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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

No Brasil, o ponto de corte é o ensino fundamental


A escola exclui e o crime acolhe



Extra Classe




Efeito da educação na criminalidade


Um ano a mais de escolarização no ensino médio resulta em menos 10 pontos percentuais nas chances de um branco ser preso nos EUA e em 37 pontos percentuais as chances de um negro ser preso.

O mais impressionante é que, quando separamos os dados por tipo de crimes praticados, descobrimos que o maior impacto da educação está associado à redução das taxas de homicídio, agressões e roubo de veículos.




Por César Fraga




Foto: Igor Sperotto





Em seu novo livro A formação de jovens violentos – Estudo sobre a etiologia da violência extrema (Appris Editora, 285 páginas), o sociólogo Marcos Rolim busca respostas para a origem da violência praticada por jovens que estão apartados da sociedade por conta dos crimes extremos que cometeram. A pesquisa contou com entrevistas em profundidade com jovens detentos e em medidas socioeducativas e aponta para questões preocupantes. A principal delas é que o estado virou o grande organizador do crime sem se dar conta do papel que exerce. O principal motivo passa pela evasão escolar precoce, que deixa esses jovens vulneráveis ao assédio do tráfico em suas comunidades, onde são treinados e socializados. Depois, esses jovens vão parar na Fase, para cumprir medidas socioeducativas, ou nos presídios, que acabam sendo a graduação e pós-graduação no crime, pois é lá que se organizam as facções criminosas que mandam nas ruas. A chave do problema estaria na educação, mas a realidade que se apresenta é de uma rede pública incapaz de manter esse jovem na escola por mais tempo do que os anos iniciais. Rolim é jornalista, sociólogo, professor no Centro Universitário Metodista e consultor em segurança pública e direitos humanos.


Extra Classe – Você está lançando um livro sobre a origem do jovem que pratica atos de violência extrema. Como chegou ao livro e ao tema?

Marcos Rolim – O tema da violência é um tema que me acompanha há décadas. Trata-se de um assunto que eu estudo, leio, acompanho, trabalho. Principalmente na prevenção à violência, tema a que me dedico há bastante tempo. Mas, nessa trajetória de estudar o assunto e de pesquisar sobre esses temas me deparei com um problema específico que me chamou muito a atenção dentre tantos outros. Trata-se de um problema básico, um tipo especial de violência, que é a violência extrema, aquela praticada numa circunstância sem qualquer motivação direta, como, por exemplo, sem a provocação por parte da vítima. O sujeito vai praticar um assalto, a vítima não reage e este sujeito executa a vítima ainda assim. Ou seja, existem outras situações de violência que se consegue entender o que aconteceu, mas nesses casos parece gratuito, porém, aparentemente existe uma predisposição. Esse tema não é objeto de estudo na criminologia. Não se estuda esse recorte. Muitas vezes é tratado como algo ligado a uma maldade preexistente e acaba caindo numa simplificação e, no maniqueísmo, até por uma dificuldade de compreensão. E eu queria compreender isso. Então, o mote da pesquisa é esse, entender a violência extrema, que é um recorte pouco ou não estudado.


EC – O objeto desse estudo são menores de idade ou jovens de uma maneira geral?

Rolim – A princípio, o recorte são jovens, tanto cumprindo medida socioeducativa, como do sistema prisional adulto.

EC – São universos que não trocam muita informação nem cruzam dados, inclusive.

Rolim – Sim, esses arquivos não dialogam e esse é um dos grandes problemas quando se pretende traçar políticas de segurança e prevenção.


EC – Mas, voltando para a sua pesquisa…

Rolim – Uns vinte anos atrás fiquei muito impressionado com uma linha de pesquisa de um jornalista que apresentava o trabalho de um criminólogo norte-americano chamado Lonnie Athens. Esse cara estudou presos no corredor da morte, condenados e aguardando a execução de suas sentenças. Ele, portanto, entrevista dezenas de prisioneiros sobre suas histórias de vida. Foram entrevistas longas e em profundidade. O mesmo método que eu usei na minha com os jovens da Fase, todos eles envolvidos com atos de extrema violência. Ao fazer essas entrevistas ele identifica no grupo de condenados à morte um certo padrão de brutalização da infância. Foram criminosos que, quando crianças e adolescentes, passaram por uma sucessão de cenas de violência, de violentização, que é o nome da teoria dele.


EC – E o que é essa violentização?

Rolim – Só para deixar bem claro, isso é de onde eu parti. Minha pesquisa vai confirmar em parte isso, mas vai apresentar coisas diferentes. Para Lonnie Athens, essas pessoas que são especialmente capazes de praticar cenas de violência extrema, absurdas, são resultado de uma experiência social que começa na infância, em geral na figura do pai, padrasto, que espanca, que humilha e que depois vai ensinando esse jovem a ser ele próprio violento. Coisas como: tem de bater primeiro antes que te batam. Quando o garoto briga com alguém e ele bate é elogiado. Ele vai percebendo que na medida em que ele for violento, mais respeito ele adquire e mais valorização ele terá naquele núcleo.



Foto: Igor Sperotto



EC – Com a ausência da figura masculina paterna, ela é substituída por outra figura na comunidade?

Rolim – Esse é o tema que a pesquisa vai mostrar depois. O que o cruzamento estatístico permite afirmar é o seguinte: há uma dinâmica perversa em curso nas cidades brasileiras, que envolve evasão escolar muito precoce. Esses guris saem muito jovens da escola. Pobres todos. Fracassam na escola, que não consegue atraí-los e permanecer com eles. Ou seja, não cria vínculos. E, ao ficarem em sua comunidade sem trabalho e sem escola, semialfabetizados, eles se aproximam dos grupos armados que recrutam esses jovens, primeiro para serviços básicos do tráfico, em que são socializados nos valores da violência, quando alguém lhes dá uma arma.


EC – O papel socializador da escola acaba sendo substituído pelo crime?

Rolim – Sim. Esse papel de socialização é feito por outra escola, uma escola do crime. Ali, onde a escola está excluindo, o crime acolhe. Essa é a dinâmica. Essa relação chamada treinamento violento responde por mais de 54% da disposição violenta dos jovens. Mais da metade do problema está aí. Existem outros fatores associados, mas o central é esse. Se a pesquisa estiver correta, óbvio que ela precisa ser testada com um número maior de jovens em outras cidades brasileiras. Mas a relação estatística é muito forte e significativa. Tenho a impressão de que encontramos uma coisa que é muito expressiva como fenômeno social. Se confirmou algo que até agora não se deu a devida importância. Se a pesquisa estiver correta, é impossível falar sobre a redução da violência no Brasil sem abordar o tema da evasão escolar. Esse passa a ser um tema central. A pesquisa indica claramente isso. Não é nem uma opinião minha e nem é o que eu achava. Eu imaginava, inspirado no Athens, que o problema central estava na violência contra a criança. Minha hipótese era a de que o cara que está matando na rua é o cara que apanhou em casa. E essa tese não foi confirmada. Então, a pesquisa confirma uma parte da teoria do Athens, que é a parte do treinamento violento. É um dos estágios dessa violentização, mas não confirma o primeiro, que é o da violência contra a criança como sendo um fator importante para esse fenômeno.


EC – Mas existem, paralelo a isso, políticas equivocadas de segurança pública, principalmente a de repressão às drogas?

Rolim – Evidente, porque esses grupos armados se organizam no mercado ilícito de drogas, e só se organizam e só há grupos armados porque as drogas são ilegais. Se elas fossem vendidas em farmácias, não haveria tráfico. Isso é subproduto de uma política proibicionista. Aliás, o tráfico é filho do proibicionismo. É o proibicionismo quem cria o tráfico!


EC – Há um capítulo do seu livro que diz que a polícia é sócia do tráfico.

Rolim – A primeira parte da minha pesquisa foi qualitativa, em que comparei dois grupos de jovens: 17 jovens internos da Fase, cumprindo medida de privação da liberdade por atos infracionais especialmente graves e com 11 amigos desses jovens que consegui encontrar, que não se envolveram com o crime. Um grupo de jovens matadores, capazes de praticar atos de extrema violência e outro composto por jovens trabalhadores que estão estudando. Essa é a primeira parte da pesquisa. Depois tem a parte quantitativa, mas daí é outra conversa. Realizando entrevistas em profundidade com esses dois grupos de jovens, se percebe que as histórias que eles vão contando dão conta de muitas associações. Uma delas é a associação deles com a polícia ou com as polícias. O que todos os jovens da Fase relatam é que todos eles tiveram envolvimento com a polícia militar e com a polícia civil antes de irem parar na Fase e todos eles têm histórias de corrupção para contar. Lá na ponta do sistema, eles pagavam policiais para não serem presos, o chamado pedágio. Isso, tanto com a polícia militar quanto com a polícia civil. Há um relato de um jovem que é especialmente grave.




Foto: Igor Sperotto / Arquivo Extra Classe



EC – Explique melhor o pedágio pago aos policiais.

Rolim – A polícia aborda o traficante e vai na boca semanalmente receber seu dinheiro. Óbvio que isso não envolve todos os policiais, mas o número dos que fazem já não é um número pequeno. Aquela visão de que é um desvio de conduta, uma maçã podre. O que a pesquisa sugere é que o cesto está podre. Então temos algo grave aí. Uma das histórias dá conta do seguinte: o rapaz estava numa esquina vendendo drogas na vila; chegam os policiais que ele não conhecia. Ele é pego em flagrante com arma e várias pedras de crack. Os caras prendem, algemam e colocam ele dentro da viatura com quatro policiais. Ele começa a ser conduzido até a delegacia mais próxima. No meio da viagem toca o telefone. É o patrão da boca ligando de charqueadas, na Pasc, onde cumpre pena. “Vocês prenderam meu guri, não é para isso que a gente paga vocês”, diz o traficante. O policial na viatura responde que não sabia, desliga o telefone e retorna para o local onde havia prendido o rapaz e o devolve com as drogas e a arma. Só faltou pedirem desculpas pela prisão. Uma cena dessas é sinal de que alguma coisa de grave está acontecendo. Isso me deixa muito preocupado. A Polícia Militar, muito especialmente, no passado, sempre teve problemas de violência, abuso de autoridade aqui e ali, mas a corrupção não era uma coisa disseminada. Quando tinha um caso de corrupção, rapidamente a estrutura da Brigada expelia esse cara. Existia uma hierarquia muito presente e com um controle muito maior. Os mecanismos de disciplina, hierarquia e controle foram afrouxados com o tempo e se perdeu o controle da ponta. Os oficiais não sabem o que está acontecendo na ponta, porque eles não têm mais o acompanhamento diário. Então, muitos desses soldados estão soltos. Tem bons profissionais, que estão se esforçando, mas existe um grupo, e a discussão é qual o tamanho desse grupo, que é sócio do negócio. São sócios do tráfico.


EC – E será que não existe uma profundidade dessa sociedade na hierarquia mais alta também?

Rolim – Não tem como saber. Isso é difícil de especular, porque a pesquisa é feita na ponta, com quem atua na ponta do tráfico que fala dos policiais, que também atuam na ponta. Mas é possível que sim. Um dos grandes problemas do tráfico de drogas, que em geral não é tematizado na mídia, é o potencial corrosivo que tem nas instituições. No Brasil, a gente já tem bancadas de deputados inteiras eleitas pelo tráfico. O Rio de Janeiro já comprovou isso na CPI das Milícias. A Assembleia Legislativa do Rio já teve deputados bancados e eleitos pelo tráfico. Existem juízes na folha de pagamento do tráfico. Há magistrados agenciados e pagos regiamente pelo tráfico. Evidente que tem muitos policiais e muita gente de governo trabalhando para o tráfico. Então, quando se movimenta um volume muito grande de recursos e isso se faz à margem da lei, por ser uma economia clandestina, isso tem um potencial corrosivo do estado. É um drama que o Brasil está vivendo. Hoje o tema da segurança pública está muito em torno do tráfico.


EC – É um capital que já é caixa 2 na sua origem e se presta a financiar também a política.

Rolim – Sim. Enorme. E o Brasil está vivendo esse drama por conta de uma política antidrogas equivocada.


EC – Até que ponto foi possível aprofundar o estudo para aferir a influência da escola na prevenção da violência e de apontar algum caminho para enfrentamento dessa realidade?

Rolim – A primeira coisa é o seguinte: existe a possibilidade, e os gestores públicos deveriam assumir isso como prioridade, de se desenvolver projetos para disputar cada um dos jovens na escola com o tráfico. Ou seja, nenhuma criança ou jovem fora da escola, especialmente no caso dos homens. Pois isso tem uma repercussão direta na segurança pública. As meninas acabam saindo da escola por outros motivos, especialmente quando engravidam precocemente. No caso dos meninos, o tema central é esta possibilidade de, ao saírem da escola, se vincularem ao crime organizado.


EC – Tem uma coisa de status também desse jovem envolvido com o tráfico na comunidade.

Rolim – Esse jovem que não é nada, que é pobre e está marginalizado. Não tem autoria e não é reconhecido em lugar nenhum, que não existe, é um fantasma social, no momento em que ele entra para o tráfico de drogas ele passa a ser alguém. Passa a ter um valor. Ele passa a ser reconhecido pelos seus pares. Ele passa a impor respeito aos demais porque ele tem uma arma na cintura. Ele tem o dinheiro que o pai dele nunca teve. Ele passa a ser cortejado pelas meninas, que passam também a disputar essa figura, porque também representa status para elas. Ou seja, esse guri vira alguém. Ele se enche de poder. O tema da disputa desses jovens com o tráfico é um tema central. São raríssimos os municípios no Brasil que possuem programas para disputar esses jovens com o tráfico. Canoas tem um exemplo muito interessante. O município desenvolveu uma política de segurança e um dos projetos que acho mais interessantes que eles têm lá se chama Todo Jovem Conta. Eles conseguem, via guarda municipal, fazer uma abordagem dos guardas com as escolas, com as direções. Identificam jovens em situação de risco ou que tenham mais dificuldade de trato. As famílias desses jovens passam a ser acompanhadas pelo pessoal da prefeitura na área da saúde, assistência social, e uma série de mecanismos que vão permitindo chegar no problema que o jovem vai enfrentando. Aí se consegue abarcar a situação desse menino como uma situação para ser resolvida, sem que ele sequer saiba que está sendo selecionado.


EC – Mas com a mudança de gestão esse projeto pode ser descontinuado.

Rolim – Não se sabe se esse projeto terá continuidade com a próxima administração, mas Canoas conseguiu, com essa abordagem, abrir um caminho que é muito frutífero, e que é um desafio para a escola, que é não perder esse jovem. Às vezes eles saem da escola por motivos completamente banais.


EC – Antes você falava do comparativo entre os dois grupos de jovens da mesma origem…

Rolim – Ao final das entrevistas em profundidade com esses grupos de 17 jovens privados de liberdade na Fase, vários deles respondiam por mais de um homicídio, um deles, que respondia por dois homicídios, durante a entrevista assumiu pelo menos sete. O detalhe é que as conversas foram todas gravadas. Claro que na transcrição a gente toma o cuidado de não usar os nomes para que essa pessoa não seja identificada. Mas as histórias estão ali e elas são impressionantes. Dão conta de uma guerra em que eles estão matando e morrendo.


EC – Uma guerra circunstancial?

Rolim – Um dos principais contrastes entre os grupos de jovens estudados com esse perfil mais agravado e o grupo de amigos de infância que eles me indicaram, que não se envolveram com o crime, foi de que todos esses 17 meninos saíram da escola precocemente, aos 11 ou 12 anos, em média. E todos os 11 que eu consegui encontrar, que não partiram para o crime, continuavam estudando com 19 ou 20 anos. Também pobres, se atrasaram nos estudos e não concluíram o ensino médio. Outros já haviam concluído, mas seguiam batalhando para tentar entrar em alguma universidade. Mas todos eles estavam vinculados a alguma perspectiva educacional e se mantiveram longe do crime. Enquanto os demais perderam essa perspectiva muito cedo.


EC – Na pesquisa encontrou algum jovem pressionado a abandonar os estudos para ingressar no tráfico?

Rolim – Não, nada nesse sentido. É possível que aconteça, mas não houve nenhum caso no grupo que entrevistei. A dinâmica que eu encontrei foi uma dinâmica quase que sistêmica, pois acontece naturalmente. Isso é impressionante também, porque muitas vezes se comenta aqui fora, mesmo sem dados ou estudos sobre isso, que o problema do jovem que entra para o crime é a família desestruturada, porque não tem pai nem mãe, o que não é bem verdade. Grande parte desses meninos tem pai e mãe. Alguns não têm pai, mas sabem quem é o pai. Muitos deles tiveram relações em casa bem sólidas no que se refere a cuidados e honestidade. Alguns dizem o seguinte, quando começaram a entrar no tráfico: “pô, comecei a ganhar dinheiro e quero ajudar minha mãe em casa, mas não tenho como explicar o dinheiro”. Sabem que o pai e a mãe nunca aceitariam isso. Então, montavam uma estratégia, de combinar com uma irmã que trabalhava para assumir o dinheiro. Então, o tema não está só na família. A família é só uma parte. Mas há um momento da adolescência em que a relação deles com os seus pares é determinante. Eles enfrentam uma dupla negação: não são mais crianças e também não são adultos. Ou seja, ele não é duas vezes. Mas então o que ele é? Ele está à procura da sua identidade e precisa muito dos seus pares, do grupo. E os adolescentes se organizam em tribos, sempre horizontalmente. A família pode ser muito legal. O jovem pode ser muito bem-educado. Mas lá pelos 11 ou 12 anos, se ele entrar num grupo que não seja legal, esse grupo vai puxar esse adolescente. Então, o tema dos amigos, o tema da relação de proximidade, do pertencimento, é fundamental, porque é ali que ele identifica o seu grupo e sua própria identidade. Ele vai ser diferente do pai e da mãe porque ele quer ser alguém. É justamente por isso que a escola é decisiva para os adolescentes. Em última instância, a escola é o principal vínculo que ele tem. Ele rompeu simbolicamente o vínculo com o pai e com mãe e ainda não construiu os vínculos do mundo adulto. Ele não tem emprego, ele não tem filho, ele não casou. Ele está muito solto. Essa é a razão pela qual o adolescente transgride a norma com maior facilidade. Ele está solto no mundo. Já o adulto tem uma série de vínculos que o detêm.


EC – Com essa descoberta que se começa a fazer e diante do atual cenário político, dos rumos do país e das políticas educacionais que estão aí, qual o teu nível de otimismo?

Rolim – Uma das coisas que são muito dolorosas nesse tipo de trabalho é que quanto mais a gente vai conhecendo essas dinâmicas sociais, essas realidades que são pouco conhecidas no Brasil, por conta de que existe pouca pesquisa nessa área, a gente vai se dando conta do abismo que separa esse conhecimento da gestão pública. Os gestores públicos, especialmente na área da segurança, em geral eles não conhecem o tema. Eles respondem sempre reativamente aos fatos. São síndicos de um incêndio permanente, sempre atrás da última chama para apagar, produzindo factoides para a mídia para dar respostas ao clamor da população, no intuito de dizer que algo está sendo feito. Vivem o drama de enxugar gelo com as polícias, que não sabem a rigor o que fazer. O gestor público, como todos os governos, é parte desse mesmo non sense. Eles estão batendo cabeça. Eu acho isso apavorante.


EC – Há perspectiva?

Rolim – Você olha para frente e vislumbra quantos anos de gestão pública no Brasil teremos no futuro sem uma política efetiva de segurança pública e sem política educacional. Aí temos uma reforma de ensino médio por decreto, por pacotes, sem discussão prévia com ninguém. São temas que deixam a gente muito desanimado. Fico muito desesperançoso. Não se consegue enxergar ali adiante a possibilidade de uma virada nesse jogo. O Brasil precisa de uma ampla reforma política, mas também de uma ampla reforma cultural. A gente precisa valorizar cada vez mais as evidências. Precisa trabalhar com diagnósticos para medir o que está acontecendo, trabalhar como os países da modernidade trabalham, respeitando a ciência. Chegamos ao cúmulo, no Brasil, de apresentar Proposta de Emenda à Constituição da redução da maioridade penal sem nenhum argumento favorável da redução, mas com duas citações bíblicas a favor. Então, quando um país chega a esse ponto… O Congresso devia ter recusado a emenda por ser inepta. Não é possível que se apresente uma proposta de mudança à Constituição que não tenha um fundamento. E isso vira uma coisa tradicional e comum. A segurança pública é um caos. A gente está vivendo uma situação de muita violência, de muita criminalidade e, a rigor, o estado brasileiro não sabe o que fazer.


EC – Mas o estado sabe entender as razões da violência, consegue entender o que está acontecendo ou nem isso?

Rolim – É difícil responder. Não sei em que medida há um entendimento. Há pessoas que ocupam funções públicas importantes e que percebem a gravidade do problema, mas elas se sentem incapazes de alterar o quadro institucional, de fazer as reformas necessárias para resolver os problemas. Hoje, no Brasil, precisaríamos de um a política de segurança pública que tivesse a coragem de dizer o seguinte: o que estamos fazendo? Estamos prendendo aleatoriamente milhares e milhares de jovens traficantes. É um erro gravíssimo. O gestor tem de dizer isso para a população: que está errado. Mas está errado por quê? Se eu prendo jovens na periferia envolvidos com drogas, traficantes, usuários ou ambos, muitos são presos como se fossem traficantes, mas são usuários. Esse tipo de prisão não produz nenhum efeito no combate ao tráfico, porque essa mão de obra é rapidamente reposta. Mas o efeito disso é desagregador na segurança pública. Por que eu superloto os presídios e, ao superlotar os presídios com esses jovens, o estado organiza esse pessoal em facções criminosas. Então, o guri que estava na ponta, no seu embolamento, vendendo drogas, agora está dentro do Presídio Central e vai passar alguns anos ali e faz parte de uma facção prisional. Quando ele sair do presídio, ele não vai ser mais só um traficante. Ele, nas ruas, vai ter de assaltar para mandar dinheiro para a facção. Quem faz isso é o estado. O estado virou o grande organizador do crime sem se dar conta do que está fazendo. Como se discute isso com a sociedade, com as polícias e com o Congresso?


EC – As penitenciárias se transformaram nas universidades do crime organizado?

Rolim – É universidade e pós-graduação. E é pós-graduação mesmo, não é figura de linguagem. O sujeito que se iniciou no crime vai ter ali sua especialização e, portanto, condições de ser muito mais danoso para a sociedade do que era antes de entrar na prisão.


EC – Vivemos uma realidade que já vem de muitos anos de sucateamento progressivo do ensino estadual público, que é justamente quem disputa esses jovens ou deveria disputar nas periferias.

Rolim – E a tendência é que isso piore, porque a crise da educação não tem data para acabar, tanto quanto a gente consegue olhar para frente a gente só vê o quadro piorando.

EC – Dá para dizer que se piorar a educação aumenta a criminalidade?

Rolim – Sem dúvida. Tem pesquisas nos Estados Unidos que mostram que o corte das prisões americanas é o final do ensino médio. O sujeito concluiu o ensino médio, não vai mais preso ou dificilmente vai preso. Significa que o cara tem uma formação média, maior condição de empregabilidade, maior mercado de trabalho. Uma parte vai entrar no ensino superior, mas conseguiu passar um grau da criminalidade. Concluindo o segundo grau, dificilmente ele será alcançado pela dinâmica prisional. No Brasil, o ponto de corte é o ensino fundamental. O cara concluiu o ensino fundamental. Então, a relação de educação e prisão no Brasil é muito mais pronunciada do que nos EUA. Se a gente conseguisse aumentar os anos de escolarização média e combater a evasão, a gente diminuiria muito essa demanda de encarceramento. Isso fica muito claro, porque temos um número enorme de jovens, muito jovens, que são semialfabetizados. Esse cara vai fazer o que na sociedade que nós temos hoje? Vai arrumar emprego onde se os caras que têm pós-graduação batem de porta em porta e não conseguem? Então, é uma realidade muito difícil para quem não tem nenhuma formação. O cara está na periferia, não tem nada e o tráfico está do lado dele. Evidente que ele vai ser recrutado.



ONDE ENCONTRAR O LIVRO: O livro em formato impresso ou e-book pode ser adquirido sob demanda na Appris Editora: editoraappris.com.br ou pelo fone (41) 3156.4731.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Quantas crianças temos na escola hoje no Brasil?


“Informação é a melhor arma para enfrentar o preconceito”, diz Tereza Campello


SUL 21




“O Brasil Sem Miséria acabou implementando um padrão de inovação nas políticas sociais brasileiras que coloca um ponto de não retorno”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


Marco Weissheimer


Após a disputa eleitoral de 2014, houve um grande crescimento do volume de manifestações preconceituosas contra vários setores da sociedade, em especial negros, pobres e nordestinos. O fenômeno não é novo, mas reapareceu com força no final do ano passado. “O que piorou muito não está relacionado à media da opinião da população. O problema está entre aqueles setores mais reacionários que nutrem uma coisa racista contra os mais pobres. Essas pessoas passaram a ter coragem de expressar seus preconceitos mais abertamente. Saíram do armário”, diz a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello.

Em entrevista ao Sul21, Tereza Campello analisa as causas desse tipo de preconceito e defende que a informação é a melhor arma para combatê-lo. “Recentemente tivemos o caso de uma jornalista que disse que os pobres só pensam em procriar. É um negócio inacreditável. Os dados sobre taxa de fecundidade no Brasil, hoje, são completamente conhecidos. A taxa de fecundidade brasileira caiu em todas as classes sociais e caiu muito mais entre os mais pobres, uma queda em torno de 50% acima da média nacional”, exemplifica. A ministra também fala sobre o atual estágio das políticas sociais no Brasil, aponta as prioridades para o próximo período e nega que programas como o Bolsa Família possam sofrer cortes em função de medidas de ajuste fiscal.




Sul21: Em que ponto estamos hoje no processo de construção de políticas sociais iniciado no primeiro governo Lula e que entra agora em seu quarto governo? Quais são os planos do MDS daqui para frente, qual o olhar para o futuro?

Tereza Campello: Estamos em um ponto parecido ao que estávamos quando a presidenta Dilma assumiu. Naquele momento, quando olhávamos para trás víamos oito anos de muito sucesso que tiveram como carro chefe a agenda social e como resultados a inclusão de milhões de brasileiros, a geração de empregos e muitos investimentos na área social. Parecia que não era possível avançar numa agenda que já tinha avançado tanto e que o trabalho a ser realizado era basicamente de manutenção. Aí a presidenta lançou um mega e ousado plano que foi o Brasil Sem Miséria. Acho que as pessoas não têm muita noção da dimensão desse programa. Nós não fomos tão bem tratados pela mídia tradicional, mas nós também somos ruins de comunicação.

Sul21: Qual é essa dimensão do Brasil Sem Miséria que não ficou bem visível para a sociedade?

Tereza Campello: O Brasil Sem Miséria acabou implementando um padrão de inovação nas políticas sociais brasileiras que coloca um ponto de não retorno. Cada vez que se avança muito, se estabelece um novo degrau. Acho que estabelecemos uma verdadeira laje, que nos dá bagagem para dar um salto muito superior. A presidenta fez algumas inflexões nas políticas sociais que são pouco conhecidas.

Sul21: Que inflexões foram essas?




“Agora chegamos num patamar em que é possível dizer: o Bolsa Família está universalizado”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


Tereza Campello: Em primeiro lugar, estabeleceu a ideia de que precisamos universalizar a rede de proteção social no Brasil. Isso não estava colocado. Agora chegamos num patamar em que é possível dizer: o Bolsa Família está universalizado. Certamente ainda tem gente que está fora, mas é muito residual. No caso de qualquer política em que falta abranger 150 mil famílias em um universo de 50 milhões, você pode dizer que universalizou. Mas isso não aconteceu por acaso. Foi uma determinação da presidenta Dilma. Ela determinou que fizéssemos uma busca ativa. Se há pessoas fora do sistema, é responsabilidade do Estado ir buscá-las. A responsabilidade é do Brasil Sem Miséria. Isso muda a equação. Essas pessoas são tão pobres, estão tão distantes e foram tão excluídas e abandonadas que não chegarão ao Estado brasileiro. Então, o Estado deve ir buscá-las.

A segunda inflexão, que diz respeito a algo que também não existia nas políticas públicas voltadas à população pobre no Brasil, é estabelecer uma linha abaixo da qual o Estado não aceita mais que as pessoas estejam. Uma coisa é ter um conceito de linha de pobreza para medir e poder fazer quantificações. Outra coisa é ter uma linha e estabelecer que, quem estiver abaixo dessa linha, terá uma complementação de renda garantida pelo Estado. Isso não é apenas um ditame, mas vem acompanhado de uma política pública que vai dar conta do problema. Introduziu uma mudança no Bolsa Família, fazendo com que o benefício variasse para completar a renda de quem estivesse abaixo da linha da pobreza. Essa foi uma mudança muito importante não só no que o Estado brasileiro assumiu para ele, como de referência para outros países. Tem gente que olha e não acredita que estamos fazendo isso. De fato, é uma inovação muito grande.

É óbvio que só foi possível fazer essas inflexões porque havia oito anos de governo Lula atrás. Houve ainda uma terceira grande inflexão que consistiu em dizer: não é só renda; nós queremos que os adultos tenham acesso a oportunidades para melhorar a sua renda. Isso envolve, entre outras coisas, capacitação profissional, acesso a bancos, possibilidade de formalização via carteira assinada, micro ou pequena empresa, cooperativa, economia solidária. Nós fizemos uma ação massiva muito forte de inclusão econômica dessa população. Isso não quer dizer que essas pessoas não trabalhassem. Trabalhavam (e trabalham). O que não tinham era qualificação profissional, tecnologia, informação, acesso a crédito, etc.




“Independente da existência de grandes políticas universais em áreas como saúde e educação, se você não tiver um caminho diferenciado a população pobre não acessa os serviços públicos”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


A última coisa, falando das inflexões, é que ficou claro para o Estado brasileiro uma coisa que, de certa forma, é óbvia, mas que não estava tão institucionalizado e que o Brasil Sem Miséria transformou em legado. É a noção de que, independente da existência de grandes políticas universais em áreas como saúde e educação, se você não tiver um caminho diferenciado a população pobre não acessa os serviços públicos. Queremos creches para todos, mas se tivermos um caminho tradicional de universalização, os últimos a serem universalizados serão os mais pobres. Queremos a possibilidade de que todos façam tomografia, mas, pelos caminhos tradicionais, os mais pobres serão os últimos a fazer. E assim por diante…

Então, para construir uma agenda de equidade dentro de uma política de universalização é preciso ter um caminho diferente que faça com que os mais pobres sejam incluídos ao mesmo tempo em que os outros, que não sejam os últimos a serem atendidos. É preciso ter um caminho diferenciado para essa faixa da população ter acesso à creche, ao Mais Médicos, a uma escola em tempo integral, ao crédito, etc.

Sul21: E esse caminho diferenciado é também, ele próprio, uma política pública…

Tereza Campello: São várias políticas. O Brasil Sem Miséria construiu esse espaço. Todo mundo sentava à mesa para discutir, por exemplo, como fazer para que a escola em tempo integral chegasse aos mais pobres, como fazer para que as comunidades mais pobres não fossem as últimas a terem acesso a essa escola. A partir daí fomos construídos vários caminhos para atingir esse objetivo.

Sul21: Qual é o universo de pessoas que é objeto da busca ativa hoje? Quantas famílias ainda não tem acesso às políticas públicas do Estado brasileiro?



“O que melhor expressa a nossa ambição é aquela frase da presidenta Dilma na posse: nenhum direito a menos, nenhum passo atrás”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


Tereza Campello: A nossa estimativa é de um universo de 150 mil famílias, algo em torno de 600 mil pessoas. É muita gente ainda. Além disso, temos que fazer um esforço gigantesco para impedir que as pessoas que melhoraram de vida e que foram incluídas voltem à situação anterior de pobreza. Nós não podemos deixar que isso aconteça em hipótese alguma. O que melhor expressa a nossa ambição é aquela frase da presidenta Dilma na posse: nenhum direito a menos, nenhum passo atrás. É uma frase muito forte que afirma que não vamos recuar em direitos.

O Brasil Sem Miséria fechou um ciclo. Não que não existam mais pessoas a serem buscadas, mas cumprimos com todas as metas que havíamos definido para esses últimos quatro anos. Elaboramos um diagnóstico conjunto no governo, organizamos um conjunto de políticas, criamos um sistema de monitoramento, executamos e entregamos tudo, algumas coisas acima das metas fixadas e outras que nem estavam previstas.

Sul21: Como funciona esse processo de busca ativa na prática?

Tereza Campello: Ele ocorre de várias maneiras, pois o Brasil tem regiões e situações muito diferentes. Fizemos, por exemplo, alguns mutirões com barcos em reservas extrativistas na Amazônia, e encontramos pessoas muito pobres que ainda não havíamos localizado e que não tinham nem documentos. Chegamos a encontrar quatro gerações de uma mesma família sem qualquer documento, nem certidão de nascimento. Essa situação melhorou muito, pois o governo fez um esforço gigante, principalmente por meio do Ministério do Desenvolvimento Agrário com a política nacional de documentação de registro civil. Mais de um milhão de documentos foram emitidos com essa política. Nós contratamos a Marinha que acabou fazendo 120 lanchas que foram distribuídas a municípios da região Norte, com o objetivo de localizar essas famílias.

Também realizamos busca ativa em algumas regiões metropolitanas. Em São Paulo, por exemplo, aumentou muito o número de pessoas beneficiadas pelo Bolsa Família. Quando Fernando Haddad assumiu em São Paulo, essa busca passou a ser política da prefeitura. Aqui no Rio Grande do Sul tínhamos uma baixa cobertura também que melhorou bastante nos últimos anos. Houve mutirões aqui também. Em resumo, há diferentes formas de implementar a busca ativa. Foram sendo construídos desenhos adequados às diferentes realidades encontradas no país.

Sul21: Há um debate agora, no início do segundo governo Dilma, sobre os rumos da política econômica. Fala-se da necessidade de ajustes e de alguns cortes no orçamento da União. Esses ajustes e cortes representam, na sua avaliação, alguma ameaça para a continuidade das políticas sociais?

Tereza Campello: Não há risco de cortes de benefícios ou de serviços sociais. O que todo mundo vai ter que fazer é um esforço para diminuir gastos da máquina. Sempre é possível melhorar aí. Nós temos também mecanismos de controle dentro de nossos programas para localizar pessoas que estejam recebendo benefícios de forma indevida. Isso não tem a ver com o ajuste fiscal, mas sim com nosso esforço permanente para ter uma política cada vez mais eficiente, que chegue aqueles que mais precisam. Podem ocorrer algumas coisas que não têm nada a ver com cortes. Nós fizemos, por exemplo, 750 mil cisternas. Praticamente universalizamos as cisternas na região do Semi Árido. Ainda há cisternas a serem feitas, algo em torno de 50 mil por ano. Nós estávamos fazendo 50 mil a cada dois meses. Então se olharmos para o dinheiro disponível para cisternas, veremos que ele é muito menor do que já foi, mas isso se deve ao sucesso que tivemos no cumprimento de nossas metas.



“Hoje temos 14 milhões de famílias dentro de nosso radar. Nós sabemos onde essas famílias estão, criamos uma ferramenta no Brasil que é a nossa tecnologia social mais difundida no mundo”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


Sul21: A senhora tem qualificado, em algumas ocasiões, programas como o Bolsa Família como construtores de políticas e instrumentos de reforma do Estado brasileiro. Poderia detalhar um pouco mais essa qualificação?

Tereza Campello: Hoje temos 14 milhões de famílias dentro de nosso radar. Nós sabemos onde essas famílias estão, criamos uma ferramenta no Brasil que é a nossa tecnologia social mais difundida no mundo. Nós exportamos hoje essa ideia do cadastro único. Temos um espaço de registro que não serve apenas para pagar o Bolsa Família. Ele fornece informações sobre essas famílias e é alimentado por outras fontes também. Nós estamos alimentando o cadastro do Bolsa Família, por exemplo, com dados do Banco Central sobre microcrédito. Nos interessa saber se essas famílias têm acesso a crédito, não com o objetivo de fazer algum tipo de fiscalização, mas para poder criar outras ferramentas que possam auxiliá-las. Esse tipo de cruzamento de dados permite também um olhar mais apurado sobre os territórios onde essas famílias vivem e sobre possíveis oportunidades para melhorar a sua qualidade de vida.

Nós fizemos isso com o Mais Médicos. O novo decreto do programa repete esse mesmo desenho que permite, entre outras coisas, apontar onde há mais problemas para os médicos irem. Pegamos o mapa do Bolsa Família e colocamos sobre o território brasileiro, localizando as regiões onde havia posto de saúde e onde havia maior concentração de população pobre. Isso nos ajudou a definir as regiões onde a necessidade de médicos era mais urgente. Esse é um exemplo do que chamo de papel construtor de outras políticas desempenhado pelo Bolsa Família. Nós precisamos avançar agora em controle social.

Sul21: Por onde passa esse avanço?

Tereza Campello: Passa por várias coisas. Estou pensando muito neste tema agora. Considere o Bolsa Família, por exemplo. É um programa pulverizado, onde as famílias recebem o benefício. Há alguns elementos de transparência que nos ajudam com o controle público. Todos os beneficiários estão com o nome no Portal da Transparência. Quem quiser saber se o vizinho recebe Bolsa Família pode descobrir acessando esse portal. Esse é um passo importante que ajuda o controle social. Nós queremos que cada município tenha seu conselho de assistência social. Temos pressionado para que isso aconteça. Não é uma relação simples, pois temos entidades filantrópicas, gestores públicos, usuários e movimentos sociais com assento nesses conselhos. Mas é só assim que se constrói controle social, com as pessoas e entidades envolvidas sentando em volta de uma mesa e estabelecendo um espaço de diálogo. Um exemplo disso é o que vem acontecendo no Conselho Nacional de Assistência Social e no Conselho Nacional de Saúde onde temos, pela primeira vez, representantes da população de rua. São setores muito organizaram que se mobilizaram, criaram a sua institucionalidade e vem participando e cobrando o setor público
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“O nível de preconceito que emergiu na sociedade neste período pós-eleitoral é algo assustador”. Foto: Roberta Fofonka/Sul21


No Brasil Sem Miséria, nós fizemos seis diálogos com diferentes grupos da sociedade civil. Ouvimos críticas e sugestões antes de concluir o formato final do programa. Nós temos um espaço de diálogo e participação social muito forte, com gente muito qualificada e comprometida com uma agenda de avanço das políticas sociais. Agora, nenhum desses atores representa, de fato, aqueles mais pobres que geralmente não estão sindicalizados ou organizados em torno de alguma entidade. Então, nós temos um desafio colocado para o Estado e para os setores organizados da sociedade que consiste em ouvir a voz dessas pessoas. Hoje, ela começa a aparecer em tudo o que é lugar. Não é mais uma coisa esporádica. Agora, há muitos casos onde as pessoas não têm coragem de falar por conta do preconceito. O nível de preconceito que emergiu na sociedade neste período pós-eleitoral é algo assustador.

Sul21: Qual a sua avaliação sobre a crescente emergência dessas manifestações de preconceito contra setores mais pobres da população, vistas neste período mais recente?

Tereza Campello: Eu acho que piorou. Nós tivemos um período muito ruim do começo do governo Lula até 2005, 2006. Foi algo muito violento. Depois essas manifestações de preconceito diminuíram. Os raivosos pararam de falar e passaram a ficar envergonhados diante dos resultados muito efetivos que obtivemos. Hoje, mesmo com toda a tensão e radicalização verificada na última campanha eleitoral, a maioria da população brasileira é a favor do Bolsa Família. Cerca de 70% da população é favorável ao programa. O que muitas pessoas dizem é que não pode ser só isso, o que nós também achamos. Por isso temos o Pronatec, cursos de formação profissional, programas de crédito. O próprio Bolsa Família é também escola e educação.

O que piorou muito não está relacionado à media da opinião da população. O problema está entre aqueles setores mais reacionários que nutrem uma coisa racista contra os mais pobres. Essas pessoas passaram a ter coragem de expressar seus preconceitos mais abertamente. Saíram do armário. A impressão é que aumentou muito o número dos que são contra programas como o Bolsa Família, quando na verdade o que aumentou foi o número dos que têm coragem de falar esse monte de barbaridade, inclusive coisas que não têm a menor aderência com a realidade.

Recentemente tivemos o caso de uma jornalista que disse que os pobres só pensam em procriar. É um negócio inacreditável. A pessoa parece letrada, embora não deva ter ido muito longe para falar uma coisa dessas. Os dados sobre taxa de fecundidade no Brasil, hoje, são completamente conhecidos. A taxa de fecundidade brasileira caiu em todas as classes sociais e caiu muito mais entre os mais pobres, uma queda em torno de 50% acima da média nacional.

Então, não tem o menor cabimento as pessoas continuarem repetindo esse tipo de coisa. Por que repetem? Fico pensando nisso. Outra barbaridade que segue sendo dita é que a pessoa é pobre porque não trabalha. A pessoa é pobre porque é preguiçosa ou porque é uma perdedora, ou as duas coisas juntas. A verdade é que raríssimas pessoas que não se alimentaram bem na infância, que não tiveram oportunidades de formação e tiveram que começar a trabalhar muito jovens, conseguem posições melhores nas suas áreas. A violência dessas manifestações de preconceito constrange quem é pobre, pois difunde, entre as crianças, essa ideia de que a pessoa é pobre porque não trabalha, porque é preguiçosa.



“Tem gente que acha que, para uma família receber o benefício do Bolsa Família, basta ter as crianças matriculadas na escola. Não é isso. A criança tem que frequentar a escola e conferimos a cada mês se ela tem um mínimo de 80% de frequência.” Foto: Roberta Fofonka/Sul21



Sul21: Isso envolve, entre outras coisas, uma disputa cultural e simbólica. No início dessa entrevista, você se referiu a problemas de comunicação. Em que medida esses problemas contribuem para o problema do agravamento do preconceito? Caberia ao governo algum tipo de política nesta área?

Tereza Campello: Contra o preconceito eu acho que cabe sim. Acredito que a melhor arma contra o preconceito é a informação. Tem um monte de gente que repete essas barbaridades por que não tem informação. Ouve alguém falar, acha engraçadinho e sai repetindo a bobagem, que nem essa história dos “pobres gostam de procriar”. A pessoa que disse isso talvez não seja permeável a nenhum tipo de informação e de cultura. Mas, certamente, muita gente que leu essa bobagem sai repetindo sem saber o que está falando. Então, precisamos melhorar a nossa capacidade de transmitir informação clara e de qualidade para a população.

Tem gente que acha que, para uma família receber o benefício do Bolsa Família, basta ter as crianças matriculadas na escola. Não é isso. A criança tem que frequentar a escola e conferimos a cada mês se ela tem um mínimo de 80% de frequência. O nível de exigência sobre essa família é forte e positivo para o país, pois visa garantir a permanência dessa criança na escola. Por maiores problemas que tenha a escola, nela a criança tem acesso a um ambiente mais organizado, ao convívio com outras pessoas, tem acesso à informação, e está fora da rua e do trabalho infantil.

Perguntei em um programa de rádio do qual participei recentemente quantas crianças temos na escola hoje no Brasil. Ninguém soube responder. São 17 milhões de crianças. Esse número aumentou muito graças também ao Bolsa Família. Esse é o tipo de informação que eu acho que tocaria muita gente. Por mais conservadora que a pessoa seja, se ela souber que o Bolsa Família tem esse impacto sobre a saúde e a educação das crianças, pode mudar sua visão.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Se as rosas falassem


Divino Cartola



Entre sumiços e retornos triunfais, a trajetória do poeta da Mangueira, nascido há mais de cem anos, ilustra a história do samba no Brasil


Por Maurício Barros de Castro




A história é famosa. Numa noite de meados dos anos 1950, o jornalista Sérgio Porto, que também assinava como Stanislaw Ponte Preta, entrou em um bar em Ipanema para comprar cigarros. Levou um susto ao dar de cara com uma lenda do samba que acreditava já ter morrido. Debruçado no balcão estava Cartola, ilustre compositor que desaparecera do meio musical havia muitos anos. Sérgio Porto teve a imediata consciência de que aquela era uma descoberta histórica – afinal, ele era sobrinho de Lúcio Rangel, o jornalista que tinha apelidado Cartola de “Divino”.
A trajetória do poeta da Mangueira é repleta de episódios como este. Entre períodos de ostracismo e de sucesso, sua vida ilustra a história do samba no Brasil. E com um final feliz.
O menino Angenor de Oliveira nasceu no dia 11 de outubro de 1908 no Catete, Zona Sul do Rio de Janeiro, e até os 11 anos teve uma infância confortável no bairro vizinho, Laranjeiras. Seu avô era cozinheiro do então vice-presidente Nilo Peçanha (1897-1924). O pai do futuro sambista, Sebastião de Oliveira, tocava cavaquinho, e sua mãe, Aída de Oliveira Gomes, era uma dedicada foliã. No carnaval, a família saía no Rancho dos Arrepiados, que desfilava no bairro. Suas cores: verde e rosa.
Com a morte do avô em 1919, os pais de Cartola foram em busca de um lugar mais barato para viver com seus sete filhos. Mudaram-se para o Morro da Mangueira, na Zona Norte, que na época não tinha mais do que cinqüenta barracos, indo morar no “Buraco Quente”, travessa cujo nome oficial é Saião Lobato, onde os sambistas se reuniam para cantar nos botequins. Ali Cartola começou a conviver intensamente com o universo da cultura negra do morro, participando das rodas de samba e de batuque, um jogo de pernadas praticado pelos bambas e valentes.
Logo tornou-se grande amigo de Carlos Cachaça (1902-1999), que viria a ser seu principal parceiro. Como era mais novo, Cartola o seguia pelos becos e vielas da Mangueira, desbravando seus mistérios e segredos. O apelido que o consagrou surgiu no ambiente de trabalho. Vaidoso, em seu ofício de pintor Angenor usava um chapéu-coco inseparável para se proteger da tinta que caía sobre sua cabeça. O trabalho, porém, não estava entre suas maiores paixões. Vivia mesmo era para o samba e o carnaval.
Com outros jovens sambistas, fundou em 1925 o Bloco dos Arengueiros. O grupo não só fazia música, mas também promovia arruaças por onde passava, desafiando até a polícia. Se por um lado eles eram temidos pelos moradores da Mangueira, por outro eram respeitados como ritmistas. Cartola percebeu que o potencial dos arengueiros deveria ser canalizado somente para o samba, deixando de lado as brigas e confusões. Foi quando surgiu a idéia de criar uma escola de samba.
A fundação da Estação Primeira de Mangueira aconteceu em 1928, numa casa do Buraco Quente, reunindo sete antigos arengueiros: Saturnino Gonçalves, Massu, Zé Espinguela, Euclides dos Santos, Pedro Caim, Abelardo Bolinha e o próprio Cartola. A ele coube escolher as cores e o nome da escola. Em homenagem ao Rancho dos Arrepiados de sua infância, decidiu que o estandarte seria verde e rosa. E “Estação Primeira” se explica pelo fato de que a Mangueira era a primeira parada do trem que partia da Central do Brasil em direção à Zona Norte, onde o samba era forte.
Com apenas 20 anos, Cartola era um respeitado mestre de harmonia da escola. E já vivia sozinho: perdera a mãe em 1926, e em seguida o pai, desgostoso, abandonara o morro. Cartola só o reencontraria trinta anos mais tarde, chegando a morar com ele em Bento Ribeiro. Seu Sebastião teria tempo de assistir ao sucesso do filho antes de falecer, em 1977.
Sem pai nem mãe, o jovem Cartola tornou-se desde cedo dono de seu próprio nariz e desfrutava a animada vida noturna do morro. Mas como os excessos da boemia às vezes cobram sua fatura, certo dia ele caiu doente. Para sua sorte, Deolinda, a vizinha da casa ao lado, teve compaixão do rapaz enfermo e passou a visitá-lo todos os dias. Com o tempo, acabou se apaixonando pelo poeta sambista. O problema é que Deolinda era casada, e foi preciso expulsar o marido de casa para poder assumir o novo amor. Em pouco tempo, toda a família da nova esposa de Cartola mudou-se para seu barraco.
Conhecidos como a época de ouro da música brasileira, os anos 1930 começaram bem para Cartola. Com o surgimento do rádio comercial em 1932, o samba passou a ser cada vez mais valorizado pelo mercado. Naquele mesmo ano, seu primo, o guarda civil Clóvis, o procurou para dizer que o famoso cantor de rádio Mário Reis queria comprar um de seus sambas. Na época, essa era uma prática comum. Intérpretes compravam canções e depois assinavam como compositores, ocultando o nome dos verdadeiros autores. Eram os chamados “comprositores”. Cartola não tinha como recusar. Passou então a vender seus sambas, mas exigia que seu nome constasse no disco como autor.
Foi a década em que Cartola se consagrou como compositor, gravado pelos principais cantores do país. Sua composição mais famosa dessa época foi “Divina Dama”, que Francisco Alves gravou em 1933 e lhe rendeu o apelido dado por Lúcio Rangel. Os versos diziam: “Tudo acabado / E o baile encerrado / Atordoado fiquei / Eu dancei com você divina dama / Com o coração queimado em chama”.
O maestro Villa-Lobos (1887-1959) foi responsável por outro episódio inusitado vivido por Cartola, que lhe garantiu a oportunidade de gravar, pela primeira vez, suas composições com a própria voz. A Segunda Guerra Mundial já havia começado e, buscando apoio dos países latino-americanos, os Estados Unidos puseram em prática a chamada política da boa vizinhança. Em 1940, atracou no Brasil o navio Uruguai, que trazia a bordo o maestro inglês Leopold Stokowski. Além de fazer duas apresentações no Rio de Janeiro, o regente reuniu no navio artistas populares, trazidos por Villa-Lobos, com o intuito de fazer gravações para o Congresso Pan-Americano de Folclore. Cartola estava entre os compositores escolhidos e gravou quatro sambas no disco “Columbia presents – native Brazilian music – Leopold Stokowski”, lançado nos Estados Unidos pouco tempo depois.
Mesmo assim, ele não conseguia se sustentar como compositor. Ainda que mantivesse seu nome como autor nos discos, vendia os sambas por pequenas quantias para os cantores do rádio. O sambista continuava vivendo de biscates, pintava paredes, trabalhava como pedreiro, vendia picolé, entre outros trabalhos. A situação piorou em 1946, quando contraiu uma meningite que o impediu de trabalhar e compor. Mais uma vez, Deolinda cuidou da sua saúde até ficar curado, mas foi o coração da esposa de Cartola que não resistiu: no mesmo ano, ela sofreu um infarto e faleceu.
Desamparado, Cartola entregou-se a Donária, uma paixão destrutiva. Por causa dela, o sambista deixou a Mangueira, o violão, e foi morar no Caju. O amigo Carlos Cachaça era um dos poucos que iam visitá-lo no exílio e tentava trazê-lo de volta, sem sucesso. Quem conseguiu repatriá-lo par a Mangueira foi Euzébia Silva do Nascimento (1913-2003), mais conhecida como Zica. Após o fim do relacionamento conturbado de Cartola com Donária, ela conquistou seu coração.
Cartola começou a ensaiar seu recomeço no início da década de 1950. Mas o samba tradicional perdera espaço no mercado. Estavam na moda agora o bolero e a chamada música de fossa, cantada nas boates de Copacabana. Por este motivo, o compositor foi trabalhar num posto de gasolina em Ipanema. Foi nesta situação que ocorreu o encontro com Sérgio Porto. O jornalista tentou reintegrá-lo ao ambiente musical, arrumou para ele um emprego na Rádio Mayrink Veiga, mas a programação da emissora não favorecia sua arte.
Em 1961, Cartola saiu da Mangueira com Zica e seu filho Ronaldo para morar e trabalhar como zelador na Associação das Escolas de Samba, no Centro da cidade. O lugar foi palco de várias rodas de samba, que contavam com a presença de antigos amigos do compositor, como Lúcio Rangel, Lan e Ary Barroso. Também costumavam aparecer por lá um jovem empresário chamado Eugênio Agostini e seus primos, apresentados ao sambista por seu parceiro Nuno Veloso, que, apesar de integrar a Ala de Compositores da verde-e-rosa, era louro, tinha olhos azuis, formação universitária e vinha de uma família abastada.
Como o casarão da Associação das Escolas de Samba estava prestes a ser demolido, Agostini propôs a Zica alugar um espaço onde ela pudesse vender sua comida, e que também servisse de moradia para o casal. Dessa proposta surgiu o mítico Zicartola. A casa de samba funcionou num sobrado da Rua da Carioca, 53. Além de ter influenciado a criação do espetáculo “Opinião” e servir de palco para as primeiras apresentações profissionais de Paulinho da Viola, o lugar foi fundamental para o ressurgimento de sambistas esquecidos. Na casa se apresentaram Nelson Cavaquinho, Ismael Silva e outros velhos bambas. No sobrado também foi realizada a festa de casamento de Cartola e Zica, em 1964.
Apesar de todo o sucesso, o Zicartola funcionou somente entre 1963 e 1965. Após a saída do sócio Agostini, o casal não conseguiu administrar a casa de samba. Deixaram a Rua da Carioca e voltaram para a Mangueira. Mas o Zicartola teve o mérito de trazer de novo à tona o nome do sambista, permitindo que em 1974 ele finalmente produzisse seu primeiro disco solo, pela gravadora do publicitário Marcos Pereira. O sucesso foi estrondoso. Lançou em seguida outro LP pelo mesmo selo, alcançando igual repercussão. Nesse período, surgiram duas composições que se tornariam grandes clássicos: “As rosas não falam” e “O mundo é um moinho”.
Ainda que tardio, o reconhecimento foi importante para que Cartola pudesse viver os últimos anos de sua vida com conforto ao lado de Zica, sua família e seus amigos. Cansado do assédio constante, deixou a Mangueira pela última vez e foi morar em Jacarepaguá. Angenor de Oliveira morreu em 1980, aos 72 anos, longe de sua escola do coração. O que não impediu que fosse lembrado para sempre como o Divino Cartola, mestre da verde-e-rosa.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

o capital não olha donde vem ou vai


O tráfico e a crise econômica na Rocinha

Do Extra / O Globo

Livre do tráfico, Rocinha entra em crise econômica

O faturamento de Ana Claudia caiu de R$ 6 mil para R$ 3 mil mensais O faturamento de Ana Claudia caiu de R$ 6 mil para R$ 3 mil mensais Foto: Roberto Moreyra
Danielle Moitas, Fabiana Paiva e Mario Campagnani
Na noite de 12 de novembro, Ana Cláudia, de 36 anos, foi dormir com o coração cheio de esperança, como qualquer morador da Rocinha. Dois meses após a ocupação policial, ela tenta se equilibrar:
— O faturamento caiu pela metade, e ainda pago mil reais de aluguel. Não pensei que a ocupação afetaria o movimento. Duas manicures deixaram o salão e dispensei uma pessoa que trabalhava na minha casa.
vimento a que ela se refere diminuiu por conta da proibição de bailes na comunidade, que ainda não têm data para voltar a acontecer.
Para garantir o pagamento das contas, ela baixou os valores cobrados pelos serviços no salão. O preço da escova progressiva caiu de R$ 100 para R$ 75.
— Até pensei em voltar para o asfalto, mas vou esperar. É uma fase de adaptação — acredita Ana Cláudia, que já pensa em vender bijuteria e lingerie no salão Shalon para aumentar a receita do estabelecimento.
Os dias também são de incerteza para Rosângela Jesus Silva, de 48 anos. Dona do Isabella’s Coiffeur, na Via Ápia, principal rua de comércio local, ela acreditava que a freguesia aumentaria após a ocupação. Hoje, chora ao lembrar que há dias em que atende apenas uma pessoa. A média diária era de 30 clientes.
— Aos sábados, fechava à meia-noite. Essa semana, fui embora às 21h. Aos poucos, vejo meu sonho acabar — diz, com lágrimas nos olhos.
Dona do salão há oito anos, ela procura alternativas.
— Já pensei em levar a loja para Rio das Pedras. Mas vou procurar um ponto na rua. Ficar no segundo andar pode estar atrapalhando — planeja a comerciante.
A crise na Rocinha não se restringe a salões de beleza, nem aos exageros do choque de ordem. Parte dos R$ 10 milhões que o tráfico lucrava mensalmente circulava no comércio local. Esse dinheiro evaporou da noite para o dia. Além disso, os moradores passaram a arcar com os custos da legalização, como o da TV a cabo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Especulação Imobiliária: o preço da pacificação?

Especulação imobiliária
Os retirantes das favelas


Escrevinhador


Os retirantes das favelas
Por Rodrigo Martins e Willian Vieira, da CartaCapital

Por dez anos a manicure Débora Silva Ramos, de 23 anos, subiu e desceu as ladeiras da Rocinha atrás de uma vida melhor. E aos poucos viu chegar o asfalto, a iluminação pública, arremedos de saneamento. Mas a melhora lhe saiu caro. Do casebre de um quarto, banheiro e cozinha americana voltada para um claustrofóbico corredor, ela e o marido, o pizzaiolo Fábio de Jesus, de 33 anos, viram o custo de vida na favela mais famosa do Rio de Janeiro disparar. Em agosto, partiram dali para viver em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, em uma casa com sala ampla, cozinha “de verdade” e uma aprazível varanda. Têm agora mais espaço pelo mesmo aluguel de 300 reais. Com 50 reais de compras, passam a semana. “Nas biroscas da Rocinha ou nos supermercados da zona sul, o dinheiro não rendia”, diz Débora. Mas tudo era perto, admite saudosa. Hoje o marido precisa de duas horas, dois ônibus e um metrô para chegar ao serviço, quando antes levava meia hora. A casa está 40 quilômetros mais longe. “O que não dá é morar na zona sul e ter um padrão de vida incompatível.”

Isso porque o casal saiu antes da ocupação da favela pelas chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), em novembro. A ação, que já ocorreu em outros morros da zona sul, tem selado o processo de transformação das favelas cariocas, que traz, com a mudança da qualidade de vida, o aumento também do custo de vida. Com a urbanização, fruto de ações nas três esferas de governo, e a presença das UPPs, o que vem junto da infraestrutura e da segurança é uma tributação extra e inédita sobre os moradores. Contas de água, luz e tevê a cabo passam a ser cobradas. É o fim do gato, meio-termo entre conquista de serviços sem conquista de direitos. Como parte da população não tem condições de pagar por esses serviços, com a legalização trazida pela transformação da favela “em bairro”, eles acabam baixando o nível de vida. Ou deixam a favela. Ocorre assim uma remoção camuflada, já que as pessoas migram para locais afastados dos grandes centros.

Uma pesquisa recente da Fundação Getulio Vargas mostrou que o valor dos aluguéis nas favelas cariocas subiu 6,8% mais que no resto da cidade desde a implementação das UPPs, em 2008. Segundo Marcelo Neri, coordenador da pesquisa, esse já seria o chamado “efeito UPP”: o impacto econômico da paz trazida pela substituição do ritmo do tráfico pelo papel oficial da polícia. E há o que os especialistas chamam de “efeito olímpico”: investimentos públicos nas favelas próximas às áreas onde ocorrerão os jogos trazem uma urbanização mais intensa e mais aumento no custo de vida. O caso é especialmente nítido na Rocinha. O estudo, que comparou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2007 e 2009, prevê que a valorização dos aluguéis seja maior justamente na favela deixada por Débora e Fabrício. Isso devido à pressão imobiliária. Sem o tráfico, pessoas acostumadas a viver em bairros convencionais estão dispostas a morar em favelas “pacificadas” e bem localizadas.

“A conta de luz foi um baque. Todo mundo tinha gato e agora tem de pagar 80, 100 reais por mês. Quem recebe Bolsa Família tem desconto, mas é baixo”, reclama Elisete Napoleão, 46 anos, coordenadora do projeto Corte Arte, que capacita costureiras no Morro do Cantagalo, cravado entre os abastados bairros de Copacabana e Ipanema. “Muita gente de fora vem morar aqui, além dos estrangeiros que fazem turismo. O custo das coisas disparou. No supermercado o preço é o mesmo, não importa se eu moro na favela ou se sou uma madame da Avenida Atlântica ou da Vieira Souto.” Elisete entrega-se a um desabafo que explica a ansiedade dos moradores das favelas com a melhora trazida pela urbanização. “Aos poucos, desaparecem as opções mais populares, como a Casas da Banha. Ninguém recebeu ainda o título de propriedade da terra, mas já se fala em cobrança de IPTU, como se aqui fosse um bairro comum.”

Cantagalo, cravado entre os abastados bairros de Copacabana e Ipanema. “Muita gente de fora vem morar aqui, além dos estrangeiros que fazem turismo. O custo das coisas disparou. No supermercado o preço é o mesmo, não importa se eu moro na favela ou se sou uma madame da Avenida Atlântica ou da Vieira Souto.” Elisete entrega-se a um desabafo que explica a ansiedade dos moradores das favelas com a melhora trazida pela urbanização. “Aos poucos, desaparecem as opções mais populares, como a Casas da Banha. Ninguém recebeu ainda o título de propriedade da terra, mas já se fala em cobrança de IPTU, como se aqui fosse um bairro comum.”

Ao menos para o setor privado, as favelas “pacificadas” têm mesmo virado bairros comuns. Para a Light, a ocupação policial de comunidades antes controladas pelo tráfico foi um tônico para os negócios. Sem a presença de criminosos armados impedindo a atuação dos técnicos, a empresa conseguiu reduzir em 90% as ligações clandestinas em cinco favelas com UPPs. Moradores reconhecem que o atendimento melhorou, mas o custo é elevado e, muitas vezes, inédito. “Quando trabalho na máquina overloque fico pensando no ‘reloginho’ da luz girando. Ganho mil reais por mês, mas gasto mais de 100 reais só com a conta de luz”, lamenta a costureira Sônia Regina Sousa, de 50 anos, nascida e criada no Cantagalo, mas já assustada com o fantasma que ronda o local: a mudança forçada pelo bolso. “Tive de cobrar mais dos meus clientes, tudo ficou mais caro. Não sei se vou aguentar. Minha vizinha já se mudou para Caxias.”

A retirada do tráfico aumenta a arrecadação privada e, via impostos, teoricamente, do Estado, o que supriria os gastos com a segurança. Em tese todos ganhariam, mas nem todos os moradores conseguem pagar o preço da paz. “Pois, tão logo o morro é ocupado pela polícia, vem uma avalanche de empresas para acabar com os gatos e vender produtos”, diz o rapper Mc Fiell, presidente da rádio comunitária do Morro Santa Marta. Ele vê interesses parti-culares nas intervenções nas favelas. “Surgem pousadas, hostels e até baladas para a classe média, mas seguimos com barracos de madeira, esgoto a céu aberto e sem escola. Que morador da favela tem condições de pagar 50 reais para entrar numa festa?”

Não é falta de investimento público. Segundo o Ministério das Cidades, só com a primeira etapa do Programa de Aceleração do Crescimento para intervenções em favelas, 23,5 bilhões de reais terão chegado a 1,8 milhão de famílias, em ações integradas de construção e melhora de habitações, saneamento, infraestrutura, equipamentos públicos, regularização fundiária. Entre 2011 e 2014 devem ser investidos mais 30,5 bilhões de reais. O governo estima em 1,8 milhão as famílias atendidas. Só nas favelas do Rio, 210 mil delas foram beneficiadas por mais de 2,5 bilhões de reais em investimentos. Em São Paulo, 3,8 bilhões para 230 mil famílias. O governo do Rio também tem aplicado recursos próprios. Assim que a Rocinha foi ocupada, o governador Sérgio Cabral anunciou 100 milhões de reais para investir na urbanização da região, com direito a creche e até elevador.

“A dúvida que fica é se essas melhoras nos morros cariocas vão beneficiar a população local ou se, ao contrário, vão forçar as famílias mais pobres a saírem e favorecer quem está chegando agora”, avalia o ator Babu Fernandes, morador do Vidigal. “O problema é a ausência de um projeto democrático de cidade. Sobra aos pobres o espaço desprezado pela lógica imobiliária, sem se levar em conta memória, identidade, espaços para a diversidade”, afirma Jaílson de Souza e Silva, coordenador do Observatório das Favelas, para quem tanto a academia quanto a mídia em geral têm negligenciado o fenômeno da “remoção branca” dos pobres para as periferias.

Além do encarecimento do custo de vida, muitas famílias estão ameaçadas de remoção por causa de obras de urbanização das favelas ou por viverem em áreas de risco. Neste caso, o temor dos moradores é que eles sejam reassentados em bairros distantes. “Não é segredo para ninguém que a paisagem dos morros cariocas é espetacular. Moro no topo do Santa Marta e tenho 180 graus de vista sem interrupção, do Dedo de Deus ao Corcovado, passando pela Baía de Guanabara. Nunca houve deslizamento de terra aqui, mas querem nos retirar a qualquer custo”, afirma o guia de turismo Vítor Lira, de 30 anos.

Ao todo, 52 famílias do Santa Marta receberam ordem de despejo, sem saber onde serão reassentadas. “Dizem que vão oferecer moradia dentro da favela, mas nada está certo. Indenização não quero. A mixaria que pagam não dá nem para comprar um barraco de madeira”, comenta Emílio Marcos Maximiliano, de 33 anos, que ganha a vida fazendo reparos em quadras de tênis. Ele vive com a esposa e três filhos num sobrado que tem vista privilegiada para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Não à toa, o custo de vida aumentou. “Os preços estão inflacionados. Tem muito turista circulando por aqui, comprando ou alugando casas.”

O aposentado Ivan Cerqueira Nascimento, de 62 anos, há 40 morador do Cantagalo, confirma a presença dos novos “migrantes” do morro. “Um americano se dispôs a pagar 3 mil reais de aluguel pela minha casa, para transformá-la num ponto turístico”, diz. Do terraço vê-se a orla de Copacabana e Ipanema. Dentro, a casa tem suíte, copa, cozinha, dois banheiros, área de serviço e um bem cuidado jardim. Casa erguida com o suor de décadas de labuta como motorista, ela pode em breve estar nas mãos de outros. “Gostaria de passar o fim da vida aqui, mas com uma oferta como essa posso levar uma vida confortável em Nova Iguaçu ou Madureira.” Longe.

Os casos multiplicam-se. Moradores relatam que um banqueiro alemão teria comprado 70 imóveis no Vidigal. Apesar dos riscos, o austríaco Andreas Wielend, de 33 anos, decidiu investir 100 mil reais para comprar e reformar dois sobrados, ora convertidos em hostels (hospedagens de baixo custo para viajantes) no topo da comunidade. “No réveillon e no carnaval, tenho 30 hóspedes agendados com meses de antecedência”, comemora. As diárias nos dormitórios do hostel de estilo rústico custam de 20 a 30 reais. O aluguel dos quartos particulares varia de 50 a 90 reais por dia. Ele ainda promove festas que reúnem mais de 500 pessoas, o que fez do lugar uma referência para cariocas de classe média descolados e ponto de encontro de estrangeiros residentes no Rio. “Se me oferecessem 400 mil reais pelo meu hostel, não venderia. Meu investimento teve um retorno de 400% em um ano.”

Um dos hóspedes, o antropólogo americano Jason Scott, de 27 anos, decidiu passar as férias no Rio de Janeiro. Ficou tão encantado que resolveu parar suas pesquisas pela Universidade do Colorado e passar um ano sabático no Brasil. Acaba de alugar uma casa no morro por mil reais com um amigo. “Escolhi viver no Vidigal porque aqui, além de ter uma vista maravilhosa, é como uma aldeia, onde todos se conhecem.” Sem violência e perto de tudo, a favela vira um prato cheio para estrangeiros. Há um ano no morro, a estudante de relações internacionais Johanna Hoffman, de 21 anos, não teria condições de viver na zona sul da cidade se não alugasse uma casa no morro. “Muitos amigos recriminaram a minha escolha, acham perigoso. Mas nunca tive problemas.”

Na avaliação de urbanistas, a expulsão de famílias pobres para a periferia das cidades não é consequência apenas do aumento do custo de vida ou do aquecimento do mercado imobiliário. Deve-se também à fragilidade das políticas habitacionais. Em novembro de 2011, o pesquisador Fabrício Leal de Oliveira, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, ligado à UFRJ, apresentou dados preocupantes sobre a oferta de moradia popular no Rio durante um seminário. No centro e na zona sul da cidade, praticamente inexistem opções para famílias que ganham até três salários mínimos, ao passo que o afastado bairro de Santa Cruz concentrava 62% dos imóveis do programa Minha Casa Minha Vida para moradores com esse perfil de renda (gráfico à pág. 38).

“Isso significa que o poder público está estimulando a segregação da pobreza na periferia, onde não existe cidade. Áreas sem infraestrutura nem oportunidades de emprego”, afirma Raquel Rolnik, urbanista da Universidade de São Paulo e relatora especial das Nações Unidas para a moradia adequada. “Há muitos instrumentos para evitar isso. O governo pode delimitar áreas de interesse social nos bairros mais bem localizados, com limites bem definidos do tamanho e do porte das residências, ou mesmo subsidiar o aluguel das famílias pobres.” A urbanista lembra que ainda existe uma distribuição relativamente harmônica entre diferentes classes sociais em todos os bairros cariocas, mas isso corre o risco de não existir mais. “Ao varrer a pobreza para a periferia, só agravaremos as tensões sociais e os problemas urbanos, como o transporte de trabalhadores da periferia para o centro e o aumento desordenado da demanda por escola, hospitais e demais serviços públicos em áreas afastadas da cidade. É o mesmo erro que São Paulo tem cometido historicamente. Estão ‘paulistanizando’ o Rio.”

A comparação da urbanista é pertinente. Há décadas, a capital paulista tem removido à força favelas para a construção de grandes obras públicas. As famílias são -reassentadas em bairros cada vez mais afastados. Uma das poucas comunidades que sobreviveram em uma região valorizada é a Favela Paraisópolis, localizada ao lado do rico Morumbi. Mas também lá a valorização imobiliária e o encarecimento do custo de vida têm imposto obstáculos à permanência de famílias de baixa renda.

Verdade que as mais de 60 mil famílias que lá vivem desfrutam de uma infraestrutura crescente, com ONGs, escolas, postos de saúde, bibliotecas, postos de gasolina. Aqui e ali abrem novas clínicas odontológicas, locadoras, lavanderias, academias de ginástica. A agência bancária, a imobiliária congestionada, a abarrotada filial das Casas Bahia, a agência de compras de passagens aéreas por boleto e novas lojas de varejo surgem a cada dia. Juntos, os empreendimentos dão uma ideia mais ampla da nova configuração urbana da favela mais valorizada de São Paulo, onde o metro quadrado em ruas de comércio chega a se equiparar ao da rica região dos Jardins.

E não são apenas o crescimento da economia e o aumento da classe C os responsáveis pelo boom. O poder público tem investido pesado na urbanização da área, cara ao mercado imobiliário, de olho no valioso entorno. O asfalto já cobre as ruas principais. Com dinheiro das três esferas de governo está prevista a construção de 1,6 mil moradias populares. Parte delas já foi entregue aos moradores.

Mas isso tudo vem com um custo pesado para muita gente. Há cerca de dois meses, ao discursar na inauguração de um primeiro condomínio, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, prenunciou a transformação da favela em bairro civilizado. “A urbanização, as moradias novas, segurança, não tem área de risco, tem escolas, Etec, centro comunitário, uma cidade, né? Paraisópolis é uma cidade caprichada.” Mas tocou no ponto nevrálgico: a carestia. “O dinheiro do aluguel é sofrido, né? Eu perguntava aqui para o José Rolim quanto é um aluguel aqui. Quanto é um aluguel aqui em Paraisópolis, 300, 400, 500 reais?”

“Por isso, quem tem seu imóvel em Paraisópolis não quer vender porque está valorizando cada vez mais e a estrutura do bairro, melhorando”, diz Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores de Paraisópolis. “Mas o mesmo não vale para quem paga aluguel.” A vice da organização concorda. “Quem pagava 200 -reais até poucos anos hoje está pagando 500 -reais e ainda periga aumentar”, diz Neusa Vicente. Pois, além do investimento, há o processo de regularização das terras. Duas mil famílias receberam o título de propriedade dos imóveis, e logo passaram a pagar IPTU. “Alguns não conseguem pagar. Eles não estão acostumados com esse gasto a mais”, diz Rosa Richter, ex-diretora do Conseg do Morumbi. “Tanto alguns migram para fora do bairro, especialmente os que não conseguem emprego, quanto muitos migram para dentro do bairro. Com a urbanização, não falta gente querendo se cadastrar para morar numa das unidades da prefeitura. E ficam tristes ao saber que elas são somente para os moradores antigos já cadastrados. E como há empregadas pedindo pelo amor de Deus para conseguirem um apartamento e morar perto das patroas.”

O maior fenômeno imobiliário da região assina embaixo. “A gente está vendo na pele dos outros. Depois que a prefeitura entrou, chegaram empresas, o aluguel explodiu. Um imóvel com dois cômodos e banheiro, há cinco anos se alugava por 150 reais. Hoje, alugo por 380”, diz Helena dos Santos, dona de uma imobiliária em Paraisópolis.

“Em relação à simples remoção, o processo de urbanização já é um avanço”, diz a urbanista Mariana Fix, especialista em favelização. “Mas, claro, há modos diferentes de fazer urbanização de favela, desde o que trabalha apenas com a legalização da terra e colocação dela no mercado até o que propõe ações habitacionais mais inclusivas.” Não que a urbanização promovida pelo poder público seja ruim. Há décadas carentes de investimento, favelas como Rocinha e Paraisópolis anseiam por melhorias. Mas é preciso olhar com atenção para quem acaba à margem da panaceia urbanizadora.

“O bairro está uma maravilha”, diz o otimista José Manoel Brizola, membro do Conselho Gestor de Urbanização de Paraisópolis. “Mas, se a prefeitura não resolver a falta de moradia, as pessoas que moram aqui há muito tempo não poderão pagar aluguel, conta de água, com o preço do jeito que está. Do contrário, cada vez mais pessoas vão abandonar o bairro.”



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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

que horrrroooor! o brasileiro tem memória!!!!!!!!!!!!


Natal do FHC x Natal do Lula. Que horror !

Conversa Afiada





O Conversa Afiada reproduz comentário do amigo navegante João Henrique, enviado ao post“Classe C: Casas Bahia elogia e a Folha (*) diz que é uma invenção do Nunca Dantes”:


João Henrique

Na decáda de 90 eu fui criança e adolescente, nos natais e ano novo não havia troca de presentes, não havia peru, não havia churrasco, mas sim frango assado (lembram de que “ele” nos mandou comer frago?) e um pernilzinho, refrigereco, vinho só chapinha… não havia consumo, havia uma tradição vinda da “roça”…

Na decáda da esperança tudo mudou, todos dão presentes a todos… tem peru, tem chester, tem leitoa, tem picanha, tem vinho chileno e argentino, tem refrigerante, tem cerveja como se fosse água, tem carro novo, tem geladeira nova, tem fogão novo, tem roupa nova, tem notebook, tem smartfone, tem rojão à vontade… tem ceia na casa de todos, pois todos agora podem… essa é a palavra que resume um governo trabalhista : poder.

Eu posso, você pode, nós podemos consumir, sim hoje nós, classe C, podemos comprar nossos mais humildes sonhos, porque hoje nós temos emprego e renda, o resto a gente compra.

NAVALHA



Que horror !



Paulo Henrique Amorim



(*) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é, porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.