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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

condenados a viver no passado

A maldição conservadora e a invenção do guasca 

 

Cristóvão Feil no Diário Gauche

 



Antes de entrar no tema que quero comentar, chamo a atenção para o “Desfile Cívico-Militar do Vinte de Setembro” (conforme consta da programação dos seus organizadores, os dirigentes do MTG – Movimento Tradicionalista Gaúcho) que está se desenrolando hoje, precisamente 20 de setembro de 2011. 

Quero sublinhar a ênfase na expressão “cívico-militar” dado pelo MTG, em pleno século 21. Me explico. Ninguém desconhece a filiação positivista-comtiana dos republicanos brasileiros, na segunda metade do século 19. No Rio Grande do Sul, onde a República aconteceu depois de uma revolução cruenta que durou de 1893 a 1895, os positivistas foram mais radicais e, por isso, mais exitosos do que no resto do Brasil. Julio de Castilhos e os militantes do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) modificaram completamente o cenário político e social do estado mais meridional do País. No RS não houve a chamada troca de placa: sai a Monarquia dos Bragança, entra a República constitucional. Aqui, houve a mais completa e absoluta troca da elite no poder. Saem os velhos estancieiros pecuaristas da Campanha, entra uma composição de classes formada por uma pequena burguesia urbana, uma classe média rural, profissionais liberais e colonos de origem europeia da região serrana.

Os positivistas sulinos, fiéis aos ensinamentos dogmáticos de Auguste Comte, propugnavam – como o mestre – pela superação das fases pregressas da Humanidade. À fase militar-feudal deve seguir-se a fase industrial da Humanidade. Ou seja, à fase militar corresponderia a insurreição farroupilha de 1835-45 contra o Império do Brasil, agora – com o advento republicano – estávamos, pois, na hora de criar condições para o desenvolvimento e o progresso material que se daria por um processo intensivo de industrialização manufatureira. 
    
Vejam, pois, que os tradicionalistas do século 21 continuam com os olhos fixos num passado praticamente feudal, marcadamente militarista, embora não tenhamos experimentado, de forma hegemônica e total, esse modo de produção pré-capitalista no Brasil.  

Um dos formuladores intelectuais do que chamamos de ordem delirante do atraso – o pensamento tradicionalista da estância – foi Ramiro Frota Barcellos. Na obra “Rio Grande, tradição e cultura” (1915), o santiaguense é de uma clareza solar quanto aos propósitos enfermiços do tradicionalismo estancieiro: “O que agora se verifica, mercê do atual movimento tradicionalista, é a transposição simbólica dos remanescentes dos ‘grupos locais’, com suas estâncias e seus galpões para o coração das cidades. Transposição simbólica, mas que fará sobreviver, na mais singular aculturação de todos os tempos, o Rio Grande latifundiário e pecuarista”.

Qualquer semelhança com o enclave da bombacha e da fumaça que anualmente acampa, no mês de Setembro, no Parque da Harmonia, em plena área central de Porto Alegre, não é mera coincidência. A “mais singular aculturação de todos os tempos”, como premonitoriamente afirma Barcellos. Neste caso, “aculturação” é sinônimo de regressismo e estagnação.

É sobre isso que eu quero comentar brevemente.

Quando estudantes em São Paulo, Júlio de Castilhos e Assis Brasil chegaram a fundar um chamado “Clube 20 de Setembro”, que promoveu estudos – com algumas publicações - sobre o movimento farroupilha da primeira metade do século 19. Curiosamente, Castilhos abandonou as pesquisas sobre a guerra civil que varreu o Rio Grande por dez longos anos. Assis, em 1882, publicou a obra “História da República Rio-Grandense”. Por algum motivo, carente de melhores investigações, tanto os positivistas do PRR, quanto os liberais sulinos não foram muito enfáticos no culto farrapo. Tal fenômeno veio a ocorrer somente depois da Segunda Guerra, em Porto Alegre, no meio estudantil secundarista urbano do Colégio Estadual Julio de Castilhos. Daí se difundiu como rastilho de pólvora sob a forma dos onipresentes Centro de Tradição Gaúcho – CTG, que são clubes de convivência social onde se cultua o passado sob a forma fixa da mitologia farrapa, tendo como matriz formal a estética e o ethos do latifúndio da pecuária extensiva de exportação – subordinado à cadeia mercantil dos interesses hegemônicos ingleses na América do Sul. Quando os tradicionalistas se ufanam do pretensioso espírito autônomo e emancipado do chamado 'gaúcho' tout court, se referem ao Império dos Bragança, mas esquecem a dependência econômica e subordinação negocial estrita com os interesses ingleses, via portos de escoamento no Prata (Montevideo e Buenos Aires). 

[Das relevantes realizações modernizantes do castilhismo-borgismo foram a estatização e incremento do porto de Rio Grande, bem como a encampação das ferrovias controladas por capitais europeus, de forma a dotar o estado de infraestrutura e fomentar o desenvolvimento, sem depender do Rio ou do Prata.]   

A grande data a comemorar no Rio Grande do Sul, pelo lado do senso comum, é o 20 de Setembro, que marca o início da insurreição farroupilha (é um equívoco chamá-la de “revolução”, uma vez que os rebeldes foram derrotados pelo Império e não ocorreu nenhuma modificação política, social ou econômica na província sulina depois de 1º de março de 1845, na chamada Paz de Ponche Verde). No entanto, se houve revolução no sentido rigoroso e clássico do termo, esta ocorreu a partir da promulgação da Constituição Rio-Grandense, e da posse do governador (então, presidente do Estado) Julio de Castilhos, no dia 14 de julho de 1891. Meses depois, os conservadores e latifundiários alijados do poder, eternos aliados e sustentáculos da Monarquia, deram início à luta armada contra os jovens que governavam o Rio Grande (Castilhos tinha 30 anos quando assume a presidência do estado). A partir da revolução cruenta, se inicia um processo de grandes modificações e modernizações no RS. Em 1902, já com Borges de Medeiros no poder, depois da morte precoce de Castilhos, o estado passou a tributar com impostos progressivos as terras privadas, bem como reaver dos estancieiros as imensas glebas públicas apropriadas ilegalmente durante todo o século 19.
    
A hegemonia política do castilhismo-borgismo perdura até a década de 1930. Getúlio Vargas foi presidente do estado de 1928 a 1930, quando sai para o Catete, e já deixa um governo mais conciliador com os conservadores da Campanha.

É intrigante, pois, que a apropriação do imaginário social tenha se dado pelo lado dos conservadores, através do simbolismo inventado do 20 de Setembro, e não pelas forças burguesas, progressistas e renovadoras do Rio Grande do Sul, que seria pelo 14 de Julho.
                  
Eric Hobsbawn e Terence Ranger que estudaram o fenômeno da chamada “invenção das tradições” suspeitam que quando ocorrem mudanças sociais muito bruscas e profundas, produzindo novos padrões com os quais essas tradições são incompatíveis, inventam-se novas tradições e novos imaginários de identidade social e cultural. Para os dois autores britânicos, a teoria da modernização pode sim conceber que as mudanças operadas pela infraestrutura da sociedade demandem tradições inventadas no plano da superestrutura.

Neste sentido, a revolução burguesa positivista-castilhista de inspiração saint-simoniana, introdutora do Estado-Providência, mobilizou somente as instâncias da infraestrutura (base material e econômica), deixando uma vasta lacuna, um boqueirão ideológico, diríamos, na esfera da superestrutura. 

Assim, teria restado um formidável vácuo em distintos setores da vida social e no espírito dos indivíduos, como nas artes, no pensamento político, no Direito, na identidade, nas subjetividades individuais e de grupos, na cultura e no imaginário como um todo. O homem é, antes de tudo, um animal simbólico, e este domínio da razão e da cultura foi deixado vago, motivado, talvez, pelas duras urgências da vida real, mas também – suspeito eu – pelo próprio autoritarismo do poder estendido do castilhismo-borgismo.

O tradicionalismo seria, assim, um desagravo mítico-ideológico dos derrotados de 1893/95, os mesmos derrotados de Ponche Verde. Uma vingança de classe – a do latifúndio subalterno e associado – contra a modernização burguesa do positivismo pampeiro, seria isso? Uma maldição contra o futuro do Rio Grande? “Vocês estarão condenados a viver no passado, em meio à fumaça e o cheiro de esterco, festejando derrotas, e considerando heróico, cavalgando durezas e incomodidades, e considerando genuíno, fruindo uma arte primária e mambembe, e considerando autêntico, cultuando velhos ressentimentos e considerando lúcido, ignorando o rico mosaico cultural da província e considerando o tradicionalismo de matriz latifundiária como a síntese de tudo. Vocês são os gaúchos, velhos vagabundos redimidos, são os heróis de um passado que nunca existiu” – foi a sentença de fogo dos que trouxeram o tradicionalismo como vanguarda do atraso no pensamento guasca.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Porque hoje é 20 de setembro, Leila Lopes


Porque hoje é sábado, Leila Lopes



Fiquei irritado ao chegar em casa.
Ao invés de estudar,
minha filha assistia ao Miss Universo.
Mas vi aquelas cinco
e comecei a achar interessante
torcer pela negra.
O motivo era simples:
ela era a mais bela
e era angolana.
É um país envolvido com o materialismo básico da escola
do hospital, da estrada, do matar a fome, do tirar da miséria.
E ela ostentava (ostenta ainda)
uma cara incrível de brasileira,
pois nosso país — lembram? –
tinha a indignidade de importar gente de lá
que não queria vir para cá,
e que formaram nosso país com o que trouxeram
como o samba, a capoeira, a feijoada e tanta coisa que nem caberia aqui (como não coube).


Estatuinha (Edu Lobo / Gianfrancesco Guarnieri)


Se a mão livre do negro tocar na argila
O que é que vai nascer?


Vai nascer pote pra gente beber
Nasce panela pra gente comer
Nasce vasilha, nasce parede
Nasce estatuinha bonita de se ver


Se a mão livre do negro tocar na onça
O que é que vai nascer?


Vai nascer pele pra cobrir nossas vergonhas
Nasce tapete pra cobrir o nosso chão
Nasce caminha pra se ter nossa ialê
E atabaque pra se ter onde bater


Se a mão livre do negro tocar na palmeira
O que é que vai nascer?


Nasce choupana pra gente morar
E nasce rede pra gente se embalar
Nasce as esteiras pra gente deitar
Nasce os abanos pra gente abanar



ainda não ouviu a história desses negros(?)... hoje na TVE


Lanceiros Negros


Música "Lanceiros Negros"



Lanceiros Negros Interpretada por João Quintana Vieira e Grupo Parceria
Vencedora da 8º edição do "PONCHE VERDE DA CANÇÃO GAUCHA"

Massacre de Porongos debate na TVE

só para não esquecer esses negros lanceiros farroupilhas


Publicado em 20/09/2010


e os Lanceiros Negros (?) gauchada

Lanceiros Negros - O preço da Liberdade
DOCUMENTÁRIO
Por Caio Batista e Patrícia Brito.

O Massacre de Porongos é um fato histórico da maior relevância. Aconteceu dentro da Revolução Farroupilha, mas nunca teve, assim como a história do negro no Brasil, sua importância real discutida, nem ao menos formatada. O negro que, assim como tantas etnias, também protagonizou a diversidade social, econômica, artística, humana e cultural do país, continua invisível aos olhos da sociedade, no reboque da história, visto como coadjuvante, e com sua importância relativizada, diminuída, sem direito de usufruir e orgulhar-se da brasilidade que contribui vigorosamente em formatar. O Massacre de Porongos segue a mesma lógica das elites nacionais, que na intenção de concentrar saberes e poderes preservam a história a partir de seus próprios interesses, multiplicando uma visão parcial, limitando o reconhecimento daqueles que também fizeram história, também construíram o país em que vivemos. Toda a ação no sentido de inverter esta visão elitista, discriminatória e autoritária de manipular a história a seu favor passa a representar um serviço de relevância pública. Em plena era da inclusão, da expansão de reconhecimento de direitos de toda ordem, cabe revisar, pesquisar, confrontar, questionar “verdades” e evidenciar o verdadeiro protagonismo e importância histórica do negro como fundamental na formação e desenvolvimento do país.

Procurando respostas.

Não pretendemos trocar um ufanismo por outro, substituindo o gaúcho mítico pelo negro heróico, mas fazer uma investigação histórica e confrontar as versões existentes a respeito da “Batalha de Porongos” e, assim, proporcionar uma oportunidade de a comunidade tirar suas conclusões e/ou ampliar ainda mais a discussão. Teria havido traição? David Canabarro armou o massacre de Porongos juntamente com o Barão de Caxias? A paz já estaria tratada e os negros (libertados, conscientizados e militarizados) passavam a representar um perigo iminente de insurgência? Onde foram parar os ideais liberais farroupilhas nos acordos de paz? O que coube a cada um no espólio da guerra? Qual foi o destino dos soldados negros que sobreviveram? São algumas questões que o vídeo deseja investigar e discutir, sem ter a pretensão de ser ponto de chegada, mas sim, um ponto de partida na formatação de uma visão mais próxima do real. Quer trazer para as telas esse fato nebuloso da Guerra dos Farrapos quando os negros, seduzidos pela promessa de liberdade, formaram um dos mais bravos regimentos da revolução, algo que é lembrado somente quando se faz necessário acrescentar um componente épico e emocional aos heróicos relatos de guerra.

A história não tem dono.

Historiadores, produtores, músicos, atores, diretores de arte e uma equipe de técnicos do mais alto gabarito estão empenhados em desenvolver e concluir este projeto que, a cada dia se torna mais significativo, ganhando apoios e adesões a cada passo. Um filme que nasce provocando curiosidade, discussões e algumas polêmicas, causando certa ansiedade em ver o documentário nas telas. Isso comprova que um ponto de vista novo sobre um assunto conhecido, que já tem sua “verdade” aceita e estabelecida, agita o padrão histórico consagrado, até então protegido, seguro e confortavelmente instalado na “oficialidade incontestável” de sua interpretação. Mostra que a história é escrita por homens. Indivíduos que tem suas crenças, seus interesses e, a partir dos fatos, podem criar e sedimentar suas versões como as únicas que possuem legitimidade histórica. Podemos inverter esta lógica dominante e criar um novo olhar sobre nossa história, buscar um ponto de vista mais amplo e sem exclusão, que proporcione visibilidade e reconhecimento a todos os protagonistas e não somente àqueles que representem os interesses culturais, econômicos, sociais e étnicos do poder estabelecido. Este filme é uma tentativa, um começo, uma atitude no sentido de exercer plenamente o direito ao questionamento, no mínimo. E os lanceiros e soldados negros, recorte importante na Revolução Farroupilha, merecem esse resgate pelo bem de toda uma etnia e da sociedade brasileira.

OBJETIVOS

1-Contextualizar o Massacre de Porongos, ocorrido em Pinheiro Machado na zona sul do estado do Rio Grande do Sul.
2- Abrir a discussão sobre “a traição” ocorrida que dizimou o corpo de Lanceiros e soldados negros. Um ponto obscuro da história rio-grandense e brasileira.
3- Mostrar que este episódio e seus desdobramentos acabaram colocando em suspeição a verdadeira intenção abolicionista dos comandantes farrapos, evidenciando sua divisão entre escravistas e abolicionistas.
4-Confrontar as diferentes versões sobre esse momento histórico que culminou com a morte de centenas de soldados negros.
5- A partir do fim da guerra, comparar aquilo que foi “destinado” aos diferentes protagonistas da revolução: Imperiais, Farroupilhas e soldados negros.
6- Indiretamente apresentar aspectos da questão racial naquele momento histórico.
7-Oportunizar aos afros descendentes rio-grandenses e brasileiros e a toda sociedade, o acesso ao verdadeiro protagonismo do negro na história da Revolução Farroupilha.
9-Criar um recorte importante da Revolução rio-grandense e disponibilizá-lo ao maior número de pessoas possível.
10-Tornar-se ferramenta prática, em consonância com a Lei 10.639/03, ainda com escassez de material de caráter didático-pedagógico.

RESULTADOS ESPERADOS

Gerar impacto reflexivo em toda comunidade sobre a relevância do tema abordado;
Gerar discussão interna e externa sobre o tema;
Resgatar a participação dos afro-brasileiros na história e identidade do Estado;
Despertar o papel sócio cultural de cada cidadão, como multiplicador, na busca da melhoria histórica;
Contribuir para a valorização e auto-estima de toda etnia negra dentro e fora do Estado;
Contribuir para que a sociedade brasileira reconheça sua história como elemento formador da mesma;
Incentivar a comunidade escolar a produzir e refletir sobre a temática proposta gerando formadores de opinião;
Gerar sensibilidade por parte de professores e alunos quanto à complementação da história;
Valorizar a cultura africana e afro-brasileira, ajudando a reduzir a invisibilidade do fato histórico principalmente nas escolas;
Priorizar a importância, sobretudo nos processos formativos, a discussão dos resultados dessa pesquisa.

“Sem educação não há liberdade.”
“O que nos faz semelhantes ou mais humanos são as diferenças.” (Nilma Lina Gomes)