terça-feira, 27 de agosto de 2013

da xenofobia ao racismo é um pequeno passo


Médicos cubanos são hostilizados em aula inaugural em Fortaleza

Germano Ribeiro | 21h24 | 26.08.2013

Médicos cubanos são hostilizados em aula inaugural em Fortaleza

Diário do Nordeste



Os 95 médicos estrangeiros que iniciaram nesta segunda-feira (26) o treinamento do programa Mais Médicos em Fortaleza foram hostilizados por cerca de 50 profissionais cearenses da área que faziam uma manifestação na entrada da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP-CE), no Meireles. O alvo do protesto era o grupo de 79 médicos de Cuba que farão o curso. Na saída, os estrangeiros e as autoridades foram vaiadas, xingadas e provocadas pelos manifestantes. 


Com início do protesto, as portas da ESP-CE foram fechadas. Apenas os participantes do evento e a imprensa puderam entrar. A atitude revoltou os médicos cearenses, que batiam nos vidros da entrada do local. “Estão nos tratando como marginais”, disse o presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec), José Maria Pontes. Com palavras de ordem, o grupo exigia que os estrangeiros fizessem o Revalida, exame destinado aos médicos que obtiveram diploma no exterior e querem atuar no Brasil.

Após a solenidade de abertura do treinamento, todas as saídas da escola foram cercadas, impedindo a saída dos participantes por cerca de uma hora. A Polícia Militar solicitou que os médicos cearenses liberassem a saída. O presidente do sindicato pediu para os colegas formarem um corredor para vaiar os cubanos e as autoridades. “Os médicos não são violentos. Vaia não é violência e eles vão receber a maior vaia da vida deles”, disse José Maria Pontes.

Quando as portas abriram, além da gritaria houve insultos aos estrangeiros, acusados de virem ao Brasil para fazer um trabalho escravo. O secretário de Gestão Estratégica e Participativa doMinistério da SaúdeOdorico Monteiro, foi o mais vaiado e recebeu ofensas pessoais de alguns médicos cearenses.

Veja o vídeo do momento da saída dos médicos cubanos:


Outras 15 pessoas foram ao local com bandeiras de Cuba e do Movimento dos Sem Terra (MST) em apoio aos cubanos. Quando questionados sobre qual movimento representavam, um deles disse: “somos de todos os movimentos. Somos a favor de Cuba. Podem falar mal de todo mundo, menos de Cuba”. Houve um momento de tensão entre eles e alguns médicos. Após a troca de insultos, os dois grupos se separaram.

Presidente do Simec diz que governo oficializa o trabalho escravo; médico cubano nega
Segundo José Maria Pontes, os médicos cubanos não estão preparados para atender os brasileiros porque aquele país realiza uma “produção industrial” de profissionais. Pontes disse ainda que os colegas de Cuba não podem trabalhar no país de origem. “Todas as pessoas formadas na ELAM, Escola Latino-americana de Medicina, não podem exercer a medicina em Cuba”, afirmou. Entretanto, durante a solenidade de acolhimento, a superintendente da ESP-CE, Ivana Barreto, afirmou que todos os médicos do programa possuem mais de 10 anos de experiência.

O presidente do Simec acusou o governo federal de estar oficializando o trabalho escravo, pois “a pessoa vem com uma bolsa, não tem direito trabalhista, não tem direito a Fundo de Garantia, férias, hora extra, nada”. Durante a saída, os manifestantes também chamaram os cubanos de escravos aos gritos. José Maria Pontes chegou a afirmar que os profissionais de Cuba não poderiam dar entrevista.

O médico cubano Juan Hernandez negou a acusação de estar realizando um trabalho escravo. Com 24 anos de experiência, o especialista em medicina familiar disse que não estava no país para ganhar muito dinheiro. “Estamos aqui para fazer solidariedade, melhorar as condições de vida da população e melhorar os indicadores de saúde do povo brasileiro”, disse.

fazÊ o desamô é uma escolha... odiá é um gosto


Essa elite mesquinha não aceita dar nem um osso ao povo

Posted by eduguim on 27/08/13 • Blog da Cidadania







Criei este Blog para estimular cada concidadão que viesse a me ler a não desanimar de exercer a própria cidadania, mas, infelizmente, o que direi neste texto talvez não seja um bom exemplo dessa conduta, pois escrevo um tanto quanto desanimado com o Brasil.

O que de tão grave aconteceu?, perguntará você. Não foi nada de especial, respondo eu. É apenas cansaço. Uma espécie de “gota d’água” inoculou-me tal sentimento.

Trata-se dessa oposição furiosa ao programa Mais Médicos. Como se não bastassem as cenas lamentáveis de mesquinharia e desonestidade de parcela significativa de uma categoria profissional que deveria se pautar pelo humanismo acima de tudo, ainda se tem que aturar uma imprensa digna dessa gente, com seus colunistas usando, em bloco, metáforas racistas para desacreditar uma iniciativa de governo que poderá levar alento ao sofrimento de milhões de desassistidos.

Mas só por isso você se entrega?, treplicará o leitor. Não, não é só por isso. É por tudo.

Há 500 anos que essa elite mesquinha se recusa a aceitar qualquer mísera esmola que se queira dar a essa parcela imensa do povo brasileiro à qual sempre faltou tudo e para a qual ainda falta até uma mísera consulta com um médico.

Os tostões do Bolsa Família para famílias que mal têm o que pôr em seus estômagos é “incentivo a vagabundagem”; cotas para jovens da etnia majoritária no país se ver um pouco menos mal representada no ensino superior é atentado ao mérito “inerente” aos brancos que sempre dominaram a quase totalidade das vagas; redução da conta de luz para pessoas paupérrimas aumentarem a quantidade de calorias que ingerem, é “populismo”.

Não há nada que se queira dar ao povo brasileiro mais sofrido que essa gente que gasta em um almoço quantias que alimentariam uma família pobre por um mês não regateie através de uma imprensa feita por brancos de classe média para brancos de classe média.

É muito dura a vida do povo brasileiro. Não é à toa que continuamos sendo a única nação neste estágio de desenvolvimento a ter uma desigualdade social tão profunda e que, ainda que essa gente mesquinha não enxergue, está pondo o Brasil em guerra civil.

Sinto muito, portanto, não poder, neste texto, cumprir a parte que me cabe em uma luta que é de todos, até daqueles que lutam em sentido contrário, apesar de não saberem disso. Só o que posso fazer aqui, pois, é lamentar que já tenha vivido, no mínimo, mais da metade do tempo que me resta neste mundo sem ter visto o Brasil se tornar um pouquinho só menos egoísta.

Diante de tal estado de espírito, fico por aqui. Conto com a compreensão de todos. Até porque, amanhã é outro dia e não há mal que sempre dure. Sobretudo se for um mal passageiro como este que, desta feita, acometeu-me a alma.

PS: não estou desistindo de escrever o Blog, de militar politicamente, enfim, não estou desistindo de nada. Desisti, apenas, de fazer algo mais neste post além de lamentar.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

"vida sem causa cabe toda dentro de um cartão de crédito"


TIJOLAÇO AO DR CRM:
CORE DIANTE DESTA NEGRA !


Da xenofobia ao racismo é rapidinho

Tijolaço






O Conversa Afiada reproduz es-pe-ta-cu-lar post do Fernando Brito, que trabalhou com o engenheiro Leonel Brizola: dá para perceber …



COREM DIANTE DESTA NEGRA, DOUTORES! ELA TEM O QUE OS SENHORES PERDERAM



“Somos médicos por vocação, não nos interessa um salário, fazemos por amor”, afirmou Nelson Rodrigues, 45.

“Nossa motivação é a solidariedade”, assegurou Milagros Cardenas Lopes, 61

“Viemos para ajudar, colaborar, complementar com os médicos brasileiros”, destacou Cardenas em resposta à suspeita de trabalho escravo. “O salário é suficiente”, complementou Natasha Romero Sanches, 44.

Poucas frases, mas que soam como se estivessem sendo ditas por seres de outro planeta no Brasil que vivemos.

O que disseram os primeiros médicos cubanos do grupo que vem para servir onde médicos brasileiros não querem ir deveria fazer certos dirigentes da medicina brasileira reduzirem à pequenez de seus sentimentos e à brutalidade de suas vidas, de onde se foi, há muito tempo, qualquer amor à igualdade essencial entre todos os seres humanos.

Porque gente que não se emociona com o sofrimento e a carência de seus semelhantes, gente que se formou, muitas vezes, em escolas de medicina pagas com o imposto que brasileiros miseráveis recolheram sobre sua farinha, seu feijão, sua rala ração, gente que já viu seus concidadãos madrugando em filas, no sereno, para obter um simples atendimento, gente assim não é civilizada, não importa quão bem tratadas ejam suas unhas, penteados os seus cabelos e reluzentes seus carros.

Perto desta negra aí da foto, que para vocês só poderia servir para lavar suas roupas e pajear seus ricos filhinhos, criados para herdar o “negócio” dos pais, vocês nao passam de selvagens, de brutos.

Vocês podem saber quais são as mais recentes drogas, aprendidas nos congressos em locais turísticos, custeados por laboratórios que lhes dão as migalhas do lucro bilionário que têm ao vender remédios. Vocês podem conhecer o último e caro exame de medicina nuclear disponível na praça a quem pode pagar. Vocês podem ser ricos, ou acharem que são, porque de verdade não passam de uma subnobreza deplorável, que acha o máximo ir a Miami.

Mas vocês são lixo perto dessa negra, a Doutora – sim, Doutora, negra, negrinha assim!- Natasha é, eu lhes garanto.

Sabem por que? Por que ela é capaz de achar que o que faz é mais importante do que aquilo que ganha, desde que isso seja o suficiente para viver com dignidade material. Porque a dignidade moral ela a tem, em quantdade suficiente para saber que é uma médica, por cem, mil ou um milhão de dólares.

Isso, doutores, os senhores já perderam. E talvez nunca mais voltem a ter, porque isso não se compra, não se vende, não se aluga, como muitos dos senhores, para manter o status de pertenceram ao corpo clínico de um hospital, fazem com seus colegas, para que dêem o plantão em seus lugares.

Os senhores não são capazes de fazer um milésimo do que ela faz pelos seres humenos, desembarcando sob sua hostilidade num paìs estrangeiro, para tratar de gente pobre que os senhores nao se dispõem a cuidar nem querem deixar que se cuide.

Os senhores nao gritaram, não xingaram nem ameaçaram com polícia aos Roger Abdelmassih, o estuprador, nem contra o infeliz que extorquiu R$ 1.200 para fazer o parto de uma adolescente pobre, nem contra os doutores dos dedos de silicone, nem contra os espertalhóes da maternidade paulista cuja única atividade era bater o ponto.

Eles não os ameaçaram, ameaçaram apenas aos pobres do Brasil.

Estes aì, sim, estes os ameaçam. Ameaçam a aceitação do que vocês se tornaram, porque deixaram que a aspiração normal e justa de receber por seu trabalho se tornasse maior do que a finalidade deste próprio trabalho, porque o trabalho é um bem social e coletivo, ou então vira mero negócio mercantil.

É isto que estes médicos cubanos representam de ameaça: o colocar o egoísmo, o consumismo, o mercantilismo reduzidos ao seu tamanho, a algo que não é e nem pode ser o tamanho da civilização humana.

Aliás, é isso que Cuba, há quase 55 anos, representa.

Um país minùsculo, cheio de carências, que é capaz de dar a mão dos médicos a este gigante brasileiro.

E daí que eles exportem médicos como fonte de receita? Nós não exportamos nossos meninos para jogar futebol? O que deu mais trabalho, mais investimento, o que agregou mais valor a um país: escolas de medicina ou esteiras rolantes para exportar seus minérios?

É por isso que o velhissimo Fidel Castro encarna muito mais a juventude que estes yuppiescoxinhas, cuja vida sem causa cabe toda dentro de um cartão de crédito.

Eu agradeço à Doutora Natasha.

Ela me lembrou, singelamente, que coração é algo muito maior do que aquele volume que aparece, sombrio, nas tantas ressonâncias, tomografias e cateterismos porque passei nos últimos meses.

Ele é o centro do progresso humano, mais do que o cérebro, porque é ele quem dá o norte, o sentido, o rumo dos pensamentos e da vida.

Porque, do contrário, o saber vira arrogância e os sentimentos, indiferença.

E o coração, como na música de Mercedes Sosa, una mala palabra.


Por: Fernando Brito

domingo, 25 de agosto de 2013

estudaram de graça, às custas do dinheiro de todos... e nos viram às costas


Força eleitoral do Mais Médicos alarma mídia e oposição

Posted by eduguim on 25/08/13 • Blog da Cidadania




Na tarde do último sábado, na sede do ministério da Saúde, em São Paulo, o titular da pasta, ministro Alexandre Padilha, deu entrevista a blogueiros a fim de rebater a onda de críticas ao programa que começou pelos setores mais estridentes da classe médica e logo ganhou a simpatia da oposição ao governo Dilma Rousseff e de boa parte da grande imprensa.

Durante mais de três horas, Padilha respondeu aos blogueiros – entre eles, este que escreve – sobre todos os questionamentos, acusações e suposições alarmistas formulados por entidades de classe dos médicos e que estão sendo comprados, acriticamente, por boa parte da grande imprensa.

Quem tiver paciência e tempo, pode assistir à entrevista no vídeo abaixo. A participação deste blogueiro e a resposta do ministro podem ser encontrados a partir de 2:14:29 no vídeo.

Formulei uma questão sobre se haveria planejamento de políticas públicas que formem médicos em regiões e classes sociais que não têm esses profissionais e, também, que incutam nos estudantes de medicina uma visão mais humanista e menos comercial da profissão.







Durante a entrevista, comentei com o ministro o crescente apoio da sociedade ao programa expresso por pesquisa Datafolha feita em meados deste mês, que revelou que, então, esse apoio ao programa superava a rejeição, tendo atingido, naquela pesquisa, 54% dos entrevistados, enquanto que a rejeição despencou para 40%.

A resposta de Padilha disse tudo sobre as expectativas do governo Dilma em relação ao Mais Médicos:

– E o programa nem começou a funcionar…

A resposta significa o seguinte: se a mera expectativa de implantação do programa Mais Médicos já conquistou a simpatia majoritária – e, segundo informações ainda não confirmadas, crescente na sociedade –, quando cidades ou bairros afastados que não têm médicos passarem a ter, o efeito positivo do programa na popularidade do governo e do próprio ministro da Saúde deverá ser muito maior.

Note-se que a recuperação da popularidade de Dilma já vem sendo atribuída, em alguma medida, ao Mais Médicos. Sobretudo por conta da postura arrogante, elitista e insensível das entidades de classe dos médicos, da oposição e de setores da mídia, que não sabem mais o que inventar para convencer a sociedade de que o programa não é bom.

O que ocorre é que as desculpas das entidades de classe, da mídia e da oposição para atacarem o Mais Médicos são para lá de esfarrapadas.

Primeiro, começaram a dizer que os médicos cubanos não passavam de “curandeiros” e a justificarem com “falta de estrutura” para exercerem seu ofício nesses lugares o desinteresse dos médicos brasileiros em trabalharem em regiões empobrecidas e afastadas. Mas não colou.

Estudos do ministério da Saúde recém-divulgados mostram que o número de equipamentos de saúde – a tal “estrutura” de que os médicos reclamam – aumentaram mais do que o número de médicos nos últimos cinco anos. E, o principal, que hospitais plenamente equipados sofrem com falta de especialistas.

Abaixo, as principais especialidades em falta nas regiões ermas e empobrecidas do país.

- Pediatria

- Neurologia

- Anestesiologia

- Neurocirurgia

- Clínica Médica

- Radiologia

- Cardiologia

- Nefrologia

- Psiquiatria

- Ginecologia

- Ortopedia

- Cirurgia Geral

Diante do enfraquecimento dessas teorias sobre preparo dos profissionais estrangeiros – sobretudo em relação aos cubanos –, por conta dos excelentes currículos deles e do nível de qualidade da Saúde em seus países de origem (Cuba tem indicadores de saúde melhores até do que os dos Estados Unidos) e com o desmonte da teoria sobre “falta de estrutura”, agora as desculpas corporativistas dos médicos e a gritaria da oposição midiática foram buscar uma outra tábua de salvação.

Com o concurso de procurador do Ministério Público do Trabalho simpático à direita tucano-midiático-médica, esta passa a apelar para condições de “trabalho escravo” a que os médicos cubanos estarão sendo submetidos, já que não embolsarão diretamente os salários de cerca de 10 mil reais que receberão pela prestação de serviços no país.

Os salários serão pagos ao governo cubano, que repassará aos médicos que enviou ao Brasil cerca de ¼ do valor. Contudo, para um cidadão cubano cerca de mil dólares de salário, com casa, comida e demais despesas pagas, é uma fortuna. Ganharão muito mais do que ganhariam em seu país e ninguém os imaginaria vivendo em condições de escravidão só por receberem um salário que poucos brasileiros ganham.

Além disso, muitos dos médicos não-cubanos que estão chegando estavam desempregados em seus países, o que torna o exercício da profissão no Brasil muito mais compensador.

Para enterrar de vez essa história, basta saber que o acordo entre Brasil e Cuba foi referendado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que chancelou esse tipo de acordo entre a ilha caribenha e 58 países que receberam médicos cubanos.

Para quem não sabe o que é a OPAS, trata-se de organização especializada em saúde. Foi criada em 1902 e é a mais antiga agência internacional de saúde do mundo. É um organismo com um século de experiência, dedicado a melhorar as condições de saúde dos países das Américas. A OPAS/OMS também faz parte dos sistemas da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização das Nações Unidas (ONU).

Não se imagina que uma organização como essa apoiasse “trabalho escravo”, pois não?

Além de tudo que entidades médicas têm feito para desinformar a população que será beneficiada pelo Mais Médicos, agora elas dizem que “chamarão a polícia” para prender médicos cubanos que exercerem a profissão no país sem seu aval.

A afirmação é ridícula e não tem amparo legal. Segundo Padilha, todas as medidas judiciais das entidades médicas vêm sendo sucessivamente derrotadas. As entidades terão que cumprir a Medida Provisória que criou o Mais Médicos e expedirem carteiras de identidade médica provisórias que permitam aos médicos estrangeiros trabalharem no país.

Estão apenas fazendo jogo de cena, obviamente.

As razões para toda essa oposição a uma medida cujos benefícios para a população carente são mais do que óbvios, portanto, dividem-se entre corporativistas e políticas.

No caso da oposição corporativista ao Mais Médicos, o sentimento no Ministério da Saúde é de que se subdivide entre preconceito, orgulho e ganância.

O preconceito é ideológico (sobretudo no caso cubano), racial e de classe social, pois os médicos brasileiros ou são de classe média alta ou são ricos mesmo, a despeito das exceções absolutamente minoritárias.

O orgulho ferido dos médicos gritões se deve ao fato de que ficam mal na foto quando a sociedade se dá conta de que estão pouco se lixando para o povo brasileiro e, assim, só pensam em seus confortos pessoais apesar de a grande maioria das universidades nas quais se formaram serem públicas, de forma que estudaram de graça, às custas do dinheiro de todos.

Já a ganância se deve ao fato de que com falta de médicos os ganhos daqueles que quiserem ir para essas regiões desprovidas, tornam-se exorbitantes. Os médicos gritões querem ter reserva de mercado nessas regiões, para uma eventualidade.

Mas o foco do post é a razão política da mídia e da oposição para rejeitarem o programa mais médicos. Imagine você, leitor, o que acontecerá com a imagem do governo Dilma nesses cerca de 700 municípios pelos quais nenhum médico convocado pelo governo para ir trabalhar se interessou. Em alguns desses lugares, há quem já seja idoso e nunca se consultou com um médico…

Além da imagem do governo Dilma, há um outro bônus para o PT que advirá do Mais médicos. Alexandre Padilha, há muito, vem sendo cogitado como candidato ao governo de São Paulo, ano que vem.

Questionei o ministro ao fim da entrevista (em off) e ele rejeitou essa pretensão política, como é óbvio que faria. Contudo, o ganho de popularidade que irá auferir – sobretudo quando o programa começar a funcionar – o tornará um nome muito forte para a sucessão de Geraldo Alckmin e, assim, ele pode se ver “obrigado” a atender o “clamor das ruas”.

sábado, 24 de agosto de 2013

um debate vergonhoso, conservador, sem ética... um debate a favor da morte


Porque os médicos cubanos incomodam



Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

O debate sobre a chegada de médicos cubanos é vergonhoso.

Do ponto de vista da saúde pública, temos um quadro conhecido. Faltam médicos em milhares de cidades brasileiras, nenhum doutor formado no país tem interesse em trabalhar nesses lugares pobres, distantes, sem charme algum – nem aqueles que se formam em universidades públicas sentem algum impulso ético de retribuir alguma coisa ao país que lhes deu ensino, formação e futuro de graça.

Respeitando o direito individual de cada pessoa resolver seu destino, o governo Dilma decidiu procurar médicos estrangeiros. Não poderia haver atitude mais democrática, com respeito às decisões de cada cidadão.

O Ministério da Saúde conseguiu atrair médicos de Portugal, Espanha, Argentina, Uruguai. Mas continua pouco. Então, o governo resolveu fazer o que já havia anunciado: trazer médicos de Cuba.

Como era de prever, a reação já começou.

E como eu sempre disse neste espaço, o conservadorismo brasileiro não consegue esconder sua submissão aos compromissos nostálgicos da Guerra Fria, base de um anticomunismo primitivo no plano ideológico e selvagem no plano dos métodos. É uma turma que se formou nesta escola, transmitiu a herança de pai para filho e para netos. Formou jovens despreparados para a realidade do país, embora tenham grande intimidade com Londres e Nova York.

Hoje, eles repetem o passado como se estivessem falando de algo que tem futuro.

Foi em nome desse anticomunismo que o país enfrentou 21 anos de treva da ditadura. E é em nome dele, mais uma vez, que se procura boicotar a chegada dos médicos cubanos com o argumento de que o Brasil estará ajudando a sobrevivência do regime de Fidel Castro. Os jornais, no pré-64, eram boicotados pelas grandes agencias de publicidade norte-americanas caso recusassem a pressão americana favorável à expulsão de Cuba da OEA. Juarez Bahia, que dirigiu o Correio da Manhã, já contou isso.

Vamos combinar uma coisa. Se for para reduzir economia à política, cabe perguntar a quem adora mercadorias baratas da China Comunista: qual o efeito de ampliar o comércio entre os dois países? Por algum critério – político, geopolítico, estético, patético – qual país e qual regime podem criar problemas para o Brasil, no médio, curto ou longo prazo?

Sejamos sérios. Não sou nem nunca fui um fã incondicional do regime de Fidel. Já escrevi sobre suas falhas e imperfeições. Mas sei reconhecer que sua vitória marcou uma derrota do império norte-americano e compreendo sua importância como afirmação da soberania na América Latina.

Creio que os problemas dos cidadãos cubanos, que são reais, devem ser resolvidos por eles mesmos.

Como alguém já lembrou: se for para falar em causas humanitárias para proibir a entrada de médicos cubanos, por que aceitar milhares de bolivianos que hoje tocam pedaços inteiros da mais chique indústria de confecção do país?

Denunciar o governo cubano de terceirizar seus médicos é apenas ridículo, num momento em que uma parcela do empresariado brasileiro quer uma carona na CLT e liberar a terceirização em todos os ramos da economia. Neste aspecto, temos a farsa dentro da farsa. Quem é radicalmente a favor da terceirização dos assalariados brasileiros quer impedir a chegada, em massa, de terceirizados cubanos. Dizem que são escravos e, é claro, vamos ver como são os trabalhadores nas fazendas de seus amigos.

Falar em democracia é um truque velho demais. Não custa lembrar que se fez isso em 64, com apoio dos mesmos jornais que 49 anos depois condenam a chegada dos cubanos, erguendo o argumento absurdo de que eles virão fazer doutrinação revolucionária por aqui. Será que esse povo não lê jornais?

Fidel Castro ainda tinha barbas escuras quando parou de falar em revolução. E seu irmão está fazendo reformas que seriam pura heresia há cinco anos.

O problema, nós sabemos, não é este. É material e mental.

Nossos conservadores não acharam um novo marqueteiro para arrumar seu discurso para os dias de hoje. São contra os médicos cubanos, mas oferecem o que? Médicos do Sírio Libanês, do Einstein, do Santa Catarina?

Não. Oferecem a morte sem necessidade, as pragas bíblicas. Por isso não têm propostas alternativas nem sugestões que possam ser discutidas. Nem se preocupam. Ficam irresponsavelmente mudos. É criminoso. Querem deixar tudo como está. Seus médicos seguem ganhando o que podem e cada vez mais. Está bem. Mas por que impedir quem não querem receber nem atender?

Sem alternativa, os pobres e muito pobres serão empurrados para grandes arapucas de saúde. Jamais serão atendidos, nem examinados. Mas deixarão seu pouco e suado dinheiro nos cofres de tratantes sem escrúpulos.

Em seu mundo ideal, tudo permanece igual ao que era antes. Mas não. Vivemos tempos em que os mais pobres e menos protegidos não aceitam sua condição como uma condenação eterna, com a qual devem se conformar em silêncio. Lutam, brigam, participam. E conseguem vitórias, como todas as estatísticas de todos os pesquisadores reconhecem. Os médicos, apenas, não são a maravilha curativa. Mas representam um passo, uma chance para quem não tem nenhuma. Por isso são tão importantes para quem não tem o número daquele doutor com formação internacional no celular.

O problema real é que a turma de cima não suporta qualquer melhoria que os debaixo possam conquistar. Receberam o Bolsa Família como se fosse um programa de corrupção dos mais humildes. Anunciaram que as leis trabalhistas eram um entrave ao crescimento econômico e tiveram de engolir a maior recuperação da carteira de trabalho de nossa história. Não precisamos de outros exemplos.

Em 2013, estão recebendo um primeiro projeto de melhoria na saúde pública em anos com a mesma raiva, o mesmo egoísmo.

Temem que o Brasil esteja mudando, para se tornar um país capaz de deixar o atraso maior, insuportável, para trás. O risco é mesmo este: a poeira da história, aquele avanço que, lento, incompleto, com progressos e recuos, deixa o pior cada vez mais distante.

É por essa razão, só por essa, que se tenta impedir a chegada dos médicos cubanos e se tentará impedir qualquer melhoria numa área em que a vida e a morte se encontram o tempo inteiro.

Essa presença será boa para o povo. Como já foi útil em outros momentos do Brasil, quando médicos cubanos foram trazidos com autorização de José Serra, ministro da Saúde do governo de FHC, e ninguém falou que eles iriam preparar uma guerrilha comunista. Graças aos médicos cubanos, a saúde pública da Venezuela tornou-se uma das melhores do continente, informa a Organização Mundial de Saúde. Também foram úteis em Cuba.

Os inimigos dessas iniciativas temem qualquer progresso. Sabem que os médicos cubanos irão para o lugar onde a morte não encontra obstáculo, onde a doença leva quem poderia ser salvo com uma aspirina, um cobertor, um copo de água com açúcar. Por isso incomodam tanto. Só oferecem ameaça a quem nada tem a oferecer aos brasileiros além de seu egoísmo.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

quero passá longe dessa daqui...

O suicídio imagético dos médicos

Posted by eduguim on 23/08/13 • Blog da Cidadania








No último dia 12, a Folha de São Paulo publicou pesquisa Datafolha que deu conta de que, até então, o percentual dos brasileiros que aprovava a contratação de médicos estrangeiros para suprir a carência desses profissionais nas regiões empobrecidas tanto das cidades quanto do país, tornou-se majoritário. De lá para cá, esse apoio deve ter aumentado…

54% dos entrevistados pelo Datafolha disseram, então, aprovar o programa “Mais Médicos”, do governo federal, que, agora, acaba de bater o martelo na “importação” de 4 mil médicos cubanos.

Em junho, o índice de aprovação ao programa era de 47%. Por outro lado, diminuiu o índice de reprovação — de 48% para 40% no mesmo período.

A pesquisa também mostrou que o apoio ao programa federal aumenta ou diminui de acordo com a classe social do entrevistado. Ou seja: as pessoas de classe social mais alta reprovam mais o programa, enquanto que as de classe social mais baixa aprovam mais.

A explicação para o fenômeno é muito simples: os que não têm problemas para ser atendidos por médicos por terem maiores recursos financeiros se prendem ao aspecto político da questão e se solidarizam com uma classe laboral que, em um país como o Brasil, origina-se exclusivamente das classes sociais mais favorecidas.

As entidades de classe dos médicos, então, declararam uma guerra ao programa “Mais Médicos” que, aparentemente, seria inexplicável.

O “Mais Médicos” foi elaborado para suprir com médicos estrangeiros as regiões nas quais os médicos brasileiros não querem trabalhar, ou seja, nas periferias das grandes cidades ou nas regiões e cidades mais afastadas e empobrecidas do país. Ora, se trabalhar nas regiões mais carentes não interessa aos médicos brasileiros, por que, então, eles não querem que os estrangeiros trabalhem?

Cobrados sobre tal contradição, os médicos tupiniquins trataram de conseguir uma explicação pretensamente plausível: estão preocupados com a população, que seria atendida por profissionais “despreparados” como seriam os tais médicos cubanos, apesar de Cuba ter índices na saúde que deixam os de um país como o Brasil no chinelo.

Segundo os médicos brasileiros… Ou melhor, segundo a parcela gritalhona dos médicos brasileiros que declarou guerra o programa “Mais Médicos”, eles não trabalham nas regiões pobres porque elas não teriam a estrutura de que necessitariam para desempenhar a contento as suas funções.

A “explicação”, porém, cai por terra quando se verifica que há um impressionante volume de hospitais bem montados, com equipamentos e tudo mais de que um médico possa precisar e que só não funcionam direito justamente por falta de médicos.

Nesse aspecto, matéria recente da Agência Brasil, entre muitas outras, desmascarou a desculpa das entidades de classe dos médicos e da parte ruidosa de uma categoria que, mais adiante, veremos que tem razões muito diferentes das alegadas para não querer trabalhar nas regiões ermas e empobrecidas das urbes e do país.

A matéria relata que a diretora do Hospital Pedro Vasconcelos, da cidade Miguel Alves, no Piauí, reclama da ausência de médicos no município apesar de ele ter um hospital equipado.

Miguel Alves tem cerca de 32 mil habitantes. O hospital local tem, sim, estrutura mínima e pode, por exemplo, realizar um exame de raio-X a qualquer hora, pois o equipamento funciona 24 horas por dia. Contudo, por falta de um ortopedista em 80% dos casos há que encaminhar o paciente para a capital, Teresina, a 100 quilômetros de distância.

A diretora desse hospital argumenta que especialistas ajudariam a tratar os casos menos graves e a fazer diagnósticos mais precisos, mas o centro cirúrgico do hospital está desativado por falta de profissionais.

Nesse mesmo hospital, um outro exemplo: a sala de ultrassom está perfeitamente operacional, mas fica ociosa a maior parte do tempo. Funciona apenas uma vez por semana, no único dia em que o médico responsável pelo exame vai à cidade, quando vai.

Na avaliação da prefeita de Miguel Alves, Salete Rego, “A dificuldade de fixar médicos, especialistas e generalistas está associada ao fato de o município ter 68% da população vivendo na zona rural. Quem é urbano, dificilmente quer viver em um ambiente rural“, disse.

A assessoria do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, garante que o Ministério da Saúde tem como demonstrar que esse problema se generaliza pelo país afora: haveria, sim, hospitais, equipamentos e tudo mais para atender boa parte das populações das regiões mais carentes. Segundo o MS, pode faltar equipamento em algumas regiões, mas naquelas em que há estrutura não há médicos que queiram trabalhar nelas.

Com efeito, a falta de estrutura seria muito mais fácil de resolver do que a falta de médicos. Falta de equipamentos se resolve com dinheiro – é só comprar. Médicos, não. Mesmo pagando altos salários, os profissionais não querem se deslocar para regiões sem shoppings centers e ruas arborizadas, só para ficarmos num exemplo frugal.

E ainda vale lembrar que os médicos – ou uma parcela expressiva deles –, desmascarados, procuram jogar a culpa pelo problema no governo federal por ter idealizado o programa que levará profissionais estrangeiros aonde os brasileiros não querem trabalhar. O fato, porém, é que saúde não é atribuição só do governo federal.

Mas por que, então, os médicos brasileiros se opõem tão furiosamente a um programa que suprirá a falta deles em regiões em que não querem trabalhar? Nesse ponto, matéria recente do SBT dá uma pista. Alguns médicos chegam a se empregar em hospitais para a população humilde, sim, mas recebem sem trabalhar. Vão a esses hospitais, batem o ponto e vão embora em seguida.


Confira, abaixo, a impressionante matéria do SBT.




Eis, aí, uma das principais razões pelas quais uma parcela expressiva da categoria médica não quer “concorrência” estrangeira. Para fazer um “bico” em alguma região pobre, médicos ganham fortunas e nem têm que trabalhar de fato, atuando apenas quando não tem jeito. Não querem, pois, perder essas “tetas”.

Claro que toda a generalização é burra. E não é porque a maioria apoia alguma coisa que ela está certa. Contudo, quem de fato precisa da saúde pública sabe que faltam mais médicos no Brasil do que estrutura. Sobretudo no Norte e no Nordeste, como mostra a matéria da Agência Brasil comentada acima. É por isso que os médicos cubanos, entre os de várias outras nacionalidades, deverão atuar, preferencialmente, nessas regiões.

As desculpas dessa expressiva parcela da classe médica, portanto, não enganam o povo. Podem enganar pessoas das classes mais abastadas, que são minoria da minoria e não dependem da saúde pública. Mas a população que precisa, que é maioria esmagadora, conforme vai tomando conhecimento do “Mais Médicos” vai apoiando o programa.

Apesar das desculpas esfarrapadas dos médicos e da facilidade com que podem ser descontruídas, essa expressiva parcela da categoria parece estar dopada pelas mentiras que propala.

O nível de falta de noção dessa parcela expressiva desses profissionais é tão grande que não faz muito tempo uma manifestação deles saiu às ruas gritando que médicos são “ricos e cultos”, como que para “avisar” o governo para que “não mexa” com eles.

Os médicos gritalhões e espertalhões, portanto, conspurcam a imagem de toda a categoria, apesar de, obviamente, haver nela gente decente e responsável.

A classe médica, com o silêncio de sua parcela ética, está cometendo um verdadeiro suicídio de imagem pública. É visível que entre a população mais humilde os médicos estão se desmoralizando cada vez mais com essa cruzada contra um programa que pode salvar incontáveis vidas.

Vale, pois, um alerta à parcela decente e responsável dos médicos – que se supõe que deve existir. Esses profissionais devem criar coragem e enfrentar o corporativismo da categoria dizendo publicamente que os gritalhões não os representam, pois o “Mais Médicos” vai fazendo cada vez mais sentido para uma maioria crescente dos brasileiros.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

qui mer.., não consigo acreditar, não consigo duvidar!


Madre Teresa desviava dinheiro de hospitais para o Vaticano

Paulopes



"Casas para doentes" da missionária eram chamadas por médicos de "necrotérios"


Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), na ilustração ao lado, recebeu de doadores centenas de milhões de dólares para seus hospitais — os quais ela chamava de “casas para doentes” —, mas o grosso (ou parte significativa) desse dinheiro ela mandou para o Vaticano, deixando os doentes em estado precário, sem remédios e cuidados.

Médicos classificaram esses locais de “casas da morte” ou de “necrotérios”. No âmbito da OMS (Organização Mundial da Saúde) houve denúncias de que as “casas” eram locais de epidemias. Uma ex-voluntária escreveu que faltava até AAS para amenizar a dor dos doentes.

Essa são algumas das revelações do estudo “O Lado Escuro de Madre Teresa” feito por Serge Larivee, Carole Senechal e Geneviève Chenard, da Universidade de Montreal, Canadá.

Em 1979, ela foi premiada com o Nobel da Paz e em 2003 beatificada pela Igreja Católica. A missionária já tinha se tornado um símbolo da caridade cristã.

Mas os pesquisadores canadenses, após examinar mais de 500 documentos, constataram que os alegados altruísmo e generosidade de Madre Teresa não passavam de fantasia vendida como verdade pela imprensa internacional.

A rigor, ela foi “inventada” pelo jornalista Malcolm Muggeridge, da BBC, que lhe dedicou em 1969 o documentário “Algo bonito para Deus”, apresentando ao mundo a figura frágil de uma missionária que se dedicava aos pobres e doentes da Índia. Em 1971, o jornalista publicou um livro com o mesmo título.

A missionária abriu centenas de “casas de doentes” em vários países, mas não as tornava hospitais de fato, a ponto de os doentes serem mantidos em agonia em esteiras no chão. Fotos na imprensa desses doentes ajudaram Teresa a arrecadar milhões, inclusive de ditadores sanguinários, como François Duvalier, o Papa Doc do Haiti.

Para Larivee, Madre Teresa colocou em prática a sua convicção de que o sofrimento humano é fundamental para a salvação. Ela acreditava que os sofredores estavam mais perto do céu e de Cristo.

O jornalista britânico radicado nos Estados Unidos Christopher Hitchens (1949- 2011) já tinha denunciado o embuste que era Teresa ao publicar em 1995 o livro “A Intocável Madre Teresa de Calcutá”.

Diz um trecho do livro: “Tenham em mente que a receita global da Madre Teresa é mais do que suficiente para equipar várias clínicas de primeira classe em Bengala. A decisão de não fazê-lo [...] é deliberada. A questão não é o alívio do sofrimento honesto, mas a promulgação de um culto baseado na morte e sofrimento e subjugação."

Na época, Hitchens foi ”crucificado” pelos católicos por ter criticado a boa e santa velhinha.

Um fato pouco conhecido é que a missionária acobertou um padre pedófilo, o ex-jesuíta Donald McGuire.

Em 1993, o sacerdote, que era amigo de Teresa, estava afastado de suas atividades por abusar de um garoto. A missionária usou sua influência para que McGuire voltasse à ativa.

Nos anos seguintes, oito outras queixas de pedofilia foram apresentadas por fiéis à Igreja e às autoridades. E McGuire acabou condenado a 25 anos de prisão.



Madre Teresa, o anjo do inferno, por Christopher Hitchens


diploma não dá clareza de raciocínio!


Caluda! Os cubanos vêm aí

Blog do Miro

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa:


Os jornais foram surpreendidos pela decisão do governo de importar de Cuba 4 mil médicos para ocupar postos em lugares críticos, onde não há serviço público ou particular de saúde. Os primeiros 400 deverão chegar já na próxima semana e serão enviados para cidades ou bairros que não despertaram interesse de profissionais brasileiros ou do exterior na primeira fase das inscrições no programa Mais Médicos, 84% dos quais no Norte e Nordeste.


O noticiário dá conta de que, ao todo, 3.511 municípios se inscreveram no programa, o que revela uma demanda de 15.460 vagas. Apenas 15% desse total haviam sido completados até quarta-feira (21/8). Cada médico contratado custará aos cofres públicos R$ 10 mil de salários mensais, mais os custos da mudança e pagamento de moradia e alimentação.

O convênio que permitirá a contratação de médicos cubanos foi feito pelo governo brasileiro com a Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), que tem um acordo com governos de vários países, inclusive Cuba, para atender casos de emergência e carência crítica.

Os jornais de quinta-feira (22/8) explicam que 84% dos profissionais que virão de Cuba têm mais de 16 anos de experiência, 30% são pós-graduados, muitos trabalharam em países onde se fala a língua portuguesa, principalmente na África, e todos são especialistas em saúde da família.

Ainda assim, dirigentes de entidades médicas do Brasil fazem declarações à imprensa condenando a iniciativa. Representantes do Conselho Federal de Medicina e da Associação Médica Brasileira dão a volta nas informações oficiais sobre o convênio firmado com a OPAS e declaram que o programa é apenas uma jogada eleitoral. Um desses dirigentes chegou a afirmar que o contrato para trazer médicos cubanos tem “características de trabalho escravo”. No extremo do destempero, o presidente do Conselho Federal de Medicina opinou que a iniciativa do governo “poderá causar um genocídio”.

Como se pode observar, um diploma de médico, uma carreira bem sucedida e o acesso a um importante posto de representação profissional não asseguram clareza de raciocínio e honestidade intelectual, e dirigentes das principais entidades médicas do país podem resvalar rapidamente para um discurso irracional e preconceituoso quando os interesses corporativos falam mais alto do que a função social supostamente inerente à sua atividade.

Orgulho e preconceito

Mas há muito mais por trás dessa discussão. Nas redes sociais e nas correntes de mensagens que se seguem a cada novo movimento do governo nessa área, na tentativa de suprir a carência de médicos fora dos grandes centros, proliferam manifestações exageradas como a do presidente do Conselho Federal de Medicina. Na opinião de alguns de seus seguidores, o governo brasileiro não estaria apenas “promovendo um genocídio”, mas articulando um exército de cubanos para levar o comunismo aos rincões do Brasil, onde supostamente vivem cidadãos mais simplórios e, portanto, vulneráveis à pregação ideológica.

Uma leitura transversal de tais manifestações demonstra o nível de estupidez que a radicalidade política pode provocar, até mesmo entre indivíduos cujo nível de educação formal supõe alguma racionalidade.

Ao atacar o programa brasileiro, essas entidades atingem diretamente um dos projetos mais bem sucedidos da ONU, que, por meio de suas entidades de saúde, promove assistência em lugares remotos por todo o mundo e reduz os danos de conflitos e desastres naturais.

A imprensa tem que cumprir, pelo menos formalmente, seu papel de ouvir os diversos lados de uma questão. Essa é a justificativa para os leitores de jornais serem apresentados a destemperos desse tipo. No entanto, também é papel dos jornalistas pontuar eventualmente os casos em que o debate resvala para fora do razoável. Uma das alternativas seria mostrar o trabalho feito por médicos engajados em programas desse tipo pelo mundo afora. Mas a imprensa só enxerga, por exemplo, ações de entidades como o Médicos sem Fronteiras, e parece desconhecer as missões humanitárias da ONU.

Talvez essa visão seja ainda um resíduo do preconceito com políticas que a imprensa costumava chamar de “terceiro-mundistas”. Por outro lado, as reações corporativistas dos médicos brasileiros revelam que o país formou uma geração de profissionais aos quais falta a mais básica consciência social.

A falta de educação cívica não poupa os bem nascidos ou bem sucedidos, que certamente se orgulham de suas carreiras, e os embates provocados pelas entidades médicas nas redes sociais mostram como se pode ir do orgulho ao preconceito em poucos caracteres.

o carapááálida deve sentir saudades deste tempo de brutucus!

Intimidação
Caso Miranda confirma caso Morales


publicada quinta-feira, 22/08/2013 às 09:45 e atualizada quinta-feira, 22/08/2013 às 09:45


Escrevinhador



por Flavio Aguiar na Rede Brasil Atual


O porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, negou qualquer envolvimento do seu governo na detenção do brasileiro David Miranda, companheiro de Glenn Greenwald, durante nove horas, no aeroporto de Heathrow, em Londres, sob suspeita de “terrorismo”. O governo britânico silenciou, dizendo que se tratava de uma “operação policial”. A Scotland Yard declarou que era algo “de rotina” dentro da Lei Antiterrorismo.

Ninguém ficou convencido. Nem mesmo na Grã-Bretanha: David Anderson, que é uma espécie de ombudsman (ouvidor geral) para a Lei Antiterrorismo, declarou que iria cobrar explicações sobre o caso. Keith Vaz, da Câmara dos Deputados, ex-ministro do governo trabalhista, já cobrou esclarecimentos. A mídia europeia deu destaque ao caso, ressaltando, como os anteriores, a sua excepcionalidade. O governo brasileiro protestou, como devia.

Não há dúvida: como declarou o jornalista Greenwald, norte-americano que trabalha para o Guardian, tratou-se de um ato de intimidação. Não havia qualquer suspeita contra Miranda, exceto a de ter se encontrado com Laura Poitras, que ajudou Greenwald nas filmagens da entrevista com Edward Snowden em Hong Kong. O que, convenhamos, equivale a um zero à esquerda em matéria de suspeita. Até mesmo quanto a um possível transporte de informações por parte de Miranda de Poitras para Greenwald: quem precisa disto hoje?

E se informações há, devem ser divulgadas, e já estariam obviamente de posse de Greenwald no Rio de Janeiro, para onde se dirigia Miranda. Portanto, só resta a hipótese da intimidação, da pressão abusiva, do abuso de poder, do poder que age à sombra do poder.

E ainda houve a ridícula apreensão de equipamentos em poder de Miranda, inclusive de jogos eletrônicos. Lembra certas atitudes correntes durante a nossa ditadura, quando policiais apreendiam livros de Dostoiévski “porque era russo”. Ou os Diálogos de Platão, sob a alegação de verificar “com quem eram estes diálogos”.

É sabido que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, com a Nova Zelândia, Austrália e Canadá, mantêm uma “intimidade” total em matéria de inteligência e espionagem. Tanto é assim que está confirmado que Londres avisou previamente Washington sobre a presença de Miranda no voo da British Airways que seguia de Berlim para a conexão em direção ao Rio, em Londres.



Algumas perguntas e uma conclusão:

Quem seria o alvo da intimidação? Miranda? Dificilmente, embora ele tenha ficado intimidado. Snowden? É claro que não, seguro que está, garantido por Vladimir Putin na Rússia. Só podem ser Greenwald, Poitras e o jornal The Guardian, para quem estes dois trabalharam. Ou outros jornalistas que queiram se aventurar neste campo das revelações incômodas para os serviços secretos das “democracias” ocidentais, cujas aspas aqui são bem merecidas. No caso de Poitras, uma cineasta internacionalmente premiada – é bom lembrar que ela mesma tem sido vítima de frequentes detenções, com apreensão de seu material eletrônico e cinematográfico, há algum tempo, conforme denunciou o próprio Greenwald em 2012:

Por que a Casa Branca negou interferência no caso? Teria sido melhor se ficasse em silêncio? Do seu ponto de vista não. Porque é necessário manter a aparência de que existe soberania nos sistemas de inteligência europeus. Na verdade, como já está mais do que evidente, e não em relação àqueles cinco países acima mencionados, existe um verdadeiro “concubinato” entre eles, ou, se quiserem os moralmente mais escandalizados, uma espécie de “suruba total”.

O caso Miranda comprova, por osmose, coabitação, o que seja, o caso Morales, da interceptação do seu avião presidencial. E comprova, com este outro caso anterior, que estamos diante de um poder imperial que escapa às leis do próprio império. Conceitualmente, a situação é idêntica àquela dos tempos da nossa ditadura, quando o governo instalou um poder acima do poder, os Doi-Codis e outros órgãos que tinham carta branca para fazer o que quisessem com quem quisessem, perguntar depois e não responder a qualquer pergunta de ninguém.

Não custa também lembrar o caso de Jean Charles de Menezes, o brasileiro assassinado no metrô de Londres, em 2005, sob suspeita de ser o terrorista procurado na ocasião – o brasileiro errado no lugar errado, na mira errada, mas certeira. É muita suspeita sobre o Brasil. Neste caso, é bom lembrar das ameaças cruas da Casa Branca sobre quem quer que, na América Latina, acobertasse Snowden. A ameaça, com colaboração explícita do serviço secreto britânico, se estende agora aos jornalistas também. E seus companheiros, amizades etc.

Em outra ponta da intimidação, no dia seguinte ao da detenção de Miranda, a promotoria norte-americana pediu a condenação de Bradley Manning a 60 anos de prisão, afirmando que ele merece passar a maior parte de sua hipoteticamente restante vida sob custódia, além da aplicação de uma multa de 100 mil dólares e de sua demissão desonrosa das Forças Armadas. É possível até que haja aquelas cenas trágicas e ridículas de arrancar insígnias e botões das roupas da vítima.

Uma ironia: ao voltar ao Brasil, Miranda declarou sentir-se “seguro” em nosso país, diante da “insegurança” vivida em Heathrow. Para meditar.




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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

a banalização dos métodos desonestos de discussão


Abaixo da dignidade


Flagrado numa sucessão inesquecível de erros factuais no livro "Dirceu - A Biografia", o jornalista Otávio Cabral promete através da Folha de S. Paulo que vai fazer correções na próxima edição.



Paulo Moreira Leite


IstoÉ Independente



Mas é difícil escapar da pergunta. Se o livro não tivesse erros em tamanha quantidade seria uma obra aceitável como um produto cultural, destinado a enriquecer o conhecimento dos brasileiros e o debate de nosso tempo?

Essa é a questão. Erros acontecem em toda atividade humana: na medicina, na engenharia, no direito e no jornalismo.

Mas erros em excesso não são detalhes. Espelham desconhecimento.

Quem erra muito sabe pouco – aprende-se com uma criança em alfabetização ou com um adulto que tenta falar daquilo que não entende.

Os erros de “Dirceu” ajudam a entender o livro. Otavio Cabral escreveu uma obra onde os fatos não têm a importância que deveriam ter numa obra que pretende se enquadrar no gênero das biografias. Aqui, eles são descartáveis. Podem ser trocados, descartados, substituídos. Não têm valor em si. Servem a um propósito, que é sustentar a visão de Cabral sobre Dirceu.

Além de fatos quimicamente falsos, há outros, em estado vaporoso. Cabral não sabe são verdadeiros, ou se não passam de puros boatos. Mas divulga tudo mesmo assim, sem esconder a vontade de fazer carga – de qualquer maneira, por todo lado.

Como exercício de terrorismo moral, o livro é uma exibição de má pontaria.

O problema real é sua falta de conhecimento sobre personagem e os diversos contextos da vida de José Dirceu. Você atravessa mais 360 páginas e não consegue entender as causas da influência de Dirceu nas últimas décadas da política brasileira. Não se trata de aprovar ou não o que ele faz.
Trata-se de saber o que ele fez, quando, onde, por quê.

O autor não tem conhecimento real sobre a ditadura militar que marcou a geração de Dirceu e de tantos brasileiros. Não faz ideia de como era a vida no país daquele tempo, limitando-se a produzir julgamentos ideológicos. Também lhe faltam elementos importantes para entender o que foi o processo de democratização e o processo político que levou Lula e o próprio Dirceu ao Planalto, em 2003.

Já na orelha o livro faz uma afirmação absurda: “em 2003, pela via democrática que não ajudara a construir, (Dirceu) alcançaria o Palácio, ministro de um presidente eleito pela esperança.”

Considerando métodos honestos de discussão, não há como sustentar a noção de que Dirceu “não ajudou” a construir a vida democrática no país.

Maior liderança estudantil dos anos 60, exilado, guerrilheiro, no final da década de 70 Dirceu atuou ainda na clandestinidade junto a movimentos que resistiam a ditadura, pediam anistia aos presos políticos e foi um dos articuladores reconhecidos da campanha das Diretas-Já. Levando em conta o tamanho reduzido do PT naquele início da década, seu papel como organizador da ala mais combativa do movimento pelas diretas foi equivalente, todas as proporções guardadas, à atuação de um governador como o tucano Franco Montoro.

Sem deixar de ser amigo da ditadura comunista de Fidel Castro, anos depois Dirceu destacou-se no esforço para aproximar Lula e o PT de forças políticas moderadas, capazes de garantir uma base mais ampla para o governo. Com apoio de Lula foi o principal responsável pela elaboração de uma política de alianças que ajudou a construir o bloco político que permitiu a vitória do PT nas eleições de 2002 e mesmo em 2006 e 2010, quando se encontrava fora do governo. Os principais adversários de Dirceu, durante muitos anos, foram vozes da ala esquerda do PT, que denunciavam sua “aliança com a burguesia”.

Se estivesse em busca do Dirceu real, e não de um mito adequado ao conservadorismo primitivo que marca a formação política do país, Octávio Cabral teria registrado sua atuação no Congresso e na Casa Civil para facilitar aproximações com empresários, negociando acordos e desatando nós – e sempre tomando porradas internas por isso.

Durante a campanha de 2002, Dirceu foi aos Estados Unidos para estabelecer relações com o governo do presidente republicano George W. Bush. Naquele momento, a candidatura Lula era alvo de uma campanha reacionária, em Washington, para apresentá-lo como uma combinação de Hugo Chávez, alvo de um golpe de Estado no início daquele ano, com apoio dos EUA, e de Fidel Castro, que a Casa Branca tentou derrubar por meio século. Dirceu retornou como interlocutor legítimo do novo governo junto ao Departamento de Estado e da embaixadora Donna Hrinak.

O acadêmico Mathias Spektor assinala que naquele período Brasil e Estados Unidos atingiram um padrão de bom entendimento poucas vezes conseguido ao longo da historia diplomática dos dois países – e jamais reconhecido pela imprensa brasileira. Seria absurdo ignorar que Dirceu teve um papel pioneiro na construção desta situação.

Sem acesso a Dirceu nem a fontes dispostas a ajudá-lo a formar uma visão consistente sobre 50 anos dedicados à política, o livro contenta-se com entrevistas já publicadas e envelhecidas. Também dá credito a relatos de segunda mão e depoimentos de velhos camaradas que se tornaram adversários e até inimigos de Dirceu, método ideal para produzir uma obra que transpira raiva e ressentimento.

Num exercício de psicanálise à distancia, Cabral escreve que, filho de um pequeno empresário conservador, em 1964 Dirceu apoiava o governo Jango “mais para se opor ao pai do que por ideologia.”

Falando sobre 1968, o livro enxerga a ação da ditadura contra os estudantes de um ponto de vista que poucos observadores já tiveram enunciaram em público. Comentando o sucesso de uma das ações do líder estudantil Dirceu, a ocupação da Maria Antônia, Otávio Cabral escreve que isso ocorreu por causa da “falta de repressão.”

Então é assim. O leitor precisava chegar a 2013 para Octávio Cabral dizer que em 1968 havia “falta de repressão” no Brasil.

Como sabem até alunos de curso fundamental, o regime militar cuidou de resolver essa situação poucos meses depois, quando baixou o AI-5.

Preso naquele ano, no fim do Congresso de Ibiúna, Dirceu planejava fugir da prisão porque tinha “medo da tortura,” escreve Cabral, o corajoso.

Pelo método da banalização do mal, o livro vai chegando aonde pretende. Ameniza a brutalidade da ditadura, num esforço necessário para reduzir o valor de quem ousou mobilizar-se contra ela. Ao falar em “medo da tortura” o livro assume um ponto de vista conhecido e lamentável.

A prática da tortura, no mundo inteiro, tem um discurso estabelecido para tentar justificar-se.

Situados na posição confortável de um interrogatório, torturadores profissionais preferem explicar confissões obtidas por uma suposta falta de caráter de suas vítimas, pelo “medo”, pela “covardia,” e não pela ação dos choques elétricos no pau de arara. Numa tentativa de explicar um comportamento desumano, querem fazer seus contemporâneos acreditarem que, antes de vencer suas vítimas pela dor física, haviam sido capazes de derrotá-las no plano moral. Conforme esta fabricação imoral, a covardia das vítimas era mais importante do que a dor que efetivamente sentiam.

Lançado nas semanas anteriores ao julgamento dos recursos da ação penal 470, era de se imaginar, com otimismo, que o autor tivesse a ambição de trazer novidades nesse terreno. Mas não.

O livro limita-se a fazer coro com denúncias conhecidas, aproveitando a ocasião para tentar chegar às listas de mais vendidos. Levando a má investigação policial para o campo jornalismo, "Dirceu" com aspas deduz, infere, quer tornar plausível a visão de que Dirceu sem aspas era o chefe do esquema – mas não tem provas nem fatos novos. Octavio Cabral entrevistou José Antônio Oliveira Lima, advogado de Dirceu, mas não teve curiosidade de entender os argumentos de uma defesa que, como se sabe, obteve um apertado placar de 5 a 4 numa deliberação importante, sem falar numa condenação ampliada porque o presidente do STF Joaquim Barbosa cometeu um erro de datas na hora em que definia a pena.

Por oposição, a leitura de “Dirceu” me fez pensar em “Hitler”, de Ian Kershaw. Uma das melhores biografias jamais escritas, “Hitler” contém uma lição bem sucedida para um exercício difícil: narrar a história de vida de uma pessoa pela qual o autor não possui um milímetro de simpatia. Trabalhando quatro décadas depois da morte de Hitler, Kershaw escreveu um total de 1.076 páginas. Seu trabalho é impecável. Não deixa nenhum fato de lado, não perde o rumo nem confunde a realidade com seus argumentos nem afirma o que não pode sustentar. É um livro repleto de ensinamentos universais de política, de história, de reações humanas.

Aplica-se à cultura aquela verdade que Hanna Arendt descobriu para a Justiça.

Mesmo um nazista, como Adolf Eichmann, tinha direito a um julgamento justo.

Por mais errada que seja sua visão de José Dirceu, Octávio Cabral não tinha o direito de lhe dar um tratamento abaixo da dignidade.

Não temos obstetra aqui...


Diretor de hospital elogia médicos estrangeiros e reclama de falta de especialistas



SUL 21


Foto: Agência Brasil

Da Agência Brasil

O município de Rio Preto da Eva fica a 80 quilômetros de Manaus (AM). A estrada é cheia de curvas e em diversos trechos é totalmente ladeada pela mata verde e densa, mas apresenta boas condições de tráfego, com asfalto conservado. Em situações normais, a viagem pode ser agradável e não tão demorada. Mas quando chega a hora de se ter um bebê, o trecho parece interminável e cada curva tortura quem nada pode fazer para amenizar a ansiedade e até a dor de um trabalho de parto iniciado.

A cada mês, dezenas de mulheres moradoras do município vivem histórias parecidas, segundo o diretor-geral do Hospital Thomé de Medeiros Raposo, Ricardo Honorato, porque faltam médicos especialistas. A unidade de saúde, única desse porte no município, com cerca de 28 mil habitantes, conta com apenas um clínico geral por plantão de 24 horas. Na avaliação do diretor, que tem formação em administração hospitalar, para dar conta da demanda estimada em 100 atendimentos diários seria necessário que a equipe médica também incluísse ao menos cinco especialistas – cirurgião-geral, ortopedista, anestesista, obstetra e pediatra.

“Não temos obstetra aqui, mas se tivéssemos, pelo menos, um cirurgião-geral evitaríamos encaminhar as grávidas com algum risco no parto. Não podemos assumir uma situação que não sabemos se vai ter complicação e comprometer a vida da mãe e do bebê por falta de profissional”, disse Honorato à Agência Brasil.

Com isso, destacou, muitas crianças que moram na cidade, acabam sendo registradas em Manaus, porque “foram lá só para nascer”. É o caso dos três filhos da conselheira tutelar Rosinei Torres de Souza, 33 anos, que se programou com antecedência para fazer o parto dos meninos na capital.

“Aqui não tem médico e eu também não confio muito na estrutura então, para evitar problemas, me proteger e proteger meus filhos, preferi nas três gestações ir para Manaus uns dez dias antes da previsão da chegada deles e esperá-los nascer na capital”, disse Rosinei. “Muita gente aqui faz isso. Foi assim com as minhas cunhadas, minhas amigas. Só nasce aqui se for de emergência ou se a pessoa não tiver condições de ir para Manaus”, acrescentou.

Ricardo Honorato acredita que a dificuldade de atrair médicos para os municípios do interior do Amazonas pode ser explicada pelo mercado aquecido nas capitais, onde eles encontram “bons salários, mais opções de lazer e oportunidades de reciclagem”. Ele defende a contratação de médicos estrangeiros para ocupar vagas ociosas, principalmente no interior do país.



“Já trabalhei com muitos médicos estrangeiros que prestavam excelentes serviços à população da Amazônia. Se eles vierem dispostos realmente a trabalhar e a servir acho que podem ajudar a resolver muitos problemas por aqui”, disse o diretor-geral do hospital.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Criador e criatura


Brasileiro inventor de 'luz engarrafada' tem ideia espalhada pelo mundo


Gibby Zobel

De Uberaba para o serviço mundial da BBC


Atualizado em 13 de agosto, 2013 - 11:05 (Brasília) 14:05 GMT




Criador e criatura: Moser criou a lâmpada durante a série de apagões que o Brasil enfrentou em 2002

Alfredo Moser poderia ser considerado um Thomas Edison dos dias de hoje, já que sua invenção também está iluminando o mundo.

Em 2002, o mecânico da cidade mineira de Uberaba, que fica a 475 km da capital Belo Horizonte, teve o seu próprio momento de 'eureka' quando encontrou a solução para iluminar a própria casa num dia de corte de energia.

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Para isso, ele utilizou nada mais do que garrafas plásticas pet com água e uma pequena quantidade de cloro.

Nos últimos dois anos, sua ideia já alcançou diversas partes do mundo e deve atingir a marca de 1 milhão de casas utilizando a 'luz engarrafada'.

Mas afinal, como a invenção funciona? A reposta é simples: pela refração da luz do sol numa garrafa de dois litros cheia d'água.

"Adicione duas tampas de cloro à água da garrafa para evitar que ela se torne verde (por causa da proliferação de algas). Quanto mais limpa a garrafa, melhor", explica Moser.

Moser protege o nariz e a boca com um pedaço de pano antes de fazer o buraco na telha com uma furadeira. De cima para baixo, ele então encaixa a garrafa cheia d'água.

"Você deve prender as garrafas com cola de resina para evitar vazamentos. Mesmo se chover, o telhado nunca vaza, nem uma gota", diz o inventor.

Outro detalhe é que a lâmpada funciona melhor se a tampa for encapada com fita preta.





A ideia de Moser já é utilizada em mais de 15 países onde energia é escassa

"Um engenheiro veio e mediu a luz. Isso depende de quão forte é o sol, mas é entre 40 e 60 watts", afirma Moser.
Apagões

A inspiração para a "lâmpada de Moser" veio durante um período de frequentes apagões de energia que o país enfrentou em 2002. "O único lugar que tinha energia eram as fábricas, não as casas das pessoas", relembra.

Moser e seus amigos começaram a imaginar como fariam um sinal de alarme, no caso de uma emergência, caso não tivessem fósforos.

O chefe do inventor sugeriu na época utilizar uma garrafa de plástico cheia de água como lente para refletir a luz do sol em um monte de mato seco e assim provocar fogo.

A ideia ficou na mente de Moser que então começou a experimentar encher garrafas para fazer pequenos círculos de luz refletida.

Não demorou muito para que ele tivesse a ideia da lâmpada.

Quanto gasta de energia?

As lâmpadas feitas com as garrafas plásticas não necessitam de energia para serem produzidas, já que o material pode ser coletado e reaproveitado pelos moradores da própria comunidade.
A 'pegada de carbono' - unidade que mede o quanto de CO2 é dispensado na atmosfera para se produzir algo - de uma lâmpada incandescente é 0,42kg de CO2.
Uma lâmpada de 50 watts, ligada por 14 horas por dia, por um ano, tem 'pegada de carbono' de quase 200kg de CO2.
As lâmpadas de Moser também não emitem CO2 quando 'ligadas'.

Fonte: ONU

"Eu nunca fiz desenho algum da ideia".

"Essa é uma luz divina. Deus deu o sol para todos e luz para todos. Qualquer pessoa que usar essa luz economiza dinheiro. Você não leva choque e essa luz não lhe custa nem um centavo", ressalta Moser.
Pelo mundo

O inventor já instalou as garrafas de luz na casa de vizinhos e até no supermercado do bairro.

Ainda que ele ganhe apenas alguns reais instalando as lâmpadas, é possível ver pela casa simples e pelo carro modelo 1974 que a invenção não o deixou rico. Apesar disso, Moser aparenta ter orgulho da própria ideia.

"Uma pessoa que eu conheço instalou as lâmpadas em casa e dentro de um mês economizou dinheiro suficiente para comprar itens essenciais para o filho que tinha acabado de nascer. Você pode imaginar?", comemora Moser.

Carmelinda, a esposa de Moser por 35 anos, diz que o marido sempre foi muito bom para fazer coisas em casa, até mesmo para construir camas e mesas de madeira de qualidade.

Mas parece que ela não é a única que admira o marido inventor.

Illac Angelo Diaz, diretor executivo da fundação de caridade MyShelter, nas Filipinas, parece ser outro fã.




Moser afirma que a lâmpada funciona melhor se a boca for coberta por fita preta

A instituição MyShelter se especializou em construção alternativa, criando casas sustentáveis feitas de material reciclado, como bambu, pneus e papel.

Para levar à frente um dos projetos do MyShelter, com casas feitas totalmente com material reciclado, Diaz disse ter recebido "quantidades enormes de garrafas".

"Nós enchemos as garrafas com barro para criamos as paredes. Depois enchemos garrafas com água para fazermos as janelas", conta.

"Quando estávamos pensando em mais coisas para o projeto, alguém disse: 'Olha, alguém fez isso no Brasil. Alfredo Moser está colocando garrafas nos telhados'", relembra Diaz.

Seguindo o método de Moser, a entidade MyShelter começou a fazer lâmpadas em junho de 2011. A entidade agora treina pessoas para fazer e instalar as garrafas e assim ganharem uma pequena renda.

Nas Filipinas, onde um quarto da população vive abaixo da linha da pobreza (de acordo com a ONU, com menos de US$ 1 por dia) e a eletricidade é muito cara, a ideia deu tão certo, que as lâmpadas de Moser foram instaladas em 140 mil casas.

As luzes 'engarrafadas' também chegaram a outros 15 países, dentre eles Índia, Bangladesh, Tanzânia, Argentina e Fiji.

Diaz disse que atualmente pode-se encontrar as lâmadas de Moser e comunidades vivendo em ilhas remotas. "Eles afirmam que eles viram isso (a lâmpada) na casa do vizinho e gostaram da idéia".

Pessoas em áreas pobres também são capazes de produzir alimentos em pequenas hortas hidropônicas, utilizando a luz das garrafas para favorecer o crescimento das plantas.



"Alfredo Moser mudou a vida de um enorme número de pessoas, acredito que para sempre"


Illac Angelo Diaz, diretor executivo da fundação de caridade MyShelter nas Filipinas

Diaz estima que pelo menos um milhão de pessoas irão se beneficiar da ideia até o começo do próximo ano.

"Alfredo Moser mudou a vida de um enorme número de pessoas, acredito que para sempre", enfatiza o representante do MyShelter.

"Ganhando ou não o prêmio Nobel, nós queremos que ele saiba que um grande número de pessoas admiram o que ele está fazendo".

Mas será que Moser imagina que sua invenção ganharia tamanho impacto?

"Eu nunca imaginei isso, não", diz Moser emocionado.

"Me dá um calafrio no estômago só de pensar nisso".

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

royalties do petróleo: 6 mil creches, especialmente para crianças pobres


Aprovação dos royalties do petróleo representa “vitória histórica”, diz Dilma

SUL 21




Dilma informou que vai sancionar o texto nos próximos dias “para garantir que os recursos comecem a chegar o quanto antes às creches, às escolas, aos hospitais e aos postos de saúde de todo o nosso país” | Foto: Antônio Cruz / ABr


Da Agência Brasil


A aprovação pela Câmara dos Deputados do Projeto de Lei (PL) 323/07, que destina 75% dos recursos dos royalties do petróleo para investimentos em educação e 25% para a saúde, representou uma “vitória histórica”, disse nesta segunda-feira (19) a presidenta Dilma Rousseff. Ela informou que vai sancionar o texto nos próximos dias “para garantir que os recursos comecem a chegar o quanto antes às creches, às escolas, aos hospitais e aos postos de saúde de todo o nosso país”. A lei também destina 50% do Fundo Social para a educação.

Ao participar, nesta segunda-feira, do programa semanal Café com a Presidenta, Dilma enfatizou a importância da educação para que o Brasil entre na economia do conhecimento, dominando as invenções científicas e as aplicações tecnológicas. Ele destacou que nenhuma nação do mundo chegou ao patamar de país desenvolvido, sem investir muito em educação e ressaltou que a aprovação do texto legal está em sintonia com a vontade da sociedade brasileira.

“Nossos senadores e deputados aperfeiçoaram e votaram a proposta que sempre defendi e que meu governo enviou ao Congresso, para que as riquezas do petróleo, que são finitas e um dia acabam, sejam investidas em educação. Ao garantir esses recursos para a educação, estamos dando um passo decisivo para realizar o compromisso com o presente e com o futuro do país e deixar um grande legado às novas gerações de brasileiros e de brasileiras”, disse.

Durante o programa, a presidenta explicou que os royalties são os recursos que as empresas pagam para o governo como compensação financeira pela exploração do petróleo, em terra ou no mar. De cada barril de petróleo que as empresas tiram, entre 10% a 15% são divididos entre o governo federal, os estados e os municípios. Com a nova lei, a parte dos royalties que cabe ao governo federal será gasta na educação e na saúde, o que representa R$112 bilhões a mais para financiar os dois setores nos próximos dez anos.

“Estes R$112 bilhões são apenas os recursos decorrentes do petróleo que já foi descoberto ou que já está sendo extraído. Como nós vamos continuar a descobrir e a explorar cada vez mais, este valor pode subir na medida em que vamos abrindo novas licitações, colocando novas áreas para a exploração do petróleo”, disse, lembrando que em outubro o governo vai licitar o Campo de Libra, que fica no fundo do mar, a 160km do litoral do Rio de Janeiro. Essa camada do pré-sal foi descoberta pela Petrobras em 2006 e tem produção estimada entre 8 e 12 bilhões de barris de petróleo.

“Só o Campo de Libra contribuirá para que o saldo do Fundo esteja entre R$ 360 bilhões e R$ 736 bilhões nos próximos 35 anos”, disse, ressaltando que a lei definiu a educação básica como prioritária para a aplicação dos recursos. Dilma destacou que até 2014 o governo espera construir 6 mil creches, especialmente para crianças pobres.

domingo, 18 de agosto de 2013

a música que faria Mahler chorar


O Sistema Venezuelano ou ‘Uma tormenta tropical sobre Salzburgo’




José Antonio Abreu, o criador do El Sistema | Foto: Harvard University


Milton Ribeiro no SUL 21


El Sistema (“O Sistema”) é um modelo de ensino musical que foi criado na Venezuela por José Antonio Abreu. Consiste em um projeto de educação musical público gratuito e altamente capilarizado, voltado a crianças e jovens de todas as camadas sociais.

El Sistema é gerido pela Fundación del Estado para el Sistema Nacional de las Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela (FESNOJIV), órgão estatal venezuelano responsável pela manutenção de mais de 125 orquestras (sendo 30 sinfônicas) e coros juvenis, e pela educação de mais de 400.000 estudantes, em 180 núcleos distribuídos pelo território venezuelano.

Segundo a definição da própria FESNOJIV, “El Sistema visa organizar sistematicamente a educação musical e promover a prática coletiva da música através de orquestras sinfônicas e coros, como meio de organização e desenvolvimento das comunidades”. Evidentemente, a importância do método não se limita a seus excelentes resultados artísticos. A maior parte dos jovens músicos de El Sistema provém das camadas mais carentes da população que, na música, encontra uma via de desenvolvimento intelectual e de ascensão social. El Sistema tem como objetivo principal a proteção social dos jovens mais pobres e também a sua reabilitação, nos casos de envolvimento com práticas criminosas.



A maior parte dos jovens do El Sistema provém das camadas mais carentes da população | Foto: FESNOJIV


José Antonio Abreu, economista e músico, fundou El Sistema em 1975, com o nome de Acción Social para la Música, e tornou-se seu diretor. Desde então, conseguiu desenvolver o projeto com o apoio de instituições governamentais que, ao longo de quase 40 anos, foram ora progressistas, ora conservadoras. O governo de Hugo Chávez foi o mais generoso com El Sistema, chegando a bancar quase inteiramente seu orçamento.

O projeto é ligado ao Ministério da Família, do Esporte e da Saúde, não ao Ministério da Cultura.

Alguns d seus estudantes tornaram-se estrelas internacionais da música erudita, a exemplo dos maestros Gustavo Dudamel, Dietrich Paredes, Christian Vasquez e Diego Matheuz, do contrabaixista da Filarmônica de Berlim Edicson Ruiz, do violista Joen Vazquez, do flautista Pedro Eustache, do violinista e maestro Edward Pulgar e da maestrina Natalia Luis-Bassa.

Em 2004, foi feito um documentário sobre El Sistema, dirigido por Alberto Arvelo, intitulado Tocar y Luchar. O filme obteve vários prêmios, como o de melhor documentário no Cine Las Americas International Film Festival e no Albuquerque Latino Film Festival. Em 2008, foi produzido um outro filme, El Sistema, dirigido por Paul Smaczny e Maria Stodtmeier.


A seguir, traduzimos uma embasbacada matéria de Jesús Ruiz Mantilla para o El País, de Madrid. Trata-se de uma reportagem a respeito de uma excursão que uma das orquestras do El Sistema — a Orquestra Sinfônica Nacional Infantil da Venezuela – fez ao Festival de Salzburgo, dias trás.



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Tormenta Tropical em Salzburgo


Marina Mahler tem medo de voar. Por isso, até ontem, a neta do grande compositor austríaco Gustav Mahler não pudera confirmar a veracidade das histórias que lhe chegavam da Venezuela. Lá, contaram-lhe, uns meninos de 8 a 14 anos eram capazes de interpretar a Primeira Sinfonia de seu avô. E o faziam com um vigor, um entusiasmo e um senso de estilo que muitos profissionais desejariam para si.

Porém, ontem pela manhã, no Festival de Salzburgo, ela mesma pode assistir o milagre com os olhos marejados. “A música transforma, é verdade. E essas crianças alcançaram e têm em comum com meu avô as emoções necessárias para interpretá-lo”, afirmou Marina.

Ela sabe do que fala. Quando Ruben Rodriguez, de 13 anos, primeiro contrabaixo da Orquestra Sinfônica Nacional Infantil da Venezuela atacou o terceiro movimento da Titan, esta dança doce e assustadora que Mahler compôs com a memória traumática, trazida de sua infância, de um enterro de uma criança, os outros 207 outros músicos da orquestra o acompanharam com inusitada experiência.




Dudamel com a Orquestra Simón Bolívar | Foto: FESNOJIV


Talvez eles saibam como ninguém o significado de uma facada que mata um membro de sua família ou um colega nos bairros em que vivem, na periferia de Caracas, Maracaibo, Barquisimeto, Victoria, Coro, Cumaná, Valência… Locais de onde saíram todos estes presentes e futuros músicos. Os que ontem se apresentaram com Simon Rattle, neste templo da música ocidental e na presença de José Antonio Abreu, são, em sua maioria, de extração social muito pobre.

O que ocorreu nesta edição do Festival de Salzburgo pareceu a todos um fenômeno, diz o chefe do evento, Alexander Pereira, com a concordância de Rattle. “Este é o mais importante evento educacional que vi, não apenas nos últimos anos, mas em toda a minha vida”, comentou o diretor da Filarmônica de Berlim.

E o público concordou, comparecendo em massa às 16 aparições que músicos venezuelanos fizeram este ano em Salzburgo: a primeira com a Orquestra Simon Bolívar, depois, com o Coro de Mãos Brancas — composto por surdos-mudos e portadores de necessidades especiais – e hoje com a atuação da Orquestra Infantil.

O que ocorreu foi, nem mais nem menos, uma avalanche de talento tropical sobre a mais pura tradição europeia — e ainda por cima na cidade de Mozart. Algumas décadas atrás, ninguém poderia imaginar que um fato assim fosse possível. Foi a confirmação de um fenômeno que atrai a atenção mundial: o chamado “O Sistema”.




O maestro titular da Filarmônica de Berlim, Simon Rattle | Foto: Reprodução


A história do Sistema desde os anos setenta até hoje é a história de um desafio constante, de um desafio lançado contra uma série de convenções e convicções. É um conto com final feliz que envolve ascensão social e fé irrevogável nas pessoas. “Eu não sei se o Sistema pode ser implementado em qualquer país”, diz Rattle. “Eu acho que é mais fácil em locais com fortes raízes musicais. Ele pode funcionar em locais como África do Sul, Venezuela ou Finlândia… Mas, pensando bem, talvez seu êxito seja devido aos esforços de um homem. A África do Sul contou com Mandela; a Venezuela, com Abreu “, assegura o maestro de Liverpool.

É este o campeonato onde joga Abreu. O campeonato dos grandes líderes humanitários, acima de governos e dos buracos negros da história. A partir de agora, acredita Abreu, nenhum país deixará de duvidar da eficácia pedagógica do que foi implantado por ele.

Os resultados sociais são espetaculares. A música dá sentido à vida das crianças, cria uma forte identidade e um orgulho especial, essencial para enfrentar as duras realidades que os cercam. Se isso não fosse o suficiente, a estes resultados sociais se unem os artísticos. Quando uma criança prefere passar horas e horas praticando em um núcleo em vez de sair para a rua, onde o aguarda uma realidade de crimes, armas de fogo e exclusão social, o Sistema se justifica. Como se não bastasse, produz artistas (muitos) de forma natural.

Assim foi sido demonstrado na cidade austríaca. Simon Rattle chama “O Sistema” de “O Vírus”, uma doença contagiosa que toma os meninos e os empurra na direção de suas próprias capacidades individuais e coletivas.

A joia de Abreu é Gustavo Dudamel, joia adotada na Europa pelo próprio Rattle e sobre o qual é colocado o favoritismo para substituir o inglês na Filarmônica de Berlim em 2018. Sobre isso, Rattle é cauteloso: “A Orquestra Filarmônica de Berlim é absolutamente democrática, eles escolhem os regentes de forma soberana”. Mas não é isenta de interesses e ataques como os que ele mesmo recebeu no início de sua gestão por partidários de Daniel Barenboim. Às vezes, os membros do conclave berlinense assemelham-se ao Vaticano. “Sim, mas com a vantagem de que eles são capazes de escolher um papa muito mais jovem”, brinca Rattle.




A super estrela Gustavo Dudamel comandando a Orquestra Filarmônica de Los Angeles


Não apenas Dudamel ganhou o mundo. Sem terem completado 30 anos, Diego Mattheuz ou Christian Vasquez já estão fora da órbita de Abreu. E, nesta vitrine de Salzburg, Abreu teve outra surpresa: o maestro Jesus Parra, de 18 anos.

Ontem, Parra estreou a convite de Rattle. Três anos atrás, em Caracas, era um garoto tímido e doce seguia os ensaios do grande Rattle com partituras na mão. Estava ansioso por aprender. Parra regeu com a Orquestra Infantil a Suíte do balé Estância, do compositor argentino Alberto Ginastera, uma celebração da cultura gaúcha com pontos de contato com o nacionalismo do húngaro Bartók.

Parra encarou a partitura com vigor e maturidade, dominando cada um de seus aspectos virtuosos, domando os ares pampeanos, fundindo Argentina e Venezuela e contagiando um público atônito. Foi empolgante. Para se ter uma ideia do entusiasmo, foram 10 minutos de aplausos de uma plateia germânica, que não deixou de fazê-lo até que o último dos músicos deixou o palco.

Para avaliar o sucesso dos venezuelanos em Salzburgo, talvez valha a pena repetir que Marina Mahler tem medo de voar, mas assegurou a este repórter que em pensa superá-lo a fim de entrar num avião para a Venezuela, a fim de conhecer pessoalmente os locais de onde emana a música de ontem que, disse ela, “levaria meu avô às lágrimas”.




Jesus Parra em ação | Foto: FESNOJIV


Traduzido livremente por Milton Ribeiro

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Veja, ouça e chore: pode aplaudir, não tenha medo, são crianças!