quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A Origem das Coisas

Dê um tempo para si mesmo e acesse o endereço abaixo.

http://www.unichem.com.br/videos.php

Você assistirá o vídeo Uma Verdade Inconveniente.

Depois de assistir ao vídeo fiquei matutando sobre para quem é inconveniente este vídeo. Matutei, pensei, juntei os prós e os contras, arquitetei fórmulas de acusar os governos, as grandes corporações, comecei por juntar as provas. e não são poucas. De repente, olhei para os meus lados, isso mesmo, para os escassos metros quadrados em que estou agora, fiquei assustado. Meus Deus, como acumulei coisas desnecessárias. Lixo histórico da minha vida. Coisas que já estão fora de uso, se algum dia tiveram algum uso. Eu sou um desses caras. Aquela seta amarela do vídeo sou eu, sou uma seta. Fui transformado em uma seta amarela de consumo. Pior, me deixei metamorfosear, sou o camaleão do consumo. Quando entro nas lojas, as minhas necessidades vitais vão sendo transformadas, na medida que aparecem novas bugigangas para devorar. Sou construído pelo fogo da transformação das minhas vontades de ter, ter, ter, e ter mais. Claro, que como citado no vídeo, tenho dois empregos. Trabalho 60 horas por semana. Estou na contramão da história? Trabalho 12 horas por dia e, nas minhas horas de folga, vejo televisão, faço compras (geralmente, no supermercado. Essas lojas facilitam nossa vida, está tudo ali: alimentos, roupas, cadeiras, mesas, computadores, pratos, talheres... Lembram de mais algum produto que esqueci? Viu? Está tudo ali!).
E a invenção do cartão de crédito? É uma facilidade, vamos, não minta! Eu praticamente não lembro como são essas cédulas antiquadas de troca, o dinheiro. Ele não circula mais nas minhas mãos. É verdade! O fruto do meu trabalho, daquelas 12 horas diárias, vai para o banco que administra os meus recursos. O banco me avisa quando ultrapassei os limites do meu crédito, mas se eu achar importante, ou não, eles podem aumentar o meu crédito. E, assim, sem sair de casa e com um simples toque no teclado do computador, posso continuar a consumir. E o dinheiro? Faz um bom tempo que não o vejo, mas não posso esquecer as minhas senhas de acesso. Cheque e dinheiro fazem parte do meu passado.
Um dia essas lojas me fizeram sentir que era um dinossauro, que viveu o tempo das moedas, comprar carne no açougue, balas no boteco da esquina e do famoso caderninho da venda. Estou escutando minha mãe, Mauro, vai comprar pão e pede para o seu Ivo colocar no cardeno! O caderno era o nosso cartão de crédito plastificado dos dias de hoje. A diferença é que o dono do armazém nos trancava o crédito se não fosse feito o pagamento da semana. Sem dinheiro sem compras. O jeito era ir até os secos e molhados da outra rua e abrir outro caderninho. E comprar comida.
Nos dias de hoje, continuamos comprando alimento, cada vez mais industrializados e envenenados, mas também uma infinidade de produtos que não precisamos pra sermos humanos. Tudo que nos faz humanos está ao alcance das mãos, o desejo da vida simples.
A vida simples me parece com um bom carro, uma tela plana, uma casa na praia, um laptop com muita memória e um shopping perto de casa. Isso é fundamental. Não sei viver sem o burburinho e o entra e sai das lojas. Juro que se pudesse me mudava para uma daquelas lojas. Isso, um condomínio dentro do shopping. Talvez, possamos colocar escolas, farmácias, sei lá, me ajudem, o que podemos querer mais dentro dos nossos shopping, mas veja bem, só o que ainda não temos! Não seria maravilhoso? Nosso sonho de consumo!
Opa! Sonho de consumo? Seta amarela, lixo, matas destruídas, água poluída, ar irrespirável, calor e frio com intensidade malucas. Será que esse mundo aguenta mais um pouquinho? Eu preciso de um tempinho para me acostumar. Ah, não tem tempo? Puxa, é sério, mesmo? Difícil de acreditar.
Em todo caso, vou tentar fazer a minha parte! E você?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Maneiras de educar! Tem como medir?

Ainda sobre as formas de avaliação externa da escola!
Recebi o texto abaixo do professor Fernando Carlos, desconheço o autor, mas achei que ilustra algumas reflexões que venho escrevendo neste blog, sobre a avaliação externa da escola. Não sou contra qualquer forma de avaliação, desde que sejam construídas com a comunidade.
COMO EDUCAR: Marcas de Batom no Banheiro...
Numa escola pública estava ocorrendo uma situação inusitada: meninas de 12 anos que usavam batom, todos os dias beijavam o espelho para remover o excesso de batom. O diretor andava bastante aborrecido, porque o zelador tinha um trabalho enorme para limpar o espelho ao final do dia. Mas, como sempre, na tarde seguinte, lá estavam as mesmas marcas de batom...
Um dia o diretor juntou o bando de meninas no banheiro e explicou pacientemente que era muito complicado limpar o espelho com todas aquelas marcas que elas faziam. Fez uma palestra de uma hora. No dia seguinte as marcas de batom no banheiro reapareceram...
No outro dia, o diretor juntou o bando de meninas e o zelador no banheiro, e pediu ao zelador para demonstrar a dificuldade do trabalho. O zelador imediatamente pegou um pano, molhou no vaso sanitário e passou no espelho. Nunca mais apareceram marcas no espelho!
Moral da história: Há professores e há educadores...
Comunicar é sempre um desafio! As vezes precisamos usar métodos diferentes para alcançar certos resultados.

Maximo Gorki

"A ciência e a literatura têm muito em comum; em ambas a comparação e o estudo são de fundamental importância; o artista, como o cientista, necessita de imaginação e intuição". M. Gorki, Como aprendi a escrever, 1984, p 13. Estamos avaliando nossas crianças dentro e fora da escola, para saber se elas aprendem a ler e fazer contas. Atributos básicos para o mercado. Essa é a característica básica da escola pública deste século? Aperfeiçoar corpos e almas para o mercado? É mais fácil... talvez, não precisamos nos preocupar além de letras e números. Mas e a imaginação e a intuição, onde é possível encontrá-las? Certamente, não está nesta escola de letras e números, muito menos, nas avaliações que se metem a medir o ensino. Qual ensino? Qual educação? O primeiro argumento é que a escola pública não tem a vocação de descobrir e fortalecer artistas. Então, qual a sua vocação? Espero que não seja a disposição de alimentar o gado para o abate. Mas, enfim, parece que só nos é possível sonhar, a realidade é outra. Também, não lembro destas avaliações medirem o cotidiano dos conflitos em sala de aula. Embate dos que lutam por suas idéias e que precisam aprender a não desistir delas. Qual é a prova externa que mede a mediação com esses alunos de imaginação e intuição diferente da lógica do mercado? Eu sei, inclusive, a lógica da mídia perdeu a imaginação e a intuição, suas pautas, via de regra, são condicionadas pelo mercado. Nossos políticos perderam a imaginação e a intuição, também, estão a disposição do mercado, tudo cabe dentro da mesma cesta. A minha intuição sussurra que essa história não é bem assim, não vai terminar da melhor maneira para os excluídos e mantidos fora dos acordos. A minha imaginação faz alarido e quer mostrar-me que pode ser diferente, aliás, já houve tempo em que foi diferente. Basta ouvir algumas histórias.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Cachorros e madames

Sinceramente, não sei qual o sentimento de amor que faz das madames e seus cachorrinhos um exemplo de má educação. Senão, vejamos: é proibido levar seus animais as areias da praia com banhistas, mas os peludos estão por lá; os bichos vendo tanto espaço querem correr, saltar, latir, xixi, cocô... E, também, não vejo nenhuma madame juntando o cocô do animalzinho. A maioria não morde, mas sabe como é, o seguro morreu de velho. Mas eles estão por lá, disputando as areias com os banhistas. Cuidado, ai de você, se fizer algum comentário sobre a impossibilidade do animalzinho estar por ali. Será chamado de desumano, insensível, truculento e instado a ver que o bichano não está a fazer mal a ninguém. Outra manhã de férias e descanso, estava nas areias, curtindo o mormaço do céu nublado e a cor marrom das águas do nosso mar agitado, quando uma madame levou seu cãozinho para o banho. O coitado do bicho não queria nada com aquelas águas, nem eu. Nisso estávamos de acordo: eu e o animal. A madame o puxava pela guia. Fiz um comentário para o minha filha, na intenção de educá-la: Coitado, além de não estar certo trazer o animal, o bicho não quer. Imediatamente, do guarda-sol ao lado, saiu outra madame a discursar sobre a minha incapacidade ver a beleza da amizade entre os animais e os seres humanos. Olhei espantado para minha filha: Estamos cercados. E decidi que não iria me retirar da discussão. A disputa verbal já tinha alguns minutos, quando percebi a madame e o seu cachorrinho discutindo. Não conheço quase nada de cachorro ou gatos ou elefantes, mas percebi que o bicho se preparava para o seu cocô. A madame o puxava pela guia e o proibia de fazer suas necessidades. E o coitado obedeceu. Foi se aliviar no cômoro de areia. A madame me lançou um olhar triunfante. Eu levantei e decidi não sentar mais naquelas areias. Passo minhas manhãs ou tardes caminhando pela orla. Acho que sai ganhando.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Aluguel na praia

Em torno de 50 a 70% das casas de veraneio, no litoral norte do RS, destinadas ao aluguel, nos meses de janeiro e fevereiro, encontram-se fechadas. Não têm veranistas para elas ou os veranistas não têm os recursos para as altas diárias cobradas? Talvez, a crise do capital mundial tenha colocado um freio no consumidor de sol, areia e bronzeados. Não acredito! Quem sabe, a fúria de ganhar além do razoável nas diárias do aluguel, tenha retraido esse consumidor de bermudas e bikinis? Mas as estradas continuam repletas nos finais-de-semana, para onde vai essa gente toda? As casas ocupadas na semana têm recebido um maior número de visitantes nos sábados e domingos, o chão fica repleto de colchões. Assim, as areias não perdem as belezas naturais de janeiro e fevereiro. Eu, da minha parte, passo o ano a flertar com as caminhadas pelas areias do nosso litoral. Algumas feitas no amanhecer, mas, na maioria das vezes, me vou pelo entardecer a marchar pelo costado das águas. Claro, tudo está na depedência do churrasco e a ceva da noite anterior. Em todo caso, tem sobrado mais espaço em nossas praias. O veranista de férias agradece!

Retorno

Retornando depois de alguns dias afastado de qualquer convívio com a velocidade de informação da internet. Amigos e amigas, depois de passados os primeiros dias de choque, com tremores e suores, sobrevivi. Foi muito bom estar desconectado deste ciber espaço. Mas, também, é gostoso estar de volta. O mundo continua com suas precariedades e soluções discutíveis. Nada mudou, talvez, algumas coisinhas...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Pablo Neruda

Tuas mãos

Quando tuas mãos saem,
amado, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?
Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.
A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,c
ruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

A Revolucionária Cubana

Meu querido, passei o dia pensando em como posso me tornar uma pessoa melhor, não, talvez não tenha sido isso. Passei pensando em como posso contribuir para que as coisas sejam, funcionem, melhor. Não, também não foi isso. Acho que pensei todo o dia na miséria humana, nas "crises" ideológicas das pessoas do poder, no início do ano letivo, no meu amor desenfreado por ti, nos livros que li nestes últimos dias. Todos livros acompanhados de duras realidades, mas com seus protagonistas ou escritores firmes no propósito de não perder a esperança em outro mundo, com justiça social e solidariedade, outro mundo possível. Talvez devesse ler algo mais pessimista, para que me sinta melhor, pois assim com tanta disposição em tentar a transformação da sociedade, até me sinto mal. Tenho a sensação que não estou podendo fazer nada para isto. Pelo menos, quando saía nas ruas gritando palavras de ordens, me sentia mais "produtiva". Mas em fim, há que ter esperança nesse tal de mundo novo, homem novo, mulher nova, sociedade nova. Assim foi constituída minha natureza histórica, não consigo ser niilista, nem estou disposta. Nem no amor consigo desistir e mantenho minha esperança em um dia poder caminharmos de mãos dadas, tomarmos mate nas praças, ler um livro e comentá-lo "a la minuta", ir-nos ao cinema, compartilharmos filmes, fotos, toalhas e sabonetes. Acho que nossa sociedade almejada é aquela onde as coisas simples que nos fazem humanos estariam sempre ao alcance da nossas mãos.

Cecília Meireles

Meu Sonho

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar…
Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?
Quando vierem fechar meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.

Ferreira Gullar 4

a rotação
da mão que busca entre os pentelhos
o sonho molhado os muitos lábios
do corpo
que ao afago se abre em rosa, a mão
que ali se detém a sujar-se
de cheiros de mulher,
e a rotação
dos cheiros outros
que na quinta se fabricam
junto com a resina das árvores e o canto
dos passarinhos?

Canoas - 8 anos uma ilha taparacha

Homens e mulheres precisam humildade, sensibilidade, razão, e a inquietude do amor, para perceberem a própria participação nesta teia de vida. Não praticam atos isolados sem importância. Inventam as partes do todo, padrões de sociedade das pessoas, bichos, plantas, terras, ar e águas. Práticas corruptas não se desfazem separadas do todo. O pensamento cartesiano nos torna pacatos, fechados em nós mesmos e obsoletos. Difícil separar, isolar e julgar práticas individuais ou de grupos a parte do fazer da sociedade dos homens e das mulheres. Os acusadores não são diferentes daquilo que apontam, apenas têm a oportunidade do teatro acusatório. Será preciso ter uma prática diferente. Uma prática participativa. Coletiva. Toda análise reducionista impede a clareza e compreensão da importância das partes no todo, e em si mesmo, um caminho inverso que cria e recria monstros. Essa rede de amor e ódio joga tensões e torções em suas performances. Minha matéria dialética não permanecerá, mas, lá adiante, no lembramento do anúncio provocante, permanecerei o taparacha.

Déficit Zero

A Biblioteca Fechada

Onde encontrar pedaços partidos e perdidos no colo da paixão de aprender e ensinar?
O tempo e os seus ventos nos levam aonde nos querem ver chegar, mas não conseguimos ancorar.
Reconhecemo-nos impotentes para tornar iguais àqueles que a realidade social e econômica humanas tornou diferentes.
Qual a escola que a sociedade dos homens e mulheres, deste tempo, oferece às suas crianças? A nossa escola pública se apresenta como os colégios para crianças com privilégios sociais e econômicos?
Continuo me torturando com perguntas e respostas previsíveis. A estrutura social determina que as pessoas cumpram ou não seu destino!
Destino?
Nós somos o destino quando nos calamos e omitimos...
Os valores que a escola propõe às crianças são os apegos aos valores burgueses do individualismo, a promoção pessoal, a ascensão social mediante esforço próprio, a poupança, a segurança.
Pára, pára, grito no meu silêncio, estremeço o corpo e sacudo a cabeça tentando afastar tantas perguntas, é mais fácil responder um questionário de cem perguntas sobre matemática, decorando e exercitando muito, enchendo e enchendo folhas brancas de riscos, ou serão sinais, esses alunos e alunas nunca saberão da serventia humana de saber ler e escrever.
Mas sabem que precisam ler e escrever alguma coisinha para um emprego. Isto basta?
As questões fundamentais da humanidade não lhes pertencem e não são cultivadas, pois não existe prática coletiva entre nós.
Como praticar e teorizar uma práxis que não vivencio, nem sinto seu cheiro?
Pelo contrário, sinto um cheiro acre, áspero, fedentina insuportável do déficit zero porque a glória é conquistada em cima de corpos e sonhos. A pobreza não tem voz, nem tem vez, segue na coluna contábil dos gastos sem retorno. Paro minhas reflexões num curto-circuito, não estou atento a reunião e não entendo a correria, os risos, e as piadas, nem mesmo o mau cheiro, mas a biblioteca continua fechada.
Saudemos a escola pública com déficit zero.

Doenças da Próstata

Cerca de metade dos homens com mais de 50 anos apresentam aumento da glândula prostática ou hiperplasia benigma, sem incluir as infecções da glândula (prostatite) nem os tumores prostáticos. Esta taxa evidencia claramente o impacto que as afecções da próstata, neste grupo etário, têm sobre a saúde.
Nas últimas décadas foi observado um aumento progressivo das doenças prostáticas, acompanhado pleo aumento da expectativa de vida e pelos melhores métodos diagnósticos. Os exames médicos de rotina e o maior conhecimento sobre as afecções relacionadas à próstata, entre outros fatores, mudaram o prognóstico da doença de forma crítica, e demonstraram, mais uma vez, que diagnosticar e tratar adequadamente é sempre a melhor opção.

Boehringer Ingelheim

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Ferreira Gullar 3

Nova Canção do Exílio

Minha amada tem palmeiras
Onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos
Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim
Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata
Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias
que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos

Ferreira Gullar 2

Nós, Latino-Americanos

Somos todos irmãos
mas não porque tenhamos
a mesma mãe e o mesmo pai:
temos é o mesmo parceiro
que nos trai.

Somos todos irmãos
não porque dividamos
o mesmo teto e a mesma mesa:
divisamos a mesma espada
sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos
não porque tenhamos
o mesmo berço, o mesmo sobrenome:
temos um mesmo trajeto
de sanha e fome.

Somos todos irmãos
não proque seja o mesmo o sangue
que no corpo levamos:
o que é o mesmo é o modo
como o derramamos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Ferreira Gullar

Cantada
Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça d'água
límpida
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira da República Dominicana

Olha,
você é tão bela quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana

Cooperativa GiraSol

Você quer um comércio justo e consumo consciente?
Visite a Cooperativa GiraSol.
http://www.coopgirasol.com.br:80/

Vô Rangel

Mantimentos para o almoço da gurizada, no Sítio do Vô Rangel. Encerramento do ano letivo de 2008, com os alunos e alunas do 1 ciclo, da EMEF Ver. Antônio Giúdice.

Amuletos e Simpatias

Para evitar impotência sexual
Coloque pedaços de casca de Catuaba, dentro de um litro de bom vinho, tome um gole antes das refeições. A casca de Catuaba deve ser retirada de baixo para cima, e pode tomar até a idade de Matusalém.

Simpatia retirada do livro Amuletos e Simpatias do professor Nathanael, Sul editores.

Amuletos e Simpatias

Seios em alta
Para evitar o problema com os seios caídos, passe uma colher de pau virgem sobre os seios, 9 vezes, de cima para baixo, e mais 9 vezes de baixo para cima. comece sempre pelo seio esquerdo e depois vá para o direito.

Simpatia extraída do livro Amuletos e Simpatias do Professor Nathanael, Sul editores.

Mudança Ortográfica

Como estamos em início de mudanças ortográficas e o Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) ainda não foi publicado, sugiro o uso on-line do Aulete. Esse portal já nos mostra as modificações ortográficas. Gostei de usar. Eis o endereço:
http://www.aulete.portaldapalavra.com.br/site.php?mdl=aulete_digital

DOZE CONSELHOS PARA TER UM INFARTO FELIZ !!!

Recebi por e-mail o texto abaixo e resolvi publicá-lo. Não conferi a veracidade, mas ele em si me interessa. Quero refletir a partir dele a nossa coleção de erros como seres humanos. A sociedade do consumo desmedido recebemos de nossos pais. E daí? A estamos repassando aos nossos filhos e filhas um pouquinho piorada. Mais selvagem! No trânsito não dirigimos nossos carros, mas os usamos como armas de ataque; nos estádios de futebol não torcemos pela vitória do nosso time, mas pelo aniquilamento de todos que se manifestam contrários ali, naquele Coliseu. O nosso legado para as próximas gerações será a intolerância?

Dr. Ernesto Artur - Cardiologista
Quando publiquei estes conselhos 'amigos-da-onça' em meu site, recebi uma enxurrada de e-mails, até mesmo do exterior, dizendo que isto lhes serviu de alerta, pois muitos estavam dotando esse tipo de vida inconscientemente.

1.Cuide de seu trabalho antes de tudo. As necessidades pessoais e
familiares são secundárias.
2.Trabalhe aos sábados o dia inteiro e, se puder também aos domingos..
3.Se não puder permanecer no escritório à noite, leve trabalho para
casa e trabalhe até tarde.
4.Ao invés de dizer não, diga sempre sim a tudo que lhe solicitarem.
5.Procure fazer parte de todas as comissões, comitês, diretorias,
conselhos e aceite todos os convites para conferências, seminários,
encontros, reuniões, simpósios etc.
6.Não se dê ao luxo de um café da manhã ou uma refeição tranqüila.
Pelo contrário, não perca tempo e aproveite o horário das refeições
para fechar negócios ou fazer reuniões importantes.
7.Não perca tempo fazendo ginástica, nadando, pescando, jogandoBola ou tênis. Afinal, tempo é dinheiro.
8.Nunca tire férias, você não precisa disso. Lembre-se que você é deferro. (e ferro , enferruja!!. .rs)
9.Centralize todo o trabalho em você, controle e examine tudo para verse nada está errado. Delegar é pura bobagem; é tudo com você mesmo.
10.Se sentir que está perdendo o ritmo, o fôlego e pintar aquela dorde estômago, tome logo estimulantes, energéticos e anti-ácidos. Elesvão te deixar tinindo.
11.Se tiver dificuldades em dormir não perca tempo: tome calmantes esedativos de todos os tipos. Agem rápido e são baratos.
12.E por último, o mais importante: não se permita ter momentos de oração, meditação, audição de uma boa música e reflexão sobre suavida. Isto é para crédulos e tolos sensíveis.
Repita para si: Eu não perco tempo com bobagens.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Manualdo

Aquele Manualdo tranqüilo. Muito quieto. Por esses dias, indiferente no seu jeito acanhado de desfazer o que se fica a pensar dele. Cabelos muito lisos, muito escorridos, acompanhados de um farto bigode. Tapuio castiço. Não é o mesmo homem quando acorda todo apaixonado e preocupado com os suspiros da mulher, Amorzinho, o que foi, Ta tudo bem, querido. Aproxima-se da Cariciosa até colar-se. Sente a maciez das suas pernas. Achega-se com os lábios na nuca da amada. Um pequeno tremor da sua voz faz chegar um arrepio na dona de seu coração. Outro beijo no ombro a faz gemer, Tua falação dormida das coisas me assusta, Por que, Eu não consigo entender, Querido, tenho sonhos estranhos. Enquanto cochicham, sua mão esquerda, única em liberdade de uso, a direita se enfiou por baixo do corpo da Cariciosa e a segura com firmeza na nádega redonda e nua, desliza dos bicos até os pêlos, passa pelo umbigo, ora para cima ora para baixo, Sonhos bons, Muito lindos, Conta estes sonhos. Agora, os dedos se param nos pêlos e ficam a dar voltas, enrolando e desenrolando, Amorzinho, esquece, é tudo idéia do pensamento caído no sono, vamos dormir e depois criar os miúdos, Tá na minha hora, querida. Muito no contragosto retira as mãos e se ergue. É hora de se preparar para os empilhamentos.

Os 10 mandamentos do chimarrão

1. Não peças açúcar no mate.
2. Não digas que o chimarão é anti-higiênico.
3. Não digas que o mate está quente demais.
4. Não deixes um mate pela metade.
5. Não te envergonhes do ronco no fim do mate.
6. Não mexas na bomba.
7. Não altere a ordem em que o mate é servido.
8. Não condenes o dono da casa por tomar o primeiro mate.
9. Não durmas com a cuia na mão.
10. Não digas que o chimarrão dá cancêr na garganta.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Por que não leio a Veja

A Veja que se apresenta como uma das maiores do mundo é uma das provas da indigência da classe média brasileira. Isto sem citar os ricos cansados do Cansei! São leitores incapazes de perceber o péssimo jornalismo que a revista pratica. Reacionária, facciosa além do aceitável. E essa pretensa elite obtusa que repete o besteirol da revista da Abril, da Globo e dos jornalões, está a nos atrasar como nação.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Podem ler, eu já li!

Você tem um cão?
Ah, é um gato que você tem?

Se você não tem, algum parente, vizinho ou amigo seu tem, não?
Por favor, leia e repasse esta mensagem
CUIDADOS PARA A NOITE DA VIRADA DE ANO --(FOGOS DE ARTIFÍCIO)

Os fogos da virada de ano são responsáveis por acidentes dos mais variados tipos, principalmente com cães.

É grande o número de fugas e o conseqüente desaparecimento do animal, atropelamentos, ataques (investidas contra os próprios donos e outras pessoas), brigas (inclusive com outros animais com os quais convivem), mutilações em grades e portões, enforcamentos com as próprias coleiras, afogamentos em piscinas, quedas de andares e alturas superiores, aprisionamentos involuntários em porões e outros lugares de difícil acesso, alem de paradas cardiorespiratórias, etc.

O pânico desorienta o animal e pode deixá-lo agressivo, o que em se tratando de cães de grande porte, passa a ser também perigoso.

Procure evitar surpresas indesejadas garantindo condições mínimas de segurança, poupando ambientes conturbados e barulhentos desde antes do espocar dos fogos. Passe ao seu animal tranqüilidade e a sensação de que tudo está bem e sob controle.

Reações de medo, susto e espanto demonstradas pelo(s) dono(s) e/ou outras pessoas, o deixarão inseguro, o que poderá ser revertido em agressividade, fuga, e/ou farão com que procure tomar o controle da situação.

Cães são lobos domesticados que por natureza identificam e respeitam um líder. Você é o líder. E para isso não é preciso que ele tenha medo, mas respeito. O medo é (pode ser) imposto, o respeito é uma conquista. Onde não houver um líder um cão tentará esse posto. Situações de descontrole e desordem são propicias para que ele tente isso. É ai que entra a voz de comando - a sua voz de comando.

Outra conseqüência do que se está alertando aqui, além da serias mutilações, ferimentos, mortes e desaparecimentos, é o aumento de animais perdidos nas ruas, vindo a somar com os que já são animais de rua, o que fará aumentar um outro problema, e, claro, a dor da perda de seu mascote.

Tudo isso pode ser evitado com prudência, atenção e um pouco de boa vontade.

Alguns veterinários aconselham o uso de tampões de algodão nos ouvidos que podem ser colocados minutos antes e retirados logo após os fogos, como também a administração de calmantes naturais, com resultado bastante eficiente para os animais que historicamente apresentam o estresse.
(consulte o veterinário)

Todos os anos, nos primeiros dias de Janeiro, facilmente são identificados vagando pelas ruas animais desorientados e perdidos. Boa parte deles (é fácil identificar na aparência) se perderam desesperados com os fogos da virada do ano.

Esse alerta serve também para datas comemorativas, grande jogos de futebol (clássicos e decisões), Copa do Mundo, época de São João, etc.

PRATIQUE A POSSE RESPONSÁVEL DE ANIMAIS.
VAMOS PREVENIR?
*Divulgue o conteúdo dessa mensagem aos seus amigos, parentes e vizinhos, assim com no seu bairro, condomínio, no
trabalho, etc. (não só pela Internet).

Feliz Natal e que no Ano Novo tomem os cuidados com seus bichos.

Cachorreiros

Lá, pelo dia 22 de dezembro, recebo carta no correio da internet. Uma amiga de muito tempo sem ver, e de muita vontade de rever, manda um aviso de cuidado. Ei-lo, É muito importante, pois eu tenho meus cães e com orientação do veterinário tenho que deixá-los sedados. Eles sofrem muito na noite da virada de ano, com os fogos de artifícios, quebram portas, tentam se esconder, ficam desesperados, então leia atentamente. Não li. Ou melhor, lembro de ter visto de relance, bem lá embaixo, Pratique a posse responsável de animais. É isso, não quero praticar a posse de nada mais, nesse mundo. Fiz um pequeno resmungo e passei para o próximo e-mail. Todos a desejar um feliz natal e próspero ano novo. Nada de novo. Até mesmo as lembranças são dos mesmos amigos e amigas. Todos e todas bem-vindos.
É isso, fiquei decepcionado. Não, com certeza, fiquei desenganado. Tanto tempo e a carta que me chega, desta querida amiga, lá dos meus dezenove anos, é para cuidar de animais que não tenho. E não quero ter. Esses bichos precisam de cuidados constantes, jamais deixam de serem alimentados. Latem ao menor sinal de alegria ou estranhamentos. Deixam seus pêlos pela casa. Já me bastam os cabelos nos ralos dos banheiros. Quando chegamos ficam a rodar de lá para cá, aos pulos e num tal de lamba-lambe que sinceramente, não me animo. Relacionamento canino, apenas no limite da distância. Algo como, um reconhecimento mútuo. Um não incomoda ao outro. Eles lá e eu por aqui.
Não consigo me pensar a passear com animais, pela corda de uma coleira. Levá-los ao parque para brincar e esperar até que façam o número um ou o número dois, pelos gramados. Muito menos, levá-los à praia para vê-los correr pelas areias. Felizes com a liberdade que não querem, pois não se afastam nem se perdem. Com exceção dos mais desatentos. As ovelhas negras, os irresponsáveis.
Não sou cachorreiro nem gateiro.
Fico irritado quando as madames e os seus cachorrinhos se ficam instalados nas minhas areias. Aquele xixi ou aquele cocô, mais hoje, mais amanhã, irá parar em mim. Não tenho motivos para amá-los. Não tenho vontades de tê-los. Sou indiferente aos seus olhares de submissão e pedidos de carinhos, não lhes guardo em minhas poucas preces. Não os tenho em casa.
Mas como o tempo é o melhor remédio para feridas desprotegidas, segui em frente. Esquecido daquela senhora tão linda, afugentada das minhas memórias. Agora, preocupado com os preparativos para a noite de natal. Aquela reunião familiar e fraternal entre tantos e tantas. Quanto mais filhos, mais sogros e sogras e cunhados e cunhadas. Sobrinhos aos montes. Alguns se dão a conhecer durante a visita do velhinho, Oi, tio, conhece a minha namorada, Não, muito prazer, fique à vontade. Isso quando não lhe dão a missão de transportar seus amores de um lugar ao outro, Pai, me leva até a casa da Jú, Claro, meu filho, Pai, Você não, minha filha, fica em casa, Mas, pai, eu só quero saber se o Ravel pode vir aqui, em casa, Pode, minha filha, quer que vá buscá-lo, Não precisa, ele está no portão, Ah, então diz pra ele entrar.
É isso, minha noite de natal, mas têm mais, além dos abraços e as trocas de presentes, temos aqueles malucos que ficam pelas ruas a estourar rojões e bombas de papelão e pólvora. Barulhos de enlouquecer qualquer um. Sustos difíceis de suportar. Estrondos rápidos que apenas deixam como vestígio um cheiro da polvorada e um pequeno rastro de fumaça. Particularmente, está noite de 24 para 25 de dezembro foi muito barulhenta. Muitos estouros e sustos. Mas conseguimos sobreviver a estes humanos enlouquecidos.
A manhã seguinte é reservada à ressaca. Dormir e dormir. Com a preferência de acordar com litros de água ao lado da cama. Na distância de um braço. Beber e beber. Foi o que fiz.
Na tarde, resolvi que deveria manobrar o carro e guardá-lo de ré. Foi o que fiz. Não sei a razão, mas escolhi a hora de sol mais intenso, alguma coisa do tipo duas horas da tarde. Sol a pino. Erguido o portão, olhei para os lados, nenhuma alma viva ou morta se manifestava por ali, sai e tornei a entrar com o carro de costas. Barbada em dias normais, mas hoje, foi necessário mais de um ir e vir, até ajustar o carro nas medidas da garagem. Depois de feito, ergui os olhos para o portão e com o controle na mão me preparei para fechá-lo. Surpresa. Aparece a caminhar de maneira perdida e desorientada uma cachorra. Antes de continuar o grito mecânico, Sai daqui, reconheci o sexo do bicho, pelo par de fitinhas presas em suas orelhas. E, mais, reconheci a cachorra também. Tuca, a cadela da minha cunhada. Estava a quadras e quadras de distância. Moramos em bairros diferentes. E ali está a cachorra. Tuca. Passa no exato instante em que estou lá, para reconhecê-la. Naquele calor infernal. Chamei-a pelo nome, Tuca, Tuca, me ignorou. Continuou a caminhar. Sem destino. Desorientada. Segui em seu encalço. Deixando tudo em aberto. Não podia perder a Tuca de vista. Cuidando para não assustá-la. Mas sem nenhuma condição de competir com sua correria. Lembrei que carregava meu celular em um dos bolsos, Alô, Denise, Oi, Menina, achei a tua cachorra, Onde, Caminha aqui, na minha rua, To indo.
Nesse tempo de falar ao telefone e perseguir a desatinada, recebo socorro. Meu filho vem na correria e se põe na perseguição. Grito em aviso, Cuidado, não assusta a cachorra. Como se o animal já não estivesse desnorteada e apavorada. Ele segue em frente, Tuca, Tuca. Lembrava que, logo adiante, temos uma avenida muita movimentada e, por certo, aquele bicho criado em casa não saberia se esquivar e desviar. Peguei, novamente, o celular e já quase em desespero, Venham logo, ela está indo para a avenida, Onde vocês estão, Quase no final da rua. Na verdade, eles, meu filho e a cachorra, iam bem adiantados, eu os seguia como podia. Atrasado. Com os pulmões repletos do ar quente daquele dia ensolarado. Os pequenos arbustos me impediam a visão. Vi quando meu filho entrou na avenida e um enorme carro, desses gigantescos, deu uma freada brusca. Meu coração estava aos pulos. Apressei mais meus passos. Naquela esquina temos uma praça e algumas árvores, não conseguia ver. Acho que corria. Não sei. Quando consegui espichar meus olhos lá estavam os dois. Parados em meio da avenida. Os carros parados. Meu filho conseguira segurá-la. A mantinha deitada e a acariciava. Depois a pegou no colo. Estava protegida. Não reagia apenas se deixava carregar. A boca aberta, a língua caída da boca, os olhos arregalados. O coração galopava pelo seu peito peludo. Pêlos brancos com manchas amareladas.
Estava salvo.
Ela também. Fugira em desatino na noite dos estouros e vagara perdida toda noite até àquela hora da tarde. Ela tem estrela, eu tive destino.
Acima, na íntegra, a mensagem de aviso. Podem ler, caso não tenham lido. Eu acabei de ler.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Inhacundá

As lembranças daquele arroio e dos meninos pelados correndo a se jogar nas suas águas não me deixam. As marés das chuvas a crescer suas águas no contorno da minha cidade, São Francisco de Assis. Meus cabelos brancos não me afastam destas memórias, pelo contrário, a cada novo fio pálido de leite meu memorial se reconstrói. As minhas carnes se ficam com doze anos, o fôlego me volta de uma só vez, os olhos se arregalam, esbugalhos de contentamento.
O arroio se chega em curvas de sinuosas intenções.
Tenho mais que a nostalgia poderia me trazer, tenho a memória do vivido com aqueles guris.
Voltei.
Precisava voltar.
Achei quase tudo no lugar. Minha casinha humilde com seu telhado de telhas em canoa. A porta. Janelas. As mexeriqueiras sumiram e as terras se dividiram para abrigarem muitas casas. Mas a praça e os bugios ainda andam por lá, viraram atrações. Os matos se acabam e resta a praça com os seus macaqueadores. Os turistas se vêm para alimentá-los e se fotografarem juntos. Fico de longe.
Não tenho precisão das fotos, pois tenho a vida, conservo as lembranças. Escuto os gritos de convocação, Milton, vamos jogar bola na beirada, Vó Nena, posso, Vai, mas cuida a hora do sol mais fraco, Tem pão quando eu voltar, Bem quentinho. E lá se iam os guris de São Chico na direção do arroio Inhacundá. A pelada se jogava com bola de costuras por fora nem parecia que doía chutar. O guri que eu era crescia entre os amigos, enquanto meus irmãos se foram pra capital mudar de vida. Deixaram a absoluta calmaria pela agitação das charretes e fords bigodes. Burburinho civilizatório.
Talvez, tudo não tenha sido bem assim, mas e daí, é como lembro e gosto de pensar que foi. Depois do futebol batia aquela vontade danada de pular no Inhacundá, mas o que fazer dos calções molhados, todos se olhavam e lá se iam eles pernas abaixo. Corríamos pelados até a barranca e pulávamos um após o outro, feitos pedras de dominó. Minhas lembranças se ficaram dos vôos até as suas águas límpidas de cor marrom. Cheiravam a mato. Sinto ainda estar a flutuar da barranca, as pernas encolhidas, os gritos de alegria, os olhos arregalados de satisfação e os braços estendidos junto com minhas mãos e dedos. Voltei a ser aquele guri que já havia esquecido, deixado de lado, meio a contragosto.
Nadávamos até a ilha no meio do arroio e tornávamos a saltar nas águas, Silêncio, Psiu, O que foi, Ouçam, Não to escutando, As gurias estão a se banhar lá pra cima, Vamos espiar. E lá nos íamos espiar os banhos das gurias, com seus maiôs de manga e pernas compridas. Quando nos viam saiam nas correrias. Todos fugiam. Voltávamos a buscar calções e calças.
Lembro dos dias de chuva dentro do rancho. Não sei se o rumo dos sonhos viaja no tempo e chega a terra de lugares distantes, para mudar as lembranças, apenas atravesso a rua. Eis a agonia de percorrer o tempo e lugares antes que o estalar dos dedos se faça ouvir. Caminho com as mãos nos bolsos e passos deliberadamente lentos. Tenho a pele avermelhada pelo sol radiante e mergulhada em sua luz devastadora. A vasta cabeleira negra cedeu lugar ao cabelo encanecido pelo tempo, cortado baixinho. Digo que estou ainda inteiramente ingênuo e, até esse tempo, represento por inteiro aquele menino.
Paro a tomar fôlego e ouvir minhas preces ocultas. As vozes dos guris.
Ninguém percebe minha alegria do espanto, o eco me retorna. Sou aquelas memórias que só existem em mim. Fui feito em muitos anos. Lutei em muitos moinhos e sonhos, devaneios de guri feito homem sozinho. Esses pedaços da memória que me pertencem me fazem de carne e osso.
Tenho oitenta, e sei, sempre terei doze. Aquele guri do Inhacundá chegou até aqui e pretende ir mais longe, Nada é tão simples, meus filhos, do que viver. Sou um narrador intrometido nos próprios sonhos de lembrar. Sinto saudades da escola que não fui, fugia para jogar bola e tomar banho de rio. Sinto a ausência das letras que deixei pelos caminhos sem decifrá-las. Fiz um mundo diferente para mim. Tenho meus grandes heróis, brilhantes e universais. Quero reunir todos e todas que enquanto dormem sonham e são felizes.
Sinto o sonho do sono invadir os lugares mais retirados do meu corpo. Minha consciência vai me abandonando, quase adormeço do mesmo modo que sempre digo que devem descansar, confiantes, sem medo do escuro, pois, no final, sempre vencemos a escuridão. Continuo a conduzir as histórias do real, gostosas lembranças de guri. Eu sou o que existe de fato, o andamento dos compassos recolhidos dentro da memória. Intacto. Descobri o tempo de dizer o que decifrei do tempo que também sou. Isso, eu sou o guri que nunca deixei de ser. No mundo dos sonhos estou apenas usando minha memória, lembrando do que desejo sonhar de novo, coisas que podem ser acontecidas. Sigo fazendo o meu discurso, o meu abraço em vocês, meus filhos, desses que acontecem de vez em quando, pelo mundo desta ilha de muitos sabores.
Hiiiippppp, estou a flutuar da barranca, as pernas encolhidas, os gritos de contentamento, os olhos arregalados de satisfação e os braços estendidos junto com suas mãos, meus filhos. Meus cabelos nevados se arrepiam, envelheceram. Minhas memórias pulam ansiosas, gritam alegres.
A magia é um mundo aberto sem porteiras.