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sábado, 16 de janeiro de 2016

Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.


Agora eu não sou mais 'Charlie Hebdo'








Por Flavio Aguiar, na Rede Brasil Atual:


Agora eu não sou mais Charlie Hebdo. Eu sou um refugiado sírio, eu sou um muçulmano perseguido, eu sou um norte-africano afogado no Mediterrâneo, um judeu em Auschwitz, um africano escravizado, um índio desaparecido em nome da Conquista europeia, uma criança vietnamita bombardeada com napalm nos anos 60 ou setenta etc. … Um menino morto na praia onde ele deveria brincar.

Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.

Quando houve o atentado contra a redação do Charlie Hebdo, perpetrado por uma quadrilha de fanáticos que agiam em nome de uma visão completamente distorcida do Islã, eu e minha esposa saímos aqui nas ruas de Berlim, portando na lapela, com luto e orgulho, a divisa "Ich bin Charlie Hebdo", "Eu sou Charlie Hebdo".

A loja vizinha, de amáveis quinquilharias, de propriedade de um sírio, pusera na porta, em destaque, uma bandeira francesa. Não sou amigo de bandeiradas nacionalistas, mas aquilo era muito diferente Muito mais do que isto, era uma homenagem ao luto diante da estupidez do ato perpetrado, que incluía um ataque covarde a um supermercado de produtos judaicos.

Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.

Tenho visto e já escrevi sobre a paranoia histérica que vem tomando conta da Europa depois desta série de atrocidades – não vamos brincar com isto – cometidas, tomando o nome de Alá em vão. Se os terroristas perpetradores destes crimes lesa-humanidade pensam que serão recebidos no Paraíso, espero que se deem conta do que na realidade fizeram ao arderem no mármore do inferno pela eternidade.

Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.

A histeria paranoica piorou muito desde o "arrastão sexual" perpetrado por um milhar de energúmenos embriagados no Hauptbahnhof de Colônia, na Alemanha, atacando covardemente mulheres indefesas com todo o tipo de ofensa, que foram do roubo de celulares ao estupro. Agiam em nome de Alá? Foram descritos como "de aparência árabe ou norte-africana". Não duvido.

Mas a raiz deste comportamento não é islâmica, não é o Corão. A raiz é o descaso com que a juventude é tratada nas nossas metrópoles ocidentais. Isto justifica a barbárie que cometeram? De jeito nenhum. Existem milhões de jovens que são tratados com o mesmo descaso e que reagem de modo inteiramente diferente, construindo vidas próprias distantes destes ensurdecimentos ou fanatismos, entregando-se a militâncias generosas em nome da tolerância, da igualdade, da fraternidade, humanidade, da solidariedade – é bom não esquecer este conjunto de palavras –, ou simplesmente em busca de uma vida decente e digna.

Mas Charlie Hebdo eu não sou mais.

O cruel massacre dos jornalistas do Charlie Hebdo deixou cicatrizes. Mas a gente sabe que uma cicatriz pode ser tanto a lembrança da superação de uma ferida, como também a permanência da Marca da Maldade, assim com maiúscula, como no imortal filme de Orson Welles. Agora, a equipe do Charlie Hebdo cedeu diante da Marca da Maldade. Covardemente, atacaram uma criança.

Mais covardemente, atacaram uma criança morta. Quem não se lembra das fotos do pequeno Aylan, de bruços, tendo como leito de morte uma praia onde ele deveria brincar? E aí o desenhista do CH, embriagado por um sentimento aparente de ironia, mas na verdade de profunda xenofobia, faz uma "piadinha", perguntando, o que seria dele, se tivesse sobrevivido. E completa com a pseudocharge, onde o adulto resultante tem, inclusive, um nariz de porco na imagem, que ele teria se transformado num "beliscador de bundas na Alemanha".

Decididamente, não sou mais Charlie Hebdo.

Isto faz o serviço para as Marine Le Pen, as Front Nationale, as Pegidas alemãs, os neonazis de todo lado, os fascistas da Ucrânia, os reacionários da Polônia, os governantes idiotas que dizem estupidamente que seus países só receberão "refugiados cristãos" (dá vontade de perguntar: quer dizer que os judeus também não têm vez?), os antissemitas da Hungria, os canalhas no mundo inteiro que se valem das histerias estimuladas pelo sensacionalismo curto e grosso de mídias semeadores da idiotice.

Charlie Hebdo, adeus. Adeus, Charlie Hebdo.

Como já disse, eu agora me chamo Aylan, me chamo refugiado, me chamo muçulmano, me chamo tudo, menos esta profanação da memória de um inocente.

Liberdade de expressão é uma coisa. Desfaçatez, desrespeito, grossura, idiotice, covardia, canalhice para vender um exemplar a mais, é outra. Isto se chama jornalismo selvagem. Aliás, capitalismo selvagem.

Adeus, Charlie Hebdo. CH, adeus. O resto é silêncio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

"a falácia de que o mal maior do Brasil é a corrupção"


Quem se importa com a dor de seu Jorge, o soldador?


Diário do Centro do Mundo



Postado em 01 dez 2015
por : Paulo Nogueira


A lágrima clara sobre a pele escura: a dor de Jorge, o soldador




A lágrima clara sobre a pele escura.


Pensei neste trecho da grande música de Caetano e Gil ao ver a espetacular foto de Jorge Penha, pai de Roberto, um dos cinco jovens negros metralhados pela PM do Rio. O autor da foto é Guilherme Pinto, do Extra.

Depois tive um desabafo tolo, emocional. “Até quando, até quando?”, pensei.

E depois notei a semelhança entre Jorge, o soldador, e Joaquim Barbosa.

E então vi quanto Gregório Duvivier definiu bem o país, dias atrás, com esta frase: “Crime é ser pobre no Brasil.”

Joaquim Barbosa não haverá de experimentar a dor colossal que enfrenta Jorge, o soldador, seu quase sósia.

Porque não é pobre.

O filho de Joaquim Barbosa acabou confortavelmente empregado na Globo. E o filho de Jorge está prestes a ser enterrado cheio de furos provocados por rajadas.

O habitat do filho de Joaquim Barbosa é o da classe média alta do Rio. O habitat do filho de Jorge era a favela.

Era de Roberto, o filho de Jorge, a comemoração que antecipou a tragédia. Seu primeiro emprego assinado. A carteira de trabalho enfim preenchida. E os sonhos que a gente só tem aos 16, mesmo quando vive a realidade terrível das favelas.

Roberto tinha 16.

Tenho a suspeita de que para muitos de nós, os privilegiados, há uma crença de que a morte é menos doída para eles, os outros.

Lembro uma vez em que, como editor da Exame, almocei com Mário Simonsen, um dos ministros da Economia da ditadura. Simonsen falou da China, e afirmou que os chineses sentem menos a morte de um filho do que nós. Provavelmente ele tinha sido intoxicado pela literatura ocidental que tratava das guerras de destruição movidas contra a China sobretudo pelos britânicos, no século 19.

Hoje não é diferente. É como se a morte de uma criança no Iraque, ou na Líbia, ou no Paquistão, doesse menos que a morte de uma criança nos Estados Unidos, ou na França, ou na Inglaterra.

E então nos lobotomizamos diante da dor alheia, como a de Jorge, o soldador.

Em países igualitários cada cidadão importa. A Janteloven escandinava, um conjunto de regras que moldam a vida na região, estipula o seguinte: eu não sou melhor que você e você não é melhor que eu.

Mesmo que você seja um banqueiro e eu um lixeiro.

Mas não somos exatamente igualitários. Somos a desigualdade levada a extremos desde sempre. Nem na morte nos igualamos. A morte deles vale menos que a nossa.

Nós nos desesperamos quando perdemos um filho. Eles não sofrem. Era assim que Simonsen via os chineses, em sua descomunal miopia de homem do Ocidente.

É assim que vemos casos como os dos cinco garotos do Rio.

Somos bombardeados com a falácia de que o mal maior do Brasil é a corrupção. E mais uma vez somos lobotomizados diante dos horrores da desigualdade.

A favela é filha da desigualdade.

Os meninos que nascem nela terminam frequentemente como o filho de Jorge, o soldador. Não têm chance.

E ainda ousamos falar em meritocracia. E ainda somos obrigados a ouvir uma autoridade dizer quetalvez policiais assassinos sejam expulsos. Talvez.

Panelas não baterão pelo filho de Jorge, o soldador. E nem pelos filhos de tantos outros homens e mulheres invisíveis.

Mas o silêncio, este silêncio magicamente representado pelas lágrimas claras na pele escura de seu Jorge, este silêncio soa mais alto que o som de um milhão de panelas.


(Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).

sábado, 13 de junho de 2015

Não é um caso isolado


Dalila, três noites na casinha do cachorro: escravidão em pleno século 21



Viomundo


publicado em 12 de junho de 2015 às 10:06






da Redação

A patroa manteve Dalila três noites dormindo na casinha do cachorro. Aconteceu de verdade, no interior de Goiás. Dalila, agora aos 28 anos, denuncia o que viveu entre os 5 e os 11 anos de idade, quando foi praticamente escrava de uma família. Não é um caso isolado, como vai mostrar a reportagem de Gustavo Costa, Lúcio Sturm e Marcelo Magalhães na próxima segunda-feira, no Repórter Record Investigação, às 22h30m. Como o caso de Dalila, há outros 57 em investigação: meninas negras, originárias do quilombo Kalunga, escravizadas por famílias brancas, com pelo menos um caso de “leilão” de virgens quilombolas por 100 reais. Terrível.


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A técnica do Revoltados Online para arrecadar: provocação profissional

quarta-feira, 10 de junho de 2015

essa gente é perigosa


Agressor de frentista haitiano faz ameaças após ser triturado pelo CQC




Posted by eduguim on 10/06/15








No último sábado, o Blog denunciou que o fanático de ultradireita Daniel Barbosa Amorim, que agrediu verbalmente frentista haitiano que trabalha em um post de gasolina da cidade gaúcha de Canoas, cumpriu pena de prisão por furto, entre outras complicações com a lei.

A informação foi passada em entrevista a esta página pelo escrivão de Porto Alegre Leonel Radde, quem, após assistir a vídeo da agressão que se espalhou como fogo na internet, lavrou um boletim de ocorrência no 20º Distrito Policial da capital gaúcha.







Amorim é, também, “administrador” do grupo fascista “Revoltados On Line”, segundo informação postada por esse grupo em seu perfil no Facebook.







Na última segunda-feira, o programa humorístico da Band Custe o Que Custar (CQC) fez um excelente trabalho jornalístico ao ir ao Rio Grande do Sul entrevistar o frentista agredido e, também, o ex-presidiário Daniel Barbosa Amorim.

Para quem não assistiu ao programa, vale a pena conferir a belíssima reportagem de um programa polêmico cujo conceito entre os analistas sérios nunca foi bom, mas que vem melhorando após a saída do âncora Marcelo Tas.






O que espanta na reportagem do CQC é a postura arrogante e agressiva do ex-presidiário que agride pessoas indiscriminadamente. Por várias vezes ele bateu no peito do repórter que o entrevistou, tentando provocar uma reação e gerar um confronto físico.







Mas não é só. Além de uma quase agressão física em transmissão de TV veiculada para todo o país, o elemento ainda disparou ameaças retóricas. E ninguém melhor do que o policial que o denunciou à lei pela agressão ao frentista para explicar o caso.

Em seu perfil no Facebook, o policial Radde comenta essas ameaças






Parece que ainda não caiu a ficha do ex-presidiário e “administrador” do grupo fascista “Revoltados On Line”. Além de sua atitude truculenta ao tocar provocativamente o repórter da Band, ainda insinua que irá processar suas vítimas e quem lhe denunciou o crime.

No vídeo, vê-se uma mulher que acompanhava o ex-presidiário filmando o trabalho do repórter Marcelo Salinas, do CQC, e “ordenando” que a entrevista terminasse.

De qualquer forma, o saldo desse episódio é positivo. A excelente argumentação do repórter da Band expôs toda estupidez do ex-presidiário que ajuda a “administrar” o perfil dos “Revoltados On Line” no Facebook.

A reiterada baboseira desse grupo sobre o Foro de São Paulo foi literalmente triturada pelo repórter da Band. Além disso, ao reconhecer que cumpriu pena por roubo, o ex-presidiário truculento expôs ao país que tipo de gente é esse que tem a ousadia de acusar os outros de corrupção.

Esse é o principal mérito da democracia. Com liberdade de expressão, excessos de gente autoritária, estúpida e antidemocrática como Amorim e seu grupo de “revoltados” podem ser expostos e, aos poucos, o país vai entender que essa gente é perigosa e precisa ser contida.

domingo, 7 de junho de 2015

O funcionário público da polícia civil gaúcha cumprindo seu dever

Descruzamos os braços 2

Agressor de frentista haitiano já esteve preso por roubo






Posted by eduguim 
on 06/06/15







Leonel Guterres Radde é escrivão do 20º Distrito Policial de Porto Alegre. Na última sexta-feira, deparou com vídeo que se espalhou pela internet a partir de reportagem do portal G1, publicada na última quarta-feira (3/6), que informou o nome de “Daniel Barbosa” como sendo autor e protagonista de vídeo em que um imigrante haitiano, que trabalha como frentista em um posto Shell da cidade gaúcha de Canoas, é humilhado pelo autor do vídeo.






O escrivão gaúcho identificou rapidamente um crime sendo cometido e, agindo de acordo com seu dever funcional, lavrou um Boletim de Ocorrência por crime de discriminação e difusão de preconceito. A partir dali, espalhou-se pela internet que o tal “Daniel Barbosa” teria sido denunciado por vários crimes e que seria um dos administradores do grupo fascista Revoltados On Line, que vem promovendo manifestações contra o governo Dilma Rousseff.

Diante do imenso simbolismo que a situação criminal do agressor do frentista haitiano encerra, o Blog da Cidadania buscou mais informações e acabou localizando Leonel Raddes, que concedeu entrevista por telefone. Confira, abaixo, as novas informações sobre o caso que o escrivão gaúcho forneceu.

*

Blog da Cidadania – Leonel Guterres Radde, você é escrivão do 20º Distrito Polícial de Porto Alegre e tomou conhecimento do caso envolvendo o frentista haitiano que foi agredido verbalmente por um indivíduo chamado “Daniel Barbosa” e, por dever de ofício, fez uma denúncia, correto?

Leonel Radde – Na verdade, eu fiz um Boletim de Ocorrência do fato.

Blog da Cidadania – E, ao fazer esse Boletim de Ocorrência, você apurou que essa pessoa já teria passagens pela polícia?

Leonel Radde – Sim, porque, na verdade, quando a gente faz esse tipo de registro e começa o processo de instauração de inquérito policial, é preciso fazer um levantamento do histórico policial dos indivíduos acusados.

Blog da Cidadania – E quais são as passagens desse indivíduo pela polícia?

Leonel Radde – O que a gente apurou é que ele tem passagens por porte ilegal de arma de fogo, desacato, maus-tratos contra idoso, roubo a estabelecimento comercial, sequestro e cárcere privado, lesão corporal e ameaça.

Blog da Cidadania – Nossa, mas é muita coisa! Você pode dar mais informações sobre as complicações desse indivíduo com a lei?

Leonel Radde – Infelizmente não posso dar detalhes porque os nomes das vítimas do indivíduo são informações sigilosas. O que posso lhe dizer é que ele já cumpriu pena em presídio por roubo a estabelecimento comercial, ou seja, não é réu primário.

Blog da Cidadania – E essas denúncias contra ele tiveram inquérito instaurado?

Leonel Radde – Sim, sim… Mas não posso dar detalhes. Isso será revelado pelo inquérito policial que está sendo instaurado.

Blog da Cidadania – E ele ainda está respondendo por alguma dessas acusações?

Leonel Radde – Ele já respondeu por quase todas. No momento, está respondendo apenas a uma acusação, por injúria.

Blog da Cidadania – E você sabe dizer qual é a profissão dele?

Leonel Radde – A princípio, o que se sabe é que ele não tem uma atividade remunerada fixa. O que se sabe é que ele se diz “gerente de vendas”.

Blog da Cidadania – E quais serão os próximos passos a partir desse B. O. que você fez contra ele?

Leonel Radde – Agora o caso está na fase de instrução do inquérito. Será averiguado o local do fato, a data precisa em que ocorreu, iremos ouvir a vítima dele, o frentista haitiano. Já temos os nomes dos dois autores do crime, do rapaz que gravou o vídeo e do próprio Daniel.

Blog da Cidadania – Mas como vocês obtiveram todas essas informações?

Leonel Radde – Foi a partir do vídeo, pois no fim da gravação aparece a placa do veículo que Daniel e o dono do veículo usavam.








Blog da Cidadania – E quais são os nomes dos dois indivíduos. O nome do agressor é só Barbosa mesmo?

Leonel Radde – Daniel Barbosa Amorim é o agressor e o motorista do veículo – que, como vimos pela Carteira Nacional de Habilitação dele, é bem jovem – se chama Alex de Jesus da Silva.

Blog da Cidadania – E, a partir daqui, quais serão os novos passos do processo?

Leonel Radde – Na segunda-feira faremos mais algumas diligências e, em seguida, passaremos o caso para a delegacia competente, de Canoas.

Blog da Cidadania – O prosseguimento do inquérito ficará para decisão da delegacia de Canoas ou haverá, obrigatoriamente, que dar seguimento à investigação?

Leonel Radde – Depois que se inicia o procedimento, não tem mais como arquivar. Serão feitas as diligências e tudo será enviado ao Ministério Público, que decidirá se será apresentada a denúncia ao Judiciário ou não.

Blog da Cidadania – E a acusação contra ele, basicamente, qual será?

Leonel Radde – Será com base na lei 7716, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Nesse caso, será por preconceito de origem nacional, pois ele cita, além dos haitianos, venezuelanos e angolanos.

Blog da Cidadania – Estão dizendo que esse indivíduo, o Daniel, é “administrador” do grupo Revoltados On Line, não é? Você verificou isso?

Leonel Radde – É fácil verificar. Basta fazer uma busca no Google. Ele faz várias publicações – não comentários, mas publicações mesmo – no perfil desse grupo no Facebook e para fazê-lo é preciso ser administrador.







Blog da Cidadania – Esse Daniel usa roupas e símbolos militares. Isso não é ilegal?

Leonel Radde – É uma discussão, mas, na verdade, ele usa como vestimenta civil porque não é fardamento completo. Se ele usasse roupa completa de militar aí, sim, seria ilegal.

Blog da Cidadania – Ok, mas haveremos de convir que a forma como ele se veste deve ter intimidado o frentista haitiano, não?

Leonel Radde – Sem dúvida. Existe a possibilidade de usurpação de função pública se ele se fizer passar por policial ou militar para intimidar, mesmo não usando o uniforme completo.

Blog da Cidadania – Qual é a pena a que esse indivíduo pode ser condenado, Leonel?

Leonel Radde – Em princípio, de 2 a 5 anos de prisão. Talvez em regime semiaberto.

Blog da Cidadania – Infelizmente, no fim o que acontecerá é que ele terá que pagar umas cestas básicas e pronto, não?

Leonel Radde – Não é bem assim, pois ele não é primário.

sábado, 6 de junho de 2015

Descruzamos os braços!


É preciso reagir aos nazistas


Blog do Miro


Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:


Comecei muito mal o dia, lendo o Diário do Centro do Mundo. Não pelo site, obvio, que é muito bom, mas pela matéria – com o vídeo que reproduzo ao final com um imbecil que, estupidamente, vai provocar e humilhar um frentista de posto de gasolina que abastece um carro, em Porto Alegre.

A razão? O trabalhador é haitiano.

É de embrulhar o estômago, mesmo sabendo que a notícia já circula há dois dias.

Danem-se os que me acharem “políticamente incorreto”, mas este sujeito, além do devido processo judicial, deveria ser posto a correr, depois de ouvir uns desaforos daqueles bem “incorretos”.

O avô ou bisavô deste personagem que maltrata quem vem trabalhar aqui veio de onde? As centenas de milhares de gaúchos filhos, netos e bisnetos de imigrantes por acaso não vieram para cá , como dizia a minha avó (ela própria filha de um imigrante português), com “uma mão atrás, outra na frente”?

Porque, tirando os poucos indígenas que restam neste país, quem é que não veio de algum lugar para trabalhar e viver aqui?

Diz o facínora que não é por ele ser estrangeiro, mas por ser, supostamente um perigoso militar treinado a serviço do comunismo.

Olhem para o pobre coitado, um magrelo, quase um fiapo, humilde, intimidado e para o agressor que vai provoca-lo e vejam quem parece um paramilitar, aliás com um broche de caveira bem significativo.

Só de uma cavalgadura destas usar um uniforme militar, covarde fantasiado de valente, já é uma ofensa às nossa Forças Armadas que, com todos os defeitos que possa ter tido, sempre foi democrática em seu acesso e, até, durante muito tempo, a única forma de garotos de origem humilde terem um ensino e uma carreira digna.

É pior que isso, ainda: chega a ser um ultraje vestir-se como se fosse do Exército Brasileiro, que tem como seu berço e exemplo a Batalha dos Guararapes, onde o sangue de brancos, índios e negros começou a se misturar num campo de batalha para formar o país que somos!

Na verdade, o canalha que faz isso faz porque o rapaz é negro e pobre.

Porque, se este microcéfalo não sabe, hoje está sendo divulgado, na Suíça, um estudo mostra que, pelo sexto ano consecutivo, mais migrantes estão vindo da Europa para a América Latina que, como antes, latino-americanos indo para lá, em busca de trabalho.

Só da Espanha saíram, em 2012, 181.166 cidadãos com destino a países da América do Sul.

E diminui o número de brasileiros (e latino-americanos, em geral) que emigram para conseguir o trabalho que aqui faltava.

Aliás, o que este palerma covarde acharia se um brasileiro que fosse tentar a sorte como entregador de pizza nos Estados Unidos fosse tratado como ele tratou o rapaz?

Se o Ministério da Justiça do Brasil servisse para alguma coisa, este camarada estaria sentado agora numa delegacia de polícia, prestando declarações e respondendo, no mínimo, por assédio.

Mas estamos permitindo que este comportamento fascista se espalhe, sem reação.

Nem que seja a de alguém – de preferência um pequena mulher, para que se veja que a pancada é mais moral do que física – que lhe dê o tapa na cara que merece.

Depois que desinventaram o tapa na cara os canalhas ficaram mais selvagens.



_________________________



Descruzamos os braços:



Alea jacta est.
B.O. sobre o ato de preconceito de origem nacional contra imigrantes haitianos registrado.
Inquérito Policial sendo instalado na 20ª DP.
Polícia Civil do Rio Grande do Sul: para servir e proteger.





Investigado por ofender haitiano em posto de combustíveis de Canoas já tinha antecedentes por sequestro






Vídeo foi postado na Internet, o que alertou a Polícia. 
Para delegado, agressor cometeu crime de Preconceito de Origem Nacional



A Polícia Civil começou a investigar as ofensas proferidas a um haitiano que trabalha em um posto de combustíveis de Canoas, na região Metropolitana. A 20ª Delegacia de Polícia da Capital registrou a ocorrência ao identificar o caso via internet. Um vídeo foi feito pelo agressor e divulgado na rede mundial de computadores. A polícia não informou o nome do agressor, mas confirmou que, na ficha criminal dele, há antecedentes por roubo a estabelecimentos comerciais e sequestro. A TV Record identificou que o homem que aparece no vídeo é Daniel Barbosa.

Na gravação, o ofensor aparece com um uniforme militar e exalta uma caveira parecida com a utilizada pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro, o Bope. Ele ironiza dizendo que o frentista “tem muita sorte” e “é muito competente” por estar empregado. O homem ainda pergunta se o frentista teve treinamento militar no país dele e mostra-se surpreso ao descobrir que não. “Ele não tem treinamento militar e foi trazido pelos comunistas aqui no Brasil”. Quem grava as imagens é chamado de Alex por Barbosa.

O haitiano não reage às ofensas. A vinda de imigrantes do Haiti para a América do Sul, conforme o ofensor, foi promovida “pelo governo comunista de Dilma Rousseff enquanto milhares, só no mês passado, de brasileiros, perderam o emprego no Brasil”. No final do vídeo há uma inscrição: “Cruzada pela Liberdade. Por um Brasil livre, ético e digno”. Durante a gravação, Barbosa fala que “já estamos em guerra”.

Conforme o escrivão da 20ª Delegacia, Leonel Radde, o crime cometido, em tese, é o de Preconceito de Origem Nacional, prevista na lei que define crimes de preconceito de raça e de cor. A pena, em caso de condenação, varia de dois a cinco anos de prisão. O caso vai ser repassado para uma delegacia de Canoas investigar ou pela Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Cibernéticos.

Lei 7.716: Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor

Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

Pena: reclusão de um a três anos e multa.(Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza: (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)


Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.(Incluído pela Lei nº 9.459, de 15/05/97)

terça-feira, 2 de junho de 2015

Papai Noel que se cuide

A crônica de hoje de Lelê me lembrou o texto de Dimenstein:

Não que desta vez não concorde com Dimenstein. Ele está coberto de razão, é de embrulhar mesmo o estômago. Meu problema com o texto de Dimenstein é outro: é a falta de autocritica de figuras públicas como ele que não assumem que tem responsabilidade nisso.

Gilberto Dimenstein poderia ao menos refletir sobre o ~jornalismo~ praticado no veículo que ele trabalha, um dos grandes responsáveis por estas figuras nefastas alcançarem o poder e não ser questionadas.

Se Folha, Globo, Veja, Estadão e o resto do monopólio da comunicação não formassem um partido político que age contra tudo que há de mais progressista neste país, certamente os seres fisiológicos que ocupam a presidência do Senado e Congresso não teriam chance.

Portanto, seria ao menos digno que jornalistas como Dimenstein assumissem o fato de que se o povo brasileiro desinformado vota nestes seres nefastos à democracia, aos direitos humanos e aos direitos constitucionais, os grandes responsáveis são também jornalistas que abriram mão de fazer jornalismo e decidiram fazer apenas o que manda os seus patrões: política partidarizada contra um único alvo: o PT.

Esses jornalistas se dedicam a atacar governos petistas e a destruírem tudo de positivo feito pelos governos Lula e Dilma Rousseff, enquanto permitem que políticos fisiológicos sem qualquer compromisso com o país ajam impunemente, sem nenhum tipo de investigação jornalística.


Se fizessem o trabalho de jornalistas, esses políticos eleitos pelo dinheiro da corrupção de empresas e caixas 2 jamais teriam o poder que adquiriram.


Portanto, peguem seu embrulho no estômago e reflitam sobre a sociedade embrutecida que vocês ajudaram a solidificar.





QUEM SE CALA, CONSENTE


Por Lelê Teles






Primeiro, domesticamente, em privado, eles ofenderam e insultaram os pretos nas cozinhas e nas portarias dos prédios.

Como temos a pele um pouco clara, não nos incomodamos.

Encorajados pela nossa omissão, passaram a chamar os negros de macacos em shoppings e estádios de futebol, à vista de todos.

Com a desculpa de não dar publicidade a essa infâmia, preferimos nem comentar.

Nossos filhos, ao ouvir os insultos públicos e ver a nossa indiferença, passaram a achar que isso era normal.

Aí, já contando com a nossa conivência, os sociopatas decidiram agredir verbalmente os pobres de maneira geral, acusando-os de preguiçosos, esmolés de bolsas e parasitas sociais.

Como não queremos nos passar por pobres, fingimos que isso não era com a gente.

A mídia, sempre histérica, passou a incitar os excitados porraloucas. E as agressões públicas passaram a ser publicadas.

Midiatizados, anabolizados pela legitimação silenciosa da sociedade e pelo clangor escandaloso da mídia, os valentes midiotas resolveram direcionar sua ira também contra os nordestinos.

E o que temos nós a ver com o nordeste, já até nos mudamos de lá?

Mais uma vez, demos de ombros.

Com isso, a turba acreditou que tudo podia.

Certa vez entraram, em bando, em um estádio, e já sem pudor, para o mundo inteiro ouvir, xingaram e mostraram o dedo médio para a presidenta.

Como não votamos nela, até achamos graça daquilo.

E de repente, sufocando ainda mais o nosso silêncio, o bando tomou as ruas, as praças, e a ágora que é as redes sociais.

Uns com armas na cinta, outros a pedir uma intervenção armada. Todos com a faca nos dentes e com sangue nos olhos.

Ódio e ranger de dentes.

Agora, legitimados e destemidos, insultam políticos – sempre de um único partido – em hospitais, aeroportos, restaurantes, casamentos, e até no próprio Congresso.

Como nãos somos políticos nem pertencemos àquele partido, achamos é pouco.

Até que eles, porretes em mãos, foram se aproximando da nossa vizinhança, pisando nossa grama, mijando em nosso jardim e dando cascudos em nossos filhos.

Quando abrimos os olhos e nos debruçamos na janela para ver o que se passava lá fora, os vimos, odiosos e violentos, a chacoalhar um cadeirante que ousou sair à rua vestido com uma camiseta da cor que eles detestam.

Estupefatos e inertes, assistimos a turba agredir um pai de família com um bebê no colo, só porque vestia vermelho; com mil diabos, dissemos.

Em seguida, insultaram um senhor por ler uma revista que eles não gostam.

Hoje, quem ousar adornar-se de vermelho, mesmo não sendo presidenta, negro, pobre, com criança de colo, cadeirante ou nordestino, corre risco de ser agredido.

Papai Noel que se cuide.

Agora, nos vemos cercados, sitiados, por esse bando de loucos.

Não contentes com o status de senhores das ruas, das praças, dos estádios, dos shoppings, dos noticiários e das redes sociais, eles resolveram invadir as nossas casas.

De suas varandas, gritam e rufam panelas para nos impedir de escutar o pronunciamento da presidenta, só porque eles mesmos não querem ouvi-la.

Muitos, que como nós, ficaram em silêncio, de repente passaram a gritar junto a eles, juntaram-se.

Até que um dia, num belo domingo de sol, no churrasco à beira da piscina, vimos que estes sujeitos odiosos já haviam contaminado o nosso grupo mais seleto.

Ébrios de cerveja, com os dedos melados de gordura e a boca cheia de farofa, sem mais nem menos passaram a se agredir, verbalmente, cunhados, genros, sogras, primos, tios e amigos: petralha, vagabundo, vitimista, puta, filha da puta, heterofóbico, vaca, viado, comunista…

Foi aí que percebemos que também era com a gente.

Mas já era tarde demais.

Palavra da salvação

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Criolo: até quando... ?


Criolo: 8 minutos que valem 5 séculos de história
janeiro 7, 2015 14:38






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São Paulo: túmulo das utopias, laboratório de ponta do capitalismo financeiro
Cenas da capital do estado em que o governador Alckmin lidera as pesquisas de intenção de votos



Um soco no estômago, assim podemos definir os relatos de Criolo para Claudia Belfort e André Caramante num projeto da Ponte Jornalismo.

Ouvir sua fala arguta sobre a desigualdade, o racismo, a exploração capitalista, sobre identidades e a violência institucional vale cada segundo de nosso tempo.



Por Claudia Belfort e André Caramante
Imagens e edição: Gabriel Uchida e Leonardo Lepri
Ponte Jornalismo
07/05/2015


Ao lado do pai, Cleon, o rapper Criolo, nascido na Favela das Imbuias, zona sul de São Paulo, fala sobre desigualdade social, sobre a falta de perspectiva dos jovens da periferia, preconceito e racismo. E conta como seu pai, ao levá-lo para ser socorrido num hospital após um acidente doméstico, foi acusado pelos próprios funcionários do hospital de tê-lo sequestrado.





terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O episódio do artigo deplorável...


O significado do ignóbil artigo de Paulo Sant’Ana



Sul 21 - Vinícius Wu




Há uma relação sutil – mas articulada e profunda – entre o desprezível artigo de autoria de Paulo Sant’Ana, publicado na Zero Hora de 29/12/14, a ainda recente violência cometida contra o Goleiro Aranha, do Santos, o incêndio no CTG de Santana do Livramento, as ofensas ao arbitro Marcio Chagas e outros episódios de racismo e intolerância ocorridos no Rio Grande do Sul nos últimos meses. Não se tratam de episódios isolados, eles se comunicam. São o sub-produto de uma lógica cultural, legitimada por setores da grande mídia, políticos conservadores e representantes de uma parcela decadente da elite intelectual local. Ela não representa o conjunto da sociedade gaúcha, naturalmente, mas tem força suficiente até mesmo para influenciar disputas eleitorais. Compreender esse processo é fundamental para refletirmos sobre o futuro do estado.

A influência positivista na formação política e cultural do Rio Grande do Sul cristalizou na tradição política local uma tendência à constante interpretação e reinterpretação da história e dos diversos aspectos que compõem o mito fundador do povo gaúcho. As forças políticas que disputam a hegemonia no estado, até hoje, confrontam interpretações distintas a respeito de uma origem mítica sob a qual se assenta o imaginário do povo riograndense. Essa é uma característica singular da disputa política no estado.

Historicamente, a construção do imaginário, em qualquer comunidade de cidadãos, tende a se tornar objeto de uma disputa entre as diferentes visões de mundo que se confrontam em um determinado território. Como observa José Murilo de Carvalho, é por meio do imaginário que se pode acessar as esperanças e os medos de um povo. É nele que as sociedades definem suas identidades coletivas, seus adversários e seus objetivos comuns. Os símbolos, os mitos de fundação, os rituais de um povo são peças chaves à compreensão de qualquer sistema de poder.

Relações de dominação e controle podem encontrar na manipulação do imaginário um suporte decisivo ao projetar no inconsciente coletivo a preservação de interesses e cristalizar sensações de insegurança e medo. O Rio Grande do Sul vive intensamente essa disputa pelo imaginário local.

Desde cedo, uma parcela das elites econômicas locais buscou absorver essa dimensão da disputa política, visando assegurar, para si, o monopólio da interpretação da história e da cultura gaúcha. Há diversos autores que debatem essa questão e não convém aqui discorrer demasiadamente sobre esse processo. O que importa, de fato, é a constatação de que há uma evidente tentativa de apropriação da narrativa histórica a respeito da identidade gaúcha, que se articula com certas estruturas de dominação, cuja legitimação repousa sobre um pretenso monopólio do discurso sobre a tradição.

Essa narrativa, para afirmar sua hegemonia, precisa aniquilar os discursos alternativos; ela se inclina à uniformização, ao sufocamento das diferentes possibilidades de interpretação da história do povo gaúcho. Exatamente por isso, os Lanceiros Negros, que poderiam servir a uma profunda reorganização das bases sob as quais a historiografia nacional aborda o tema da luta pela abolição, são sistematicamente negligenciados pelo discurso oficialista conservador. Engana-se quem acredita que esse é um debate meramente acadêmico. Há implicações diretas sobre a disputa política local, sobre o tema da propriedade da terra no estado e sobre a legitmidade de políticas de afirmação do direito dos negros gaúchos. A luta dos quilombolas nos informa o quanto esse tema é atual.

O Rio Grande do Sul, a exemplo do restante do Brasil, é um território de encontro de diferentes etnias, idiomas, culturas, práticas comunitárias e simbologias. A anulação dessa diversidade é uma estratégia deliberada do conservadorismo político, que, ao anular, a diversidade cultural, pavimenta o caminho para anular a também a diversidade da cidadania.

Felizmente, a ação uniformizadora dos grupos econômicos dominantes sempre foi objeto de contestação e de uma resistência política intensa, que foi capaz de afirmar no imaginário riograndense o lugar dos “de baixo”, apesar das evidentes tentativas de anulação. A força da cultura afro-brasileira, a obstinação de sua religiosidade, incrustou, de forma irreversível, a presença negra na mitologia gaúcha.

O associativismo, a cultura da cooperação, em grande medida, herdada do protestantismo sobreviveu no seio das comunidades de imigrantes, colonos e povos aqui instalados para extravasar seu componente transformador em uma estrutura política peculiar, responsável por uma cultura de participação invejável.

O PT gaúcho foi buscar – talvez inconscientemente – nessa tradição associativista, a energia impulsionadora de um dos experimentos democráticos mais arrojados que se tem registro no Brasil do século XX, o Orçamento Participativo. Essa é a riqueza transformadora do povo gaúcho contra a qual se batem os conservadores, que buscam tomar para si o monopólio da narrativa sobre a formação do Rio Grande.

Os episódios recentes – do goleiro Aranha ao incêndio do CTG e, agora, o abjeto artigo de Paulo Sant´Ana – nada mais são do que a sequencia dessa longa disputa pelo imaginário, que ainda opõe dominantes e dominados, oprimidos e opressores, monopólios da informação e vozes que defendem a verdadeira liberdade de expressão.

Sim, minha gente – gostemos ou não – é tudo disputa política. Ao propor assertivas do tipo “não somos racistas” ou “isso é natural num jogo de futebol”, certos mandaletes do conservadorismo mandam o seu recado à turba: – não se metam a rediscutir nossa história! Deixem nossos representantes no parlamento seguir dizendo que índio, negro, gays e todo o resto são “tudo o que não presta”. Afinal, quem não presta não tem direito. Deixem o velho e consagrado (sic) colunista discorrer sobre suas inúteis impressões a respeito do Uruguai. Não vamos discutir o racismo, esse ente abstrato, que ninguém vê.

Sigamos jogando pra debaixo do tapete as irrupções de ódio e deixemos, também, que políticos e certos “formadores de opinião” permaneçam aproveitando-se dele para angariar votos, audiência e prestigio social.

O episódio do artigo deplorável se relaciona com o episódio do goleiro Aranha, que por sinal o mesmo colunista fez questão de relativizar na oportunidade. Era visível que estava em jogo, na ocasião, muito mais do que a luta contra o racismo nos estádios. Estamos diante de uma disputa decisiva pelos direitos fundamentais de amplas parcelas da sociedade. Os arautos do atraso querem negar nossos déficits de cidadania e democracia, afirmando que tudo é natural. Para eles, não precisamos de políticas públicas que revertam desigualdades, não há a necessidade sequer de Estado. Vamos cortar tudo: secretarias, investimentos, políticas sociais etc. Basta valorizar a “história” e a “grandeza” do Rio Grande, sem falsas polêmicas. Afinal, não somos racistas, não é mesmo?

Por fim, não espere jamais ninguém por aí se declarar racista. E haverá mil justificativas para o desprezível artigo. Mas tenha certeza: a negação – do papel do Estado, do racismo, das desigualdades etc. – será o caminho daqueles que pretendem alimentar a desigualdade, o racismo e a intolerância nestas terras por muitos e muitos anos.


.oOo.



Vinícius Wu é historiador pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)..



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Abaixo, o artigo de plástico


Paulo Sant'Ana: o céu de Punta
O colunista escreve aos domingos em ZH
Atualizada em 29/12/2014 | 05h3329/12/2014 | 05h33


Punta del Este é um paraíso encravado no inferno do Uruguai.

Punta del Este foi erguida pelos argentinos para gozar as delícias da praia, a delicadeza do trânsito e, principalmente, a vantagem enorme de não conviver com os uruguaios. Há gente de todo o mundo em Punta, menos uruguaios. Por isso, os argentinos se refugiaram lá.

***

Mas, aos poucos, os argentinos estão cedendo terreno em Punta del Este para os brasileiros, em breve haverá mais brasileiros em Punta do que argentinos.

É que as sucessivas crises financeiras que assolaram a Argentina pós-Perón foram empobrecendo os portenhos e eles passaram a vender suas casas e apartamentos em Punta del Este.

***

Não vou a Punta del Este por sua beleza natural e arquitetônica, que é indiscutível. Vou por dois motivos: os cassinos e os pêssegos.

São os pêssegos mais deliciosos do mundo, os de Punta, mais doces que as tâmaras do Líbano e mais suculentos que as laranjas de Taquari.

Pena que os pêssegos de Punta não dão nas quatro estações. Mas na única estação que vicejam já me bastam para comer centenas deles em apenas 60 dias.

Não é preciso dizer que tanto o Oceano Atlântico quanto o Rio da Prata, que banham as duas margens da península em Punta, têm águas geladas, nem sei como alguns turistas se atrevem a mergulhar nelas.

Se Punta del Este tivesse as águas das suas praias quentes como as de Jurerê, seria a cidade mais frequentada do mundo.

Mas a água é gelada, nem pinguim conviveria com ela.



Mas as ruas e avenidas de Punta são limpíssimas, arejadas por árvores inúmeras e têm um trânsito pacífico e convidativo como não há igual em nenhuma cidade do planeta.

Eu nunca vi um acidente de trânsito em Punta del Este. Dizem que já houve, mas eu nunca vi. É de admirar isso, afinal é estreita a península, mas acontece que o trânsito só é intenso no verão. No inverno, parece trânsito destinado exclusivamente aos pedestres, tão suavemente se comportam os motoristas em Punta.

***

Finalmente, é incrível, mas não há sequer um negro em Punta del Este. A 150 quilômetros de Punta, em Montevidéu, há milhares de negros.

Mas em Punta nenhum empregado, nenhuma empregada doméstica negra, nem camareiras de hotel.

Foi feita em Punta uma segregação racial pacífica e não violenta.

Há mais negros na Dinamarca e na Noruega do que em Punta del Este.

Ou melhor, não há sequer um só negro ou uma só negra em Punta.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

macho alfa, pai de família, aluno de medicina, bandeirante...


A História estuprada do Brasil



Carta Capital - Negro Belchior


Por Douglas Belchior



Vivemos tempos de questionamentos. De enfrentamento aos privilégios. De contestação de poderes. De autocrítica.
Enquanto homem, é preciso reconhecer o papel histórico criminoso de nosso gênero na história da humanidade. Aliás, mais que reconhecer em discursos, enfrentar o enorme desafio da mudança das práticas.

Valdson Almeida, maranhense radicado em São Paulo, estudante de pedagogia, escritor esporádico e pseudo cinéfilo, sintetizou em poucas e fortes palavras, a incidência violenta e assassina do machismo na história do Brasil.








Por Valdson Almeida


A história estuprada do Brasil


Corre mata adentro, cansada, ofegante, vencida.

É o bandeirante desbravador estuprando a índia. E é ela a selvagem, claro!

Tapa a boca, escraviza a alma. Chora, vendida.

É o senhor da casa grande, proprietário de carne, estuprando a negra na senzala. E é ela a escória, claro!

É o militar patriota estuprando a comunista subversiva nos porões da ditadura. E é ela a ameaça ao país, claro!

É o policial vestido de hipocrisia que atende a mulher violentada agora há pouco, perguntando que roupa ela usava na hora do ocorrido. E é ela que se veste errado, claro!

É o pai de família que faz sexo com a esposa indisposta. Mas isso não é estupro, é só sexo sem consentimento mútuo, claro!

É o macho alfa que estupra corretivamente a lésbica “mal comida”. E é ela a doente que precisa de cura, claro!

É o aluno de medicina, estudante da “melhor universidade da América latina”, que estupra a caloura bêbada. E é a denúncia dela que mancha o nome da Universidade, claro!

É o político defensor dos “bons costumes” que só não estupra a deputada porque ela ‘não merece’. Ufa, pelo menos alguém sensato nessa história violentada do Brasil.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O racismo no processo civilizatório

Em vídeo, Samuel L. Jackson desafia celebridades a cantar música contra racismo da polícia

Geledes
samuel . Jackson


O ator Samuel L. Jackson (“Os Vingadores”, “Pulp Fiction”) não se calou diante da morte de dois jovens negros (leia aqui e aqui) pela polícia americana. Os policiais foram declarados inocentes pela corte de seus respectivos estados, causando uma indignação nos Estados Unidos como se via há muito tempo.


Por Rodrigo Salem no Yahoo

Neste domingo (14), o astro divulgou um vídeo desafiando “todas as celebridades que jogaram um balde de água fria na cabeça” a cantar uma música contra o racismo da polícia, usando a frase de protesto “Eu não consigo respirar”, últimas palavras de Eric Garner antes de morrer com um golpe considerado ilegal aplicado por um policial em Nova York.
A letra é mais ou menos assim:
“Eu posso ouvir meu vizinho chorando, “Eu não consigo respirar”/ Agora estou numa batalha e “não posso sair”/ Denunciando a violência da polícia racista/ Não vamos parar até as pessoas serem livres.”
Por causa disso, Jackson virou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais no fim de semana.
Nenhum artista ainda respondeu ao desafio. Jogar balde com água gelada é fichinha quando você defende o combate à uma doença. Quero ver quem vai tomar posicionamento contra um assunto tão polêmico nos EUA quanto à violência policial.
Veja o vídeo abaixo:








Leia a matéria completa em: Em vídeo, Samuel L. Jackson desafia celebridades a cantar música contra racismo da polícia - Geledés 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Um raro alento


O recado dos atleticanos aos torcedores racistas



Postado por José Antonio Lima 
em 26/09/2014




Diego Tardelli e Aranha no Independência: momento histórico (Foto: Bruno Cantini / Divulgação)




A torcida do Atlético-MG deu na noite de quinta-feira 25 um raro alento a quem busca traços de civilidade no futebol, e um recado aos torcedores racistas. Antes da partida entre o Galo e o Santos, pelo Campeonato Brasileiro, os atleticanos aplaudiram e gritaram o nome de Aranha, o goleiro adversário.

A atitude da torcida do clube mineiro tem embutida em si uma mensagem fundamental: quando se trata de racismo, há muito mais “em jogo” do que os eventos unicamente esportivos. Ao denunciar as injúrias racistas que sofreu por parte de torcedores do Grêmio, Aranha não buscava benefício esportivo, mas dignidade e civilidade.

Ficou claro na semana passada que a torcida do Grêmio não entendeu do que se tratava aquele episódio. Como escreveu o atleticano Idelber Avelar, o segundo jogo entre Grêmio e Santos em Porto Alegre era uma oportunidade única, histórica, mas milhares de gremistas falharam miseravelmente. Ao vaiar Aranha, os torcedores do segundo jogo nada mais estavam fazendo do que referendando o crime cometido na partida anterior.

Depois das vaias, e das críticas, muitos gremistas inventaram toda sorte de desculpas para a atitude de seus colegas tricolores: Aranha não aceitou desculpas, Aranha não aceitou ser homenageado pelo Grêmio, Aranha generalizou os gremistas… Em meio ao chorume racista que acompanhava algumas dessas justificativas, e que, como já dito, nega ao negro até mesmo o direito de se sentir ofendido, esses torcedores tinham uma impressão em comum: o Grêmio está acima de tudo.

Não está, nunca estará. O amor pelo Grêmio ou por qualquer outro clube não pode suplantar a busca por uma sociedade civilizada. Quem luta contra o racismo deve ser apoiado, e não hostilizado. Assumir esse papel é tão difícil que Gil, zagueiro do Corinthians, desistiu de processar o torcedor são-paulino que o chamou de macaco após uma brincadeira com Alexandre Pato. “Fica muito vulnerável isso daí. Não é o meu caso que vai fazer isso acabar no futebol. Prefiro não falar mais, não vou levar isso adiante, caso encerrado. Acredito que não vai mudar muita coisa”, disse. A fala de Gil é a resignação diante da força brutal do racismo e de seus defensores e negadores.

Os estádios não são centro de barbáries, nos quais é permitido ser irracional e criminoso. Como microcosmo da vida, o futebol atrai seus aspectos positivos e negativos. Que a pressão para a evolução da sociedade continue adentrando também as arquibancadas.

domingo, 21 de setembro de 2014

Triste o país que precisa de herois

Aranha faz História. A torcida do Grêmio, não


Torcedores referendam as ofensas racistas ao vaiar a luta não do atleta, mas do homem. Um homem que se nega a fazer do episódio uma atração de circo




Reprodução/Sportv

Torcedor vaia o goleiro Aranha durante o reencontro do Grêmio com o Santos em Porto AlegreLeia também


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Mário Lúcio Duarte Costa. Guardem este nome. Já vou chegar a ele. Antes, quero dizer que acompanhei, pela tevê, o fim da partida entre Grêmio e Santos, em Porto Alegre, pelo Campeonato Brasileiro. O empate sem gols revela o que foi o duelo, insosso, de resultado nem bom nem mau para nenhuma das equipes. Pelos relatos, descubro que o goleiro Aranha foi o melhor em campo, com ao menos duas boas defesas que garantiram o ponto fora de casa. A crônica esportiva termina aqui. A História, com H maiúsculo, não.

Aranha acabava de voltar ao palco onde, semanas atrás, fora hostilizado por ofensas racistas vindas de parte da arquibancada gremista. De lá saíram gritos e imitações de macaco. Eram uma referência à sua cor de pele, negra. O goleiro pediu a interrupção da partida, vencida pelo Santos por 2 a 0. Deixou o campo atordoado. "Dói", dizia ele à beira do campo.

Por não aceitar a ofensa, relatada aos árbitros da partida, Aranha criou constrangimento às autoridades esportivas. Elas se viram obrigadas a eliminar o Grêmio da Copa do Brasil devido ao comportamento de sua torcida.

Antes do reencontro de quinta-feira 18, no mesmo palco, um país inteiro passou a debater um tema ainda entranhado nas relações sociais. Tão entranhado que se naturalizou, a ponto de, muitas vezes, nem sequer incomodar.

Aranha se incomodou. E não fez questão de esconder.

Como preço, é provável que tenha passado alguns dos piores dias de sua vida. Depois daquele jogo, uma das torcedoras, flagrada aos gritos de "macaco" na arquibancada, passou a sofrer ameaças nas redes sociais. Foi demitida e teve a casa incendiada por um maluco. Ela não teve tempo de se arrepender ou calcular a dimensão de seu ato: o justiçamento de sempre, um erro em qualquer lado da história, tirava dela o direito de ser julgada por uma lei já existente. Cassara, com mandado próprio, o direito à vida da torcedora.

De repente, Aranha era o pivô de tanto ódio. Não fosse seu "melindre", a torcedora estaria a salvo, o Grêmio seguiria na Copa do Brasil e o racismo voltaria ao rol de temas "menores" de um país que, nas palavras de muita gente autorizada, tem problemas mais sérios para resolver. Entre os defensores da tese está o técnico do Grêmio, Luiz Felipe Scolari, que até ontem dirigia a seleção brasileira. Ele tratou a reação de Aranha como uma "esparrela", um estardalhaço promovido por quem tentava se vitimar para prejudicar alguém - no caso, os gremistas. Pelé, maior jogador de todos os tempos, também condenou o goleiro com argumentos do arco da velha: se ele, o Atleta do Século, tivesse de parar uma partida toda vez que era chamado de "macaco" não haveria mais futebol. Segundo ele, quanto mais se fala em racismo, mas ele se aguça.

Pelé, em seu tempo, não parou o jogo, o racismo voltou para debaixo do tapete, e a fatura segue nas costas de Aranha e seus contemporâneos, que hoje tentam interromper uma partida que deveria ter sido parada há muito tempo.

Não bastasse tanta ofensa - à sua cor, ao seu caráter e à sua inteligência - Aranha voltou a campo ontem como vilão. Desta vez, não ouviu xingamentos racistas das arquibancadas, mas vaias. Muitas. Cada uma delas era o triunfo do direito de ofender sobre o direito de se sentir ofendido. Ou de reagir à ofensa. As vaias eram o referendo aos gritos de "macaco" do último duelo. Eram o recado de que tanto faz o que existe debaixo da epiderme: o que vale é ganhar o jogo. É se dar bem. É levar vantagem. E qualquer reação a isso é apenas “esparrela”.

As vaias foram o trunfo do país de Pelé e Felipão. Um país que joga às costas da vítima o peso de ser ofendido. Um país que valida, pela ignorância, o cientificismo torto de séculos passados que colocavam o negro no meio do caminho entre os símios e o homem branco. Este cientificismo baseou a ideia de supremacia racial e influenciou algumas das maiores atrocidades da História. Por isso ela ofende. Por isso chamar um branco alto de “girafa” não tem o mesmo peso que chamar um negro de “macaco”: apenas um deles fora escravizado pela História.

A manifestação de ontem da torcida gremista era a manifestação da derrota: a derrota de Aranha, a derrota de um país inteiro que apenas finge que deixou de açoitar seus antigos escravos. Apesar disso, ele jogou. Foi o melhor da partida, segundo a crônica esportiva. A mesma crônica que, ao fim do duelo, cercou o jogador para arremessa-lo ao centro do picadeiro com uma única pergunta: “como se sente?”

Acossado, Aranha tentava explicar que deixava o campo entristecido pela reação da torcida, que referendava a ofensa do último duelo. Mas vaia era vaia, admitia, e contra ela não tinha o que fazer.

Um dos repórteres, em tom de deboche, chegou a questionar: “E qual a diferença?”.

“Você sabe a diferença”, respondeu Aranha.

“Não sei: me diga”, desafiou o sujeito do microfone, como se não soubesse.

“Você acha certo o que aconteceu?”, questionou o goleiro.

O repórter respondeu algo como “não tenho que achar nada”. E Aranha, mais uma vez, deixou o campo balançando a cabeça em tom de incredulidade. Tinha toda razão para ver e não crer.

Já nos vestiários, um pouco mais calmo, ele voltou a ser questionado sobre o assunto. Os repórteres queriam saber por que ele se negava a se encontrar com a torcedora que o ofendera e que estava sedenta por um abraço e pelo seu perdão. O circo dava ao goleiro o papel de Meursault, o personagem de O Estrangeiro, de Albert Camus, condenado não por um crime, mas por não ter chorado no enterro da mãe. O circo queria ver o goleiro chorar. De preferência, abraçado com a agressora. Queria ver o circo pegar fogo. Aranha, de novo, novamente, outra vez, respirou fundo. E respondeu algo como: “Ir lá, abraçar ela, e toca uma música e tudo mais. Aquela cena toda e só depois dos comerciais… Isso pra mim não adianta. Eu não quero".

Aranha talvez não soubesse, mas acabava de desmontar a “esparrela” armada para ele. Percebeu, muito antes dos homens de seu tempo, o que era um circo. Um circo midiático. E o rejeitou. Como rejeitou a ofensa que agora tantos querem minimizar como “melindre”.

Aranha parou o jogo, um jogo que segue perdendo, para mostrar simplesmente que atrás das cortinas de um circo que não criou existe um homem. Este homem se chama Mário Lúcio Duarte Costa, seu nome de batismo. Que é maior que a alcunha. Que é maior que o próprio esporte. Que não merece ouvir o que ouviu. E que parece disposto a interromper o jogo quantas vezes forem necessárias. Até que o recado seja entendido. Até que um dia a história mude. De vez. Mário Lúcio Duarte Costa acabava de fazer História.


Em tempo: Triste o país que precisa de herois. Mas, se não é um, Aranha é inegavelmente o rosto de uma luta tão justa quanto necessária. Acho que já gastei minha cota de citações a Caetano Veloso neste ano, mas é impossível assistir à trajetória do goleiro santista sem lembrar da música "O Heroi", do álbum Cê:

não quero jogar bola pra esses ratos
já fui mulato, eu sou uma legião de ex mulatos
quero ser negro 100%, americano,
sul-africano, tudo menos o santo
que a brisa do brasil briga e balança
e no entanto, durante a dança
depois do fim do medo e da esperança
depois de arrebanhar o marginal, a puta
o evangélico e o policial
vi que o meu desenho de mim
é tal e qual
o personagem pra quem eu cria que sempre
olharia
com desdém total
mas não é assim comigo.
é como em plena glória espiritual
que digo:
eu sou o homem cordial
que vim para instaurar a democracia racial
eu sou o homem cordial
que vim para afirmar a democracia racial
eu sou o herói
só deus e eu sabemos como dói

sábado, 20 de setembro de 2014

Aos que tentam silenciar... no futebol e fora dele

Uma carta para Aranha


Juca Kfouri 


19/09/2014 21:00


POR WINNIE BUENO*

Oi, Aranha. Tudo bem? Primeiramente queria te confessar que não te conhecia. Embora eu goste de futebol, vá ao estádio de vez em quando, acompanhe alguns programas esportivos, eu não sabia quem você era. Não sabia até o lamentável episódio envolvendo a torcida gremista, a torcedora do Grêmio que lhe chamou de macaco e todas as repercussões que houve. Desde então, tenho acompanhado mais atentamente você e sua luta, que sempre foi a minha, a luta pela eliminação do racismo. As declarações que você deu, após a violência da qual foi vítima, foram um alento à minha alma. Foram um tapa na cara do permanente mito da democracia racial brasileira. Um retumbante e contundente chega.

O posicionamento que você adotou, desde o primeiro momento, denunciando esta barbaridade, é um exemplo para toda a negritude brasileira. Você, diferente de tantos outros, não engoliu passivamente o racismo. Você se ergueu contra ele e mostrou que não devemos nos resignar, mesmo quando a sociedade, há tantos anos, vem nos dizendo o contrário.

Sabe Aranha, quando eu vi sua entrevista no Fantástico me lembrei dos meus tempos de escola. Lembrei de quando eu era uma criança e as professoras das séries iniciais sempre respondiam às minhas reclamações sobre o racismo, que era praticado contra mim, dizendo para eu deixar isso para lá. Que eu era superior aos coleguinhas e não deveria dar bola para isso. Os coleguinhas nunca eram repreendidos por debocharam do meu cabelo, por fazerem barulhos de símios quando eu passava, por perguntarem como eu conseguia ser tão preta. Nenhum coleguinha era reprendido por cantar músicas que me insultavam. Nenhum coleguinha era alertado sobre a minha suposta superioridade, que era utilizada pelas professoras para que eu não me revoltasse, para que eu voltasse quieta para minha cadeira. Afinal, tudo era brincadeira. Tudo era muito natural. E ser superior era sinônimo de aceitar todas essas dores calada.

Na minha família, sempre nos insurgimos contra o racismo. Foi na minha família que aprendi que se as professoras não faziam nada, eu é que deveria fazer. Mas, como eu era uma criança que ainda não tinha condições intelectuais de responder de forma mais racional a toda a violência racial que me cercava, adotei como estratégia ser turrona. Ser turrona incitou medo nas outras crianças, o medo fez com as agressões diminuíssem, a redução das agressões fizeram com que eu conseguisse ter uma vida escolar mais ou menos saudável. Desde muito cedo minha mãe carregava a mim e a minha irmã para as reuniões do movimento negro, nesses espaços aprendi a ter orgulho da identidade negra, da cultura afro, das minhas origens. O movimento negro e as coisas que vivíamos em casa forjaram em mim um permanente anseio por uma sociedade radicalmente diferente, livre de racismo, ausente de limitações impostas única e exclusivamente pela cor da pele.

Fiquei muito feliz também quando você se recusou o encontro com a torcedora que lhe insultou. Foi mais uma lição importante sobre como lidar com o racismo. Foi um importante aprendizado sobre o que significa perdoar. Perdoar não é igual a esquecer, perdoar não é igual a apagar os efeitos decorrentes da ação do agressor. Perdoar não significa estar disposto a apagar a dor. Porque doí, a gente sabe o quanto doí. Só nós negros sabemos o tamanho da dor que o preconceito racial acarreta na gente, uma dor que nunca passa. Uma dor que eu sinto com você, quando você é chamado de macaco, e uma dor que você sente com outro negro, quando ele é chamado de preto sujo, ou quando alguém atravessa a rua porque está na mesma calçada que a gente, ou quando alguém ri do nosso cabelo black power, ou nos olha com desprezo quando exibimos nossos turbantes. Por tudo isso Aranha, a sua negativa em abraçar a menina me encheu de alegria. Quando você se recusou ao papel que a mídia estava construindo para pôr uma pá de areia nessa história, você se recusou a abraçar a falácia da democracia racial. Você, mais uma vez, deu uma lição para a sociedade brasileira.

Hoje, dia 18 de setembro, foi o jogo posterior ao episódio de racismo do qual você foi vítima. Eu não esperava que nada de muito revolucionário fosse acontecer. Mas me enganei, você Aranha causou algo muito diferente, algo bastante revolucionário. Embora te cause dor, nos cause dor, você é um herói. As vaias que você recebeu hoje Aranha, são vaias que tentam silenciar a nossa luta. Mas você já provou que nem todas as vaias do mundo são capazes de nos calar. Essas vaias não têm força, nem grandeza para silenciar todos os negros e negras que lutam para que essas dores não sejam mais tão constantes. Não irão reduzir o exemplo que você está dando para milhões de jovens negros brasileiros, que também sonham com uma carreira no futebol e que, talvez, por exemplos menos dignos do que este que você está dando, pensam que para construir uma carreira tenhamos que aceitar o racismo nas quatro linhas e fora dela também. Não temos e não iremos mais aceitar. Vamos perder a paciência! Você pode ter sido vaiado pela torcida do Grêmio, mas queria que você soubesse que por mim, pela ancestralidade, pelas crianças negras que virão, por aquelas que já estão e por todos os lutadores e lutadoras anti-racista, você foi aplaudido de pé.

Saudações, daqui do sul do Brasil, do Rio Grande do Sul. Esse estado que tem um hino que fala de façanhas. As tuas façanhas Aranha, as façanhas de um homem negro, descendente de um povo que foi escravizado, de um povo que segundo esse mesmo hino foi escravizado porque não tinha virtudes, vão servir de exemplo para toda terra. Você que se nega redondamente ao silêncio que a sociedade racista quer lhe impor, quer impor à todos os negros e negras. As suas façanhas Aranha, assim como as façanhas dos nossos ancestrais, nos fazem livres, aguerrido e bravos.

Obrigada Aranha, obrigada por seus superpoderes. E nunca esqueça, com grandes poderes vem grandes responsabilidades. A sua é, por maior que seja a dor, continuar sendo uma voz permanente de denúncia e de luta contra o racismo. No futebol e fora dele.

Ergamos nossos punhos! Lutemos até o final contra o racismo!

*Winnie Bueno é estudante de Direito da UFPel e militante do Juntos! Negros e Negras

domingo, 8 de junho de 2014

falemos em diferenças de oportunidades

Genética X Oportunidades

Este Cientista Negro Famoso Dá Uma Resposta Sensacional a Uma Pergunta Um Tanto Presunçosa


Mario Pinheiro

Por Julia L.


Durante uma conferência de ciência, uma pergunta é feita por Lawrence Summers, um dos convidados e ex-presidente da Universidade de Harvard, que sugere que diferenças genéticas explicariam o fato de haver bem menos mulheres no campo da ciência do que homens.

A resposta dada por Neil deGrasse Tyson é…sensacional.



O vídeo original foi postado pelo Center for Inquiry.


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Contribuição do baitasar