de Aécio Neves trabalhou no conselho da Cemig! O jeton hoje? R$6.090,91


Não é piada. Aécio nomeou o pai para Cemig





Por Miguel do Rosário, postado em outubro 24th, 2014






O nepotismo de Aécio Neves é uma coisa tão monstruosa que parece até piada. Mas não é. Ele, de fato, carregou a parentalha toda para dentro do governo.

Irmã, tios, primas, e agora sabemos que até o pai ganhou a sua parte.

Aécio o nomeou para o conselho da Cemig, a estatal que cuida da energia do estado de Minas.

Esse é o cara que pretende dar “um choque de gestão” no Brasil?

Que fala em “meritocracia”?

Bom lembrar que o pai de Aécio pertencia à Arena, o partido da ditadura.

Aécio sempre escondeu o pai.

O tucano construiu sua imagem à sombra do avô, que era do PMDB e foi um dos articuladores da abertura política.

Ao final de uma campanha bastante agressiva, em que eleitores de Aécio saem às ruas pedindo uma nova ditadura militar, vê-se que o tucano tem mais a ver com o pai.

Tanto que nunca esqueceu dele. Deu-lhe o emprego mais cobiçado do serviço público: ser membro de um conselho de estatal.


*

Pai de Aécio foi nomeado para conselho de estatal mineira durante seu governo

Ele trabalhou no conselho da Cemig entre 2003 e 2009 — mesmo período em que o tucano era governador do estado

JULIANA DAL PIVA, no Dia.

Rio – Aécio Ferreira da Cunha — pai de Aécio Neves, candidato à presidência pelo PSDB — exerceu diversos cargos públicos ao longo da vida. Foi duas vezes eleito deputado estadual e seis vezes deputado federal. Além disso, também integrou o conselho do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Morto em 2010, o último cargo que exerceu em vida foi a partir de uma nomeação realizada pelo governo de Minas Gerais no Conselho de Administração da Companhia Energética de MG (Cemig) durante a gestão do filho como governador.




Clique na imagem acima para ver o infográfico completo


Na ata da nomeação ao qual o DIA teve acesso consta que na reunião do dia quatro de junho de 2003, primeiro ano de governo de Aécio, Cunha foi um dos escolhidos para integrar o conselho da empresa. O nome dele está relacionado em uma lista de oito “eleitos pelo acionista Estado de Minas Gerais”. Outros dois acionistas privados elegeram mais seis conselheiros. A remuneração paga para o comparecimento a uma reunião mensal, conhecido como jeton, é atualmente de R$ 6.090,91.

A Cemig é uma empresa de economia mista e de capital aberto, com mais de 130 mil acionistas particulares brasileiros e internacionais. No entanto, o governo mineiro possui a maioria das ações. O pai de Aécio Neves trabalhou no conselho entre 2003 e 2009 — mesmo período em que o tucano era governador do estado.

Procurada, a Cemig disse que os membros do Conselho de Administração são eleitos pelos acionistas da companhia em Assembleia Geral. “Não existe conflito de interesse”, informou por meio de nota. Aécio Neves disse também, por nota, que o pai foi escolhido de forma “transparente” e por “unanimidade”. Ele morreu aos 83 anos de insuficiência hepática.

Ao longo do segundo turno, Aécio foi acusado pela adversária, a presidenta Dilma Rousseff (PT) de nepotismo devido ao trabalho da irmã Andrea Neves no núcleo de Comunicação do governo durante sua gestão no governo de Minas Gerais. Andrea detinha controle sobre o reparte de verba publicitária e a família possui três rádios, além de um jornal no estado. Aécio também nomeou um tio e seis primos em outros cargos do governo. Ele refutou as acusações de nepotismo feitas por Dilma por considerar o trabalho da irmã voluntário.