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quarta-feira, 1 de março de 2017

Porto Alegre: e já fomos referência em avanços e cuidados...

... agora temos o prefeito dos retrocessos descuidados!




Apoie a manutenção do Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre”. Em nome do combate ao racismo, da diversidade e da democracia.



Manoel José Ávila da Silva:

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Igreja Nossa Senhora das Dores está no percurso dos Territórios Negros



Depois de superar muitos obstáculos, o Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre” passa hoje pela seu maior desafio, que é continuar atendendo estudantes, professores e comunidades de Porto Alegre, da região metropolitana, do interior do estado, de outros estados e até de outros países, mostrando que nossa cidade tem uma população afrodescendente e que essa população desenvolveu e desenvolve relações, práticas e vínculos sociais que definiram e configuram espaços públicos e privados de nossa cidade. Somos desafiados a continuar promovendo uma política pública de superação do racismo, da discriminação racial e das injustiças que ainda persistem em nossa sociedade, oriundas dos tempos da escravidão. Somos desafiados a continuar afirmando que Porto Alegre é uma cidade multirracial e pluriétnica. Somos desafiados a continuar tratando de temas como o racismo, desconstruindo as suas lógicas perversas no cotidiano escolar. Somos desafiados a perceber que as políticas de reparação e de ação afirmativas são imprescindíveis para que tenhamos uma sociedade brasileira mais justa. Somos desafiados a ver nossa cidade como um espaço que é compartilhado por diferentes culturas, em territórios específicos e justapostos, e que garantem mesmo a sobrevivência e a manutenção dessas culturas. Somos desafiados a contribuir para que tradições como o carnaval, a religiosidade, os espaços de convivência, entre tantas outras, e a memória viva dessas manifestações afro-brasileiras se mantenham vivas e ativas, reconhecidas e pulsantes. Somos desafiados a desenvolver uma atitude que estimule o reconhecimento das nossas, dos nossos outros e outras, que nos dê o sentido e a vitalidade da alteridade... Somos desafiados a construir políticas públicas dialogando com as comunidades. Enfim, somos desafiados a continuarmos sendo, tendo, praticando o princípio que vem no significado da expressão UBUNTU... eu sou quando todos somos!

A nova administração municipal, levando adiante a lógica do “Estado mínimo” e do desmanche dos órgãos públicos, da negação da diversidade e do não reconhecimento das diferenças, que se condensa na ação e na figura do prefeito Nelson Marchezan Júnior, e através da Companhia Carris Porto Alegrense especificamente, mas também por meio da Secretaria Municipal de Educação e das demais instituições governamentais municipais, quer extinguir o Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre”.


Estive na equipe que elaborou e colocou em prática o projeto, a partir de 2008, e participei intensamente e com muita emoção, do momento em que ele se tornou regular, em outubro de 2010, junto com colegas brilhantes, empenhados e dedicadíssimos. Comprometidos que éramos, e ainda somos, com o perfeito funcionamento dos serviços públicos de toda ordem.

Desde então já passaram por essa experiência de conhecimento/reconhecimento/identificação da e com a cidade e sua população negra mais de 50 mil estudantes, professores e cidadãos, mulheres, homens, jovens e crianças que recompuseram e reconfiguraram suas perspectivas em relação às suas próprias vidas. Negros, brancos, indígenas, locais e estrangeiros, que se fortaleceram nas suas falas e ações, na sua estima e no respeito ao olhar para um outro, uma outra, que se fazia vivo, viva bem diante de seus olhos...

Tudo isso ocorreu quando escolas infantis, do ensino fundamental, do ensino médio, universidade com alunos de graduação e pós-gradução, percorreram o trajeto dos territórios negros de nossa cidade no projeto que a atual administração municipal quer extinguir.

Porque não concordamos com o retrocesso, com a negação de nossa diversidade, porque desejamos a democracia, queremos que o Projeto “Territórios Negros: afro-brasileiros em Porto Alegre” seja mantido.


Manoel José Dos Porongos



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SAC DA CARRIS, E DA CHEFIA DE GABINETE DA
PRESIDÊNCIA DA CARRIS,




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Algumas imagens da formação de professores e professoras nos Territórios Negros de Porto Alegre: mulheres, homens, jovens e crianças que recompuseram e reconfiguraram suas perspectivas em relação às suas próprias vidas como um espaço que é compartilhado por diferentes culturas

















































Algumas imagens dos estudantes (adultos, jovens e crianças) sendo desafiados a ver nossa cidade como um espaço que é compartilhado por diferentes culturas
































terça-feira, 19 de julho de 2016

As lembranças do baitasar e o IAPI


Maior e mais antigo condomínio do continente, IAPI guarda parte da história de POA






SUL 21




As casas típicas do IAPI tinham de um a três quartos, cozinha, sala, despensa, banheiro e um galinheiro. | Foto: Ramiro Furquim/Sul21




Fernanda Morena


Por entre as edificações erguidas entre 1940 e 1950 residem as histórias de Porto Alegre e de centenas de pessoas que fazem da Vila IAPI um universo peculiar. Seus personagens colocam a capital gaúcha no mapa nacional da música e da arquitetura ou celebram amizades tão velhas quanto o próprio Estado Novo, época em que o bairro foi construído. O primeiro conjunto residencial do país levava em seu projeto a missão de sair do papel para entrar na história. Local dos industriários gaúchos que pagavam prestações baixas para os condomínios de um a três dormitórios com sala, banheiro, cozinha, dispensa e galinheiro, as construções formavam um lugar onde todo mundo era igual. Mas o IAPI ficou diferente do resto. Tornou-se modelo de uma arquitetura de cidade jardim; foi casa da pimentinha Elis Regina e do ex-vice-governador Antonio Hohlfeldt, e serve aos arquitetos e urbanistas como um desafio para aliar renovação à proteção histórica.

Com 2600 moradias construídas com financiamento popular do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI), as casas foram concebidas sob uma percepção arquitetônica francesa; ao contrário dos demais IAPIs do Brasil, em Porto Alegre, menos era mais. Os prédios são baixos, enxutos, acomodariam todos os serviços necessários à população e, de quebra, seriam baratos. Se o IAPI nasceu popular, hoje ele se tornou uma referência mundial de estilo e urbanização.




Amizades de uma vida



Dona Marisa, 62 anos, mora na mesma casa desde que nasceu. É amiga de infância de Elis Regina. | Foto: Ramiro Furquim/Sul21


Dona Marisa e Dona Marta se conhecem desde que nasceram – lá se vão 62 anos de amizade. Se na infância elas se reuniam no alto do condomínio com outras vinte e tantas crianças onde brincavam de “rei e rainha”, “telefone sem fio”, “brincadeira do anel”, hoje elas se juntam nos mesmos bancos para tomar chimarrão. Dona Marta, 74 anos, morava na Plínio, de onde saiu depois de casar com o seu vizinho, melhor amigo do irmão, e ir morar ao lado de Elis, a Regina, na casa dos sogros.

“Éramos uma família. Era um Papai Noel, uma festa de natal, uma fogueira. Nunca morei em outro lugar, e não me imagino fora daqui”, revela Dona Marisa, 62 anos, que ainda hoje vive em frente à figueira bicentenária que é marca do bairro.

Marca também é a casa de número 21, onde nasceu Elis Regina. Na casa ao lado da de Dona Marta, duas depois da de Elis, surgiu a primeira televisão do condomínio. Lá as crianças se reuniam para ver Rin Tintin – sob a condição de que tivessem tomado banho.







Dona Marta fez sua vida no IAPI: nasceu na Plínio, casou com o vizinho, melhor amigo do irmão, e mora há 20 anos na casa que pertencia aos sogros, ao lado de Dona Marisa. | Foto: Ramiro Furquim/Sul21



Dona Marta lembra do dia em que o Golpe Militar foi anunciado na rádio, assim como lembra de quando o presidente Getúlio Vargas, gaúcho, veio a Porto Alegre inaugurar o bairro. “Lembro da minha irmã pedir ao meu pai para desligar o rádio antes de a Hora do Brasil começar, porque se algum militar visse a transgressão, eles entrariam na casa para prender alguém da família. Os homens, não as crianças”, reconta.

Dona Marisa lembra de ver Elis chegando de longe de mãos dadas com um rapaz e, ao se aproximar do condomínio, largando a mão dele. “Eu só escuto falar de a Elis ter sido namoradeira pela mídia, porque eu nunca a vi com alguém. A mãe dela era muito severa”, atesta a amiga de infância da cantora e possível guardiã dos segredos da amiga até hoje. E até hoje ela fala com a mãe de Elis.

Crescer no IAPI, mais do que criar amizades de uma vida, criou uma vida para Dona Marisa e Dona Marta. “Não precisamos sair daqui para nada. Temos tudo à volta”, aponta Dona Marisa. Dona Marta casou com o amigo de infância do irmão, que morava na casa ao lado da dela. A irmã da mãe de Dona Marisa morreu no bairro aos 115 anos, tendo visto todas as histórias do bairro crescer com ele. “Meu avô vinha de Uruguaiana e dizia se sentir confortável aqui no bairro. Não tinha diferença. Somos um universo paralelo, há qualquer coisa de cidade do interior aqui”, avalia Dona Marisa.





A figueira bicentenária é uma das marcas mais fortes do IAPI. Ao fundo, o condomínio de Dona Marisa, Dona Marta e Elis. | Foto: Ramiro Furquim/Sul21


Para elas, a mudança do bairro ao longos dessas seis décadas é marcada pelo aumento do movimento do transporte público – no início do IAPI, era o bonde a única opção de transporte. Hoje com três linhas de ônibus e carros-lotação, sair do IAPI ficou mais fácil, mas nunca necessário. “Não penso em morar em outro lugar. Minha vida toda eu vivi isso aqui”, diz Dona Marisa.


Gerações da fotografia


Nikolaj Lenski é russo e veio ao Brasil na década de 1950 fugindo dos soviéticos. Sem saber português ou o que fazer na cidade, foi parar no IAPI, onde começou um trabalho de revelação de filmes em um estúdio improvisado embaixo da escada da sala da sua casa. Um dos seus primeiros clientes foi Edmundo Gardolinski que, além de ser o arquiteto responsável pelo Conjunto Residencial Passo D´Areia – vulgo IAPI -, o maior e mais antigo da América do Sul, era de descendência polonesa e gostava de fotografia. Gardolinski chamou Nikolaj (Nick) para ser o fotógrafo da inauguração da vila. “Foi Gardolinski que alavancou a carreira do meu pai”, lembra Eduardo Lenskij, o responsável pelo Estúdio Nick, o mais antigo estúdio fotográfico da cidade.





O ex-presidente Getúlio Vargas participa da inauguração do bairro. | Foto: Nikolaj Lenskij/Acervo Foto Nick


Nick é responsável por uma das fotos mais célebres da abertura do IAPI, mas ficou mesmo conhecido pelo retrato que fez de Elis Regina, a figura mais célebre do bairro e, certamente, mais célebre do que Getúlio como ele aparece na foto de Nick.

Eduardo hoje é quem toma conta do estúdio, que é o mesmo desde 1954 – com o mesmo neon na frente. Ele e o filho são os fotógrafos oficiais do IAPI, e é virtualmente impossível não encontrar um rosto conhecido pelas paredes do estúdio, que colecionam exemplos do trabalho da família há três gerações.

Eduardo nunca morou no IAPI, mas resume sua vida ao bairro. Estudou no Colégio Becker à noite e, durante o dia, ajudava o pai no estúdio. Para ganhar mais dinheiro, fazia transporte das estudantes do bairro a universidade Unisinos na década de 1970. Casou-se com uma delas. O pai, o Nick, faleceu aos 58 anos. Eduardo está à frente do estúdio desde então – são 35 anos de fotografia dos moradores do IAPI.



“O bairro não mudou. Só o movimento mudou. As pessoas são as mesmas”, atesta o fotógrafo que eternizou a vida de centenas de moradores do bairro com suas lentes.





Foto Nick: há três gerações eles são os fotógrafos oficiais do IAPI. | Foto: Ramiro Furquim/Sul21


Mobilizar pela revitalização


Pedro Lemos nasceu e cresceu no IAPI. Aos 60 anos, ele é marinheiro aposentado e presidente do Mobiliza IAPI, uma entidade que visa à melhora do bairro e sua futura conservação. Ficou afastado da área por oito anos, por motivos profissionais. A mãe ficou no mesmo apartamento, onde moram até hoje. A esposa de Lemos, de origem portuguesa, também. “Poderia ter ido morar em Portugal, mas a minha esposa adorou o IAPI”, revela.

Dentro do Mobiliza, Lemos foca em projetos que buscam a restauração e preservação de áreas históricas e a criação de serviços que abranjam a realidade atual da área. Estão em tratativas para manter o Postão do IAPI aberto 24 horas por dia, além de criar uma creche comunitária. “O papel da mulher mudou, ela trabalha, e a sua contribuição ao orçamento doméstico é essencial. Ela precisa de ajuda com os filhos”, avalia o presidente.

Outro projeto em tramitação no Orçamento Participativo é a criação de um centro comunitário para idosos, conta o aposentado, que garante existir no IAPI uma das maiores comunidades de idosos do país. O Mobiliza, criado em junho do ano passado, não é apenas uma mobilização que olha para o futuro do bairro, mas que mantém um compromisso com o seu passado. Várias das iniciativas de novos moradores que derrubam as casas originais para construir novas estão sendo combatidas pelo movimento.




Florir IAPI




Avenida das Industriários receberá um canteiro de flores pelo Projeto Florir. | Foto: Ramiro Furquim/Sul21


A Avenida dos Industriários, uma das primeiras a ser pavimentadas no bairro, é o maior elo de ligação do IAPI com seus bairros vizinhos. A larga avenida de duas vias separadas por um canteiro central está prestes a ser revitalizada, enfeitada, embelezada. É a intenção do Projeto Florir, uma ideia que a Associação de Moradores da Vila levou à Escola Técnica Cristo Redentor no final do ano passado.

O Florir IAPI é liderado pela arquiteta e urbanista Cristina Guerreiro, professora do curso técnico de edificações da escola. O projeto é um reflexo da cultura do bairro; consiste na união de voluntários (formados pelos alunos de Cristina e a população de moradores do IAPI) num projeto que irá plantar flores por toda a extensão do canteiro da Avenida. A definição das espécies a serem cultivadas levou em consideração a história da vegetação já existente. “ Serão flores de médio porte, que harmonizarão com as grandes árvores que existem no local”, revela a urbanista.

O grupo de alunos que assina o projeto foi educado em IAPI. Aulas sobre a história e a arquitetura típica do bairro deram ao grupo base do que seria feito nos próximos seis meses para melhorar a área de convivência social. “As pessoas que vieram nos procurar ali queriam estar na rua. Essa é toda a ideia do projeto”.



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As lembranças do baitasar e o IAPI


"Carnaval é Aqui, Carnaval é na Vila do IAPI!"


Milton e Elci - essa história começa aqui no IAPI

Ao fundo o Estádio Alim Pedro - 1954

O casamento na Igreja de madeira NS das Graças - 24/12/1955


O Padre Alfredo



Mauro, Rogério e Ricardo - 25/12/1961 ( na rua ao fundo acontecia o carnaval)


Ensaiando os primeiros passos, ao fundo o Estádio Alim Pedro (1962)


O Tio Antonio Belardinelli, os sobrinhos e o seu Estádio Alim Pedro (1962)



Av. Plínio Brasil Milano, 2100 - em frente ao Posto Texacão (1962)
IAPI - Av. Plínio Brasil Milano, 2100


O melhor colo do mundo - 1957


Plínio Brasil Milano, 2100 - 1957


O melhor colo do mundo - 1957

O baitasar - 1958


Sede de Esportes do Estádio Alim Pedro


Estádio Alim Pedro


Sede Esportiva do Estádio Alim Pedro
São tantas histórias...

Somente nas histórias do IAPI consegui entender a força e a resistência de Getúlio na memória das pessoas. Um político cassado e desqualificado pelas elites jornalísticas e empresariais, mas venerado nos apartamento e casas do IAPI. O Minha Casa Minha Vida existiu antes de agora. E outro político é cassado e desqualificado pelas elites jornalísticas e empresariais, mas não conseguem arrancar do coração e da memória das pessoas o nome Lula.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O albergue Diaz da Cruz vai fechar? Porto Alegre vai deixar?


Por falta de recursos, albergue para 100 pessoas em situação de rua pode fechar




SUL 21




Foto: Guilherme Santos/Sul21



Luís Eduardo Gomes


Cleiton não conheceu os pais. Foi criado pelos avós, em Pelotas. Aos 12 anos, perdeu a avó. Quando seu avô conheceu outra mulher, saiu de casa. Sem contato com parentes, o encaminhamento que recebeu foi o das drogas e o das ruas. Naturalmente, também o do crime.

Aos 39 anos, depois de idas e vindas, ele está há seis anos sem passagem pela polícia. Trabalha em uma das obras do Zaffari em Porto alegre. Há mais de um mês, tem carteira assinada como pedreiro, mas não tem onde morar. Ele é uma das mais de 60 pessoas que passaram a noite da última quarta-feira (29) no albergue noturno do Instituto Espírita Dias da Cruz.

Por falta de recursos, porém, esse teto também pode não estar mais disponível em breve. De acordo com o presidente do instituto, Eder Cardoso, os altos custos de manutenção do albergue estão quase inviabilizando que ele permaneça aberto.

Segundo números fornecidos pela instituição, o custo total do albergue é de R$ 56.530,26 por mês. O convênio com a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), órgão da prefeitura de Porto Alegre, repassa R$ 28.262,40 mensais, valor que não cobre a folha de pagamento dos 12 funcionários contratados especificamente para o albergue, R$ 33.817,26.




Cleiton não quis pousar para fotos| Foto: Guilherme Santos/Sul21


Cardoso afirma que, frequentemente, a entidade deve se virar para não fechar no vermelho. Como a maioria das roupas doadas para a instituição é feminina – ele estima que 90% – e a maioria dos albergados são homens, ou não são o tipo de peça que os albergados precisam, a casa faz rotineiramente brechós, bazares e feirões com as peças para arrecadar fundos. Mas, apesar de constituir uma fonte de recursos importante, isso não é suficiente para cobrir o déficit mensal com o albergue, obrigando a casa a recorrer a doações, carnês e mensalidades dos associados.

O problema é que o albergue é apenas um dos serviços oferecidos pelo instituto. Também há uma escola gratuita para 120 crianças carentes, de 4 meses a 6 anos, da região. Para ela, a instituição possui convênios com Secretária Municipal de Educação (Smed) e com o Hospital Ernesto Dornelles, mas estas parcerias também não cobrem a integridade dos custos mensais, R$ 71.425,70.

No fim das contas, estes serviços dependem do superávit do centro espírita para que as contas da instituição fecham. Contudo, até junho, o déficit geral acumulado é de R$ 12.677,12. Cardoso explica que, se tiver de optar entre manter a escola ou o albergue abertos, a instituição deverá ficar com a primeira opção.

“Do jeito que está, se não houver um aumento significativos de recursos que a gente recebe da Fasc e da comunidade, não tem como continuar com o albergue. Pode fechar no final do ano”, diz Cardoso.


Exigências inviabilizam o albergue

A primeira noite posterior ao fechamento do albergue seria a primeira em que o Dias da Cruz não atendeu pessoas em situação de rua em seus 84 anos de funcionamento.


Cardoso explica que isso ocorreria porque, depois de firmado o convênio com a Fasc, em 2009, aumentaram as exigências ao Dias da Cruz. Se antes voluntários faziam o acompanhamento dos albergados, passou-se a exigir que profissionais especializados assumissem todas as funções da casa, o que fez multiplicar a folha de pagamento.

A situação financeira, porém, ainda pode piorar muito. O Marco Regulatório das ONGs, legislação criada para regularizar o trabalho do terceiro setor e afastar entidades que agem de má fé, também aumenta as exigências de infraestrutura para albergues. Em outras palavras, dificulta a vidas das instituições, especialmente as filantrópicas.





O Instituto também abriga uma escola para 120 crianças carentes | Foto: Caroline Ferraz/Sul21


Quando o marco entrar em vigor – já deveria ter entrado, mas foi adiado -, o Dias da Cruz, por exemplo, terá que instalar dois elevadores de acesso. Também terá que contratar mais assistentes sociais – atualmente só tem uma para 100 pessoas – e mais funcionários. “Vai triplicar o custo”, afirma Cardoso, que ainda diz acreditar que o poder público deveria arcar com 100% ou ao menos perto disso dos custos do albergue, mas só arca com aproximadamente 43% atualmente.


Segundo a Fasc, há uma pequena diferença no repasse mensal, que seria de R$ 28.785,63. Como o convênio é renovado anualmente e reajustado de acordo com a inflação, o novo contrato, firmado em 22 de julho de 2015, deve aumentar um pouco nos próximos meses, mas não há previsão para elevação significativa do repasse – ainda que também não haja risco de o repasse ser cortado.


Caso a manutenção do albergue noturno se comprove insustentável para o Dias da Cruz, a Fasc deve procurar outra instituição para transmitir o convênio. “Se a decisão do Instituto Dias da Cruz for pelo fechamento do albergue, a Fasc deverá buscar outra parceria para executar a ação de albergue no município. O convênio deverá ser repassado a essa nova entidade, que terá que, além de atender os requisitos apontados acima, seguir o que diz a nova Lei 13.019/2014 (Marco Regulatório)”, disse a assessoria da Fasc em resposta a questionamentos do Sul21.





Albergue tem 62 vagas para homens e 38 para mulheres | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



100 vagas por noite


Todos os dias, às 19h, o albergue Dias da Cruz abre vagas para 100 pessoas – 62 homens e 38 mulheres (a população de rua da cidade é primordialmente masculina). Qualquer um pode dormir ali, desde que não esteja alcoolizado ou sob efeito de narcóticos. Às 6h30, tem que deixar o local, porque os funcionários da casa, por trabalharem no regime de 12 horas por 36 de folga, podem ficar, no máximo, até às 7h do dia seguinte.

No Dias da Cruz, os albergados recebem banho, janta e café da manhã. Para as mulheres, há berçários. Elas também ganham um enxoval completo, feito por voluntários, quando estão no oitavo mês de gravidez. Enquanto esperávamos a abertura dos portões da casa, na última quarta-feira, havia menos de dez mulheres, uma delas grávida, enquanto os homens, provavelmente, eram mais do que suficientes para preencher suas 62 vagas.





Albergadas contam com berços e brinquedos para seus bebês | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



Na sala de jantar, os albergados podem ver TV. Também tem acesso a livros, que, se quiserem, podem ler até as 21h, quando as luzes são desligadas. Uma vez por semana, recebem a visita de um médico voluntário. Há um consultório odontológico todo equipado, mas há mais de ano não há dentista voluntário, então fica parado. Por falta de voluntário na parte da noite, os albergados também não conseguem utilizar os computadores do laboratório – máquinas em bom estado doadas pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT) e pelo Senac. Aqueles que desejam, porém, podem participar de oficinas culturais e de artesanato uma vez por semana.

Quem já passou a noite anterior no albergue, tem acesso garantido na noite seguinte. Os demais, devem esperar por vaga. Se não há, são encaminhados para outros locais da rede de apoio ou têm de passar a noite na rua.

Também há um limite para a permanência. Podem dormir até 15 noites seguidas no local. Ao chegar nesse limite, precisam passar outras 15 noites em local diferente para poderem retornar. Contudo, segundo a administração, a maioria pousa apenas duas ou três noites em sequência.

Fábio Quilomba é um desses que entra e sai a toda hora do Dias da Cruz. Em situação de rua há 9 anos, alterna duas semanas ali e duas no albergue Felipe Diehl, localizado no bairro Navegantes. Em outros dias, opta pela rua. “Quando tô chapado”, diz Quilomba, que é um dos responsáveis pelo jornal Boca de Rua, escrito inteiramente por pessoas em situação de rua.




Histórias distintas, realidades semelhantes


Como está trabalhando, Cleiton conseguiu estender sua estadia no Dias da Cruz por mais 30 dias, benefício concedido a todos na mesma situação – o instituto diz que se preocupa também com a reinserção dos albergados. Ele diz que até poderia tentar conseguir alugar algo com seu salário atual, mas, como está na fila do aluguel social, poderia perder o processo do benefício.

Antes do Dias da Cruz, porém, ele alternava suas noites entre albergues, a rua e moradias temporárias. Leva seus pertences em uma grande mochila. Na quarta, deixou no trabalho, mas temia ser roubado. Não tem contato com parentes, mas conta que, anualmente, recebe a visita de duas irmãs finlandesas, Katri e Laura, estudantes de geografia social, que conheceu quando atuava em um projeto de Hip Hop, Amizade, em Pelotas.





Luiz Augusto teve várias passagens pela polícia, mas agora espera por uma oportunidade | Foto: Guilherme Santos/Sul21


A realidade de Cleiton é semelhante a de muitos que esperavam para entrar no albergue esta semana. Pessoas que não conheceram os pais, que caíram nas drogas, que saíram de suas cidades para buscar emprego, que têm passagens pela polícia, que tentam conseguir trabalho, mas não conseguem. Como eles mesmo disseram, ninguém é santo, mas todos estão à espera de uma oportunidade.

“Todo mundo quer uma oportunidade para não fazer coisa errada”, disse Luiz Augusto, 30 anos, e desde os 16 com passagens pela rua. “Minha infância toda foi na cadeia”. Diferentemente de Cleiton, ele ainda diz se dar muito bem com o pai.

Sua última passagem foi por assalto e tentativa de homicídio. “A vítima reagiu”, afirma. Passou três anos no Presídio Central. Saiu no ano passado. Agora, diz que está muito velho para cair de novo no presídio. “Quem quer voltar para o inferno?”, questiona, acrescentando que está há três meses sem usar drogas e tentando ficar longe das más companhias.

Seu último emprego foi em Gramado, há cerca de seis meses. Estava trabalhando na montagem de um estande, mas se desentendeu com o patrão e foi mandado embora. Sem dinheiro, não tinha como pagar aluguel. Voltou para Porto Alegre para tentar uma oportunidade, mas ainda não conseguiu.

Enquanto aguarda, alterna seus dias entra o albergue e a rua. Na quarta-feira, iria tentar uma vaga no Dias da Cruz. Incerta, já que não tinha dormido ali no dia anterior. Caso não conseguisse, suas opções seriam o Viaduto da Conceição ou a galeria do Rosário. Ao se despedir, nos convidou para voltar e conhecer seu trabalho artístico. Faz casas artesanais com palitos de picolé.





O haitiano Beuna Pierra chegou há seis meses em Porto Alegre, mas ainda não encontrou lugar para morar | Foto: Guilherme Santos/Sul21


Quem também espera uma oportunidade é Beuna Pierre, 33 anos, haitiano. Sem trabalho em sua terra natal, parou primeiro em Rondônia. Em Porto Alegre desde fevereiro, já está cadastrado no Sine, mas ainda não encontrou nenhum emprego e teve que dormir na rua. Diferentemente de outros estrangeiros que chegaram ao Estado nos últimos anos, Pierre não conhecia ninguém aqui. Sugiro que procure alguma associação de haitianos, pois há vários conterrâneos seus que se organizam para dividir alojamento.



Sem dinheiro


Para aqueles que estão em situação de rua, mas aguardam uma oportunidade para melhorar de vida, a janta e a cama do albergue são uma benção. Contudo, o Dias da Cruz também serve de abrigo para quem se encontra em situações diferentes.

Dirceu Bilefet, 40 anos, tem um bom emprego em uma empresa grande. É soldador na Ross Montagens de Estruturas Metálicas. Começou a semana em uma fábrica da Cherry Motors, em Jacareí (SP). Com o fim da obra, foi transferido para Porto Alegre. Dezenove horas depois, desembarcou na Rodoviária no fim da tarde de quarta. Sem dinheiro no bolso, tentou sacar no caixa eletrônico. Atrapalhou-se. Teve um dos cartões bloqueados e uma “grana não caiu”. Natural de São Grabriel, não conhece ninguém por aqui. Ficou sem ter para onde ir.





Dirceu não está em situação de rua, mas ficou sem dinheiro e precisou recorrer ao albergue | Foto: Guilherme Santos/Sul21


No dia seguinte, provavelmente teria sua situação resolvida e poderia dormir no alojamento indicado pela empresa ou até mesmo pagar por uma diária. Na Rodoviária, lhe indicaram o Dias da Cruz. Como era o albergue ou dormir na Rodoviária, optou pela primeira opção. Mas seu pouso não estava garantido, pois era o último da fila que esperava o acesso para novas entradas. Na quinta, descobrimos que Dirceu tinha conseguido acesso.



E se fechar?


Aline de Almeida Carvalho, assistente social do Dias da Cruz, diz que não gosta nem de imaginar o impacto que o fechamento do albergue teria para a população em situação de rua.

“Eu circulo na rede própria da Fasc e nos conveniados e a estrutura física para atender estas pessoas é muito melhor no Dias da Cruz e no Felipe Diehl (outro albergue que tem convênio com a Fasc)”, afirma, acrescentando que apesar de insuficiente, os albergues existentes conseguem atender a maior parte da pessoas que desejam dormir sob um teto. “O descontinuamento do Dias da Cruz levaria uma população muito maior de pessoas a dormir na rua, mas sem querer dormir na rua”.

Ela também acrescenta que o Dias da Cruz é essencial para o atendimento dessa população por se tratar do único localizado nesta região da Azenha, com possibilidade de atender Centro, Cidade Baixa, Menino Deus, etc.

Atualmente, a rede de albergues de Porto Alegre com 355 vagas ao longo do ano distribuídas entre o Dias da Cruz, o Felipe Diehl e o Albergue Municipal. Durante a Operação Inverno, 100 vagas a mais são criadas.

Caso o instituto precise realmente fechar o albergue, Cardoso diz que poderá apenas oferecer um lanche, uma janta e continuar com as doações. Apesar de ser um cenário real, prefere não ser tão pessimista e segue confiando que o quadro pode mudar. “Não vou simplesmente fechar os portões e dizer que a partir de hoje eu não recebo mais ninguém”.





Dormitório feminino tem berços | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



Enquanto o Dias da Cruz abriga pessoas em situação de rua de noite, durante a dia recebe 120 crianças em sua escola | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



Instituição conta com um depósito de alimentos compartilhado e bem organizado | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



Albergados recebem chinelos ao chegarem ao setor de triagem | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



Casa conta com consultório odontológico, mas não há dentista | Foto: Caroline Ferraz/Sul21





Um comentário para “Por falta de recursos, albergue para 100 pessoas em situação de rua pode fechar”

Eder Geraldo Cardoso disse:


31 de julho de 2015 às 11:51


Parabéns pela matéria Luís Eduardo Gomes e muito obrigado por sua sensibilidade.

O que a assessora da FASC deixou de informar é a grande dificuldade senão impossibilidade de outra instituição querer assumir o trabalho que o Dias da Cruz realiza. Por ser um trabalho que não visa lucro (somente lucro social), quem em sã consciência construiria ou locaria um local para abrigar 100 pessoas com um custo alto e uma receita em torno de 43% deste custo? Se fosse tão fácil assim teríamos vários albergues na cidade.

A FASC tem sido nossa parceira e o presidente Marcelo Soares não mede esforços para nos ajudar, mas não depende só dele e de sua equipe. Sabemos que a Prefeitura tem suas limitações orçamentárias e também questões políticas.

Continuaremos lutando para que esta obra social de vital importância para a comunidade não feche, mas para isso precisaremos da ajuda de todos.

Saúde e Paz.


Éder Geraldo Cardoso – Presidente do IEDC