domingo, 11 de janeiro de 2015

Sinto muito, mas eu também não sou Charlie...


LEONARDO BOFF: 'EU TAMBÉM NÃO SOU CHARLIE'








Teólogo Leonardo Boff compartilha texto em que explica por que também 'não é Charlie'; "Na religião muçulmana, há um princípio que diz que o Profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Fazendo um paralelo, é como se um pastor evangélico chutasse a imagem de Nossa Senhora para atacar os católicos… Qual é o objetivo disso? O próprio Charb falou: 'É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo'. 'É preciso' porque? Para que?", questiona; numa charge de Latuff, de 2012, Charb, uma das vítimas da chacina, foi retratado como homem-bomba



10 DE JANEIRO DE 2015 ÀS 13:19



Por Leonardo Boff

Há muita confusão acerca do atentado terrorista em Paris, matando vários cartunistas. Quase só se ouve um lado e não se buscam as raízes mais profundas deste fato condenável mas que exige uma interpretação que englobe seus vários aspectos ocultados pela midia internacional e pela comoção legítima face a um ato criminoso. Mas ele é uma resposta a algo que ofendia milhares de fiéis muçulmanos. Evidentemente não se responde com o assassianto. Mas também não se devem criar as condições psicológicas e políticas que levem a alguns radicais a lançarem mão de meios reprováveis sobre todos os aspectos. Publico aqui um texto de um padre que é teóloogo e historiador e conhece bem a situação da França atual. Ele nos fornece dados que muitos talvez não os conheçam. Suas reflexões nos ajudam a ver a complexidade deste anti-fenômeno com suas aplicações também à situação no Brasil: Lboff

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Eu condeno os atentados em Paris, condeno todos os atentados e toda a violência, apesar de muitas vezes xingar e esbravejar no meio de discussões, sou da paz e me esforço para ter auto controle sobre minhas emoções…

Lembro da frase de John Donne: “A morte de cada homem diminui-me, pois faço parte da humanidade; eis porque nunca me pergunto por quem dobram os sinos: é por mim”. Não acho que nenhum dos cartunistas “mereceu” levar um tiro, ninguém o merece, acredito na mudança, na evolução, na conversão. Em momento nenhum, eu quis que os cartunistas da Charlie Hebdo morressem. Mas eu queria que eles evoluíssem, que mudassem… Ainda estou constrangido pelos atentados à verdade, à boa imprensa, à honestidade, que a revista Veja, a Globo e outros veículos da imprensa brasileira promoveram nesta última eleição.

A Charlie Hebdo é uma revista importante na França, fundada em 1970, é mais ou menos o que foi o Pasquim. Isso lá na França. 90% do mundo (eu inclusive) só foi conhecer a Charlie Hebdo em 2006, e já de uma forma bastante negativa: a revista republicou as charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten (identificado como “Liberal-Conservador”, ou seja, a direita europeia). E porque fez isso? Oficialmente, em nome da “Liberdade de Expressão”, mas tem mais…

O editor da revista na época era Philippe Val. O mesmo que escreveu um texto em 2000 chamando os palestinos (sim! O povo todo) de “não-civilizados” (o que gerou críticas da colega de revista Mona Chollet (críticas que foram resolvidas com a demissão sumaria dela). Ele ficou no comando até 2009, quando foi substituído por Stéphane Charbonnier, conhecido só como Charb. Foi sob o comando dele que a revista intensificou suas charges relacionadas ao Islã, ainda mais após o atentado que a revista sofreu em 2011…

A França tem 6,2 milhões de muçulmanos. São, na maioria, imigrantes das ex-colônias francesas. Esses muçulmanos não estão inseridos igualmente na sociedade francesa. A grande maioria é pobre, legada à condição de “cidadão de segunda classe”, vítimas de preconceitos e exclusões. Após os atentados do World Trade Center, a situação piorou.

Alguns chamam os cartunistas mortos de “heróis” ou de os “gigantes do humor politicamente incorreto”, outros muitos os chamam de “mártires da liberdade de expressão”. Vou colocar na conta do momento, da emoção. As charges polêmicas do Charlie Hebdo, como os comentários políticos de colunistas da Veja, são de péssimo gosto, mas isso não está em questão. O fato é que elas são perigosas, criminosas até, por dois motivos.

O primeiro é a intolerância. Na religião muçulmana, há um princípio que diz que o Profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Fazendo um paralelo, é como se um pastor evangélico chutasse a imagem de Nossa Senhora para atacar os católicos…

Qual é o objetivo disso? O próprio Charb falou: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo”. “É preciso” porque? Para que?

Note que ele não está falando em atacar alguns indivíduos radicais, alguns pontos específicos da doutrina islâmica, ou o fanatismo religioso. O alvo é o Islã, por si só. Há décadas os culturalistas já falavam da tentativa de impor os valores ocidentais ao mundo todo. Atacar a cultura alheia sempre é um ato imperialista. Na época das primeiras publicações, diversas associações islâmicas se sentiram ofendidas e decidiram processar a revista. Os tribunais franceses, famosos há mais de um século pela xenofobia e intolerância (ver Caso Dreyfus), como o STF no Brasil, que foi parcial nas decisões nas últimas eleições e no julgar com dois pessoas e duas medidas caos de corrupção de políticos do PSDB ou do PT, deram ganho de causa para a revista.

Foi como um incentivo. E a Charlie Hebdo abraçou esse incentivo e intensificou as charges e textos contra o Islã e contra o cristianismo, se tem dúvidas, procure no Google e veja as publicações que eles fazem, não tenho coragem de publicá-las aqui…

Mas existe outro problema, ainda mais grave. A maneira como o jornal retratava os muçulmanos era sempre ofensiva. Os adeptos do Islã sempre estavam caracterizados por suas roupas típicas, e sempre portando armas ou fazendo alusões à violência, com trocadilhos infames com “matar” e “explodir”…). Alguns argumentam que o alvo era somente “os indivíduos radicais”, mas a partir do momento que somente esses indivíduos são mostrados, cria-se uma generalização. Nem sempre existe um signo claro que indique que aquele muçulmano é um desviante, já que na maioria dos casos é só o desviante que aparece. É como se fizéssemos no Brasil uma charge de um negro assaltante e disséssemos que ela não critica/estereotipa os negros, somente aqueles negros que assaltam…

E aí colocamos esse tipo de mensagem na sociedade francesa, com seus 10% de muçulmanos já marginalizados. O poeta satírico francês Jean de Santeul cunhou a frase: “Castigat ridendo mores” (costumes são corrigidos rindo-se deles). A piada tem esse poder. Mas piada são sempre preconceituosas, ela transmite e alimenta o preconceito. Se ela sempre retrata o árabe como terrorista, as pessoas começam a acreditar que todo árabe é terrorista. Se esse árabe terrorista dos quadrinhos se veste exatamente da mesma forma que seu vizinho muçulmano, a relação de identificação-projeção é criada mesmo que inconscientemente. Os quadrinhos, capas e textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia. Como toda população marginalizada, os muçulmanos franceses são alvo de ataques de grupos de extrema-direita. Esses ataques matam pessoas. Falar que “Com uma caneta eu não degolo ninguém”, como disse Charb, é hipócrita. Com uma caneta se prega o ódio que mata pessoas…

Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie Hebdo é dizer que eles também criticavam católicos e judeus…
Se as outras religiões não reagiram a ofensa, isso é um problema delas. Ninguém é obrigado a ser ofendido calado.
“Mas isso é motivo para matarem os caras!?”. Não. Claro que não. Ninguém em sã consciência apoia os atentados. Os três atiradores representam o que há de pior na humanidade: gente incapaz de dialogar. Mas é fato que o atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a justiça tivesse punido a Charlie Hebdo no primeiro excesso, assim como deveria/deve punir a Veja por suas mentiras. Traçasse uma linha dizendo: “Desse ponto vocês não devem passar”.

“Mas isso é censura”, alguém argumentará. E eu direi, sim, é censura. Um dos significados da palavra “Censura” é repreender. A censura já existe. Quando se decide que você não pode sair simplesmente inventando histórias caluniosas sobre outra pessoa, isso é censura. Quando se diz que determinados discursos fomentam o ódio e por isso devem ser evitados, como o racismo ou a homofobia, isso é censura. Ou mesmo situações mais banais: quando dizem que você não pode usar determinado personagem porque ele é propriedade de outra pessoa, isso também é censura. Nem toda censura é ruim…

Deixo claro que não estou defendendo a censura prévia, sempre burra. Não estou dizendo que deveria ter uma lista de palavras/situações que deveriam ser banidas do humor. Estou dizendo que cada caso deveria ser julgado. Excessos devem ser punidos. Não é “Não fale”. É “Fale, mas aguente as consequências”. E é melhor que as consequências venham na forma de processos judiciais do que de balas de fuzis ou bombas.

Voltando à França, hoje temos um país de luto. Porém, alguns urubus são mais espertos do que outros, e já começamos a ver no que o atentado vai dar. Em discurso, Marine Le Pen declarou: “a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada”. Essa fala mostra exatamente as raízes da islamofobia. Para os setores nacionalistas franceses (de direita, centro ou esquerda), é inadmissível que 10% da população do país não tenha interesse em seguir “o modo de vida francês”. Essa colônia, que não se mistura, que não abandona sua identidade, é extremamente incômoda. Contra isso, todo tipo de medida é tomada. Desde leis que proíbem imigrantes de expressar sua religião até… charges ridicularizando o estilo de vida dos muçulmanos! Muitos chargistas do mundo todo desenharam armas feitas com canetas para homenagear as vítimas. De longe, a homenagem parece válida. Quando chegam as notícias de que locais de culto islâmico na França foram atacados, um deles com granadas!, nessa madrugada, a coisa perde um pouco a beleza. É a resposta ao discurso de Le Pen, que pedia para a França declarar “guerra ao fundamentalismo” (mas que nos ouvidos dos xenófobos ecoa como “guerra aos muçulmanos”, e ela sabe disso).

Por isso tudo, apesar de lamentar e repudiar o ato bárbaro do atentado, eu não sou Charlie. Je ne suis pas Charlie.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

uma certa elasticidade ética


A saúde, a saúva e a virtude





Em 2013, o dobro do valor do execrado 'Mais Médicos' foi gasto em próteses fraudadas, mas quanto a este escândalo as associações de médicos se calam.


por: Saul Leblon









Nenhuma outra corporação profissional se destacou tanto na guerra aberta à reeleição da Presidente Dilma quando a do jaleco branco.

O pleito foi o ápice de uma espiral de colisões iniciada em 2013, quando as entidades médicas alinharam-se ao conservadorismo mais feroz na oposição ao programa ‘Mais Médicos’.

Classificada como uma fraude, a iniciativa federal de levar cerca de 5,5 mil profissionais cubanos a rincões não cogitados por médicos brasileiros mereceu do Cremesp, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo, a seguinte nota, em maio de 2014: ‘Tomaremos iniciativas políticas e eventuais medidas judiciais para impedir essa afronta à saúde da população e à dignidade da medicina brasileira’.

Em outubro, dez dias antes do pleito, a Associação Médica Brasileira (ABM) lançaria um manifesto conclamando os associados a eleger Aécio.

‘Urge mudarmos estas mazelas e descasos, frutos de um ideário político-partidário que nunca teve, na sua essência, a legítima e real preocupação com a saúde no Brasil (...) precisamos retirar do poder aqueles que não se preocuparam com os anseios e necessidades da população, em prol da saúde brasileira. Conclamamos todos a votar em Aécio Neves’, finalizava a nota.

Passados pouco mais de dois meses, uma reportagem do Fantástico, veiculada pela Globo, no último domingo, mostrou bastidores de um, aí sim, gigantesco esquema de mazelas; um assalto aos cofres do SUS, o Sistema Único de Saúde, que carrega no nome a promessa de uma equidade ainda distante.

Os protagonistas dessa sucção ‘não se preocuparam’ -- para emprestar os termos da Associação Médica Brasileira -- ‘com os anseios e necessidades da população, em prol da saúde brasileira’.

Não há leviandade em cogitar – aliás existem evidências -- de que muitos deles atenderam ao apelo cívico-eleitoral lançado pela associação de classe, em outubro passado.

A expressão ‘máfia da prótese’ chega à suave no caso.

Ela condensa a ação de uma quadrilha integrada por profissionais da medicina, advogados e fornecedores de próteses.

A mecânica do golpe, que pode envolver dezenas de milhões de reais, apoia-se em uma triangulação.

O paciente que espera pelo implante na fila do SUS – de cuja receita foram decepados R$ 40 bilhões por ano com a extinção da CPMF, em 2006, sem protesto da AMB --, é orientado por médicos que fazem a ponte com advogados e escritórios encarregados de processar o governo.

A engrenagem se move para exigir o pagamento da prótese e da cirurgia feita em regime privado.

Invariavelmente, a conta apresentada ao SUS é dezenas, às vezes milhares de vezes, superfaturada.

Tornar o assalto excepcionalmente lucrativo é um requisito de sobrevivência da cadeia alimentar.

Pra isso, médicos, advogados e indústria fazem gato e sapato no percurso entre o diagnóstico verdadeiro, a versão cobrada do SUS e aquilo que, de fato, é executado na sala de cirurgia.

Ainda não há números redondos do cambalacho.

Mas há evidências.

Um levantamento do governo constatou que em apenas seis anos, entre 2005 a 2011, os gastos do SUS com o cumprimento de sentenças judiciais cresceram 100 vezes no Brasil.

Passaram de R$ 2,5 milhões para R$ 266 milhões em 2011.

Só em 2013, mais de R$ 1,2 bilhão foram pagos em despesas com próteses em geral.

O valor é o dobro do gasto com o execrado ‘Mais Médicos’ no mesmo período.

E não fica tão abaixo do auge atingido pelo orçamento do programa, que no ano passado atingiu R$ 1,9 bilhão.

As diferenças de custo/benefício é que são expressivas.

O recurso investido predominantemente na contratação de médicos cubanos viabiliza hoje o atendimento de 50 milhões de brasileiros antes desassistidos.

Em contrapartida, mais de 80% dos gastos com implantes de próteses feitos em 2013, nos 60 maiores hospitais privados do país, destinaram-se ao circuito da fraude que vai da prescrição à venda, muitas vezes desnecessária, desses produtos.

Outra diferença não menos notável: a indignação ‘ética’ das entidades de classe contra a parceria com ‘cubanos’ não se repetiu no presente escândalo.

A negligencia, infelizmente, talvez encerre algo mais que o mero descuido.

E esse é o ponto a reter.

A recorrência dos escândalos médicos e o seu baixo impacto corporativo, comparado à animosidade engajada contra o ‘Mais Médicos’, evidencia a existência de profundas distorções no ambiente médico do país.

Desde a formação do estudante, passando pela cultura da profissão e a ênfase das representações de classe, o profissional brasileiro enxerga-se cada vez mais como um apêndice do mercado e dos interesses da indústria, e cada vez menos como um sujeito comprometido com a dignidade da saúde pública.

Decorre daí uma certa elasticidade ética.

Ela torna o juramento de Hipócrates por estas plagas cada vez mais complacente com o intercurso entre o consultório, a indústria da saúde, o receituário e o lucro a qualquer preço.

Em contrapartida, mostra-se cada vez menos permeável à natureza social de programas e agendas como o ‘Mais Médicos’.

E de seu corolário: a luta pelo financiamento de um sistema único de saúde digno e eficiente em todo o país (leia análise do ex-ministro Alexandre Padilha sobre as opções ao sub-financiamento do sistema público de saúde brasileiro).

A reportagem do Fantástico mostrou que o intercurso entre um médico e o esquema da máfia das próteses poderia render até R$ 100 mil ao profissional.

Não é um ponto fora da curva.

Cruzeiros, resorts e passeios ao exterior com os quais os médicos campeões em receitar determinados medicamentos são brindados pelos fabricantes não ficam muito atrás nessa gincana de cifrões que intoxica toda a área da saúde.

Nos EUA, as gigantes do setor farmacêutico gastam cerca de US$ 58 bilhões em marketing (o dado, subestimado, é de 2004).

Quase 90% desse total ruma diretamente para o bolso de quem tem o poder de prescrever medicamentos.

É uma espécie de captura da prerrogativa médica pelo mercado.

Mas esse sequestro ético parece mais palatável às entidades de classe brasileira, que o desembarque solidário de doutores cubanos no país.

A interatividade entre o jaleco e o lucro corporativo chegou a tal ponto que uma legislação mitigatória entrou em vigor nos EUA, no ano passado.

Ela obriga empresas farmacêuticas a relacionar em um site oficial os médicos que aceitaram pagamentos ou presentes de valor superior a US$ 10, bem como as quantidades exatas pagas a cada um e a sua alegada finalidade.

Eis uma boa ferramenta ética que a operosa Associação Médica Brasileira poderia abraçar.

Na verdade, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), já fizeram uma tentativa nesse sentido.

Brindes e presentes, por exemplo, deveriam estar relacionados à prática médica efetiva; seu valor não poderia exceder a um terço do salário mínimo em vigor no país.

Como explicar, então, a persistente e generosa lubrificação de dermatologistas, por exemplo, com cataratas de viagens, cruzeiros e outros mimos de custo dezenas de vezes mais elevado?

Existem outras normas supostamente em vigor, com efeitos prático idênticos.

Um artigo no novo Código de Ética Médica, uma resolução da Anvisa e um "código de condutas" da associação das indústrias buscam coibir a simbiose entre a saúde e a saúva.

Por que, então, a correição persiste?

Sem a transparência pública e a penalização determinada pelo Estado, a conveniência entre o lucro e o bolso parece dar força ao sauveiro.

Recentemente, a indústria farmacêutica norte-americana foi proibida de promover palestras em um dos maiores congressos médicos do mundo, o da American Heart Association.

A decisão partiu de um órgão do sistema nacional de saúde dos EUA (INH), que credencia cursos de educação continuada.

No Brasil, calcula-se que mais de 60% dos cursos livres e congressos médicos são bancados pela indústria farmacêutica e de equipamentos.

Sem isso, alegam entidades médicas, o evento seria inviável.

Uma pergunta: qual é, afinal, a grande diferença entre médicos e/ou entidades bancados por uma grande farmacêutica, e políticos e/ou partidos sustentados por uma empreiteira?

Há aí uma cultura precisa ser quebrada.

E ela está arraigada no ambiente médico.

Pesquisa feita pelo Datafolha em 2010, em parceria com o Cremesp, ouviu 600 médicos em um universo de mais de 100 mil profissionais em atividade então no Estado de São Paulo.

Não há razões para supor que o quadro evoluiu para melhor.

Desse total, 80% admitiram receber, em média, oito visitas de propagandistas de medicamentos por mês.

Pior: 93% afirmaram ter recebido, nos últimos 12 meses, produtos, benefícios ou pequenos pagamentos da indústria.

Quase 40% admitiram ter recebido presentes de maior valor, desde cursos a viagens para ‘congressos internacionais’.

Quase metade, 48%, afirmou receitar o que o fabricante indica.

E o escárnio supremo: há indícios de que a fidelidade desse matrimônio é vigiada pelo dono do dinheiro.

Em 2005, uma reportagem da ‘Folha de São Paulo’ revelou que, em troca de brindes ou dinheiro, farmácias e drogarias brasileiras auxiliavam a indústria de remédios a vigiar as receitas prescritas por médicos.

Com acesso ao receituário, representantes dos laboratórios pressionavam os profissionais a indicar seus produtos e os recompensavam por isso.

A marcação corpo a corpo se inspira em valores elevados.

O Brasil é um dos maiores mercados farmacêuticos do mundo, crescendo a taxas chinesas de 10%, em média, nos últimos anos.

Com a elevação da renda e do salário mínimo, 54% da população consome medicamentos regularmente.

O faturamento do setor em 2013 foi de R$ 55 bilhões.

É muito dinheiro em uma área vital para que seja manejado sem a salvaguarda do interesse coletivo.

Não se trata de duvidar do caráter do médico brasileiro.

Entre a saúde e a saúva, a chance da virtude está nas instituições, não nas metas de lucro corporativo ou na fraqueza humana diante de cruzeiros gratuitos pela Europa e o Caribe.

Há que ser duro, sem perder a ternura, disse um precursor dos cubanos do Mais Médicos.

A verdade é que a medicina praticada hoje no Brasil repousa, predominantemente, nas mãos de uma classe média desprovida de discernimento sobre o país, sobre o mundo que a cerca e as urgências da sociedade que lhe custeou o estudo.

Daí a naturalidade com que se endossa – com dignas exceções - a sabotagem à assistência emergencial do Mais Médicos; e a cara de paisagem exibida diante de um escândalo como o da máfia da prótese.

Pior que isso.

Entre indignado e estupefato, o conservadorismo de jaleco branco recusa a possibilidade da existência de outra referência de exercício da medicina que não a dos valores argentários.

Solidariedade, internacionalismo e fraternidade formam uma constelação incompreensível a quem divide o mundo entre consumidores e escravos.

Felizmente, nem os médicos do Caribe nascem bonzinhos, nem a mentalidade da máfia da prótese se reproduz por geração espontânea.

Ambos são fruto de instituições. A ponto de um não achar estranho sair de seu país para ajudar uma outra nação.

E o outro não hesitar em sangrar recursos públicos escassos de sua própria nação, que podem fazer a diferença entre a vida e a morte na fila da saúde pública.

Esse talvez seja o aspecto mais chocante do escândalo médico da vez.

E, sobretudo, o mais instrutivo, para quem quiser enxergar a real abrangência dos desafios financeiros e educacionais que ele propõe.

A ver.

Ocê é esquizo-paranóide? Acredita na divisão entre bons e maus?


Bolsonaro, deita aqui no meu divã!




É possível rever pontos de vista, mesmo quando nossos interesses estão em jogo, mesmo que isso ofenda a autoestima, o método para isso chama-se psicanálise


Christian Dunker - Blog da Boitempo








Resumo da Ópera

Deputado federal, militar aposentado, declara para congressista, em espaço público e no exercício de suas funções: “jamais estupraria você porque você não merece”. Outro deputado federal, pastor neo-pentecostal, afirma: “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime, à rejeição”.

Articulista de jornal de grande circulação comenta:

“De fato, não acredito que a humanidade aprenda muito em determinadas áreas, entre elas, romper a cegueira com a própria falha moral: dificilmente somos capazes de ver as coisas de modo claro quando está em jogo nossa autoestima e nossos interesses cotidianos. E quando (como no caso de “psicanalistas de esquerda”) se afirma que existe uma “clínica política” para questões como essas, o ridículo da coisa é maior ainda.” (Luis Felipe Pondé, “O quarto escuro”, Folha de S.Paulo)

Ao que é ecoado por outro luminar do pensamento liberal:

“E é possível observar a baba de ódio escorrendo do canto de suas bocas[dos psicanalistas de esquerda] quando falam dos “conservadores”, dos “liberais”, ou dos Estados Unidos e Israel. Pergunta: o psicanalista de esquerda arriscaria a própria vida para salvar Jair Bolsonaro numa eventual ditadura bolivariana?” (Rodrigo Constantino, “Psicanalistas de esquerda e a covardia moral, Blog da Veja)

Que por sua vez teria sido precedido por uma síntese de conjunto, uma afirmação mais ampla e circunstanciada, que inclui os casos anteriores:

“Sei, muitos ainda negam a ideia de que exista um processo de destruição da liberdade de pensamento no Brasil. Mas, uma das razões que fazem este processo ser invisível é porque a maior parte dos intelectuais, professores, jornalistas, artistas e agentes culturais diversos concorda com a destruição da liberdade de pensamento no Brasil, uma vez que são membros da mesma seita bolivariana.” (Luis Felipe Pondé, “Diálogo ou secessão”, Folha de S.Paulo)





O que fazer?

Declarações homofóbicas, misóginas, racistas, preconceituosas ou meramente agressivas como estas podem receber objeção, reprimenda jurídica ou reação institucional. O problema de tais discursos é que eles fazem com que pessoas propensas a atos de preconceito se sintam ainda mais legitimadas a pensar, dizer e finalmente agir de modo segregatório.

Contudo, como fazem parte de nosso debate público nos resta trabalhar para que aqueles que disseminam tais ideias sejam reprovados politicamente nas próximas eleições ou nas próximas consultas públicas para definir novos articulistas. Tais declarações despertam reações de protesto e críticas individuais ou coletivas, mas não um desejo de censura. A indignação é contida em nome da lei maior da liberdade de expressão, ou pelo espírito burocrático e leniente que ainda vigora quando o assunto são os crimes da palavra.

Parece pouco.

Alguns advogam que a melhor atitude neste caso seria a indiferença. Considerados como anacronismos sociais, tais exageros opinativos seriam gritos de quem resiste à mudança até o fim, uma espécie de intensificação do sintoma antes que ele seja abandonado. Ou então seriam expressão de um desejo de chamar a atenção, capitalizando o descontentamento com brados cada vez mais altos e intimidadores. Creio que esta tática de deflação narcísica, baseada na recusa ao reconhecimento, no silêncio obsequioso e na tolerância paciente, acredita demasiadamente que o debate público é uma questão de combate entre os “juntadores” de opinião. Cedemos assim à ideia de que tudo é uma questão de audiência, espetáculo ou de luta pela “aparecência”.

Ainda parece pouco.

Partilho do sentimento generalizado de que há uma pobreza de meios para lidar com tais excessos. Pobreza que nem uma lei de imprensa poderia evitar. Processos jurídicos, por difamação, calúnia ou injúria, execuções penais por crime de racismo, Comitês de Ética, falta de decoro parlamentar, até mesmo a execração pública de lado a lado são sentidos como instrumentos tímidos e impotentes. Quando questões de tratamento e respeito mútuo chegam neste acirramento o processo tende a caminhar pela força da lei ou pela arte da guerra. Ocorre que declarações como estas são de difícil trato em termos da coisa pública.

O que deveríamos fazer? Um plebiscito para saber se Bolsonaro merece ou não ser estuprado? Uma escola de re-educação, semelhante à que impomos aos maus motoristas, na qual Feliciano seria obrigado a passar alguns meses em convivência íntima com homossexuais? Um curso de estatística para fazer Pondé reaprender o conceito de “maioria” ou outro curso de filosofia para entender que significa “liberdade de pensamento”? Um exame toxicológico de hidrofobia para mostrar a Constantino que a “baba de ódio que escorre pela boca dos psicanalistas de esquerda” é imaginária, não contagiosa e tem poderes terapêuticos contra o neoliberalismo?

Divã político

Ainda que saibamos que não se pode recomendar a psicanálise para alguém, e que o tratamento só funciona se houver um movimento da própria pessoa de buscar ajuda, às vezes vem a tentação, vem o desejo de testar os limites do seu próprio desejo de analista. Isso provém do sentimento, quiçá delirante, de que muita humilhação e constrangimento poderia ser evitado, para o próprio e para os que o cercam, se o tal se dispusesse a falar livremente, em situação de sigilo e suspensão de julgamento, sobre seus fantasmas e tormentos. Sim, quero crer que está faltando um tanto de divã político para esta turma.

Se pudesse colocá-los todos no divã o primeiro passo do tratamento seria recusar a falsa divisão da qual eles acham que estão sofrendo, entre PT e anti-PT, entre bolivarianos e anti-bolivarianos, entre “inteligentinhos” e “burrinhos”, entre “nós” e “eles”, entre os que são contra a corrupção e os outros que seriam… o quê, a favor da corrupção? Melanie Klein chamou isso de posição esquizo-paranóide. Primeiro dividir entre bons e maus, depois demonizar o outro e em seguida sentir-se perseguido pelo que projetamos neste outro a partir do que não podemos suportar em nós mesmos.

Não é que não existam mais esquerdas e direitas, mas existem muitas esquerdas e muitas direitas. Quero crer que uma divisão mais aceitável em termos psicanalíticos se daria entre universalistas, que entendem que a essência universal do sujeito é dividida e vazia, e os particularistas, que tentam ocupar tal essência com traços positivos e contingentes, de sexo, de gênero, de religião, de raça, de orientação política ou de classe. O desafio para os universalistas está em saber como definir quem estaria além das palavras e da razão. Para um psicanalista estas figuras constituem o limite do analisável, a fronteira final que nosso desejo pode suportar. Casos limites para o exercício do método e da ética que lhe cabe.

Recentemente estive na exposição Topographie des Terrors [Topografia do terror] junto ao que sobrou do muro de Berlin. O material iconográfico detalha minunciosamente o processo jurídico e institucional pelo qual o nazismo se impôs como uma solução inesperada depois dos anos de avanço cultural e liberdade da República de Weimar. Um dado ressoou forte com nossa situação brasileira. A primeira lei, que uma vez aprovada parece ter desencadeado a progressiva institucionalização da barbárie, tratava de um assunto um tanto esquecido: a eliminação dos pacientes incuráveis ou terminais. Antes de judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e demais formas de vida não arianas, o regime introduziu a ideia teste de que existem “certas pessoas” que “nós” não podemos suportar. Uma vez aceito este princípio de que há condições, crenças ou disposições morais que não têm direito à existência, está instituído o processo de segregação, cujo capítulo seguinte será a inexorável expansão do tipo de diferença sentida como intolerável. Portanto, o segundo ponto do tratamento conjectural desta nova direita brasileira passaria pela inoculação da dúvida sobre a consistência real de seus inimigos.

Estou certo que aqui Rodrigo Constantino voltaria a me perguntar sobre a idoneidade de minhas intenções e sobre a pureza de meu desejo de psicanalista. Mostraria então o título desta coluna: sim, estou disposto a arriscar a vida para salvar Jair Bolsonaro da ditadura bolivariana. Não quero que ele seja excluído da condição de voz ativa e saliente no debate público de nosso país. Mas, convenhamos, ele deve se comportar melhor. Há que se ter um pouco de compostura. Talvez a análise ajude com isso. Mais do que um reformatório militar.

O tratamento deste discurso não se justifica apenas em nome de algum sintoma ou diagnóstico que torna esta atitude uma figura patológica ou moralmente execrável. Você não precisa se reconhecer de saída como um fraco, covarde molestador de mulheres, basta admitir que existem pontos que talvez valha a pena colocar em discussão, digamos, em foro íntimo. É possível sim, rever pontos de vista, mesmo quando nossos interesses estão em jogo, mesmo que isso ofenda nossa autoestima, o método para isso chama-se psicanálise.

Gente como Habermas viu neste método um exemplo de exercício da razão comunicativa, outros como Foucault entendiam que ela seria um caso do dispositivo de confissão e disciplina. Veja, Bolsonaro, pela esquerda ou pela direita é possível que o senhor se sentisse em casa para rever suas posições e aceitar o palpite amigo de Reinaldo Azevedo: peça desculpas. A capacidade de voltar atrás é um grande sinal de saúde psíquica. Acredite, você não se tornará menos macho por pedir desculpas a uma colega de trabalho.

Este seria o momento de resistência do tratamento. Seria forçado a reconhecer que a expressão “psicanálise de esquerda” é, de fato, um contra senso, não sem antes lembrar que não fui eu a empregá-la pela primeira vez nesta conversa. Freud definiu a psicanálise como um método de tratamento, um método de pesquisa e uma teoria que reúne e se transforma a partir da clínica assim praticada. Há um grande consenso nesta matéria: a psicanálise é uma ciência laica, não é uma visão de mundo e, portanto, não pode ser nem conservadora nem liberal, nem comunista nem capitalista, nem de esquerda nem de direita.

Mas a psicanálise não opera sem psicanalistas e estes são muito mais terrenos do que os métodos nos quais acreditam. É por isso que desde Lacan entende-se também que a psicanálise é uma ética. Uma ética que coloca em seu centro o desejo em sua dimensão trágica. Uma ética que começa pela suspensão do julgamento e do interesse no serviço dos bens baseando-se em seguida na associação livre. Neste ponto talvez nos depararemos com a ideia de que a experiência psicanalítica tem no seu centro o conflito, tratando pela palavra, gerido no interior de uma relação. Aqui o conflito não será eliminado pela força, mas tratado pela palavra, exatamente como na política. Tanto faz se contra isso enfrentaremos ilusões de bondade ou de maldade sobre nós mesmos, teremos que atravessar tais ilusões.

Chegará então o momento em que ficará claro que seu psicanalista não pode ser parte de uma “seita bolivariana” porque ele não opera a partir de sua própria identidade de classe, gênero e orientação moral. Ele não está tentando convencer você a ser outra pessoa, apenas tentando entender porque você precisa tanto de inimigos.

Aqui nos lembraremos de Pondé para quem a psicanálise é uma ética sem consequência política, para perceber que uma análise nestes termos é operação ganha-ganha. Se esta ética, que busca o bem individual, não tem nada que ver com a política, que orienta-se pelo bem comum, então não há risco, só potenciais ganhos. Por dever de ofício estamos impedidos de julgá-los em praça pública, que é o que está acontecendo agora. Pensem bem, os senhores que defendem a cura gay, a cura pela palmada, a cura pelo estupro, não estariam mais à vontade com algo bem mais simples e tradicional, como a cura pela palavra?

Estou sugerindo que muitas vezes é mais fácil assumir processos jurídicos, responder a comitês de ética, fazer cursos e penitências nominais e públicas, pagar indenizações, do que um gesto mínimo de mudança subjetiva como pedir desculpas. É grátis. Quase tão simples quanto instruir seu filho a não participar de comícios e manifestações públicas de massa com um revólver na cintura. Não temam. Se Pondé e Constantino estão certos, em nenhum caso a sua reflexão ética afetará suas disposições políticas. Uma viagem de palavras, sobre nossos inimigos imaginários mais privados não vai alterar jamais suas crenças públicas sobre mulheres, educação, sexualidade ou o sentido da família e da comunidade, incluindo-se aí bandidos e estupradores. Então, Bolsonaro, vem aqui, deita no meu divã!

Porque sou um homem!


Veja porque esses meninos se negaram a usar a violência. Belíssimo!


CONTI outra



Nesse pequeno experimento, alguns meninos ainda jovens foram convidados para responder a algumas perguntas.

Após os questionamentos iniciais eles são apresentados a uma menina e seguem sendo orientados a interagir com ela de forma inicialmente carinhosa.

Entretanto, chega um momento em que o entrevistador os orienta para bater nela.

As expressões de seus rostos, suas reações e depois as explicações do motivo pelo qual não agrediram a menina nos devolvem a esperança na humanidade.

Gostei especialmente do último:

“- Por quê?”

“- Porque sou um homem!”




O vídeo é em italiano e possui legendas em inglês.





É um caminho perigoso


O dia em que a vaca tossiu




Por Miguel do Rosário 

postado em janeiro 5th, 2015






Ao trabalho, amigos e amigas.

Estou levando à sério minha ideia de iniciar um processo de afastamento definitivo da nossa mídia como fonte de informação.

Vamos discutir assuntos a partir de fontes primárias.

Eliminando os “atravessadores”, reduziremos de maneira extraordinária o custo da nossa informação.

Evitaremos stress desnecessário lendo as baboseiras ultrarreacionárias da nossa imprensa bananeira.

Será uma saudável mudança de hábitos, e forçará as instituições públicas a melhorarem os seus serviços de informação.

Entretanto, evitemos uma confusão aqui.

A instituição de uma nova cultura de informação não pode pressupor, de maneira alguma, uma leitura acrítica de nenhuma fonte.

Me parece evidente que, se eu pretendo saber mais sobre, por exemplo, a presidência da república, seria ridículo me limitar ao blog do Planalto.

É preciso, sempre, ouvir o outro lado.

Mais importante, o fato de ler o blog do Planalto não nos pode fazer acreditar piamente em tudo que vem publicado nele.

Isso seria uma ingenuidade que não podemos nos permitir.

Para isso, existe oposição. Por isso o Congresso Nacional abriga todas as forças, do governo e da oposição.

Nas páginas do Congresso, temos acesso às críticas ao Executivo e à presidenta.

Também é importante ouvir diretamente a oposição, acessando o site de suas legendas.

Esta tem sido a razão, há tempos, que nos leva a ler os colunistas da grande imprensa: para saber o que pensa a oposição.

É fundamental ouvir o que pensam os setores afetados por cada decisão do governo. Se uma decisão afeta os trabalhadores, é preciso ouvir o que as centrais têm a dizer.

E também os empresários.

Mas façamos isso sem os filtros da mídia. Entremos nas páginas das centrais sindicais, e das organizações empresariais. Ouçamos a opinião diretamente das fontes.

Não para concordar com elas ou eles, mas para construir uma opinião rica, elaborada a partir de um debate inteligente e democrático sobre qualquer tema.

Precisamos reforçar nosso pensamento crítico, embora sem confundir pensamento crítico com o criticismo urubu da mídia.

Fazer uma crítica construtiva é a melhor maneira de ajudar o país, e, em alguns casos, o próprio governo.

Por exemplo, no dia 29 de dezembro, o governo deu um susto nas centrais sindicais ao apresentar, de maneira autocrática, sem ter realizado nenhum debate prévio com a sociedade, uma proposta para reduzir diversos benefícios concedidos aos trabalhadores.


A proposta está na internet e reproduzo abaixo. Vamos debatê-la.








A oposição ao governo, à direita e à esquerda, criticaram duramente as propostas, consideradas uma espécie de traição à jato da presidenta em relação a seu posicionamento durante a campanha, de que não tomaria decisões contra os trabalhadores, “nem que a vaca tussa”.

Em primeiro lugar, critiquemos o autoritarismo burro do governo, tratando a sociedade como uma criança mimada e tola, sem capacidade crítica para discutir os assuntos que afetarão a ela, à sociedade, e não ao governo.

Estamos falando aqui de mudanças em benefícios trabalhistas que irão afetar a vida de milhões de brasileiros, durante as gerações vindouras.

E o governo nos brinda com uma apresentação vergonhosamente tosca!

É evidente que uma medida dessa magnitude precisaria vir acompanhada de estudos infinitamente mais profundos do que os dois ou três gráficos presentes na apresentação feita por Mercadante.

A apresentação menciona um estudo feito pelo Ministério da Previdência Social.

Por que esse estudo não foi divulgado?

O problema da comunicação, mais uma vez, causa estrago.

Um estrago de proporções terríveis para a vida de milhões de pessoas.

Nem preciso ler a mídia para saber que ela recebeu a proposta com entusiasmo, e não proporcionou nenhuma crítica consistente nem a sua forma nem a seu conteúdo.

A mídia apenas é “crítica ao poder político” quando este beneficia os trabalhadores. Aí ela se transforma em leão furioso.

Quando o poder político prejudica o trabalhador e beneficia o capital, ela vira um gatinho ronronante.

Quando é para beneficiar os ricos, a mídia familiar senta-se, confortavelmente, no sofá de um chapa-branquismo histórico.

É claro que o governo precisa tomar medidas para conter a explosão dos gastos previdenciários.

Medidas racionais, que visem fortalecer as contas do Estado, são bem vindas. Ainda mais num país que precisa, desesperadamente, fazer caixa para bancar investimentos trilionários em infra-estrutura.

Mas vamos devagar que o santo é de barro!

Se é para cortar benefícios, sejamos ao menos democráticos! Cortemos pouco dos pobres e muito dos ricos.

As alterações propostas pelo governo são as seguintes:




Discutamos uma a uma.

1) Abono salarial.






A primeira medida me parece a mais café com leite. A alteração nos parâmetros do abono salarial não traz consequências graves ao trabalhador. O abono salarial é um prêmio pago pelo governo a quem tenha trabalhado por mais de 30 dias; o governo propõe que se estenda essa carência para seis meses.

Para falar a verdade, gostaria de entender melhor a razão da existência do abono. O governo poderia até mesmo cortá-lo de vez, se fosse para evitar algumas medidas drásticas sobre o seguro-desemprego e a pensão por morte, que iremos discutir em seguida.

2) Seguro desemprego.

É a medida mais cruel, a meu ver. Espero que não seja aprovada no Congresso. O governo propôs elevar o período de carência de 06 meses para 18 meses na 1ª solicitação, 12 meses na 2ª solicitação e manter em 06 meses na 3ª solicitação.

A razão de ser do seguro desemprego é permitir que a renda do trabalhador não sofra um corte brusco demais após ser demitido, causando insegurança alimentar em sua família e impedindo, às vezes, até mesmo que o trabalhador consiga um outro emprego. Para conseguir um trabalho novo, o trabalhador precisa de uma roupa nova, imprimir um currículo, pagar transportes.

A proposta do governo, além disso, falha ao não trazer números que nos permitam analisar o cenário. Quantos trabalhadores usam o benefício por ano? Se existem fraudes, quais são elas? Há uma estimativa do valor das fraudes sobre o total das despesas com seguro desemprego?

Não havia uma fórmula socialmente menos traumática para combater as fraudes?

O primeiro emprego do cidadão é justamente aquele mais instável, porque ele talvez ainda não tenha completado a sua formação educacional ou profissional.

O setor mais afetado, naturalmente, é a juventude. O jovem é sempre quem mais sofre com desemprego e falta de dinheiro, por razões inclusive naturais.

O seguro desemprego é um dos principais colchões sociais em países avançados, e integra-se a um forte sistema público de distribuição de vagas.

Também por lá há problemas de fraude, ou mesmo de má fé por parte de alguns trabalhadores, mas isso se resolve com mais transparência e mais controle, e não com corte de direitos.

3) Seguro-desemprego do pescador artesanal.

Achei estranho incluir um benefício setorial numa proposta que discute mudanças de caráter universal.

A medida me cheira a uma tremenda muquiranagem do governo e uma terrível injustiça com um setor obviamente frágil economica e politicamente.

Cortar benefícios do pescador artesanal?

Também faltam muitas informações sobre isso. Entendo que talvez haja proliferação de fraudes. Tipo assim: numa determinada região pesqueira, todo mundo, pescador ou não, está se registrando para receber o seguro pescador.

Acho normal o governo combater a fraude, mas em se tratando de um setor tão frágil, e ao mesmo tempo tão importante para a segurança alimentar de algumas regiões, seria interessante aumentar a vigilância, combater o desperdício, mas aumentar o apoio do governo àqueles que, efetivamente, vivem da pesca artesanal.

O governo podia aproveitar ainda e introduzir seguro-desemprego especial para outros setores vulneráveis, que também dependem da sazonalidade da atividade econômica onde trabalham, como cortadores de cana e colhedores de café.

4) Pensão por morte.

Outra alteração tremendamente mal explicada, e que, do jeito que foi apresentada, ficou parecendo uma absurda violência do Estado contra milhões de futuras viúvas. É o item onde o governo, num gesto de generosidade, ofereceu alguns gráficos e estatísticas para explicar a medida.

Quer dizer, quando olhamos os gráficos, o que parecia generosidade ganha ares de má fé.







Os percentuais comparativos apresentados não querem dizer nada. O que significa dizer que “78% dos países tem alguma regra de carência?” O que precisamos saber é o prazo exato de carência, em que condições, de preferência em países de economia avançada, com os quais gostaríamos de nos comparar. Comparar o Brasil a países de economia destruída da África é má fé.

Algumas mudanças parecem justificáveis a primeira vista. Por exemplo, a instituição de uma carência de 24 meses de contribuição. Hoje não há carência. A lógica econômica é óbvia. Só recebe quem pagou um certo período.

Menos mal que há exceções honrosas: em caso de morte por acidente de trabalho, ou doença profissional ou do trabalho, não haverá carência.

Peraí? Doença profissional ou do trabalho? E se for um câncer, que não tiver nada a ver com o trabalho? E se o sujeito ficou tão esgotado no trabalho que, ao ir para a casa, tomba na rua, desmaia e morre?

Está tudo mal explicado.

Aí o governo nos mostra um gráfico







Essa é a parte que considerei um tanto mal intencionada. O governo quer nos dizer que o Brasil é o país com o maior gasto em pensão por morte do mundo?

3,2% do PIB? É isso mesmo?

Tem alguma coisa errada aí. Me parece óbvio que há uma comparação indevida. Todo mundo sabe que os gastos previdenciários em toda a Europa são muito maiores que os do resto do mundo. Em países como Suécia e Noruega, a aposentadoria é universalizada, de maneira que viúvas não dependem da pensão por morte dos maridos.

A intenção do governo é óbvia, e até louvável: mostrar que os gastos com pensão por morte extrapolaram o limite razoável, de maneira que urge racionalizá-lo de alguma maneira.

Entretanto, fazê-lo sem impor uma agenda de combate à desigualdade, me parece injusto. Cortar igualmente pela metade a pensão dos que ganham 10 salários e os que ganham 2 ou 3 salários, é socialmente errado.

Aliás, falta informação aqui: há algum tipo de teto para pensão por morte? E por que cortar 50% e não, por exemplo, 40%?

O governo diz que o benefício mínimo continua sendo um salário mínimo, e que 57,4% das pensões correspondem a um salário.

Muita “generosidade” por parte do governo manter o mínimo como o mínimo.

Só que o percentual de 57% revela então que 43% das pensões hoje correspondem a valores maiores que o mínimo, e que serão violentadas (não as atuais, invioláveis, mas as registradas no futuro). Seria interessante termos uma estratificação melhor disso. E bem que podíamos discutir um escalonamento dos cortes, não? Pensões maiores, cortes maiores. Menores, cortes menores.









Quanto à imposição de limites em proporção à expectativa de vida do cônjuge beneficiado, acho uma medida justa. De fato, é um tanto absurdo que uma viúva de 20 anos receba pensão vitalícia do Estado.





Mas eu fico com pena da viúva com 43 anos, 11 meses e 29 dias, pedindo pelo amor de deus para o marido aguentar algumas horas antes de morrer, para que ela receba uma pensão vitalícia, e não por mais apenas 15 anos.

Esse tipo de arbítrio, teremos que resolver no futuro. Além do mais, há viúvas de 43 anos que trabalham, ou tem excelente saúde, enquanto há outras com pouca expectativa de vida.

Também aí seria o caso de discutir cláusulas para combater a desigualdade e promover mais segurança financeira para famílias mais vulneráveis.

Uma senhora de 42 anos, ganhando uma pensão por morte, terá renda assegurada por 15 anos. Ou seja, o Estado interromperá o benefício quando ela completar 57 anos. Tem alguma coisa errada aí. Interromper o benefício quando a pessoa mais precisa?

É preciso discutir, junto aos especialistas em programas de assistência social, que medidas poderão ser tomadas para assegurar a segurança alimentar e financeira dessas viúvas e suas famílias, após o término do benefício.





5) Auxílio-Doença.

Ao que parece, o governo visou reduzir uma série de fraudes no sistema de auxílio doença, mas é mais um daqueles casos em que o inocente paga pelo pecador.

A alteração também está mal explicada e mal discutida. O que o governo pretende fazer, impondo uma dificuldade a mais na concessão do auxílio doença?

*

Conclusão

Esses temas são importantes demais para que o governo elaborasse qualquer proposta sem fazer uma discussão prévia com a sociedade.

Se o governo tem disposição de adotar medidas impopulares, que cortam benefícios dados aos mais pobres, poderia usar a oportunidade para discutir, ao mesmo tempo, outras que cortassem também dos mais ricos.

Seria mais justo e mais democrático.

Seria muito menos doloroso para os mais pobres se eles entendessem que os ricos também estariam dando a sua contribuição para o aprimoramento das contas nacionais. E que o objetivo final do governo seria assegurar uma longeva solidez financeira para nossa economia.

Ou seja, cortaremos a pensão das viúvas, mas protegendo aquelas mais pobres e impondo algum tipo de imposto sobre a herança.

O primeiro governo Dilma foi talvez a gestão, em toda a nossa história, que mais concedeu benefícios sociais aos brasileiros mais pobres.

Foi apenas por isso que ela ganhou as eleições.

É triste que, por falta de debate e comunicação, o governo agora crie a imagem de que corta direitos futuros dos trabalhadores, sem discutir os cortes com a sociedade e sem exigir nenhuma contrapartida dos mais ricos.

Sintomático ainda que os núcleos mais fortes do governo, com Mercadante à frente, tenham tanta coragem para cortar a pensão das viúvas, e tanta covardia para fazer qualquer enfrentamento ao donos da mídia e do capital.

Neste início de segundo governo, esses núcleos parecem ter abandonado qualquer preocupação com a construção de símbolos de avanço democrático e de luta por justiça social.

É um caminho perigoso, porque enfraquece o governo junto às suas bases mais importantes, isolando-o politicamente.

O atentado não foi apenas contra o Charlie Hebdo


Maringoni: Um ataque à imprensa e aos muçulmanos




Por Gilberto Maringoni.

O terrível, injustificável e indefensável atentado contra a redação do Charlie Hebdo não pode ser visto apenas como a ação de muçulmanos alucinados que, contrariados com alguns cartuns, resolveram mostrar suas insatisfações através de rajadas de AKs-47.

A teia de processos e acontecimentos que desembocou no sangrento episódio possui profundas raízes na cena política francesa.

A direita propaga, há décadas, a existência de uma suposta “questão muçulmana” a ser resolvida com a proibição da difusão de usos e costumes religiosos em território francês. O combustível essencial é a repulsa aos povos árabes e estrangeiros pobres, potencializado por um nacionalismo conservador. Estariam em perigo a cultura e o modo de vida de uma hipotética “França profunda”. Tais tendências tendem a se acentuar em contextos de crise econômica.

NACIONALISMO CONSERVADOR

Nacionalismo no contexto europeu – que já viveu os traumas do nazismo e do fascismo – não tem o mesmo significado que em países da periferia. Nesses últimos, o termo muitas vezes pode envolver oposição à dominação externa. Na França, o incentivo ao preconceito vem colecionando não apenas agressivos debates públicos, mas pilhas de processos na Justiça.

Os feios, sujos e malvados a serem combatidos não são mais os judeus, os comunistas ou o que vagamente se conhecia por “orientais”. O alvo desses tempos são genericamente árabes e muçulmanos de todos os matizes, os novos bárbaros. A propaganda antimuçulmana na França é uma forma de racismo.

Num país de pouco mais de 60 milhões de habitantes – em sua maioria católicos –, a comunidade muçulmana alcança 10% da população. É a segunda religião em número de fiéis. Não se trata de algo abstrato, mas o resultado de uma imigração potencializada pela vinda de enorme contingente das ex-colônias em busca de vida melhor. São os casos de Argélia, Marrocos, Tunísia e Djibouti, entre outros.

Nessas antigas possessões, os muçulmanos representam mais de 95% da população total. Tais países foram invadidos e explorados ao longo de séculos pela metrópole. Seus processos de independência, na onda de descolonização do segundo pós-Guerra, foram dramáticos e sangrentos.

DISPUTA MAIOR

Embora seja inaceitável qualquer restrição à liberdade de expressão e opinião, é forçoso reconhecer que os cartuns e textos do Charlie Hebdo, com seus ataques a Maomé, estavam inseridos em uma disputa maior. Embutiam também boa dose de intolerância, mesmo que não tenha sido essa a intenção de seus autores.

Mesmo assim, o atentado deve ser condenado sem mediações. Há outras formas de se externar discordâncias.

Foram assassinados, entre outros, Wolinski, Charb e Tignous, ex-chargistas dol’Humanité, jornal do Partido Comunista Francês. Wolinski – nascido na Tunísia – influenciou gerações de cartunistas pelo mundo, com um traço quase caligráfico e desbocadas sátiras de política, sexo e comportamento.

A estupidez dos assassinos municiará de argumentos os apóstolos do preconceito e da xenofobia, aqueles que veem no estrangeiro a matriz dos males da França.

O atentado não foi apenas contra o Charlie Hebdo.

Foi também foi contra toda a população muçulmana do planeta.




***

Gilberto Maringoni é doutor em História Social pela FFLCH-USP e professor adjunto de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. É autor, entre outros, de A Revolução Venezuelana (Editora Unesp, 2009), Angelo Agostini: a imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal – 1864-1910 (Devir, 2011) e da introdução do romance O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura. Cartunista, ilustrou algumas capas de livros publicados pelaBoitempo Editorial na Coleção Marx Engels, como o Manifesto comunista. Integra o conselho editorial do selo Barricada, de quadrinhos da Boitempo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

“chega de aprender nos pobres para só querer cuidar dos ricos”


Padilha: o que une
Andressa Urach a FHC


FHC, a FIESP e o PSDB acabaram com a CPMF – PHA


Conversa Afiada







O Conversa Afiada publica excelente – e irrespondível – artigo de Alexandre Padilha na Carta Maior:




O SUS E A DESIGUALDADE NO BRASIL



O Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes que busca oferecer acesso universal à saúde: mas como resolver o subfinanciamento do SUS?



Às vésperas do Natal, depois de dias de internação, felizmente a modelo e apresentadora Andressa Urach recebeu alta hospitalar, com vida e pronta para se reabilitar. Durante todos esses dias, a imprensa e as redes foram ricas em comentar sobre a vida da modelo, sobre boatos em relação a sua saúde, sobre técnicas estéticas, sobre a ditadura da beleza e clínicas e mais clínicas. Raras matérias traziam uma informação que surpreende a todos: depois de um périplo por clínicas particulares sem solução definitiva, foi em um hospital 100% SUS, do Grupo Hospitalar Conceição (um dos poucos próprios do Ministério da Saúde) que a modelo teve a sua vida salva e a saúde reabilitada. Foram médicos e profissionais de saúde que enfrentam todas as carências que estão presentes nos hospitais públicos, que cuidaram da complicação decorrente do procedimento estético. Mais uma vez, neste ato, garantiram a modelo o direito de todos os 200 milhões de brasileiros: o acesso a um sistema de saúde que busca ser universal.

Nem no meu maior devaneio SUSista esperava uma manchete do tipo: “Hospital do SUS salva modelo com complicações em procedimentos estéticos realizados em clínica privada”. Ou ” Ao contrário de Miami, modelo não precisou pagar antecipadamente por vida salva em Hospital do SUS”. Mas é preciso falarmos alto para que esta, uma das contradições da relação entre dois sistemas de saúde, público e privado, não passe desapercebida. Pelo tamanho atual dos dois sistemas no Brasil, é fundamental que as contradições sejam cada vez mais enfrentadas, sob risco de inviabilizarmos o projeto de um sistema público universal com qualidade e reforçarmos a iniquidade também no sistema privado.

O Brasil é o único país do mundo, com mais de 100 milhões de habitantes, que busca oferecer a sua população o acesso universal a saúde. Nem mesmo as novas Constituições da América Latina, apelidadas de bolivarianas, foram tão ousadas:” Saúde é DIREITO de todos e DEVER do Estado”. Ao mesmo tempo, temos cerca de 50 milhões de usuários de planos de saúde médico-hospitalares (eram 30 milhões em 2003) e 70 milhões, incluindo planos odontológicos. Os números de ambos os sistemas impressionam ministros da Saúde e investidores de todo o mundo. O caso similar a modelo, pacientes do sistema privado recorrerem ao SUS, por falta de cobertura ou por situação de emergência é muito mais comum do que se imagina. Desde 2011, quando assumi o Ministério da Saúde, implantamos um conjunto de mudanças de gestão para identificar quando isso ocorre. Com elas, busca-se garantir o ressarcimento do plano de saúde ao SUS, porque é dele que se deve cobrar, não do paciente. Desde então, as operadoras são obrigadas a emitir um número de cartão SUS para todo usuário de plano, permitindo ao Ministério este rastreamento. Você que me lê e é usuário de plano de saúde tem número de cartão SUS e talvez não saiba. De lá para cá, foram recordes sucessivos de recuperação de recursos para o SUS: em 3 anos, mais do que em toda história da Agência Nacional de Saúde (ANS), criada em 2000. Mas muito precisa-se avançar nessa cobrança, e o governo Dilma prosseguiu em novas medidas em relação a isso. O motivo mais comum de internação no SUS por detentores de planos de saúde, acreditem: parto. Recentemente, correu as redes a notícia de turista canadense, que teve parto de urgência no Havaí e, quando voltou para casa, recebeu conta de US$2,5 milhões para pagar.

Poderia citar outros exemplos em que somos usuários do SUS sem nem reconhecermos. Desde 2001, o Brasil é recordista mundial de transplantes em hospitais públicos. O SAMU salva vidas sem perguntar o plano ou exigir cheque. A vigilância sanitária estabelece regras e fiscaliza a comida dos restaurantes, inclusive os chiques, de preços estratosféricos. As mesmas analisam risco a saúde de equipamentos, medicamentos, bebidas vendidas em massa, cosméticos e produtos de estética. O próprio uso do HIDROGEL já estava condenado pela Anvisa, evitando novos casos como o de Andressa Urach.

Estas contradições da convivência de dois sistemas públicos e privado impactam nos maiores desafios atuais de sobrevivência do projeto SUS: o seu subfinanciamento e a iniquidade no acesso aos serviços. E criam um ambiente, no mercado de trabalho e no complexo industrial da saúde, que influencia fortemente outro fator decisivo para uma saúde pública humanizada: a formação e a postura dos profissionais de saúde.

Há um consenso suprapartidário no Brasil: a saúde pública é subfinanciada. A divergência é como resolver este fato. Desde o final da CPMF, que retirou R$40 bilhões anuais do orçamento do Ministério da Saude, o Brasil investe na saúde pública em média 3 vezes per capta menos do que parceiros sul americanos como Chile, Argentina e Uruguai; cerca de 7 a 8 vezes do que sistemas nacionais europeus recentes como Portugal e Espanha, cerca de 11 vezes menos do que o tradicional Sistema Nacional Inglês. Ao mesmo tempo, segundo dados recentes publicados pelo IPEA, a isenção fiscal referente aos planos de saúde no Brasil chegou a cerca de R$ 18 bilhões. Ou seja, o mesmo Estado que não garante recursos suficientes para prover um sistema público para todos, co-financia a alternativa para uma parcela da população, que se vê obrigada a pagar valores expressivos para ter acesso a saúde. Além disso, o mesmo Estado suporta o atendimento de vários procedimentos que de alguma forma não são cobertos pelos planos. A incorporação tecnológica, o envelhecimento da população e o impacto dos acidentes automobilísticos e da violência urbana nos custos dos serviços de emergência e reabilitação, transformam esta equação, já precária, em insustentável. Não a toa, a melhoria da saúde é a primeira demanda da população e ter um plano de saúde, o sonho da nova classe trabalhadora. No último período, dois avanços importantes do governo Dilma foram conquistados: a regra que estabelece quanto União, estados e municípios são obrigados a investir em saúde e a vinculação de um percentual dos recursos do pré-sal. Mas precisamos avançar sempre.

As opções para o financiamento da saúde são uma das expressões da desigualdade não tão revelada no nosso país. É mais do que hora de todos nós, que colocamos a redução das desigualdades como centro de um projeto político, enfrentá-las. Se não o fizermos, perderemos a capacidade de interlocução com segmentos expressivos da classe trabalhadora, que sofre com a baixa qualidade e os custos dos sistemas públicos e privados. Temos que ir para ofensiva no diálogo com a sociedade e explicitar que ampliar o financiamento a saúde passa, necessariamente, por inverter o sistema tributário injusto com o qual convivemos. Não é razoável, em um país como o Brasil, que alguém, ao receber R$ 60 mil em 12 meses de trabalho, paga 27% de Imposto de Renda, enquanto alguém que receber R$ 2 milhões de herança, praticamente não será taxado. Em países como EUA (30-40%) França (45%), Alemanha, Japão (50%) as alíquotas para heranças seriam outras. Estudos de 1999 mostram que imposto sobre fortunas no Brasil, entre 0,8% a 1,2%, em fortunas acima de R$ 1 milhão, renderiam uma arrecadação de cerca de 1,7% do PIB, mais do que era obtido pela CPMF.

A formação e a conduta profissional é o outro território invadido por estas relações dos dois sistemas público e privado. A batalha do Mais Médicos, as denúncias recentes de abuso sexual e preconceito por alunos de medicina nas faculdades e a atitude absurda de algumas lideranças condenarem a campanha antiracismo organizada pelo Ministério da Saúde só explicitaram o arcabouço de valores que influencia a formação dos nossos futuros profissionais, de ambos os sistemas. No cerne, há duas correias de tensão, que se alimentam mutuamente. Por um lado, um ideário liberal de exercício da profissão, que alimenta, desde os primeiros dias de graduação, uma não aposta em um sistema público de qualidade e o desrespeito em relação aos seus usuários: pobres, mulheres, negros, homossexuais e “gente não diferenciada”. Por outro, um mercado dinâmico e lucrativo de tecnologia, órteses, próteses, equipamentos, fármacos, serviços, publicações, congressos que financia uma visão cada vez ultraespecializante da formação e da atuação em saúde. Não a toa, a investigação iniciada pelo Ministério da Saúde, em Março de 2013 que teve luz recente graças a matéria de TV, e o Mais Médicos incendiaram o debate, questionaram paradigmas e condutas. Não há nenhum profissional de saúde no Brasil, nem aquele que se especializou em realizar procedimentos estéticos em clínicas privadas, que não tenha dependido do SUS para se formar. Nos meus tempos de estudante de medicina cunhamos a frase: “chega de aprender nos pobres para só querer cuidar dos ricos”

Esta realidade desafiadora nos abre uma grande oportunidade. O entendimento de que um sistema público dessa dimensão, em um país tão desigual e diverso como o nosso, gera plataforma continental para um amplo complexo de indústria e serviços no campo da saúde. O Brasil será mais rico e menos desigual se pudermos articular as duas perspectivas. Não será possível sustentar um sistema público de saúde sem crescimento econômico e para tal é necessário colocarmos os 2 pés no universo da inovação tecnológica. Ao mesmo tempo, o complexo de indústrias e de serviços da saúde não sobrevive no Brasil se desprezar o mercado interno impulsionado pelo acesso a um sistema público, cada vez mais tecnológico. Usar o poder de compra do estado para fortalecer um setor econômico que gere empregos e inovação tecnológica no Brasil teve, na Saúde, a sua experiência recente mais exitosa. Ela foi calcada de um lado na ousadia, ao estabelecer o interesse público e nacional como o rumo a ser seguido, e previsibilidade, regras que estimulassem o setor privado a fazer este jogo de interesse para o Brasil. Beber dessa experiência é fundamental para fortalecermos a Saúde como um impulso, e não um peso a carregar, na agenda de desenvolvimento do Brasil.



*Alexandre Padilha, médico, 43 anos, ex-Ministro da Coordenação Política de Lula e Saúde de Dilma e candidato a governador de SP em 2014


Em tempo: leia aqui “Arthur Chioro:‘Novo tributo é caminho para sustentabilidade do sistema de saúde’”

Criolo: até quando... ?


Criolo: 8 minutos que valem 5 séculos de história
janeiro 7, 2015 14:38






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Um soco no estômago, assim podemos definir os relatos de Criolo para Claudia Belfort e André Caramante num projeto da Ponte Jornalismo.

Ouvir sua fala arguta sobre a desigualdade, o racismo, a exploração capitalista, sobre identidades e a violência institucional vale cada segundo de nosso tempo.



Por Claudia Belfort e André Caramante
Imagens e edição: Gabriel Uchida e Leonardo Lepri
Ponte Jornalismo
07/05/2015


Ao lado do pai, Cleon, o rapper Criolo, nascido na Favela das Imbuias, zona sul de São Paulo, fala sobre desigualdade social, sobre a falta de perspectiva dos jovens da periferia, preconceito e racismo. E conta como seu pai, ao levá-lo para ser socorrido num hospital após um acidente doméstico, foi acusado pelos próprios funcionários do hospital de tê-lo sequestrado.





Eles não me pagam para gostar de crianças.

Bom, seu ano vai ser longo e árduo...




Me pagam para ensinar a lição. As crianças devem aprender. Eu devo ensinar. Elas precisam aprender. Caso encerrado.

Sabe, crianças não aprendem com pessoas de que elas não gostam.

Isso é um monte de besteira.

Bom, seu ano vai ser longo e árduo, querida.














terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Quando as vidas são vidas elas sorriem e conversam!


Mais Médicos zera
mortalidade infantil no Piauí



Médicos do Sírio Libanês vão cortar os pulsos em frente à Globo.


Conversa Afiada









O Conversa Afiada reproduz matéria do portal Meio Norte:



PROGRAMA ‘MAIS MÉDICOS’ ZERA A MORTALIDADE INFANTIL EM MUNICÍPIOS DO PIAUÍ


Os médicos cubanos Olívia Rodriguez Gonzalez e Omar Diaz, professores da Universidade Che Guerava, em sua cidade natal, Pina del Rio, em Cuba, estão trabalhando há um ano no do Posto de Saúde de Barras, na região Norte de Piauí, e sorriem quando falam da conquista em vida que obtiveram no trabalho da atenção básica.

“Há um ano não registramos nenhuma morte de criança e de gestante. Estamos sem mortalidade materna e infantil”, afirmam Olívia Rodriguez Gonzalez e Omar Diaz, no Posto de Saúde de Barras, atuando no Programa Mais Médicos, do Governo Federal.

Esta realidade de redução com a capacidade de zerar a mortalidade infantil e materna se espalhou nos municípios onde o Programa Mais Médicos foi implantando para oferecer atenção básica de saúde onde era difícil a permanência de médicos ou de número suficientes de médicos brasileiros para atender a população.

“Tem sido uma experiência muito boa. Encontramos uma comunidade muito carente, mas acolhedora, pessoas muito sensíveis, muito boas e necessitadas”, relata Olívia Rodriguez.

Segundo ela, as doenças mais frequentes são doenças respiratórias, doenças parasitárias, hipertensão, diabetes. Olívia Rodriguez e Omar Diaz fazem visitas domiciliares aos pacientes de Barras, que são programas e os pacientes atendidos são pessoas que não podem ir ao posto de saúde. São crianças com hidrocefalia, puérperas (mulheres que tiveram bebês recentemente), gestantes, hipertensos e idosos.

“Nós não temos mortalidade infantil, nem mortalidade materna. Temos registros de crianças e mães doentes, mas nenhuma chegou a óbito”, enfatiza Olívia Rodriguez, de tem 30 anos trabalhando como médica. “Isso é uma vitória”, comemora Omar Diaz.

Olívia Rodriguez e Omar Diaz afirmam que trabalhar é diferente de onde trabalharam antes com atenção básica na Venezuela, Paraguai e Paquistão, que não tinham uma rede constituída de atenção primária. “Na Venezuela não tínhamos nada, tudo era precária.

No Paraguai igual, não tinha rede implantada. No Brasil, nós temos uma rede de atenção básica de saúde, não temos médicos, mas temos uma rede criada. Nos outros países foram nós que criamos a rede de atenção primária”, falou Olívia Rodriguez.

Omar Diaz, 23 anos de formado em Medicina, sendo que oito anos trabalhando na Venezuela, avalia como muito boa a sua experiência de um ano em Barras.

“Temos encontrado uma população muito necessitada de atenção médica e todos são muito receptivos porque a população é muito receptiva com os médicos cubanos, fica muito contente com o nosso trabalho, muito compreensiva porque nós estamos ajudando a melhorar a saúde dessa população que estava carente de atenção”, falou Omar Diaz, que encontra crianças com baixo peso e desnutrição, mas não com desnutrição extrema.







ABRAÇOS E ATENÇÃO AJUDAM NA CURA DOS PACIENTES

Omar Diaz percebeu que muitos pacientes ficam curados mais rápido com um abraço, um cuidado mais afetuoso e fraterno. As pessoas ficam muito agradecidas.

Omar Diaz afirma que quando estão fazendo visitas domiciliares, os pacientes dizem que nunca um médico foram em suas casas. Pedem desculpas porque não podem oferecer refeição melhor, mas Omar Diaz e Olívia Rodriguez avisam que as famílias estão se alimentando com as mesmas refeições com que se alimentam.

“São pessoas muito carentes e quando vemos as pessoas acamadas e não podem caminhar, elas ficam muito contentes porque elas falam dos problemas de saúde que têm e nós também falamos muitas coisas. Essas pessoas ficam muito agradecidas”, fala Omar Diaz.

Omar Diaz afirma que abraçar e ouvir o paciente ajuda psicologicamente os doentes e em sua cura.

“As pessoas que estão acamadas ficam depressivas. A gente fala com elas, falamos que vão melhorar a saúde. Essas pessoas ficam psicologicamente animadas, é a palavra do médico animando o paciente. Isso ajuda na cura”, diz Omar Diaz.

“Tem pacientes que dizem que bastou o médico olhar e já melhoraram. Dizem: ‘esse médico me olhou e eu já me senti bem”, afirma Olívia Rodriguez.

“Quando o médico fala, conversa é muito importante para o paciente e também é muito importante o médico escutar o que o paciente fala. Isso é muito importante para a recuperação e melhorar ao paciente”, falou Omar Rodriguez.






MÉDICA CUBANA FAZ TERAPIA CONTRA VÍCIO EM MEDICAMENTOS


A médica cubana Olívia Rodriguez Gonzalez iniciou um trabalho com 42 mulheres de uma comunidade da periferia de Barras com atividades fisioterápicas com 42 mulheres para que rompam o ciclo fármaco, vício de medicamentos para dormir, medicamentos ansiolíticos usados como tranquilizantes e contra ansiedade.

O ciclo fármaco é formado por medicamentos como o diazepan, rivotril, contra insônia, antidepressivos e ansiolíticos.

“O resultado é que as mulheres não tomam mais cinco medicamentos que tomavam, estão mais alegres, perderam peso. São 42 mulheres integradas nas atividades fisioterápicas”, falou Olívia Rodriguez.

O trabalho é realizado com mulheres do bairro Residencial Morada de Barras. São realizadas atividades físicas com as mulheres. A coordenadora de Atenção Básica de Barras, Saara Serafim, disse que o trabalho dos médicos cubanos é muito positivo no município.

“Foram muito bem recebidos pela comunidade. Hoje nós temos médicos pela manhã e tarde de segunda-feira a quinta-feira atendendo os pacientes da maneira adequada e a população está muito satisfeita.

Já estamos até ampliando a rede de atenção básica. Nós começamos com 17 equipes e nós estamos com 19. Graças a Deus estamos conseguindo isso porque, antes, nós tínhamos dificuldades com médicos porque eles só atendiam duas vezes na semana”, falou Saara Serafim, adiantando que chegou a ficar seis meses sem médicos para atender a população na atenção básica. Hoje Barras tem seis equipes do Programa Mais Médicos.







“A MÉDICA PERGUNTA, FALA E SORRI”, DIZ VENDEDORA EM PIRIPIRI


A lavradora e vendedora Maria Aparecida Ferreira, de 48 anos, estava sendo atendida no Posto de Saúde João Mariano dos Santos, no bairro Caixa D´Água, em Piripiri.

Ela vinha sendo atendida por um médico cubano que viajou de volta para Cuba e foi substituído por outra médica cubana, Maritza Duquen Labore.
Maria Aparecida Ferreira diz que os médicos cubanos dão atenção ao paciente, fazem perguntas, ficam ouvindo o que o paciente tem a dizer e sorriem.

“O médico cubano é melhor, ele dá atenção a gente, pergunta, fica ouvindo, o explica o o que gente deve fazer, orienta os exames. Eu achei melhor do que os outros, já fui atendido por vários médicos.

Os outros médicos não falavam, nem olhavam para a gente, não dava atenção, só escrevia no papel. O médico cubano ouve a gente, fala, sorri. Foi melhor, eu adorei”, falou Maria Aparecida.

A estudante do curso de Administração na Universidade Estadual do Piauí (Uespi) Laiana Moreira, de 25 anos, faz acompanhamento e controle de sua diabetes no Posto de Saúde no bairro Caixa D´Água, em Piripiri, e é atendida por médico cubano do Programa Mais Médico.

“O tratamento é mais adequado, o médico cubano dá atenção, avalia o nível de glicemia (taxa de açúcar no sangue), faz exames. A diferença entre os médicos cubanos e os outros é grande.

Eles são mais atenciosos. Dão mais atenção, perguntam o que a gente está sentindo, já os outros não, só passam os exames. Os médicos cubanos perguntam antes de pedir e autorizar os exames”, fala Laiana Moreira.








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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Uma sociedade conectada...


Por que a Globo vai acabar



“De receptores passivos, os cidadãos estão passando a ser, mediante o uso massivo das redes sociais, “produtores-difusores”, ou produtores-consumidores (prosumers)”


Conversa Afiada








O Conversa Afiada reproduz artigo de Ignácio Ramonet(*), extraído da Carta Maior:



O FIM DA TELEVISÃO COMO A CONHECEMOS



A TV virará apenas uma tela de conforto, simples extensão das grandes empresas americanas da web, que detêm cada vez mais informações sobre seus usuários.



A televisão continua mudando rapidamente. Essencialmente, pelas novas práticas de acesso aos conteúdos audiovisuais que observamos sobretudo entre as gerações jovens. Todos os estudos realizados sobre as novas práticas de uso da televisão nos EUA e na Europa indicam uma mudança acelerada. Os jovens telespectadores passam do consumo “linear” da TV para um consumo de programas gravados e “à la carte” em uma “segunda tela” (computador, tablet, smartphone). De receptores passivos, os cidadãos estão passando a ser, mediante o uso massivo das redes sociais, “produtores-difusores”, ou produtores-consumidores (prosumers).

Nos primeiros anos da televisão, o comportamento tradicional do telespectador era olhar os programas diretamente na tela de seu televisor da sala, mantendo-se frequentemente fiel a um mesmo (e quase único) canal. Com o tempo, tudo isso mudou. E chegou a era digital. Na televisão analógica, já não cabiam mais canais e não existia a possibilidade física para acrescentar novos, pois um bloco de frequência de seis mega-hertz equivale a um só sinal, um só canal. Mas, com a digitalização, o espectro radioelétrico se fraciona e se otimiza. A cada frequência de 6 MHz, em vez de um só canal, podem-se transmitir até seis ou oito canais, e dessa forma se multiplica a quantidade de canais. Onde antes havia sete, oito ou dez canais agora existem cinquenta, sessenta, setenta ou centenas de canais digitais…

Essa explosão do número de canais disponíveis, particularmente por cabo e satélite, tornou obsoleta a fidelidade do telespectador a um canal de preferência e suprimiu a linearidade. Como consequência, abandonou-se a fórmula do menu único para consumir pratos à la carte, simplesmente zapeando com o controle remoto entre a multiplicidade de canais.

A invenção da web – há 25 anos – favoreceu o desenvolvimento da internet e o surgimento do que chamamos de “sociedade conectada” mediante todo tipo de links, desde o correio eletrônico até as diferentes redes sociais (Facebook, Twitter, etc.) e mensagens de texto e imagem (WhatsApp, Instagram etc.). A multiplicação das novas telas, agora nômades (computadores portáteis, tablets, smartphones) mudou totalmente as regras do jogo.

A televisão está deixando de ser progressivamente uma ferramenta de massas para se transformar em um meio de comunicação consumido individualmente através de diversas plataformas, de forma posterior e personalizada.

Essa forma de ver programas gravados se alimenta em particular dos sites de replay dos próprios canais de televisão, que permitem, via internet, um acesso não linear aos programas. Estamos presenciando o surgimento de um público que conhece os programas e as emissões, mas não conhece obrigatoriamente a grade de programação e nem sequer o canal de difusão ao qual esses programas originalmente pertencem.

A essa oferta, já muito abundante, se somam agora os canais online da Galáxia da Internet. Por exemplo, as dezenas de canais difundidos pelo YouTube, ou os sites de vídeos alugados sob demanda. Até o ponto de já não sabermos sequer o que significa a palavra “televisão”. Reed Hastings, diretor da Netflix, o gigante norte-americano de vídeos online (com mais de 50 milhões de assinantes), declarou recentemente que “a televisão linear terá desaparecido em vinte anos porque todos os programas estarão disponíveis na internet”. É possível, mas não é certo.

Os próprios televisores também estão desaparecendo. Nos aviões da companhia aérea American Airlines, por exemplo, os passageiros da classe executiva já não dispõem de telas de televisão, nem individuais nem coletivas. Agora, cada passageiro recebe um tablet para que ele mesmo faça seu próprio programa e se instale com o dispositivo da forma como achar melhor (encostado, por exemplo). Na Norvegian Air Shuttle, se vai ainda mais longe. Não existem telas de televisão no avião, nem tampouco entregam tablets, mas o avião tem internet wifi e a empresa parte do princípio que cada passageiro leva uma tela (um computador portátil, ou tablet, ou smartphone) e que basta com que se conecte ao site da Norvegian para ver filmes, séries, programas de TV ou ler jornais (que já não são mais partilhados…).

Jeffrey Cole, professor norte-americano da UCLA, especialista em internet e redes sociais, confirma que a televisão será vista cada vez mais pela Rede. “Na sociedade conectada, a televisão sobreviverá, mas diminuirá seu protagonismo social, ao passo que as indústrias cinematográfica e musical poderiam se desvanecer”, diz.

No entanto, Jeffrey Cole é muito mais otimista do que o diretor da Netflix pois afirma que, nos próximos anos, a média de tempo dedicada à televisão passará de entre 16 a 18 horas semanais atualmente para até 60 horas, dado que a televisão, segundo Cole, “vai saindo das casas” e poderá ser vista “a todo momento” graças a qualquer dispositivo com tela, apenas se conectando à internet ou mediante a nova telefonia 5G.

Também é preciso contar com a competência das redes sociais. Segundo o último relatório do Facebook, quase 30% dos adultos norte-americanos se informam por meio do Facebook e 20% do tráfego das notícias provêm dessa rede social. Mark Zuckerberg afirmou há alguns dias que o futuro do Facebook será em vídeo: “Há cinco anos, a maior parte do conteúdo do Facebook era texto. Agora, evolui para o vídeo porque é cada vez mais fácil gravar e compartilhar”.

Por sua vez, o Twitter também está mudando de estratégia: está passando do texto ao vídeo. Em um recente encontro com os analistas de Wall Street, Dick Costolo, conselheiro do Twitter, revelou os planos do futuro próximo dessa rede social: “2015 será o ano do vídeo no Twitter”. Para os usuários mais antigos, isso tem o sabor de traição. Mas, segundo Costolo, o texto, sua essência, os célebres 140 caracteres iniciais, está perdendo importância. E o Twitter quer ser o ganhador na guerra do vídeo dos telefones portáteis.

Segundo os planos da direção do Twitter, podem-se subir vídeos do smartphone para a rede social a partir de agora, início de 2015. Passará dos escassos seis segundos atuais (possibilitados pelo aplicativo Vine) até acrescentar um vídeo tão logo quanto possível diretamente na mensagem.

O Google também quer agora difundir conteúdos visuais destinados a sua gigantesca clientela de mais de 1,3 bilhões de usuários que consomem cerca de seis bilhões de horas de vídeo por mês… Por isso, comprou o YouTube. Com mais de 130 milhões de visitantes únicos por mês nos Estados Unidos, o YouTube tem uma audiência superior à do Yahoo!. Nos EUA, os 25 principais canais online do YouTube têm mais de um milhão de visitantes únicos por semana. O YouTube capta mais jovens entre 18 e 34 anos do que qualquer outro canal norte-americano de televisão a cabo.

A aposta do Google é que o vídeo na internet vai pouco a pouco acabar com a televisão. John Farrell, diretor do YouTube na América do Sul, prevê que 75% dos conteúdos audiovisuais serão consumidos via internet em 2020.

No Canadá, por exemplo, o vídeo na internet já está a ponto de substituir a televisão como meio de consumo massivo. Segundo um estudo do instituto de pesquisa Ipsos Reid and M Consulting, “80% dos canadenses reconhecem que, cada vez mais, veem mais vídeos online na rede”, o que significa que, com tal massa crítica (80%!), aproxima-se o momento em que os canadenses verão mais vídeos e programas online do que na televisão.

Todas essas mudanças são percebidas claramente não apenas nos países ricos e desenvolvidos. Também são vistas na América Latina. Por exemplo, os resultados de um estudo realizado pela pesquisadora mexicana Ana Cristina Covarrubias (diretora da empresa Pulso Mercadológico) confirmam que a rede e o ciberespaço estão mudando aceleradamente os modelos de uso dos meios de comunicação no México – em particular, da televisão. A pesquisa trata exclusivamente dos habitantes do Distrito Federal do México e abrange grupos precisos da população: 1) jovens de 15 a 19 anos; 2) a geração anterior, pais de família entre 35 e 55 anos de idade com filhos de 15 a 19 anos. Os resultados revelam as seguintes tendências: 1) tanto no grupo dos jovens como na geração anterior, as novas tecnologias penetraram em grandes proporções: 77% possuem telefone móvel, 74% possuem computador e 21%, tablet, e 80% têm acesso à internet. 2) O uso da televisão aberta e gratuita está caindo e se situa apenas em 69%, ao passo que o da televisão paga está subindo e já alcança os 50%. 3) Por outro lado, aproximadamente a metade dos jovens que assistem televisão (29%) usam o televisor como tela para ver filmes que não estão na programação de TV: assistem DVD/Blu-ray ou Internet/Netflix. 4) O tempo de uso diário do telefone móvel é o mais alto de todos os aparelhos digitais de comunicação. O celular registra 3 horas e 45 minutos. O computador tem um tempo de uso diário de 2 horas e 16 minutos, e o tablet de 1 hora e 25 minutos; e a televisão de apenas 2 horas e 17 minutos. 5) O tempo de visita a redes sociais é de 138 minutos diários para Facebook e 137 para WhatsApp; para a televisão, é de apenas 133 minutos. Se somarmos todos os tempos de visitas a redes sociais, o tempo de exposição diária à internet é de 480 minutos, o equivalente a 8 horas diárias, ao passo que o da televisão é de apenas 133 minutos, equivalentes a 2 horas e 13 minutos. A tendência indica claramente que o tempo dedicado à televisão foi rebaixado amplamente pelo tempo dedicado às redes sociais.

A era digital e a sociedade conectada já são, portanto, realidades para vários grupos sociais na Cidade do México. E uma de suas principais consequências é o declínio da atração pela televisão, especialmente a de sinal aberto, como resultados do acesso aos novos formatos de comunicação e aos conteúdos oferecidos pelos meios digitais. O grande monopólio do entretenimento que era a televisão aberta está deixando de sê-lo para ceder espaço aos meios digitais. Quando antes um cantor popular poderia ser visto por vários milhões de telespectadores (cerca de 20 milhões na Espanha) em um programa de sábado à noite, por exemplo, agora esse mesmo cantor precisa passar por 20 canais diferentes para ser visto por cerca de 1 milhão de telespectadores.

De agora em diante, o televisor estará cada vez mais conectado à internet (é o caso da França, para 47% dos jovens entre 15 e 24 anos). O televisor se reduz a uma mera tela grande de conforto, simples extensão da web que procura os programas no ciberespaço e na Cloud (“Nuvem”). Os únicos momentos massivos de audiência ao vivo, de “sincronização social” que continuam reunindo milhões de telespectadores, serão então os noticiários em caso de atualidade nacional ou internacional de caráter espetacular (eleições, catástrofes, atentados etc.), os grandes eventos esportivos ou as finais de jogos do tipo reality show.

Tudo isso não é apenas uma mudança tecnológica. Não é só uma técnica, a digital, que substitui a outra, a analógica, ou a internet que substitui a televisão. Isso tem implicações de muitas ordens. Algumas positivas: as redes sociais, por exemplo, favorecem o intercâmbio rápido de informação, ajudam a organização dos movimentos sociais, permitem a verificação da informação, como é o caso do WikiLeaks… não restam dúvidas de que os aspectos positivos são numerosos e importantes.

Mas também é preciso considerar que o fato de a internet estar tomando o poder nas comunicações de massas significa que as grandes empresas da Galáxia da Internet – ou seja, Google, Facebook, Facebook, YouTube, Twitter, Yahoo!, Apple, Amazon etc.–, todas elas norte-americanas (o que já constitui um problema em si mesmo…), estão dominando a informação planetária. Marshall McLuhan dizia que “o meio é a mensagem”, e a questão que se coloca agora é: qual é o meio? Quando vejo um programa de TV na web, qual é o meio? A televisão ou a internet? E, em função disso, qual é a mensagem?

Sobretudo, conforme revelou Edward Snowden e como afirma Julian Assange em seu novo livro “Quando Google encontrou o WikiLeaks”, todas essas megaempresas acumulam informações sobre cada um de nós a cada vez que utilizamos a rede. Informações que são comercializadas, vendidas a outras empresas. Ou também cedidas às agências de inteligência dos EUA, em particular a Agência Nacional de Segurança, a temida NSA. Não nos esqueçamos de que uma sociedade conectada é uma sociedade vigiada, e uma sociedade vigiada é uma sociedade controlada.



*jornalista espanhol. Presidente do Conselho de Administração e diretor de redação do “Le Monde Diplomatique” em espanhol. Editorial Nº: 231. Janeiro de 2015.