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sábado, 6 de maio de 2017

Demarcação Já!

Pelo direito à terra, pelo direito à vida!

#DemarcaçãoJá



Pelo respeito e pelo direito
À diferença e à diversidade
De cada etnia, cada minoria,
De cada espécie da comunidade

De seres vivos que na Terra ainda há,

Demarcação já!
Demarcação já!







Letra: Carlos Rennó
Música: Chico César
Direção: André Vilela D'Elia
Produção: Cinedelia
Assista também em: cinedelia.com

Artistas:
Ney Matogrosso
Maria Bethânia
Gilberto Gil
Djuena Tikuna
Zeca Pagodinho
Zeca Baleiro
Arnaldo Antunes
Nando Reis
Lenine
Elza Soares
Lirinha - José Paes de Lira
Leticia Sabatella
José Celso Martinez Corrêa
Tetê Espíndola
Edgard Scandurra
Zélia Duncan
Jaques Morelenbaum
Dona Onete
Felipe Cordeiro
Criolo
Marlui Miranda
BaianaSystem
Margareth Menezes
Céu

Com participação de:
Eduardo Viveiros de Castro
André Vallias
Ailton Krenak


domingo, 4 de dezembro de 2016

quando o lugar não é o lugar nem é do lugar


Temer teve o que mereceu em Chapecó: o desprezo silencioso. 






Postado em 03 Dec 2016


por : Paulo Nogueira




O que é pior: ser vaiado ou desprezado? Ser apupado ou ignorado?

Não são questões fáceis estas que devem estar ocorrendo agora a Michel Temer.

Para resumir, pode-se dizer que ele teve o que merecia nesta sábado em Chapecó.

Depois de uma série de idas e vindas, em que o pânico das vaias falou alto para sua alma medrosa como de hábito, ele decidiu ir ao estádio do Chapecó para as homenagens às vítimas da tragédia.

Seu nome foi anunciado. Nenhuma manifestação. Nem vaia, nem aplauso. Foi como se tivessem dado a hora.

O nome do embaixador da Colômbia foi anunciado: palmas. Palmas de pé.

O contraste foi humilhante para Temer. Foi um silêncio gritante.

Se tinham vontade de vaiar Temer, os presentes ao estádio deram uma lição de civilidade e humanidade. Não era, definitivamente, hora de misturar política e tributo. Cada coisa tem sua hora e seu lugar.

Vaiar Temer seria desrespeitar muito mais as vítimas da tragédia do que o próprio Temer.

O silêncio foi um gesto de grandeza da multidão. Ao mesmo tempo, foi mais uma prova de que Temer é menor que os brasileiros.

Muito menor.




quarta-feira, 23 de março de 2016

De todos – repito – TODOS os partidos.


“Listão da Odebrecht” tem mais de 200 nomes de políticos. E nenhum deles é Lula


Tijolaço


POR FERNANDO BRITO · 23/03/2016







Não foi um vazamento; foi um rompimento de adutora.



A adutora que abastece, e todo mundo sabe disso, todas as campanhas política no Brasil que, contra a vontade da mídia, de Gilmar Mendes, de Eduardo Cunha, do PSDB e de tanta gente “boa”, adiou o quanto pôde o financiamento público das eleições.

Fernando Rodrigues divulgou o “listão” de supostas ajudas da Odebrecht a políticos.

De todos – repito – TODOS os partidos.

Aécio Neves, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Jaques Wagner, Romero Jucá, Humberto Costa, Eduardo Paes, José Sarney e Eduardo Campos, morto em 2014, entre centenas de outros. Centenas mesmo, mais de 200.

Não está claro na matéria o que foi legal e o que foi “caixa dois”, que nenhuma campanha política de algum porte deixa de ter.

É m… no ventilador para ninguém botar defeito, mas uma coisa salta aos olhos.

O nome de Lula não aparece uma só vez no listão, que está em poder da Lava Jato desde 22 de fevereiro.

E o documento, em tese, teria sido divulgado ontem, quando não haveria restrição partida da decisão do STF, tomada já tarde da noite por Teori Zavascki.

Eu ainda mantenho um “pé atrás”. Não é lógico que uma planilha assim vá ver guardada durante oito meses de prisão do presidente da empreiteira, Marcelo Odebrecht, sem ter sido picado, incinerado e desaparecido.

Alguns arquivos publicados por Fernando Rodrigues estão indisponíveis, surgindo em seu lugar uma indicação de página em manutenção, como reproduzo abaixo. Outros são estranhos, contendo textos estranhos ao caso, como a reprodução da famosa avaliação do ex-secretário de comunicação do Planalto, Tomas Trauttman, sobre o cenário eleitoral, que foi amplamente publicada e não revela, por isso, absolutamente nada.

Coisas estranhas, muito estranhas.

Mesmo num país em que não se estranha mais nada.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Volver a los 17 después de vivir un siglo

Mercedes Sosa con Milton Nascimento







Volver A Los 17




Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si

Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella Diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín



Volver a Los 17


Voltar aos 17 depois de viver um século
É como decifrar sinais sem ser sábio competente
Voltar a ser de repente tão frágil como um segundo
Voltar a sentir profundo como um menino diante de Deus
Isso é o que sinto neste instante fecundo

Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

Meu passo retrocede quando o de vocês avança
O arco das alianças penetrou em meu ninho
Com todo seu colorido passeou por minhas veias
E até a dura corrente com a qual nos prende o destino
É como um diamante fino que ilumina minha alma serena

Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

O que pode o sentimento não o pode o saber
Nem o mais claro proceder, nem o maior dos pensamentos
Tudo o muda num momento qual mago condescendente
Nos afasta docemente de rancores e violências
Só o amor com sua ciência nos torna tão inocentes

Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

O amor é um turbilhão de pureza original
Até o feroz animal sussurra seu doce som
Detém os peregrinos, liberta os prisioneiros
O amor com seus esforços ao velho o torna criança
E ao mal só o carinho o torna puro e sincero

Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

De par em par a janela se abriu como por encanto
Entrou o amor com seu manto como uma fraca manhã
Ao som de sua bela Diana fez brotar o jasmim
Voando qual serafim ao céu lhe pôs brincos
Meus anos em dezessete os converteu o querubim



Composição: Violeta Parra

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Machismo? É possível. Covardia? Talvez.


Fábio Júnior, os brazucas-nova-iorquinos e o palavrão



Mauro Cezar



Este não é um texto em defesa de político algum. São apenas algumas linhas tentando provocar uma reflexão sobre a necessidade de o brasileiro aprender a conviver com a democracia sem passar do ponto, sem cair na baixaria gratuita, sem aderir a oportunismos que agridem e não nos levam a avanço algum. Se não for capaz de pensar a respeito, não leia, por gentileza.



*****



Em Nova York, no Brazilian Day, domingo passado, Fábio Júnior, cantor e ator de 61 anos, aproveitou um intervalo em sua apresentação para se enrolar na bandeira brasileira e falar em orgulho etc. Em seguida, atacou a corrupção, o que poderia ser louvável, não fosse a forma seletiva que caracteriza tantos “insatisfeitos” por aí.



O cantor e ator Fábio Júnior em Nova York



Não demorou a motivar o dissimulado cântico “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, entre os brazucas-nova-iorquinos. Atacou Dilma, Lula, Zé Dirceu, PMDB… Até então ok, direito de expressão é isso aí, concordem ou não com Fábio Júnior. Mas então vem o escorregão. Os palavrões da platéia e a carona do artista.

“Ei, Dilma, vai tomar no cu”, gritavam alguns. E o que fez Fábio Júnior? Ergueu o microfone com a mão direita enquanto com a esquerda segurava o violão. Fez questão de amplificar a baixaria, a forma deselegante e machista com a qual a presidente da República tem sido tratada nesses protestos. O cúmulo da falta de argumentos.

Não foi o bastante. O cantor ainda mandou um “Ei, Dilma” em meio aos gritos e em seguida, disparou: “Vocês sabem onde está aquele dedinho que o Lula perdeu, não? Onde é que ele enfiou? No nosso. E dói pra caramba”. Não tenho condições de avaliar a dor de Fábio Júnior nesse momento, mas se ele diz que dói, é porque deve doer mesmo.







Mas por que mandam Dilma “tomar no cu”? Algum dos agressores verbais tem provas de que ela roubou? Conseguiram fazer uma inquestionável conexão entre ela e os escândalos correntes a ponto de derrubá-la? Já pensaram que é no governo de Dilma que José Dirceu, outrora o todo-poderoso do petismo, entre outros, foi merecidamente condenado e preso? E empreiteiros também?

Seria sensacional se Fábio Júnior discursasse apresentando fatos, argumentos e relatando situações que expliquem sua repentina transformação em ativista político. Ele realmente agregaria algo. Não sei se é capaz disso, mas poderia pelo menos tentar. Pois abrir o microfone enquanto mandam alguém “tomar no cu” não exige muito esforço intelectual dos envolvidos.

Há, sim, motivos de sobra para que as pessoas questionem o atual governo e a própria presidente fez uma espécie de mea-culpa quando disse no dia seguinte “se cometemos erros, e isso é possível, vamos superá-los e seguir em frente”. Protestem, peçam renúncia, que se faça tudo o que o ambiente democrático permite. Mas é preciso baixaria tamanha?

Mesmo Fernando Collor de Mello, afastado da presidência há pouco mais de duas décadas, não era xingado dessa forma. Machismo? É possível. Covardia? Talvez. Falta de argumentos seguros e razoáveis por parte de tantos? Com certeza. A forma como se protesta é muitas vezes baixa, vil e até mesmo cretina.

Nos anos de chumbo, levantar a mão contra o governo poderia ser a assinatura da própria sentença de morte. Pessoas eram sequestradas pelo regime, torturadas e assassinadas. No ano passado, a Comissão Nacional da Verdade confirmou 434 mortes e desaparecimentos de vítimas da ditadura militar, sendo que 210 nunca mais foram encontradas — clique aqui para ler.

E naquela década de 1970, Dilma Vana Rousseff foi torturada nos porões da ditadura. Em Juiz de Fora, “foi colocada no pau de arara, apanhou de palmatória, levou choques e socos que causaram problemas graves na sua arcada dentária”, como detalha o texto que você pode acessar clicando aqui.

Vivemos num ambiente democrático e quem hoje ocupa a presidência lutou e se arriscou para chegarmos a tal cenário, no qual até mesmo quem ocupa o mais importante cargo do país pode ser xingado. E se é democrático assim deve ser. Mas está mais do que na hora de parte do povo aprender a conviver com tal liberdade.

A ofensa pura e simples, o “Ei, Dilma, vai tomar no cu” não alimenta o debate, não esclarece, não leva a nada. Por que no passado as pessoas não saíam às ruas dando a mesma sugestão aos generais no poder? E havia motivos para indignação, além dos assassinatos de quem era contra o regime — clique aqui e conheça histórias de corrupção durante a ditadura militar, e também aqui para entender melhor como funcionava. Aproveitando, conhecem quantos torturadores e/ou corruptos daqueles tempos que foram condenados e presos?

Fábio Júnior tinha entre 18 e 19 anos e já havia iniciado a carreira artística enquanto Dilma era torturada. Era bem grandinho. Jamais ouvi dizer que tenha de alguma forma se envolvido com política ou contestado a ditadura. É possível até que o tenha feito algo, afinal, jovens de sua geração reagiram e muitos foram presos, torturados, mortos.

Mas desconheço qualquer ação do gênero que dele tenha partido. Compreensível. Não era seguro protestar. Ainda bem que tudo mudou. Hoje ele e tantos brasileiros insatisfeitos que vivem em Nova York mas seguem apaixonados pelo Brasil podem mandar a presidente “tomar no cu”. E sabem que não serão mortos por isso. E por aqui alguns ainda comparam o momento de nosso país ao da Venezuela, por exemplo. Santa ignorância.

Não, eu não sou fã das músicas de Fábio Júnior, o preferia como ator em “Ciranda Cirandinha” no ano de 1978, ainda sob regime militar, quando usava visual um tanto rebelde. Na televisão, naturalmente. Assim, pior do que levar o microfone em direção à própria boca para cantar, foi erguê-lo ao público com o intuito de amplificar um xingamento oportunista, vazio. Como sua repentina indignação.



terça-feira, 2 de junho de 2015

Papai Noel que se cuide

A crônica de hoje de Lelê me lembrou o texto de Dimenstein:

Não que desta vez não concorde com Dimenstein. Ele está coberto de razão, é de embrulhar mesmo o estômago. Meu problema com o texto de Dimenstein é outro: é a falta de autocritica de figuras públicas como ele que não assumem que tem responsabilidade nisso.

Gilberto Dimenstein poderia ao menos refletir sobre o ~jornalismo~ praticado no veículo que ele trabalha, um dos grandes responsáveis por estas figuras nefastas alcançarem o poder e não ser questionadas.

Se Folha, Globo, Veja, Estadão e o resto do monopólio da comunicação não formassem um partido político que age contra tudo que há de mais progressista neste país, certamente os seres fisiológicos que ocupam a presidência do Senado e Congresso não teriam chance.

Portanto, seria ao menos digno que jornalistas como Dimenstein assumissem o fato de que se o povo brasileiro desinformado vota nestes seres nefastos à democracia, aos direitos humanos e aos direitos constitucionais, os grandes responsáveis são também jornalistas que abriram mão de fazer jornalismo e decidiram fazer apenas o que manda os seus patrões: política partidarizada contra um único alvo: o PT.

Esses jornalistas se dedicam a atacar governos petistas e a destruírem tudo de positivo feito pelos governos Lula e Dilma Rousseff, enquanto permitem que políticos fisiológicos sem qualquer compromisso com o país ajam impunemente, sem nenhum tipo de investigação jornalística.


Se fizessem o trabalho de jornalistas, esses políticos eleitos pelo dinheiro da corrupção de empresas e caixas 2 jamais teriam o poder que adquiriram.


Portanto, peguem seu embrulho no estômago e reflitam sobre a sociedade embrutecida que vocês ajudaram a solidificar.





QUEM SE CALA, CONSENTE


Por Lelê Teles






Primeiro, domesticamente, em privado, eles ofenderam e insultaram os pretos nas cozinhas e nas portarias dos prédios.

Como temos a pele um pouco clara, não nos incomodamos.

Encorajados pela nossa omissão, passaram a chamar os negros de macacos em shoppings e estádios de futebol, à vista de todos.

Com a desculpa de não dar publicidade a essa infâmia, preferimos nem comentar.

Nossos filhos, ao ouvir os insultos públicos e ver a nossa indiferença, passaram a achar que isso era normal.

Aí, já contando com a nossa conivência, os sociopatas decidiram agredir verbalmente os pobres de maneira geral, acusando-os de preguiçosos, esmolés de bolsas e parasitas sociais.

Como não queremos nos passar por pobres, fingimos que isso não era com a gente.

A mídia, sempre histérica, passou a incitar os excitados porraloucas. E as agressões públicas passaram a ser publicadas.

Midiatizados, anabolizados pela legitimação silenciosa da sociedade e pelo clangor escandaloso da mídia, os valentes midiotas resolveram direcionar sua ira também contra os nordestinos.

E o que temos nós a ver com o nordeste, já até nos mudamos de lá?

Mais uma vez, demos de ombros.

Com isso, a turba acreditou que tudo podia.

Certa vez entraram, em bando, em um estádio, e já sem pudor, para o mundo inteiro ouvir, xingaram e mostraram o dedo médio para a presidenta.

Como não votamos nela, até achamos graça daquilo.

E de repente, sufocando ainda mais o nosso silêncio, o bando tomou as ruas, as praças, e a ágora que é as redes sociais.

Uns com armas na cinta, outros a pedir uma intervenção armada. Todos com a faca nos dentes e com sangue nos olhos.

Ódio e ranger de dentes.

Agora, legitimados e destemidos, insultam políticos – sempre de um único partido – em hospitais, aeroportos, restaurantes, casamentos, e até no próprio Congresso.

Como nãos somos políticos nem pertencemos àquele partido, achamos é pouco.

Até que eles, porretes em mãos, foram se aproximando da nossa vizinhança, pisando nossa grama, mijando em nosso jardim e dando cascudos em nossos filhos.

Quando abrimos os olhos e nos debruçamos na janela para ver o que se passava lá fora, os vimos, odiosos e violentos, a chacoalhar um cadeirante que ousou sair à rua vestido com uma camiseta da cor que eles detestam.

Estupefatos e inertes, assistimos a turba agredir um pai de família com um bebê no colo, só porque vestia vermelho; com mil diabos, dissemos.

Em seguida, insultaram um senhor por ler uma revista que eles não gostam.

Hoje, quem ousar adornar-se de vermelho, mesmo não sendo presidenta, negro, pobre, com criança de colo, cadeirante ou nordestino, corre risco de ser agredido.

Papai Noel que se cuide.

Agora, nos vemos cercados, sitiados, por esse bando de loucos.

Não contentes com o status de senhores das ruas, das praças, dos estádios, dos shoppings, dos noticiários e das redes sociais, eles resolveram invadir as nossas casas.

De suas varandas, gritam e rufam panelas para nos impedir de escutar o pronunciamento da presidenta, só porque eles mesmos não querem ouvi-la.

Muitos, que como nós, ficaram em silêncio, de repente passaram a gritar junto a eles, juntaram-se.

Até que um dia, num belo domingo de sol, no churrasco à beira da piscina, vimos que estes sujeitos odiosos já haviam contaminado o nosso grupo mais seleto.

Ébrios de cerveja, com os dedos melados de gordura e a boca cheia de farofa, sem mais nem menos passaram a se agredir, verbalmente, cunhados, genros, sogras, primos, tios e amigos: petralha, vagabundo, vitimista, puta, filha da puta, heterofóbico, vaca, viado, comunista…

Foi aí que percebemos que também era com a gente.

Mas já era tarde demais.

Palavra da salvação

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

viramos teleguiados? nossa cultura não ultrapassa uma ou outra frase bonitinha? por quê?


Todos à la place. Por quê?


A adesão imediata à manifestação de Paris mostra como é fácil hoje manipular uma opinião pública tolhida para o exercício do espírito crítico



publicado 27/01/2015 06:07





François Hollande administra um país dilacerado entre os que clamam pela "guerra ao terror" e aqueles que querem segurança sem comprometer as liberdades civis


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Tempos quentes


Perguntaria Hamlet: “Ser ou não ser?” Charlie, está claro. A personagem de Shakespeare é o paradigma da dúvida atormentada pela invulnerabilidade do efêmero. Surpreende, porém, e até espanta, a rapidez com que a larga maioria fez sua escolha. Por quê? A que se deve o imediatismo da resposta? Agir às pressas, de impulso, precipita amiúde equívocos, enganos, erros. Não seria o caso de parar para pensar?

Pois é, pensar. Explorar a faculdade que o ser humano tem de constatar sua pessoal existência. O mundo vive uma quadra de enormes incertezas e de graves conflitos, e a situação se apinha de inúmeros por quês. Por que aqui estamos a padecer uma crise econômica que poupa somente banqueiros e especuladores, aliás, a eles aproveita acintosamente? Por que o rentismo grassa enquanto o desemprego aumenta? Por que o desequilíbrio social se aprofunda em todos os cantos? Por que uma centena de multinacionais impõe sua vontade a Estados soberanos? Por que a senhora Merkel e seus banqueiros ditam as regras à inteira Comunidade Europeia e decretam a austeridade em lugar do desenvolvimento? Por que o atual presidente da UE é o ex-premier do Luxemburgo, o aprazível paraíso fiscal?

Interrogações sem conta, propostas pela circunstância. Pode-se, se quisermos, perguntar aos nossos botões por que o mundo carece hoje de poetas, ou por que pagam-se dezenas de milhões de dólares por um tubarão morto mergulhado em uma caixa de vidro cheia de formol, ou por que navegantes da internet divulgam aos quatro ventos o cardápio do seu jantar da noite anterior. Ou por que, de súbito, a humanidade concentra-se na Place de la République, de corpo presente ou em espírito, para manifestar contra o terrorismo.

O espetáculo parisiense assinala, ao mesmo tempo, o triunfo do modismo e da hipocrisia. Fácil identificar o lado de cada qual, a ser clara a desfaçatez das autoridades. Em boa parte, tem responsabilidades em relação ao terrorismo, quando não são seus instigadores, cúmplices, ou até mesmo praticantes, competentes ou não. Conseguiram o que queriam, admitamos. Juntaram o Ocidente em uma praça parisiense para ostentar os seus poderes e cuidar dos seus interesses políticos, sem exclusão de golpes baixos, ações de guerra, assaltos aos cofres públicos e terrorismo de Estado, sem contar as violações dos Direitos Humanos.

Diante deles, incitada pelas frases feitas da propaganda midiática, súcuba dos apelos da retórica globalizada, a grei automatizada. Incapaz de entender se, de pura e sacrossanta verdade, o massacre na redação do Charlie Hebdo configura um ataque sem precedentes à liberdade de imprensa, ou de expressão. Ou à liberdade na acepção total, sem qualificativos.

Resta entender o significado e o alcance das palavras. Sabemos, em primeiro lugar, ou pretendemos saber, que a liberdade de cada um acaba na liberdade do semelhante. Nem todos se dão conta disso. De qualquer forma, a liberdade proclamada pela Revolução Francesa acaba por ser de poucos se não for completada pela igualdade. Livre é realmente uma sociedade de iguais. Se há canto da Terra onde esta simbiose acontece, louvado seja quem fez o milagre. Nem se fale do Brasil, o país de casa-grande e senzala.

Outra questão diz respeito à liberdade de imprensa, que na mídia nativa conta com paladinos aguerridos. A liberdade que defendem é a de fazer o que bem entendem. Não é assim em outros países democráticos e civilizados, onde a mídia é devidamente regulamentada, para impedir, entre outros objetivos, o monopólio e o oligopólio. Na França, é certo, o Charlie Hebdo podia circular à vontade, a despeito dos seus discutíveis propósitos e de certo autoritarismo a vingar na redação. O cartunista Siné, célebre desde o fim dos anos 50, foi despedido porque suas charges não tinham a desejada agressividade e evitavam certos assuntos.

A virulência antimuçulmana, no Charlie Hebdo, não é inferior àquela dirigida contra as religiões monoteístas de cristãos e judeus. Tempos atrás, uma charge mostrava, da forma mais crua, o encontro (seria um rendez-vous?) entre a Virgem Maria e um centurião romano, com o resultado de trazer à vida quem mais, se não Jesus Cristo. Ocorre a lembrança de um Pif-Paf, a seção entregue pelo O Cruzeiro dos Diários Associados a Millôr Fernandes, por mais de duas décadas. O humorista estava disposto a contar a história fracassada de Adão e Eva no Paraíso Terrestre. Jocosa e sem vulgaridade, no traço steinberguiano de Millôr.

ACNBB protestou oficialmente, e Millôr foi despedido com a habitual pusilanimidade. Não houve manifestação na Cinelândia carioca.

Não convém ao Ocidente aceitar a ideia de que a tragédia decorre de uma ação de guerra levada a cabo por um comando bem treinado, mas é assim que pensam os fanáticos arregimentados pela Jihad. Se uma bomba um dia desses explodir, digamos, no Grand Palais, não podemos alegar o atentado contra a liberdade de expressão, como não o foi o ataque às Torres Gêmeas. O objetivo do terrorismo, de resto, é solapar a capacidade de resistência do inimigo designado, de certa maneira é semear o pânico com a humilhação do alvejado.

Não se trata, de todo modo, de buscar explicações, e sim de entender que a liberdade de expressão tem necessariamente limites, bem como a intenção de provocar, desbragada na publicação satírica. O que talvez esclareça quanto ao seu escasso êxito junto ao público francês. Nesta semana, o Charlie Hebdo saltou de uma tiragem de algumas dezenas de milhares de cópias para milhões. Também este é fruto do modismo, a contar, para a manipulação da opinião pública, com instrumentos cada vez mais capilares e eficazes. Vezos e tendências momentâneos assumem a ribalta e tomam conta da plateia de forma avassaladora. Até levá-la, se for o caso, à Place de la République.

É provável que na multidão também figurassem muitos cidadãos franceses de origem árabe, ou africana, e de religião muçulmana, impelidos pela repulsa ao terrorismo, conquanto ofendidos pela charge que visava o Profeta. Que fazer com 6 milhões de muçulmanos franceses donos de todos os direitos de cidadania? Expulsá-los em bloco? Não faltarão aqueles que aprovariam a solução com entusiasmo. Caso se trate de torcedores do futebol, a xenofobia os teria levado a não considerar o triste destino da seleção francesa, privada de muitos entre seus melhores craques.

Deste ponto de vista, o Brasil é um país resolvido, embora não isento do preconceito racial e social. Por aqui pobres e pretos vivem sob suspeita. Manda, porém, o jus soli, pelo qual somos todos brasileiros. Na França, e em toda a Europa, meta de forte migração de áreas subdesenvolvidas, a questão suscita ásperas polêmicas, mesmo porque em muitos países a tradição soletra ojus sanguinis. O sangue determina a cidadania. Eventos como o massacre que abalou o mundo vão excitar o ódio racial na França, na Europa, e alhures, em benefício da direita mais reacionária.

Quem leva vantagem? Na França, Marine Le Pen, que se fortalece como candidata à Presidência da República. Na Itália, crescerá a Lega. Na Alemanha, o Pegida, grupo ultradireitista. Rajoy, na Espanha, reforça seu poder. De todos os líderes, Netanyahu é aquele que, ao carregar sua campanha eleitoral até Paris, exibe com maior clareza seus propósitos. E a orquestração bem trabalhada acaba por acentuar as incompatibilidades, os contrastes, as divergências, os conflitos. A violência e o desvario em geral.

Neste caldo de cultura germinam, como no magma primevo a se esfriar teria nascido a vida do planeta, o fanatismo assassino, a criminalidade nas suas distintas fisionomias. Isto é do conhecimento até do mundo mineral, mas não de todos os homens. Fatos como a chacina parisiense repetem-se à toda hora, provocados pelo fanatismo, pela revolta, pela insanidade, pela desgraça. E pelo terror de Estado. Não cabe justificar o horror. Recomenda-se, entretanto, aquilatar envolvimentos e responsabilidades. E anotar que inomináveis delitos cometidos pelos senhores do mundo ocidental não costumam merecer a repulsa das praças lotadas.

Para evocar fatos próximos, é da incompetência impafiosa da diplomacia norte-americana que eclode a Guerra do Iraque, ou brota a maior ameaça terrorista representada pelo Estado Islâmico. Tal é a inexorável verdade factual. Há culpas em cartório, contribuições transparentes ao descalabro dos dias de hoje, às quais a maioria se presta de pronto porque tolhida fatalmente ao exercício da razão.

O alpiste servido aos incautos, aos desmemoriados, aos crédulos, aos ignorantes, é a versão dos cavalheiros tão bem representados na praça parisiense. Aproveitam-se da eficácia dos instrumentos chamados a entorpecer as consciências e demolir o mais pálido resquício de espírito crítico.

Talvez estejamos no limiar de uma nova Idade Média, contradição apenas aparente do dito progresso tecnológico. Se o homem dispõe de computador e celular de infinitas funções, e vive bem mais do que as gerações precedentes, nem por isso ganha em sabedoria, pelo contrário. O respeito à memória, base de todo conhecimento, dispersa-se na moda contingente. Nesta moldura, o livro tende a se tornar objeto obsoleto. Na mesmice globalizada instalam-se, disfarçados pela banalidade, a ignorância, a indiferença. E os desbordantes porquês não logram resposta.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

a Polícia Federal e a verdade dos fatos


Quantos crimes
há na fita do Cunha?



A denuncia derruba o Cunha ou derruba o Ministro da Justiça (sic), o zé


Conveersa Afiada






O deputado Eduardo Cunha acusa a Polícia Federal – e o Governo Dilma, portanto – de forjar uma gravação para implicá-lo na Lava Jato.

E detonar sua candidatura a Presidência da Câmara, como explica o Janio de Freitas.

A história se resume assim, segundo a Fel-lha:

Cunha recebeu a informação de que integrantes da cúpula da Polícia Federal teriam forjado, a mando do governo, uma suposta gravação de um diálogo com o objetivo de incriminá-lo.

A gravação teria sido entregue a ele no sábado (17) por um suposto policial federal que estaria indignado com a fraude.

Cunha solicitou ao Ministério da Justiça a abertura de inquérito para apurar o caso.

No gravação, uma pessoa que supostamente seria um agente da Polícia Federal ameaça contar tudo o que sabe sobre Cunha caso o congressista o abandone. O interlocutor, que seria uma pessoa ligada ao peemedebista, tenta tranquilizar o agente.

Cunha disse que a ideia do diálogo seria mostrar que um dos homens seria o policial federal Jayme Alves de Oliveira Filho, o Careca, investigado na Operação Lava Jato –que apura um esquema de corrupção na Petrobras– pela participação no esquema de desvio de recursos da Petrobras.

Ouça aqui no site da Fel-lha.




NAVALHA




É muito grave.

A denuncia derruba o Cunha ou derruba o Ministro da Justiça (sic), o zé.

Se a gravação é uma fraude, quem fraudou ?

A Polícia Federal, para ferrar a candidatura Cunha ?

Ou alguém de fora da PF e que se diz da PF ?

Quem entregou a quem entregou a Cunha ?

E se a gravação for verdadeira ?

Quem fala na ligação ?

E a conversa descrita na gravação – se ela for autentica – reproduz a verdade de fatos ?

Ou se tudo o que está na gravação autentica é uma ameaça de um falso policial ?

Uma chantagem para tomar dinheiro do Cunha ?

Há muitas possibilidades.

Portanto, a Polícia Federal será incapaz de apurar a verdade dos fatos.

A PF do zé não prendeu ninguém no helicóptero da coca.

A PF do zé não sabe até hoje quem é o dono jatinho em que o Eduardo e a Bláblárina voavam.

A Polícia Federal e seus delegados aecistas só desvenderão esse mistério se o crime tiver sido praticado por um petista.

O Zé Dirceu, por exemplo.

O Genoino.

Aí, a PF do zé será mais eficiente que o FBI e a Scotland Yard, juntos !




Paulo Henrique Amorim

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Três: o meu também!


Um voto pela Dona Valdevina. Dois: o meu também



23 de outubro de 2014 | 12:08 
Autor: Fernando Brito






Peço desculpas por compartilhar algo que não me foi enviado, mas postado no Facebook de um jovem, hoje paulistano, para seus amigos.


Olha, eu cresci num bairro quase rural, e nele havia um açougue feio, sujo, mas era o que tinha (ficava do lado da loja de materiais de construção Telo) e lá, muitas vezes via gente humilde pedindo osso pra por na sopa.

Na sequência vinha gente rica e pedia o mesmo osso, só que pro seu cachorro.

Nesse estabelecimento havia aquele sem número de placas jocosas tipo “fiado só amanhã ” e uma que (estamos falando de 1997, 1998 – por aí) dizia “De Fernando em Fernando o Brasil vai afundando” referindo-se ao combo Collor/FHC .

Esse mundo existiu, não tão longe dos condomínios onde moravam as crianças que hoje acham que tem o que tem por um conceito abjeto de mérito.

Do lado da minha casa, grande, sólida, com teto e paredes de concreto, vivia a família da Dona Valdevina, numa casa de pau-a-pique, telhado de lona e na frente de uma vala negra e fedorenta.

Ela e a família dela não tiveram as mesmas oportunidades que eu, minha irmã e meus pais.

Medir é comparar, riqueza e pobreza com relação a quem?

Quem hoje desdenha de sua classificação de classe média deveria ter guardado na mente a imagem da dona Valdevina – 400km e mais de uma década depois, dedico meu voto a ela.

13.



O texto é do meu filho, perdoem o orgulho paterno.

A ele não dei carro, não dei apartamento, nem mesmo dei a atenção e o carinho que ele merecia, perdido em meio à luta política e e o duro trabalho para sobreviver.

Exatamente como ele faz hoje, adulto.

Aliás, ele é um dos responsável por ter nascido, cinco anos atrás, esteTijolaço, aguentando um chefe implacável e duro como o que fui para ele.

Mas que todo dia descobre que tem de aprender a amar e respeitar os jovens, que fica, com o tempo, sendo a única maneira de reter em nós a juventude.

Obrigado, cara, por você ser o que é, por sua própria conta.

domingo, 21 de setembro de 2014

Triste o país que precisa de herois

Aranha faz História. A torcida do Grêmio, não


Torcedores referendam as ofensas racistas ao vaiar a luta não do atleta, mas do homem. Um homem que se nega a fazer do episódio uma atração de circo




Reprodução/Sportv

Torcedor vaia o goleiro Aranha durante o reencontro do Grêmio com o Santos em Porto AlegreLeia também


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Mário Lúcio Duarte Costa. Guardem este nome. Já vou chegar a ele. Antes, quero dizer que acompanhei, pela tevê, o fim da partida entre Grêmio e Santos, em Porto Alegre, pelo Campeonato Brasileiro. O empate sem gols revela o que foi o duelo, insosso, de resultado nem bom nem mau para nenhuma das equipes. Pelos relatos, descubro que o goleiro Aranha foi o melhor em campo, com ao menos duas boas defesas que garantiram o ponto fora de casa. A crônica esportiva termina aqui. A História, com H maiúsculo, não.

Aranha acabava de voltar ao palco onde, semanas atrás, fora hostilizado por ofensas racistas vindas de parte da arquibancada gremista. De lá saíram gritos e imitações de macaco. Eram uma referência à sua cor de pele, negra. O goleiro pediu a interrupção da partida, vencida pelo Santos por 2 a 0. Deixou o campo atordoado. "Dói", dizia ele à beira do campo.

Por não aceitar a ofensa, relatada aos árbitros da partida, Aranha criou constrangimento às autoridades esportivas. Elas se viram obrigadas a eliminar o Grêmio da Copa do Brasil devido ao comportamento de sua torcida.

Antes do reencontro de quinta-feira 18, no mesmo palco, um país inteiro passou a debater um tema ainda entranhado nas relações sociais. Tão entranhado que se naturalizou, a ponto de, muitas vezes, nem sequer incomodar.

Aranha se incomodou. E não fez questão de esconder.

Como preço, é provável que tenha passado alguns dos piores dias de sua vida. Depois daquele jogo, uma das torcedoras, flagrada aos gritos de "macaco" na arquibancada, passou a sofrer ameaças nas redes sociais. Foi demitida e teve a casa incendiada por um maluco. Ela não teve tempo de se arrepender ou calcular a dimensão de seu ato: o justiçamento de sempre, um erro em qualquer lado da história, tirava dela o direito de ser julgada por uma lei já existente. Cassara, com mandado próprio, o direito à vida da torcedora.

De repente, Aranha era o pivô de tanto ódio. Não fosse seu "melindre", a torcedora estaria a salvo, o Grêmio seguiria na Copa do Brasil e o racismo voltaria ao rol de temas "menores" de um país que, nas palavras de muita gente autorizada, tem problemas mais sérios para resolver. Entre os defensores da tese está o técnico do Grêmio, Luiz Felipe Scolari, que até ontem dirigia a seleção brasileira. Ele tratou a reação de Aranha como uma "esparrela", um estardalhaço promovido por quem tentava se vitimar para prejudicar alguém - no caso, os gremistas. Pelé, maior jogador de todos os tempos, também condenou o goleiro com argumentos do arco da velha: se ele, o Atleta do Século, tivesse de parar uma partida toda vez que era chamado de "macaco" não haveria mais futebol. Segundo ele, quanto mais se fala em racismo, mas ele se aguça.

Pelé, em seu tempo, não parou o jogo, o racismo voltou para debaixo do tapete, e a fatura segue nas costas de Aranha e seus contemporâneos, que hoje tentam interromper uma partida que deveria ter sido parada há muito tempo.

Não bastasse tanta ofensa - à sua cor, ao seu caráter e à sua inteligência - Aranha voltou a campo ontem como vilão. Desta vez, não ouviu xingamentos racistas das arquibancadas, mas vaias. Muitas. Cada uma delas era o triunfo do direito de ofender sobre o direito de se sentir ofendido. Ou de reagir à ofensa. As vaias eram o referendo aos gritos de "macaco" do último duelo. Eram o recado de que tanto faz o que existe debaixo da epiderme: o que vale é ganhar o jogo. É se dar bem. É levar vantagem. E qualquer reação a isso é apenas “esparrela”.

As vaias foram o trunfo do país de Pelé e Felipão. Um país que joga às costas da vítima o peso de ser ofendido. Um país que valida, pela ignorância, o cientificismo torto de séculos passados que colocavam o negro no meio do caminho entre os símios e o homem branco. Este cientificismo baseou a ideia de supremacia racial e influenciou algumas das maiores atrocidades da História. Por isso ela ofende. Por isso chamar um branco alto de “girafa” não tem o mesmo peso que chamar um negro de “macaco”: apenas um deles fora escravizado pela História.

A manifestação de ontem da torcida gremista era a manifestação da derrota: a derrota de Aranha, a derrota de um país inteiro que apenas finge que deixou de açoitar seus antigos escravos. Apesar disso, ele jogou. Foi o melhor da partida, segundo a crônica esportiva. A mesma crônica que, ao fim do duelo, cercou o jogador para arremessa-lo ao centro do picadeiro com uma única pergunta: “como se sente?”

Acossado, Aranha tentava explicar que deixava o campo entristecido pela reação da torcida, que referendava a ofensa do último duelo. Mas vaia era vaia, admitia, e contra ela não tinha o que fazer.

Um dos repórteres, em tom de deboche, chegou a questionar: “E qual a diferença?”.

“Você sabe a diferença”, respondeu Aranha.

“Não sei: me diga”, desafiou o sujeito do microfone, como se não soubesse.

“Você acha certo o que aconteceu?”, questionou o goleiro.

O repórter respondeu algo como “não tenho que achar nada”. E Aranha, mais uma vez, deixou o campo balançando a cabeça em tom de incredulidade. Tinha toda razão para ver e não crer.

Já nos vestiários, um pouco mais calmo, ele voltou a ser questionado sobre o assunto. Os repórteres queriam saber por que ele se negava a se encontrar com a torcedora que o ofendera e que estava sedenta por um abraço e pelo seu perdão. O circo dava ao goleiro o papel de Meursault, o personagem de O Estrangeiro, de Albert Camus, condenado não por um crime, mas por não ter chorado no enterro da mãe. O circo queria ver o goleiro chorar. De preferência, abraçado com a agressora. Queria ver o circo pegar fogo. Aranha, de novo, novamente, outra vez, respirou fundo. E respondeu algo como: “Ir lá, abraçar ela, e toca uma música e tudo mais. Aquela cena toda e só depois dos comerciais… Isso pra mim não adianta. Eu não quero".

Aranha talvez não soubesse, mas acabava de desmontar a “esparrela” armada para ele. Percebeu, muito antes dos homens de seu tempo, o que era um circo. Um circo midiático. E o rejeitou. Como rejeitou a ofensa que agora tantos querem minimizar como “melindre”.

Aranha parou o jogo, um jogo que segue perdendo, para mostrar simplesmente que atrás das cortinas de um circo que não criou existe um homem. Este homem se chama Mário Lúcio Duarte Costa, seu nome de batismo. Que é maior que a alcunha. Que é maior que o próprio esporte. Que não merece ouvir o que ouviu. E que parece disposto a interromper o jogo quantas vezes forem necessárias. Até que o recado seja entendido. Até que um dia a história mude. De vez. Mário Lúcio Duarte Costa acabava de fazer História.


Em tempo: Triste o país que precisa de herois. Mas, se não é um, Aranha é inegavelmente o rosto de uma luta tão justa quanto necessária. Acho que já gastei minha cota de citações a Caetano Veloso neste ano, mas é impossível assistir à trajetória do goleiro santista sem lembrar da música "O Heroi", do álbum Cê:

não quero jogar bola pra esses ratos
já fui mulato, eu sou uma legião de ex mulatos
quero ser negro 100%, americano,
sul-africano, tudo menos o santo
que a brisa do brasil briga e balança
e no entanto, durante a dança
depois do fim do medo e da esperança
depois de arrebanhar o marginal, a puta
o evangélico e o policial
vi que o meu desenho de mim
é tal e qual
o personagem pra quem eu cria que sempre
olharia
com desdém total
mas não é assim comigo.
é como em plena glória espiritual
que digo:
eu sou o homem cordial
que vim para instaurar a democracia racial
eu sou o homem cordial
que vim para afirmar a democracia racial
eu sou o herói
só deus e eu sabemos como dói

domingo, 24 de agosto de 2014

um pouco de leitura para sairmos das superficialidades


PT X PSDB: muito mais do que polarização

Blog do Miro

Por Osvaldo Bertolino, no site da Fundação Maurício Grabois:

A mídia tem apresentado a disputa pela Presidência da República este ano como uma clara polarização entre PT e PSDB. Mais do que uma questão partidária, no entanto, a polarização reflete a essência da sociedade brasileira. O quadro partidário brasileiro, desde o fim da ditadura militar, tem evoluído para uma "udenização" do PSDB e uma "petebização" do PT. O partido tucano surgiu como ala organizada dentro do PMDB quando Franco Montoro, eleito em 1982, assumiu o governo do Estado de São Paulo. Na ocasião, Orestes Quércia já era o principal líder do PMDB no Estado e aceitou, em nome da unidade, ser vice de Montoro.

Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi eleito senador pela sublegenda, de carona. Mário Covas foi nomeado prefeito de São Paulo e José Serra assumiu como o poderoso secretário de Planejamento. Sérgio Motta — ministro das Comunicações no governo FHC — assumiu a presidência da Eletropaulo. Paulo Renato e Bresser Pereira ficaram com o controle das finanças. Na sucessão de Montoro, o empresário Antônio Ermírio de Moraes candidatou-se pelo PTB e era um dos concorrentes de Quércia. Mas não lançou candidatos ao Senado. Covas e FHC eram os candidatos a senadores pelo PMDB. A deputada peemedebista Ruth Escobar — que mais tarde virou tucana de carteirinha e num banquete chamou Lula de "aquele mecânico" — criou um grande comitê Ermírio, Covas e FHC.

O PSDB achou o par perfeito: o PFL

Em seguida, pipocaram comitês semelhantes pelo Estado. Foi a senha para a criação do PSDB. Logo o partido, majoritariamente, bateu asas para a direita. Já em 1989, quando os tucanos lançaram Covas para concorrer à Presidência da República, estava claro que este era o destino do partido. No dia 28 de junho daquele ano, em seu lançamento como candidato a presidente, Covas pronunciou o discurso que ficou famoso sob o título "Choque de capitalismo". "Basta de tanto subsídio, de tantos incentivos, de tantos privilégios sem justificativas ou utilidade comprovadas. Basta de empreguismo. Basta de cartórios. Basta de tanta proteção a atividades econômicas já amadurecidas", disse ele. (Esse discurso, até na forma, também ficou famoso na boca de Fernando Collor de Mello.)

Logo depois, em 1991, um setor tucano capitaneado por FHC defendeu a incorporação do partido ao governo Collor. A manobra seria um desastre político e foi combatida por Covas, o que possibilitou, mais tarde, a FHC ser o principal executor de uma espécie de golpe branco contra o presidente Itamar Franco ao comandar o processo de transição da economia para a "estabilização". Mais à frente essa transição resultou no "Plano Real" e na consolidação da "era neoliberal”. Para essa tarefa, o PSDB achou o par perfeito: o PFL (atual DEM), que acabara de se divorciar de Collor. Velho e novo liberalismos se uniram em regime de comunhão de bens. Como a política dos liberais tem discurso e prática diferentes, FHC assumiu a Presidência da República empalmando as promessas de Covas e o resultado de seus dois mandatos é a herança maldita deixada para as gestões de Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

A semeadura é livre, mas a colheita é certa

Já o PT surgiu como guarda chuva de tendências de esquerda. No final dos anos 1980, o partido abandonou seu velho testamento exclusivista e sectário, e adotou um novo — mais afinado com a realidade política brasileira. Liderou a formação da "Frente Brasil Popular", que lançou a candidatura de Lula à Presidência da República, e consolidou um movimento organizado de oposição à arrancada neoliberal com a eleição de Collor. Isso cacifou Lula para entrar na disputa eleitoral de 1994 como franco favorito. Derrotado pelo "Plano Real", ele voltou a ameaçar os neoliberais na disputa de 1998 quando a pesquisa Datafolha de 8 e 9 de junho mostrou uma diferença de 5% a favor de FHC no primeiro turno e 1% no segundo.

O projeto neoliberal calibrou o rumo da sua campanha, centrado basicamente na imagem de FHC como o Joãozinho do Passo Certo, e recuperou a vantagem, vencendo as eleições novamente no primeiro turno. Mas ficou na população aquele gosto amargo de derrota, uma sensação de ter sido enganada por aquela mão espalmada insistentemente levantada por FHC. Nas eleições seguintes, veio a derrota. Como diz o povo, a semeadura é livre, mas a colheita é certa. Ao assumir o poder, no entanto, o PT teve dificuldades em aplicar o seu novo testamento político. O partido mostrou que havia sido abalado pelos efeitos do fim da Guerra Fria e da crise do Estado de bem-estar-social. O velho exclusivismo petista voltou a manifestar-se e a indefinição de margens de atuação no campo político também.

Não se deve acreditar que existe um vácuo

Pode-se dizer que em muitas votações no Congresso a direita chegou ao limite de sua flexão à esquerda; e a esquerda chegou ao limite de sua flexão à direita. O PT parecia não ter se convencido ainda de que com a modernização do quadro partidário brasileiro pelo governo do presidente Getúlio Vargas, com a incorporação de uma ativa classe trabalhadora ao cenário político, havia um espaço de centro-esquerda bem demarcado e com um enorme potencial de crescimento. Até 1964, esse espaço foi liderado pelo PTB, partido ligado ao movimento operário que adotou uma plataforma nacional e democrática e revelou-se uma força ponderável na formação de um campo político nacional amplo e ao mesmo tempo com base popular.

Por tudo isso, não se deve acreditar que existe um vácuo na disputa presidencial deste ano deixado pela palidez da candidatura de Aécio Neves. O nome conta, evidentemente, mas o que vai determinar os rumos da campanha é a plataforma política da direita. Não passa de conversa mole essa historinha que circulou no noticiário nos últimos dias segundo a qual o PSDB se esfarela diante da inconsistência das suas propostas e isso abre campo para Marina Silva (PSB-Rede) emergir como "terceira via". A pergunta que surge é: há espaço para "terceiras vias", à esquerda ou à direita? A resposta é não.

Combate à desconstrução nacional

A cantilena da "terceira via" constrói duas hipóteses. Na primeira, o que a mídia diz sobre o quadro partidário brasileiro é balela de campanha para o eleitor incauto engolir. Sua tese é a de que, se o crescimento do PT e do PSDB se deve ao fato de esses dois partidos terem capitaneado o moderno desenvolvimento político brasileiro, um terceiro partido que conseguisse subir alguns degraus na escala partidária poderia desalojar um dos dois de seu posto. Aos fatos.

Para o PSDB, o PFL foi a sustentação programática de um importante setor da elite brasileira. Para o PFL, o PSDB foi a melhor alavanca para a sua volta ao poder — condição que vinha conseguindo manter há décadas. Não importou ao PSDB a imagem que o PFL carregava de ser um partido ligado às oligarquias mais atrasadas do país, ideologicamente melífluo e um retrato fiel do fisiologismo e do clientelismo na política brasileira. Para ambos, o importante era vencer Lula.

Para o PT, a lógica política preconizava uma ampla aliança de forças para isolar e derrotar o inimigo principal. Como força política progressista majoritária, o partido de Lula tinha a obrigação de unir o máximo de partidos para dar combate à linha de desconstrução nacional que vinha da ditadura militar e que se expressava no modelo macroeconômico neoliberal. Aqueles empresários que não venderam suas companhias, no todo ou em parte, para o capital estrangeiro como escape fácil diante da ofensiva da direita na década de 1990 formaram uma poderosa força política mobilizada para o rumo da mudança. Lula dizia, recorrentemente, que havia muitas oportunidades prontas esperando por empreendedores. E havia outras tantas por inventar.

Lula está com um crédito imenso

Na segunda hipótese, a cantilena da “terceira via” quer vender a tese de que todos os partidos sonham com o poder para abraçar a missão de gerar progresso e azular o imenso déficit social reinante no país. Outra balela eleitoreira. Não se deve ignorar que a vitória de Lula em 2002 representou a negação do neoliberalismo radical do PSDB e do liberalismo de feição feudal do PFL. Seu governo pode ser definido como bem-sucedido do ponto de vista social. Lula ganhou mais quatro anos como presidente dos brasileiros porque seu governo gerou valores sociais perceptíveis. E assim chegamos ao primeiro governo Dilma.

A presidenta, portanto, se apresenta para concorrer ao segundo mandato com um crédito imenso. Lula e Dilma foram, de longe, os melhores presidentes que o Brasil teve desde o fim da ditadura militar. José Sarney, apesar de ter conduzido bem o país pela senda democrática, ficava com o rosto marcado por erupções toda vez que seu governo passava por um momento mais difícil. A desastrada gestão de Collor dispensa comentários. Itamar Franco foi emparedado já no início do seu governo e FHC reinou absoluto com seu cesarismo atormentado. Não tínhamos presidentes com tamanha sobriedade desde os tempos de Juscelino Kubitschek, Brasília e a bossa nova.

A roleta-russa do senador Álvaro Dias

Se esse fato singelo fosse admitido pela direita, o debate pelo menos ganharia em transparência. Antes de tudo é preciso considerar que todas as previsões da direita de se revelaram verdadeiros fiascos. Veja o caso do senador Álvaro Dias (PSDB-PR). Em 2005, no auge da histeria da direita com a farsa do “mensalão”, ele afirmou: "Faço uma roleta-russa com seis balas no revólver se o Lula sair dessa!". (Felizmente, o resultado das pesquisas parece ter lhe tirado as energias para o gesto.)

Sejamos francos: a gestão da economia poderia ser melhor nos governos Lula e Dilma. Não se está aqui pedindo um santo milagreiro, capaz de fazer os juros desabar até patamares norte-americanos, a inflação se manter num padrão chileno e o produto interno bruto brasileiro crescer em ritmo chinês. Mas, em boa parte do governo Lula, com Antônio Palocci à frente do Ministério da Fazenda, o Brasil perdeu tempo para romper com a herança maldita da “era FHC” e o governo perigosamente flertou com o abismo. A direita, ao mesmo tempo em que disparava rajadas de denúncias de "corrupção" contra o governo, usou Palocci para poupar o Lula presidente e atacar o Lula candidato.

Direita confinada

Ninguém esperava que a sua gestão na Presidência fosse tranquila como um passeio no bosque. O Brasil é um país complexo, com demandas que invariavelmente superam a capacidade de quem quer que seja de satisfazê-las. Com isso, as crises se incorporam ao dia a dia da nação. O que havia de novo era a incrível habilidade do presidente em lidar com conflitos. Esse dote de Lula foi decisivo para atrair o PMDB e outros partidos para fortalecer a base do governo, ao mesmo tempo em que isolava a direita empedernida, ideológica, que ficou confinada basicamente nos espaços políticos dominados pela mídia.

É neste capítulo do novo contra o velho que se inscrevem as eleições de 2014. Ninguém mais imagina, de verdade, que o desenvolvimento econômico possa prescindir de um projeto político como o liderado atualmente por Dilma Rousseff. Diante desses dois tipos de país, o que interessa saber é o seguinte: a linha política que vem sendo executada pelo governo está indo na direção certa? Muito mais importante do que saber se a bolsa vai subir ou cair, se as reações do mercado financeiro foram favoráveis ou não, se o fluxo de câmbio fechou o dia com superávit ou déficit, é ver se os atos do governo acrescentaram mais respostas "sim" a esse questionamento que a maioria dos brasileiros tem apresentado.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

o confronto entre o udenismo histérico e as forças políticas que sustentam o resgate das reformas de base


A Copa, as eleições e o que virá depois



O texto abaixo foi escrito a convite da Editora Boitempo, para uma coletânea que será publicada proximamente.

Entregue o texto, a Editora propôs mudanças.

Os autores informaram que as mudanças propostas alterariam aspectos centrais da posição de ambos.

Então, a proprietária da empresa informou que o texto não seria mais incluído na referida coletânea.

Em seguida, propôs sua publicação no blog da Boitempo.

Somente quando estiver a venda a coletânea supracitada, será possível compreender plenamente as motivações editoriais e políticas pelas quais o texto foi encomendado, depois recusado e novamente convidado (mas para um blog).

Até lá, os leitores de Página 13 podem formar sua opinião. Pois aqui, neste site, não se tem dúvida acerca da pertinência e conveniência, tanto política quanto editorial, de um texto que defende claramente a reeleição de Dilma Rousseff.


A Copa, as eleições e o que virá depois

Por Valter Pomar e Lício Lobo*

Como vem ocorrendo desde 1989, a eleição presidencial cristaliza o estado da arte da luta de classes no Brasil. O Partido dos Trabalhadores tem como objetivo vencer as eleições presidenciais de 2014. Ou seja: eleger a presidenta Dilma Rousseff para um segundo mandato presidencial. Mas é preciso vencer criando as condições para um segundo mandato superior ao atual.

Por isso o programa de governo 2015-2018 deve ser muito incisivo, reconhecendo que continua posta a tarefa de superar a herança maldita proveniente da ditadura, do desenvolvimentismo conservador e da devastação neoliberal.

Esta herança possui três dimensões principais: o domínio imperial norte-americano, a ditadura do capital financeiro e monopolista sobre a economia, e a lógica do Estado mínimo. Superar estas três dimensões da herança maldita é uma tarefa simultaneamente nacional e regional, motivo pelo qual devemos defender e aprofundar a soberania nacional, acelerar e radicalizar a integração latino-americana e caribenha, com uma política externa que confronte os interesses dos Estados Unidos e seus aliados.

As quase três décadas perdidas (metade dos anos 1970, anos 1980 e 1990) produziram uma tragédia que começou a ser debelada, nas duas gestões do presidente Lula e na primeira gestão da presidenta Dilma. Mas para continuar democratizando o país, ampliando o bem-estar social e trilhando um caminho democrático-popular de desenvolvimento, será necessário combinar ampliação da democratização política e políticas públicas universalizantes do bem estar-social, com um padrão de desenvolvimento ancorado em reformas estruturais.

Lula fez um segundo mandato superior ao primeiro. Graças a isso, não apenas o povo melhorou de vida, mas também Dilma foi eleita em 2010. Analogamente, se a esquerda quiser continuar governando o país a partir de 1 de janeiro de 2019, é indispensável que o segundo governo Dilma seja superior ao primeiro.

As mesmas pesquisas que apontam Dilma como a preferida da maioria do eleitorado, também indicam que o povo quer mudança, ou seja, que Dilma faça um segundo mandato superior ao primeiro.

A oposição, o grande capital e o imperialismo tentam pegar carona no desejo de mudanças manifesto por amplos setores da população. Evidentemente, a mudança que eles desejam se traduz na derrota de Dilma e do PT, bem como na adoção de outro programa de governo. A mudança que a oposição, o grande capital e o imperialismo desejam é mudança para pior. Já as mudanças desejadas pelo povo se traduzem em mais Estado, mais desenvolvimento, mais políticas públicas, mais emprego, mais salário, mais democracia.

A contradição entre a mudança desejada pelo povo e a mudança desejada pelas elites é uma contradição antagônica. Por isto, a oposição não pode assumir abertamente seu programa: seria a derrota antecipada. Por isto, a oposição aposta na deterioração e na crise. Por isto, a oposição precisa manipular a população.

Para viabilizar o que a oposição de direita, o grande capital e o imperialismo querem, o ideal seria recuperar plenamente o governo federal, através da vitória de um de seus candidatos. Caso isto não seja possível, eles continuarão trabalhando para impor, tanto ao atual quanto ao segundo mandato Dilma, as políticas preferidas pela oposição de direita. Vale dizer que estas “duas táticas” da direita vem sendo aplicadas pelo menos desde o dia 1 de janeiro de 2003.

Para tentar recuperar o controle pleno do governo federal, a oposição de direita conta com duas candidaturas presidenciais: a candidatura Aécio Neves e a candidatura Eduardo Campos.

Nos referimos à “oposição de direita”, por dois motivos. O primeiro motivo é que há setores de direita que apoiam o governo (e que, pelo menos por enquanto, ainda não são oposição). O segundo motivo é que, em nossa opinião, ser de “direita” ou de “esquerda” na conjuntura atual está vinculado à natureza do projeto de desenvolvimento defendido por cada candidatura, partido e movimento. Os que defendem um projeto de desenvolvimento submisso aos Estados Unidos e de natureza neoliberal ou social-liberal são, em nossa opinião, forças de direita e centro-direita. Os que defendem um projeto desenvolvimentista conservador estão ao “centro” (falando em tese, porque de fato o centro se inclina e se divide em favor da direita e/ou da esquerda). Já os que defendem um projeto de desenvolvimento autônomo, de natureza social-desenvolvimentista ou democrático-popular são forças de centro-esquerda ou esquerda.

Somadas, as candidaturas Aécio+Eduardo/Marina expressam o interesse de conjunto do grande capital. Claro que haverá empresários apoiando e votando em Dilma. Mas enquanto classe, a burguesia estará financiando, apoiando, votando e torcendo pela oposição.

Mesmo que perca as eleições, mesmo que Dilma vença as eleições presidenciais de 2014, a oposição de direita não vai deixar de existir. Pelo contrário, vai continuar com suas duas táticas: por um lado preparando-se para as eleições presidenciais de 2018, por outro lado trabalhando para impor a política deles ao segundo governo Dilma.

Na luta política contra o PT, a oposição de direita usa e abusa das insuficiências e contradições do governo e do próprio Partido. Por exemplo, a incompreensão acerca do papel do grande capital. Este não é “ingrato” nem “desiformado”, apenas considera que certas intenções que manifestamos, certas opções que fizemos e os êxitos que acumulamos, são incompatíveis com o padrão de acumulação hegemônico no grande empresariado brasileiro.

Desta incompreensão acerca da postura do grande Capital, decorre a incorreta insistência numa política de alianças com setores da direita, assim como dúvidas sobre o papel positivo e indispensável dos movimentos e das lutas sociais, para nossas vitórias eleitorais e principalmente para o êxito dos nossos governos.

O tema da Copa é um “bom exemplo” dos erros e insuficiências, não apenas do governo do PT, mas também de aliados e opositores de esquerda.

Vai ter Copa, mas em condições de temperatura e pressão ainda não precisamente determinadas. E tanto o desempenho da seleção brasileira como a forma com que lidemos com os inúmeros questionamentos, controvérsias e contradições que cercam a questão podem incidir de forma importante no debate e no resultado eleitoral.

Desde as manifestações de junho de 2013, o tema frequenta o imaginário da população e é trabalhado pela mídia de alto coturno de forma subliminar e com uma ambiguidade marota, ora se aproveitando das oportunidades bilionárias proporcionadas pelo “negócio da Copa”, surfando na onda da torcida pelo hexa campeonato, ora ressaltando os “gastos perdulários” com estádios que supostamente subtraem recursos da saúde e da educação.

Os cartazes cobrando “educação e saúde padrão Fifa”, presença constante em todas as manifestações de junho de 2013, em cada uma das cidades em que estas tiveram lugar, e as enormes passeatas que tiveram o Mineirão, o Maracanã e outros estádios como “alvo” nos jogos do Brasil na Copa das Confederações são exemplares neste sentido.

A respeito destas manifestações, é preciso denunciar e derrotar os que pretendem, usando pretextos como a “atualização do marco legal” e a “proximidade da Copa”, adotar uma legislação “celerada”, que legalize a violência policial-militar contra os movimentos sociais e contra a população pobre em geral.

Claro que devemos combater a violência nas manifestações. Mas isto envolve a a desmilitarização das polícias: grande parte dos atos de violência ocorridos nos últimos meses tem origem na ação ou falta de ação dos aparatos policiais. É preciso denunciar a atitude predominante nas polícias: a provocação e a permissividade quando interessa gerar o caos; o racismo, a violência desmedida e atitudes militaristas, quando interessa impor o medo. E as vítimas, em sua grande maioria, sempre jovens e negras.

Envolve a necessidade de tratar no grau, nos termos da legislação vigente, atos individuais de violência. O que temos visto em algumas manifestações não é qualitativamente distinto do que assistimos nos estádios, no conflito entre torcidas. Não é preciso lei “anti-terrorista” para enfrentar esta situação, não há fatos novos que exijam nova legislação.

Envolve uma ação preventiva contra a proliferação de grupos fascistas, racistas, homofóbicos, de “vigilantes”. Há setores médios que, atendendo ao discurso histérico de certa direita e/ou tomados de esquerdismo inconsequente, estão sendo estimulados, financiados e dirigidos no sentido de gerar situações de conflitos.

Finalmente, combater a violência envolve adotar, nas manifestações organizadas pelos movimentos sociais, populares, estudantis, sindicais e pelos partidos de esquerda, de “serviços de ordem”, a saber, equipes identificadas e treinadas para impedir a ação de infiltrados e provocadores.

Como já dissemos, vai ter Copa. Por isto mesmo, do ponto de vista estratégico, deveríamos ter desmistificado o tal “padrão Fifa” com a adoção de uma postura muito mais altiva na relação com esta entidade, pois a experiência da Copa do Mundo na África do Sul e toda a trajetória da Fifa indicam que o correto seria que o governo tivesse assumido o gerenciamento e execução estatal das obras, e ao mesmo tempo enfrentado a quadrilha que comanda os grandes negócios do mundo esportivo nacional e internacional. Tal postura teria impedido que o preço dos ingressos fosse impeditivo para amplos setores da população.

Cabe ao PT e ao governo entender o fenômeno e ter humildade e capacidade para dialogar com o sentimento real da população, sem ufanismos, sem “chapa branquismo” e com um enfrentamento real dos problemas advindos da tumultuada e mal resolvida relação com a Fifa, que tenta se impor como autoridade plenipotenciária em solo brasileiro.

Assim, ao lado da postura de anfitrião da Copa que a situação exige, é importante capacidade de diálogo no sentido de superar as contradições que são apontadas por setores populares vítimas reais dos “efeitos colaterais” das obras que caracterizam o controverso “legado da Copa”.

É forçoso reconhecer que há problemas sérios de remoções forçadas de 150.000 a 170.000 famílias nas doze cidades que serão sede do mundial, em ações comandadas pelos poderes públicos municipais, com apoio das instâncias estaduais e, em alguns casos, federais, que concorreram para a retirada abrupta de moradias que teriam garantido o direito à permanência no local pelo instituto da usucapião urbano, via de regra retiradas que deram lugar a projetos que para além das obras de “mobilidade urbana” ensejaram valorização imobiliária que geraram lucros fabulosos para investidores privados “bem posicionados” no mercado.

Abrir um canal de interlocução sério com as entidades representativas desta população é um passo que o governo precisa dar, se quisermos combater com argumentos sólidos o oportunismo eleitoreiro dos que querem transformar o “não vai ter Copa” em plataforma política.

Na mesma linha, é mesmo inadmissível aceitar a política de “trabalho voluntário” na Copa do Mundo, mal e mal escondendo o suporte deste trabalho não pago ao funcionamento da engrenagem que dará oportunidades de lucros extraordinários para centenas de grandes empresas privadas. Cabe às centrais sindicais e às entidades estudantis combater esta verdadeira afronta à luta contra a precarização das relações de trabalho.

Portanto, recusamos a palavra de ordem “não vai ter Copa”. Esta palavra de ordem poderia ser parte legítima do debate, quando se discutia se o Brasil pleitearia ou não ser sede do evento. Agora, não há maneira de considerar como tempestiva, nem como correta, esta palavra de ordem: “não vai ter Copa” significaria na prática inviabilizar o evento, com os danos imensos que isto causaria, tanto do ponto de vista econômico e social, quanto do ponto de vista político.

Igualmente recusamos a postura daqueles que, pela esquerda ou pela direita, confundem o legado de 12 anos de governos federais encabeçados pelo PT, com o mal denominado legado da Copa. Ou das Olimpíadas.

A Copa e as Olimpíadas não sintetizam, nem para o bem, nem para o mal, o projeto de mudanças que defendemos para o Brasil. De maneira geral, os grandes eventos e as grandes obras não podem ser analisadas, defendidas ou rejeitadas nem em si, nem como um pacote indiviso.

O conjunto da esquerda brasileira deve lembrar que, aos 50 anos do golpe, as eleições de 2014 ocorrem num ambiente marcado pelo confronto entre o udenismo histérico e as forças políticas que sustentam o resgate das reformas de base. Este confronto –-muito mais que um jogo, uma copa ou uma olimpíada– é que decidirá o futuro imediato do Brasil.


*Valter Pomar é militante do PT e doutor em história pela USP
*Licio Lobo é militante do PT, mestre em “Planejamento e Gestão do Território” pela UFABC

domingo, 18 de maio de 2014

internauta parasita alienígena virulento

Como você usa a internet?


O internauta parasita alienígena virulento de mil dedos


penso que penso, logo desisto







Na internet da “LIBERDADE DE EXPRESSÃO” pode-se dizer o que quiser! É um muro das lamentações pichado de palavrões ilegíveis e mal grafados por adolescentes de meia idade que até sabem escrever, mas estão ocupados demais para ler.

Dicotômicos sem o menor constrangimento, alternam reivindicações de #MaisAmorPorFavor com discursos de ódio e difamações irresponsáveis. Aliás, responsabilidade é palavra bonita feita feia por quem acha que ela serve para responsabilizar os outros. É um dos mil dedos do internauta padrão, a tal responsabilização...

Este alienígena nascido analógico e atualizado posteriormente para uma versão digital - quando seu cérebro já estava atrofiado e viciado em formadores de opinião disfarçados de disseminadores de informação - não sabe o que fazer com tantos dedos... Não sabe, não quer saber e tem raiva – muita raiva, mesmo – de quem tentar lhe ensinar algo sobre este mundo novo onde ele passa grande parte da sua vida atual de parasita.

Claro que um monstro de mil dedos só pode ser um parasita e, que bom que ele é só um pé no saco, pois se fosse também um dedo no cu estaríamos fodidos, literalmente!

O parasita de mil dedos se esqueceu que tem dois olhos, dois ouvidos e uma só boca para ver e ler em dobro, ouvir em dobro e falar pela metade. Já que usa os dedos para se comunicar e, tendo mil deles, vai clicando, curtindo, compartilhando sem a menor preocupação em saber do que está falando.

Segue tendo como referência a velha mídia analógica de seu tempo. A televisão e o rádio permanecem ligados, ainda recebe o jornal em casa toda manhã e nem se dá conta de que não sabe usar seus olhos e ouvidos, mas ainda assim seus olhos e ouvidos são usados.

Vai assimilando desconhecimento por osmose e pela repetição... Igual música ruim que gruda nas cabeças ocas com suas onomatopeias repetidas à exaustão, o discurso pseudo informativo recheado de opinião tendenciosa vai se instalando em seu cérebro pre-cibernético tal qual programinhas inúteis e maliciosos vão se instalando em seu computador cada vez que ele baixa um arquivo inocente na web.

Não sabe de onde saiu tantas barras de ferramentas, joguinhos e emotions, que negócio é esse que lhe manda acelerar o PC o tempo todo e porque seu mecanismo de busca é o Ask.com... Aquela nova página inicial até que é bem legal... Seu cérebro atrofiado é exatamente igual!

A mesma falta de lógica que quer utilizar o computador para seu benefício sem dedicar um tempinho para entender seu mecanismo se aplica à internet e à vida. Parte da preguiça mental em aprender qualquer coisa que não lhe trará benefícios financeiros e, portanto, é considerado cultura inútil. O parasita virtual é grupo/comportamento de risco disseminador de vírus, compartilhador de memes (e nem sabe o que é isso) e atrofiador de cérebros.

Não sabe, não quer saber e tem raiva, muita raiva, mesmo...

Experimente contraria-los e serás tachado de intolerante, de censor, de regulador das postagens alheias... “O Facebook é meu e eu posto o que quiser! ”, “Opinião é que nem cu! ”, “Eu vejo nas ruas, não preciso ler! ”, são algumas frases recorrentes dos virulentos.

Generalizações como “as religiões”, “os religiosos”, “os políticos”, “os vagabundos”, estão presentes na maioria de seus discursos monocromáticos de meio parágrafo. Normalmente acompanhadas de “absurdo”, “vergonha”, “país de merda”, “só no Brasil” e “só matando”...

Alternam pichações desta natureza com autoajuda, filosofia oriental de almanaque, frases de “O Pensador” e muitas citações de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu.

O alienígena virulento de mil dedos se acha um mestre acima de qualquer autocrítica (nem sabe o que isso significa) e a frase feita que lhe representa com maior grau de exatidão é “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço! ”

Para tudo que ouviu dizer que está errado ele usa seus mil dedos para apontar culpados (julgados, condenados e, se dependesse dele, executados sem direito à defesa) e para crucificar os vilões responsáveis pelo mundo/país estar tão ruim. Mas não dá exemplo de responsabilidade... Não usa seus mil dedos para pesquisar, ler e se inteirar dos assuntos prejulgados que espalha com sua “opinião que nem cu”.

Não se preocupa se a página que ele curtiu e compartilhou é homofóbica, machista, defende a ditadura ou prega linchamentos. Não entende que ele é cúmplice do ódio e da desinformação disseminada pelas páginas que ele avaliza (nem sabe que está avalizando).

Sua preguiça mental é tanta que, mesmo com mil dedos, não consegue clicar numa foto do cachorrinho perdido para verificar se já não foi encontrado, compartilha e pronto, se sente o benfeitor dos animais abandonados. Sua percepção não compreende que isso é quase como soar alarmes falsos ou passar trote para ambulâncias.

O internauta parasita alienígena virulento de mil dedos é profícuo em apontar culpados, e pensa que assim se isenta da responsabilidade de encontrar soluções. Repete o senso comum para parecer politizado e reclama do governo e dos mal-educados, mas é incapaz de educar-se, não estuda nada que não lhe traga um diploma e agregue valor ao seu currículo, desqualifica argumentadores e se recusa a qualificar seus argumentos, pois entende que “todos sabem disso” ou “deu na TV/jornal” são argumentos irrefutáveis.

O internauta parasita alienígena virulento de mil dedos é alienado por opção, irresponsável por comodismo, resmungão por hábito, burro por condicionamento mental, pretensioso por autoestima autoajudada, mas, é sobretudo uma “boa alma cheia de boas intenções! “

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Abaixo a Ellus!


Elite brasileira usa a Copa do Mundo para mostrar seu desconforto em ser brasileira

A Brazilian Operating in This Area



(First of all, thanks for reading and commenting on my previous post. It is already the most popular of this blog’s short history. I was requested to translate it into Portuguese and at first I refused it. Not only I am working loads, but I wanted to avoid the bigotry that usually comes along with enthusiasts of the two main political parties here. And I wanted to avoid denial by that big chunk of the elite which is disengaged with Brazil. But I was convinced to use some of my time in this because someone else could translate and include words I didn’t write. I want Brazilians who don’t speak English to have an original source. This blog is meant to be a bridge between Brazil and foreigners, almost all posts are and will be in English, but I can make exceptions when I want.)

“Abaixo este Brasil atrasado.” É assim que a marca Ellus decidiu se envolver com a Copa do Mundo — colocando essa mensagem em uma camisa. Eles devem ter uma resposta oficial tosca, dizendo que é contra os gargalos, e não contra o país. Ainda assim todos os brasileiros que entendem nossa síndrome de vira-lata sabem o que querem dizer as pessoas que usam essa peça. Afinal de contas, a maioria dos frequentadores da Ellus são pessoas que não usam o sistema público de saúde. Eles não estudam em escolas públicas. E eles raramente põe os pés em transporte público nas principais cidades do Brasil (embora tenham prazer em fazê-lo no exterior).

Então, por que eles frustrados? Seriam eles tão altruístas quanto os ativistas que protestam com um objetivo, seja qual for esse objetivo? Ou os brasileiros ricos expressam suas críticas por puro tédio?

Minha resposta é que os brasileiros ricos estão frustrados por serem brasileiros. E eles envenenam o tom sobre a Copa do Mundo no Brasil mais do que os erros e o mau planejamento na preparação do evento. Não é lá grande notícia para quem já foi a uma festa brasileira nos Jardins ou no Leblon. Mas este é provavelmente um bom momento para apontar o que está acontecendo.

Alguns elitistas lidam com essa realidade perturbadora de ser brasileiro de maneira pró-ativa : tentam conseguir um passaporte europeu, como se realmente tivessem uma ligação familiar importante com o exterior. Outros optam por distorcer símbolos que estão ligados ao país que rejeitam. Isso já foi feito antes. Samba, sertanejo, feijoada e todas as coisas muito do Brasil são descartadas ou transformadas em uma versão gourmet que se encaixa no gosto supostamente melhor da nossa elite.

O futebol até pouco estava no meio do caminho — não se pode desbrasilisar o futebol. Mas, agora, os clubes europeus estão cada vez mais popular aqui . Talvez isso mostre que a atenção também está mudando nessa área. Seria uma boa razão para explicar por que as críticas à Copa do Mundo, irrelevantes não muito tempo atrás, deram à elite brasileira a oportunidade de expressar seu aborrecimento.

Os protestos de junho de 2013 mudaram o cenário para as elites brasileiras. Depois que os protestos contra os aumentos nas tarifas de transporte se tornaram uma onda nacional, incluindo gente de todo tipo, os brasileiros ricos se fizeram muito barulho, pela primeira vez em muito tempo. Era o momento de eles mostrarem sua presença depois de anos e anos de movimentos frustrantes (vide Cansei). Eles usaram a legitimidade dos protestos iniciais para darem a impressão de que estávamos todos no mesmo barco. A Copa do Mundo foi certamente um grande elo de ligação para eles.

Os gastos da Copa do Mundo só entraram no debate depois que o movimento explodiu. Embora os preparativos certamente mereçam críticas, apenas um ano antes do torneio nossa elite descobriu que isso poderia chamar mais a atenção para tudo de que não gosta no Brasil. De repente, fizeram o Brasil parecer antidemocrático como a Coréia do Norte, pobre como o Paraguai, caótico como a Índia, agressor dos direitos humanos como a Arábia Saudita, corrupto como a Rússia. O Brasil tem certamente pedaços disso tudo, mas é bem diferente de todos esses países.

Mesmo se o Brasil fosse ruim assim, nossa elite teria que buscar explicações nela mesma, e não apontar o dedo. Claro que existem exceções, mas brasileiros ricos, educados, bem viajados e contrários à Copa do Mundo não parecem muito interessados ​​em compartilhar o país que receberá o torneio basicamente porque começou a compartilhar seus lucros com os pobres.

O fato de o Brasil ter distribuído alguma riqueza nos últimos 20 anos não casa bem com jovens riquinhos que ouvem os seus avós ricões dizerem maravilhas sobre o tempo do regime militar, por exemplo. Alguns se identificam com os partidos da oposição e por isso criticam, mas é apenas uma questão de gosto: no que importa, o PT não é muito diferente do PSDB. Incluindo a ideia de receber a Copa do Mundo.

Nada surpreendentemente, são essas pessoas que defendem um tratamento mais duro a quem está fora do seu quadrado. Eles querem reduzir a maioridade penal, ampliar o policiamento ostensivo, transformar corrupção em crime hediondo (somente para os funcionários públicos, não para quem suborna) e assim por diante.

Entre esses tipos também estão os críticos das medidas para trazer médicos estrangeiros. Outros são os próprios médicos que se recusam a trabalhar em comunidades pobres — eles querem ganhar mais trabalhando como dermatologistas nas capitais. Não me parece que as elites europeias, americanas ou asiáticas sejam tão egoístas. É provavelmente uma coisa bastante da nossa América Latina. Azar o nosso.

Que melhor símbolo para a elite brasileira canalizar a sua frustração com o Brasil diferente do desejado por ela do que atacar a Copa do Mundo, o evento que faz o país parar a cada quatro anos? O apoio dos brasileiros ao torneio certamente caiu no último ano, mas são os chavões espalhados pelos ricos brasileiros (às vezes em inglês ) que estão no centro das atenções, como se esses caras vivessem as queixas que abordam. A verdade é que a maioria deles nem sequer se preocupa com prioridade para saúde e educação. Não usariam o sistema público nem que pudesem. Muitos estão sequestrando a agenda social da qual discordam para fazer crítica superficial e politicamente desengajada .

Isso é um muitas vezes um disfarce para o desconforto da elite em ser brasileira , ao contrário das críticas daqueles que tentam dar um sentido a seu antagonismo.

A grande mídia já notou a rejeição elitista e a amplifica. Vídeos como o de Carla Dauden, sugerindo um boicote à Copa do Mundo, são usados ​​para mostrar que há um sentimento ruim sobre o torneio em todo o país. Mas esse é o sentimento da “classe média alta”, como eles gostam de se definir (PSC: entre os ricos, aparentemente não há ricos no Brasil.)

Sediar a Copa do Mundo, um prêmio dado por conta da inclusão social que promovemos, está sendo transformado em um simples “nós gastamos muito, recebemos pouco”. O tom usado por muitos brasileiros ricos não é “vamos ajeitar isso” — a maioria deles sabe muito pouco de política para realmente se envolver com substância. Sua mensagem é “dane-se tudo” (como vídeo boicote de Carla Dauden sugere). Parece que o Brasil atrasado merece ser constrangido pelos carrascos, não pelas vítimas. As vítimas sabem criticar, mas não se envergonham do seu país.

Os elitistas mais argutos que criticam a Copa do Mundo no Brasil também têm usado essa grande chance para mostrar que não se relacionam com o futebol como todos os outros — venderam a idéia de que quem se envolve com a Copa do Mundo é que está desengajado com o Brasil. Eles se mostram como agentes reais da mudança, embora sejam completamente o oposto — basta olhar para as suas outras sugestões e você verá que as elites brasileiras não poderiam se importar menos com quem foi despejado por causa dos novos estádios, por exemplo.

Não sou marxista. Mas é difícil defender uma das elites mais tacanhas do mundo. Muitos jornalistas estrangeiros que passaram tempo suficiente aqui concordam comigo.

As favelas do Brasil de alguma forma lembraram nossa elite pequerrucha, branca e às vezes fanática religiosa que as chaves da escravidão estavam nos seus bolsos. Também por isso, criticam a Copa do Mundo que será jogada não muito longe dessas senzalas modernas. Nos morros do Rio e na periferia de São Paulo, existem centenas de milhares de pessoas cujos bisavôs não poderiam ser contratados porque os ex-donos não iriam comprar a sua propriedade novamente.

Esses brasileiros ricos não culpam apenas os governos e o comitê organizador da Copa do Mundo por atrasos nas obras: eles consideram os pedreiros lentos e ineficazes. É assim que eles satisfazem seu fetiche: os pobres são responsáveis por sua pobreza.

Elitistas brasileiros muitas vezes vêem uma pessoa negra como empregada doméstica ou motorista em potencial, sabemos disso. Se eles não recebem um copo de suco de laranja às 8 horas provavelmente é porque essas os pobres são apenas um bando de ingratos preguiçosos. “Só no Brasil”, me disse uma vez um executivo numa situação parecida.

(Não é muito diferente do que a revista The Economist recentemente sugeriu em uma compreensão muito pobre da complexidade do Brasil.)

Grande parte da mídia brasileira gira em torno da nossa pequena elite para escrever suas histórias. Embora existam ativistas com preocupações razoáveis sobre direitos humanos e melhores serviços para todos, mesmo na elite, a maior parte da mensagem disseminada tem a ver com o que os brasileiros ricos podem expressar em inglês. É assim que eles se fazem conhecidos: lamentando tudo aquilo que não entendem no Brasil. (Veja o caso da Arena Corinthians. Fica em uma região pobre. Muitos elitistas dizem que não vão lá porque é “uma parte feia da cidade”.)

Essa camisa pela Ellus é um grande exemplo de um velho padrão dos ricos brasileiros : eles fingem tudo o que está errado no Brasil não tem nada a ver com eles. A corrupção não começa com suas empresas. A desigualdade não surge do fato de eles pagarem menos impostos do que todo mundo (e ainda burlam o fisco se puderem). Pilantras nunca foram eleitos por eles nem financiados por eles. As partes atrasadas do Brasil não devem ser corrigidas por meio de políticas — a ideia dos elitistas é provar que o sucesso depende exclusivamente de cada um.

Se os outros fracassam, nada tem a ver com eles.

É difícil prever se eles conseguirão constranger Brasil até o final da Copa. Os protestos são mais mensuráveis do que a campanha de humilhação. De todos os legados, o que mais quero ver é o Brasil atrasado vencendo seus críticos. Eu venho do Brasil atrasado. Se a Copa do Mundo fosse nosso maior problema, seria ótimo.

Se a Copa do Mundo não for um sucesso, estarei aqui para reportar o que acontecer. Mas torço para que seja. Não só por causa de experiências anteriores em grandes eventos esportivos . É porque eu quero ver as pessoas que usam essa camisa engolirem o Brasil atrasado muito em breve.

Abaixo a Ellus!