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sexta-feira, 31 de julho de 2015

O albergue Diaz da Cruz vai fechar? Porto Alegre vai deixar?


Por falta de recursos, albergue para 100 pessoas em situação de rua pode fechar




SUL 21




Foto: Guilherme Santos/Sul21



Luís Eduardo Gomes


Cleiton não conheceu os pais. Foi criado pelos avós, em Pelotas. Aos 12 anos, perdeu a avó. Quando seu avô conheceu outra mulher, saiu de casa. Sem contato com parentes, o encaminhamento que recebeu foi o das drogas e o das ruas. Naturalmente, também o do crime.

Aos 39 anos, depois de idas e vindas, ele está há seis anos sem passagem pela polícia. Trabalha em uma das obras do Zaffari em Porto alegre. Há mais de um mês, tem carteira assinada como pedreiro, mas não tem onde morar. Ele é uma das mais de 60 pessoas que passaram a noite da última quarta-feira (29) no albergue noturno do Instituto Espírita Dias da Cruz.

Por falta de recursos, porém, esse teto também pode não estar mais disponível em breve. De acordo com o presidente do instituto, Eder Cardoso, os altos custos de manutenção do albergue estão quase inviabilizando que ele permaneça aberto.

Segundo números fornecidos pela instituição, o custo total do albergue é de R$ 56.530,26 por mês. O convênio com a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), órgão da prefeitura de Porto Alegre, repassa R$ 28.262,40 mensais, valor que não cobre a folha de pagamento dos 12 funcionários contratados especificamente para o albergue, R$ 33.817,26.




Cleiton não quis pousar para fotos| Foto: Guilherme Santos/Sul21


Cardoso afirma que, frequentemente, a entidade deve se virar para não fechar no vermelho. Como a maioria das roupas doadas para a instituição é feminina – ele estima que 90% – e a maioria dos albergados são homens, ou não são o tipo de peça que os albergados precisam, a casa faz rotineiramente brechós, bazares e feirões com as peças para arrecadar fundos. Mas, apesar de constituir uma fonte de recursos importante, isso não é suficiente para cobrir o déficit mensal com o albergue, obrigando a casa a recorrer a doações, carnês e mensalidades dos associados.

O problema é que o albergue é apenas um dos serviços oferecidos pelo instituto. Também há uma escola gratuita para 120 crianças carentes, de 4 meses a 6 anos, da região. Para ela, a instituição possui convênios com Secretária Municipal de Educação (Smed) e com o Hospital Ernesto Dornelles, mas estas parcerias também não cobrem a integridade dos custos mensais, R$ 71.425,70.

No fim das contas, estes serviços dependem do superávit do centro espírita para que as contas da instituição fecham. Contudo, até junho, o déficit geral acumulado é de R$ 12.677,12. Cardoso explica que, se tiver de optar entre manter a escola ou o albergue abertos, a instituição deverá ficar com a primeira opção.

“Do jeito que está, se não houver um aumento significativos de recursos que a gente recebe da Fasc e da comunidade, não tem como continuar com o albergue. Pode fechar no final do ano”, diz Cardoso.


Exigências inviabilizam o albergue

A primeira noite posterior ao fechamento do albergue seria a primeira em que o Dias da Cruz não atendeu pessoas em situação de rua em seus 84 anos de funcionamento.


Cardoso explica que isso ocorreria porque, depois de firmado o convênio com a Fasc, em 2009, aumentaram as exigências ao Dias da Cruz. Se antes voluntários faziam o acompanhamento dos albergados, passou-se a exigir que profissionais especializados assumissem todas as funções da casa, o que fez multiplicar a folha de pagamento.

A situação financeira, porém, ainda pode piorar muito. O Marco Regulatório das ONGs, legislação criada para regularizar o trabalho do terceiro setor e afastar entidades que agem de má fé, também aumenta as exigências de infraestrutura para albergues. Em outras palavras, dificulta a vidas das instituições, especialmente as filantrópicas.





O Instituto também abriga uma escola para 120 crianças carentes | Foto: Caroline Ferraz/Sul21


Quando o marco entrar em vigor – já deveria ter entrado, mas foi adiado -, o Dias da Cruz, por exemplo, terá que instalar dois elevadores de acesso. Também terá que contratar mais assistentes sociais – atualmente só tem uma para 100 pessoas – e mais funcionários. “Vai triplicar o custo”, afirma Cardoso, que ainda diz acreditar que o poder público deveria arcar com 100% ou ao menos perto disso dos custos do albergue, mas só arca com aproximadamente 43% atualmente.


Segundo a Fasc, há uma pequena diferença no repasse mensal, que seria de R$ 28.785,63. Como o convênio é renovado anualmente e reajustado de acordo com a inflação, o novo contrato, firmado em 22 de julho de 2015, deve aumentar um pouco nos próximos meses, mas não há previsão para elevação significativa do repasse – ainda que também não haja risco de o repasse ser cortado.


Caso a manutenção do albergue noturno se comprove insustentável para o Dias da Cruz, a Fasc deve procurar outra instituição para transmitir o convênio. “Se a decisão do Instituto Dias da Cruz for pelo fechamento do albergue, a Fasc deverá buscar outra parceria para executar a ação de albergue no município. O convênio deverá ser repassado a essa nova entidade, que terá que, além de atender os requisitos apontados acima, seguir o que diz a nova Lei 13.019/2014 (Marco Regulatório)”, disse a assessoria da Fasc em resposta a questionamentos do Sul21.





Albergue tem 62 vagas para homens e 38 para mulheres | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



100 vagas por noite


Todos os dias, às 19h, o albergue Dias da Cruz abre vagas para 100 pessoas – 62 homens e 38 mulheres (a população de rua da cidade é primordialmente masculina). Qualquer um pode dormir ali, desde que não esteja alcoolizado ou sob efeito de narcóticos. Às 6h30, tem que deixar o local, porque os funcionários da casa, por trabalharem no regime de 12 horas por 36 de folga, podem ficar, no máximo, até às 7h do dia seguinte.

No Dias da Cruz, os albergados recebem banho, janta e café da manhã. Para as mulheres, há berçários. Elas também ganham um enxoval completo, feito por voluntários, quando estão no oitavo mês de gravidez. Enquanto esperávamos a abertura dos portões da casa, na última quarta-feira, havia menos de dez mulheres, uma delas grávida, enquanto os homens, provavelmente, eram mais do que suficientes para preencher suas 62 vagas.





Albergadas contam com berços e brinquedos para seus bebês | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



Na sala de jantar, os albergados podem ver TV. Também tem acesso a livros, que, se quiserem, podem ler até as 21h, quando as luzes são desligadas. Uma vez por semana, recebem a visita de um médico voluntário. Há um consultório odontológico todo equipado, mas há mais de ano não há dentista voluntário, então fica parado. Por falta de voluntário na parte da noite, os albergados também não conseguem utilizar os computadores do laboratório – máquinas em bom estado doadas pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT) e pelo Senac. Aqueles que desejam, porém, podem participar de oficinas culturais e de artesanato uma vez por semana.

Quem já passou a noite anterior no albergue, tem acesso garantido na noite seguinte. Os demais, devem esperar por vaga. Se não há, são encaminhados para outros locais da rede de apoio ou têm de passar a noite na rua.

Também há um limite para a permanência. Podem dormir até 15 noites seguidas no local. Ao chegar nesse limite, precisam passar outras 15 noites em local diferente para poderem retornar. Contudo, segundo a administração, a maioria pousa apenas duas ou três noites em sequência.

Fábio Quilomba é um desses que entra e sai a toda hora do Dias da Cruz. Em situação de rua há 9 anos, alterna duas semanas ali e duas no albergue Felipe Diehl, localizado no bairro Navegantes. Em outros dias, opta pela rua. “Quando tô chapado”, diz Quilomba, que é um dos responsáveis pelo jornal Boca de Rua, escrito inteiramente por pessoas em situação de rua.




Histórias distintas, realidades semelhantes


Como está trabalhando, Cleiton conseguiu estender sua estadia no Dias da Cruz por mais 30 dias, benefício concedido a todos na mesma situação – o instituto diz que se preocupa também com a reinserção dos albergados. Ele diz que até poderia tentar conseguir alugar algo com seu salário atual, mas, como está na fila do aluguel social, poderia perder o processo do benefício.

Antes do Dias da Cruz, porém, ele alternava suas noites entre albergues, a rua e moradias temporárias. Leva seus pertences em uma grande mochila. Na quarta, deixou no trabalho, mas temia ser roubado. Não tem contato com parentes, mas conta que, anualmente, recebe a visita de duas irmãs finlandesas, Katri e Laura, estudantes de geografia social, que conheceu quando atuava em um projeto de Hip Hop, Amizade, em Pelotas.





Luiz Augusto teve várias passagens pela polícia, mas agora espera por uma oportunidade | Foto: Guilherme Santos/Sul21


A realidade de Cleiton é semelhante a de muitos que esperavam para entrar no albergue esta semana. Pessoas que não conheceram os pais, que caíram nas drogas, que saíram de suas cidades para buscar emprego, que têm passagens pela polícia, que tentam conseguir trabalho, mas não conseguem. Como eles mesmo disseram, ninguém é santo, mas todos estão à espera de uma oportunidade.

“Todo mundo quer uma oportunidade para não fazer coisa errada”, disse Luiz Augusto, 30 anos, e desde os 16 com passagens pela rua. “Minha infância toda foi na cadeia”. Diferentemente de Cleiton, ele ainda diz se dar muito bem com o pai.

Sua última passagem foi por assalto e tentativa de homicídio. “A vítima reagiu”, afirma. Passou três anos no Presídio Central. Saiu no ano passado. Agora, diz que está muito velho para cair de novo no presídio. “Quem quer voltar para o inferno?”, questiona, acrescentando que está há três meses sem usar drogas e tentando ficar longe das más companhias.

Seu último emprego foi em Gramado, há cerca de seis meses. Estava trabalhando na montagem de um estande, mas se desentendeu com o patrão e foi mandado embora. Sem dinheiro, não tinha como pagar aluguel. Voltou para Porto Alegre para tentar uma oportunidade, mas ainda não conseguiu.

Enquanto aguarda, alterna seus dias entra o albergue e a rua. Na quarta-feira, iria tentar uma vaga no Dias da Cruz. Incerta, já que não tinha dormido ali no dia anterior. Caso não conseguisse, suas opções seriam o Viaduto da Conceição ou a galeria do Rosário. Ao se despedir, nos convidou para voltar e conhecer seu trabalho artístico. Faz casas artesanais com palitos de picolé.





O haitiano Beuna Pierra chegou há seis meses em Porto Alegre, mas ainda não encontrou lugar para morar | Foto: Guilherme Santos/Sul21


Quem também espera uma oportunidade é Beuna Pierre, 33 anos, haitiano. Sem trabalho em sua terra natal, parou primeiro em Rondônia. Em Porto Alegre desde fevereiro, já está cadastrado no Sine, mas ainda não encontrou nenhum emprego e teve que dormir na rua. Diferentemente de outros estrangeiros que chegaram ao Estado nos últimos anos, Pierre não conhecia ninguém aqui. Sugiro que procure alguma associação de haitianos, pois há vários conterrâneos seus que se organizam para dividir alojamento.



Sem dinheiro


Para aqueles que estão em situação de rua, mas aguardam uma oportunidade para melhorar de vida, a janta e a cama do albergue são uma benção. Contudo, o Dias da Cruz também serve de abrigo para quem se encontra em situações diferentes.

Dirceu Bilefet, 40 anos, tem um bom emprego em uma empresa grande. É soldador na Ross Montagens de Estruturas Metálicas. Começou a semana em uma fábrica da Cherry Motors, em Jacareí (SP). Com o fim da obra, foi transferido para Porto Alegre. Dezenove horas depois, desembarcou na Rodoviária no fim da tarde de quarta. Sem dinheiro no bolso, tentou sacar no caixa eletrônico. Atrapalhou-se. Teve um dos cartões bloqueados e uma “grana não caiu”. Natural de São Grabriel, não conhece ninguém por aqui. Ficou sem ter para onde ir.





Dirceu não está em situação de rua, mas ficou sem dinheiro e precisou recorrer ao albergue | Foto: Guilherme Santos/Sul21


No dia seguinte, provavelmente teria sua situação resolvida e poderia dormir no alojamento indicado pela empresa ou até mesmo pagar por uma diária. Na Rodoviária, lhe indicaram o Dias da Cruz. Como era o albergue ou dormir na Rodoviária, optou pela primeira opção. Mas seu pouso não estava garantido, pois era o último da fila que esperava o acesso para novas entradas. Na quinta, descobrimos que Dirceu tinha conseguido acesso.



E se fechar?


Aline de Almeida Carvalho, assistente social do Dias da Cruz, diz que não gosta nem de imaginar o impacto que o fechamento do albergue teria para a população em situação de rua.

“Eu circulo na rede própria da Fasc e nos conveniados e a estrutura física para atender estas pessoas é muito melhor no Dias da Cruz e no Felipe Diehl (outro albergue que tem convênio com a Fasc)”, afirma, acrescentando que apesar de insuficiente, os albergues existentes conseguem atender a maior parte da pessoas que desejam dormir sob um teto. “O descontinuamento do Dias da Cruz levaria uma população muito maior de pessoas a dormir na rua, mas sem querer dormir na rua”.

Ela também acrescenta que o Dias da Cruz é essencial para o atendimento dessa população por se tratar do único localizado nesta região da Azenha, com possibilidade de atender Centro, Cidade Baixa, Menino Deus, etc.

Atualmente, a rede de albergues de Porto Alegre com 355 vagas ao longo do ano distribuídas entre o Dias da Cruz, o Felipe Diehl e o Albergue Municipal. Durante a Operação Inverno, 100 vagas a mais são criadas.

Caso o instituto precise realmente fechar o albergue, Cardoso diz que poderá apenas oferecer um lanche, uma janta e continuar com as doações. Apesar de ser um cenário real, prefere não ser tão pessimista e segue confiando que o quadro pode mudar. “Não vou simplesmente fechar os portões e dizer que a partir de hoje eu não recebo mais ninguém”.





Dormitório feminino tem berços | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



Enquanto o Dias da Cruz abriga pessoas em situação de rua de noite, durante a dia recebe 120 crianças em sua escola | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



Instituição conta com um depósito de alimentos compartilhado e bem organizado | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



Albergados recebem chinelos ao chegarem ao setor de triagem | Foto: Caroline Ferraz/Sul21



Casa conta com consultório odontológico, mas não há dentista | Foto: Caroline Ferraz/Sul21





Um comentário para “Por falta de recursos, albergue para 100 pessoas em situação de rua pode fechar”

Eder Geraldo Cardoso disse:


31 de julho de 2015 às 11:51


Parabéns pela matéria Luís Eduardo Gomes e muito obrigado por sua sensibilidade.

O que a assessora da FASC deixou de informar é a grande dificuldade senão impossibilidade de outra instituição querer assumir o trabalho que o Dias da Cruz realiza. Por ser um trabalho que não visa lucro (somente lucro social), quem em sã consciência construiria ou locaria um local para abrigar 100 pessoas com um custo alto e uma receita em torno de 43% deste custo? Se fosse tão fácil assim teríamos vários albergues na cidade.

A FASC tem sido nossa parceira e o presidente Marcelo Soares não mede esforços para nos ajudar, mas não depende só dele e de sua equipe. Sabemos que a Prefeitura tem suas limitações orçamentárias e também questões políticas.

Continuaremos lutando para que esta obra social de vital importância para a comunidade não feche, mas para isso precisaremos da ajuda de todos.

Saúde e Paz.


Éder Geraldo Cardoso – Presidente do IEDC

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Quantas crianças temos na escola hoje no Brasil?


“Informação é a melhor arma para enfrentar o preconceito”, diz Tereza Campello


SUL 21




“O Brasil Sem Miséria acabou implementando um padrão de inovação nas políticas sociais brasileiras que coloca um ponto de não retorno”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


Marco Weissheimer


Após a disputa eleitoral de 2014, houve um grande crescimento do volume de manifestações preconceituosas contra vários setores da sociedade, em especial negros, pobres e nordestinos. O fenômeno não é novo, mas reapareceu com força no final do ano passado. “O que piorou muito não está relacionado à media da opinião da população. O problema está entre aqueles setores mais reacionários que nutrem uma coisa racista contra os mais pobres. Essas pessoas passaram a ter coragem de expressar seus preconceitos mais abertamente. Saíram do armário”, diz a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello.

Em entrevista ao Sul21, Tereza Campello analisa as causas desse tipo de preconceito e defende que a informação é a melhor arma para combatê-lo. “Recentemente tivemos o caso de uma jornalista que disse que os pobres só pensam em procriar. É um negócio inacreditável. Os dados sobre taxa de fecundidade no Brasil, hoje, são completamente conhecidos. A taxa de fecundidade brasileira caiu em todas as classes sociais e caiu muito mais entre os mais pobres, uma queda em torno de 50% acima da média nacional”, exemplifica. A ministra também fala sobre o atual estágio das políticas sociais no Brasil, aponta as prioridades para o próximo período e nega que programas como o Bolsa Família possam sofrer cortes em função de medidas de ajuste fiscal.




Sul21: Em que ponto estamos hoje no processo de construção de políticas sociais iniciado no primeiro governo Lula e que entra agora em seu quarto governo? Quais são os planos do MDS daqui para frente, qual o olhar para o futuro?

Tereza Campello: Estamos em um ponto parecido ao que estávamos quando a presidenta Dilma assumiu. Naquele momento, quando olhávamos para trás víamos oito anos de muito sucesso que tiveram como carro chefe a agenda social e como resultados a inclusão de milhões de brasileiros, a geração de empregos e muitos investimentos na área social. Parecia que não era possível avançar numa agenda que já tinha avançado tanto e que o trabalho a ser realizado era basicamente de manutenção. Aí a presidenta lançou um mega e ousado plano que foi o Brasil Sem Miséria. Acho que as pessoas não têm muita noção da dimensão desse programa. Nós não fomos tão bem tratados pela mídia tradicional, mas nós também somos ruins de comunicação.

Sul21: Qual é essa dimensão do Brasil Sem Miséria que não ficou bem visível para a sociedade?

Tereza Campello: O Brasil Sem Miséria acabou implementando um padrão de inovação nas políticas sociais brasileiras que coloca um ponto de não retorno. Cada vez que se avança muito, se estabelece um novo degrau. Acho que estabelecemos uma verdadeira laje, que nos dá bagagem para dar um salto muito superior. A presidenta fez algumas inflexões nas políticas sociais que são pouco conhecidas.

Sul21: Que inflexões foram essas?




“Agora chegamos num patamar em que é possível dizer: o Bolsa Família está universalizado”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


Tereza Campello: Em primeiro lugar, estabeleceu a ideia de que precisamos universalizar a rede de proteção social no Brasil. Isso não estava colocado. Agora chegamos num patamar em que é possível dizer: o Bolsa Família está universalizado. Certamente ainda tem gente que está fora, mas é muito residual. No caso de qualquer política em que falta abranger 150 mil famílias em um universo de 50 milhões, você pode dizer que universalizou. Mas isso não aconteceu por acaso. Foi uma determinação da presidenta Dilma. Ela determinou que fizéssemos uma busca ativa. Se há pessoas fora do sistema, é responsabilidade do Estado ir buscá-las. A responsabilidade é do Brasil Sem Miséria. Isso muda a equação. Essas pessoas são tão pobres, estão tão distantes e foram tão excluídas e abandonadas que não chegarão ao Estado brasileiro. Então, o Estado deve ir buscá-las.

A segunda inflexão, que diz respeito a algo que também não existia nas políticas públicas voltadas à população pobre no Brasil, é estabelecer uma linha abaixo da qual o Estado não aceita mais que as pessoas estejam. Uma coisa é ter um conceito de linha de pobreza para medir e poder fazer quantificações. Outra coisa é ter uma linha e estabelecer que, quem estiver abaixo dessa linha, terá uma complementação de renda garantida pelo Estado. Isso não é apenas um ditame, mas vem acompanhado de uma política pública que vai dar conta do problema. Introduziu uma mudança no Bolsa Família, fazendo com que o benefício variasse para completar a renda de quem estivesse abaixo da linha da pobreza. Essa foi uma mudança muito importante não só no que o Estado brasileiro assumiu para ele, como de referência para outros países. Tem gente que olha e não acredita que estamos fazendo isso. De fato, é uma inovação muito grande.

É óbvio que só foi possível fazer essas inflexões porque havia oito anos de governo Lula atrás. Houve ainda uma terceira grande inflexão que consistiu em dizer: não é só renda; nós queremos que os adultos tenham acesso a oportunidades para melhorar a sua renda. Isso envolve, entre outras coisas, capacitação profissional, acesso a bancos, possibilidade de formalização via carteira assinada, micro ou pequena empresa, cooperativa, economia solidária. Nós fizemos uma ação massiva muito forte de inclusão econômica dessa população. Isso não quer dizer que essas pessoas não trabalhassem. Trabalhavam (e trabalham). O que não tinham era qualificação profissional, tecnologia, informação, acesso a crédito, etc.




“Independente da existência de grandes políticas universais em áreas como saúde e educação, se você não tiver um caminho diferenciado a população pobre não acessa os serviços públicos”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


A última coisa, falando das inflexões, é que ficou claro para o Estado brasileiro uma coisa que, de certa forma, é óbvia, mas que não estava tão institucionalizado e que o Brasil Sem Miséria transformou em legado. É a noção de que, independente da existência de grandes políticas universais em áreas como saúde e educação, se você não tiver um caminho diferenciado a população pobre não acessa os serviços públicos. Queremos creches para todos, mas se tivermos um caminho tradicional de universalização, os últimos a serem universalizados serão os mais pobres. Queremos a possibilidade de que todos façam tomografia, mas, pelos caminhos tradicionais, os mais pobres serão os últimos a fazer. E assim por diante…

Então, para construir uma agenda de equidade dentro de uma política de universalização é preciso ter um caminho diferente que faça com que os mais pobres sejam incluídos ao mesmo tempo em que os outros, que não sejam os últimos a serem atendidos. É preciso ter um caminho diferenciado para essa faixa da população ter acesso à creche, ao Mais Médicos, a uma escola em tempo integral, ao crédito, etc.

Sul21: E esse caminho diferenciado é também, ele próprio, uma política pública…

Tereza Campello: São várias políticas. O Brasil Sem Miséria construiu esse espaço. Todo mundo sentava à mesa para discutir, por exemplo, como fazer para que a escola em tempo integral chegasse aos mais pobres, como fazer para que as comunidades mais pobres não fossem as últimas a terem acesso a essa escola. A partir daí fomos construídos vários caminhos para atingir esse objetivo.

Sul21: Qual é o universo de pessoas que é objeto da busca ativa hoje? Quantas famílias ainda não tem acesso às políticas públicas do Estado brasileiro?



“O que melhor expressa a nossa ambição é aquela frase da presidenta Dilma na posse: nenhum direito a menos, nenhum passo atrás”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


Tereza Campello: A nossa estimativa é de um universo de 150 mil famílias, algo em torno de 600 mil pessoas. É muita gente ainda. Além disso, temos que fazer um esforço gigantesco para impedir que as pessoas que melhoraram de vida e que foram incluídas voltem à situação anterior de pobreza. Nós não podemos deixar que isso aconteça em hipótese alguma. O que melhor expressa a nossa ambição é aquela frase da presidenta Dilma na posse: nenhum direito a menos, nenhum passo atrás. É uma frase muito forte que afirma que não vamos recuar em direitos.

O Brasil Sem Miséria fechou um ciclo. Não que não existam mais pessoas a serem buscadas, mas cumprimos com todas as metas que havíamos definido para esses últimos quatro anos. Elaboramos um diagnóstico conjunto no governo, organizamos um conjunto de políticas, criamos um sistema de monitoramento, executamos e entregamos tudo, algumas coisas acima das metas fixadas e outras que nem estavam previstas.

Sul21: Como funciona esse processo de busca ativa na prática?

Tereza Campello: Ele ocorre de várias maneiras, pois o Brasil tem regiões e situações muito diferentes. Fizemos, por exemplo, alguns mutirões com barcos em reservas extrativistas na Amazônia, e encontramos pessoas muito pobres que ainda não havíamos localizado e que não tinham nem documentos. Chegamos a encontrar quatro gerações de uma mesma família sem qualquer documento, nem certidão de nascimento. Essa situação melhorou muito, pois o governo fez um esforço gigante, principalmente por meio do Ministério do Desenvolvimento Agrário com a política nacional de documentação de registro civil. Mais de um milhão de documentos foram emitidos com essa política. Nós contratamos a Marinha que acabou fazendo 120 lanchas que foram distribuídas a municípios da região Norte, com o objetivo de localizar essas famílias.

Também realizamos busca ativa em algumas regiões metropolitanas. Em São Paulo, por exemplo, aumentou muito o número de pessoas beneficiadas pelo Bolsa Família. Quando Fernando Haddad assumiu em São Paulo, essa busca passou a ser política da prefeitura. Aqui no Rio Grande do Sul tínhamos uma baixa cobertura também que melhorou bastante nos últimos anos. Houve mutirões aqui também. Em resumo, há diferentes formas de implementar a busca ativa. Foram sendo construídos desenhos adequados às diferentes realidades encontradas no país.

Sul21: Há um debate agora, no início do segundo governo Dilma, sobre os rumos da política econômica. Fala-se da necessidade de ajustes e de alguns cortes no orçamento da União. Esses ajustes e cortes representam, na sua avaliação, alguma ameaça para a continuidade das políticas sociais?

Tereza Campello: Não há risco de cortes de benefícios ou de serviços sociais. O que todo mundo vai ter que fazer é um esforço para diminuir gastos da máquina. Sempre é possível melhorar aí. Nós temos também mecanismos de controle dentro de nossos programas para localizar pessoas que estejam recebendo benefícios de forma indevida. Isso não tem a ver com o ajuste fiscal, mas sim com nosso esforço permanente para ter uma política cada vez mais eficiente, que chegue aqueles que mais precisam. Podem ocorrer algumas coisas que não têm nada a ver com cortes. Nós fizemos, por exemplo, 750 mil cisternas. Praticamente universalizamos as cisternas na região do Semi Árido. Ainda há cisternas a serem feitas, algo em torno de 50 mil por ano. Nós estávamos fazendo 50 mil a cada dois meses. Então se olharmos para o dinheiro disponível para cisternas, veremos que ele é muito menor do que já foi, mas isso se deve ao sucesso que tivemos no cumprimento de nossas metas.



“Hoje temos 14 milhões de famílias dentro de nosso radar. Nós sabemos onde essas famílias estão, criamos uma ferramenta no Brasil que é a nossa tecnologia social mais difundida no mundo”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


Sul21: A senhora tem qualificado, em algumas ocasiões, programas como o Bolsa Família como construtores de políticas e instrumentos de reforma do Estado brasileiro. Poderia detalhar um pouco mais essa qualificação?

Tereza Campello: Hoje temos 14 milhões de famílias dentro de nosso radar. Nós sabemos onde essas famílias estão, criamos uma ferramenta no Brasil que é a nossa tecnologia social mais difundida no mundo. Nós exportamos hoje essa ideia do cadastro único. Temos um espaço de registro que não serve apenas para pagar o Bolsa Família. Ele fornece informações sobre essas famílias e é alimentado por outras fontes também. Nós estamos alimentando o cadastro do Bolsa Família, por exemplo, com dados do Banco Central sobre microcrédito. Nos interessa saber se essas famílias têm acesso a crédito, não com o objetivo de fazer algum tipo de fiscalização, mas para poder criar outras ferramentas que possam auxiliá-las. Esse tipo de cruzamento de dados permite também um olhar mais apurado sobre os territórios onde essas famílias vivem e sobre possíveis oportunidades para melhorar a sua qualidade de vida.

Nós fizemos isso com o Mais Médicos. O novo decreto do programa repete esse mesmo desenho que permite, entre outras coisas, apontar onde há mais problemas para os médicos irem. Pegamos o mapa do Bolsa Família e colocamos sobre o território brasileiro, localizando as regiões onde havia posto de saúde e onde havia maior concentração de população pobre. Isso nos ajudou a definir as regiões onde a necessidade de médicos era mais urgente. Esse é um exemplo do que chamo de papel construtor de outras políticas desempenhado pelo Bolsa Família. Nós precisamos avançar agora em controle social.

Sul21: Por onde passa esse avanço?

Tereza Campello: Passa por várias coisas. Estou pensando muito neste tema agora. Considere o Bolsa Família, por exemplo. É um programa pulverizado, onde as famílias recebem o benefício. Há alguns elementos de transparência que nos ajudam com o controle público. Todos os beneficiários estão com o nome no Portal da Transparência. Quem quiser saber se o vizinho recebe Bolsa Família pode descobrir acessando esse portal. Esse é um passo importante que ajuda o controle social. Nós queremos que cada município tenha seu conselho de assistência social. Temos pressionado para que isso aconteça. Não é uma relação simples, pois temos entidades filantrópicas, gestores públicos, usuários e movimentos sociais com assento nesses conselhos. Mas é só assim que se constrói controle social, com as pessoas e entidades envolvidas sentando em volta de uma mesa e estabelecendo um espaço de diálogo. Um exemplo disso é o que vem acontecendo no Conselho Nacional de Assistência Social e no Conselho Nacional de Saúde onde temos, pela primeira vez, representantes da população de rua. São setores muito organizaram que se mobilizaram, criaram a sua institucionalidade e vem participando e cobrando o setor público
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“O nível de preconceito que emergiu na sociedade neste período pós-eleitoral é algo assustador”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


No Brasil Sem Miséria, nós fizemos seis diálogos com diferentes grupos da sociedade civil. Ouvimos críticas e sugestões antes de concluir o formato final do programa. Nós temos um espaço de diálogo e participação social muito forte, com gente muito qualificada e comprometida com uma agenda de avanço das políticas sociais. Agora, nenhum desses atores representa, de fato, aqueles mais pobres que geralmente não estão sindicalizados ou organizados em torno de alguma entidade. Então, nós temos um desafio colocado para o Estado e para os setores organizados da sociedade que consiste em ouvir a voz dessas pessoas. Hoje, ela começa a aparecer em tudo o que é lugar. Não é mais uma coisa esporádica. Agora, há muitos casos onde as pessoas não têm coragem de falar por conta do preconceito. O nível de preconceito que emergiu na sociedade neste período pós-eleitoral é algo assustador.

Sul21: Qual a sua avaliação sobre a crescente emergência dessas manifestações de preconceito contra setores mais pobres da população, vistas neste período mais recente?

Tereza Campello: Eu acho que piorou. Nós tivemos um período muito ruim do começo do governo Lula até 2005, 2006. Foi algo muito violento. Depois essas manifestações de preconceito diminuíram. Os raivosos pararam de falar e passaram a ficar envergonhados diante dos resultados muito efetivos que obtivemos. Hoje, mesmo com toda a tensão e radicalização verificada na última campanha eleitoral, a maioria da população brasileira é a favor do Bolsa Família. Cerca de 70% da população é favorável ao programa. O que muitas pessoas dizem é que não pode ser só isso, o que nós também achamos. Por isso temos o Pronatec, cursos de formação profissional, programas de crédito. O próprio Bolsa Família é também escola e educação.

O que piorou muito não está relacionado à media da opinião da população. O problema está entre aqueles setores mais reacionários que nutrem uma coisa racista contra os mais pobres. Essas pessoas passaram a ter coragem de expressar seus preconceitos mais abertamente. Saíram do armário. A impressão é que aumentou muito o número dos que são contra programas como o Bolsa Família, quando na verdade o que aumentou foi o número dos que têm coragem de falar esse monte de barbaridade, inclusive coisas que não têm a menor aderência com a realidade.

Recentemente tivemos o caso de uma jornalista que disse que os pobres só pensam em procriar. É um negócio inacreditável. A pessoa parece letrada, embora não deva ter ido muito longe para falar uma coisa dessas. Os dados sobre taxa de fecundidade no Brasil, hoje, são completamente conhecidos. A taxa de fecundidade brasileira caiu em todas as classes sociais e caiu muito mais entre os mais pobres, uma queda em torno de 50% acima da média nacional.

Então, não tem o menor cabimento as pessoas continuarem repetindo esse tipo de coisa. Por que repetem? Fico pensando nisso. Outra barbaridade que segue sendo dita é que a pessoa é pobre porque não trabalha. A pessoa é pobre porque é preguiçosa ou porque é uma perdedora, ou as duas coisas juntas. A verdade é que raríssimas pessoas que não se alimentaram bem na infância, que não tiveram oportunidades de formação e tiveram que começar a trabalhar muito jovens, conseguem posições melhores nas suas áreas. A violência dessas manifestações de preconceito constrange quem é pobre, pois difunde, entre as crianças, essa ideia de que a pessoa é pobre porque não trabalha, porque é preguiçosa.



“Tem gente que acha que, para uma família receber o benefício do Bolsa Família, basta ter as crianças matriculadas na escola. Não é isso. A criança tem que frequentar a escola e conferimos a cada mês se ela tem um mínimo de 80% de frequência.” Foto: Roberta Fofonka/Sul21



Sul21: Isso envolve, entre outras coisas, uma disputa cultural e simbólica. No início dessa entrevista, você se referiu a problemas de comunicação. Em que medida esses problemas contribuem para o problema do agravamento do preconceito? Caberia ao governo algum tipo de política nesta área?

Tereza Campello: Contra o preconceito eu acho que cabe sim. Acredito que a melhor arma contra o preconceito é a informação. Tem um monte de gente que repete essas barbaridades por que não tem informação. Ouve alguém falar, acha engraçadinho e sai repetindo a bobagem, que nem essa história dos “pobres gostam de procriar”. A pessoa que disse isso talvez não seja permeável a nenhum tipo de informação e de cultura. Mas, certamente, muita gente que leu essa bobagem sai repetindo sem saber o que está falando. Então, precisamos melhorar a nossa capacidade de transmitir informação clara e de qualidade para a população.

Tem gente que acha que, para uma família receber o benefício do Bolsa Família, basta ter as crianças matriculadas na escola. Não é isso. A criança tem que frequentar a escola e conferimos a cada mês se ela tem um mínimo de 80% de frequência. O nível de exigência sobre essa família é forte e positivo para o país, pois visa garantir a permanência dessa criança na escola. Por maiores problemas que tenha a escola, nela a criança tem acesso a um ambiente mais organizado, ao convívio com outras pessoas, tem acesso à informação, e está fora da rua e do trabalho infantil.

Perguntei em um programa de rádio do qual participei recentemente quantas crianças temos na escola hoje no Brasil. Ninguém soube responder. São 17 milhões de crianças. Esse número aumentou muito graças também ao Bolsa Família. Esse é o tipo de informação que eu acho que tocaria muita gente. Por mais conservadora que a pessoa seja, se ela souber que o Bolsa Família tem esse impacto sobre a saúde e a educação das crianças, pode mudar sua visão.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

macho alfa, pai de família, aluno de medicina, bandeirante...


A História estuprada do Brasil



Carta Capital - Negro Belchior


Por Douglas Belchior



Vivemos tempos de questionamentos. De enfrentamento aos privilégios. De contestação de poderes. De autocrítica.
Enquanto homem, é preciso reconhecer o papel histórico criminoso de nosso gênero na história da humanidade. Aliás, mais que reconhecer em discursos, enfrentar o enorme desafio da mudança das práticas.

Valdson Almeida, maranhense radicado em São Paulo, estudante de pedagogia, escritor esporádico e pseudo cinéfilo, sintetizou em poucas e fortes palavras, a incidência violenta e assassina do machismo na história do Brasil.








Por Valdson Almeida


A história estuprada do Brasil


Corre mata adentro, cansada, ofegante, vencida.

É o bandeirante desbravador estuprando a índia. E é ela a selvagem, claro!

Tapa a boca, escraviza a alma. Chora, vendida.

É o senhor da casa grande, proprietário de carne, estuprando a negra na senzala. E é ela a escória, claro!

É o militar patriota estuprando a comunista subversiva nos porões da ditadura. E é ela a ameaça ao país, claro!

É o policial vestido de hipocrisia que atende a mulher violentada agora há pouco, perguntando que roupa ela usava na hora do ocorrido. E é ela que se veste errado, claro!

É o pai de família que faz sexo com a esposa indisposta. Mas isso não é estupro, é só sexo sem consentimento mútuo, claro!

É o macho alfa que estupra corretivamente a lésbica “mal comida”. E é ela a doente que precisa de cura, claro!

É o aluno de medicina, estudante da “melhor universidade da América latina”, que estupra a caloura bêbada. E é a denúncia dela que mancha o nome da Universidade, claro!

É o político defensor dos “bons costumes” que só não estupra a deputada porque ela ‘não merece’. Ufa, pelo menos alguém sensato nessa história violentada do Brasil.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Quando a pobreza não incomoda mais... basta virar a outra face


A cômoda desigualdade naturalizada





Por Clemente Ganz Lúcio, no site Brasil Debate:



“Passa mal a terra, de lestos males presa

Onde se acumula a riqueza e declinam os homens.”

Oliver Goldsmith, The Deserted Village (1770). Citado por Tony Judt, “Um Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos”

Para além do medo e da insegurança que pairam sobre a vida moderna, cresce a sensação de que há algo que segue mal. O que soma diminui e o que é mais nos faz menor! Cresce a desumanização no processo civilizatório. O trabalho urgente de reflexão complexa perde espaço para instantaneidades vaporizadas de um clique.

No pós-guerra (meados dos anos 1940), acelerou-se o processo que, no Ocidente, ocorria desde meados do século 19, de redução das desigualdades. Como escreveu Tony Judt, em Um Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos:

“Graça ao imposto progressivo, subsídios estatais para os pobres, fornecimento de serviços sociais e garantias contra infortúnios mais severos, as democracias modernas libertavam-se dos extremos da riqueza e pobreza.”

As sociedades foram incorporando à cultura econômica, social e política a intolerância à desigualdade, para a qual desenvolveram, como antídoto à insuficiência privada, os amplos sistemas de seguridade, proteção e promoção social.

Acreditou-se que era possível, progressivamente, avançar nesse caminho de redução das desigualdades, sem recuos, pois a democracia sustentaria o percurso e os resultados alcançados. Ledo engano!

Desde os anos 1970, o movimento de redução da desigualdade se inverteu em diferentes países. Como registra Judt, a título de exemplo, em 1968, o diretor-geral da GM recebia como remuneração e benefícios o equivalente a 66 vezes o salário médio do peão da fábrica. Em 2005, estima-se que essa equivalência saltou para 900 vezes! Que produtividade!

Estudo recente divulgado pela Oxfam revela que atualmente a desigualdade segue crescendo. A comparação da evolução da riqueza nos países que compõem o G20 indica que, no último ano, a riqueza desses países aumentou em 17 bilhões de dólares, 1/3 apropriada por 1% dos mais ricos, o equivalente a 6,2 bilhões de dólares.

Outro exemplo: nos EUA, no início da década de 1980, os 1% mais ricos se apropriavam de 8% da renda; em 2012, essa participação subiu para 19%. A Oxfam estimou que a evasão fiscal nos países em desenvolvimento promovida pelas grandes empresas é da ordem de 100 bilhões de dólares por ano, recursos suficientes para escolarizar todas as crianças do mundo quatro vezes!

A desigualdade é um fenômeno complexo de disparidades de renda e riqueza, de poder, de oportunidade, de condições, observada entre homens e mulheres, entre negros e não negros (ou com outro recorte racial ou populacional), entre países; entre continentes, entre regiões dentro dos países, entre os que vivem no centro e na periferia das cidades, entre o rural e o urbano, contra os deficientes, contra os povos indígenas.

A lista segue e é longa. Como insiste Judty: “A desigualdade é corrosiva. Ela apodrece as sociedades a partir de dentro… O legado da criação da riqueza não regulada é realmente amargo.

Será verdade que processos de redução da desigualdade levam as sociedades a quererem reduzi-la ainda mais? O processo de concentração da riqueza torna-a invisível ou uma “condição divina e natural da vida”. A subjetividade coletiva do mal-estar tem causa!

O desafio é descortinar as ilusões do crescimento, da prosperidade e da geração de bem-estar material.

Primeiro, porque o bem-estar material não é homogêneo (há enormes desigualdades de condições, capacidades e oportunidades); segundo, porque bem-estar material não conduz, necessariamente, à qualidade de vida; terceiro, porque bem-estar material e qualidade de vida estão predominantemente em desacordo com o equilíbrio ambiental; quarto, porque o bem viver é um paradigma que requer outro equilíbrio entre bem-estar material, qualidade de vida e sustentabilidade ambiental.

Recolocar a centralidade da igualdade de oportunidades, condições e capacidades para todos, ampliar os limites da regulação econômica dos mercados, qualificar o debate público sobre as escolhas coletivas e construir unidade em torno dessas questões são algumas das nossas tarefas!

quinta-feira, 17 de julho de 2014

fico preocupado pelo carapááálida: passô dez anos gritando contra... agora, grita a favor!

As Sabatinas









Aécio na sabatina



A não ser que uma grande surpresa ocorra, Dilma se reelegerá presidente em outubro, e provavelmente no primeiro turno.

Sua maior arma não é nada ligado a ela diretamente. Nestes seus anos, a economia cresceu pouco, a inflação teve alguns espasmos e o Brasil deixou de ser o menino prodígio que foi, sob Lula, aos olhos do chamado mercado internacional. Não bastasse isso, há um desgaste na própria esquerda, por conta da repressão policial em manifestações de protesto.


O grande trunfo de Dilma está na fraqueza extraordinária de seus principais adversários, Aécio e Eduardo Campos.

Nos Estados Unidos, aconteceu uma coisa semelhante nas últimas eleições presidenciais. Obama levou menos por seus méritos e mais pela ruindade extrema de seu adversário republicano, Mitt Romney.

Em sua apoteose ao contrário, Romney disse que caso se elegesse iria esquecer quase metade dos americanos, exatamente os mais necessitados.

As duas sabatinas recém-promovidas por um grupo de marcas jornalísticas estampam o deserto de ideias que são Aécio e Campos.

Vejamos, primeiro, Aécio. O maior destaque que o UOL conseguiu dar às falas de Aécio foi o compromisso de que ele manteria o Bolsa Família e o Mais Médicos.

Será que ele e equipe não têm uma única ideia de programa social para apresentar aos eleitores?

Pelo visto, não.

E a sociedade clama por fatos novos na área social, coisas que beneficiem os mais pobres e reduzam a desigualdade brutal do país.

Não é apenas a falta de novas propostas que incomoda. Aborrece também a maneira com que Aécio abraça programas que ele execrou antes, e que simplesmente não existiriam se ele tivesse poder para bloqueá-los.

O Bolsa Família era o Bolsa Esmola. E o Mais Médicos era um insulto à classe médica brasileira. Não, mais que isso: a todos nós, brasileiros, vivos e mortos.

Pois de repente o Mais Médicos fica bom, e Aécio garante sua manutenção a cada entrevista mais profunda que dá.

Eu respeitaria a mudança de opinião se ela fosse precedida de um honesto pedido de desculpas. “Amigas e amigos: errei na avaliação do Bolsa Família e do Mais Médicos. Achei que eram ruins coisas que eram boas e podem ser ainda melhores. Perdão.”

Mas não. Mais um pouco e Aécio vai posar como autor das ideias.

Segundo relatos publicados no UOL, a plateia teve um papel importante na sabatina de Aécio.

Boa parte dela era composta de líderes do PSDB. Um deles era Serra, que chegou atrasado. A composição favorável da audiência levou a palmas em dose generosa. E também a comentários entre os presentes como este registrado pelo UOL: “Pena que os entrevistadores são petistas.”

Pausa para rir.

Um dia antes, o sabatinado fora Eduardo Campos. Para ser mais que um figurante de olhos azuis nas eleições, Campos tem que apresentar ideias novas.

Mas de novo: quais?

A frase considerada mais importante pelos editores da sabatina dizia mais ou menos o seguinte: “Dilma vai ser a primeira pessoa, desde a redemocratização, a entregar o país pior do que recebeu.”

É a chamada platitude, chavão, lugar comum. Como não tem tanto tempo assim no programa eleitoral gratuito, Campos tem que se concentrar em suas ideias. Todos sabem – afinal ele é candidato de oposição – que ele tem má opinião sobre Dilma.

Pode e deve ganhar tempo, portanto, sem repetir o que já é de conhecimento universal.

O momento mais revelador da sabatina de Campos veio na forma de um número milionário. Ele disse que iria construir 4 milhões de casas.

Promessas desse gênero remetem a velhas campanhas, em que os candidatos pareciam acreditar poder vencer uma eleição usando um número maior do que o de seus adversários.

Ou não tão velhas assim.

É um clássico, nas eleições de 2010, a promessa de Serra de que não apenas iria manter como dobraria o Bolsa Família.

Já ali Dilma mostrava ter sorte no quesito adversários — o que é um formidável atributo para qualquer candidato.

domingo, 29 de junho de 2014

De Braços Abertos (São Paulo)


Príncipe Harry visita programa Braços Abertos em São Paulo


Acompanhado pelo prefeito Fernando Haddad, o príncipe de Gales conversou com beneficiários do programa e conheceu equipamentos de acolhimento e de monitoramento na região da Luz


Prefeitura de São Paulo



O prefeito Fernando Haddad recebeu nesta quinta-feira (26) o príncipe Harry de Gales para uma visita ao Programa De Braços Abertos, que atende a dependentes químicos na Luz, região central da cidade. Para conhecer melhor as ações do programa, o príncipe inglês conversou com dependentes de crack e conheceu equipamentos de acolhimento e de monitoramento. A ação, iniciada há seis meses, tem 422 beneficiários cadastrados, que têm acesso a trabalho remunerado, alimentação e moradia. Mais detalhes sobre o histórico e as ações do programa estão disponíveis aqui.

“Foi um dia importante para dar visibilidade a isso que é tão novo na América Latina, que é a política de redução de danos, que dá às pessoas oportunidades para resgatar sua dignidade. Ele estava genuinamente interessado, principalmente nas histórias de superação pessoal, no esforço das pessoas em buscar um futuro melhor”, afirmou o prefeito em entrevista coletiva, realizada na sede da Prefeitura.

O príncipe iniciou sua visita pela Praça Estação Julio Prestes, onde conheceu um dos ônibus do programa Crack é Possível Vencer, operado pela Guarda Civil Metropolitana (GCM). O secretário Roberto Porto explicou o funcionamento da unidade de videomonitoramento, cedida pelo governo federal para mapear a rede de tráfico na região. O ônibus é equipado com uma antena que capta imagens de 20 câmeras, instaladas a até três quilômetros de distância. Em seguida, caminhou com o prefeito e com a primeira-dama, Ana Estela Haddad, pela rua Dino Bueno, onde no início de 2014 cerca de 330 pessoas estavam instaladas em 147 barracos.

Ao longo de quase duas horas de visita, Harry pôde conhecer a metodologia do programa, que foi estruturada com a ajuda dos dependentes químicos. Ele conversou com os profissionais que atuam nas áreas de saúde, assistência social e segurança. “O interesse dele era conhecer o programa, os detalhes da segurança, da acomodação nos hotéis e das frentes de trabalho. É um privilégio poder mostrar o que temos de melhor. Isso serve de estímulo e dá a certeza de que estamos no caminho certo”, afirmou Roberto Porto. Também participaram da visita os secretários diretamente envolvidos no programa: José de Filippi (Saúde), Luciana Temer (Assistência Social), Artur Henrique (Trabalho) e Rogério Sottili (Direitos Humanos).

O próximo ponto da visita foi a tenda do programa De Braços Abertos, localizada na rua Helvétia. No local, Haddad e Harry acompanharam uma pequena apresentação do grupo de samba Braços Abertos, formado por beneficiários do programa. O local oferece acolhimento aos dependentes químicos que moram e circulam pela área. Estão disponíveis atendimentos de saúde e de assistência social, além de atividades culturais.

Com a ajuda de uma intérprete, o príncipe Harry conversou com beneficiários do programa, tanto na tenda como no galpão de trabalho. Neste espaço, localizado na rua Barão de Piracicaba, ocorrem oficinas de qualificação e o armazenamento das vassouras e carrinhos utilizados no trabalho de varrição, que emprega 228 dependentes químicos.

Kátia Silva foi uma das participantes do Braços Abertos que conversou com Harry. Ela participa do programa desde o início, em janeiro de 2014. “Ele foi muito gentil, perguntou como funcionava para a gente o programa, se a gente ainda estava usando drogas. Eu reduzi muito com a droga, trabalho com a varrição e já consigo ficar mais de uma semana sem usar”, contou Kátia. Dados do início de março apontam que o consumo de crack entre os beneficiários do programa foi reduzido, em média, de 50% a 70%. De uma média inicial de 10 a 15 pedras por dia, o consumo passou à média de cinco pedras diárias, concentrado no período noturno, segundo os relatos.

Segundo o secretário Leonardo Barchini (Relações Internacionais), os resultados positivos do programa estimulam a troca de experiências com outros países. “O que acontece com o Braços Abertos é uma grande curiosidade internacional. Quando você diminui o fluxo de usuários de 2.000 pessoas para 200 ou 150, estas imagens correm o mundo. Temos recebido muitas demandas de pessoas querendo conhecer que tecnologia social é essa. Já fizemos missões técnicas mostrando a nossa experiência e conhecendo outras experiências. A gente tem muito a aprender com outros países, mas a gente tem muito a ensinar também”, explicou Barchini.


Braços Abertos

Todos os beneficiários do Braços Abertos participam de frentes de trabalho de zeladoria e jardinagem a R$15 por dia, integram atividades de capacitação, recebem três alimentações diárias e vagas em hotéis. A ação inclui também acompanhamento médico e encaminhamento voluntário para tratamento da dependência química. O balanço é de 422 beneficiários cadastrados, dos quais 23 receberam o atestado médico de aptidão ao mercado de trabalho no último mês. Outros 122 estão em tratamento voluntário contra dependência química. Já são 12 usuários em empregos formais, além dos 18 que atuam nas frentes de trabalho em órgãos municipais. Outros 228 seguem no serviço de varrição de ruas e 66 participantes estão no projeto Fábrica Verde, um curso de capacitação voltado à área de jardinagem.




Fotos para download

Crédito: Fábio Arantes | Foto 1 | Foto 2 | Foto 3 | Foto 4 | Foto 5 | Foto 6 l Foto 7 l Foto 8 l Foto 9


PRÍCIPE HARRY VISITA O PROGRAMA DE BRAÇOS ABERTOS PMSP
FABIO ARANTES/SECOM

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Movimento dos Trabalhadores Sem Teto


Depois de vida em favelas, Márcia terá casa própria: “Dilma, eu te amo!”




publicado em 11 de junho de 2014 às 12:51



Márcia Belarmina da Paixão (Fotos Caio Castor)

Sem teto da ocupação Copa do Povo comemoram decisão de Dilma

Governo federal anunciou nesta segunda, 9, que serão construídas duas mil moradias no local

Por Lúcia Rodrigues, especial para o Viomundo

A decisão da presidenta Dilma Rousseff de construir duas mil unidades habitacionais na ocupação Copa do Povo, em Itaquera, zona leste da capital paulista, deixou os sem teto que vivem no acampamento, radiantes. “Quero dar um beijo na boca dela. Eu tô sendo sincero. Não tô brincando. A Dilma tá de parabéns”, vibra Jailton Jaime Albuquerque Diógenes, 22.

Desempregado e sem condição de pagar um aluguel, o soldador Jailton viu na Copa do Povo sua tábua de salvação. Resolveu entrar no terreno, depois de ter sido alertado pela mãe e avó de que várias pessoas participariam da ocupação. A própria avó e a irmã dele, também ocupam outros barracos. “Eu vim com pensamento positivo. Enfrentamos chuva e frio, mas valeu a pena. Agora vou ter onde morar”, comemora.

“Fui eu que construí esse barracão”, aponta satisfeito para o local onde ocorrem as reuniões do MTST, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, que coordena a ocupação. Jailton também montou uma pequena horta de plantas medicinais, que os sem teto chamam de farmácia popular.

Na Copa do Povo praticamente tudo é coletivo: banheiro, cozinha. Apenas os barracos com chão de terra batido, cobertos e forrados com plásticos pretos, onde os sem teto dormem, são privativos. Na maioria deles, só cabe uma cama. Alguns moradores cobrem os colchões com plásticos para evitar que a chuva molhe a espuma durante o período em que estão fora de casa.




Rafael, com Kimberlly

Solidariedade

Quem está desempregado, ajuda nas oito cozinhas comunitárias distribuídas pelo acampamento. Rafael Leite, 25, pai de Kimberlly,de um ano e sete meses, levantou cedo para levar a filha na creche e correr para preparar o café da manhã de outras crianças e sem teto que vivem no acampamento. “Eu faço café da manhã, almoço. Cada um ajuda um pouquinho”.

Ele conta que algumas padarias doam pãezinhos. As outras refeições também dependem de doações: “arroz, feijão, tudo é doado”.

Sobre a decisão do governo federal de construir moradias populares no acampamento, ele brinca: “O terreno tava abandonado há 30 anos. A gente lutou muito, batalhou e agora sai essa notícia de que a gente ganhou o nosso pedacinho de chão. Agora é só felicidade. Vamos esperar sair os nossos apês”, afirma rindo.

Outra que não continha a alegria, era a aposentada Márcia Belarmina da Paixão, 51. Há 20 anos em São Paulo, a pernambucana sempre morou em favelas. Veio para a Copa do Povo porque o barraco onde vivia no Jardim Colonial corre risco de desmoronar. “Já perdi seis vezes a casa. O barro cai em cima e desmorona, é de madeira. Muita gente doou coisas, mas eu fui perdendo, perdendo. Já perdi tudo”, conta entristecida.

Quando estava na ativa, Márcia trabalhava como doméstica. O baixo salário não permitiu que o sonho da casa própria se concretizasse. “O dinheiro nunca deu pra comprar. Dilma eu te amo!”, exclama ao se referir à autorização, para a construção das moradias, dada pela presidenta.

Respiração ofegante e pernas inchadas não tiram dela a gana de conquistar o primeiro endereço, para ela, marido e três filhas. “Todos nós merecemos uma moradia digna. Lá onde eu vivo, não tem correspondência (correio não passa). Também tô muito feliz porque têm moradores de rua que estão vivendo aqui, vão conquistar uma casinha”, frisa. “Se eu pudesse chegar na Dilma, eu ia até lá (Brasília), pra dizer que eu amo ela.”




Dalva Souza

Ajoelhou para agradecer

A desempregada Dalva Souza, 37, conta que ficou tão emocionada quando recebeu a notícia, que chegou a ajoelhar no chão e chorar. “Abracei minha Vitória (a filha de um ano e meio) e agradeci a deus de joelhos. Chorei, bati os joelhos no chão. E tem de agradecer a Dilma também”, enfatiza.

Ela já teve casa, mas perdeu o imóvel quando se separou do marido. “Ajudei a construir e fui expulsa”, conta com os olhos marejados. Para ajudar no orçamento da nova família, Dalva toma conta de Gustavo, um menino da mesma idade de Vitória, filho de um casal de moradores do acampamento que trabalham.

No início da manhã desta terça, 10, ela levou o garoto para comer pão com manteiga em uma das cozinhas da ocupação. Quem serviu o bebê foi o cozinheiro desempregado, Daniel Lima Custódio, 25. O rapaz tem sobrevivido com o seguro-desemprego que recebe do último serviço.

Antes de mudar para a Copa do Povo, ele morava no Carrão, também na zona leste, mas o preço do aluguel, o trouxe para Itaquera. Daniel ficou sabendo da ocupação pela sogra. “Gosto mais dela, do que da minha mulher”, brinca.

A precariedade do acampamento não tira o ânimo dele. “Tomo banho frio, mesmo, não tem luz…” Na maior parte do acampamento não existe energia elétrica. Ele explica que para iluminar os barracos e as cozinhas à noite, os sem teto usam lanternas, lampiões e velas, de vez em quando, por causa do risco de incêndio.

Preocupado com a limpeza do ambiente, ele varre o chão de terra batido durante a conversa com a reportagem de Viomundo. A cozinha que administra, além de dois fogões e mesas, também tem um quadro emoldurado de uma paisagem pendurado em uma das madeiras que sustentam a estrutura. A água para lavar as louças é trazida em garrafas pet, que ele começa a organizar assim que termina de varrer o chão.

Um cartaz no interior do cômodo informa o horário em que as refeições são servidas. Café da manhã, das 8h às 10h, almoço, das 13h às 15h, café da tarde, das 16h às 17h, e janta, das 20h às 21h.

Baiano de Vitória da Conquista, o jovem conta que sempre pagou aluguel em São Paulo, onde vive há 18 anos. Mais reticente do que os colegas sem teto, Daniel afirma que “tava mais do que na hora de resolver o problema. Porque pra gastar bilhões em estádios, tem. Lá na Bahia o governo constrói casas, rapidinho, não é que nem o governo de São Paulo”, alfineta.

Vizinhos do Itaquerão

“Se algum gringo vier assistir o jogo no Itaquerão e quiser dormir no meu barraco, pode vir”, afirma Daniel ao oferecer solidariamente a habitação.

A maioria dos entrevistados pela reportagem do Viomundo é corinthiana e está duplamente alegre com a decisão do governo federal. Ao mesmo tempo em que vão conquistar um teto, se tornam praticamente vizinhos do estádio do time do coração.

“Sou corinthiana fanática. É um privilégio morar aqui. À noite nos dias de jogos, o Itaquerão fica todo iluminado”, revela a desempregada Gisleine Cristina dos Santos, 24, mãe de um menino de um ano e quatro meses.

Solteira, ela deixa a criança com mãe do pai criança, enquanto espera pelo teto. “Quando eu trabalhava, ganhava o salário mínimo e pagava R$ 350 de aluguel. Não dava pra me manter. Agora, não pagando aluguel vai dar. Vou conseguir arrumar um emprego. Deus abençoe a Dilma.”

“Nossa luta não é contra a Copa, contra o futebol, mas contra o dinheiro que foi gasto”, ressalta o corinthiano Daniel Rodrigues de Carvalho, 32. Desempregado, faz bicos como motorista de van esporadicamente. O orçamento minguado também o empurrou para a Copa do Povo. Assim como os demais sem teto, ele ocupa um dos milhares de barracos erguidos ao longo do terreno íngreme, que quando chove torna-se um perigo para quedas.

Ele recorda que frequentava o terreno, que deve se transformar em sua moradia, desde criança. “A gente vinha jogar bola no campo de futebol. Caçava passarinhos. Peguei uns tico-ticos aqui. Estou muito feliz com a notícia. É uma sensação de satisfação, de felicidade”, fala com os olhos marejados. “Conseguimos uma vitória, mas a guerra não acabou. A luta contínua”, pondera.

Veja, abaixo, o álbum de fotos da ocupação (a produção de conteúdo exclusivo do Viomundo depende do financiamento de nossos leitores. Torne-se um assinante).


Leia também:
Vladimir Safatle: 44 anos depois do tri no México, uma tentativa de Pra Frente Brasil

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Superação? Heroísmo? De quem?


Primeiro de Maio: Herói não é Senna. É Antônio, que vende churrasco na rua


Blog do Sakamoto


Leonardo Sakamoto
01/05/2014 09:02


Apesar de respeitar as trajetórias de esportistas que se dedicam a superar seus próprios limites, não consigo – mesmo tentando muito – considerá-los heróis de alguma coisa.

Ayrton Senna – cuja triste morte, há 20 anos, em um acidente no circuito de Ímola, na Itália, é lembrada nesta quinta – ocupou espaço de herói da TV quando a seleção brasileira de futebol (que é a heroína de plantão) estava em baixa.

Usineiros de cana já foram chamados de heróis pelo ex-presidente Lula.

Quando um grande empresário morre, há um esforço para que ele se torne o herói que não foi em vida.

Alguém vai me tacar uma pedra por colocar um ídolo do esporte e um usineiro de cana no mesmo bote. Mas não estou discutindo caráter, apenas dizendo que nós, da mídia, e o poder criamos heróis sem nenhum constrangimento quando nos convém.

Quem mora em São Paulo sabe que havia uma avenida chamada Águas Espraiadas. Mas a prefeitura acabou por rebatizá-la, homenageando um morto ilustre. Seria preferível, na minha opinião, que ganhasse o nome do jornalista Vladimir Herzog, que se dedicou à liberdade e foi assassinado pela ditadura.

Esconder os verdadeiros heróis, seja largando-os ao ostracismo, seja fazendo suas biografias competir com histórias de outros “heróis'' diz muito sobre um país.

Ao centrar o foco em exemplos valiosos para os grupos dominantes, que nos vendem essas biografias como caminhos a serem seguidos, nos distanciamos de quem mereceria ganhar uma medalha de verdade.

Tempos atrás um amigo que cobre a área de esportes disse que heróis no esporte são “fabricados” com frequência, entre os exemplos de superação pessoal que mereceriam ser seguidos pelo restante da população.

Seguindo essa lógica, trago uma história que já havia apresentado neste blog para ser incensado como herói neste Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador e da Trabalhadora.

Antônio acorda às 5h da manhã, pega suas coisinhas e, com duas conduções, sai da periferia da periferia e vai até o bairro de Santo Amaro para vender café da manhã na rua. Depois, quando os clientes desaparecem, é hora de começar a trabalhar o serviço de pintor, bico que rende algo no final do mês que, sinceramente, não vale a pena – mas como ele tem três crianças e uma mulher com câncer em casa, que luta há anos para não morrer na rede pública, pois não tem acesso ao Sírio Libanês, é o jeito.

À noite, acende o fogo e começa a vender “churrasquinho de gato'' no ponto de ônibus para completar a renda. Chega em casa cinco horas antes de ter que acordar novamente.

Como mora não muito distante do autódromo de Interlagos, pôs sua churrasqueira perto de casa para conseguir algum em um final de semana lotado de corrida. A Guarda Civil Metropolitana, contudo, levou tudo embora.

Como ele ia trabalhar no dia seguinte? Sei lá. Superação? Heroísmo?

É claro que ninguém gostaria de seguir a vida de merda de Antônio.

Ela nunca sentirá o glamour do paddock de Mônaco e sua mulher, quando teve um problema sério e quase perdeu o braço, não pegou helicóptero, mas sim um busão para ir ao pronto-socorro. Não adianta dizer que ele é feliz, que tem Deus no coração, que a família o ama. Isso é apenas jogar purpurina em cima da merda para que ela brilhe.

A sua vida, muito provavelmente, não terá um final feliz para ser levada às telas do cinema. Não irá vencer a pobreza do sertão de Pernambuco e virar presidente ou superar o racismo da sociedade norte-americana e virar presidente. Também não será usado como exemplo de programas de educação estranhos como o “Amigos do Joãozinho'', em que crianças que comem biscoitos de lama seca, brincam com ossinhos de rabo de zebu e andam 115 quilômetros diários para ir à escola superam tudo e, graças a Deus sem a ajuda do Estado, viram presidentes de multinacionais para, depois, superexplorarem sua terra natal – tornando-se exemplos. Tampouco tem um equipe de marketing para manter seu nome vivo e resplandecente pela eternidade.

É Antônio, mas podia colocar aqui uma relação de nomes, grossa como uma lista telefônica, de pessoas que aceitam a mesma batalha no dia-a-dia porque se desistirem, morrem – e nunca ganharão uma medalha por isso. Não foram criados em berço de ouro e se houvesse uma escala justa que pudesse comparar diferentes superações, esses trabalhadores e trabalhadoras fariam nossos heróis da TV comerem poeira.

Pelo contrário, são tratados como restolho da sociedade, mão de obra barata, voto fácil, massa burra pelos mais ricos.

Apesar de servi-los, alimentá-los, transportá-los, enriquecê-los. Se usineiros são heróis, cortadores de cana são o quê?

Esperemos que os livros de história e nós, narradores da contemporaneidade (não apenas os profissionais, mas todos os que têm uma conta de rede social, um blog, uma rádio comunitária ou um jornal mural e, portanto, são tão jornalistas quanto os outros), tenhamos a decência de registrar que não foram apenas reis, ditadores e presidentes e mesmo pilotos, jogadores de futebol e famosos, que fizeram a realidade do nosso tempo mas, sim, o conjunto dos carregadores de pedra, como diria José Saramago.

Na hora em que o nome de qualquer um desses milhões, cuja desgraça é apenas um detalhe e por isso mantém-se escondida embaixo do tapete, for retirado das entranhas da sociedade e gritado a plenos pulmões como alguém que merece ser um herói, não precisaremos mais de heróis. E a vida seria outra.

domingo, 8 de setembro de 2013

O país precisa de todos os brasileiros


Dez anos, 50 milhões de brasileiros


Bolsa Família


04/06/2013 15:25





Uma década é um período muito curto na história de um país. Mas foi o suficiente para consolidar uma forma simples de promover, a baixo custo, a inclusão social e econômica de pessoas que viviam à margem dos processos de desenvolvimento do Brasil. Abandonados à própria sorte, sem atrativos “com valor de mercado”, esses brasileiros permaneceriam acorrentados à armadilha da pobreza que se reproduz geração após geração. Para interromper esse ciclo, era necessária a ação do Estado. Ela veio em 20 de outubro de 2003, com a criação do Programa Bolsa Família.

Foi a primeira grande incursão do país em políticas sociais centradas de fato na pobreza – mudança que requereu doses incomuns de coragem e vontade política. Afinal, embora nossa Constituição tenha entre seus princípios fundamentais o da erradicação da pobreza, a tendência de culpar o pobre por sua condição ainda era bastante enraizada, gerando forte oposição inicial ao programa.

Dez anos depois, o Bolsa Família é recomendado por organizações internacionais como exemplo de sucesso na redução da pobreza. E não há ator político nacional relevante que não reconheça a importância do programa.

Para alcançar esse ponto, foi preciso superar obstáculos. Ao enorme desafio político, somou-se a necessidade operacional de encontrar, cadastrar, transferir renda e acompanhar as famílias do programa. Para alcançar esses objetivos, o Bolsa Família lançou mão de soluções simples e modernas, aproveitando recursos já disponíveis.

Para chegar aonde está a pobreza, não bastava o empenho do governo federal. Foi preciso articular com estados e municípios, que atuam mais próximo da população pobre. Para cadastrar o público, iniciou-se a expansão e o aprimoramento do cadastro socioeconômico das famílias mais pobres do Brasil, o Cadastro Único para Programas Sociais. Hoje, ele é uma ferramenta usada pelo governo para implantar várias políticas voltadas à população de baixa renda, integrando a maioria dos programas sociais e transformando o Brasil em exportador de tecnologia social.

A transferência de renda é feita pelo governo federal diretamente para o beneficiário, por meio do cartão magnético da Caixa Econômica Federal, instrumento que facilita o controle e torna as relações impessoais, reduzindo interferências políticas. O cartão colocou o benefício diretamente na mão da família, fortalecendo sua autonomia, desburocratizando o programa e injetando dinheiro na economia. Dentre os titulares dos cartões, 93% são mulheres – porque as mães sabem melhor que ninguém como empregar os recursos em prol de toda a família, especialmente das crianças.

Por fim, para servir e acompanhar as famílias, três redes foram mobilizadas:

1) Assistência social – Além de cadastrar, é quem dá apoio às famílias em situação de maior vulnerabilidade;
2) Educação – Faz o acompanhamento da frequência escolar de crianças e jovens do programa;
3) Saúde – Acompanha a vacinação e a nutrição das crianças e faz o pré-natal das gestantes.

Nada disso é trivial, ainda mais quando falamos de um programa que, após 10 anos aperfeiçoando seus mecanismos de transferência e de gestão, beneficia 13,8 milhões de famílias, tornando digna a vida de 50 milhões de brasileiros, a um custo anual equivalente a 0,46% do Produto Interno Bruto (PIB).

Muito além da transferência de renda

Com o passar do tempo, ficou claro que o impacto do Bolsa Família vai além do alívio imediato da pobreza, proporcionado pelo complemento à renda das famílias. Resulta em ganho para o próprio crescimento econômico do país. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que, para cada real investido pelo Bolsa Família, há um retorno para a economia de R$ 1,44.

Hoje, está claro que o impacto definitivo do Bolsa Família diz respeito a uma geração inteira que, em função das condicionalidades do programa, acaba por romper o círculo da miséria pela educação. São 15 milhões de crianças e adolescentes que, com frequência escolar acompanhada pelo Bolsa Família e a despeito de sua situação de pobreza, têm abandono menor e desempenho equiparado à média dos estudantes do ensino público brasileiro, de acordo com dados do Censo Escolar da Educação Básica. Isso permitirá um futuro diferente da vida de exclusão de seus pais e avós.

As condicionalidades do Bolsa Família buscam ampliar o acesso dos beneficiários aos serviços de saúde, incluindo a vacinação das crianças, o acompanhamento do seu crescimento e da saúde das gestantes. Não por acaso, a avaliação de impacto do Bolsa Família concluiu que as crianças do programa estão mais frequentemente em dia com a vacinação e que as mães fazem mais consultas de pré-natal do que as não beneficiárias.

Segundo artigo divulgado recentemente pela revista acadêmica The Lancet, uma das mais respeitadas publicações científicas especializadas em saúde do mundo, municípios com alta cobertura do Bolsa Família têm mortalidade infantil quase 20% inferior a municípios que têm o mesmo perfil, mas onde a penetração do programa entre os que dele necessitam é pequena.

O Bolsa Família para um Brasil sem Miséria

Para enfrentar o desafio de superar a miséria, até mesmo um programa bem sucedido como o Bolsa Família teve que se reinventar. É que a presidenta lançou ao governo e à sociedade o Brasil Sem Miséria, para a superação da extrema pobreza até o final de 2014.

A lógica de cálculo das transferências do Bolsa Família foi modificada com a criação de um novo benefício, que varia de acordo com a severidade da pobreza. Quanto menor a renda, maior o valor pago pelo Bolsa Família. Assim, o programa garante que todas as famílias que recebem o benefício terão mais de R$ 70 mensais por pessoa. O valor médio do benefício, que era de R$ 73,70 em 2003, chegou a R$ 152,75 em 2013.

As mudanças introduzidas no Bolsa Família desde o lançamento do Plano Brasil Sem Miséria, em 2011, tiraram 22 milhões de pessoas da extrema pobreza em todo o país. Isso representou tecnicamente o fim da miséria, do ponto de vista da renda, entre os beneficiários do Bolsa Família.

Resta agora o desafio de localizar e cadastrar, por meio da busca ativa, cerca de 600 mil famílias que ainda não estão no Cadastro Único nem no Bolsa Família. Encontradas, registradas e inseridas no Bolsa Família, essas pessoas terão acesso a tudo o mais que o Brasil Sem Miséria oferece em termos de inclusão produtiva e acesso a serviços públicos.

O país precisa de todos os brasileiros

Os processos de desenvolvimento no Brasil privilegiaram, historicamente, as classes que estavam no topo da pirâmide de renda – senhores de engenho, de lavras, fazendeiros, industriais, financistas. Foram séculos de políticas fundadas em bases aristocráticas, subordinadas a interesses oligárquicos, que não se apagam em uma década.

Mas finalmente o Brasil colocou as políticas sociais no centro da estratégia de desenvolvimento. Foi uma escolha democrática, lastreada e reiterada nas urnas. Foi a opção de um país por um projeto político que, ao invés de dissociar, combina a busca por crescimento, distribuição de renda e inclusão social.

O Bolsa Família é um dos marcos mais importantes desse novo modelo, no qual o Brasil não vai mais deixar de garantir a sustentabilidade social do crescimento econômico por dar as costas a uma parcela significativa da população. Pelo contrário, agora o país reconhece sua maior riqueza nos cidadãos. O país das oportunidades deve ser desfrutado por todos os brasileiros.