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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Seu colega, Roger Waters


“Você pode estar vendo Israel com lentes cor de rosa”: Roger Waters escreve nova carta a Caetano




Diário do Centro do Mundo


Postado em 30 de junho de 2015

Da coluna de Ancelmo Gois no Globo:




Roger Waters respondeu à carta de Caetano Veloso. Relembrando: o ex-líder do Pink Floyd escreveu a Caetano e Gil, pedindo que não façam show em Israel, em julho, por causa do “massacre contra os palestinos”. Caetano escreveu de volta (CLIQUE E LEIA AQUI). Depois de enfatizar sua oposição à “direita arrogante do governo israelense”, o baiano disse: “Nunca cancelaria um show para dizer que sou basicamente contra um país, a não ser que eu estivesse realmente e de todo meu coração contra ele. O que não é o caso. Eu me lembro que Israel foi um lugar de esperança. Sartre e Simone de Beauvoir morreram pró-Israel.” Aqui, a tréplica do músico inglês:



Querido Caetano,

Obrigado por tomar seu tempo para responder à minha carta. Diálogo é realmente importante. Eu vou responder aos pontos que você levantou. Temo que você possa estar vendo a política israelense com lentes cor-de-rosa. O fato é que, por muitas décadas, desde a Nakba (catástrofe, expropriação do povo palestino) em 1948, as políticas coloniais e racistas de Israel têm devastado a vida de milhões de palestinos.

O movimento BDS, ao qual estou pedindo que se junte, é um movimento global que demanda liberdade, justiça e igualdade para os palestinos. Está aumentando rapidamente por causa da crescente consciência internacional sobre a opressão que os palestinos têm suportado nesses últimos 67 anos. O atual regime de extrema direita de Netanyahu é apenas o último governo perpetrando atos cruéis de injustiça e colonização. Mas isso não é um problema apenas da direita. Foi, na verdade, o partido de esquerda Trabalhista que fundou o programa de assentamentos ilegais e que também falhou em acabar com a ocupação das terras palestinas e fazer a paz.

Em sua carta, você diz que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir acreditavam em Israel antes de morrer. Até pode ser, mas isso foi naquele tempo, talvez à época eles não soubessem ou não compreendessem a brutalidade da ocupação das terras palestinas e a subjugação de seu povo. No entanto, eu sei o seguinte, os assoalhos respingados de vinho e café do Café Flores e do Les Deux Magots hoje reverberariam com o som de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir revirando-se em seus túmulos ao ouvirem seus nomes usados em vão e pregados ao mastro da ocupação e opressão do povo palestino.

Você menciona o arcebispo emérito Desmond Tutu, ele está entre os que abraçam o BDS, já que ele observou as ações de Israel e tem profunda empatia com o povo palestino. Há, como ele apontou a você, um apartheid nos territórios ocupados que é tão definitivo e desumanizante como o que havia na África do Sul do apartheid, quando leis de passagem infames e racistas estavam em prática. Assim como na África do Sul, palestinos e seus direitos legais são definidos por sua origem racial ou religiosa. Você consegue imaginar uma coisa dessas no Brasil ou na Inglaterra ou nos EUA ou na Holanda ou no Chile, ou? Não. Por que não?

Porque é inaceitável, é por isso que não.

Caetano, se posso fazer uma pergunta, por que você não rejeitaria a cumplicidade com tamanha injustiça agora, assim como você certamente teria rejeitado o racismo branco contra a população negra da África do Sul nos anos 80?

Sua carta sugere que você acredita que seu futuro show em Tel Aviv pode ajudar a mudar a política israelense. Eu sugeriria que essa é uma posição ingênua. Infelizmente, não é apenas o governo israelense que precisa de uma mudança de mentalidade. Pesquisas indicam que impressionantes 95% do público judeu israelense apoiaram os bombardeios a Gaza em 2014 (561 crianças mortas), 75% não apoiam um Estado palestino baseado nas longamente negociadas fronteiras de 1967, e 47% acreditam que os cidadãos palestinos de Israel devem ser destituídos de sua cidadania.

Não, Caetano, tocar em Tel Aviv não vai mover o governo israelense ou a maioria dos israelenses nem um centímetro, mas vai ser visto como sua aprovação tácita ao status quo. Sua presença lá será usada como propaganda pela direita e proverá cobertura e apoio moral às políticas ultrajantemente racistas e ilegais do governo israelense.

É um dilema, eu sei, mas se você quer realmente influenciar o governo israelense, você se unirá a nós na linha de piquete do BDS. Nós estamos tendo um efeito poderoso, como você pode ver pela reação deles, os agressores vindo com toda a força para tentar esmagar nossas vozes de dissenso e nos silenciar.

Nós não seremos silenciados, somos fortes, e, juntos, nós podemos ajudar a libertar não só o povo palestino do jugo da opressão israelense, mas também o povo israelense da opressão de seu próprio excepcionalismo e dogma, que é fatal a ambos os povos.

Eu imploro a você para não proceder com sua participação em Tel Aviv. Em vez disso, tome a oportunidade de visitar Gaza e Cisjordânia e ver por você mesmo o que Sartre e Simone de Beauvoir não viveram para ver. Eu acredito que sua resolução de tocar em Tel Aviv se dissolverá em um mar de lágrimas e arrependimento.

Caetano, eu não conheço você, nunca nos encontramos pessoalmente, mas eu acredito que você tem boas intenções e não carrego nenhum ressentimento. Se você for a Tel Aviv, apesar de nossos apelos sinceros, e se você visitar Gaza ou os territórios ocupados, você pode muito bem ter uma epifania. Se você o fizer, por favor, nos procure, a todos nós, não só nas comunidades palestinas e judaicas, mas todos nós em solidariedade no Brasil e em outros lugares, todos nós no BDS por todo o mundo trabalhando por justiça e direitos iguais na Terra Santa. Nós iremos abraçá-lo.

Eu lhe agradeço de novo por se juntar a essa conversa. Por favor, vá e veja as coisas por si mesmo, mas sem se apresentar lá, sem cruzar a linha de piquete do boicote palestino. Talvez a UNRWA (agência da ONU para os refugiados palestinos) possa ajudar, eles certamente me ajudaram quando eu estava procurando a realidade. Vá e veja por você mesmo, você não terá que usar sua imaginação. A realidade é devastadora para além de qualquer coisa que você possa imaginar. Obrigado,

Seu colega,

Roger Waters






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Leia a carta de Caetano Veloso a Roger Waters sobre o show em Israel





Esta é carta que Caetano Veloso mandou para Roger Waters, o ex-líder do Pink Floyd, que pediu que ele e Gilberto Gil não façam show em Israel, em julho, por causa do “massacre contra os palestinos”:

"Querido Roger,

Há cerca de um mês recebemos sua carta através de Pedro Charbel, um jovem brasileiro que faz parte do Movimento BDS. Pedro veio à minha casa, onde ele nos conheceu, a Gil e a mim — junto com nossas empresárias —, acompanhado de uma jovem brasileiro -israelense, Iara Haazs, uma judia (que também está com o BDS), para pedir que cancelássemos o show, em Tel Aviv, no próximo mês. Antes disso, nós recebemos a carta de um importante militante dos direitos humanos no Brasil com o mesmo pedido.

Hoje nós recebemos outra, desta vez do próprio Desmond Tutu (ele foi citado na sua e em todas as outras cartas e mensagens que recebemos sobre o assunto). Tentarei responder a ele também.

Quando a África do Sul estava sob o regime de apartheid, e eu soube que artistas estavam se recusando a tocar lá, concordei como que automaticamente com tal decisão.

A complicada situação no Oriente Médio não me mostra o mesmo tipo de imagem preto-no-branco que o racismo oficial, aberto, da África do Sul me mostrava então. Eu disse a Charbel como me sentia a respeito.

Ele pareceu achar, como você, difícil de acreditar que pessoas como Gil e eu não fôssemos recusar o convite dos produtores e do público de Israel (o show está esgotado) depois de ouvir o que ele tinha para nos contar sobre aspectos realmente sombrios da relação Israel-Palestina.

Eu preciso lhe dizer, como disse a ele, como meu coração é fortemente contra a posição de direita arrogante do governo israelense. Eu odeio a política de ocupação, as decisões desumanas que Israel tomou naquilo que Netanyahu nos diz ser sua autodefesa. E acho que a maioria dos israelenses que se interessam por nossa música tende a reagir de forma similar à política de seu país.

Aqui reproduzo o que disse a um jornalista brasileiro que me questionou como eu responderia ao pedido de cancelamento em uma curta sentença: Eu cantei nos Estados Unidos durante o governo Bush e isso não significava que eu aprovasse a invasão do Iraque. Escrevi e gravei uma música que se opunha à política que levou à prisão de Guantánamo — e a cantei em Nova York e Los Angeles. Eu quero aprender mais sobre o que está acontecendo em Israel agora. Eu nunca cancelaria um show para dizer que sou basicamente contra um país, a não ser que eu estivesse realmente e de todo o meu coração contra ele. O que não é o caso. Eu me lembro que Israel foi um lugar de esperança. Sartre e Simone de Beauvoir morreram pró-Israel.

Gilberto Gil contou-me já ter sido aconselhado a cancelar shows em Israel antes, mas que ele se recusou a fazê-lo, mesmo após os terríveis acontecimentos de julho de 2014. Quanto a mim, eu gostaria de ver a Palestina e Israel como dois Estados soberanos. E entendo que Israel precisa escutar as reações que chegam do exterior. As Nações Unidas, muitos governos, e até artistas, como você, mostram os riscos de Israel ficar cada vez mais isolado, caso siga com suas políticas reacionárias. Às vezes, eu penso que é contraproducente isolar Israel. Isto é, se se está buscando a paz. Tenho muitas dúvidas sobre tema tão complexo.

Charbel sabe quantos problemas de produção teríamos no caso de cancelamento de um show que já foi anunciado e completamente vendido. Mas eu desistiria alegremente de tudo se estivesse seguro de que essa é a coisa certa a fazer. Devo pensar por mim mesmo, cometer meus próprios erros. Eu te agradeço — e a muitos outros — pela atenção e o esforço dedicados a me esclarecer sobre a política naquela região. Sempre falarei a verdade de meus pensamentos e sentimentos, e se eu fosse cancelar esse show apenas para agradar pessoas que admiro, eu não seria livre para tomar minhas próprias decisões. Eu vou cantar em Israel e prestar atenção ao que está acontecendo lá.

Netanyahu não ganhou fácil a última eleição. Acho que o fato de eu cantar lá é neutro para a política do país, mas se minhas canções, voz ou mera presença puderem ajudar os israelenses que não concordam com a opressão e a injustiça — em uma palavra, a se sentirem mais longe de votar em alguém como ele — eu estarei feliz."

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O Pré-Sal é nosso! Mesmo que os tucanos queiram dar aos gringos, lembram da Vale?


Auditoria confirma afirmação de Dilma sobre Pasadena, mas notícia fica “só para assinantes”






20 de maio de 2015 | 17:53 
Autor: Fernando Brito






Se você comparar o espaço no noticiário para a confirmação da fala de Dilma Rousseff sobre não terem sido levadas ao conhecimento do Conselho de Administração cláusulas que, segundo ela, a fariam opor-se ao negócio e toda a extensão das “zentas” matérias que diziam que “ela sabia” dá uma proporção parecida com a de um lenço e o Estado do Amazonas.


Pois hoje, o insuspeitíssimo Valor Econômico (sociedade Globo-Folha) publica a matéria só para seus assinantes.


Como eu prefiro correr o risco de “violar a privacidade” do Valor a deixar que uma notícia com esta importância fique oculta, reproduzo os principais trechos do trabalho dos repórteres Letícia Casado e Fernando Torres, com a colaboração de Claudia Schuffner.


“Relatório do comitê de auditoria da Petrobras sobre a aquisição nos Estados Unidos da refinaria de Pasadena em 2006, elaborado como resultado de investigação interna da companhia, reconhece pela primeira vez diversas irregularidades no processo e coloca praticamente toda a responsabilidade nas costas do ex­diretor da área internacional Nestor Cerveró, preso desde janeiro por causa das investigações da Operação Lava­Jato. O relatório também corrobora a versão da presidente Dilma Rousseff, que comandava o conselho de administração da estatal na época e alegou depois que aprovou a compra com base em um resumo executivo apresentado por Cerveró, sem duas cláusulas da negociação, conhecidas como “Marlin” e “Put Option”. Segundo a versão de Dilma, caso tivessem sido mencionadas, as cláusulas a teriam levado a ficar contra a transação. O documento, apresentado em 14 de novembro de 2014 ao Conselho de Administração da estatal,confirma esta omissão.”


(…)


O Valor teve acesso ao relatório feito pelo comitê, que procurou resumir um documento de 113 páginas preparado pela Companhia. O comitê de auditoria recomendou ao conselho de administração abrir processo civil contra 11 brasileiros relacionados no relatório e processo investigatório nos Estados Unidos para apurar eventuais práticas de fraude ou corrupção.


E muito relevante:


“O relatório do comitê de auditoria foi concluído em 24 de outubro de 2014 e apresentado três semanas depois ao conselho. Portanto, os conselheiros tomaram conhecimento sobre os resultados da investigação depois de a então presidente da estatal Graça Foster e do ex­presidente da estatal José Sergio Gabrielli terem prestado depoimentos no Congresso e de terem sido questionados sobre a compra da refinaria no Texas.”


Portanto, não eram informações disponíveis na ocasião e suas falas.


O relatório, segundo o Valor, aponta diversas falhas no negócio, com discrepâncias nos valores – muitíssimo menores do que as que têm sido levantadas na mídia – mas só com o acesso às datas de cada estimativa seria possível verificar se, com a variação dos preços e margens de lucro do refino, o tamanho das diferenças é imprudência ou má-fé e o peso que têm sobre a qualidade do negócio, conduzido pelo ex-diretor Nestor Cerveró.




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Recordar é educar a si mesmo no presente




Venderam por 3 o que Valia 100 e hoje Vale 200!





domingo, 29 de junho de 2014

A era da suspeita


Desconhecer Foucault é estar exilado de nosso próprio tempo

Diário Gauche




A era da suspeita


Na quarta-feira (25/6), a morte de Michel Foucault completará 30 anos. Um dos mais influentes filósofos da segunda metade do século 20, Foucault produziu uma obra inovadora por seu método e por seus objetos. Obra cuja influência só aumentou desde sua morte, chegando hoje à condição de incontornável.


Não há setor das ciências humanas, da filosofia à história, da crítica literária aos estudos de comunicação, do direito à sociologia no qual não encontraremos problemas foucaultianos em operação. Na verdade, Foucault se transformou em um desses autores cujo desconhecimento implica divórcio profundo a respeito dos modos de pensamento que marcam nossa época. Quer dizer, desconhecer Foucault é estar exilado de nosso próprio tempo.


De fato, Michel Foucault conseguiu produzir dois feitos notáveis: complexificar nossa compreensão a respeito dos mecanismos de funcionamento do poder e injetar uma desconfiança profunda a respeito do pretenso realismo de conceitos e práticas científicas, em especial no campo das ciências humanas e das práticas clínicas.


Como se não fosse o bastante, seus últimos trabalhos compõem uma reflexão sistemática a respeito de um modo de autonomia e governo de si que abre caminhos para a reflexão ética distantes daqueles que a filosofia moderna conheceu, com sua fixação pelas figuras jurídicas da lei, do tribunal e da norma universalizável. Dessa forma, nasce uma experiência filosófica na qual epistemologia, ética e teoria social caminham de forma compacta.


Foi Foucault quem mostrou, de maneira mais sistemática, que nada entenderemos do poder enquanto o pensarmos a partir da temática da dominação das vontades, ou seja, o exercício do poder como sobreposição de uma vontade à outra. A verdadeira dimensão decisiva do poder se encontra nas disciplinas que sujeitam a todos por meio de instituições como a família, as prisões, as escolas, empresas, o Estado.


Tais disciplinas não são fruto da vontade de uma classe ou de um grupo. Elas resultam, na verdade, de uma vontade de saber que, ao mesmo tempo, nos sujeita e nos constitui. Ela está presente em nossos discursos científicos e na maneira por meio da qual eles moldam nossas vidas, organizam nossos conceitos de saúde e de doença, de sexualidade, de normalidade e de patologia, de regra e de desvio.


Dessa forma, Foucault deu instrumentos para que nossa época desenvolvesse sua capacidade de suspeita e desconfiança em relação a suas próprias ideias de progresso e de esclarecimento. Por isso, ele será sempre um dos nossos mais claros contemporâneos.

sábado, 5 de abril de 2014

A clareza do homem histórico

50 anos do golpe
Almino Affonso dá palmadas em Villa e Cantanhêde por travessuras no Roda Viva


publicada sexta-feira, 04/04/2014 às 21:14 e atualizada sexta-feira, 04/04/2014 às 21:41


Escrevinhador





Leia outros textos de Plenos Poderes

quinta-feira, 27 de março de 2014

contar esta história construindo algo em seu lugar


A ditadura se foi, a palavra ficou

Blog do Miro

Por Virgínia Barros, no sítio Vermelho:

Não há como lutar no movimento estudantil, em 2014, sem lembrar aquele incêndio da madrugada de 1º de abril de 1964 na sede da União Nacional dos Estudantes, na Praia do Flamengo, e principalmente aqueles que sobreviveram e não se abalaram. A ditadura não queria queimar somente a sede da UNE, e, sim, o espírito transformador dos estudantes brasileiros há exatamente 50 anos, o Brasil era empurrado para um dos momentos mais sombrios de sua história.

Com a violência de uma ação militar obscura, construída e apoiada por setores conservadores e poderosos da sociedade civil, a democracia foi ao chão, deixando a vitória parcial da incerteza, da irracionalidade, da exceção. O ano de 1964 tornou-se o marco de um golpe, um ataque, a punhalada que criou uma ferida profunda, com cicatrizes ainda visíveis. Há 50 anos o sol se escondia e a clareza perdia a batalha para a longa noite da nossa ditadura militar, o evento mais fatal da história brasileira durante o século 20.

Sem dúvida, a juventude foi a principal atingida por esse evento histórico, que escolheu os jovens e seus sonhos como a sua maior ameaça, como o inimigo a ser combatido, aniquilado. A grande evidência dessa escolha está na primeira ação organizada desse grupo, logo assim que roubou o poder, naquela fatídica noite entre o dia 31 de março e 1º de abril: o incêndio e fuzilamento da sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), na Praia do Flamengo, 132, no Rio de Janeiro.

Esse regime, que se estendeu por décadas, terminou há quase 30 anos, com a redemocratização em 1985. Ainda assim, “ditadura” é uma das palavras mais recorrentes no debate político dos movimentos sociais e da juventude brasileira. A aura daquele tempo de trevas ainda é referência para explicar as mais variadas situações, para efeitos comparativos diversos, para justificar uma série de lutas da sociedade organizada, para explicitar, didaticamente, o que não queremos repetir. Há 50 anos começava a ditadura militar e, há 29, ela cessava. A ditadura se foi, mas a palavra ficou. Por quê?

Nos últimos anos, cresceu no Brasil o movimento pela apuração lúcida e justa dos crimes e violações de direitos dessa época, principalmente com a criação das comissões da verdade. Esse foi o resultado da pressão popular e de entidades, como a UNE, ao longo de muitos anos, pela abertura dos arquivos do regime e pelo esclarecimento de tudo o que aconteceu sob a égide de um Estado opaco e violento. Apesar da chamada Lei de Anistia, promulgada ainda durante o período militar, e das iniciativas de reparação simbólica do Estado às vidas e aos direitos retirados, falta ainda vencer a escuridão daqueles anos, trazer a verdade à tona, investigar, retirar as máscaras e as trancas, apesar da estridência inútil daqueles que apoiaram e participaram da barbárie.

A necessidade de prosseguir investigando e esclarecendo o que houve na ditadura civil-militar é uma das justificativas para que continuemos, sim, falando bastante dela. Além de representar um marco de reafirmação da democracia e da justiça, o movimento de abertura dos arquivos do regime e das comissões da verdade traz em si uma espécie de vacina, um dispositivo de segurança para que aquilo não mais aconteça. Sob essa perspectiva, a presença da imagem da ditadura entre nós, 50 anos depois de sua chegada, é como um remédio amargo, porém necessário.

Não há como negar que tal período foi de grande resistência, bravura e sublimação dos jovens e estudantes brasileiros no seu processo de intervenção e construção do Brasil. Ainda que a UNE e a juventude estejam sempre entre os personagens principais da história brasileira, fato observado desde a década de 1930 e a 2ª Guerra Mundial – quando representaram o contraponto aos ideais e a influência nazi-fascista no país –, nem sempre houve uma geração tão marcante e exemplar como aquela que lutou entre 1964 e 1985. Apesar dos ataques, incêndios, torturas, censuras, mortes e outras violências, os estudantes souberam resistir e não desistir dos seus sonhos, mantendo acesa – ainda que sob duras penas – a chama de sua rebeldia e otimismo por dias melhores. Foi esse o espírito que enfraqueceu e derrubou o regime.

Ainda falamos da ditadura hoje, em 2014, porque em nossas lutas há grande inspiração por aqueles e aquelas que estavam lá, a partir de 1964. Cinquenta anos depois, nossa realidade objetiva é outra, mais democrática, com a garantia da livre organização, da expressão e com cada vez mais novos espaços de participação e mobilização. Tenha-se como exemplo a volumosa e importante militância jovem que tem crescido na internet e nas redes sociais, somando-se aos movimentos das ruas. Apesar de não enfrentarmos uma ditadura estabelecida – como aquela –, tentamos pegar emprestado daqueles e daquelas jovens sua retidão, sua convicção inabalável e sua maturidade para se organizarem e fazerem a diferença.

Não há como lutar no movimento estudantil, em 2014, sem lembrar aquele incêndio na Praia do Flamengo, e principalmente aqueles que sobreviveram e não se abalaram. A ditadura não queria queimar somente a sede da UNE, e, sim, o espírito transformador dos estudantes brasileiros. Ali naquele espaço ensaiava-se o projeto de um novo país – que ainda queremos meio século depois – com igualdade social, integração, fim dos preconceitos, liberdade e amor para transformação da sociedade.

O ataque era direcionado não somente às lideranças políticas da UNE, mas ao conjunto de ideais formado ali por iniciativas como o Centro Popular de Cultura (CPC), que reunia artistas, intelectuais e outros jovens personagens progressistas do Rio de Janeiro e do Brasil, como Ferreira Gullar, Cacá Diegues, Oduvaldo Vianna Filho, Carlos Lyra, Silvio Tendler, Eduardo Coutinho e tantos outros. Destruir a sede da UNE era como destruir a personalidade, a criatividade, o espírito daqueles jovens – mas o fogo e as balas não foram suficientes.

Nos anos seguintes, a UNE foi posta na ilegalidade pela ditadura, ampliando de forma institucional uma violência física já em curso. A perseguição estendia-se a todos os grupos organizados de jovens, a repressão aumentava. Ainda assim, no ano de 1966, o movimento estudantil estava mobilizado e preparado, a ponto de realizar um ousado Congresso da UNE na cidade de Belo Horizonte, de forma clandestina. O encontro aconteceu nos porões de uma igreja, com a eleição de José Luis Guedes para a presidência da entidade.

A partir dali, a luta cresceu e os estudantes esboçaram sua primeira grande resposta ao regime. Movimentos se organizavam por todo o país, manifestações eram frequentes e a juventude estava nas ruas, principalmente contra o acordo MEC-USAID, que tinha como objetivo implementar uma reforma conservadora no ensino brasileiro, atendendo aos interesses dos EUA. Ainda hoje traços dessa reforma permanecem na cultura pedagógica brasileira. Foi exatamente nesse cenário, no ano de 1968, em um protesto estudantil na cidade do Rio de Janeiro, que o jovem Édson Luís perdeu sua vida e tornou-se símbolo para a vida de muitos outros. Édson foi baleado por um soldado durante as manifestações contra o aumento no preço da refeição de um restaurante estudantil. Seu corpo foi levado pelas ruas do Rio por colegas que entoavam: “Mataram um estudante, podia ser seu filho”.

A enorme comoção em torno da morte de Édson Luís levou multidões a protestarem. A maior e mais conhecida resposta ao assassinato do jovem foi a Passeata dos Cem Mil, que reuniu esse surpreendente número de pessoas na capital fluminense, incluindo artistas, escritores, jornalistas e formadores de opinião diversos. Com inteligência e ousadia, os estudantes continuaram se organizando durante esse período.

Dessa forma, foi realizado, de maneira ainda mais clandestina, outro Congresso da UNE, na cidade de Ibiúna (SP), no mesmo ano de 1968. Com extrema articulação e capacidade, o movimento estudantil buscava formas de manter-se vivo, já sabendo que era um dos poucos grupos da sociedade capaz de resistir à ditadura. Apesar de todo o esforço, o congresso terminou com a invasão do Exército e todos os estudantes presos.

Na sequência desses episódios, a ditadura apertaria mais ainda suas mãos de ferro, com a promulgação do Ato Institucional nº 5, no ano de 1968, decretando abertamente o fim das liberdades individuais e dando início ao período de maior terror do regime – e talvez de todo o século 20 no Brasil. Foi o momento de maior açoite e truculência em direção à juventude brasileira, com sequências de torturas, assassinatos e outros crimes do Estado, por baixo dos tétricos e inescrupulosos panos de propaganda que pintavam um país em progresso. O sangue de jovens como Bergson Gurjão, Helenira Resende, Alexandre Vanucchi Leme, Fernando Santa Cruz e tantos outros manchou a outra face desse tecido.

Entre esses, Honestino Guimarães, eleito vice-presidente da UNE durante o Congresso de Ibiúna, assumindo depois a presidência interina da entidade a partir da prisão de Jean Marc van der Weid. Em setembro de 1971 foi reconduzido à presidência da UNE no 31º Congresso, realizado clandestinamente na baixada fluminense. No dia 10 de outubro de 1973, Honestino foi sequestrado no Rio de Janeiro por agentes do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), tornando-se um dos desaparecidos políticos do país. Sua sensibilidade política é até hoje maior inspiração para o movimento estudantil.

Ainda assim, a certeza e a esperança dos bons os mantiveram no caminho. Mesmo perseguidos pela máquina bestial e covarde em seu encalço, a juventude resistiu durante aquela década de 1970, a ponto de conseguir a reconstrução da UNE em 1979, no histórico congresso da entidade em Salvador. Em clima tenso e incerto, cercados pelas forças de repressão, enfrentando dificuldades de toda sorte, milhares de estudantes reconduziram uma parte importante da história para os trilhos. Eles ainda veriam, com grande tristeza, a ditadura já enfraquecida derrubar o prédio da sede da UNE na Praia do Flamengo, no início dos anos 1980.

Porém, motivados pela própria história, inspirados em si mesmos e naqueles que foram derrubados no percurso, aquela geração do final da ditadura foi capaz de marcar presença fundamental no processo das Diretas Já, no ano de 1984. O espírito dessa juventude manteve-se forte o suficiente para, quase dez anos depois, outra geração tomar as ruas e ocupar a linha de frente nos rumos da nação, durante a campanha do Fora Collor, em 1992. A partir de então, uma série de lutas continuou a brotar e a se multiplicar, como em uma reação em cadeia: a defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, o combate às privatizações, a reforma universitária.

Com 29 anos de reabertura política e 25 anos de governos nacionais democraticamente eleitos, o legado daqueles que enfrentaram a ditadura militar continua sendo um norte. Não é mais necessário dispor da própria vida ou enfrentar violentamente nenhum regime, mas é preciso – como foi para aquela geração – ter certeza e vontade inabaláveis para transformar o país, deixando também a nossa contribuição para os próximos. Além disso, é também válido relembrar a ditadura e os jovens que a derrubaram para buscar sabedoria no combate às suas tristes heranças.

Se é verdade que as torturas e prisões políticas diminuíram verticalmente, é também certo que torturadores, em quase todas as prisões ou delegacias do país, cometem tal crime contra a população pobre, vulnerável e, na maior parte das vezes, jovem e negra.

Se há como dizer que a liberdade de imprensa e de expressão foi revitalizada com o fim do regime, não há como escapar do fato de que, assim como na ditadura, pouquíssimos grupos econômicos e famílias detêm o monopólio das comunicações, ainda que boa parte dos veículos atue a partir de uma concessão pública, mas ainda não-democratizada.

Se é garantido o direito de livre manifestação, não há como conceber e aceitar abusos de uma polícia desnecessariamente militarizada, que na maioria das vezes aposta na truculência contra manifestantes, prendendo inclusive diretores da UNE, como há pouco aconteceu de forma deliberada, injustificada e inaceitável. Vale lembrar que os procedimentos brutais contra as manifestações são ainda muito menores do que aqueles praticados pela polícia militar em vilas, favelas e outras comunidades pobres.

Se a educação libertou-se da tutela controladora de um regime ditatorial, que impunha sua ideologia a qualquer custo – o que incluiu a presença de tanques de guerra em universidades –, é também verdade que a universidade brasileira continua distante de uma organização democrática, com direitos equilibrados e participação igualitária de toda a comunidade acadêmica. A ditadura acabou, mas algumas instituições do país, como a Universidade de São Paulo (USP), mantêm as mesmas regras criadas pelo regime para a eleição de seus reitores e diretores.

Cinquenta anos depois do golpe, a lembrança da ditadura militar dói, mas é necessária para seguirmos resistindo. O país que esperamos ainda está bem além do que temos hoje, apesar de alguns avanços e da nossa vontade transformadora. É inaceitável que nem mesmo as garantias fundamentais e constitucionais da sociedade, principalmente as da educação pública e gratuita de qualidade, sejam possíveis. A luta de hoje segue em inúmeras frentes e encontra muito mais possibilidades e alternativas para atingir os seus objetivos.

No ano em que o golpe completa meio século, nos lembraremos dele, mas também nos lembraremos de muito mais coisas. O ano de 2014 será aquele em que a UNE lutará pela aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), sua pauta mais urgente no Congresso Nacional; pela reforma política no Brasil, com transparência do sistema e o fim do financiamento de empresas a campanhas; pela melhoria nos transportes e o passe livre nas grandes cidades do país; pela criação de novas e mais abrangentes políticas públicas para a juventude, em especial a mais pobre; por mais vagas nas universidades públicas; pela urgente regulamentação do ensino privado e o fim da mercantilização do ensino.

Estamos em 2014, 50 anos depois. É preciso contar esta história para as novas gerações, mas seguir construindo algo em seu lugar. Reforçar a luta contra a repressão e em favor das reformas democráticas irá acelerar a transição ainda inconclusa rumo a uma sociedade verdadeiramente democrática. Varrer os resquícios de autoritarismo que restam em nosso país é tarefa da juventude que segue incansável nas ruas lutando pelo país de nossos sonhos. Estamos, agora, mais próximos deste novo Brasil.

* Virgínia Barros é estudante de Letras da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE)

domingo, 23 de março de 2014

mas a gente não brigou tanto para não ter exército no poder?


Marcha da Família e os 'amigos' do blog


Por Leonardo Sakamoto, em seu blog:

Participei do jubileu de ouro da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, nesta tarde de sábado (22), entre as Praças da República e da Sé, no Centro de São Paulo.

Agradeço, portanto, à organização do ato, pois ele foi histórico. Afinal de contas, nunca imaginei que os brasileiros teriam coragem de fazer isso de novo.

Devo confessar, contudo, que fui guiado não pelo nobre interesse jornalístico, mas sim por uma mórbida curiosidade. Qual seria a outra oportunidade que teria de conhecer a parte barulhenta dos comentaristas deste blog? A parte que acha que sou o demônio e transforma este espaço em algo divertidíssimo. A parte que não acredita em democracia.

Como esse naco social extremamente conservador vai para o céu quando morrer e eu, que não creio, habitarei o limbo pela eternidade, não poderia deixar de ver seus rostos, sentir seu cheiro, ouvir suas ideias, olho no olho, pelo menos uma vez na vida.

Primeiramente, fico feliz que eles – vencendo o preconceito e o medo – tenham saído do armário. Porque, apesar de sempre existirem, suas ideias eram sussurradas no âmbito privado e, portanto, estavam alheias à possibilidade de debate público. Viva, pois, a maldita democracia!

O tamanho da lista de pautas dos manifestantes rivalizava com demandas de sindicatos em greve ou estudantes em paralisação. Pedem ajuda para as FFAA (Forças Armadas) a fim de uma intervenção militar já. Querem Lula e Dilma na cadeia. Suplicam pelo fim da ameaça comunista e /ou socialista no país (antes fosse, gente… se o PT é comunista, eu sou mico de circo). E são contrários ao julgamento de militares por crimes contra os direitos humanos durante a ditadura. Louvaram, ainda, a polícia, criticando as propostas de sua desmilitarização.

Ah, e no carro de som, gritava-se algo como “se o Brasil não é comunista, por que querem a aprovação do Marco Civil da internet?''

Em determinado momento, um grupo que estava à frente da marcha também reivindicou uma parte querida do corpo deste blogueiro, entoando em uníssino: “Ei, Sakamoto, vai tomar no cu!'' Detalhe que havia, entre eles, uma imagem de Nossa Senhora.

Mas não posso me furtar a questionar: com base nas leituras reacionárias do livro sagrado do cristianismo, intepretações usadas para espancar gays, lésbicas, transexuais, pergunto se o pedido que me fizeram não seria – diante dos olhos de Deus que, segundo os organizadores, estava junto com a marcha - uma “abominação''.

Acho que se existe um Deus, ele estava curtindo a marcha antifascista, realizada simultaneamente a esta e que reuniu mais gente, caminhando entre a Praça da Sé e o antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social, local de torturas durante a ditadura, na região da Luz.

Provavelmente pelo fato de estarem pouco acostumados a irem às ruas e conviverem com a diferença, havia um clima de tensão no ar. De desconfiança com o ambiente, sabe? Um skinhead aqui e outro ali olhando torto, uma tentativa de calar alguém que discordava da natureza do ato, pressão para abaixar faixas que não estivessem de acordo com o coletivo e elogios à grande “imprensa comunista mentirosa'' ali presente.

E falando em imprensa, creio que havia em torno de 100 jornalistas trabalhando por lá, para algo em torno de 400 manifestantes (a grande maioria de homens e de uma faixa etária bem superior às das manifestações que se tornaram corriqueiras por aqui), além de uma quantidade enorme de policiais fazendo cordão para acompanhar o povo.

Um colega, jornalista das antigas, já tinha me sugerido que ir de “black bloc'' era mais seguro que ir de “Sakamoto''. E não é que ele estava certo! Fui procurar meus leitores, mas meus leitores me acharam primeiro.

De tempos em tempos, um grupo deles me reconhecia. Começa a gritar, chegava perto, apontava o dedo, gravava em vídeo, xingava, vociferava, me chamando de “comunista''. Será que eles não sabem que tenho um MacBook e gosto de caviar? Um manifestante passou por mim várias vezes, dando leves ombradas, no melhor estilo de provocações escolares, sempre que chegava perto. Logo no braço que a LER/Dort mais ataca. Podia ser no outro, não?

Agradeço aos colegas da imprensa que me tiraram de perto nas vezes em que a chapa esquentou (valeu, galera!).

Não é mérito nenhum meu, é claro. Sobrou para todo mundo. Incluindo um grupo de jovens, vestidos de preto, que estava indo provavelmente para o show do Metallica e foram xingados por manifestantes perto do metrô Anhangabaú.

Enfim, apesar de tudo isso, achei a manifestação pedagógica.

Porque todas as visões de mundo têm direito a se manifestar.

Porque o número de pessoas que bradam por uma intervenção militar é menor ainda do que eu esperava.

Porque muitos dos curiosos que paravam para ver e que tive a oportunidade de conversar, de vendedores ambulantes a engravatados, quando informados do conteúdo das reivindicações, franziam a testa e perguntavam: mas a gente não brigou tanto para não ter exército no poder?

E porque conversas e atitudes de muitos manifestantes mostravam que um desconhecimento grande da história do Brasil justificava uma visão de mundo totalitária. Ou seja, há esperança de que, com educação de qualidade e muito debate político, a gente chega lá. Ô se chega!

“atendendo a um pedido do Chefe”

O tamanho da corrupção na ditadura

23 de março de 2014


Nunca é demais refrescar a memória dos renitentes.

Tortura corrompe. Mas os que dizem não ter havido corrupção na ditadura, na medida em que a imprensa era proibida de divulgá-la, só se importam com patrimônio. Para eles, corrupção é apropriação indébita. Matar e torturar seriam pecadilhos.

A corrupção durante o regime militar foi uma constante. O historiador Carlos Fico, em “Como eles agiam”, mostra que a ação contra a suposta “crise moral” foi o mote dos militares. Sempre que a expressão “dissolução de costumes” se espalha, tem autoritarismo no ar. Os ditadores queriam acabar com a corrupção, que viam como um traço cultural muito “característico do brasileiro”.

O ministro Armando Falcão, pilar da ditadura, chegou a dizer: “O problema mais grave no Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”. Com o AI-5, de 1968, a ditadura dotou-se de mecanismo mais contundente para confiscar bens de corruptos. A Comissão Geral de Investigações, de 17 de dezembro de 1968, propunha-se a “promover investigações sumárias para o confisco de bens de todos quanto tenham enriquecido ilicitamente, no exercício do cargo ou função pública”. A roubalheira correu solta durante todo o regime militar. Carlos Fico conta que, entre 1968 e 1973, auge da ditadura, a CGI analisou 1.153 processos de corrupção. Aprovou 41 confiscos de um total de 58 pedidos. Entre os investigados ou condenados, “mais de 41% dos atingidos eram políticos (prefeitos e parlamentares) e aproximadamente 36% eram funcionários públicos. Num único ato, em 1973, chegaram ao Sistema CGI cerca de 400 representações ou denúncias”. Seria o caso de dizer: nunca se roubou tanto no país quanto em 1973.

O alto comando militar do país, quando confrontado com a roubalheira, exclamava: “Não sabíamos”.

E explicava: “Estamos investigando. Vamos punir”.

Carlos Fico pergunta: “Por que, então, fracassou a iniciativa de ‘combate à corrupção’ do regime militar pós- AI-5?”. A resposta vai enfurecer os adeptos da nostalgia: “Em primeiro lugar, a impossibilidade de manter os militares num compartimento estanque, imunes à corrupção, notadamente quando já ocupavam tantos cargos importantes da estrutura administrativa federal. Não terão sido pouco os casos de processos interrompidos por causa da identificação de envolvimento de afiliados ao regime”. Fico sabe do que fala. Foi um dos primeiros a ter acesso a arquivos com material sigiloso do regime. Examinou todos os processos de confisco no Arquivo Nacional. Cláudio Guerra, no recente “Memórias de uma guerra suja”, afirma que o regime financiou a repressão, na sua fase final, com dinheiro do jogo do bicho. Cita empresários, como o dono da Itapemirim, que receberam vantagens oficiais pelos bons serviços à repressão.

Uma determinação do Ministério da Justiça orientava a mídia: “É vedada a descrição minuciosa do modo de cometimento de delitos”. Não foi possível divulgar a descoberta de uma carga de drogas no quartel da Barra Mansa. O ministro do Trabalho, o gaúcho Arnaldo Prieto, em 1974, censurou as notícias sobre sua desastrada política salarial. Foram censuradas também as “gravuras eróticas de Picasso”. O consumo de drogas era considerado parte do “variado arsenal do movimento comunista internacional”.


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Ainda a Corrupção e a Ditadura Militar
por JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

O assunto sobre a corrupção e Ditadura Militar ainda não está esgotado. A imprensa, escrita e falada, afirma que a corrupção atual é a maior da História do Brasil. Com essa crítica, uma pequena parte de brasileiros, decepcionada, deseja a Ditadura Militar com a finalidade de combater os corruptos. No entanto, a corrupção no tempo da Ditadura Militar era infinitamente superior, como irei mostrar.

O jornalista e escritor J. Carlos de Assis escreveu três livros, no final da Ditadura Militar, em 1984, mostrando os escândalos desse período. Um deles, o mais famoso, “A Chave do Tesouro, anatomia dos escândalos financeiros no Brasil: 1974/83”, revela essa corrupção. Alguns capítulos: Caso Halles, Caso BUC, Caso Econômico, Caso Eletrobrás, Caso UEB/Rio-Sul, Caso Lume, Caso Ipiranga, Caso Aurea, Caso Lutfalla (família de Paulo Maluf, marido de Sylvia Lutfalla), Caso Abdalla, Caso Atalla, Caso Delfin, Caso TAA. Cada “Caso” é um capítulo. Por este motivo, é impossível detalhar esses escândalos financeiros, que trouxeram prejuízos inimagináveis à Economia daquela época!

Em outro livro, “A dupla face da Corrupção”, também em 1984, J. Carlos de Assis revela: “A censura (sic) da era Médici manteve o submundo da economia tão longe da curiosidade pública como as masmorras sombrias da repressão política. (,,,) Esta era uma atmosfera particularmente favorável ao apaniguamento (sic) e à proteção econômica e administrativa dos amigos do regime (…) Foi à sombra desse período obscurantista que a maioria dos arrivistas e aventureiros do mercado, esgueirando-se por essas omissões originais da lei ou pelos espaços abertos por sua deformação propositada (sic), penetrou no sistema financeiro e nele engordou seus conglomerados fraudulentos (sic), para explodir posteriormente em escândalos”, acrescentando: “Vários grupos de aventureiros e de gangsters de gravata (sic) foram postos na engorda junto aos cofres públicos (sic), com total contemporização e cumplicidade da autoridade administrativa”.

Adiante o escritor comenta o escândalo da Corretora Laureano, em 1976, fazendo essa estarrecedora denúncia: “Seu dono, contudo, precavidamente, havia lastreado suas ousadas operações num ativo intangível de valor incalculável nas circunstâncias: a amizade com o Ministro-chefe da Casa Civil, o condestável do governo Geisel, General Golbery do Couto e Silva. A relação estava selada, além disso, por um contrato de trabalho do filho de Golbery como diretor da Corretora (sic). E o General não tinha maiores constrangimentos éticos (sic) em encaminhar seu amigo às boas graças de algum colega de Ministério, em especial o que detinha as chaves dos cofres públicos, o Ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen”. Na página 85, outra denúncia grave: a compra pela Coroa-Brastel (uma empresa que também fazia parte do escândalo financeiro) da Metalúrgica Castor: “A Metalúrgica era propriedade do banqueiro de bicho Castor de Andrade, em sociedade com Osório Pais Lopes da Costa, sogro do Johnny Figueiredo, filho mais velho do Presidente da República (na época em que o livro foi publicado, 1984, o General João Figueiredo era o Presidente).

No ambíguo depoimento, Paim [dono da Coroa-Brastel] relata que foi contatado por Álvaro Leal em outubro de 1982. O consultor lhe teria dito que a Metalúrgica estava para quebrar e lhe sugeria comprar a empresa. “atendendo a um pedido do Chefe” (sic) – o próprio Presidente, no caso. Ele receberia por isso as “compensações devidas” , através do Banco do Brasil (sic)”. Era uma empresa suspeita comprando outra falida “atendendo o pedido do Chefe”! O escritor foi corajoso ao fazer essa denúncia contra o General-Presidente em plena Ditadura Militar, mesmo que nesse ano, 1984, o regime estava mais brando!

Existem outras denúncias de corrupção no período ditatorial, mas ficam para outro artigo.

Em memória da PetrobraX

O dia que a PetrobraS começou a virar PetrobraX


Em homenagem a Rubens Paiva e tantos outros Não quero esquecer.

Obs.: Os textos são daqui, daqui, e daqui. Um pirulito para quem adivinhar o nome do Presidente da República que queria vender a Petrobras e o partido político que lhe sustentava as ideias. E você lembra quem se apoiava em seus ombros?

As eleições de 2014, 2018, 2022... são e sempre serão sobre a Petrobras e o pré-sal. Dúvida? Venezuela, Iraque , Líbia...

Conversa Afiada de 29.08.2012

"... Uma pergunta nunca suficientemente explorada pela mídia, que professa a mesma fé nas virtudes do laissez-faire, quase grita na mesa: ‘Onde estaria o Brasil hoje se a condução do país na crise tivesse sido obra dos sábios tucanos?’

As ressalvas feitas por FHC no evento de banqueiros desta 3ª feira deixa a inquietante pista de que seríamos agora um grande Portugal, ou uma gigantesca Espanha – um superlativo depósito de desemprego, ruína fiscal e sepultura de direitos sociais, com bancos e acionistas solidamente abrigados na sala VIP do Estado mínimo para os pobres.

Em tempos de eleições, quando candidatos de bico longo prometem fazer tudo o que nunca fizeram, a fala de FHC enseja oportuna reflexão."











segunda-feira, 17 de março de 2014

acertamos o tiro no cu de um mosquito

20 anos depois...
Um Tijolaço na testa da Globo: bastidores do direito de resposta de Brizola no JN


publicada domingo, 16/03/2014 às 19:23 e atualizada domingo, 16/03/2014 às 20:18


Escrevinhador





por Fernando Brito, no Tijolaço

Hoje, se completam 20 anos do dia em que Cid Moreira, com seu ar afetado e seus cabelos brancos (nem os muito velhos se lembram dele de cabelos pretos…), começou a ler o histórico direito de resposta de Leonel Brizola no Jornal Nacional.

Foi a penúltima vitória do guri que saiu de Carazinho para enfrentar o mundo, um quixote gaúcho, do tempo em que os gaúchos eram quixotes e provocavam os versos geniais do pernambucano Ascenso Ferreira: Riscando os cavalos!/Tinindo as esporas!/Través das cochilhas!/Sai de meus pagos em louca arrancada!/— Para que?/— Pra nada!

Durante 22, 23 anos, convivi com ele, 19 dos quais diariamente.

Praticamente formei, com ele, a minha vida adulta, pois era um garoto de 22 anos quando esse contato começou, numa reunião num apartamento na Rua Cabuçu, no Lins de Vasconcellos, subúrbio da Zona Norte carioca.

Deste convívio, de muita coisa mantenho reserva. Sei que estava ao lado de um mito – e via o mito nos raros instantes em que ele conseguia se despir do personagem que poucos minutos lhe deixava viver de outra maneira.

Mas chega a hora em que estes detalhes, que antes serviriam para a intriga e o desmerecimento político, só fazem enriquecer a trajetória de quem era, como ele próprio dizia, “o rei do improviso”.

Porque era assim: se tinha visão estratégica, Brizola não era um calculista, muito menos frio.

As coisas iam acontecendo e ele, certo ou errado, farejava os caminhos, alguns exatos, outros não, mas todos coerentes.

O impacto daquele texto – minto, não do texto, mas de Brizola obrigar a Globo a ler uma mensagem sua – também não teve nada de planejado, mas resultou do inconformismo que ele, com seu exemplo, injetou em alguns de seus companheiros.

Um pouco antes de sua segunda eleição, Brizola passou a ser atacado, sistematicamente, com artigos em O Globo, escritos – ou apenas assinados – por um certo Alcides Fonseca, um ex-deputado estadual eleito do nada pelo PDT e que se bandeou para a oposição a Brizola e, daí, para a poeira da história.

Por orientação do querido amigo Nilo Batista, Brizola passou a pedir, um por um, direito de resposta em O Globo. E, ao pedir, tinha-se já de oferecer o texto, e a tarefa me cabia, porque os anos e anos escrevendo com ele os “tijolaços” me fizeram absorver um pouco do estilo e da alma inconfundíveis.

Dr. Nilo começou a vencer as causas, alguns artigos foram publicados e o “Fonsequinha” , como era chamado, foi despachado do jornal.

Já no Governo, em 1992, Brizola dá uma entrevista, dizendo que por toda a sabotagem que a Globo fizera à Passarela do Samba, o prefeito da cidade, Marcello Alencar deveria negar à emissora a exclusividade da transmissão do Carnaval.

Foi o que bastou para que o jornal O Globo publicasse um editorial violentíssimo contra Brizola – o título era ”Para Entender a Fúria de Brizola”, acusando-o de senilidade, “declínio da saúde mental”, e por suas relações, sempre institucionais, com o Presidente da República, Fernando Collor.

À noite, o Jornal Nacional reproduziu, na voz de Moreira, o texto insultuoso.

Naquela noite, Brizola conversou com dois advogados: Arthur Lavigne e Carlos Roberto Siqueira Castro, seu chefe da Casa Civil no governo estadual.

No dia seguinte, Siqueira me chamou e disse que Brizola tinha me encarregado de fazer o texto de resposta, que teria de ser apresentado ainda naquela tarde. Falei com ele, que se mostrou completamente cético em relação ao resultado do pedido judicial e, como fazia quando se sentia assim, despachava o auxiliar: “olha, Brito, você fala com o Dr. Siqueira e façam como acharem melhor.”

Lá fui eu fazer o texto: tinha que ter três minutos, não podia ter “compensação de injúria” – isto é, devolver na mesma moeda os impropérios – e tinha de sair rápido, porque era uma sexta-feira (7 de fevereiro) e havia prazo judicial.

Chamei dois companheiros de velha cepa, que me auxiliavam na Assessoria de Comunicação do Governo, o Luiz Augusto Erthal e o Ápio Gomes, para cumprirem um dupla função: anotar o que eu ditava e “segurar” a minha “viagem”.

Porque – começo aqui as difíceis confissões, que não são um segredo porque uma boa meia-dúzia de companheiros sabem disso – quando eu tinha de escrever pelo Brizola, eu não escrevia, “incorporava” . Parece coisa de doido? Não, e ele próprio sempre dizia: o bem escrito é o bem falado. E, na hora destes textos carregados, era assim que eu fazia, ditando, falando no ritmo dele, com o milhar de vírgulas e os períodos longos com que se expressava.

Era um exercício extenuante, massacrante, do qual não raro eu saía às lágrimas, mal conseguindo falar, de tão embargada a voz.

Qualquer redator publicitário jogaria fora o que saía disto, e com razão.

Porque não era um texto jornalístico ou publicitário.

Era o Brizola, não eu.

Feito o primeiro texto, mandamos ao Dr. Siqueira que fez algumas correções de bom-senso e um veto.

Eu não podia devolver o “senil” com que Marinho brindara Brizola. Mas isso eu tinha de devolver, ah, tinha.

E aí saiu uma obra de engenharia redacional.

“Quinta-feira, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar editorial de ‘O Globo’, fui acusado na minha honra e, pior, apontado como alguém de mente senil. Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que os use para si.”

Na verdade, eu tinha escrito “encanecidos”, mas o bom-senso do Erthal me travou: pô, Brito, ninguém mais sabe o que é encanecido. É verdade, mas é o que o velho teria dito.

Bem, o texto foi para o Tribunal sem que Brizola lesse o que ele estava “dizendo” na resposta.

Foram dois anos e um mês de espera pela Justiça.

Brizola levantava a sobrancelha, cético, quando Lavigne e Siqueira Castro, teimosos e dedicados, diziam que íamos ganhar.

Passou tanto tempo que, dos 70, Brizola já tinha 72 anos e Marinho, 88.

No final do dia 9 de março chega a notícia da vitória no Superior Tribunal de Justiça, mas ainda havia um recurso possível e um “notificaram a Globo ou não notificaram?”. O ceticismo, confesso, era maior que a ansiedade.

No próprio dia 15, terça da semana seguinte, quando o texto foi ao ar, não críamos – nem eu, nem Brizola – que aquilo iria acontecer.

Tanto que nem montamos esquema algum para gravar o Jornal Nacional, senão o de um videocassete doméstico.

E foi o que se viu e que ficou na história.

Termina o texto, toca o telefone: ‘Olha, Brito, que maravilha. Nós acertamos o tiro no cu de um mosquito”.

E assim foi. Não fiquei aborrecido, ao contrário. Porque era nós, mesmo: era o Brizola introjetado em mim que escrevera.

Elogio mesmo – e maior não poderia haver – foi o de Roberto Marinho, falando ao querido amigo Neri Victor Eich, da Folha, por telefone, no mesmo dia do terremoto:

“Que nunca mais se reproduza isso. O direito de resposta teve o tom de Brizola.”

Teve sim.

Foi a última vitória de Brizola, em vida e em memória, despertando consciências que não se acovardam, não se ajoelham e não gaguejam, como a dele, a minha e a sua.

Até hoje, a não ser pelos testemunhos dos personagens desta história, a ninguém tinha revelado estes detalhes. Faço-o agora, porque já são história e porque só aumentam o tamanho de um homem a quem eu devo grande parte do que sou.

Um homem que era tão grande que estar à sua sombra foi também – e é para sempre – estar sob sua luz.



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sexta-feira, 14 de março de 2014

Bachelet e Dilma


A VOLTA DE BACHELET E A ALIANÇA DO PACÍFICO

Mauro Santayana




(JB) - A chilena Michelle Bachelet tomou posse, pela segunda vez, como Presidente da República do Chile.



A volta de Bachelet, da coalizão de centro-esquerda Nova Maioria, ao Palácio de La Moneda, e a saída do conservador Sebastián Piñera, representam nova derrota para a política norte-americana na região, além de um duro golpe para a Aliança do Pacífico, factoide criado pelos espanhóis e norte-americanos para funcionar como espécie de contraponto ideológico e midiático ao projeto, empreendido pelo Brasil e por outras nações, de união e integração continental.

Preocupados em marcar presença, os EUA enviaram o vice-presidente Joe Biden a Santiago. O Presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, fez questão, também, de comparecer pessoalmente, depois de passar pelo Equador, onde, fiel à sua aliança com Madrid, foi convidar Rafael Correa para participar da cúpula “ibero-americana” - outro factoide espanhol, cada vez mais desprestigiado - que será realizada no México, em Veracruz, no segundo semestre.

Convidado por Bachelet, para compor seu governo, o novo ministro chileno das Relações Exteriores, Heraldo Muñoz, já deixou claro que haverá clara guinada na área, que deverá privilegiar a política regional e a recuperação do diálogo com os países mais próximos.

O deputado e ex-embaixador Luís Maira, um dos principais conselheiros de Bachelet em política externa, foi ainda mais direto. Acusou o governo Piñera de ter feito um estrago no âmbito das relações entre o Chile e seus vizinhos da América do Sul, com a intensificação dos conflitos territoriais com o Peru e a Bolívia; o distanciamento do Equador; e um quadro de relações virtualmente congeladas com o Brasil e a Argentina.

No caso particular de Brasília, a reaproximação não se fará, no entanto, apenas devido à afinidade pessoal e política entre Bachelet e Dilma.

Pragmática, e, sobretudo, inteligente, e sem a cegueira do preconceito ideológico, a nova presidente chilena sabe muito bem quais são as diferenças entre o Brasil e a Aliança do Pacífico, as forças e as condições que estão em jogo.

Ela tem conhecimento de que o México, nos últimos anos, deixou de contar entre os dez principais importadores de produtos chilenos. Assim como sabe que a corrente de comércio entre o Brasil e o Chile é quase o dobro da que existe entre chilenos e mexicanos. E não precisa ser empresária para entender que a confiança de chilenos e mexicanos na economia brasileira é tão grande, que o Brasil é o principal destino de investimentos chilenos no exterior – vidfe a comora da CTIS pela Sonda esta semana - e o mesmo com relação aos mexicanos, no âmbito latino-americano. Ou que o Brasil cresceu mais que o dobro do México nos últimos doze meses, ou ter em mente que – com todos nossos eventuais problemas – ainda somos a sétima economia do mundo – maior que toda a Aliança do Pacífico reunida - e o segundo maior mercado consumidor das Américas, depois dos EUA.

É improvável que o Chile abandone a Aliança do Pacífico devido à volta de Michelle Bachelet ao Palácio de La Moneda.

Mas Santiago se reaproximará decididamente da UNASUL e do Mercosul – organização da qual o Chile toma parte como membro associado – e vai abandonar a tática – tão a gosto de Piñera – de pintar de dourado o andor de papelão da Aliança do Pacífico.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Qual o sentido? E ninguém vai fazer nada...


Genoino e a maldade de Joaquim Barbosa


Blog do Miro

Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:


Você tem que fazer muita maldade para que alguém beba quando você morrer. Você tem que despertar muito ódio.

Margaret Thatcher, por exemplo.

Fui a Trafalgar Square, no centro de Londres, cobrir, como jornalista, a festa que fizeram quando ela morreu.

Fazia mais de vinte anos que ela deixara Downing Street, a sede do governo britânico, e ainda assim Thatcher era lembrada com uma raiva que fazia você pensar que ela ainda era primeira ministra.

Me lembro claramente da imagem de um um velho sindicalista que abriu uma garrafa de uísque e disse, antes de tomar a primeira dose: “Esperei vinte anos por esse momento.”

Thatcher massacrou os sindicalistas, e acabou promovendo uma brutal concentração de renda no Reino Unido, uma coisa comparável à era vitoriana, tão bem retratada nos miseráveis de Dickens.

Em minha vida adulta, vi no Brasil apenas um personagem capaz de provocar um sentimento tão ruim.

É ele, Joaquim Barbosa.

Nunca houve alguém tão antibrasileiro quanto Joaquim Barbosa: mesquinho, vingativo, cruel, recalcado.

O que ele está fazendo com Genoino e família tem um nome: terrorismo. Terrorismo moral, terrorismo sádico.

Qual o sentido em deixá-los em suspenso às vésperas do Natal, uma época de concórdia, sem saber se Genoino será devolvido ou não à cadeia?

É vingança. A mesma coisa que levou Barbosa a tentar demitir do STF a mulher do jornalista que revelou que ele gastou 90 000 reais do dinheiro público para reformar os banheiros de seu apartamento funcional.

Barbosa debitou, na conta de Genoino, as críticas que recebeu, na semana passada, de petistas reunidos em um congresso.

Bandeira de Mello, o jurista, disse que, se fosse o PT, tentaria o impeachment de Joaquim Barbosa.

Digo também: se eu fosse o PT, faria o mesmo.

Joaquim Barbosa está ajudando a construir um país da discórdia. Ele não une: é um desagregador.

Como Lula não percebeu os seus imensos defeitos ao escolhê-lo?

A biografia de Lula estará sempre manchada por haver indicado para a mais alta corte do país uma pessoa tão má quanto Barbosa.

Não há desculpa para este erro monumental de Lula.

Os brasileiros estão tendo agora que arcar com a infeliz, negligente, descuidada indicação de Lula.

Entre os brasileiros, ninguém está enfrentando mais as consequências disso que Genoino e família.

Miruna, a filha mais velha de Genoino, uma guerreira na defesa do pai, mais uma vez ergueu sua voz diante do terrorismo barbosiano.

Ela está desesperada. Ela não finge, ela não mente: é uma filha que está vendo o pai ser massacrado impiedosamente – e injustamente.

Ninguém vai fazer nada? Esta a pergunta central, doída de Miruna.

Pelo visto, a resposta é não.

A prioridade do PT é a campanha de Dilma, e Genoino está no fim da fila. Uma palavra aqui, outra ali, e não mais que isso.

Mas o futuro haverá de trazer uma resposta para a questão de Miruna.

Muitos brasileiros, e não necessariamente apenas petistas, haverão de fazer exatamente o que o sindicalista inglês fez quando recebeu a notícia da morte de Thatcher.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Milton Santos ou Marighella, tá bem assim


Escola troca nome de Médici por Marighella



Em decisão histórica e inédita escola troca o nome do ditador Emílio Garrastazu Médici por Carlos Marighella. A decisão foi feita em conjunto entre alunos e professores



Carlos Marighella (Reprodução)

Em uma decisão histórica e inédita alunos do colégio estadual Presidente Emílio Garrastazu Médici, em Salvador (BA), decidiram na última terça-feira (10) mudar o nome do colégio para Carlos Marighella. A decisão foi feita em uma assembleia em conjunto com os professores, e o resultado será encaminhado para a Secretaria da Educação da Bahia para que seja avaliada a possibilidade de uma renomeação.
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USP tem infestação de piolhos e água contaminada

O colégio foi inaugurado durante a ditadura civil-militar, quando o general que ocupava o Palácio do Planalto era Emílio Garrastazu Médici. Durante seu governo, iniciado logo após a instauração do AI-5, centenas de militantes foram perseguidos e mortos pelo regime, entre eles o militante comunista baiano Carlos Marighella, que havia passado os seus últimos anos tentando organizar a Aliança Nacional Libertadora, que combatia a ditadura com ações de guerrilha.

Além de Marighella, outra opção para o nome do colégio era o do geógrafo baiano Milton Santos, grande intelectual e exilado da ditadura.

A eleição foi organizada pelo coordenação pedagógica da escola, e composta por professores, funcionários, estudantes e pais de alunos. A ideia de mudar o nome da escola veio depois de uma atividade escolar, uma exposição organizada pelas turmas do último ano, batizada de “A vida em preto e branco: Carlos Marighella e a ditadura militar”. A exposição envolveu os alunos.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

longe de ser um conto de fadas


Mandela e a derrota de seus inimigos



Blog do Miro


Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

Nelson Mandela morreu na condição rara e merecida de herói da humanidade. A derrota do apartheid sul-africano marcou uma derrota fundamental do sistema colonial, construído ao longo de cinco séculos de história.

A estatura atual de Mandela não deve obscurecer o cidadão concreto nem a situação real de onde ele emergiu. Sua luta envolveu adversários poderosos e bem colocados na economia mundial, que tiveram um papel decisivo na preservação de um regime que sempre causou horror na maioria das pessoas do século XX – mas era mantido e alimentado em função dos ganhos que gerava a seus beneficiários, dentro e fora do país.


Não se pode compreender a longa temporada de Mandela na prisão – de onde saiu, certa vez, com princípio de tuberculose – nem a absurda sobrevivência de um sistema de opressão dos mais infames que a humanidade já conheceu sem entender o papel das chamadas potencias ocidentais em sua preservação.

Na década de 1980, quando a luta contra o apartheid já provocava gestos de repúdio internacional e até boicote econômico, o presidente Jacques Chirac, principal estrela do conservadorismo francês do período, fez diversos exercícios para reforçar a musculatura da elite branca que submetia o país inteiro. Sob François Mitterrand o governo francês havia conseguido impor sanções através da ONU e retirou o embaixador de Pretória. O país também dava abrigo a exilados importantes. De volta ao poder, Chirac reabriu a embaixada, cortejou lideranças negras que negociavam pactos de preservação com o regime sul-africano e ainda enviou uma comitiva de parlamentares em missão de boa vontade: “o apartheid não existe,” disseram eles, de volta a Paris.

Chirac era capaz de dizer frases de um tipo de pedantismo bem conhecido: “Condeno o apartheid de forma veemente mas a questão é extremamente complexa.”

O fato é que não estava só em meio a tantas “complexidades”. Líderes da grande reação conservadora dos anos 1980, que implicou em ataques a direitos e conquistas dos trabalhadores e da população mais pobre no mundo inteiro, Ronald Reagan e Margareth Thatcher mostraram, também no África do Sul, que tinham uma visão bastante peculiar, “complexa”, é claro, daquilo que chamavam de estado mínimo e direitos individuais. Davam-se as mãos para reforçar o estado máximo que combatia Mandela enquanto sustentavam, por exemplo, a ditadura também máxima de Augusto Pinochet no Chile.

Com o velho pretexto de que era preciso combater o comunismo, faziam o possível para evitar toda mudança, toda alteração no estado de coisas que pudesse democratizar o país e entregar o governo a sua maioria de cidadãos. Thatcher chegou a opor-se a simples missões de caráter humanitário a África do Sul, lembra Jack Lang, ex-ministro de Cultura da França, no livro “Nelson Mandela, lição de uma vida.”

Quando Mandela conquistou o direito de fazer pronunciamentos públicos, um dos assessores de Thatcher desqualificou suas declarações como uma prova de que “o sofrimento não havia lhe ensinado nada”.

Principal liderança política de um continente que forneceu a mão de obra que colocou de pé boa parte da riqueza que se conhece no planeta, e jamais foi devidamente recompensada por isso, é natural que Mandela seja alvo de estudo e admiração. O empenho dos aliados do apartheid para preservar um regime criminoso ajuda a entender mesmo vitórias tão admiráveis estão longe de constituir um conto de fadas.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

um gigante ( a avó diz que a vida tem disso: gente que vive com amor jamais se arrepende )


Morre Nelson Mandela, a alma de uma nação!


Luis Nassif Online

qui, 05/12/2013 - 20:58 - Atualizado em 05/12/2013 - 21:18

Jornal GGN - Nelson Mandela faleceu hoje, quinta-feira, aos 95 anos. A morte, foi anunciada pelo presidente da África do Sul, Jacob Zuma, pela televisão. Mandela sofria de problemas respiratórios e estava recebendo cuidados médicos em casa. Zuma declarou que “esta nação perdeu um grande filho”, ao se referir ao responsável pelo fim do regime de segregação racial na África do Sul, o apartheid.

Mandela declarou, durante seu julgamento, em 1964, quando foi condenado à prisão perpétua, “durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano”, evidenciando a luta contra a dominação branca ou mesmo a dominação negra. Disse ainda que acalentou “o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais”. E, por fim, disse ser este um ideal para o qual esperava viver e realizar. “Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer”, concluiu.

Em junho de 1964, Mandela foi enviado para a prisão da Ilha Robben, onde passou a ocupar a cela de número 466/64 e ali viveu por 27 anos. Tão longo período foi a demonstração de força do regime segregacionista do apartheid em sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul. Apesar da segregação racial de longa data, desde o período colonial, o apartheid foi introduzido como política oficial no final dos anos 1940.

Com esta política de segregação, os negros foram reunidos em bantustões, regiões de base tribal criadas pelo regime, mantendo-os fora dos bairros e terras brancas, mas não tão longe que não pudessem servir como mão-de-obra barata.




Prisão e um novo país

Mesmo na prisão, cumprindo perpétua, Mandela se tornou a figura de oposição ao apartheid, e o clamor “Libertem Nelson Mandela” se transformou no lema das campanhas antiapartheid em vários países.

Na década de 1970, ele recusou revisão da pena e, em 1985, não aceitou liberdade condicional caso se recusasse a incentivar a luta armada. Ficou na prisão até fevereiro de 1990, quando uma grande campanha e a pressão internacional fizeram com que fosse libertado, aos 72 anos, por ordem do presidente Frederik Willem de Klerk.

Aclamado por centenas de pessoas na saída da prisão, ergueu o punho fechado no ar, em sinal de vitória. Era o fim de longo período encarcerado e, a partir deste momento, nova história foi escrita na África do Sul. Na época, ele e de Klerk dividiram o Prêmio Nobel da Paz, em 1993.





Foi o primeiro presidente negro da África do sul, de maio de 1994 a junho de 1999. Comandou, então, a transição de um regime de minoria no comando para a democracia multirracial da nova África do Sul.

Simbolizando o início de novos tempos, adotou um novo hino nacional, que mescla o hino do CNA “Deus bendiga a África” com o africâner “Die Stein”. Nova bandeira também foi criada, unindo os símbolos das duas instituições anteriores: a bandeira oficial dos brancos, que vigorou desde 1928, passou a incorporar as cores da bandeira do CNA, unindo assim todos os povos da nova nação surgida, aprovados pela nova Constituição interina.






Em 1995, Mandela criou a Comissão da Verdade e Reconciliação, sem poderes judicantes, sob a presidência do arcebispo Tutu. Começa então um período duro, principalmente para os negros, depois de décadas de segregação e violência. Vinte anos depois, a dor ainda persiste, alimentadas pelas dificuldades de integração. Racismo e preconceito andavam de mãos dadas.

Em vida, Mandela não viu seu ideal concretizado, mas foi, sem dúvida, o principal responsável pelo despertar de todo um povo e pela construção de uma nação.


Com informações da Agência Brasil e do Opera Mundi

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

“guru” tucano, anuncia que Serra vai de deputado federal (quem acredita?)


Merval: Campos chamou Marina de alienígena e que requer dicionário para ser entendida



4 de Dezembro de 2013 | 11:22 Autor: Fernando Brito




A coluna de Merval Pereira, hoje, em O Globo, embora o ilustre acadêmico, num rasgo de realismo, tenha descrito com pessimismo quase desesperado, o buraco em que está metida a oposição a Dilma, merece ser lida.

Primeiro, na sua condição de “guru” tucano, anuncia que Serra estaria disposto a ser candidato a deputado federal, embora faça isso um parágrafo depois de dizer que Aécio “gasta seu tempo basicamente na tentativa de garantir o apoio da base paulista do partido, certo de que será competitivo, com grandes chances de sair vencedor num segundo turno, se for forte eleitoralmente em São Paulo.”

Pode ser que Serra esteja “composto”, mas neste caso, porque Aécio estaria “gastando tempo” em garantir apoio em São Paulo?

O mais interessante, mesmo, é ver Merval descrevendo as brigas de Eduardo Campos que, irritado , teria dito que Marina Silva parecia vir “de outro planeta” e que precisava consultar um dicionário para entender a redista dizia.

Uma “enquadrada” geral em Marina, para quem, sem muita cerimônia, Merval vai logo dizendo para aceitar os acordos com a velha política e que terá de se comprometer a apoiar Aécio se ele for a um segundo turno.

Um bom aviso para o Dr. Joaquim, se este se resolver a ser o “terceiro oposicionista “, como o convida de novo, hoje, na Folha, o colunistaFernando Rodrigues.

sábado, 30 de novembro de 2013

pó, pára vampiro! deixa a gente vivê em paiz

Revelações do lado de lá
Rovai: tem vampiro na história do “helipóptero”


publicada sexta-feira, 29/11/2013 às 11:08 e atualizada sexta-feira, 29/11/2013 às 11:08


Escrevinhador



por Renato Rovai no site da Revista Fórum


O telefone toca. É ele, meu amigo ave. Ele sempre liga nos momentos mais inusitados.

- Tudo bem maestro, me diz ele.

Ele sempre me chamou assim. Desde o dia que numa assembléia estudantil ele cismou que eu fiz o povo cantar.

- Fala, ave.

Eu só fui chamá-lo assim depois de uns anos. Por conta de algo que talvez não seja assim tão necessário explicar. Ave é meu amigo do lado de lá.

- Tô te achando estranho, maestro. Você não se deu conta de nada ou ficou quietinho porque o vampiro te conquistou?

- Eu, hein, você tá cada dia mais esquisito…rs.

- Vocês são muito fraquinhos. Ficam só na superfície. Não consigo entender como os caras ainda tomam baile de vocês.

- Quer saber, ave, nem eu…

(rimos juntos)

Vou resumir. Ave tem certeza que tem vampiro nessa história do helicóptero.

Por que ele acha isso?

Ave elenca suas hipóteses:

1) O vampiro é quem manda na PF.

2) Se não acredita, pergunta pra Roseana que ela te conta como foi o caso Lunus, me disse ele.

3) Se não acredita, pergunta pros aloprados do PT que tentaram comprar um dossiẽ, me diz ele.

4) Se não acredita, me diz ele, pergunta pro rapaz das Gerais.

Ave jura que boa parte das aves entendeu o recado do avião com 450 quilos de cocaína apreendido pela PF.

Ave jura que essa é a senha de sempre. E diz gargalhando: “pó, pára governador…”.

E que no aviário, quando o assunto é poeira, todos entendem o recado.

E sabem da onde vem a ventania.

Entendem que é dia de lua cheia.

Digo que não acredito em vampiros.

Ave ri ainda mais alto.

E diz, você não. Mas a gente tem certeza que ele existe.

E que não ficou no aviário à toa.

E que vai comer muitas aves antes da lua cheia sair de cena.

E desliga o telefone.

Não sem antes dizer. Pode publicar.




Leia outros textos de Outras Palavras

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

enquanto isso os ingênuos seduzidos... se deleitam em questões sobre os tiros em Dallas... e a nossa história contada por jornalões sem o DARF... até quando


JANGO, KENNEDY E A
COBERTURA DA GLOBO


Dois acontecimentos de densidade histórica, como a exumação dos restos de Jango e sua recepção em Brasília foram relegados à parte inferior de O Globo.

Conversa Afiada






O Conversa Afiada reproduz artigo de Dario Pignotti, extraído da Carta Maior :



JANGO, JFK E GLOBO



Dois acontecimentos de densidade histórica, como a exumação dos restos de Jango e sua recepção em Brasília foram relegados à parte inferior de O Globo.

@DarioPignotti

São Borja e Brasília – Para ler o jornal O Globo em São Borja “geralmente temos que esperar até o meio-dia quando ele vem pelos ônibus que chegam de Porto Alegre”, diz um taxista que me leva até o centro da cidade, na praça 15 de Novembro, em frente à Igreja Matriz, onde o presidente João Goulart foi velado com o caixão aberto em dezembro de 1976. Naquela noite os saoborjenses desafiaram a ditadura lotando a igreja para dar um adeus (não sabiam que era só o primeiro) ao seu líder, apesar de as autoridades do III Exército terem ordenado que ele fosse enterrado imediatamente após chegar da Argentina, onde faleceu no dia 6 de dezembro de causas até hoje não esclarecidas.

“Eu me lembro do velório de Jango, quando o povo quis ir se despedir do presidente. Ele era muito querido aqui, havia uma multidão de gente na Igreja”, recorda outro taxista, coincidentemente apelidado de Jango, que veste uma camiseta colorada do Internacional enquanto me conduz até o Cemitério Jardim da Paz onde os restos do ex-mandatário foram exumados na madrugada de 14 de novembro para, horas mais tarde, serem recebidos pela presidenta Dilma em Brasília com honras de Estado.

Na cidade de São Borja a memória da ditadura continua tão viva que impregna a vida cotidiana: as suspeitas sobre o envenenamento de Jango são compartilhadas pelo ancião com bombachas e chapéu de gaúcho parado em frente ao cemitério e pelos estudantes de Ciências Políticas da Universidade Federal participantes da audiência pública onde se exigiu do governo federal que seus restos sejam devolvidos logo depois dos estudos que se realizam em Brasília.

O país visto desde São Borja, onde Goulart é uma espécie de Camelot mitológico, é diferente do narrado no jornal O Globo e outros veículos de propriedade dos herdeiros de Roberto Marinho.

A exumação do presidente morto no exílio quando estava na mira do Plano Condor, responsável pelos assassinatos (alguns por envenenamento) de vários líderes da região, possivelmente seja o acontecimento mais consistente ocorrido no Brasil no caminha na direção do resgate da memória e da verdade sobre o que ocorreu sob a ditadura, a menos investigada da América Latina.

Fatos similares, como a exumação sob a supervisão de especialistas internacionais (como ocorreu com Goulart) do ex-presidente Salvador Allende e, posteriormente, do prêmio Nobel Pablo Neruda, no Chile, absorveram a atenção pública e o interesse da imprensa por semanas. Aqui não foi assim.

Dois acontecimentos de densidade histórica, como a exumação dos restos de Jango e sua recepção em Brasília por Dilma, Lula e outros ex-presidentes, foram relegados à terça parte inferior da capa do jornal O Globo, no dia 15 de novembro. A parte superior foi dedicada à notícia da possibilidade de que o ministro Joaquim Barbosa ordenasse a detenção dos condenados pelo mensalão. A Folha de S.Paulo adotou uma perspectiva similar. Para a empresa de Frias Filho, o fato de maior destaque foi o engarrafamento de 309 quilômetros ocorrido em São Paulo, publicado como manchete com uma generosa foto, muito acima do retorno de Goulart a Brasília, 37 anos depois de sua morte e 49 do golpe de Estado que o destituiu para estabelecer uma “ditabranda”.

Nada se fará até 2029

Os crimes de Estado, de Júlio César até John Fitzgerald Kennedy, foram perpetrados por uma teia de interesses nunca revelados por completo, disse o procurador norte-americano Jim Garrison em sua intervenção perante uma corte de Nova Orleans em 1969, quando apresentou vasta informação sobre a participação de agentes da CIA combinados com mafiosos anticastristas no assassinato do presidente dos EUA, no dia 22 de novembro de 1969. A grande imprensa, denunciou o solitário Garrison, foi cúmplice do encobrimento excitando o público com mentiras sonoras, campanhas patrióticas e outras artimanhas de desinformação, para desviar a atenção da verdadeira trama escondida debaixo dos disparos que destroçaram o crânio do presidente a bordo do Lincoln preto na sulista e racista Dallas.

A autópsia de Kennedy foi manipulada por peritos militares, testemunhas incômodas e cúmplices suspeitos da conspiração morreram em circunstâncias estranhas. Uma comissão tutelada pela Casa Branca concluiu que o magnicídio havia sido urdido e executado por um mitômano Lee Oswald, caracterizado como um sujeito antissocial e pervertido pelo ideário comunista da União Soviética. Uma tese tão discutível como a que assegura que foram naturais as causas da morte de João Goulart e ridiculariza a suspeita de um plano para envenená-lo, como denunciou o ex-agente dos serviços uruguaios Mario Neira Barreiro, preso na penitenciária de Charqueadas, no Rio Grande do Sul.

Questiona-se, e é correto fazê-lo, a credibilidade de alguém como Neira Barreiro que foi parte da organização terrorista Condor e confessa ter participado na morte de Goulart e no plano para eliminá-lo.

Os anais dos crimes políticos estão repletos de personagens como Neira Barreiro, cujas confissões (se verdadeiras) são chave para descerrar o véu da mentira. Um exemplo é o colaborador da CIA, David Ferrer, membro da organização que teria matado Kennedy, que, ao ver-se cercado por seus companheiros, aceitou colaborar com o promotor Garrison. Antes de depor perante o júri, o anticastrista e anti-Kennedy Ferrer apareceu morto em seu apartamento. Derrotado na corte e ridicularizado pela indústria midiática, Garrison se limitou a dizer que essa derrota jurídica era o primeiro passo para uma vitória política que chegaria em 2029, quando serão liberados os arquivos da Casa Branca.

O glamour do golpista

Em São Borja já se fala do segundo enterro de Jango previsto para 6 de dezembro (37 anos depois do primeiro) quando seus restos retornaram ao jazigo familiar do Cemitério Jardim da Paz depois de terem sido analisados no Instituto de Criminalística de Brasília e suas mostras enviadas a laboratórios estrangeiros onde se procurará, se ainda for possível, determinar a causa de sua morte.

Em uma audiência pública realizada no centro de tradições gaúchas, a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, e seu colega da Justiça, José Eduardo Cardozo, firmaram, ante a comunidade de São Borja, uma ata de compromisso que garante o retorno do corpo de Jango a sua terra. Surpreende o contraste entre a memória vida do povo de São Borja e a imprensa que ainda domina, com menos hegemonia que outrora, as estruturas de formação da opinião de massas.

Aguardei sem sucesso durante dois finais de semana a publicação de grandes suplementos históricos sobre a saga de Goulart, de volta à vida política 36 anos depois do enterro. Supus que seriam editados extensos cadernos com reportagens investigativas e ensaios sobre o líder democrático das reformas de base deposto, de modo similar ao que ocorreu na imprensa do Chile em setembro deste ano por ocasião dos 40 anos do golpe e da morte de Salvador Allende, ou na imprensa dos EUA, nos 50 anos do assassinato de Dallas.

Nada ou quase nada foi publicado nos grandes jornais do eixo Rio-São Paulo, no formato de caderno especial, sobre João Goulart reposto em sua condição de presidente em Brasília. Por outro lado foram editadas páginas especiais dedicadas a John Fitzgerald Kennedy.

O ápice do despropósito editorial, além de condenar Goulart à morte noticiosa, foi ter tratado o mandatário norte-americano como um personagem fascinante ou, para citar O Globo de 22 de novembro, “Presidente Celebridade”. Em rigor, para os brasileiros, Kennedy foi algo muito distinto ao galante democrata de acordo com o olhar do diário da família Marinho, provincianamente fascinado com o mito de Camelot.

Longe dessa leitura global, a realidade histórica brasileira, materializada no golpe de 1964, ensina que JFK, na verdade, foi um anticomunista primário, um conspirador que avaliou desde o Salão Oval da Casa Branca, durante um encontro com o embaixador Lincoln Gordon, a progressão da desestabilização contra Jango, como ficou refletido no notável documentário “O Dia que durou 21 anos”.


Tradução: Marco Aurélio Weissheimer


Clique aqui para ler “Jango não foi deposto”.

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Contribuição do baitasar