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domingo, 6 de março de 2016

Sim, acredito nele - 57%

Vox Populi: Moro e Globo tomam uma surra
Lula é inocente !




Conversa Afiada



publicado 05/03/2016



O Conversa Afiada publica informações de pesquisa Vox Populi:

Resultado com 15 mil questionários válidos:

1) Qual o seu sentimento em relação ao fato de que o ex-presidente Lula foi incluído na investigação da Lava Jato?

Gostei, eu aprovo - 41%

Não gostei, não aprovo - 56%

Não sei responder - 3%


2) Qual a avaliação que você faz do trabalho do juiz Moro nesse processo da Lava Jato? 

Aprovo, ele está fazendo um excelente trabalho - 34%

Aprovo, mas ele tem exagerado em algumas medidas - 22%

Desaprovo - 43%

Não sei responder - 1%


3) Com qual das frases você se identifica mais?

Não vejo problema algum na forma como foi feita a condução do Lula para depor na Polícia Federal - 34%

ou

Achei um exagero a forma como o ex-presidente Lula foi levado a depor pelos agentes da Polícia Federal - 65%

Não sei responder - 1%


4)Você acredita na inocência do ex-presidente Lula? 

Sim, acredito nele - 57%

Nao, ele é culpado - 34%

Não sei responder - 8%


5) Depois que o ex-presidente depôs na Policia Federal ele concedeu uma entrevista coletiva na sede do PT em São Paulo que foi transmitida pela televisão. Você assistiu à entrevista dele? 

Sim, assisti tudo - 63%

Sim, assisti partes da entrevista - 25%

Não, mas fiquei sabendo - 11%

Não, estou sabendo disso agora - 1%





registrado em:

domingo, 22 de março de 2015

Se sabia e saiu com ele na Avenida Paulista... é igual o vovô metralha


“Vovô Metralha” matava jovens a sangue-frio, sabiam, meninos revoltados?


 
Tijolaço


Fernando Brito





Meu bom companheiro Fernando Molica, colunista de O Dia, publicou ontem, em seu blog, um excelente artigo sobre o vídeo que havíamosmostrado aqui, feito pelos jornalistas da revista Trip na manifestação da Avenida Paulista de domingo.

Rerproduzo o artigo ao final, mas peço licença a Molica para trazer logo para o início a ficha do aparentemente inofensivo “Carlinhos Metralha” louvado pelos manifestante e digno até de uma esdrúxula continência por parte de um policial militar.

Carlos Alberto Augusto, vulgo ‘Carteira Preta’ e ‘Carlinhos Metralha’, o ex-delegado do Dops que discursou na manifestação, levou para a Avenida Paulista um cartaz em que dizia querer ser ouvido pela Comissão da Verdade. Pena que só diz isso agora, quando os trabalhos da comissão foram encerrados. O relatório diz que ele foi convocado a depor, mas não foi localizado. Na hora de prestar contas à história, ele tratou de não aparecer. Segue trecho do relatório sobre ele:

Carlos Alberto Augusto (1944-) Delegado de polícia. Serviu no Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (DOPS/SP), sendo conhecido como “Carteira Preta” e “Carlinhos Metralha”. Integrou a equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Teve participação em casos de detenção ilegal, tortura e execução. Convocado para prestar depoimento à CNV, não foi localizado. Vítimas relacionadas: Carlos Marighella (1969); Eduardo Collen Leite (1970); Antônio Pinheiro Salles e Devanir José de Carvalho (1971); Soledad Barrett Viedma, Pauline Reichstul, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva, Eudaldo Gomes, Evaldo Luiz Ferreira de Souza e Edgard de Aquino Duarte (1973).

A Pauline Reichstul, apontada no relatório como uma das vítimas do ‘Carlinhos Metralha’, era irmã de Henri Philippe Reichstul, presidente da Petrobras no governo Fernando Henrique Cardoso.

Retomo: Carlinhos Metralha era um dos agentes do DOPS que “administrava” as delações do famigerado Cabo Anselmo. Pauline e outros cinco jovens foram executados não na “Paulista”, mas em Paulista, Pernambuco, no que ficou conhecido como “A Chacina da Chácara São Bento”.

Pauline recebeu uma coronhada na cabeça. Os outros cinco, executados a tiros.

26 tiros, relata o jornalista pernambucano Luiz Felipe Campos, que escreveu um livro sobre o episódio: “14 na cabeça e muitos à queima-roupa. Ao cenário brutal, foram adicionadas armas ao redor dos corpos para sugerir um confronto entre guerrilheiros e militares que nunca houve. As fotos, difundindo a versão oficial de que um “congresso de terroristas” havia sido desbaratado, foi estampada nos jornais três dias depois”.

Já mortos, metralhados.

“Com muito prazer”, talvez, como disse no vídeo o “herói da Paulista”.



O ato, os golpistas e o torturador


Fernando Molica


O vídeo sobre a manifestação paulistana que foi preparado por equipe da revista ‘Trip’ é assustador demais. Não dá para achar razoável ou tolerável que organizadores de ato que diz defender a democracia aceitem a presença de entusiastas de um golpe militar e até liberem o microfone para um ex-torturador, o delegado aposentado Carlos Alberto Augusto. Admitir a participação desses sujeitos seria o mesmo que aceitar a presença de nazistas numa passeata contra a política externa de Israel. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

É razoável imaginar que organizadores da manifestação tomassem a iniciativa de expulsar do ato um grupo de petistas que fosse até lá para condenar a roubalheira na Petrobras e, ao mesmo tempo, defender Dilma Rousseff. Não seria absurdo que eles fossem convidados a se retirar de uma passeata que protesta contra o governo. A eventual presença deles poderia até ser vista como provocação.

O problema é que, pelo que vi e li sobre as manifestações de domingo, não houve qualquer tentativa de expulsão dos pregadores do golpe (o vídeo até mostra mulheres que se revoltaram com a histeria militarista, mas, pelo visto, não passou de um protesto isolado).

É simples, ato que inclui defensores da ditadura, torturadores (havia pelo menos um) e pessoas que não admitem a pluralidade (caso dos que revelam intolerância com comunistas e integrantes de outras correntes de esquerda) não pode ser chamado de democrático. Mais: quem defende a ditadura não tem o direito de dizer que é contra a corrupção. Afinal, na ditadura, casos de corrupção eram censurados ou não geravam qualquer consequência – como as mordomias no escalão federal reveladas pelo ‘Estadão’ e a negociata, publicada pela ‘Folha’, que envolveu o grupo Delfin e o Banco Nacional da Habitação (terrenos no valor de Cr$ 10 bilhões quitaram uma dívida de Cr$ 60 bi junto ao BNH). Quem defende a ditadura defende o direito de quem quer roubar sem ser punido.

Vale também ressaltar o absurdo que foi utilizar a belíssima ‘Canção do Expedicionário’ como trilha sonora da manifestação, isto representou uma ofensa aos pracinhas que foram combater ditaduras na Europa. Um combate que, aqui, acabou provocando a queda de um ditador. A ‘Canção’ (“Por mais terras que eu percorra/ Não permita Deus que eu morra/Sem que volte para lá”) é linda, deve ser o único canto de guerra que não fala em destruição, em morte, mas da vitória e da saudade da pátria amada:


Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Dos pampas, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.


Por último, vale registrar: o Carlos Alberto Augusto, vulgo ‘Carteira Preta’ e ‘Carlinhos Metralha’, o ex-delegado do Dops que discursou na manifestação, levou para a Avenida Paulista um cartaz em que dizia querer ser ouvido pela Comissão da Verdade. Pena que só diz isso agora, quando os trabalhos da comissão foram encerrados. O relatório diz que ele foi convocado a depor, mas não foi localizado. Na hora de prestar contas à história, ele tratou de não aparecer. Segue trecho do relatório sobre ele:

Carlos Alberto Augusto (1944-) Delegado de polícia. Serviu no Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (DOPS/SP), sendo conhecido como “Carteira Preta” e “Carlinhos Metralha”. Integrou a equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Teve participação em casos de detenção ilegal, tortura e execução. Convocado para prestar depoimento à CNV, não foi localizado. Vítimas relacionadas: Carlos Marighella (1969); Eduardo Collen Leite (1970); Antônio Pinheiro Salles e Devanir José de Carvalho (1971); Soledad Barrett Viedma, Pauline Reichstul, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva, Eudaldo Gomes, Evaldo Luiz Ferreira de Souza e Edgard de Aquino Duarte (1973).

A Pauline Reichstul, apontada no relatório como uma das vítimas do ‘Carlinhos Metralha’, era irmã de Henri Philippe Reichstul, presidente da Petrobras no governo Fernando Henrique Cardoso.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

domingo, 27 de abril de 2014

ocê credita em coincidência? eitaeitão


O torturador Malhães e as coincidências da morte

27 de abril de 2014


A vida é mesmo cheia de coincidências. No passado recente, muitos inimigos da ditadura militar brasileira morreram providencialmente do coração. Até o presidente João Goulart foi vítima de um infarto do miocárdio.

A moda ainda não acabou. O coronel torturador Paulo Malhães deu com a língua dentes, revelou os mais sórdidos segredos da tortura do regime militar e, um mês depois, coincidentemente, apareceu de bico calado para sempre.

Causa da morte: infarto.

Um providencial grupo de assaltantes invadiu o sítio do carrasco, deu-lhe um calor e ele apagou. A mulher da vítima conta que os assaltantes recebiam ordem por telefone para matá-lo, como se fosse uma encomenda ou uma missão.

Pura coincidência.

Malhães sabia demais e andava abrindo o coração. Um homem assim é uma bomba-relógio. Pode explodir a qualquer momento. Quem sabe demais, por ter servido ao pior, fica melhor de boca fechada para a eternidade. Mas é claro que falar em queima de arquivo é apenas uma hipótese. Já se fala também que seria vingança da família de algum torturado por ele.

Só há uma verdade nisso tudo: o homem que sabia demais nunca mais fará depoimento em comissões da verdade.

Acabou-se.

Quantos não estarão aliviados?

sábado, 5 de abril de 2014

A clareza do homem histórico

50 anos do golpe
Almino Affonso dá palmadas em Villa e Cantanhêde por travessuras no Roda Viva


publicada sexta-feira, 04/04/2014 às 21:14 e atualizada sexta-feira, 04/04/2014 às 21:41


Escrevinhador





Leia outros textos de Plenos Poderes

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Malas e dólares que não cabiam em cuecas!


João Vicente Goulart: Washington estava disposta a dividir o Brasil

Viomundo

publicado em 31 de março de 2014 às 23:46




 Acima, reportagem do Jornal da Record do 31.03.2014





João Vicente, ao lado do pai e da irmã, nos anos 60

por Luiz Carlos Azenha

Cinquenta anos depois do golpe de 1964, ainda há muitas vozes a ouvir, documentos a obter e avaliar e tramas a desenrolar.

Da direita midiática podemos esperar, sempre, muita fumaça. Por que? Porque ela, que se diz encarregada de informar a sociedade brasileira pairando nas nuvens da neutralidade, participou tanto da conspiração quanto do golpe — ou financiando, ou dando voz àqueles que derrubaram um presidente constitucional.

João Vicente Goulart, o filho do líder deposto, é hoje um homem de 57 anos de idade. Tinha, portanto, apenas 7 quando tudo aconteceu. Porém, talvez ninguém no Brasil tenha se preocupado tanto em entender a trama quanto ele, em nome da memória do pai.

Hoje João Vicente está convicto de que o pai poderia sair candidato nas eleições de 1965 e tinha forças políticas para fazê-lo. Ia enfrentar dois candidatos muito fortes, especialmente o ex-presidente Juscelino Kubistchek, mas também o direitista Carlos Lacerda. Enquanto este foi golpista desde sempre, JK pairou sobre o muro, da mesma forma que Eduardo Frei fez no Chile antes do pinochetazo que matou Salvador Allende. Tudo por oportunismo político.

Porém, pesquisas da época demonstram que tanto Jango quanto sua política econômica quanto as reformas de base propostas por ele tinham alguma sustentação popular.

A direita brasileira, quando fala de 64, também costuma descartar a importância do apoio dado pelos Estados Unidos, alegando que afinal os norte-americanos nem precisaram intervir militarmente. O fato, porém, é que os golpistas só agiram como agiram por terem plena consciência de que contariam com o eventual apoio dos Estados Unidos.

Agora sabe-se que desde 1962 o presidente John Kennedy perguntava ao embaixador dos Estados Unidos no Rio, Lincoln Gordon, sobre possíveis ações contra Goulart. Fez isso, inclusive, em conversa gravada na Casa Branca.

Quem conhece a política dos Estados Unidos tanto quanto conheço, com 20 anos de experiência jornalística por lá, sabe que o grande fantasma de qualquer líder norte-americano, de qualquer partido, é ser visto como “fraco” em política externa.

George Bush, o pai, sofria do chamado “wimp factor” até autorizar a invasão do Panamá, mas nem isso nem a primeira guerra contra o Iraque foram suficientes para garantir a ele um segundo mandato — por causa do estado da economia, perdeu de Bill Clinton.

Harry Truman “perdeu” a China durante seu segundo mandato, mas não tinha nada a provar a ninguém àquela altura: tinha jogado bombas atômicas no Japão sob a alegação de que com isso o fim da Segunda Guerra, no Pacífico, seria acelerada.

Porém, justamente por ter “perdido” a China, não titubeou um segundo sequer na Coreia: despachou tropas norte-americanas para a Península sob a cobertura de uma força internacional da ONU.

A pressão sobre John Kennedy, quando este assumiu a Casa Branca, era enorme. Os generais queriam escalar a guerra no Vietnã — o que o substituto dele, Lyndon Johnson, faria –, mas Kennedy relutou. O fato de que não autorizou cobertura aérea dos Estados Unidos à má sucedida invasão da baía dos Porcos, em Cuba, custou a Kennedy ódio entre alguns falcões do Pentágono.

Perder o Brasil, para Kennedy, seria o mesmo que perder a China. Só que o Brasil ficava no que os norte-americanos viam como seu quintal.

É preciso olhar desta perpectiva para entender o engajamento dos Estados Unidos no golpe de 64, de forma aberta e encoberta.

É preciso entender que a cadeia de comando da Casa Branca sobre o Pentágono, indiscutível em público, é tênue nos bastidores. Oliver Stone, em seu documentário Untold History of the United States, chega a dizer que Kennedy sugeriu que corria o risco de tomar um golpe. Acabou assassinado.

Ninguém sabe exatamente o que aprontou Vernon Walters quando era adido militar da embaixada dos Estados Unidos no Rio, no mesmo período.

Walters era homem de inteligência. Foi o contato dos militares dos Estados Unidos com Castello Branco quando este serviu à Força Expedicionária Brasileira na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, sob comando do exército norte-americano.

Estive com Walters em Bonn, então capital da Alemanha Ocidental, quando ele era embaixador dos Estados Unidos no país. Gravamos sobre a FEB. O então diplomata fez muitos elogios a Castelo e contou causos sobre nossos pracinhas, que chegaram despreparados para o inverno europeu. Walters emprestou a eles os agasalhos usados pelos gringos.

Porém, quando tentei conversar sobre o golpe de 64, Walters calou-se. Falou generalidades. É óbvio que nunca admitiu que foi ele, Walters, quem intermediou a benção dos Estados Unidos a Castelo, “confiável” aos olhos de Washington.

Estou certo de que o nome de Walters se esconde nos documentos sobre o golpe já divulgados nos Estados Unidos (alguns dados são encobertos por tinta preta, por motivos de segurança).

É lógico que enquanto Gordon, o embaixador, cuidava do trânsito entre os civis, publicamente, Walters trabalhava os bastidores, em segredo.

Dinheiro sempre foi uma arma poderosa e é certo que, se um dos dois trabalhou pelo trânsito de dólares, foi o homem da espionagem.

Se alguma dúvida havia sobre a mudança do alinhamento internacional do Brasil depois do golpe, ela foi desfeita em 1965. O país de Jânio Quadros, que havia condecorado Che Guevara, ou de João Goulart, que visitara a China, mandou soldados brasileiros para apoiar os fuzileiros navais dos Estados Unidos que invadiram a República Dominicana. Foi para combater a reforma agrária e a nacionalização de empresas estrangeiras!

Do ponto-de-vista de Washington, valeu ou não a pena ter investido no golpe?

Leia também:

Golpe de 64 e a imprensa: 50 anos depois, a manipulação continua

terça-feira, 1 de abril de 2014

'Militares pela Democracia'

Silvio Tendler



Estreou ontem, 31/03/2014, o documentário inédito, em cinco episódios, conta com fatos documentais e narrativa de militares que resistiram à Ditadura e será exibido de ontem a sexta-feira, às 23h30 (hora de Brasília)










quinta-feira, 27 de março de 2014

contar esta história construindo algo em seu lugar


A ditadura se foi, a palavra ficou

Blog do Miro

Por Virgínia Barros, no sítio Vermelho:

Não há como lutar no movimento estudantil, em 2014, sem lembrar aquele incêndio da madrugada de 1º de abril de 1964 na sede da União Nacional dos Estudantes, na Praia do Flamengo, e principalmente aqueles que sobreviveram e não se abalaram. A ditadura não queria queimar somente a sede da UNE, e, sim, o espírito transformador dos estudantes brasileiros há exatamente 50 anos, o Brasil era empurrado para um dos momentos mais sombrios de sua história.

Com a violência de uma ação militar obscura, construída e apoiada por setores conservadores e poderosos da sociedade civil, a democracia foi ao chão, deixando a vitória parcial da incerteza, da irracionalidade, da exceção. O ano de 1964 tornou-se o marco de um golpe, um ataque, a punhalada que criou uma ferida profunda, com cicatrizes ainda visíveis. Há 50 anos o sol se escondia e a clareza perdia a batalha para a longa noite da nossa ditadura militar, o evento mais fatal da história brasileira durante o século 20.

Sem dúvida, a juventude foi a principal atingida por esse evento histórico, que escolheu os jovens e seus sonhos como a sua maior ameaça, como o inimigo a ser combatido, aniquilado. A grande evidência dessa escolha está na primeira ação organizada desse grupo, logo assim que roubou o poder, naquela fatídica noite entre o dia 31 de março e 1º de abril: o incêndio e fuzilamento da sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), na Praia do Flamengo, 132, no Rio de Janeiro.

Esse regime, que se estendeu por décadas, terminou há quase 30 anos, com a redemocratização em 1985. Ainda assim, “ditadura” é uma das palavras mais recorrentes no debate político dos movimentos sociais e da juventude brasileira. A aura daquele tempo de trevas ainda é referência para explicar as mais variadas situações, para efeitos comparativos diversos, para justificar uma série de lutas da sociedade organizada, para explicitar, didaticamente, o que não queremos repetir. Há 50 anos começava a ditadura militar e, há 29, ela cessava. A ditadura se foi, mas a palavra ficou. Por quê?

Nos últimos anos, cresceu no Brasil o movimento pela apuração lúcida e justa dos crimes e violações de direitos dessa época, principalmente com a criação das comissões da verdade. Esse foi o resultado da pressão popular e de entidades, como a UNE, ao longo de muitos anos, pela abertura dos arquivos do regime e pelo esclarecimento de tudo o que aconteceu sob a égide de um Estado opaco e violento. Apesar da chamada Lei de Anistia, promulgada ainda durante o período militar, e das iniciativas de reparação simbólica do Estado às vidas e aos direitos retirados, falta ainda vencer a escuridão daqueles anos, trazer a verdade à tona, investigar, retirar as máscaras e as trancas, apesar da estridência inútil daqueles que apoiaram e participaram da barbárie.

A necessidade de prosseguir investigando e esclarecendo o que houve na ditadura civil-militar é uma das justificativas para que continuemos, sim, falando bastante dela. Além de representar um marco de reafirmação da democracia e da justiça, o movimento de abertura dos arquivos do regime e das comissões da verdade traz em si uma espécie de vacina, um dispositivo de segurança para que aquilo não mais aconteça. Sob essa perspectiva, a presença da imagem da ditadura entre nós, 50 anos depois de sua chegada, é como um remédio amargo, porém necessário.

Não há como negar que tal período foi de grande resistência, bravura e sublimação dos jovens e estudantes brasileiros no seu processo de intervenção e construção do Brasil. Ainda que a UNE e a juventude estejam sempre entre os personagens principais da história brasileira, fato observado desde a década de 1930 e a 2ª Guerra Mundial – quando representaram o contraponto aos ideais e a influência nazi-fascista no país –, nem sempre houve uma geração tão marcante e exemplar como aquela que lutou entre 1964 e 1985. Apesar dos ataques, incêndios, torturas, censuras, mortes e outras violências, os estudantes souberam resistir e não desistir dos seus sonhos, mantendo acesa – ainda que sob duras penas – a chama de sua rebeldia e otimismo por dias melhores. Foi esse o espírito que enfraqueceu e derrubou o regime.

Ainda falamos da ditadura hoje, em 2014, porque em nossas lutas há grande inspiração por aqueles e aquelas que estavam lá, a partir de 1964. Cinquenta anos depois, nossa realidade objetiva é outra, mais democrática, com a garantia da livre organização, da expressão e com cada vez mais novos espaços de participação e mobilização. Tenha-se como exemplo a volumosa e importante militância jovem que tem crescido na internet e nas redes sociais, somando-se aos movimentos das ruas. Apesar de não enfrentarmos uma ditadura estabelecida – como aquela –, tentamos pegar emprestado daqueles e daquelas jovens sua retidão, sua convicção inabalável e sua maturidade para se organizarem e fazerem a diferença.

Não há como lutar no movimento estudantil, em 2014, sem lembrar aquele incêndio na Praia do Flamengo, e principalmente aqueles que sobreviveram e não se abalaram. A ditadura não queria queimar somente a sede da UNE, e, sim, o espírito transformador dos estudantes brasileiros. Ali naquele espaço ensaiava-se o projeto de um novo país – que ainda queremos meio século depois – com igualdade social, integração, fim dos preconceitos, liberdade e amor para transformação da sociedade.

O ataque era direcionado não somente às lideranças políticas da UNE, mas ao conjunto de ideais formado ali por iniciativas como o Centro Popular de Cultura (CPC), que reunia artistas, intelectuais e outros jovens personagens progressistas do Rio de Janeiro e do Brasil, como Ferreira Gullar, Cacá Diegues, Oduvaldo Vianna Filho, Carlos Lyra, Silvio Tendler, Eduardo Coutinho e tantos outros. Destruir a sede da UNE era como destruir a personalidade, a criatividade, o espírito daqueles jovens – mas o fogo e as balas não foram suficientes.

Nos anos seguintes, a UNE foi posta na ilegalidade pela ditadura, ampliando de forma institucional uma violência física já em curso. A perseguição estendia-se a todos os grupos organizados de jovens, a repressão aumentava. Ainda assim, no ano de 1966, o movimento estudantil estava mobilizado e preparado, a ponto de realizar um ousado Congresso da UNE na cidade de Belo Horizonte, de forma clandestina. O encontro aconteceu nos porões de uma igreja, com a eleição de José Luis Guedes para a presidência da entidade.

A partir dali, a luta cresceu e os estudantes esboçaram sua primeira grande resposta ao regime. Movimentos se organizavam por todo o país, manifestações eram frequentes e a juventude estava nas ruas, principalmente contra o acordo MEC-USAID, que tinha como objetivo implementar uma reforma conservadora no ensino brasileiro, atendendo aos interesses dos EUA. Ainda hoje traços dessa reforma permanecem na cultura pedagógica brasileira. Foi exatamente nesse cenário, no ano de 1968, em um protesto estudantil na cidade do Rio de Janeiro, que o jovem Édson Luís perdeu sua vida e tornou-se símbolo para a vida de muitos outros. Édson foi baleado por um soldado durante as manifestações contra o aumento no preço da refeição de um restaurante estudantil. Seu corpo foi levado pelas ruas do Rio por colegas que entoavam: “Mataram um estudante, podia ser seu filho”.

A enorme comoção em torno da morte de Édson Luís levou multidões a protestarem. A maior e mais conhecida resposta ao assassinato do jovem foi a Passeata dos Cem Mil, que reuniu esse surpreendente número de pessoas na capital fluminense, incluindo artistas, escritores, jornalistas e formadores de opinião diversos. Com inteligência e ousadia, os estudantes continuaram se organizando durante esse período.

Dessa forma, foi realizado, de maneira ainda mais clandestina, outro Congresso da UNE, na cidade de Ibiúna (SP), no mesmo ano de 1968. Com extrema articulação e capacidade, o movimento estudantil buscava formas de manter-se vivo, já sabendo que era um dos poucos grupos da sociedade capaz de resistir à ditadura. Apesar de todo o esforço, o congresso terminou com a invasão do Exército e todos os estudantes presos.

Na sequência desses episódios, a ditadura apertaria mais ainda suas mãos de ferro, com a promulgação do Ato Institucional nº 5, no ano de 1968, decretando abertamente o fim das liberdades individuais e dando início ao período de maior terror do regime – e talvez de todo o século 20 no Brasil. Foi o momento de maior açoite e truculência em direção à juventude brasileira, com sequências de torturas, assassinatos e outros crimes do Estado, por baixo dos tétricos e inescrupulosos panos de propaganda que pintavam um país em progresso. O sangue de jovens como Bergson Gurjão, Helenira Resende, Alexandre Vanucchi Leme, Fernando Santa Cruz e tantos outros manchou a outra face desse tecido.

Entre esses, Honestino Guimarães, eleito vice-presidente da UNE durante o Congresso de Ibiúna, assumindo depois a presidência interina da entidade a partir da prisão de Jean Marc van der Weid. Em setembro de 1971 foi reconduzido à presidência da UNE no 31º Congresso, realizado clandestinamente na baixada fluminense. No dia 10 de outubro de 1973, Honestino foi sequestrado no Rio de Janeiro por agentes do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), tornando-se um dos desaparecidos políticos do país. Sua sensibilidade política é até hoje maior inspiração para o movimento estudantil.

Ainda assim, a certeza e a esperança dos bons os mantiveram no caminho. Mesmo perseguidos pela máquina bestial e covarde em seu encalço, a juventude resistiu durante aquela década de 1970, a ponto de conseguir a reconstrução da UNE em 1979, no histórico congresso da entidade em Salvador. Em clima tenso e incerto, cercados pelas forças de repressão, enfrentando dificuldades de toda sorte, milhares de estudantes reconduziram uma parte importante da história para os trilhos. Eles ainda veriam, com grande tristeza, a ditadura já enfraquecida derrubar o prédio da sede da UNE na Praia do Flamengo, no início dos anos 1980.

Porém, motivados pela própria história, inspirados em si mesmos e naqueles que foram derrubados no percurso, aquela geração do final da ditadura foi capaz de marcar presença fundamental no processo das Diretas Já, no ano de 1984. O espírito dessa juventude manteve-se forte o suficiente para, quase dez anos depois, outra geração tomar as ruas e ocupar a linha de frente nos rumos da nação, durante a campanha do Fora Collor, em 1992. A partir de então, uma série de lutas continuou a brotar e a se multiplicar, como em uma reação em cadeia: a defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, o combate às privatizações, a reforma universitária.

Com 29 anos de reabertura política e 25 anos de governos nacionais democraticamente eleitos, o legado daqueles que enfrentaram a ditadura militar continua sendo um norte. Não é mais necessário dispor da própria vida ou enfrentar violentamente nenhum regime, mas é preciso – como foi para aquela geração – ter certeza e vontade inabaláveis para transformar o país, deixando também a nossa contribuição para os próximos. Além disso, é também válido relembrar a ditadura e os jovens que a derrubaram para buscar sabedoria no combate às suas tristes heranças.

Se é verdade que as torturas e prisões políticas diminuíram verticalmente, é também certo que torturadores, em quase todas as prisões ou delegacias do país, cometem tal crime contra a população pobre, vulnerável e, na maior parte das vezes, jovem e negra.

Se há como dizer que a liberdade de imprensa e de expressão foi revitalizada com o fim do regime, não há como escapar do fato de que, assim como na ditadura, pouquíssimos grupos econômicos e famílias detêm o monopólio das comunicações, ainda que boa parte dos veículos atue a partir de uma concessão pública, mas ainda não-democratizada.

Se é garantido o direito de livre manifestação, não há como conceber e aceitar abusos de uma polícia desnecessariamente militarizada, que na maioria das vezes aposta na truculência contra manifestantes, prendendo inclusive diretores da UNE, como há pouco aconteceu de forma deliberada, injustificada e inaceitável. Vale lembrar que os procedimentos brutais contra as manifestações são ainda muito menores do que aqueles praticados pela polícia militar em vilas, favelas e outras comunidades pobres.

Se a educação libertou-se da tutela controladora de um regime ditatorial, que impunha sua ideologia a qualquer custo – o que incluiu a presença de tanques de guerra em universidades –, é também verdade que a universidade brasileira continua distante de uma organização democrática, com direitos equilibrados e participação igualitária de toda a comunidade acadêmica. A ditadura acabou, mas algumas instituições do país, como a Universidade de São Paulo (USP), mantêm as mesmas regras criadas pelo regime para a eleição de seus reitores e diretores.

Cinquenta anos depois do golpe, a lembrança da ditadura militar dói, mas é necessária para seguirmos resistindo. O país que esperamos ainda está bem além do que temos hoje, apesar de alguns avanços e da nossa vontade transformadora. É inaceitável que nem mesmo as garantias fundamentais e constitucionais da sociedade, principalmente as da educação pública e gratuita de qualidade, sejam possíveis. A luta de hoje segue em inúmeras frentes e encontra muito mais possibilidades e alternativas para atingir os seus objetivos.

No ano em que o golpe completa meio século, nos lembraremos dele, mas também nos lembraremos de muito mais coisas. O ano de 2014 será aquele em que a UNE lutará pela aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), sua pauta mais urgente no Congresso Nacional; pela reforma política no Brasil, com transparência do sistema e o fim do financiamento de empresas a campanhas; pela melhoria nos transportes e o passe livre nas grandes cidades do país; pela criação de novas e mais abrangentes políticas públicas para a juventude, em especial a mais pobre; por mais vagas nas universidades públicas; pela urgente regulamentação do ensino privado e o fim da mercantilização do ensino.

Estamos em 2014, 50 anos depois. É preciso contar esta história para as novas gerações, mas seguir construindo algo em seu lugar. Reforçar a luta contra a repressão e em favor das reformas democráticas irá acelerar a transição ainda inconclusa rumo a uma sociedade verdadeiramente democrática. Varrer os resquícios de autoritarismo que restam em nosso país é tarefa da juventude que segue incansável nas ruas lutando pelo país de nossos sonhos. Estamos, agora, mais próximos deste novo Brasil.

* Virgínia Barros é estudante de Letras da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE)

domingo, 23 de março de 2014

mas a gente não brigou tanto para não ter exército no poder?


Marcha da Família e os 'amigos' do blog


Por Leonardo Sakamoto, em seu blog:

Participei do jubileu de ouro da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, nesta tarde de sábado (22), entre as Praças da República e da Sé, no Centro de São Paulo.

Agradeço, portanto, à organização do ato, pois ele foi histórico. Afinal de contas, nunca imaginei que os brasileiros teriam coragem de fazer isso de novo.

Devo confessar, contudo, que fui guiado não pelo nobre interesse jornalístico, mas sim por uma mórbida curiosidade. Qual seria a outra oportunidade que teria de conhecer a parte barulhenta dos comentaristas deste blog? A parte que acha que sou o demônio e transforma este espaço em algo divertidíssimo. A parte que não acredita em democracia.

Como esse naco social extremamente conservador vai para o céu quando morrer e eu, que não creio, habitarei o limbo pela eternidade, não poderia deixar de ver seus rostos, sentir seu cheiro, ouvir suas ideias, olho no olho, pelo menos uma vez na vida.

Primeiramente, fico feliz que eles – vencendo o preconceito e o medo – tenham saído do armário. Porque, apesar de sempre existirem, suas ideias eram sussurradas no âmbito privado e, portanto, estavam alheias à possibilidade de debate público. Viva, pois, a maldita democracia!

O tamanho da lista de pautas dos manifestantes rivalizava com demandas de sindicatos em greve ou estudantes em paralisação. Pedem ajuda para as FFAA (Forças Armadas) a fim de uma intervenção militar já. Querem Lula e Dilma na cadeia. Suplicam pelo fim da ameaça comunista e /ou socialista no país (antes fosse, gente… se o PT é comunista, eu sou mico de circo). E são contrários ao julgamento de militares por crimes contra os direitos humanos durante a ditadura. Louvaram, ainda, a polícia, criticando as propostas de sua desmilitarização.

Ah, e no carro de som, gritava-se algo como “se o Brasil não é comunista, por que querem a aprovação do Marco Civil da internet?''

Em determinado momento, um grupo que estava à frente da marcha também reivindicou uma parte querida do corpo deste blogueiro, entoando em uníssino: “Ei, Sakamoto, vai tomar no cu!'' Detalhe que havia, entre eles, uma imagem de Nossa Senhora.

Mas não posso me furtar a questionar: com base nas leituras reacionárias do livro sagrado do cristianismo, intepretações usadas para espancar gays, lésbicas, transexuais, pergunto se o pedido que me fizeram não seria – diante dos olhos de Deus que, segundo os organizadores, estava junto com a marcha - uma “abominação''.

Acho que se existe um Deus, ele estava curtindo a marcha antifascista, realizada simultaneamente a esta e que reuniu mais gente, caminhando entre a Praça da Sé e o antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social, local de torturas durante a ditadura, na região da Luz.

Provavelmente pelo fato de estarem pouco acostumados a irem às ruas e conviverem com a diferença, havia um clima de tensão no ar. De desconfiança com o ambiente, sabe? Um skinhead aqui e outro ali olhando torto, uma tentativa de calar alguém que discordava da natureza do ato, pressão para abaixar faixas que não estivessem de acordo com o coletivo e elogios à grande “imprensa comunista mentirosa'' ali presente.

E falando em imprensa, creio que havia em torno de 100 jornalistas trabalhando por lá, para algo em torno de 400 manifestantes (a grande maioria de homens e de uma faixa etária bem superior às das manifestações que se tornaram corriqueiras por aqui), além de uma quantidade enorme de policiais fazendo cordão para acompanhar o povo.

Um colega, jornalista das antigas, já tinha me sugerido que ir de “black bloc'' era mais seguro que ir de “Sakamoto''. E não é que ele estava certo! Fui procurar meus leitores, mas meus leitores me acharam primeiro.

De tempos em tempos, um grupo deles me reconhecia. Começa a gritar, chegava perto, apontava o dedo, gravava em vídeo, xingava, vociferava, me chamando de “comunista''. Será que eles não sabem que tenho um MacBook e gosto de caviar? Um manifestante passou por mim várias vezes, dando leves ombradas, no melhor estilo de provocações escolares, sempre que chegava perto. Logo no braço que a LER/Dort mais ataca. Podia ser no outro, não?

Agradeço aos colegas da imprensa que me tiraram de perto nas vezes em que a chapa esquentou (valeu, galera!).

Não é mérito nenhum meu, é claro. Sobrou para todo mundo. Incluindo um grupo de jovens, vestidos de preto, que estava indo provavelmente para o show do Metallica e foram xingados por manifestantes perto do metrô Anhangabaú.

Enfim, apesar de tudo isso, achei a manifestação pedagógica.

Porque todas as visões de mundo têm direito a se manifestar.

Porque o número de pessoas que bradam por uma intervenção militar é menor ainda do que eu esperava.

Porque muitos dos curiosos que paravam para ver e que tive a oportunidade de conversar, de vendedores ambulantes a engravatados, quando informados do conteúdo das reivindicações, franziam a testa e perguntavam: mas a gente não brigou tanto para não ter exército no poder?

E porque conversas e atitudes de muitos manifestantes mostravam que um desconhecimento grande da história do Brasil justificava uma visão de mundo totalitária. Ou seja, há esperança de que, com educação de qualidade e muito debate político, a gente chega lá. Ô se chega!

Que marchem, mas não ousem tocar suas mãos sujas em nossa democracia

A ditadura e seus psicopatas de ontem e de hoje


22/03/2014



Antonio Lassance


Quem marcha em defesa do golpe é gente que esbofeteia cada um dos milhões de brasileiros que foram privados da liberdade por mais de duas décadas neste país.


A ditadura valeu-se de psicopatas. Assim manifestou-se a ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, para expressar o impacto do depoimento prestado por um coronel do Exército à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro.

O coronel é Paulo Malhães, especialista em tortura e desaparecimento de corpos durante a ditadura instaurada em 1964.

Em seu depoimento, esse guardião dos infernos mostrou como todo o sistema repressivo montado tinha autorização dos ministros das Forças Armadas, que davam as ordens no país - de forma mais absurda e terrorista entre 1968 e 1974.

Os generais, brigadeiros e comandantes não só tomaram conhecimento como ordenaram que os procedimentos ganhassem escala.

Mandaram construir e custear os aparelhos, como a Casa da Morte, em Petrópolis, e comprar os instrumentos de tortura. Trouxeram torturadores de outros países para treinar seus subordinados a usar requintes de crueldade.

Ao fim e ao cabo, condecoraram uma legião de psicopatas com medalhas e outras honrarias que já deveriam ter sido cassadas.

Onde quer que estejam, e a dúvida é apenas que parte do inferno lhes foi reservada, as mãos e os nomes dos chefes de todos os sádicos permanecerão eternamente tão sujos quanto os dos que decapitaram, arrancaram as arcadas dentárias, deceparam as falanges dos dedos e praticaram tantas outras atrocidades mórbidas com o intuito de desaparecer com corpos de militantes de esquerda que lutavam contra a ditadura.

Cada ministro das Forças Armadas era sempre rigorosamente informado. Todos eles sabiam quem era preso, qual o método empregado e o resultado dos interrogatórios, por meio de relatórios – onde estarão esses relatórios? Quem os terá queimado ou escondido?

Trechos desse depoimento foram publicados pelo jornal O Globo – um veículo que certamente tem muito a dizer sobre aquele período.

O depoimento dado pelo coronel à Comissão Estadual da Verdade do Rio foi, por sua vez, “dado” com exclusividade por alguém dessa Comissão ao referido jornal. Seria bom que a Comissão depois explicasse seu critério de “doação” de informações públicas para o uso exclusivo por uma empresa privada.

De todo modo, diz o coronel:

"Levamos a ideia do CIE para o Burnier (brigadeiro João Paulo Burnier). Ele mostrou para o ministro (da Aeronáutica, Márcio de Souza Melo), que disse: ‘Poxa, que troço! Então funciona’. Aí, fundou o Cisa (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica. Tanto é que recebi a medalha de Mérito da Aeronáutica. Eu até me senti muito orgulhoso, foi o dia em que eu fiquei mais vaidoso” - disse o coronel.

Os detalhes contados são preciosos:

“O DOI (Destacamento de Informações de Operações) é o primeiro degrau. Você entra ali, voando. Aí, se brutaliza, passa a ser igual aos outros, mas depois vai raciocinando e se estruturando”.

“Houve uma mudança da porrada para o choque. Você pode dizer: foi uma mudança ruim - foi não. Não deixava trauma, não deixava marca, não deixava nada. Já foi uma evolução. Aí, você vai caminhando, aprende de outros lugares, também de outros países, como é feita a coisa. Então, você se torna um outro personagem, um outro cara e, por causa disto, você é guindado a um órgão superior por ser um cara diferente e agir diferente. Tem muito mais amplitude, tem um universo muito maior, aí você se torna um expert em informações.”

"Aprendi que um homem que apanha na cara não fala mais nada. Você dá uma bofetada e ele se tranca. Você passa a ser o maior ofensor dele e o maior inimigo dele. A rigidez é o volume de voz, apertar ele psicologicamente, sobre o que ele é, quais são as consequências. Isto sim. Tudo isto é psicológico. Principalmente quando houve outros casos, né? Fulano foi preso e sumiu. Ele não é preso em uma unidade militar, ele vai para um lugar completamente estranho, civil, vamos dizer assim, uma casa. Ninguém sabe que ele está lá. Não há registro.”

Remorso? Nenhum:

“Poxa, não. Só perdi noite de sono estudando [as organizações de esquerda]. Até hoje, estudo.”

Até hoje? Bem, talvez hoje o coronel esteja então na reedição da Marcha da Família pela Liberdade, um nome hipócrita para uma reunião pública de defensores de um regime de psicopatas.

Enquanto permanecer existindo um único desaparecido político no país, qualquer um que apoie esse tipo de marcha golpista, seja lá que nome de fantasia ostentar, patrocina um desfile em desrespeito a qualquer família, não só as que choram seus parentes sem lápide.

Os que marcham em defesa do golpe são gente que fede a religião, mas não acredita em Deus – como diria Mário de Andrade.

É gente que esbofeteia cada um dos milhões de brasileiros que foram privados da liberdade por mais de duas décadas neste país.

Que marchem, mas não ousem tocar suas mãos sujas em nossa democracia, nem pisar sobre nossas consciências.


(*) Antonio Lassance é cientista político.

“atendendo a um pedido do Chefe”

O tamanho da corrupção na ditadura

23 de março de 2014


Nunca é demais refrescar a memória dos renitentes.

Tortura corrompe. Mas os que dizem não ter havido corrupção na ditadura, na medida em que a imprensa era proibida de divulgá-la, só se importam com patrimônio. Para eles, corrupção é apropriação indébita. Matar e torturar seriam pecadilhos.

A corrupção durante o regime militar foi uma constante. O historiador Carlos Fico, em “Como eles agiam”, mostra que a ação contra a suposta “crise moral” foi o mote dos militares. Sempre que a expressão “dissolução de costumes” se espalha, tem autoritarismo no ar. Os ditadores queriam acabar com a corrupção, que viam como um traço cultural muito “característico do brasileiro”.

O ministro Armando Falcão, pilar da ditadura, chegou a dizer: “O problema mais grave no Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”. Com o AI-5, de 1968, a ditadura dotou-se de mecanismo mais contundente para confiscar bens de corruptos. A Comissão Geral de Investigações, de 17 de dezembro de 1968, propunha-se a “promover investigações sumárias para o confisco de bens de todos quanto tenham enriquecido ilicitamente, no exercício do cargo ou função pública”. A roubalheira correu solta durante todo o regime militar. Carlos Fico conta que, entre 1968 e 1973, auge da ditadura, a CGI analisou 1.153 processos de corrupção. Aprovou 41 confiscos de um total de 58 pedidos. Entre os investigados ou condenados, “mais de 41% dos atingidos eram políticos (prefeitos e parlamentares) e aproximadamente 36% eram funcionários públicos. Num único ato, em 1973, chegaram ao Sistema CGI cerca de 400 representações ou denúncias”. Seria o caso de dizer: nunca se roubou tanto no país quanto em 1973.

O alto comando militar do país, quando confrontado com a roubalheira, exclamava: “Não sabíamos”.

E explicava: “Estamos investigando. Vamos punir”.

Carlos Fico pergunta: “Por que, então, fracassou a iniciativa de ‘combate à corrupção’ do regime militar pós- AI-5?”. A resposta vai enfurecer os adeptos da nostalgia: “Em primeiro lugar, a impossibilidade de manter os militares num compartimento estanque, imunes à corrupção, notadamente quando já ocupavam tantos cargos importantes da estrutura administrativa federal. Não terão sido pouco os casos de processos interrompidos por causa da identificação de envolvimento de afiliados ao regime”. Fico sabe do que fala. Foi um dos primeiros a ter acesso a arquivos com material sigiloso do regime. Examinou todos os processos de confisco no Arquivo Nacional. Cláudio Guerra, no recente “Memórias de uma guerra suja”, afirma que o regime financiou a repressão, na sua fase final, com dinheiro do jogo do bicho. Cita empresários, como o dono da Itapemirim, que receberam vantagens oficiais pelos bons serviços à repressão.

Uma determinação do Ministério da Justiça orientava a mídia: “É vedada a descrição minuciosa do modo de cometimento de delitos”. Não foi possível divulgar a descoberta de uma carga de drogas no quartel da Barra Mansa. O ministro do Trabalho, o gaúcho Arnaldo Prieto, em 1974, censurou as notícias sobre sua desastrada política salarial. Foram censuradas também as “gravuras eróticas de Picasso”. O consumo de drogas era considerado parte do “variado arsenal do movimento comunista internacional”.


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Ainda a Corrupção e a Ditadura Militar
por JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

O assunto sobre a corrupção e Ditadura Militar ainda não está esgotado. A imprensa, escrita e falada, afirma que a corrupção atual é a maior da História do Brasil. Com essa crítica, uma pequena parte de brasileiros, decepcionada, deseja a Ditadura Militar com a finalidade de combater os corruptos. No entanto, a corrupção no tempo da Ditadura Militar era infinitamente superior, como irei mostrar.

O jornalista e escritor J. Carlos de Assis escreveu três livros, no final da Ditadura Militar, em 1984, mostrando os escândalos desse período. Um deles, o mais famoso, “A Chave do Tesouro, anatomia dos escândalos financeiros no Brasil: 1974/83”, revela essa corrupção. Alguns capítulos: Caso Halles, Caso BUC, Caso Econômico, Caso Eletrobrás, Caso UEB/Rio-Sul, Caso Lume, Caso Ipiranga, Caso Aurea, Caso Lutfalla (família de Paulo Maluf, marido de Sylvia Lutfalla), Caso Abdalla, Caso Atalla, Caso Delfin, Caso TAA. Cada “Caso” é um capítulo. Por este motivo, é impossível detalhar esses escândalos financeiros, que trouxeram prejuízos inimagináveis à Economia daquela época!

Em outro livro, “A dupla face da Corrupção”, também em 1984, J. Carlos de Assis revela: “A censura (sic) da era Médici manteve o submundo da economia tão longe da curiosidade pública como as masmorras sombrias da repressão política. (,,,) Esta era uma atmosfera particularmente favorável ao apaniguamento (sic) e à proteção econômica e administrativa dos amigos do regime (…) Foi à sombra desse período obscurantista que a maioria dos arrivistas e aventureiros do mercado, esgueirando-se por essas omissões originais da lei ou pelos espaços abertos por sua deformação propositada (sic), penetrou no sistema financeiro e nele engordou seus conglomerados fraudulentos (sic), para explodir posteriormente em escândalos”, acrescentando: “Vários grupos de aventureiros e de gangsters de gravata (sic) foram postos na engorda junto aos cofres públicos (sic), com total contemporização e cumplicidade da autoridade administrativa”.

Adiante o escritor comenta o escândalo da Corretora Laureano, em 1976, fazendo essa estarrecedora denúncia: “Seu dono, contudo, precavidamente, havia lastreado suas ousadas operações num ativo intangível de valor incalculável nas circunstâncias: a amizade com o Ministro-chefe da Casa Civil, o condestável do governo Geisel, General Golbery do Couto e Silva. A relação estava selada, além disso, por um contrato de trabalho do filho de Golbery como diretor da Corretora (sic). E o General não tinha maiores constrangimentos éticos (sic) em encaminhar seu amigo às boas graças de algum colega de Ministério, em especial o que detinha as chaves dos cofres públicos, o Ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen”. Na página 85, outra denúncia grave: a compra pela Coroa-Brastel (uma empresa que também fazia parte do escândalo financeiro) da Metalúrgica Castor: “A Metalúrgica era propriedade do banqueiro de bicho Castor de Andrade, em sociedade com Osório Pais Lopes da Costa, sogro do Johnny Figueiredo, filho mais velho do Presidente da República (na época em que o livro foi publicado, 1984, o General João Figueiredo era o Presidente).

No ambíguo depoimento, Paim [dono da Coroa-Brastel] relata que foi contatado por Álvaro Leal em outubro de 1982. O consultor lhe teria dito que a Metalúrgica estava para quebrar e lhe sugeria comprar a empresa. “atendendo a um pedido do Chefe” (sic) – o próprio Presidente, no caso. Ele receberia por isso as “compensações devidas” , através do Banco do Brasil (sic)”. Era uma empresa suspeita comprando outra falida “atendendo o pedido do Chefe”! O escritor foi corajoso ao fazer essa denúncia contra o General-Presidente em plena Ditadura Militar, mesmo que nesse ano, 1984, o regime estava mais brando!

Existem outras denúncias de corrupção no período ditatorial, mas ficam para outro artigo.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Um cadáver que assustava os militares


Ditadura: militar diz que arrancava dedos, dentes e vísceras de preso morto



Mário Magalhães

21/03/2014 09:55






( O blog está no Facebook e no Twitter )

Em um dos mais importantes e verossímeis depoimentos já prestados por agentes da ditadura (1964-85), o coronel reformado Paulo Malhães afirmou que ele e seus parceiros cortavam os dedos das mãos, arrancavam a arcada dentária e extirpavam as vísceras de presos políticos mortos sob tortura antes de jogar os corpos em rio onde jamais viriam a ser encontrados.

O relato histórico do oficial do Exército foi feito à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e revelado nesta sexta-feira pelo repórter Chico Otávio.

Malhães se referia a presos políticos assassinados na chamada Casa da Morte, um imóvel clandestino na região serrana fluminense onde servidores do Centro de Informações do Exército detinham, torturavam e matavam opositores da ditadura. De acordo com o coronel, os cadáveres eram ensacados junto com pedras. Dedos e dentes eram retirados para impedir a identificação, na eventualidade de os restos mortais serem encontrados. As vísceras, para o corpo não boiar.

Veterano da repressão mais truculenta do passado, Malhães figura em listas de torturadores elaboradas por presos. É ele quem assumiu ter desenterrado em 1973 a ossada do desaparecido político Rubens Paiva (post aqui).

Seu testemunho, sem vestígios de arrependimento, contrasta com o de aparente mitômano surgido em anos recentes. Malhães não é um semi-anônimo,mas personagem marcante para seus pares em orgãos repressivos e para presos políticos.

Dois trechos do seu depoimento à comissão, conforme reprodução de “O Globo'' (a reportagem pode ser lida na íntegra clicando aqui):

1) “Jamais se enterra um cara que você matou. Se matar um cara, não enterro. Há outra solução para mandar ele embora. Se jogar no rio, por exemplo, corre. Como ali, saindo de Petrópolis, onde tem uma porção de pontes, perto de Itaipava. Não (jogar) com muita pedra. O peso (do saco) tem que ser proporcional ao peso do adversário, para que ele não afunde, nem suba. Por isso, não acredito que, em sã consciência, alguém ainda pense em achar um corpo.”

2) “É um estudo de anatomia. Todo mundo que mergulha na água, fica na água, quando morre tende a subir. Incha e enche de gás. Então, de qualquer maneira, você tem que abrir a barriga, quer queira, quer não. É o primeiro princípio. Depois, o resto, é mais fácil. Vai inteiro.”

Com a frieza de quem conta ter ido à padaria, Malhães afirmou, referindo-se ao local onde vive, a Baixada Fluminense: “Eu gosto de decapitar, mas é bandido aqui''.

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Paulo Malhães, o nome do coronel que comandou o sumiço do corpo de Rubens Paiva

21 mar 2014

Blog do Zé Dirceu

Desvendado um dos últimos mistérios que envolviam o destino final do corpo do ex-deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura: o coronel do Exército, Paulo Malhães (reformado), hoje com 76 anos, foi o comandante da operação para dar sumiço de vez aos restos mortais do ex-deputado.

Malhães havia dado entrevista ao O Globo há poucos dias, detalhando toda a operação, mas em off, exigindo que seu nome não aparecesse na reportagem. Em nova entrevista, esta publicada ontem pelo jornal O Dia – também do Rio -, o coronel autorizou a publicação de seu nome e assume ter comandado a “missão” para o desaparecimento do corpo de Paiva.

Malhães foi um dos mais ativos oficiais do Centro de Informações do Exército (CIE), nos chamados anos de chumbo, os mais tenebrosos da ditadura na década de 70. Ao O Dia, o coronel repete que comandou a operação secreta para ocultar os restos mortais do ex-deputado. Torna-se, assim, o primeiro militar a assumir participação no desaparecimento do corpo de Paiva, uma das mais conhecidas e emblemáticas vítimas da ditadura.

O coronel repete ter recebido, em 1973, uma ordem do Ministério do Exército – o ministro era o general Orlando Geisel, irmão do presidente general Ernesto Geisel – para desenterrar e sumir com os restos mortais do parlamentar morto dois anos antes sob tortura, no DOI-CODI-Rio. A confirmação dada ao O Dia e mais a permissão para que seu nome fosse divulgado levaram a Comissão Nacional da Verdade a convocá-lo para depor nos próximos dias.

Um cadáver que assustava os militares

Malhães conta que Paiva foi enterrado primeiro no Alto da Boa Vista, no Rio. Depois, por causa da construção de uma avenida no local e do temor dos militares de que o corpo fosse descoberto, foi exumado e enterrado novamente na praia do Recreio, também na capital fluminense. “Recebi a missão para resolver o problema, que não seria enterrar de novo. Procuramos até que se achou (o corpo). Foi um sufoco para achar. Aí seguiu o destino normal”, diz ele ao O Dia.

Mas, ao contrário do que disse na entrevista ao O Globo, que o corpo de Paiva foi jogado em alto mar, ao O Dia o coronel não dá o destino final dos restos mortais.”Pode ser que tenha ido para o mar. Pode ser que tenha ido para o rio”, limita-se a dizer. Rubens Paiva foi preso e levado de sua casa no dia 20 de janeiro de 1971, por agentes do Centro de Informações e Segurança da Aeronátutica (CISA). Também sua mulher, eunice, e uma filha de 13 anos, foram levadas e mantidas presas no DOI-CODI.

Ex-presos políticos e militares então na ativa e hoje na reserva contam em entrevistas e depoimentos que ele foi torturado na Base Aérea da Aeronáutica, no aeroporto Santos Dumont e na sede do DOI-CODI-Rio, onde não resistiu ao massacre e morreu. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) acusa dois militares de serem responsáveis diretos pela morte: o general José Antonio Nogueira Belham (ainda vivo) e o tenente Antônio Fernando Hughes de Carvalho, falecido no ano passado.

Belham contesta a acusação e tenta sustentar que estava em férias quando Paiva morreu no DOI-CODI sob seu comando, mas as investigações já concluíram que ele suspendeu as férias, voltou ao local que comandava para cumprir uma “missão” e até recebeu diárias.

Volta ao passado?

Dilma Roussef

Memórias de um tempo sem memórias







Um tempo de milagres...






quinta-feira, 20 de março de 2014

desenterrado e lançado ao mar

Áudio recuperado
O discurso histórico de Rubens Paiva em 1964: deputado pedia resistência ao golpe


publicada quinta-feira, 20/03/2014 às 23:11 e atualizada quinta-feira, 20/03/2014 às 23:13


Escrevinhador





O Portal EBC conseguiu recuperar o áudio do discurso feito pelo deputado Rubens Paiva (foto), na madrugada de 1 de abril de 1964 – quando o golpe militar já estava em andamento.

Clique aqui para ouvir o histórico discurso – transmitido pela Rádio Nacional.

Rubens Paiva pedia que os trabalhadores e estudantes resistissem ao golpe. O deputado criticava duramente o então governador de São Paulo, Ademar de Barros, um dos apoiadores do Golpe. “Me dirijo especialmente a todos os trabalhadores, todos os estudantes, e a todo o povo de São Paulo tão infelicitado por este governo fascista e golpista que neste momento vem traindo seu mandato e se pondo ao lado das forças da reação”.

Vera Paiva, filha de Rubens Paiva e professora da Universidade de São Paulo (USP), contou para o Portal EBC como ficou surpresa e sensibillizada em poder ouvir, novamente, a voz do pai. “Antes não tinha celular, gravador era uma coisa complexa e os filmes Super-8 com som eram algo sofisticadíssimo. A última vez que falei com meu pai foi no Natal de 1970. Desde então, nunca mais tinha ouvido a voz dele”.

Clique aqui, para ler mais detalhes sobre a reação da família.

Rubens Paiva foi cassado e depois assassinado pela ditadura militar. Essa mesma que alguns acham “que devia voltar para salvar o Brasil”.

O corpo de Rubens Paiva jamais foi localizado. Investigações da Comissão da Verdade indicam que, depois de assassinado sob tortura, Rubens Paiva foi enterrado numa praia no Rio.

Alguns anos depois o corpo teria sido desenterrado e lançado ao mar por agentes da ditadura.



Leia outros textos de Plenos Poderes

50 anos depois


TVE e FM Cultura apresentam programação sobre os 50 anos do golpe militar

19/03/2014


TVE RS




O golpe de estado que mergulhou o Brasil em uma ditadura militar por 21 anos completa 50 anos no dia 31 de março. Para relembrar esse fato que marcou a história do país, as emissoras públicas do Rio Grande do Sul, TVE e FM Cultura apresentam programação abordando a temática a partir do dia 24 de março. O assunto será destacado sob diversos enfoques, informando e trazendo exemplos de pessoas que participaram desse momento/período, contextualizando-o e também gerando reflexão sobre a cobertura da imprensa.

Na TVE será exibida uma série de 6 reportagens sobre o golpe, entre os dias 24 e 31 de março, no Jornal da TVE – 1ª e 2ª Edições, às 12h30 e às 19h30. A produção 1964: um Golpe na História conta a história de pessoas comuns que de alguma forma ajudaram na resistência à ditadura. Poderão ser conferidas histórias de quem participou das lutas no Centro do país, e conseguiu sobreviver; os locais onde os militantes presos políticos sofreram a violência praticada pelo estado: a Ilha do Presídio, o DOPS e os porões do antigo DOI-CODI. A série também vai abordar como a ação da repressão atuou dentro da maior universidade pública federal no Rio Grande do Sul; o teatro, a charge, a imprensa, e a censura. E a transição para os dias em que as liberdades individuais estão preservadas. A série tem produção, roteiro, e direção de Ana Brenner e Daniela Bonamigo. A locução é de Thaís Baldasso e as imagens são de Beto Azevedo com o apoio de Cláudio Roberto Petraco.

Também serão apresentados os programas Frente a Frente (27 de março, às 22h), Cidadania (31 de março, às 19h) e Mobiliza (1º de abril, às 23h30) sobre os 50 anos do golpe militar.

Na segunda-feira, 31 de março, data em que se completam os 50 anos do Golpe, a FM Cultura terá programação musical temática no Manhã Popular Brasileira e no Tarde Popular Brasileira: em cada do bloco da programação musical será veiculada uma música contextualizando a época em que foi composta, os principais hinos contra a ditadura, os maiores compositores e a verdadeira batalha contra a censura. Além disso, a rádio terá extensa programação destacando os seguintes temas:

Na Trilha da Tela – sábado, 29 de março, às 19h

Como o cinema brasileiro retratou o Golpe, e quais os principais diretores da época.

Tons e Letras – sábado, 29 de março, às 11h

Os destaques da literatura para os 50 Anos do Golpe de 1964.

Contracultura – sábado, 29 de março, às 20h

Como o rock abordou o Golpe de 1964.

Cultura na Mesa – segunda-feira, 31 de março, às 2h

O impacto da cobertura dos jornais antes e depois do Golpe de 1964.

Cantos do Sul da Terra – segunda-feira, 31 de março, às 13h

O programa aborda os golpes militares na Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai e o cenário musical desta época. Os artistas mais significativos, e as músicas que foram fundamentais para denunciar as torturas, os crimes, o terrorismo de Estado.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

"O dever mais importante de um soldado é terminar a guerra que ele iniciou' Almirante Yamamoto.

As verdades da ditadura
Jango e o mea culpa que nunca vem


Escrevinhador

publicada quinta-feira, 16/01/2014 às 12:11 e atualizada quinta-feira, 16/01/2014 às 12:11


por Luiz Cláudio Cunha no Sul 21


Passaram-se 49 anos, quase meio século, para o Brasil ver o inesperado, o impensável. Não uma, mas duas vezes. No curto intervalo de 75 dias, o País que hostiliza a memória teve de se voltar para o passado e resgatar personagens e verdades históricas, revolvendo fatos e circunstâncias que uniram durante muito tempo duas forças poderosas na implantação e essenciais na sustentação da ditadura: as Forças Armadas e as Organizações Globo.

Na manhã cinzenta de uma histórica quinta-feira, 14 de novembro de 2013, no hangar da Base Aérea de Brasília, dez cadetes do Exército, Marinha e Aeronáutica carregaram com visível esforço a pesada urna funerária que continha os restos mortais do presidente João Goulart (1919-1976), exumado de seu túmulo em São Borja (RS) para uma perícia internacional que poderá elucidar dúvidas sobre sua morte. O esquife foi recebido com reverência de chefe de Estado, guarda de honra, hino, salva de tiros de canhão e um forte clima de emoção dominava os 160 convidados da família Goulart e da presidenta Dilma Rousseff, que ali estava com parte de seu Ministério. Entre as autoridades, os três comandantes das Forças Armadas, que prestaram continências tardias ao homem que derrubaram do poder em 1964, marco de uma ruptura institucional que golpeou a democracia e martirizou a nação pela violência e pelo arbítrio.

Goulart, popularizado como Jango, resume uma acelerada história de sucesso que a força militar abortou pelo peso esmagador das armas. Aos 26 anos, Jango era apenas um jovem e rico fazendeiro na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Aos 28, estreou na política como deputado estadual. Aos 31, tornou-se deputado federal. Com 34 anos, foi nomeado ministro do Trabalho por Getúlio Vargas, seu padrinho político. Aos 36, elegeu-se vice-presidente com mais votos do que o presidente eleito, Juscelino Kubitschek. Aos 41, reelegeu-se vice, pela chapa de oposição ao presidente eleito Jânio Quadros. Aos 42 anos, pela crise inesperada da renúncia do titular, viu-se ungido presidente da República, 16 anos mais jovem do que Lula ao chegar ao Planalto em 2003. Aos 45, foi deposto e exilado. Aos 57, morreu no exílio argentino e só então pode regressar à sua terra natal. Teria 94 anos, agora, se não tivesse retornado a Brasília reduzido aos restos de um punhado de ossos ainda atravessados na consciência nacional. A volta de Jango à sede do poder, do qual foi apea­do militarmente há meio século, foi o primeiro fato inesperado que remexeu com a memória dos brasileiros. O segundo fato, ainda mais imprevisível, ocorreu dois meses e meio antes.

Na edição nobre de um domingo, 1o de setembro de 2013, o jornal O Globo, carro-chefe das Organizações Globo, abriu duas páginas para um histórico mea culpa, reconhecendo em editorial um refrão das ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. O editorialista cravou que, “à luz da História, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais que decorreram desse desacerto original”.
Fã de auditório

Não cabe discutir se o gesto da Globo envolve puro marketing, medo velado das manifestações, mero oportunismo político ou um genuíno arrependimento. O que importa é o inédito, amadurecido, eloquente reconhecimento de um memorável, irremediável erro pelo mais poderoso grupo de comunicação do País, que tem as digitais marcadas na sobrevida de 21 anos do mais longo período autoritário do Brasil. O jornal fez dura oposição ao governo Goulart e já em 1965, no ano seguinte à sua deposição, inaugurou a rede de televisão que se forjou e se consolidou à sombra do regime militar que a Rede Globo apoiou com o fervor de fã de auditório.

Nasce daí uma pergunta inevitável: e o mea culpa dos generais? Veremos algum dia um general fazendo um contrito mea culpa?

A simbiose entre a rede e os militares (“A Globo e você, tudo a ver”, diz o bordão da emissora) nasceu nas entranhas do regime de 1964, invadiu a consciência das multidões das Diretas Já da década de 1980 e acabou no remoído editorial do jornal da casa de 2013, em uma inusitada espiral midiática que começa com uma adesão entusiasmada, meio século atrás, e termina agora com um envergonhado mea culpa.

Existe, porém, uma verdade ainda mais dura que faz a diferença entre a Globo e as Forças Armadas. Os militares, de fato, foram muito além: eles desencadearam, criaram, organizaram, moldaram, radicalizaram e sustentaram a ditadura que a Globo apoiou. Teriam, assim, razões mais sérias para um mea culpa ainda mais sentido perante a Nação que violentaram durante duas décadas, quebrando a Constituição e instalando um regime de arbítrio que impôs a censura, sufocou as liberdades, criminalizou a política, cassou, perseguiu, prendeu, torturou, exilou, desapareceu ou matou dissidentes, insurgentes e inocentes, impondo o terror de Estado na mais longeva ditadura da história do País. Haja culpa para expiar!

A Globo, é justo reconhecer, fez isso agora de forma escancarada, pública, através de seu jornal e de sua rede, exposta ao julgamento de uma audiência que ela cativa como ninguém, na condição de um império global de 122 emissoras próprias ou afiliadas que cobrem 5.482 municípios onde vivem 99,5% dos 200 milhões de brasileiros. Não é pouca coisa para quem foi, durante tanto tempo, o braço civil e o mais conspícuo suporte da ditadura de 1964. Já o braço militar, que impôs a ferro e fogo o regime de força, dá sinais de que experimenta o mesmo desconforto, mas não demonstra a mesma coragem para expiar seus erros, muito menos disposição para assumir suas responsabilidades perante a História.

Apesar das aparências e do recato da disciplina, os comandantes militares estão cada vez mais inquietos. Enquadrados pela democracia há 28 anos, subordinados há 11 anos por três governos sucessivos de uma legenda que abriga antigos insurretos da luta armada, comandados há três anos pelo Palácio do Planalto, hoje ocupado por uma ex-guerrilheira que foi presa política e torturada, os generais se mostram cada vez mais desconfortáveis com uma discussão incômoda, dolorosa, mas necessária: as Forças Armadas, sua culpa na ditadura e sua responsabilidade pela tortura e morte de quem a enfrentou. Uma discussão que se alastra e ganha corpo com o advento em 2012 da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que já se espraia em outras cem comissões e subcomissões país afora.

Prazo para acabar

O clamor por verdade e justiça, graças a essa rede em expansão que tanto incomoda os militares, hoje se estende por 16 Estados, mais de 15 universidades (de notórias como USP, UFRJ e UnB a escolas menos conhecidas no Recôncavo Baiano, Campina Grande ou Blumenau), entidades como CUT, UNE, OAB, CONTAG e Ministério Público, 20 sindicatos de jornalistas, entidades de magistrados e petroleiros, associações de historiadores, comunidades indígenas e cerca de uma dúzia de cidades – grandes (São Paulo, Rio de Janeiro), médias (Campinas, Niterói, Bauru) ou pequenas (Divinópolis, Araras, Macaé), entre outras.

Um detalhe pouco notado pelo País paisano, mas percebido pelos generais mais argutos, é que a CNV tem prazo para acabar (maio de 2014), talvez ganhando uma prorrogação de seis meses. Mas o resto veio para ficar. As comissões nascidas à sombra da CNV não têm prazo para concluir seus trabalhos. A capilaridade desse movimento contraria os interesses das Forças Armadas, que acusam de revanchistas quaisquer tentativas de remexer as águas paradas desse poço de escuridão.

Nada tranquiliza os generais, nem a voz de sua comandante em chefe, a presidenta da República. Em duas solenidades no Palácio do Planalto, diante dos quatro chefes militares – os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica e o chefe do Estado-Maior Conjunto –, Dilma Rousseff enfatizou que a busca pela verdade não implicava qualquer tipo de vingança. “A palavra verdade não abriga nem o ressentimento, nem o ódio, nem o perdão. É o contrário de esquecimento. Memória é história”, ensinou ela, em 16 de maio de 2012, ao instalar a Comissão Nacional da Verdade. Sete meses antes, em 18 de novembro de 2011, ao sancionar a lei que criava a CNV, Dilma definiu o sentido daquele momento: “Sem revanchismo, mas sem a cumplicidade do silêncio”.

Hostilidade fardada

A mão pesada dos militares manchou a cerimônia, pouco antes de seu início, com o veto inesperado dos comandantes ao discurso que seria feito por Vera Paiva, filha do ex-deputado federal Rubens Paiva, assassinado sob tortura em 1971 no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro. O mal-estar explícito dos militares ficou eternizado, via Embratel, nas imagens da cerimônia gravadas por 44 minutos pelo canal estatal, a TV NBR. Os comandantes estão sentados na segunda fila, perfilados, sérios, calados. Quando o locutor anuncia a assinatura de Dilma na lei que cria a CNV, aos 27’37″ de gravação, todos os presentes se levantam para aplaudir. A câmera de TV, que filma por trás, mostra certa hesitação de nove segundos dos comandantes, que se entreolham discretamente enquanto toda a plateia à volta se coloca em pé, repetindo Dilma no palco e os quatro ministros que a acompanham.

Permanecer sentado, naquelas circunstâncias, seria mais do que má educação – seria uma grave insubordinação. Assim, aos 27’46″, os quatro comandantes se levantam, lentamente, mas com os braços para baixo. Não aplaudem, não reagem. Permanecem estáticos até que as palmas cessam e todos voltam a sentar, aos 28’20″. Durante 43 longos segundos, os quatros oficiais-generais destoaram do clima de emoção que pairava no ar, mantendo-se álgidos e indiferentes. Quem não viu na TV pode conferir a hostilidade fardada na internet, graças ao blog “Bastidores do Poder”, do jornalista Josias de Souza, abrigado no site da Folha Online. No preciso flagrante do repórter-fotográfico Alan Marques, aparecem 11 pessoas batendo palmas, e apenas quatro com as mãos sobre o colo, imóveis, contidos na contrariedade sincronizada que exalam. Eles mesmos, os comandantes das Forças Armadas do Brasil.

O drama de um País que ainda se debate com o trauma de um passado mal resolvido pode ser medido entre seis homens – os dois trios que comandam as duas corporações, hoje circunstancialmente apartadas, que representam as duas caras da ditadura que um dia definiram e que juntas defenderam, com a irmandade de parceiros e aliados.

De um lado, a face risonha do trio global, os irmãos Marinho, filhos do patriarca Roberto Marinho (1904-2003), que herdaram junto com o império de comunicação da Globo a penosa fama de ser o mais importante sustentáculo civil do regime autoritário. De outro lado, a face sisuda, cada vez mais tensa do trio das Forças Armadas, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que suportam o fardo da instituição armada que, fiel a seu lema de hoje, foi o “braço forte, a mão amiga” da ditadura.

Nada ilustra melhor a intimidade entre as duas forças, a global e a fardada, do que a foto emblemática de João Figueiredo, o último dos cinco generais-presidentes do ciclo autoritário, de braços dados com o “doutor” Roberto, conforme o tratamento reverencial dispensado por paisanos ou generais ao comandante em chefe da Globo.

Existem bons motivos para que Roberto Irineu Marinho, o irmão mais velho e presidente das Organizações Globo, e os dois vice-presidentes mais jovens, João Roberto e José Roberto Marinho, estejam sorridentes. E há fortes razões para que o general Enzo Martins Peri, o almirante Júlio Soares de Moura Neto e o brigadeiro Juniti Saito, comandantes das Forças Armadas, se mostrem carrancudos. O trio global tem sonantes motivos para fazer seu estrondoso mea culpa. O trio fardado tem razões memoráveis para manter sufocado o mea culpa que sonegam ao povo brasileiro que lhes paga os soldos. Os números e os fatos explicam melhor essa crucial diferença.

Os sorrisos globais exibem a exuberante prosperidade que moldou o sucesso da Rede Globo sob a treva frondosa do regime autoritário. Em agosto passado, a revista Forbes apresentou a lista dos raríssimos abonados que acumularam no país pelo menos R$ 1 bilhão em 2013, um privilégio extraordinário para apenas 124 brasileiros, na multidão de 200 milhões de habitantes, onde a renda média mensal de quem trabalha alcança irrisórios R$ 1.507, segundo o IBGE de 2012. Nessa conta, um brasileiro médio levaria 55 mil anos para alcançar o seu primeiro bilhão, ou seja, precisaria ser um dos primeiros seres humanos das Américas, no final do Pleistoceno, quando o planeta vivia a era geológica das glaciações e o homem dividia o ambiente hostil com mamutes e tigres-dentes-de-sabre.

Tudo por dinheiro

Na espécie sempre preservada da centena de bilionários de coloração verde-amarela, o sobrenome mais rico é o da família Marinho, que acumula uma fortuna de quase R$ 52 bilhões, irmãmente distribuídos assim: Roberto Irineu com R$ 17, 28 bi, João Roberto mais modesto com R$ 17,26 bi e o mais pobre, José Roberto, com apenas R$ 17,10 bi. Neste caso, a paleontologia precisaria ser medida em uma escala milionária de tempo. Um pedreiro ganha hoje aproximadamente dois salários mínimos, a renda média do IBGE. Ele precisaria trabalhar duro, mês a mês, desde o Paleolítico, a Idade da Pedra Lascada, quando surgiu a primeira ferramenta pré-humana, para vencer os 2.875.470 anos necessários para juntar os R$ 52 bilhões que os Marinhos acumularam em fugazes 48 anos, desde o advento da primeira TV Globo, em 1965.

Convertida para o dólar, a fortuna lascada de US$ 24 bilhões dos Marinho deixa seus competidores do setor de TV comendo pedra. O televangelista da prosperidade e bispo Edir Macedo, profeta da bíblica Rede Record, a segunda maior cadeia do país, tem uma riqueza avaliada em somente US$ 1,1 bilhão, um pouco menos abonado do que o homem que topa tudo por dinheiro, Silvio Santos, dono do SBT e um império de módicos US$ 1,3 bilhão. Os Marinho não temem paralelo nem com a família de Giancarlo Civita, dona de uma fortuna de apenas US$ 3,4 bilhões e herdeira da Abril, o maior grupo editorial da América Latina, que edita 54 títulos, 188 milhões de exemplares e sete das dez revistas mais vendidas do País – entre elas, Veja (tiragem: 1,2 milhão), a segunda maior revista semanal de informação do mundo, atrás apenas da americana Time (tiragem: 3,2 milhões).

O Portal iG acaba de fazer uma radiografia de quem manda no País, com o ranking dos “60 mais poderosos do Brasil”. O terceiro da lista é Roberto Irineu Marinho, que perde apenas para dois nomes tecnicamente miseráveis perante sua fortuna: Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva, o no 2. Os bilionários que ousam ter mais dinheiro que o chefe do clã Marinho carecem de algo que o iG destaca, com perfeição: “Todos reúnem riqueza, prestígio, poder, mas nenhum deles tem o condão de influenciar a opinião pública, induzir costumes e padrões de comportamento e moldar parte expressiva da cultura nacional (como Roberto Irineu)… Quantas outras corporações podem afirmar, com tanta certeza, que estão presentes em praticamente todos os lares brasileiros?”

A lista de abastados da Forbes levanta a intrigante hipótese de que os Marinhos representam mais do que um recorde brasileiro. Eles são provavelmente a família mais rica do mundo inteiro no trepidante reino da mídia. Para quem duvida, basta lembrar que os US$ 24 bilhões do trio global somam mais do que o dobro dos US$ 11,2 bilhões do magnata australiano Rupert Murdoch, monarca de um império planetário onde, como na dourada era da rainha Vitória (1819-1901), o Sol nunca se põe. Apesar da onipresença mundial, Murdoch vale, como fortuna pessoal, apenas meio Marinho.

Em receita publicitária, segundo o Top Thirty Global Media Owners, levantamento de 2011 do grupo ZenithOptimedia, a rede dos Marinho é o 17o maior grupo de mídia do mundo, com faturamento de US$ 4,7 bilhões (o líder, claro, é o Google, com US$ 37,9 bilhões, 49% da publicidade na internet de todo o planeta). Com esses números vistosos, é fácil entender o sorriso cativante que domina o trio que comanda a Rede Globo – e justifica, em parte, o mea culpa que a família adota, agora, para um aggiornamento exigido pelos tempos de transparência obrigatória e crescentes demandas de uma opinião pública pulverizada e excitada pelas redes sociais cada vez mais ativistas.

Com todo este presente, e ainda mais com todo aquele passado, não é difícil entender a carranca que domina o trio de comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. Parecem assombrados por um passado que eles fingem desconhecer e reféns de uma absurda solidariedade corporativista para com os abusos de uma geração de camaradas da ditadura que devia ser segregada, não protegida, em nome da história e da dignidade das Forças Armadas da democracia.

Os dois trios comandam tropas diferenciadas, no tamanho e nos propósitos, mas sempre com poder de fogo respeitável. O exército das Organizações Globo mobiliza 24 mil pessoas, com um orçamento estimado no ano passado em mais de US$ 5,8 bilhões (a britânica BBC, a mais extensa rede mundial, tem 23 mil funcionários e um orçamento de US$ 8,1 bi). As Forças Armadas brasileiras somam, em seus três ramos, um efetivo de aproximadamente 330 mil homens na ativa, a maior força militar do continente, com um orçamento de US$ 33,1 bilhões, segundo o livro do ano de 2013 do respeitado Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Esse número garante ao Brasil o 11o lugar entre as 15 nações com maiores gastos militares em um mundo que torrou US$ 1,75 trilhão com Forças Armadas (os Estados Unidos, responsáveis sozinhos por 39% dessa despesa, investem US$ 682 bilhões para manter sua máquina de guerra).

Mesmo na democracia, que os colocou no devido lugar a partir de 1985, os militares brasileiros não podem reclamar. O Brasil da ex-guerrilheira Dilma gasta hoje 1,5% do PIB com o orçamento militar, mais do que os ricos Japão (1,0%), Canadá (1,3%) e Alemanha (1,4%). Ao longo da história, contudo, os militares saíram de uma posição meramente moderadora para um protagonismo mais incisivo. Nos 67 anos do Império brasileiro (1822-1889), não houve nenhuma intervenção militar contra o monarca. Nos 75 anos iniciais da República, entre 1889 e 1964, as Forças Armadas produziram quatro golpes de Estado. Dois modernizaram a Nação (1889, proclamando a República, e 1930, na revolução que derrubou a Velha República), um derrubou um regime autoritário (1945, com a queda do Estado Novo) e o último instituiu a mais longa ditadura (1964, com a queda de Goulart).

Resposta antecipada

No dia seguinte ao golpe, 2 de abril, lá estava O Globo do “doutor” Roberto Marinho saudando o pronunciamento militar: “Ressurge a Democracia!”, festejou em editorial. Em um trecho, tentava dar o amparo do Art. 176 da Constituição para o ato de força, definindo as Forças Armadas: “São instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI”. Assim mesmo, em maiúsculas de tom quase verde-oliva, para camuflar a violência e vender a ideia de que o fora da lei era o presidente Goulart. A filigrana dos “limites da lei” foi mantida na circular “reservada” que o chefe do Estado-Maior do Exército (EME), general Humberto Castelo Branco, mandou a todos os generais no dia 20 de março, 11 dias antes do golpe de 1964. Em tom insurrecional, aquele que seria dias depois o primeiro presidente do regime militar cometia ousadias políticas que excediam os “limites da lei” que um general disciplinado deveria defender: “A ambicionada constituinte é um objetivo revolucionário pela violência com o fechamento do atual Congresso e a instituição de uma ditadura… Pode-se perguntar: o povo brasileiro está pedindo ditadura militar ou civil e constituinte? Parece que ainda não”.

Apesar da resposta antecipada, e sem perguntar nada ao povo, ele assumiu em 31 de março o comando da ditadura militar que o povo brasileiro não pedia. A circular “reservada” do chefe do EME tinha 54 linhas e 645 palavras, bem mais alentada do que o discurso de Abraham Lincoln pronunciado em Gettysburg, em 19 de novembro de 1863, com enxutas 17 linhas e 271 palavras. O texto público do presidente americano era uma ode ao “governo do povo, pelo povo, para o povo”. A circular “reservada” do general brasileiro, não.

A conta da ditadura de 21 anos prova que ela atuou sem o povo, apesar do povo, contra o povo. Foram 500 mil cidadãos investigados pelos órgãos de segurança; 200 mil detidos por suspeita de subversão; 50 mil presos só entre março e agosto de 1964; 11 mil acusados nos inquéritos das Auditorias Militares, cinco mil deles condenados, 1.792 dos quais por “crimes políticos” catalogados na Lei de Segurança Nacional; dez mil torturados nos porões do DOI-CODI; seis mil apelações ao Superior Tribunal Militar (STM), que manteve as condenações em dois mil casos; dez mil brasileiros exilados; 4.862 mandatos cassados, com suspensão dos direitos políticos, de presidentes a governadores, de senadores a deputados federais e estaduais, de prefeitos a vereadores; 1.148 funcionários públicos aposentados ou demitidos; 1.312 militares reformados; 1.202 sindicatos sob intervenção; 245 estudantes expulsos das universidades pelo Decreto 477 que proibia associação e manifestação; 128 brasileiros e dois estrangeiros banidos; quatro condenados à morte (sentenças depois comutadas para prisão perpétua); 707 processos políticos instaurados na Justiça Militar; 49 juízes expurgados; três ministros do Supremo afastados; o Congresso Nacional fechado por três vezes; sete assembleias estaduais postas em recesso; censura prévia à imprensa, à cultura e às artes; 400 mortos pela repressão; 144 deles desaparecidos até hoje.

São fatos da história, que a Globo hoje diz reconhecer como uma dura verdade, mas que os generais ainda insistem em ignorar. Fizeram tudo aquilo e fingem que nada fizeram ou nada têm a desculpar. Tanto que, no início de 2011, o jornal O Globo revelou ao País um espantoso documento enviado pelos chefes militares ao ministro da Defesa criticando a discussão em torno da futura Comissão da Verdade. Usavam a borracha do tempo para tentar apagar o passado: “Passaram-se quase 30 anos do fim do governo chamado militar…”, gaguejaram os três comandantes das Forças Armadas no texto, escancarando a patológica dificuldade dos generais para identificar o “chamado governo militar” por sua denominação mais correta e menos cínica – uma ditadura, nua e crua.

A voz mais trovejante na defesa dos quartéis é um general de pijama, Leônidas Pires Gonçalves, 92 anos, ministro do Exército do governo Sarney, que amplificou as críticas que seus companheiros da ativa não podem fazer a uma possível revisão da Lei da Anistia, que garante impunidade aos torturadores: “Se quiserem fazer pressão no Supremo Tribunal Federal, o Poder Moderador tem de entrar em atuação no País”, disse o general em tom de ameaça, em maio de 2012, à repórter Tânia Monteiro, de O Estado de S.Paulo. O pândego ex-ministro não fazia, aqui, uma menção nostálgica à bonomia dos monarcas da Casa de Bragança, que ocupou no Império brasileiro a posição de árbitro entre os poderes para dar estabilidade política à Nação, até o advento da República. Debochado, Leônidas não clamava pelo império da moderação, mas brandia a ameaça da república da repressão, que quebrou a ordem constitucional em 1964 e impôs a anarquia ilegal da ditadura imoderada que prendeu, torturou, matou e desapareceu com seus opositores mais radicais.

Vala comum do arbítrio

Em abril de 2010, Leônidas chegou às raias do atrevimento, numa polêmica entrevista a Geneton Moraes Neto, da GloboNews. Deu ali uma inusitada definição para sua profissão: “O soldado é um cidadão de uniforme para o exercício cívico da violência”. Sem explicar onde escavou esse raciocínio que nivela todos os exércitos pela vala comum do arbítrio, o general ignorou os exemplos na história de forças armadas que se mobilizaram pela preservação de valores perenes da democracia e da civilização.

Um exército, esqueceu Leônidas, pode ser a reunião de homens fardados que lutam pelo exercício da liberdade contra o nazifascismo, como ocorreu com a FEB na Segunda Guerra Mundial. Pode, também, ser a força armada que se levanta em defesa da Constituição pela posse de João Goulart na Presidência, como fez o III Exército em 1961 ao cerrar fileiras com o governador Leonel Brizola e o povo gaúcho na vitoriosa Campanha da Legalidade. A força militar pode igualmente se alçar pela afirmação da autoridade constitucional do presidente, como fez o marechal Henrique Lott para sufocar a quartelada golpista de 1955 que tentava bloquear a posse de Juscelino Kubitschek.

Tiro e chocolate

A crença de Leônidas na violência cívica ainda hoje o faz duvidar do assassinato do jornalista Vladimir Herzog sob torturas no DOI-CODI de São Paulo, em 1975: “Eu não tenho convicção de que Herzog tenha sido morto… Um homem não preparado e assustado faz qualquer coisa. Até se mata”, filosofou na entrevista a Geneton Moraes Neto. O general sabe discernir muito bem o civismo alternado que trafega nos porões da repressão: “Na hora de dar chocolate, não se dá tiro. E, na hora de dar tiro, não se dá chocolate”.

Durante quase três anos de uma fase turbulenta da ditadura, de abril de 1974 a fevereiro de 1977, Leônidas foi o chefe do Estado-Maior do I Exército, sediado no Rio de Janeiro. Como tal, era o comandante imediato do DOI-CODI baseado no quartel da Polícia do Exército na afamada rua Barão de Mesquita, um dos endereços mais sinistros da repressão no Brasil. Quando o quartel general do I Exército esteve sob o comando do general linha dura Sylvio Frota, entre julho de 1972 e março de 1974, conforme apurou O Globo, o DOI-CODI carioca era um centro de morte. Naquele espaço de 21 meses morreram 29 presos em suas masmorras, então sob a administração do notório major Adyr Fiuza de Castro. Pois bastou que ele chegasse ali em abril de 1974, disse Leônidas, e a paz dos anjos se instalou naquele antro de terror. “Não houve tortura na minha área”, jurou o general na GloboNews.

Ao O Estado de S.Paulo, em 2012, em tom de desafio, o general exibiu as travas dos coturnos para se eximir: “Nunca apareceu nada, nem ninguém, que tivesse alegado ter sido torturado. Eu já desafiei que alguém se apresentasse na TV e nunca apareceu nada”. Não apareceu, talvez, porque os desaparecidos jamais reapareciam. De acordo com o Dossiê Ditadura – Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil 1964-1985, publicado em 2009, a lista oficial de 138 desaparecidos políticos no País registrava 31 nomes que se evaporaram no Rio de Janeiro entre 1970 e 1978. Desses, seis desapareceram justamente nos anos de 1974 e 1975, quando o DOI-CODI do Rio estava sob o comando direto do general Leônidas. Integram a lista Armando Teixeira Frutuoso, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, Jayme Amorim Miranda, Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior, Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto e Eduardo Collier Filho.

Em 1971, quatro anos antes de o general assumir o I Exército, sumiram outros dez militantes da lista de 31 desaparecidos do Rio, incluindo o deputado Rubens Paiva e Stuart Edgar Angel Jones, 26 anos, filho de Zuzu Angel. A estilista de renome nos Estados Unidos, passou os cinco anos seguintes denunciando ao mundo a responsabilidade direta da ditadura brasileira no desaparecimento de Jones, visto na base aérea do Galeão sob torturas aplicadas pelo CISA, o serviço secreto da Aeronáutica.

Incansável, Zuzu buscou a verdade até a madrugada em que o carro que dirigia sozinha, um Karmann Ghia, capotou no túnel Dois Irmãos e despencou na ladeira da Estrada da Gávea, matando-a na hora – um acidente forjado pelo DOI-CODI carioca, conforme denúncia do ex-delegado Cláudio Guerra no livro Memórias de uma Guerra Suja. Em 14 de abril de 1976, data da morte de Zuzu Angel, o DOI-CODI do I Exército estava sob a responsabilidade do general Leônidas. Uma semana antes do acidente, Zuzu deixara na casa do compositor Chico Buarque de Holanda um documento em que escreveu: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.

Roubo de bebês

Nunca apareceram os assassinos de Zuzu, muito menos o cadáver de Jones. E o Brasil, sede da mais longa ditadura da região (com exceção do recordista Alfredo Stroessner, que aterrorizou o Paraguai entre 1954 e 1989), continua sendo uma fortaleza inexpugnável de impunidade para quem matou e torturou sob o manto do Estado autoritário de 1964. Até hoje, não existe um único militar brasileiro condenado ou responsabilizado por abusos ou crimes de lesa-humanidade. Bem diferente da vizinha Argentina, que teve uma ditadura mais expedita (1976-1983) e mais letal, com cerca de 30 mil vítimas, entre mortos e torturados, incluindo 500 bebês sequestrados pelos algozes entre as grávidas presas e desaparecidas. Lá, mais de dois mil agentes públicos – entre militares, policiais e civis envolvidos com o terrorismo de Estado – foram denunciados: 400 receberam sentenças, mais de 300 foram condenados. Entre eles, três generais-presidentes do ciclo militar.

Jorge Videla, que liderou o golpe contra Isabelita Perón em 1976, morreu na cadeia em maio passado, aos 87 anos, cumprindo uma pena de prisão perpétua e outros 50 anos por roubo de bebês. Leopoldo Galtieri morreu dez anos atrás em prisão domiciliar, aos 76 anos. Reynaldo Bignone, o último presidente da ditadura, hoje com 85 anos, foi condenado em março à prisão perpétua.

Videla, um ano antes de morrer, admitiu ao jornalista argentino Ceferino Reato ser o responsável pelas mortes e desaparecimentos forçados de sete mil a oito mil pessoas. Com uma franqueza que deve espantar as sonsas autoridades brasileiras, fardadas ou não, que sempre dizem que nada sabem, o general assumiu o pleno domínio dos fatos: “Eu sabia tudo o que estava acontecendo e autorizei tudo. Carrego um peso na alma, mas não estou arrependido de nada”.

Videla ganhou a pena de prisão perpétua pela morte comprovada de 31 pessoas. Nenhum general brasileiro, de farda ou de pijama, teve a coragem de um mea culpa assemelhado ao do general argentino ou sequer passou pelo constrangimento de um processo parecido. O exemplo mais próximo no Brasil é o de um coronel, Carlos Alberto Brilhante Ustra, que montou e comandou o mais sinistro centro de tortura do país: o DOI-CODI da rua Tutoia, subordinado ao II Exército, em São Paulo.

Ustra foi denunciado por ocultação de cadáver pelo Ministério Público e, segundo a Comissão Nacional da Verdade, 50 presos (19 a mais do que os mortos que levaram Videla à prisão perpétua) morreram na Tutoia sob a administração de Ustra, que ali reinou entre setembro de 1970 e janeiro de 1974. Nessa conta, ao longo desses 40 meses de terror, a taxa de mortalidade na Tutoia chegava a 1,2 preso por mês. Ao contrário do general argentino, contudo, o coronel brasileiro chutou para cima a responsabilidade do que fazia, acusando genericamente seus superiores, com o cuidado de não nominar ninguém.

“Eu era um agente do Estado, comandante de uma unidade militar dentro da cadeia de comando. Durante meu comando, nunca fui punido, nunca fui repreendido, recebi os melhores elogios da minha vida militar”, esbravejou Ustra, em maio passado, convocado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV). “Quem tem de estar aqui é o Exército brasileiro, que assumiu por ordem do presidente da República a tarefa de combater o terrorismo.” Foi contestado pelo ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles, então um dos sete comissários da CNV, que ensinou ao coronel de 81 anos que ninguém pode cumprir ordens ilegais: “Está no nosso direito penal que só se desculpa uma pessoa quando a ordem que ela recebe e cumpre não é manifestamente ilegal. Ordem de torturar, de matar, de fazer desaparecer, isso é manifestamente ilegal”, explicou o ex-procurador.

A rua Tutoia e o coronel Ustra remetem a uma tragédia ainda maior: a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A maior catástrofe do planeta envolveu 100 milhões de militares de 72 nações dos cinco continentes, matando 76 milhões de pessoas (as populações somadas de Argentina, Portugal, Chile e Grécia), 67% delas civis e mutilando quase 30 milhões. O acerto de contas ao final da guerra veio pela justiça: o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg gastou 285 dias de julgamento para ouvir 240 testemunhas e anotar 300 mil declarações, gerando um sumário de quatro bilhões de palavras. A acusação final de 25 mil páginas aos principais dirigentes nazistas condenou 12 à morte, três à prisão perpétua e outros três a penas entre 10 e 20 anos de cadeia. Três foram absolvidos.

A defesa dos nazistas alegou em Nuremberg o mesmo ponto levantado em Brasília pelo coronel da Gestapo brasileira: a “obediência devida a ordens superiores”. Nuremberg cravou para sempre, na consciência do mundo civilizado, a noção pioneira de que os fundamentos da pessoa humana estão acima das circunstâncias políticas e além das fronteiras nacionais.

Do general-presidente ao porteiro do DOI-CODI, passando pelo coronel Ustra, ninguém está obrigado a cumprir ordens imorais e inaceitáveis pela consciência – muito menos torturar, matar e forçar o desaparecimento. Nem o texto arbitrário do AI-5, o mais violento dos 17 atos institucionais que tentaram dar uma fachada de legalidade ao regime, concedia aos agentes públicos brasileiros a licença para matar, como a um James Bond, ou simplesmente torturar, como a um chefe do DOI-CODI.

O coronel Ustra, transformado em símbolo vivo do terror de Estado que caracterizou a face mais dura do regime a que ele serviu com a lealdade de um rottweiler, não pode se desculpar alegando sua condição de fiel “cumpridor de ordens do presidente da República”. Nem ele, nem o presidente, que na ditadura foi sempre um general de quatro estrelas, podem se eximir de suas responsabilidades. Se não for por razões de consciência, pode ser por mero cumprimento a uma lei que todo oficial tem o dever de cumprir: o Estatuto dos Militares, regulamentado justamente pelo governo Figueiredo. A lei no 6.880, aprovada pelo Congresso em 9 de dezembro de 1980, prevê no estatuto a Seção II do Capítulo I (“Das Obrigações Militares”) um item pouco conhecido da carreira: “Da Ética Militar”.

O inciso I do Art. 28 do Estatuto dos Militares, aprovado pelo último presidente da ditadura, estabelece o primeiro preceito da ética militar: “Amar a verdade e a responsabilidade como fundamento de dignidade pessoal”. O inciso III do Estatuto dos Militares determina: “Respeitar a dignidade da pessoa humana”. O general-presidente que assinou a lei em 1980 foi nomeado dez anos antes chefe do Gabinete Militar do general Garrastazu Médici, o comandante-supremo que, conforme o coronel Ustra, ordenou ao Exército “combater o terrorismo”. Quando Figueiredo era o principal assessor militar do Planalto de Médici, Ustra era o senhor da vida e da morte no centro de terror da rua Tutoia. Todos, portanto, tinham o domínio dos fatos.

Justiça de transição

A mentalidade dominante dos generais brasileiros, contudo, rechaça qualquer avaliação do passado recente, escorregando pelo raciocínio simplório e fácil do “revanchismo”. Eles ignoram, talvez por razões subalternas, o princípio jurídico internacional de accountability, a devida prestação de contas exigida pelas sociedades que trafegam da ditadura para a democracia. É a justiça de transição que, na definição do Conselho de Segurança da ONU, engloba mecanismos e estratégias, judiciais ou não, para avaliar o legado de violência do passado, atribuir responsabilidades, tornar eficaz o direito à memória e à verdade, fortalecer a democracia e garantir que não se repitam as atrocidades.

Estranhamente, os três comandantes das Forças Armadas brasileiras teimam em sufocar o passado, esquecidos de que eles nada têm a ver com os excessos cometidos há mais de 40 anos por militares que mancharam a farda e a história de suas corporações. Preferem ser solidários aos abusos cometidos por camaradas que desrespeitaram a Constituição e até o exclusivo Estatuto dos Militares, em vez de fazer o necessário mea culpa de transcendência e de peso moral que os reconciliaria com a História, com a Nação e com o futuro.

Poderiam aprender com o ex-procurador Cláudio Fonteles, que destaca: “Exército, Marinha e Aeronáutica são instituições fundamentais para a democracia. As instituições militares não estão em julgamento, mas sim os maus agentes públicos que denegriram o nome dessas instituições”.

O general Enzo Martins Peri (72 anos), o almirante Júlio Soares de Moura Neto (70) e o brigadeiro Juniti Saito (70), como as tropas que hoje comandam, nada têm a ver com as truculências cometidas no regime que derrubou Jango e a democracia. Ao contrário dos camaradas que hoje protegem, o trio de comandantes tem ficha limpa para avaliar com isenção os crimes cometidos no passado. Todos os três chegaram ao generalato no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1995, quando a ditadura já era defunta havia uma década.

O general Peri alcançou o topo da carreira sem nunca ter sujado as mãos com violações aos direitos humanos. Ele vem de um ramo técnico da força terrestre, a Engenharia, e era um segundo-tenente de 23 anos quando irrompeu o golpe de 1964. Entre a derrubada de Jango e a edição em 1968 do AI-5, Peri hibernou em um asséptico batalhão de engenharia no Rio de Janeiro. Teve uma rápida passagem pela 2a Seção (área de informação) do discreto 1o Grupamento de Engenharia e Construção de João Pessoa, na Paraíba. Atravessou ileso a turbulenta década de 1970.

Seus outros dois companheiros de comando desfrutam da mesma presunção de inocência. O almirante Moura Neto completou 21 anos apenas 11 dias antes do golpe de 31 de março. Só cinco meses após a queda de Jango é que ele vestiu, pela primeira vez, a farda de guarda-marinha. Nos anos cinzentos da década de 1970, manteve sua ficha alva como seu uniforme de capitão de corveta. O brigadeiro Saito virou aspirante da FAB apenas no final de 1965, 19 meses após o golpe militar. Chegou a capitão em 1971 e terminou a década maldita como major, sem sobrevoar a área mais turbulenta da Força Aérea, liderada pelo brigadeiro e radical João Paulo Burnier. Foi promovido a coronel em 1988 no Governo Sarney e chegou a brigadeiro em 1995 com FHC.

Nada justifica, portanto, a solidariedade corporativa do trio de comandantes para com velhos companheiros de pijama ou já mortos que mantêm insepulta a ideia de que as Forças Armadas na democracia são uma extensão dos porões das Forças Armadas da ditadura.

O mea culpa dos militares continua uma inviabilidade porque eles insistem em perpetuar, para as novas gerações, uma história que afronta a verdade e ofende a memória. Os 14 mil alunos hoje matriculados em 12 escolas militares de dez Estados diferentes estão expostos a livros didáticos que, segundo a Comissão Nacional da Verdade, omitem fatos e distorcem informações históricas fundamentais para que os alunos compreendam o período da ditadura. Uma fornecedora confiável, a editora da Biblioteca do Exército (Bibliex), é quem publica os livros da chamada Coleção Marechal Trompowsky, que não passaram pela avaliação do Plano Nacional do Livro Didático. Em uma das obras, História do Brasil: Império e República, escrita por Aldo Fernandes, Maurício Soares e Neide Annarumma, destinada aos alunos do 7o ano do Ensino Fundamental, o golpe de 1964 é apresentado como “uma revolução democrática”, promovida por “grupos moderados e respeitadores da lei e da ordem”.

Mentiras no currículo

Mais do que transgredir, o livro mistifica a história, mentindo aos alunos das escolas militares ao dizer que o general Castelo Branco foi empossado na Presidência só porque o Congresso declarou o cargo vago diante da ausência do País de João Goulart. A verdade é que, na madrugada de 2 de abril de 1964, Jango ainda estava em Porto Alegre, discutindo a reação ao golpe. O embuste ficou eternizado na manchete daquele dia de O Globo, que sem qualquer mea culpa engambelava seus leitores: “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restabelecida”. No mesmo 2 de abril, o Jornal do Brasil desmentia o concorrente: “Goulart resiste no Sul e o Congresso empossa Mazzili”.

A falcatrua histórica, ensinada nas escolas dos futuros generais, foi anulada na madrugada do dia 21 de novembro de 2013, com a aprovação pelo Congresso de resolução dos senadores Randolfe Rodrigues (PSOL) e Pedro Simon (PMDB) que revoga o conluio de militares e parlamentares golpistas, devolvendo simbolicamente o mandato usurpado a João Goulart, o 24o presidente da República do Brasil. Assim, tecnicamente, o general Castelo Branco acaba de ser rebaixado do posto de governante legalmente empossado, para se tornar um raso ditador entronizado pelas artimanhas parlamentares do golpe civil-militar que liderou.

Outra grossa mentira no currículo militar é o capítulo do livro 500 Anos de História do Brasil que fala sobre a Guerrilha do Araguaia, um foco de insurreição instalado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) nas selvas da fronteira entre Pará, Maranhão e Tocantins, entre 1972 e 1975. Eram 69 militantes e outros 20 moradores da região alistados no movimento. Foram combatidos em três campanhas militares, envolvendo um total de dez mil homens, a maior concentração de tropas brasileiras desde a Segunda Guerra Mundial. O livro informa: “A luta durou dois anos… os líderes conseguiram fugir”. Não conta que a maioria dos guerrilheiros, cerca de 70 pessoas, entre combatentes e moradores, foram presos, torturados, executados e desaparecidos na mata fechada. Integram oficialmente a maior parte da lista de desaparecidos da ditadura e, por conta da repressão no Araguaia, o Brasil foi denunciado e condenado em 2010 pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) por se valer da Lei da Anistia como pretexto para não julgar os militares envolvidos nos abusos da repressão à guerrilha.

O governo nem pode alegar que tudo isso foi um simples descuido. Em 2010, a Associação Nacional de História (ANPUH) enviou carta ao MEC, à Casa Civil e ao então ministro da Defesa Nelson Jobim denunciando as falhas históricas dos livros. “Que cidadãos estão sendo formados por uma literatura que justifica, legitima e esconde o arbítrio, a tortura e a violência?”, perguntou a ANPUH. Em agosto de 2011, um ano depois, o porta-voz da Defesa finalmente respondeu, dizendo que o livro que traveste a ditadura de 1964 em “revolução democrática” tem uma linha didático-pedagógica que “atende adequadamente às necessidades do ensino da História”. Sobre as necessidades da verdade, nada foi dito.

É ilusório acreditar em um mea culpa do trio de comandantes quando se sabe que os militares insistem em negar a verdade que eles e todos nós conhecemos. O melhor exemplo é o atentado do Riocentro, um show musical em homenagem ao Dia do Trabalhador, na noite de 30 de abril de 1981, com roteiro de Chico Buarque e a presença de artistas como Paulinho da Viola, Gal Costa, Ney Matogrosso, Gonzaguinha e Clara Nunes, que atraíram mais de 20 mil pessoas ao local. Por volta das 21 horas, no estacionamento do pavilhão, uma bomba explodiu antes do tempo em um Puma dirigido por Wilson Luiz Chaves Machado, com um passageiro ao lado, Guilherme Pereira do Rosário. O motorista era capitão do Exército e o passageiro, sargento. Ambos trabalhavam no braço terrorista da força, o DOI-CODI do I Exército. O capitão era o chefe da Seção de Operações do destacamento e sobreviveu com as vísceras de fora. O sargento morreu na hora, com a bomba no colo. O atentado foi planejado pelo coronel Freddie Perdigão, chefe da Agência do SNI.

Bate, espanca

A bomba intempestiva que poderia ter provocado a maior tragédia terrorista do país explodiu também as entranhas do regime. Provocou a renúncia do chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva. Implodiu o sonho do chefe do SNI, general Octávio Medeiros, de ser o sexto presidente militar da ditadura. Enfartou o miocárdio do presidente da República, general João Figueiredo, cinco meses e meio após o atentado. Dezoito anos mais tarde, o capitão terrorista foi finalmente indiciado por homicídio qualificado pela morte do sargento, mas teve seu caso arquivado no Superior Tribunal Militar (STM), que generosamente o enquadrou na Lei de Anistia, que cobria episódios até 15 de agosto de 1979. O atentado só aconteceu 20 meses depois, em abril de 1981. Apesar das bombásticas circunstâncias de sua carreira, o capitão chegou a coronel e foi condecorado com uma cadeira de professor no Colégio Militar de Brasília.

Parece pouco realista acreditar no mea culpa de generais em um país que camufla um capitão terrorista como professor de escola. Em julho de 2012, o jornalista Ilimar Franco, de O Globo, descreveu a cena de um alegre grupo de homens, jovens e sarados, que corria pelas ruas do bairro carioca da Tijuca, em marcha sincronizada, cantando o seguinte:

– Bate, espanca/ Quebra os ossos/ Bate até morrer.
– E a cabeça? – perguntava o chefe do bando.
– Arranca a cabeça e joga no mar! – era a resposta, em coro.
– E quem faz isso?– indagava o chefe, outra vez.
– O Esquadrão Caveira! – respondia o grupo, exultante e afinado.

O grupo de garotões integrava um animado pelotão do I Batalhão da Polícia do Exército berrando a plenos pulmões o ideário truculento que devem ter contraído em seu local de trabalho. A PE funciona até hoje na rua Barão de Mesquita, o notório endereço do DOI-CODI carioca, que há 32 anos abrigava uma Seção de Operações chefiada pelo capitão Wilson Machado – o terrorista do show do Rio de Janeiro transformado em mestre em Brasília.

Apesar do fim da ditadura e da plena democracia que vive o país há 28 anos, persiste uma forte herança do regime militar no sistema público de educação. Uma em cada três escolas que homenageiam governantes traz o nome de um dos cinco generais-presidentes. Um espantoso levantamento realizado pelo O Globo em agosto passado mostra que, das 3.135 escolas públicas que honram ex-dirigentes da República, 976 trazem os nomes dos generais da ditadura. O primeiro deles, Castelo Branco, tem o nome na fachada de 464 escolas. O segundo, Costa e Silva, que assinou o AI-5, é homenageado com seu nome em 295 escolas. O ditador da fase mais sanguinária, Garrastazu Médici, batiza 160 unidades escolares.

Nos prédios onde aprendem nossas crianças, poucos lembram o presidente deposto em 1964. João Goulart carrega o nome em 11 escolas brasileiras. Seis delas estão em seu Estado natal, o Rio Grande do Sul. Quatro estão no Rio de Janeiro, que no Governo Brizola concedeu seu nome à via expressa mais conhecida como Linha Vermelha. Apenas 15 cidades, entre os 5.564 municípios brasileiros, possuem uma rua ou avenida com o nome de Goulart.

Poder civil

Enquanto isso, a Argentina faz o inverso – e faz o certo. Lá, o Ministério da Defesa do governo de Cristina Kirchner começou uma profunda reforma nas escolas militares, modificando bibliografias, alterando currículos e incorporando novas matérias e conceitos sobre a história argentina, a teoria do Estado e os direitos humanos. Os cadetes argentinos agora vão ler também livros escritos por ex-presos políticos e até por velhos combatentes de guerrilhas da esquerda, como os Montoneros. Essa ousada afirmação do poder civil sobre o militar começou há oito anos, quando o presidente Néstor Kirchner botou uma mulher no Ministério da Defesa, a advogada de presos políticos Nilda Garré. Eleita deputada aos 28 anos, em 1973, ela assumiu o comando das Forças Armadas em 2005, brecando a promoção de militares envolvidos com crimes de lesa-humanidade e iniciando a reforma dos currículos militares. Coisa que no mundo sem mea culpa dos generais brasileiros parece impensável.

É difícil imaginar o nosso comandante do Exército, Enzo Martins Peri, imitando o gesto corajoso de seu confrade Martin António Balza, comandante do Exército argentino entre 1991 e 1999, nos dois mandatos de Carlos Menem. Como tenente-coronel e especialista em guerra de montanha, Balza comandou um grupo de artilharia na malograda Guerra das Malvinas, em 1982. Foi preso pelos ingleses e, pela bravura que Galtieri e os generais de Buenos Aires não tiveram, recebeu a Medalha de Mérito do Exército. Seu ato mais notável, no entanto, foi a aparição que fez na noite de 25 de abril de 1995 no programa de entrevistas mais importante da TV argentina, Tiempo Nuevo, apresentado pelo jornalista Bernardo Neustadt.

Com o uniforme cáqui de comandante e os cabelos brancos aos 61 anos, o general Balza iniciou um inesperado mea culpa que emocionou o país, ainda traumatizado pelos 18 mil desaparecimentos oficialmente reconhecidos (30 mil para entidades de direitos humanos) nos anos da “guerra suja”, entre 1976 e 1983. Tirou um papel do bolso, botou os óculos e com voz firme, carregada de convicção, o general Balza leu um texto emocionante que poderia ser lido, tal e qual, pelo general Peri. Falou Balza:

– O Exército, instruído e adestrado para a guerra clássica, não soube como enfrentar com a lei plena o terrorismo demencial. Este erro o levou a privilegiar a individualização do adversário, sua localização acima da dignidade mediante a obtenção, em alguns casos, da informação por métodos ilegítimos, chegando inclusive à supressão da vida, confundindo o caminho que leva a todo fim justo e que passa pelo emprego de meios justos. Uma vez mais reitero: o fim não justifica os meios. (…) Assumo toda a responsabilidade do presente e toda a responsabilidade institucional do passado.

Achado macabro

O texto integral do general Balza tinha 92 linhas, quase duas vezes mais do que a circular “reservada” do general Castelo Branco na véspera do golpe, cinco vezes mais extensa do que a épica fala de Lincoln em Gettysburg. Pela grandeza, pelo sentimento, pela densidade, pela visão de futuro, o histórico pronunciamento do general argentino tem muito a ver com a ode democrática do presidente americano e nada a ver com o viés golpista do general brasileiro.

Se o exemplo digno do argentino Balza não emocionar o brasileiro Peri, talvez lhe sirva a atitude destemida de outro companheiro de armas, de outra ex-ditadura vizinha. O general Pedro Aguerre Siqueira tinha apenas 58 anos quando assumiu o comando do Exército do Uruguai, em 31 de outubro de 2011, reconhecendo as feridas abertas da tropa com o seu país: “Evidências do passado afetam moralmente a força e seus integrantes”, disse, no discurso de posse. Completou: “É necessário mirar o futuro e que não sejam as mulheres e os homens, atuais integrantes deste Exército, reféns de fatos lamentáveis ocorridos há 30 anos”. Um achado macabro e imprevisto, porém, mudaria a história do país e transformaria a biografia de Aguerre. Em 21 de outubro, dez dias antes de Aguerre assumir o comando, uma equipe de antropólogos localizou a ossada de um homem de cerca de 70 anos ao escavar o quintal do Batalhão de Paraquedistas no 14, na cidade de Toledo, a uns 30 km do centro de Montevidéu, a capital uruguaia.

Telefonemas nervosos cruzaram o pequeno país entre as famílias dos 200 desaparecidos durante a ditadura (1973-1985), dos quais apenas quatro foram localizados, todos desencavados em prédios militares. De repente, cresceu o boato de que a ossada de Toledo pertencia a um deles, até que a confirmação final chegou ao meio-dia de uma quinta-feira, 1o de dezembro de 2011, com o exame de DNA. Não se tratava de apenas mais um desaparecido uruguaio, mas era talvez o mais famoso deles: o professor e jornalista Julio Castro, sequestrado aos 68 anos por militares em agosto de 1977. Educador e teórico respeitado, uma espécie de Paulo Freire uruguaio, Castro foi um dos fundadores do mítico semanário Marcha, fechado pela ditadura já em 1974, um ano após o golpe. A reaparição de Julio Castro chocou o país, traumatizado com os detalhes de sua morte: ele foi executado com um tiro na testa, com as mãos amarradas às costas, os tornozelos imobilizados por um arame.

Contrariando o manto de silêncio que costuma envolver a corporação nesses momentos, o general Aguerre convocou uma entrevista coletiva. Falou Aguerre:

– O Exército nacional não aceitará, não tolerará, nem acobertará homicidas ou delinquentes em suas fileiras. Aquele que está falando com vocês comete erros diariamente, como qualquer ser humano, mas hoje estamos falando de crimes. Essa é uma linha que esse Comandante e seu Exército não cruzarão. Não tenho conhecimento de um pacto de silêncio para acobertar crimes dentro da Força que comando e, mesmo desconhecendo se existiu ou ainda existe até hoje tal pacto, neste momento dou a ordem de sua suspensão imediata.

O argentino Balza e o uruguaio Aguerre são raros exemplos de soldados sem vínculos orgânicos com as corporações que se desviaram de sua missão constitucional, mas com uma clara visão sobre os deveres das Forças Armadas na reconstrução de uma Nação que emerge da ditadura para a democracia. Nenhum deles tenta justificar os erros do passado pela teoria tola do general Leônidas sobre o soldado predestinado ao “exercício cívico da violência”. Nem procuram se eximir de suas responsabilidades, como demonstrou aos berros o coronel Ustra, acusando o próprio Exército.

No Brasil, a hegemonia militar ainda é muito forte. As três forças só perderam o status de Ministério no segundo governo FHC, em 1999, 14 anos depois que o último general-presidente deixou o Palácio do Planalto pela porta dos fundos. Os ministros militares tornaram-se apenas comandantes, chefiados por um civil no posto de Ministro da Defesa. Desde o primeiro ministro, o senador Élcio Alvarez, até o atual, embaixador Celso Amorim, passaram pela Defesa sete ministros no decorrer desses 14 anos, um tempo médio de 25 meses no posto para cada um, ao longo de um governo do PSDB (FHC) e três do PT (dois com Lula, um com Dilma). O mais fugaz, o primeiro, resistiu sete meses como ministro. O mais longevo, Nelson Jobim, sobreviveu 49 meses, somando quase todo o segundo Governo Lula e metade do primeiro ano de Dilma no Planalto.

Sua longevidade pode ser explicada, talvez, pela profunda empatia que estabeleceu com a caserna. Os quartéis adoravam ver a enorme figura de Jobim, com seu corpanzil de 1,90 m e 120 kg enfiado em uniformes de camuflagem para combate na selva, posando orgulhoso para fotos com sucuris de 8 m de comprimento ou alisando com destemor uma onça-pintada devidamente acorrentada. Mas não era só a pantomima de guerra de Jobim que seduzia os quartéis. Ele, de fato, era um ministro de defesa dos militares, mais do que um Ministro de Estado da Defesa.

Foi ao ministro Nelson Jobim que os comandantes militares reclamaram em documento reservado, publicado em março de 2011 pelo O Globo, sobre as movimentações do governo para instalar a Comissão da Verdade, alegando que já tinham decorrido três décadas do “chamado governo militar”… Em vez de condenar o cinismo de seus comandados, Jobim tornou-se o porta-voz da insatisfação militar junto ao Planalto. E, sempre que podia, calçava o coturno pesado das posições castrenses. Repetia, sempre que perguntado, que não havia o que garimpar nos arquivos militares sobre a ditadura.

Documentos “consumidos”

“Não há documentos (sobre o governo militar). Nós já levantamos e não têm. Os documentos já desapareceram, foram consumidos (sic) à época”, disse o conformado Jobim ao repórter de O Estado de S.Paulo, sem esclarecer quem e como “consumiu” (?) documentos relevantes de uma fase decisiva de nossa História. Em julho de 2011, algo ainda mais grave ocorreu. O jornal Correio Braziliense noticiou que sumiram os documentos funcionais do tenente-coronel reformado Maurício Lopes Lima, alvo de uma ação civil pública na 4a Vara Cível de São Paulo. Ele e mais três oficiais são acusados pela morte, em 1971, na OBAN (Operação Bandeirante, centro da repressão no II Exército) de seis presos políticos e pela tortura em 20 guerrilheiros – entre eles uma jovem de 22 anos da VAR-Palmares, codinome “Estela”, chamada Dilma Rousseff.

Instado, o Ministério da Defesa do ministro Jobim informou ao Ministério Público Federal que os documentos que poderiam atestar o envolvimento do oficial Lopes Lima na tortura à guerrilheira Dilma – hoje comandante-suprema das Forças Armadas – simplesmente sumiram. A Defesa de Jobim deu uma cândida explicação à Justiça: “Vários dos possíveis documentos referentes aos acontecimentos mencionados, bem como os eventuais termos de destruição foram destruídos (sic)”. Ou seja, a destruição foi autorizada (por quem?), e os documentos que atestavam a estranha liberalidade acabaram também curiosamente destruídos (por quê?)… É fácil, portanto, entender por que Jobim durou tanto na pasta da Defesa dos militares. O general Leônidas Pires Gonçalves, o ministro do Exército de Sarney que hoje ecoa a linha dura de pijama e pantufas, usou O Estado de S.Paulo, em 2012, para atacar a presidenta Dilma (“deveria ter a modéstia de esquecer o passado e olhar para a frente”) e a Comissão Nacional da Verdade (“uma moeda falsa, que só tem um lado”), mas teve o cuidado de exaltar o ex-ministro Nelson Jobim: “Ele se colocava”, lembrou o general, agradecido.

É pouco realista esperar um mea culpa dos generais ao constatar a indisfarçável dificuldade que os militares, passadas quase três décadas do fim do regime autoritário, ainda demonstram para aceitar a supremacia do poder civil. Sempre que podem, nas circunstâncias possíveis, os comandantes e seus arautos mostram o desconforto com a prevalência da autoridade civil, norma essencial dos regimes democráticos. Uma das mais recentes demonstrações do gênero coube ao general Carlos Bolivar Goellner, que representava o Exército brasileiro em São Borja, quando os restos mortais de Jango voltaram à cidade, com honras militares, na sexta-feira 6 de dezembro. Na ocasião, o general negou que a cerimônia fosse uma retratação histórica com Jango: “Nenhum erro histórico. A história não comete erro”.

Outros dois fatos exemplares ilustram bem a renitência ainda forte nos quartéis para se subordinar ao mundo paisano.

No século passado, a influência dos Estados Unidos era forte no pensamento militar do continente – especialmente nas quatro principais ditaduras do Cone Sul. Em três décadas, no período 1950-1979, as academias militares estadunidenses foram frequentadas por 8.659 brasileiros, 6.883 chilenos, 4.017 argentinos e 2.806 uruguaios. Em 1946, o Exército dos Estados Unidos instalou em Fort Gulick, na Zona do Canal do Panamá, então território estadunidense, o Centro de Treinamento do Caribe do Exército norte-americano (US Army Caribbean Training Center). Um ano antes do golpe no Brasil, em 1963, o lugar foi renomeado como Escola das Américas (School of Americas – SOA). Seria daí o mais avançado centro do continente para a instrução de cursos de inteligência, interrogatório e combate à insurgência que desafiava Washington, ainda mais sobressaltada a partir da eclosão em 1959 de uma revolução socialista a 145 km do litoral da Flórida, com a chegada ao poder de Fidel Castro e seus barbudos em Cuba.

Nas três décadas seguintes, sob o álibi da ameaça comunista, passou pela Escola das Américas um exército de 60 mil militares latino-americanos, que ali aprenderam as técnicas e assumiram as fobias que os levariam aos golpes militares e aos centros de tortura que disseminaram pela América Latina. Por lá transitaram 332 militares brasileiros – 325 alunos e sete instrutores, que brilharam nos cursos de Operações de Selva, Interrogatório de Inteligência Militar e Operações Psicológicas. Vinte e um deles acabariam despontando na galeria de torturadores da ditadura brasileira.

Recado adicional

São números eloquentes por si. Em março passado, como seria natural, a Comissão Nacional da Verdade preparou uma minuta solicitando oficialmente a lista de brasileiros que passaram pela SOA entre 1963 e 1984. A comissão queria saber a hierarquia de cada militar brasileiro, tipo e duração do curso e a respectiva lotação e posto, no Brasil, quando esses professores e alunos egressos da SOA retornaram ao País. O pedido foi apresentado ao Ministério da Defesa em abril e formalizado em maio de 2013. Passaram-se um, dois, três meses, até que o comando da Força respondeu informalmente em meados de agosto passado, via Defesa: “O Exército não dispõe desses dados sistematizados”. Um recado adicional tentava mostrar o suposto absurdo do pedido da CNV: “A única maneira de obter esses dados seria acessando a ficha individual de cada militar, o que tornaria o trabalho inviá­vel”. Simples assim.

Outro episódio, nada honroso, sobre a arrogância remanescente do pensamento militar em plena democracia ocorreu no início de 2012 por obra e graça do Centro de Informações do Exército (CIE), que fez e aconteceu na ditadura. Distante pouco mais de 8 km do Palácio do Planalto, a sede do serviço secreto da força terrestre fica no Setor Militar Urbano, ao lado do notório Pelotão de Investigações Criminais (PIC), que integra o Batalhão de Polícia do Exército. No PIC foi torturado em agosto de 1968 um estudante de 25 anos da Universidade de Brasília, Cláudio de Almeida. Na cela, foi acareado com um amigo ainda mais jovem, Honestino Guimarães, um líder estudantil de 21 anos, que estava pálido, cheio de hematomas, boca machucada, olhos roxos. Cláudio se lembra das palavras do coronel, ao colocá-los lado a lado: “Está vendo aí? Olha o líder de vocês. Está todo cagado, olha o que virou. Não aguenta uma porrada!”.

Exigiram que Honestino revelasse quem era Cláudio, qual o seu grupo. Foi espancado e passou por afogamentos, porque não falava nada. A sessão de tortura durou horas: “E ele não abriu a boca. Nem olhava para mim. Ficava com um olhar perdido. Era um menino. E não falava”, lembrou em outubro passado Cláudio, hoje com 70 anos, em um emocionado depoimento à repórter Ana Pompeu, do Correio Braziliense. Quatro meses depois, com a edição do AI-5, Honestino caiu na clandestinidade da luta política contra a ditadura. Ainda escondido, foi eleito presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), até ser preso no Rio de Janeiro, em outubro de 1973, pelo CENIMAR, o serviço secreto da Marinha. Aparentemente voltou ao PIC, em Brasília, de onde sumiu para sempre, transformado em um dos mais emblemáticos desaparecidos da ditadura.

O ministro da Defesa, Celso Amorim, esteve ali, ao lado do PIC, no início de 2013, em uma visita de serviço ao CIE. Convidado para um evento interno do serviço secreto, Amorim chegou acompanhado de alguns assessores civis de seu staff. A comitiva foi barrada na entrada do prédio, por um general que entrou de coturno no tema: “Aqui não entra civil. Só ministro”. E Amorim, sem um ai, teve de se livrar de seus assessores para adentrar o recinto da sigla que marcou o período mais trevoso da ditadura.

Faltou ao ministro da Defesa o discernimento para adotar uma de duas atitudes possíveis:

Alternativa 1: fazer valer sua autoridade e hierarquia, como superior dos três comandantes militares, e exigir imediatamente o acesso dos assessores que desfrutam de sua confiança.

Alternativa 2: cancelar a reunião, sair dali e tomar devidas e sumárias providências junto ao Comandante do Exército para punir o desrespeito e a insubordinação dos chefes do CIE.

No final de janeiro de 2002, quando os Estados Unidos viviam o auge da paranoia com os ataques de 11 de setembro, o chanceler brasileiro Celso Lafer, em visita oficial ao país, teve de tirar os sapatos uma, duas, três vezes nos aeroportos de Nova York e Washington, para atender ao rígido sistema antiterrorista adotado no país. Foi um episódio de humilhação que constrangeu publicamente o Brasil e o governo Fernando Henrique Cardoso. Uma década depois, o incidente com o ministro da Defesa na porta do CIE carrega a mesma dose de aviltamento e reflete igual servilismo, embora ainda seja um episódio desconhecido para o Palácio do Planalto, que provocará os desmentidos de praxe de Amorim, do CIE e do Exército.

O espantoso incidente com Amorim no CIE revela mais do pensamento autoritário que ainda sobrevoa cabeças estreladas da área militar. Fica claro em plena democracia que uma unidade militar, por mais secreta que seja, ainda não admite a hegemonia civil sobre seu espaço. Quando um general subverte a hierarquia e determina ao ministro da Defesa quem de sua comitiva pode ou não adentrar uma unidade militar, está apenas reafirmando a arrogância e a impunidade que definem a herança maldita que as Forças Armadas carregam. Neste cenário, não é ainda razoável imaginar que possamos um dia ouvir o mea culpa dos generais brasileiros.

Sinal amarelo

O mais provável é que, incapazes de reconhecerem suas culpas, os militares brasileiros comprometidos com os abusos da ditadura sejam compelidos a prestar contas à Justiça. É isso que explica a expressão cada vez mais carrancuda do trio de comandantes das Forças Armadas, em contraste com o sorriso contagiante do trio da Rede Globo, que fez o seu mea culpa. Os estrategistas militares já perceberam que têm pela frente uma batalha perdida: a iminente revisão da Lei da Anistia, última trincheira que lhes resta para tentar defender o bastião da impunidade. O sinal amarelo acendeu nos quartéis com a posse, em 17 de setembro passado, do novo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, um mineiro de 57 anos.

Rápido no gatilho, uma semana após assumir, Janot provocou uma dramática inflexão na política brasileira fazendo a Procuradoria-Geral da República (PGR) reconhecer, pela primeira vez, que a anistia pode ser revisada. O antecessor, Roberto Gurgel, agasalhava a opinião mais confortável aos quartéis, admitindo que a anistia “resultou de um longo debate nacional para viabilizar a transição entre o regime militar e o regime democrático atual”. Janot revirou essa concepção de pernas para o ar com seu parecer favorável à extradição para a Argentina do agente da Polícia Federal Manuel Alfredo Montenegro, acusado de torturar e matar três pessoas na ditadura e hoje refugiado em Itaqui, cidade gaúcha na fronteira com a Argentina. Janot acolheu a perspectiva de que o Direito Internacional Público resguarda os direitos básicos da população.

É a primeira vez, também, que o procurador-geral se posiciona em favor do acolhimento da sentença de dezembro de 2010 da Corte Interamericana de Direitos Humanos, integrante da Organização dos Estados Americanos (OEA), que condenou o Brasil por não investigar os crimes de tortura e desaparecimento forçado na repressão à Guerrilha do Araguaia. A sanção da OEA ao Brasil ocorreu porque o País usou a Lei da Anistia como pretexto para não apurar nada, nem punir ninguém. Em 2010, por sete votos a dois (Ricardo Lewandowski e Carlos Ayres Brito), o Supremo Tribunal Federal sustentou a tese equivocada, tão útil aos quartéis, de que a anistia brasileira era fruto de um “acordo histórico”, e tudo deveria ficar como está no reino da impunidade.

Basta atentar aos fatos, porém, para constatar a mentira conveniente que ainda hoje protege quem cometeu crimes de lesa-humanidade no Brasil. A anistia de 1979, ao contrário do que dizem os quartéis e suas vivandeiras, não é produto de um consenso nacional. É uma lei gestada pelo regime militar vigente, blindada para proteger seus acólitos e desenhada de cima para baixo para ser aprovada, sem contestações, pela confortável maioria parlamentar que o governo do general Figueiredo tinha na Câmara dos Deputados. Durante semanas, o núcleo duro do Planalto do general Figueiredo lapidou com esmero as 18 palavras do parágrafo 1o do Art. 1o da lei para infiltrar ali a expressão salvadora que abençoava todos os que cometeram “crimes políticos ou conexos com estes” e que não foram condenados. De forma ladina, decidiu-se que abusos de repressão eram “conexos” e, se um carcereiro do DOI-CODI fosse acusado de torturar um preso, ele poderia replicar que cometera um ato conexo a um crime político. Assim, em uma única e cínica penada, anistiava-se o torturado e o torturador.

A autoanistia sobreviveu até agora, mas pode estar com seus dias contados. Além do debate crescente sobre a verdade e da nova concepção do procurador-geral, crescem as evidência de que o Supremo Tribunal Federal pode sintonizar o Brasil com a consciência jurídica internacional. O reconhecimento de Janot de que crimes de tortura e desaparecimento forçado são imprescritíveis abre uma nova janela para a revisão da anistia, como pede a OAB, preservando a lei de 1979, mas excluindo de seus efeitos os agentes públicos que cometeram aqueles crimes de lesa-humanidade.
Exumação da verdade

Os militares se fiavam na fossilização da lei e na memória precária da sociedade. Isso está mudando. A começar pela Comissão Nacional da Verdade, hoje com uma segura maioria de quatro votos contra dois pela revisão da anistia. No final de novembro, o novo coordenador da CNV, Pedro Dallari, falou sobre o tema com uma clareza nunca antes explicitada pelos membros da comissão: “Com a informação da monstruosidade dos atos de violação, será inevitável uma rediscussão da lei”. Os únicos dois comissários da CNV alinhados aos generais, que ainda acham que nada deve mudar na lei, são José Paulo Cavalcanti e José Carlos Dias. Até o relatório final, previsto para o segundo semestre de 2014, ambos podem evoluir e seguir a maioria. A mudança de tom mais importante, contudo, acontece no plenário do Supremo Tribunal Federal. Três dos antigos ministros que se decidiram pela autoanistia dos quartéis, em 2010, já deixaram a Corte: Eros Grau, César Peluso e Ellen Gracie.

Seis dos 11 integrantes do STF não votaram na ação da OAB, que ainda não foi concluída à espera dos embargos de declaração. Agora, com o apoio da centena de Comissões da Verdade que vicejam pelo País, a OAB quer reforçar a causa, embalada pela mudança crucial do novo procurador-geral e pela condenação brasileira na corte da OEA. Os ventos são favoráveis. O mais novo ministro da Corte, Luís Roberto Barroso, em sua primeira entrevista ao assumir o posto, em junho, reconheceu que “em tese” a Lei da Anistia poderá ser revista. Como Barroso, não estavam no STF em 2010 outros três ministros – Luiz Fux, Rosa Weber e Teori Zavaschi. Joaquim Barbosa, em licença médica, e José Antônio Dias Toffoli, por impedimento, não votaram na ocasião. Lewandowski, que votou pela revisão, continua lá. Assim, na conta do atual Supremo, os militares só podem confiar em uma minoria de quatro votos em 11: Carmen Lúcia, Marco Aurélio Mello, Gilmar Mendes e Celso de Melo. Os outros sete ministros, arejados pelos novos tempos, tendem a reconhecer que a autoanistia dos militares não pode acobertar os crimes de tortura e desaparecimentos forçados cometidos por agentes do Estado.

É o que está expresso no Pacto de San José da Costa Rica, firmado pelo Brasil. O atalho pelo STF parece um caminho mais fácil para a revisão do que o projeto no 573, de autoria da deputada Luiza Erundina (PSB-SP), que tenta a mesma coisa, mas esbarra na maioria conservadora ou inerte da Câmara. A nova frente de batalha que se abrirá no Supremo explica a cara fechada do trio de comandantes das Forças Armadas, que esperavam adiar indefinidamente a questão de boca fechada, sem qualquer mea culpa. A férrea decisão dos generais pelo mutismo continua a mesma, mas o debate sobre a anistia e o passado de violência do Brasil já não passa pela decisão, ou pela imposição dos quartéis.

Aos generais brasileiros, agora confrontados com a exumação da anistia, de João Goulart e da verdade, resta refletir sobre a lição de um velho e sábio companheiro de armas. O almirante Isoroku Yamamoto (1884-1943) era o comandante mais brilhante da Armada japonesa, no início da Segunda Guerra Mundial no Pacífico. Tinha apenas 57 anos quando comandou o ataque inesperado à base de Pearl Harbor, que levou os Estados Unidos para a guerra. Contrariando o ufanismo que varria o império, Yamamoto estava pessimista. “Não ganhamos nada. Temo que apenas tenhamos acordado um gigante adormecido e o alimentado com uma vontade terrível”, advertia em vão. Yamamoto lembrava que, em apenas meio dia, o gigante americano produzia o que o Japão consumia em um ano. Fabricava navios em ritmo quatro vezes mais rápido, seis vezes mais aviões de guerra, 700 vezes mais barris de petróleo. Tio Sam era apenas a 17a força militar do mundo quando a guerra explodiu em 1939, e tornou-se a maior força armada do mundo na rendição japonesa, em setembro de 1945. Antes da guerra, o país tinha apenas 14 bases no exterior. No final, comandava uma rede de 30 mil bases militares espalhadas pelo planeta.

Yamamoto antevia tudo isso, ao contrário da multidão que o ovacionava. Um jornalista, ainda eufórico com a vitória no Havaí, insistia em dezembro de 1941 que nada mais poderia conter o Japão.

– Qual deve ser o caminho da vitória? – perguntou o repórter ao almirante.
– Pedir a paz – respondeu Yamamoto. O jornalista não conteve a perplexidade.
– A paz, almirante?
– O dever mais importante de um soldado é terminar a guerra que ele iniciou – ensinou Yamamoto.

Uma lição de 1941 que seria útil aos generais brasileiros de 2013 que ainda vivem em 1964.
Os generais brasileiros não cumpriram o seu dever. Ainda não terminaram a guerra que iniciaram há meio século. Agora, a paz só virá pela verdade e pela Justiça.



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