quinta-feira, 20 de junho de 2013

O que vem depois...

MPL debate os próximos passos



Por Maria Inês Nassif, no sítio Carta Maior:

Encerrada com uma grande vitória, o cancelamento do aumento dos preços do transporte público na cidade de São Paulo, a mobilização iniciada pelo pequeno coletivo de jovens, com idade entre 20 e 25 anos, que se transformou num grande fenômeno de massas e se espraiou pelas outras capitais do país, termina com desafios maiores ainda. Apesar do grande apoio de partidos de esquerda – inclusive de setores dentro do próprio Partido dos Trabalhadores – e de movimentos sociais, o saldo da mobilização é do Movimento Passe Livre. O MPL continua o grande protagonista desta história e tem que dar respostas rápidas ao enorme contingente de jovens que colocou nas ruas (a maioria deles num primeiro ato político), para impedir a apropriação dessa energia contestadora que o movimento catalisou nas últimas semanas pela direita.


Esta convicção foi o saldo de reuniões que envolveram os integrantes do grupo desde que o movimento contra o aumento do preço do transporte público tomou a dimensão de movimento de massas, na última semana, com partidos de esquerda e movimentos sociais.

No final do dia de ontem (19), quando integrantes do MPL se reuniam com blogueiros, jornalistas que militam fora da órbita da grande mídia, o empresário de comunicação Joaquim Palhares (da Carta Maior) e Sérgio Amadeu, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT) anunciaram a redução das tarifas de ônibus e metrô na capital. Quase que simultaneamente, o MPL tinha notícia da vitória do movimento também no Rio de Janeiro.

Na avaliação feita durante o encontro, o professor de História Lucas Oliveira, o Legume, definiu o MPL como um movimento social de esquerda, reafirmou as características apartidárias do movimento – que não se traduz em antipartidarismo, inclusive porque essa posição está em desacordo com a história do movimento, que sempre manteve ligações com partidos de esquerda.

A análise que integrantes do MPL e pessoas próximas ao movimento fizeram, nessa reunião, é que a massificação do movimento trouxe um contingente de jovens que não tinham história de participação política, à semelhança dos “cara-pintadas” do movimento pelo impeachment do presidente Fernando Collor, em 1991, e que não se sente representado por eles. Daí a reação à militância de partidos de esquerda que foram para as ruas e levaram suas bandeiras. Os jovens do movimento também constatam que atraíram a adesão de grupos mais violentos, que eram extremamente minoritários, mas cuja ação nas manifestações exigiria um trabalho de contenção que o MPL não estava aparelhado para fazer, até pelo exíguo número de integrantes. Registraram também a convicção de que atuaram, durante todo o movimento, agentes provocadores, provavelmente da polícia.

O que vem depois, todavia, é até mais complicado para o “coletivo” de São Paulo – que, segundo Oliveira, não tem uma articulação obrigatória com os movimentos que atuaram nas outras cidades do país nas últimas semanas. “Em algumas cidades nem existia Movimento Passe Livre”, contou.

Não existe uma articulação nacional do movimento; houve uma grande identificação dos jovens com o MPL, que não se transfere aos partidos de esquerda; e existe uma visível articulação de grupos de direita para tentar capitalizar o movimento, em especial nas redes sociais. Amadeu informou, durante o encontro, que na última semana os grupos anônimos de direita assumiram um enorme protagonismo nas redes sociais.

O MPL assume, como tarefa, manter a tarefa de “conversar” com esses jovens – e, embora seja deles cobrada a “politização” de suas bandeiras, existe uma convicção forte no grupo de que devem manter a agenda ligada ao transporte público e à questão da mobilidade urbana. Eles se articulam junto com o vereador Nabil Bonduki para apresentar um projeto instituindo o passe livre na cidade de São Paulo. Pensam também numa articulação nacional em torno da proposta de emenda constitucional de autoria da deputada Luiza Erundina, que define o transporte público como um direito de cidadania.

Leia, abaixo, a nota do Movimento Passe Livre, divulgada após a vitória em São Paulo:

“A cidade não esquecerá o que viveu nas últimas semanas. Aprendemos que só a luta dos de baixo pode derrotar os interesses impostos de cima. A intransigência dos governantes teve de ceder às ruas tomadas, às barricadas e à revolta da população.

Não foi o Movimento Passe Livre, nem nenhuma outra organização, que barrou o aumento. Foi o povo.

O povo constrói e faz a cidade funcionar a cada dia. Mas não tem direito de usufruir dela, porque o transporte custa caro. A derrubada do aumento é um passo importante para a retomada e a transformação dessa cidade pelos de baixo.

A caminhada do Movimento Passe Livre, que não começa nem termina hoje, continua rumo a um transporte público sem tarifa, onde as decisões são tomadas pelos usuários e não pelos políticos e pelos empresários. Se antes eles diziam que baixar a passagem era impossível, a revolta do povo provou que não é. Se agora eles dizem que a tarifa zero é impossível, nossa luta provará que eles estão errados.
Por uma vida sem catracas!

Movimento Passe Livre São Paulo”

à síndrome de Estocolmo?

O Verde da Política violentou o Muro dos Gerentes

Terra Goyazes







Peço licença ao escritor Ignacio de Loyola Brandão para fazer uma paráfrase de sua grande obra: O Verde violentou o Muro. Tudo a ver com a onda de manifestações que tomam conta das grandes cidades brasileiras. O que está acontecendo? me pergunta aflito um amigo, velho militante do PT e apoiador do governo Dilma. O que esse povo quer, se a situação macroeconômica do país, agora, está muito melhor do que esteve no governo dos tucanos? Concordo com ele. A situação geral do país, hoje, é bem melhor do que no período ruinoso dos governos de Fernando Henrique. Mas há algo mais, respondo ao amigo petista. Há uma insatisfação difusa no ar. Mas o povo não está feliz com o governo, conforme atestam as pesquisas? Estava. Nos 08 anos de governo Lula, o povo, de uma forma geral, se encontrou com sua auto-estima perdida. Lula, como o grande estadista intuitivo que é, sabia sinalizar para as multidões aonde o país estava indo. Balizava um caminho, o trabalhava com a ajuda de ícones simples, porém fortes, sinais inequívocos de uma brasilidade há quase esquecida, e arrastava a multidão atrás de si. Esse é o comandante inato, que aponta um caminho no meio da tormenta e toda a tripulação o segue, resoluta. Feita a troca de governo, o povo descobre em Dilma Roussef uma comandante tíbia, hesitante e, pior, disposta a compor com inimigos que, até há pouco, fustigavam sua embarcação. Os atos de Dilma, fritando ovo na Rede Globo e almoçando com os Frias na Folha de São Paulo, passaram uma mensagem subliminar de rendição a um inimigo que até ali lhe dava um combate feroz.

E isso foi só o começo. Ao sentir o gosto de sangue, a matilha da mídia partidarizada e golpista avançou sobre o governo Dilma de uma forma audaciosa e destemida. Acusações, sem provas, derrubaram vários ministros que, sem nenhuma defesa por parte de Dilma, foram sendo demitidos um a um. Pronto. A mídia golpista e a oposição sem votos haviam conseguido estabelecer uma cunha no governo Dilma, mantendo-a encurralada e nas cordas. Dilma, presidente de um governo petista e de esquerda havia beijado a cruz. Dilma, há pouco eleita com 55% dos votos do país, de forma inexorável havia incorporado a pauta nefasta da direita e da mídia golpistas. Se dúvidas haviam, o abandono do Marco Regulatório da Mídia, proposto por Franklin Martins, as dissipou completamente.

Um exemplo cristalino dessa guinada à direita foi o tratamento dado pelo governo às pautas reivindicatórias do movimento sindical e, de forma emblemática, dos servidores públicos. Acostumado a um diálogo respeitoso durante os governos Lula, os sindicatos se surpreenderam com a arrogância e a dureza de Dilma no processo de negociação. Quando a negociação era com as interlocutoras do governo, os sindicalistas descobriram que as ministras Miriam Belchior, Ideli Salvati e Gleisi Hofmann eram mais duras e inflexíveis que a própria presidente. Ouvi, à época, de mais de um militante do movimento sindical: mas esse é o nosso governo? Esse é o mesmo governo que nós elegemos e que daria continuidade ao governo Lula? Além de bater, de forma dura e desrespeitosa, em todo o movimento sindical durante o processo de negociação, Dilma fez, no serviço público, uma inflexão pendular inversa ao que Lula fizera: ao invés de continuar reconstruindo o serviço público e reforçar o poder decisório do Estado na eterna briga com as elites predatórias, Dilma se rendeu à chantagem midiática e empresarial. Estupefação e desencanto foram as reações dos sindicalistas e servidores públicos: ontem, tratados por Lula como parceiros no processo de reconstrução do Estado, dilapidado pelo tucanato; hoje, tratados por Dilma como adversários e inimigos.

O que aconteceu? perguntava-se à época. Dilma havia sucumbido à síndrome de Estocolmo, aquela em que a vítima se apaixona pelo algoz e introjeta em si todos os valores que até então combatia? Ou Dilma havia se rendido à realpolitik e se convencido que governar com as elites e a mídia era menos custoso e menos desgastante? O fato é que Dilma, refugiada num discurso técnico e gerencial, beijara a cruz do Deus-mercado, passando a repudiar a ação política, como se isso fosse possível no cargo de presidente da República. Para não deixar dúvidas quanto aos novos aliados do governo, Dilma completara a inflexão iniciada lá atrás, quando resolveu afrontar sindicalistas e servidores públicos: passou a conceder gordas e generosas desonerações a setores empresariais variados, os mesmos que até há pouco, mordiam-lhe os calcanhares; os mesmos que sempre bradaram pelo Estado mínimo.

Agora, com a voz rouca da ruas chegando até os salões do Planalto, Dilma deve estar se perguntando: o que deu errado? Esse movimento do Passe Livre, já vitorioso em seu embate principal de redução das tarifas, pode dar-se por satisfeito e se desmobilizar. Ou pode também, financiado e orquestrado pelos novos aliados de Dilma (elite empresarial e mídia parcial e golpista, com uma mãozinha da CIA, é claro) partir pra cima do governo Dilma e exigir-lhe, com acusações difusas, o impeachment. Tardiamente, Dilma descobrirá que errou. E descobrirá também que não é Lula, já que seus interlocutores escolhidos são outros.

Uma voz sensata no governo pode lançar o pedido de socorro aos únicos segmentos que podem salvá-la, se a sanha e a escalada golpistas continuarem: os movimentos sociais, os sindicatos, as centrais sindicais e os servidores públicos. Trágica ironia. Nessa hora, seguramente, ouviremos de sindicalistas e servidores públicos o desabafo: é, dona Dilma, nada como um dia após o outro, com uma noite no meio...e correrão a salvá-la, ainda que a contragosto. Pois, sindicalistas e servidores públicos, sabem bem pra que lado a banda toca. E quem são, de fato, aliados e inimigos.

Salvarão Dilma mas apresentarão a fatura ao PT e à Base Aliada: Em 2014, com Dilma, não dá!


Alberto Bilac de Freitas

os riscos de ruptura do próprio sistema democrático


As manifestações de junho e a mídia





Por Venício A. de Lima

Apesar da proximidade cronológica, parece razoável observar que o estopim para as manifestações populares que estão ocorrendo no país foi o aumento das tarifas do transporte coletivo e a repressão violenta da polícia (vitimando, inclusive, jornalistas no exercício de sua atividade profissional) – não só à primeira passeata realizada em São Paulo, mas também à manifestação realizada antes da abertura da Copa das Confederações, em Brasília. A partir daí, um conjunto de insatisfações que vinha sendo represado explodiu.

A primeira reação da grande mídia, bem como das autoridades públicas, foi de condenação pura e simples das manifestações que, segundo eles, deveriam ser reprimidas com ainda maior rigor. No entanto, à medida que o fenômeno se alastrou, autoridades e mídia alteraram a avaliação inicial.

A grande mídia, então, passa a cobrir os acontecimentos como se fosse apenas uma observadora neutra, que nada tem a ver com os fatos que desencadearam – para o bem ou para o mal – todo o processo.

Centralidade da mídia

Nas sociedades contemporâneas, apesar da velocidade das mudanças tecnológicas, sobretudo no campo das comunicações, a centralidade da mídia é tamanha que nada ocorre sem seu envolvimento direto e/ou indireto. Qual teria sido esse envolvimento no desencadeamento das atuais manifestações?

Um primeiro aspecto chama a atenção. Pelo que se sabe as manifestações têm sido convocadas por meio de redes sociais. Isto é, através de um sistema de comunicação independente do controle da grande mídia.

Na verdade, a se confirmar que a maioria dos participantes é de jovens (em Brasília, um dos “convocadores” da “Marcha do Vinagre” tem apenas 17 anos), trata-se de um segmento da população que se informa prioritariamente pelas redes sociais na internet e não pela grande mídia – jornais, revistas, radio, televisão.

Apesar disso, um aspecto aparentemente contraditório, mas fundamental – revelado inclusive em cartazes dispersos nas manifestações – é que os manifestantes se consideram “sem voz pública”, isto é, sem espaço para expressar e ter a voz ouvida.

Desnecessário lembrar que a grande mídia ainda exerce, na prática, o controle do acesso ao debate público, vale dizer, das vozes que se expressam e são ouvidas.

Além disso, a cultura política que vem sendo construída e consolidada no Brasil, pelo menos desde que a televisão se transformou em “mídia de massa” hegemônica, tem sido de desqualificação permanente da política e dos políticos. E é no contexto dessa cultura política que as novas gerações estão sendo formadas – mesmo não se utilizando diretamente da velha mídia.

Emerge, então, uma questão delicada.

A mídia e o system blame

Independentemente das inúmeras e verdadeiras razões que justificam a expressão democrática de uma insatisfação generalizada por parte de parcela importante da população brasileira, não se pode ignorar o papel da grande mídia na construção dessa cultura política que desqualifica sistematicamente a política e os políticos. E mais importante: não se pode ignorar os riscos potenciais para o regime democrático da prevalência dessa cultura política.

Recorri inúmeras vezes, ao longo dos anos, a uma arguta observação da professora Maria do Carmo Campello de Souza (já falecida) ao tempo da transição para a democracia, ainda no final da década de 1980.

Em capítulo com o título "A Nova República brasileira: sob a espada de Dâmocles", publicado em livro organizado por Alfred Stepan Democratizando o Brasil (Paz e Terra, 1988), ela discute, dentre outras, a questão da credibilidade da democracia. Nas rupturas democráticas, afirma ela, as crises econômicas têm menor peso causal do que a presença ou ausência do system blame (literalmente, "culpar o sistema"), isto é, a avaliação negativa do sistema democrático responsabilizando-o pela situação.

Citando especificamente os exemplos da Alemanha e da Áustria na década de 1930, lembra Campello de Souza que "o processo de avaliação negativa do sistema democrático estava tão disseminado que, quando alguns setores vieram em defesa do regime democrático, eles já se encontravam reduzidos a uma minoria para serem capazes de impedir a ruptura".

A análise da situação brasileira, há mais de duas décadas, parece mais atual do que nunca. A contribuição insidiosa da mídia para o incremento do system blame é apontada como um dos obstáculos à consolidação democrática. Vale a pena a longa citação:

A intervenção da imprensa, rádio e televisão no processo político brasileiro requer um estudo linguístico sistemático sobre o "discurso adversário" em relação à democracia, expresso pelos meios de comunicação. Parece-nos possível dizer (...) que os meios de comunicação tem tido uma participação extremamente acentuada na extensão do processo de system blame (...). Deve-se assinalar o papel exercido pelos meios de comunicação na formação da imagem pública do regime, sobretudo no que se refere à acentuação de um aspecto sempre presente na cultura política do país – a desconfiança arraigada em relação à política e aos políticos – que pode reforçar a descrença sobre a própria estrutura de representação partidária-parlamentar (pp. 586-7). (...)

O teor exclusivamente denunciatório de grande parte das informações acaba por estabelecer junto à sociedade (...) uma ligação direta e extremamente nefasta entre a desmoralização da atual conjuntura e a substância mesma dos regimes democráticos. (...) A despeito da evidente responsabilidade que cabe à imensa maioria da classe política pelo desenrolar sombrio do processo político brasileiro, os meios de comunicação a apresentam de modo homogeneizado e, em comparação com os dardos de sua crítica, poupam outros setores (...). Tem-se muitas vezes a impressão de que corrupção, cinismo e desmandos são monopólio dos políticos, dos partidos ou do Congresso (...). (pp.588-9, passim).

Avanços e riscos

As manifestações populares devem, por óbvio, ser vistas por aqueles em posição de poder como uma oportunidade de avançar, de reconsiderar prioridades e políticas públicas.

Do ponto de vista da grande mídia, é indispensável que se reflita sobre o tipo de cobertura política que vem sendo oferecida ao país. Encontrar o ponto ideal entre a fiscalização do poder público e, ao mesmo tempo, contribuir para o fortalecimento e a consolidação democrática, não deveria constituir em objetivo da grande mídia? A quem interessa a ruptura democrática?

Apesar de ser um tema delicado e difícil – ou exatamente por essa razão – é fundamental que se considere os limites entre uma cobertura sistematicamente adversária da política e dos políticos e os riscos de ruptura do próprio sistema democrático.

A ver.

não se fomenta a turba impunemente... turba não é povo, é linchamento


Dizei-me com quem andais que vos direi quem sois

Posted by eduguim on 19/06/13 • Blog da Cidadania




O adágio popular cabe como uma luva para uma situação que está não apenas destruindo a imagem do Brasil perante o mundo, mas prejudicando a economia, gerando medo, violência e incerteza entre a sociedade e, o que é pior, sem uma justificativa inteligível.

É triste ver um país em que o padrão de vida melhorou tanto ao longo da última década se deixar levar por um modismo inconsequente que está por arrasar todas as conquistas obtidas com tanto custo nesse período.

Os últimos acontecimentos durante os protestos pelo país, em questão de horas serviram para que os ideólogos da “primavera brasileira” parassem e pensassem que sem Estado e política o que sobra é o caos.

A constante criminalização da política e a militância política travestida de jornalismo fundamentaram a tese dos que querem abolir todas as instâncias democráticas em troca de uma causa que não se apresenta, oculta sob frases feitas e generalistas.

Aos poucos, porém, as pessoas vão se dando conta da verdade. Sobretudo aquelas que se encastelaram no poder e esqueceram que não se governa um país sem fazer política, e que se mancomunam até com o diabo contanto que ele concorde com elas.

Os que acusam Dilma de se aliar a partidos cheios de picaretas em prol da governabilidade ou de se encolher de medo diante de um “jornalismo” mafioso, porém, decidiram ir às ruas ao lado de psicopatas de ultradireita que se aproveitam dos protestos para tocar o terror.

Quem diz que as manifestações são pacíficas e só reagem à violência de uma polícia inegavelmente despreparada, violenta e até corrupta se calam quando fica claro que não precisa polícia nenhuma para o vandalismo eclodir.

Nos últimos dias, a polícia que deu sua contribuição ao vandalismo se recolheu e os protestos degringolaram para a violência do mesmo jeito. E, pasme-se, agora acusam as autoridades de não acionarem a mesma… Polícia!

E quanto à tese de que a própria polícia praticava o terror com infiltrados, apesar do caráter comprovadamente violento dela caiu por terra com as cenas dos últimos dias pelas ruas do país, até porque os autores dessa tese se calaram.

Os que geraram o ambiente que permitiu o caos apesar de não participarem dele, têm que assumir que jogaram centenas de milhares na rua, marcharam ao lado deles e quando desencadearam o terror, agora dizem que nada têm com isso.

Já o governo que pretende governar sem fazer política acaba de ter confirmada a sua queda de popularidade. O instituto Ibope concorda com o Datafolha e mostra que Dilma perdeu popularidade.

Quem prega que ela se mantenha na rota do mutismo e da ojeriza à política se aferra à comparação com a popularidade de outros presidentes com o mesmo tempo de mandato sem levar em conta que a trajetória da presidente é de queda.

Esta, continua dando declarações curtíssimas, não fala ao povo, não lidera o país justamente no momento em que este precisa de liderança, que está sendo usurpada não só do governo, mas da oposição e até da mídia por um grupo de jovens de classe média e alguns vovôs que tentam recuperar a juventude perdida.

Na última terça-feira, assistindo aos telejornais, constato que “um grupo pequeno” tocou o terror pelo país afora, sobretudo no centro de São Paulo. Em um desses telejornais, assisto a 30 minutos incessantes de quebradeira praticada por um “grupo pequeno”.

A avaliação dos telejornais é de que centenas de pessoas destruíram a fachada da prefeitura de São Paulo e arrombaram, depredaram e saquearam dezenas de estabelecimentos comerciais, sem falar em certa rede de televisão que estimulou ao vivo os manifestantes a invadirem a prefeitura ao dizer “culpado por tudo” o prefeito que está há cinco meses no cargo.

Os manifestantes pacíficos que marcharam ao lado de dementes de ultradireita descobrem que estavam em má companhia e, como se tivessem chegado agora e não tivessem nada com isso, querem impedi-los de barbarizar.

Você leva uma matilha de lobos ao centro de uma cidade e quando começam a devorar as pessoas diz que não tem nada com isso porque não está devorando ninguém.

Ninguém tem coragem de dizer isso e, também, que o preço das passagens não tem nada que ver com o peixe.

Várias cidades de todo país cederam aos manifestantes, reduziram o preço da passagem e as manifestações continuaram, com os bandidos que marcharam ao lado dos pacíficos quebrando tudo.

Não é um milagre que “apenas” mutilações e ferimentos entre graves, médios e leves tenham ocorrido entre policiais e manifestantes? Chega a ser inacreditável que ainda não morreu ninguém. Mas, sendo racional, não se pode acreditar que isso não irá mudar.

O que espanta e deprime é ver que ninguém diz o que é preciso porque foi montada uma rede de difamação e intimidação, um verdadeiro tribunal ideológico com pistoleiros ideológicos agindo para calar qualquer divergência.

Nesse processo, muitos que confidenciam em privado que reconhecem o verdadeiro caráter desse movimento que tanto está prejudicando o Brasil por uma causa que ninguém sabe qual é, mas publicamente se omitem, concordam com ele e até o exaltam.

Tudo por medo dos tribunais e dos justiçamentos ideológicos.

Quando as pessoas chegam a ter medo de dizer opiniões legítimas por conta de que serão tachadas de “reacionárias”, “falsos esquerdistas” etc., instalou-se um processo inquisitorial no país.

Desde o primeiro momento, este espaço acusou o risco que representava jogar nas ruas massas incontroláveis. Ao contrário do que dizem alguns pistoleiros ideológicos, aqui jamais houve mudança de rota.

O que tem sido dito é que se deixarem essas manifestações ocorrerem sem contraponto, irão gerar uma tragédia política, econômica e física para o país e que, portanto, se não se pode impedir as pessoas de exercerem o direito de irem à rua, há que ir também e tentar pregar bom senso.

Isso, claro, se não se puder instilar bom senso na sociedade, que precisa entender que um país não pode ser governado por grupos que vão às ruas, mas através daqueles que a maioria eleger pelo voto livre e consciente.

O que sempre foi dito aqui é que não se pode levar massas incontroláveis às ruas e quando saírem previsivelmente de controle ninguém se responsabilizar. E que é antiético inventar uma bandeira fictícia de redução do preço das passagens quando a motivação é outra.

a coragem do anonimato das redes e na ruas a televisão faz o resto, caímos no colo dos fascistas!?

Voz das ruas
Sai a patente, entra o genérico


publicada quinta-feira, 20/06/2013 às 15:06 e atualizada quinta-feira, 20/06/2013 às 15:18


Escrevinhador


por Marco Piva




A atual onda de protestos por todo o país ainda vai render teses e mais teses durante longos anos. Para a academia, será um prato cheio. Já para os partidos políticos, não sei se terão esse tempo para refletir e se atualizar. As manifestações iniciadas timidamente por uma parcela da juventude organizada da esquerda radical em torno do aumento da tarifa do transporte público ganhou projeção nacional e internacional quando aconteceram duas coisas simultâneas: 1) a violência desproporcional da repressão policial de São Paulo; e 2) a mudança de posição da grande imprensa em relação ao movimento. Foram ações rápidas, que hoje se tornam quase imperceptíveis por conta da dimensão que os protestos alcançaram, mas que não podem ser desprezadas.

No segundo protesto em São Paulo, o Estadão pediu, em editorial, o rigor da repressão da polícia contra os manifestantes e o comentarista das Organizações Globo, Arnaldo Jabor, vociferou contra os “vândalos”. Um dia após a PM paulista cumprir o que havia sido pedido pela imprensa e pela parcela conservadora da sociedade, veio a contraordem na mídia, certamente impulsionada pela análise de conjuntura realizada às pressas num edifício luxuoso de Higienópolis. Sem violência e todo apoio aos protestos foram o resultado desse encontro. A coisa virou da água para o vinho – ou vinagre, como queiram.

Nesse ponto de inflexão ganham destaque nas manifestações as palavras de ordem genéricas, mas com objetivos muito específicos: “contra a PEC 37”, “abaixo a corrupção”, “contra os gastos públicos na Copa”, “fora Dilma e o PT” etc. Para uma multidão legitimamente interessada em mostrar sua “força”, nada melhor do que ser transformada em personagem de uma novela que só a televisão pode promover da noite para o dia. É esse o sentido do mea-culpa de Jabor e o espaço que a grande imprensa passou a adotar editorialmente a partir do terceiro protesto.

Os partidos foram pegos de surpresa – todos eles – e é nesse vazio de representação institucional que a mídia cumpre seu papel de facção política sob o pretexto de “informar” o que está acontecendo no país. É como se acabasse o registro da patente e no lugar entrasse o genérico. Debate sério mesmo sobre as causas e consequências dos protestos, nem de longe, com a honrosa exceção do programa “Roda Viva”, da TV Cultura. Daí que o mote aprovado em Higienópolis pegou rápido: “Não são só os 20 centavos!”.

Claro que não! Agora a situação é séria. As palavras de ordem se multiplicam com endereço certo: os governos e os legislativos. Ora, qual partido detem hoje boa parte da hegemonia política no país? Bingo! A multidão de brasileiros indignados caiu de graça no colo dos protofascistas que, na ausência de capacidade para organizar a população e confrontar a esquerda, faz uma “barriga de aluguel” convenientemente apolítica e nacionalista.

Paralelamente, a demora do prefeito Fernando Haddad em reduzir a tarifa é sintomática da surdez crônica que se abateu sobre diversas lideranças petistas que, ao assumirem o controle administrativo de governos e planilhas, creem que isso é suficiente para a implementação das mudanças que o Brasil ainda precisa fazer se quiser seguir o caminho iniciado em 2002 com a eleição de Lula. Acomodação não é boa companheira em nada que se faz na vida, por isso muitos casamentos acabam. No caso, a incompreensão da direção nacional do PT, que tardou em se manifestar, provocou um divórcio com as massas, hoje magnetizadas por uma comunicação de novo tipo. Pode ser um rompimento passageiro, mas o reatamento conjugal exige ações imediatas e sinceras.



A primeira delas é a disputa do sentido político dos protestos. Como fazer isso sem estar presente? Se é impossível levantar uma bandeira de partido entre os manifestantes, que se levantem as vozes com palavras de ordem que sejam coerentes e façam coro com o sentimento criado nas ruas. Um movimento que não tem liderança nem organização é palco para tudo e é palco para nada. O alívio em ver parte das pessoas voltando para casa depois da redução forçada do aumento das tarifas não deve supor que as coisas vão se acalmar e que tudo seguirá como antes. Pelo contrário! A oposição protofascista saiu da retaguarda e quer conquistar a vanguarda da indignação nacional contra tudo e contra todos, considerando que estrategicamente esse é o melhor momento para ela nos últimos doze anos. Por isso, vai insistir pelo seu braço de convocatória, que é a televisão, a reprodução à exaustão dos protestos e de suas palavras de ordem. Cantando o hino nacional e pondo a bandeira do Brasil nas costas, com foco editado nos cartazes, é mamão com açúcar.

A segunda ação é a disputa da internet onde já se nota claramente um terreno fértil para a disseminação de “nós de rede” ligados à direita, de acordo com levantamento da empresa Interagentes, citado no Blog do Rovai. Se na primeira manifestação prevalecia as convocatórias do Movimento Passe Livre, hoje a situação está mudando rapidamente com predomínio de conexões que buscam ligar os protestos a ações de combate e, se possível, destituição de Dilma Roussef. Um exemplo é a convocatória de greve geral para o próximo dia 26. No artigo “É hora de defender o Movimento Passe Livre”, publicado originalmente no site Viomundo, os professores Lincoln Secco e Antonio David afirmam: “As redes sociais permitem que indivíduos falem diretamente entre si sem a mediação de organizações, salvo o mercado virtual. Pessoas assim podem partir para a ação e expor ingenuamente os seus preconceitos e sua ‘coragem’ (sic) escondida no anonimato da rede”. Nas ruas, a televisão faz o resto.

Portanto, não estamos apenas diante de um fenômeno tecnológico que permite a mobilização instantânea de multidões sob o manto de uma indignação que até ontem não existia ou estava tão bem guardada que ninguém notou. Na prática, estamos diante do mesmo desafio histórico de sempre: a disputa política que cobra seu preço pela letargia comodista da esquerda em acreditar que chegar ao governo é chegar ao poder.

Marco Piva é jornalista e seu filho de 16 anos participou da quinta manifestação (11/6). Diz o filho dele que não irá mais se a palavra de ordem é derrubar o governo do PT.






Leia outros textos de Outras Palavras

um dia de democracia e de liberdade, não de violência e depredação


Governo Tarso responde aos protestos e pede que nova manifestação seja sem violência




Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Rachel Duarte no SUL 21

O governo gaúcho emitiu nota oficial no final da tarde desta quarta-feira (19), em resposta ao que considera ser a pauta de reivindicações dos protestantes que marcham no estado desde segunda-feira (17). Em dez parágrafos, o texto se refere a posições do governo sobre investimentos em saúde e educação, dispositivos de transparência e controle à corrupção e disposição em renunciar impostos para redução da tarifa do transporte coletivo. A nota salienta ainda que o governador Tarso Genro (PT) é publicamente contrário ao Estatuto do Nascituro e a manifestações de homofobia, e também a PEC 37 (medida que retira do Ministério Público poder de investigação).

Os temas citados na nota oficial do governo estadual apareceram nos cartazes de manifestantes nos últimos protestos, embora os atos tenham reunido milhares de pessoas que possam ter tido outras motivações para estarem nas ruas. O executivo estadual reconheceu as reivindicações populares e disse que vai incorporar aquelas que não estiverem representadas em políticas públicas já em curso no estado.

Sobre a redução do ICMS sobre o óleo diesel das empresas de transporte coletivo, o governo avisou em nota que a isenção irá depender da demonstração da Prefeitura de Porto Alegre de que esse abatimento incidirá na planilha de custos que compõem o cálculo da tarifa e não no valor final da passagem.

“O Governo do Estado é contra a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 37. O governador Tarso Genro já declarou publicamente ser contrário à PEC 37 e está à disposição para participar de ações políticas concertadas para que tal emenda não seja aprovada. O Governo do Estado também é contrário à proposta ora apresentada para o Estatuto do Nascituro. E, rejeitamos qualquer tentativa de criminalizar a orientação sexual de quem quer que seja. O Governo do Rio Grande do Sul combate todo o tipo de violência baseada em preconceito, seja de orientação sexual, gênero, etnia ou religião”, diz a nota.

Por fim, o governo gaúcho reforçou que a orientação à Brigada Militar para atuação nos protestos é de preservar as vidas, mas que conta com o próprio movimento para que sejam inibidas violências contra pessoas, instituições ou patrimônios. “Que amanhã seja um dia de democracia e de liberdade, não de violência e depredação, como tem ocorrido em outras capitais do país”, assina o governo ao final do documento, já mencionando o protesto marcado para esta quinta-feira (20) em Porto Alegre.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

democracia é barulho


Tem muito barulho nas ruas? Quem gosta de silêncio prefere ditaduras







Proposta concreta


Há várias maneiras de esconder uma grande manifestação. Você pode fazer como a Rede Globo e esconder uma passeata a favor das Diretas-Já, afirmando que a população nas ruas está lá para, na verdade, comemorar o aniversário da cidade de São Paulo.


Mas você pode transformar manifestações em uma sucessão de belas fotos de jovens que querem simplesmente o "direito de se manifestar". Dessa forma, o caráter concreto e preciso de suas demandas será paulatinamente calado.


O que impressiona nas manifestações contra o aumento do preço das passagens de ônibus e contra a imposição de uma lógica que transforma um transporte público de péssima qualidade em terceiro gasto das famílias é sua precisão.


Como as cidades brasileiras transformaram-se em catástrofes urbanas, moldadas pela especulação imobiliária e pelas máfias de transportes, nada mais justo do que problematizar a ausência de uma política pública eficiente.


Mas, em uma cidade onde o metrô é alvo de acusações de corrupção que pararam até em tribunais suíços e onde a passagem de ônibus é uma das mais caras do mundo, manifestantes eram, até a semana passada, tratados ou como jovens com ideias delirantes ou como simples vândalos que mereciam uma Polícia Militar que age como manada enfu-recida de porcos.


Vários deleitaram-se em ridicularizar a proposta de tarifa zero. No entanto, a ideia original não nasceu da cabeça de "grupelhos protorrevolucionários". Ela foi resultado de grupos de trabalho da própria Prefeitura de São Paulo, quando comandada pelo mesmo partido que agora está no poder.


Em uma ironia maior da história, o PT ouve das ruas a radicalidade de propostas que ele construiu, mas que não tem mais coragem de assumir.


A proposta original previa financiar subsídios ao transporte por meio do aumento progressivo do IPTU. Ela poderia ainda apelar a um imposto sobre o segundo carro das famílias, estimulando as classes média e alta a entrar no ônibus e a descongestionar as ruas.


Apenas nos EUA, ao menos 35 cidades, todas com mais de 200 mil habitantes, adotaram o transporte totalmente subsidiado. Da mesma forma, Hasselt, na Bélgica, e Tallinn, na Estônia. Mas, em vez de discussão concreta sobre o tema, a população de São Paulo só ouviu, até agora, ironias contra os manifestantes.


Ao menos, parece que ninguém defende mais uma concepção bisonha de democracia, que valia na semana passada e compreendia manifestações públicas como atentados contra o "direito de ir e vir". Segundo essa concepção, manifestações só no pico do Jaraguá. Contra ela, lembremos: democracia é barulho.


Quem gosta de silêncio prefere ditaduras.


Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. Fotografia de Marcello Casal Jr. da Agência Brasil.

Vamos à luta!

Mídia quer dominar as ruas
“Não podemos nos alinhar aos Jabores e Datenas”


publicada quarta-feira, 19/06/2013 às 02:16 e atualizada quarta-feira, 19/06/2013 às 02:16

Escrevinhador




do Pragmatismo Político

Alerta de um integrante do MPL – Movimento do Passe Livre

Desde o ato da última quinta-feira contra o aumento da passagem do transporte público em São Paulo, em que a violência e a repressão policial viraram notícia em todo o planeta, mais uma ameaça ronda o sucesso das manifestações organizadas pelo Movimento Passe Livre: a instrumentalização do povo.

A evidente mudança de postura da imprensa em relação aos protestos deve ser motivo de desconfiança, não de festa. Isso porque nos últimos dias imperou o comentário: “Agora até a grande mídia defende as manifestações”. Como se isso fosse algo positivo.

Por um lado, a máxima “não é só pelos 20 centavos” conseguiu convencer diversos setores da população a ir às ruas. Por outro, abriu uma questão polêmica: se o aumento da passagem foi só o estopim, o que mais nos incomoda? Quais são os reais motivos do fim da letargia política em São Paulo?

É fato, o reajuste do preço transporte só provocou a revolta necessária para que o paulistano percebesse o óbvio: política se faz nas ruas. No entanto, a recusa ao modelo de sociedade atual tem de ser deixada clara. Isso porque os perigos da apropriação do movimento são reais.

Na sua última edição, Veja contrariou sua linha editorial e se posicionou a favor das manifestações. Quando um veículo que representa o que há de mais reacionário na sociedade apoia movimentos sociais, há no mínimo um ponto de extrema relevância para refletir.

Mas as páginas de Veja só revelam a nova postura dos veículos da imprensa dominante: já que não podem mais controlar ou evitar a multidão, manipulam seus objetivos. De acordo com a revista, o descontentamento dos manifestantes se deve também à corrupção, à criminalidade…Falácia.

É evidente que essas questões também são importantes, mas os jovens que estão nas ruas estão preocupados com questões muito mais profundas. A juventude está mostrando que não quer compartilhar dos valores individualistas, consumistas e utilitaristas da geração de seus pais.

O grito dos jovens está longe de bradar contra os “mensaleiros”, contra a inflação, contra as políticas sociais de transferência de renda. O movimento é progressista por natureza e agora tem de saber lidar com uma ameaça feroz: a direitização.

O aparelho midiático que serve a esses interesses já foi acionado. A grande imprensa já está mobilizada para maquiar o movimento de acordo com um ideário conservador, por isso o povo precisa fazer seu recado ser entendido.

Sob hipótese nenhuma podemos nos alinhar aos Datenas, Jabores e Pondés.

O que queremos é derrubar as barreiras entre ricos e pobres, quebrar os muros entre centro e periferia, consolidar o povo como um ator político de importância ímpar e lutar por um Brasil com justiça social, sem desigualdade e com oportunidades iguais para todos e todas. Nada mais. E nada menos.

Vamos à luta!

Por Paulo Motoryn, militante do MPL. Publicado originalmente na revista Vaidapé




Leia outros textos de Outras Palavras

terça-feira, 18 de junho de 2013

um pouco de história e estórias... para conhecer e reconhecer os atores do teatro


Transporte não tem sido prioridade na Capital, avalia Hohlfeldt

Embate culminaria na encampação das empresas, decisão com a qual Hohlfeldt não concordou



Fernanda Bastos
Jonathan Heckler/JC


  • Jornal do Comércio - RS
  • 15.04.2013 - 07:57hs

  • Com uma cadeira garantida na Câmara Municipal de Porto Alegre em 1988, Antonio Hohlfeldt aceitou o convite do prefeito eleito Olívio Dutra (PT) para comandar a Secretaria Municipal dos Transportes. O cargo o colocou como líder do processo de intervenção nas empresas de ônibus, uma tática adotada pela gestão petista para administrar o locaute - uma espécie de boicote ao serviço -, coordenado pelas companhias após Olívio garantir que não aumentaria o valor das passagens.

    O embate culminaria na encampação das empresas, decisão com a qual Hohlfeldt não concordou. Em outubro de 1989, após o auge da crise, ele deixaria o governo por conta da divergência. Na saída do secretário, Olívio comentou, agradecido, que “quando a intervenção foi uma barra pesada, o companheiro Antonio permaneceu ao nosso lado”.

    Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Hohlfeldt conta detalhes daquele processo de revisão da tarifa e compara a agitação política que envolvia o tema naquele período e que volta a suscitar movimentos agora. Para Hohlfeldt, as recentes manifestações de rua, que reuniram milhares de pessoas, mostram descontentamento com o serviço e, por isso, devem ser consideradas um alerta ao prefeito José Fortunati (PDT). Também acredita que a licitação do setor melhorará o serviço.

    Jornal do Comércio – Talvez só em 1989, quando o senhor era secretário municipal dos Transportes e o prefeito Olívio Dutra interveio nas empresas e congelou os preços, a tarifa da passagem de ônibus tenha ganhado tanta notoriedade.

    Antonio Hohlfeldt – Talvez uma diferença básica seja que aquele momento tenha sido provocado no âmbito de uma campanha política. Estávamos na campanha de 1988 para a prefeitura em que Olívio era candidato a prefeito, e havia uma discussão antiga sobre a questão da tarifa. Houve certa exacerbação na medida em que foi prometido que haveria uma baixa. Ou seja, se o PT ganhasse a eleição, baixaria a tarifa. Quanto tinha de dados para dizer isso, não sei dizer da parte de Olívio. Eu já era vereador e, ao longo dos primeiros seis anos, desde 1982 até 1988, período em que trabalhei na Câmara, um dos focos do meu trabalho tinha sido a tarifa de ônibus, não por escolha minha, mas porque era um tema que tinha se apresentado. A Câmara tinha chegado a propor uma comissão de inquérito e contratou uma empresa especializada para fazer uma auditoria. Tínhamos dados indicativos de que de fato a planilha que se usava naquela época possuía alguns itens supercalculados.

    JC - Por exemplo?

    Hohlfeldt – A planilha calculava o pneu comprado em Porto Alegre, mas, na verdade, parte das empresas comprava em Montevidéu, que era muito mais barato. Depois, no episódio da intervenção, descobrimos que a maior parte das empresas na época não tinha apenas a atividade de transporte coletivo. A VTC, por exemplo, tinha empresa de transportadora de carga. Uma empresa que não existe mais, a São João, tinha uma empresa com tratores para fazer obras de terraplanagem. A Trevo fazia ônibus de turismo também. O que verificamos depois, com a intervenção, é que na verdade era uma mistura de atividades e toda a despesa se descarregava na planilha. Ou seja, o pneu novo entrava no caminhão para depois passar para o ônibus, mas era calculado.

    JC – A frota ficou sucateada?

    Hohlfeldt – Sim. Mas sempre tive uma posição clara sobre isso: se as empresas fazem isso, é porque o Poder Público não está controlando. Se havia má-fé – não sei se é o termo correto – por parte dos empresários, também havia omissão ou conivência do Poder Público. Minha posição sempre foi essa, inclusive quando pedi demissão da secretaria em (outubro de) 1989 e voltei para a Câmara. Não sei se a opção da intervenção foi o melhor caminho. Naquele momento em que Olívio ganhou as eleições e se tornou prefeito, o setor dos ônibus tomou um susto, porque eles realmente não esperavam. Mas talvez o mais assustado fosse eu com o que poderia vir pela frente. Sabia que poderia baixar a tarifa, mas não nos patamares que se pretendia. Então houve uma série de negociações prévias, de que tomei a iniciativa, por minha conta, até à revelia do partido, porque ele não dominava os dados todos naquele momento. Tomei essas decisões com minha assessoria, gente do partido, chegamos a negociar com o prefeito (Alceu) Collares (PDT, 1986-1988) para que ele desse um aumento no fim do mandato dele entre o Natal e o Ano-Novo. Isso deu uma folga para que não tivesse de dar um aumento na primeira semana de janeiro, o que acabaria com o governo Olívio.

    JC – Mas logo o assunto precisou ser enfrentado.

    Hohlfeldt – Quando chegou o impasse, em fevereiro, com a negativa de aumentar a tarifa e uma ameaça de locaute por parte das empresas, mesmo discordando da situação, fui o primeiro a dizer para Olívio: “Ou peço demissão do cargo ou me vejo obrigado a te propor a fazer a intervenção, porque não temos escolha; ou abrimos mão do poder e os empresários vão fazer o que bem entendem”. Mas, ao mesmo tempo, os empresários também estavam apavorados, não sabiam o que iria acontecer. O impasse se exacerbou naquele momento porque havia, sim, uma manobra do pessoal da Carris, que omitiu alguns dados do cálculo de despesas. Como a Carris tinha herdado os antigos funcionários dos bondes, os que não conseguiram se adaptar e eram os antigos motorneiros, para não serem despedidos, continuaram na Carris, mas passaram a trabalhar no administrativo. E a prefeitura fazia um repasse considerável para a Carris. Mas a Carris omitiu esse dado no cálculo da planilha. E isso induziu Olívio a um erro, dizendo que “não precisa aumentar a tarifa”. E precisava. Sabia que tinha a necessidade de dar aumento, por menor que fosse, mas o prefeito, com os dados da Carris, disse que não. Então chegamos ao impasse.

    JC – Vinte anos após, acredita que a prefeitura agiu bem?

    Hohlfeldt – O impasse inicial da intervenção foi positivo. Identificamos desvios de todo o serviço, tinha como corrigir e, passada a surpresa do episódio, a opinião pública foi razoavelmente favorável à intervenção, tinha se dado conta que havia prejuízo para a população. Daí o PT cometeu um erro, querendo fazer a encampação. Desandou a coisa.

    JC – Por isso pediu demissão?

    Hohlfeldt – Sim. A carta foi muito clara: eu discordava e achava que era um erro político e que teria consequências jurídicas, como teve depois, então pedi para sair. O PT depois perdeu na Justiça, apesar dos cuidados jurídicos que havíamos tomado. Não perdeu por causa da intervenção, mas pela encampação. A Justiça é conservadora e não admitiu a ideia da encampação. Isso criou uma dívida do município que foi paga depois através de uma série de artifícios embutidos na tarifa. Diria que se voltou a certo equilíbrio em torno de 1995. Agora, me preocupam alguns conceitos que entraram na discussão.

    JC – Quais?

    Hohlfeldt – Por exemplo, o Ministério Público de Contas, o doutor (Geraldo Da) Camino, entende que não pode incluir na conta da planilha a frota reserva. Não vou discutir o argumento jurídico, mas um de lógica – a lei diz que as empresas têm que ter ônibus reserva. Se não embutir na planilha, as empresas não vão ter ônibus reserva, e quem vai pagar o pato é o passageiro. Não estou discutindo o jurídico, mas como o processo é encaminhado. Não vou discutir planilha, porque hoje estou muito distante dessa questão, mas a licitação.

    JC – Não é feita há anos.

    Hohlfeldt – A licitação, desde a Constituição de 1988, tem que ser feita. O pessoal foi empurrando, ainda no governo de Fernando Henrique (Cardoso, PSDB), se editaram alguns decretos postergando, porque é um negócio complicado. Acabaram de ser feitas as licitações que redundaram no escândalo do mensalão dos Correios, em que licitaram todas as agências que eram terceirizadas. Estava falando com um gerente de uma terceirizada que ganhou agora e ele disse que “80% ou 90% do pessoal que já estava ganhou”. E tem lógica, porque já conhecem o serviço e estão organizados. Imagina, então, uma empresa de ônibus. Mas não sou contra a licitação. E ainda que uma mesma empresa venha a ganhar, haverá novas exigências e compromissos e, nesse sentido, melhora o serviço. Então, vai depender de como será montado o edital. Têm que ser feitas as licitações. Todos os anos existem mobilizações. O quanto elas são espontâneas ou não, não sei avaliar.

    JC – O senhor se refere à ligação com partidos?

    Hohlfeldt – Sim, montadas partidariamente. Mas, de qualquer forma, é legítimo. E há um dado concreto: o serviço de Porto Alegre, embora bastante qualificado, não é aquilo que a gente gostaria de encontrar. As manifestações denotam descontentamento, e uma coisa é ter uma passeata com 100 pessoas, outra é com seis mil. Quando se chega a isso, mesmo que se diga que a gurizada se mobilizou via Twitter, mas se seis mil se dispõem a ir, tem que parar para pensar. Vamos ter um debate que, espero, possa ser racional, não ideológico ou partidarizado ou simplesmente apaixonado. Porque, se ocorrer qualquer uma dessas coisas, quem pagará o pato será o passageiro. Mas a EPTC tem razão em uma coisa: tem que revisar as gratuidades.

    JC – A Câmara foi irresponsável ao aprovar as gratuidades?

    Hohlfeldt – Foi. É um absurdo a gratuidade para os carteiros. Quem tem que pagar isso é a ECT, nem que seja embutido no preço da carta. Não pode é descarregar no preço do ônibus e no município. Porto Alegre dá isenção a partir dos 60 anos. Isso foi feito há 20 anos, mas aumentamos a longevidade, então tem que ir mudando. Isso não é nada simpático, mas significa planejar para o futuro e não ser oportunista no imediato.

    JC – A Câmara aprovaria um projeto nesse grau de antipatia?

    Hohlfeldt – A Câmara tem que assumir esse tipo de ônus tanto quanto o prefeito. A sociedade muda, e as legislações têm que mudar em reflexo a isso. Não digo tirar a gratuidade, mas mudar. Assim como a tarifa gratuita do mês, que de gratuita não tem nada, porque fica embutida na tarifa. O passe livre é de um oportunismo atroz. Vai ter gente que irá me atacar por dizer essas coisas, mas quem administra um setor tem que ter clareza do que deve ser feito. As manifestações não podem ser ignoradas. Por mais que o sistema tenha melhorado, não atende a patamares de outras cidades. O ônibus de Porto Alegre roda menos sobre o asfalto, temos paralelepípedo irregular, estradas de terra na zona Sul. Isso muda a tarifa. E temos outra questão grave, que não tem como resolver, que é a chamada tarifa social, que é o fato de pagar a mesma tarifa para ir à Auxiliadora e à Restinga.

    JC – E a atuação da EPTC?

    Hohlfeldt – A transformação da EPTC trouxe algumas vantagens, porque deu agilidade nos trâmites administrativos. Mas gerou certa imobilidade. A EPTC hoje pensa muito mais como empresa do que como órgão público. Está faltando engenharia de tráfego. É positiva essa crise, porque vai obrigar a mudar. A prefeitura, a partir daquele processo de intervenção - com seus equívocos e acertos - melhorou muito o serviço. Há infraestrutura bem montada que vem dando resultado, mas não podemos nos dar por satisfeitos. O ônibus é só a ponta do iceberg. Evidentemente, estourou em quem é mais mobilizado, o jovem e estudante. Não sei se a palavra de ordem estava correta ou se a maneira de fazer foi a melhor, mas é um indicativo de que o sistema não está funcionando bem.

    JC – O momento é propício para se tornar prioritário o sistema de transporte?

    Hohlfeldt – Duas coisas vão fazer o transporte se tornar prioridade: a realização da Copa do Mundo, porque é uma exigência da Fifa, e o episódio da tarifa, com todas as manifestações. Espero que tenha consequência, e não só nos ônibus. Tem que fazer licitação para os ônibus, para os táxis-lotações e para os táxis. Quem vai ter coragem de fazer isso? Tentei quando era secretário, mas o prefeito não deixou. A vantagem de Fortunati é estar reeleito. Pode comprar essa briga. O prefeito que conseguir fazer isso deixa o nome dele na história.
    Perfil

    Antonio Carlos Hohlfeldt, 64 anos, é natural de Porto Alegre. Possui formação na área de Letras, com graduação pela Ufrgs, doutorado na Pucrs e pós-doutorado na Universidade Fernando Pessoa, de Portugal. Desde os anos 1970 atua como jornalista. Considerado um dos fundadores do PT, filiou-se em 1981. Nas eleições de 1982, conquistou a primeira cadeira do PT na Câmara da Capital. Foi eleito novamente em 1988, mas se licenciou no ano seguinte para assumir a Secretaria Municipal dos Transportes. Voltou para o Legislativo ainda em 1989. Reeleito em 1992, deixou o PT para ingressar no PSDB. Reelegeu-se vereador em 1996. Na sequência, também foi presidente estadual do PSDB. Em 2002, foi indicado pelos tucanos para compor como vice-governador a chapa de Germano Rigotto (PMDB) ao Piratini. No último ano do governo de Rigotto, em 2006, filiou-se ao PMDB. Recentemente auxiliou o ex-secretário de Cultura da Capital Sergius Gonzaga a desenvolver projetos para o setor. Leciona na Faculdade de Comunicação da Pucrs. É crítico de teatro do Jornal do Comércio.

    segunda-feira, 17 de junho de 2013

    transmissão ao vivo... só de helicóptero


    Repórteres da Globo não usam cubo da emissora; JN noticia palavras de ordem contra a Globo e se justifica como em 1989


    publicado em 17 de junho de 2013 às 21:20




    dica do Gustavo Costa

    O Jornal Nacional noticiou nesta segunda-feira que os manifestantes gritaram palavras de ordem contra a TV Globo ao longo da marcha.

    Eles se concentraram na ponte estaiada, sobre a marginal do rio Pinheiros, frequentemente mostrada nos estúdios da Globo localizados nas proximidades.

    Aparentemente por precaução, repórteres da emissora não usaram o cubo que identifica a TV quando estavam próximos dos manifestantes.

    A transmissão ao vivo foi feita a partir de um helicóptero.

    Aqui, o texto do mini editorial da Globo lido durante o Jornal Nacional:

    “A TV Globo vem fazendo reportagens sobre as manifestações desde o seu início, sem nada esconder: os excessos da polícia, as reivindicações do Movimento do Passe Livre, o caráter pacífico dos protestos e, quando houve, depredações e destruição de ônibus. É nossa obrigação e dela não nos afastaremos. O direito de protestar e se manifestar pacificamente é um direito dos cidadãos”.

    Clique aqui para ver.

    Depois da cobertura distorcida do famoso debate entre Fernando Collor e Lula, em 1989, o comentarista Alexandre Garcia também apareceu fazendo elogios à cobertura da própria Globo.

    Veja aos 2 minutos do vídeo abaixo:




    Leia também:

    Quando a Folha incitou Alckmin a bater no “grupelho”

    A repressão, como se viu, só piora.

    Lula chama ao diálogo. E sem polícia.



    17 de Jun de 2013 | 22:59





    Em seu perfil no Facebook, Lula declarou que “ninguém em sã consciência pode ser contra manifestações da sociedade civil porque a democracia não é um pacto de silêncio, mas sim a sociedade em movimentação em busca de novas conquistas”.

    Por meio da Secom, Dilma mandou dizer que “As manifestações pacíficas são legítimas e próprias da democracia. É próprio dos jovens se manifestarem”.

    Hoje, apesar de ainda não terem terminado as manifestações, deu para perceber que o movimento se separou em uma grande maioria que, sem o assédio da polícia, salvo algumas exceções, manifestou pacificamente seu pensamento e alguns pequenos grupos que buscaram situações de confronto, no Rio e em Porto Alegre e São Paulo, agindo no final das manifestações.

    E o que fazer diante disso?

    Simples: perceber que, embora se possa ficar dizendo que os manifestantes são de classe média, há uma importante fatia da população que se sente insatisfeita com a qualidade dos serviços públicos – e não apenas com os ônibus – e, sobretudo, está carente de referências, lideranças, de representantes.

    O próprio Lula dá o caminho da lucidez: “não existe problema que não tenha solução. A única certeza é que o movimento social e as reivindicações não são coisa de polícia, mas sim de mesa de negociação”.

    Foi a falta desta compreensão que permitiu que a repressão insana levasse a situação a esse ponto. E é a falta de um diálogo organizado é que permite aos grupos de provocadores passarem como o mesmo que os manifestantes, o que não são.

    Para recuperar o tempo perdido, porém, não é possível que tudo fique entregue aos governos e às prefeituras.

    Nem o Brasil, nem estas manifestações são ilhas isoladas. Tudo está ligado e isso é um fenômeno de âmbito nacional.

    Sem desrespeitar suas autonomias, o Governo Federal deve assumir essa coordenação, estimular o diálogo, desestimular a ideia de que as coisas podem ser resolvidas pela repressão.

    A repressão, como se viu, só piora.

    Por: Fernando Brito

    Então, só se for agora.


    Partidos perderam o controle dos protestos; hora de ir à rua

    Posted by eduguim on 17/06/13 • Blog da Cidadania




    Vai se confirmando a percepção inicial de muitos no sentido de que houve um início de aparelhamento político dos protestos que, a partir de São Paulo, espalharam-se pelo Brasil. Conversas com simpatizantes e militantes de partidos envolvidos nesse processo e com outros tantos sem vinculações partidárias confirmam essa premissa e estimulam a imaginação.

    Todavia, cumpre reconhecer que os interesses políticos que tentavam se assenhorar desse movimento encabeçado pela organização “Passe Livre” nunca representaram a sua totalidade, assim como a tese de que se tratava de um movimento espontâneo tampouco reproduz a sua gênese.

    Acima de outros partidos, o PSOL teve um papel importante na tal “gênese” do crescimento de um movimento que vem atuando há anos, porém sem maior expressão. Nesse aspecto, nos primeiros atos desse drama houve, sim, tentativa de constranger adversários políticos ocupantes do governo do Estado e da prefeitura paulistana.

    O que ocorreu, do primeiro grande ato ao último – com seus resultados trágicos –, foi o entendimento, inclusive pelo Movimento Passe Livre, de que a politização terminaria por sepultar intenções sinceras e um clamor da sociedade diante de um Estado que vem se mostrando incapaz de atuar com a velocidade que se espera no sentido de estender aos brasileiros os benefícios de um soerguimento econômico da nação que ocorreu ao longo da última década.

    Além do que, nos Estados e municípios não houve uma melhora da qualidade de vida nas metrópoles. Apesar de o brasileiro estar com mais dinheiro no bolso, a vida nas grandes cidades vai se tornando insuportável.

    Viver em uma urbe como São Paulo é hoje um martírio. A situação é tão insustentável que uma cidade que rejeitava com tanta força o PT elegeu até com votação confortável um representante desse partido. Aconteceu, na minha cidade, o que ocorrera no Brasil em 2002: o povo resolveu dar uma nova chance ao PT como última tentativa.

    Fernando Haddad, nesse aspecto, cometeu um erro político muito grande. O grande problema do PT vem sendo a falta de comunicação. Por conta disso, desde a posse o novo prefeito se manteve praticamente mudo. Após uma campanha em que a melhora no transporte urbano foi o mote, antes de qualquer melhora a nova administração tasca um aumento no lombo dos munícipes.

    Ao longo deste ano, pessoas que vêm dos bairros mais humildes para os mais abastados todos os dias, e que votaram em Haddad esperando uma tarifa de transporte que pesasse menos no bolso, revoltaram-se com a ocorrência do inverso.

    Apesar de o transporte ferroviário e metroviário também continuar piorando e subindo de preço, a recente eleição colocou a administração municipal em maior visibilidade.

    Se Haddad tivesse se dirigido à sociedade e explicado antes do aumento que ele era inevitável e que no segundo semestre os planos de sua administração para o transporte urbano começariam a se fazer sentir, talvez esse movimento não tivesse eclodido. Mas a falta de capacidade de comunicação que vem caracterizando o PT, deu nisso.

    Exposta a visão do Blog sobre a causa da eclosão desse movimento, passamos ao que ocorreu em seus intestinos ao longo das últimas semanas.

    A dita horizontalidade dos protestos era mais real do que acreditavam os partidos que tentaram direcioná-los aos seus objetivos políticos. Ou seja: a rua é de todos, e muitos levaram a sério o que era um mote pra inglês ver. E foram à rua reclamar.

    Aos mauricinhos e patricinhas que planejaram tudo, somou-se uma juventude pobre, das periferias desassistidas, com demandas reais e pouco preocupada em desgastar este ou aquele governo ou partido. E veio à rua, também, o sentimento de revolta com “tudo isso que está aí”, ou seja, com a desigualdade excruciante que esmaga este país.

    Daí o quebra-quebra, gerado pela raiva incontida dos massacrados pela desigualdade.

    Os partidos políticos que tentavam manipular um movimento que já vai deixando de ter dono ou lideranças e que, aos poucos, vai se tornando anárquico e incontrolável, perderam espaço. A massa que irá às ruas nesta segunda-feira está muito bem precavida quanto à politização, ainda que esses grupos político-ideológicos continuem teimando em lhe dar uma sobrevida.

    Nessa situação, o processo está se abrindo a todo tipo de demanda da sociedade. Ao protestar contra o status quo, os cálculos políticos dos partidos de esquerda e de oposição aos governos do PSDB e do PT de São Paulo e do governo petista federal deixaram de fora, por exemplo, a democratização da mídia, a eterna demanda esquerdista.

    No momento em que naufragam os planos dos que pretendiam manipular politicamente esse sentimento de “basta” que permeia um processo que beira a convulsão social, portanto, surge a possibilidade de que todo tipo de anseio por mudança seja posto à mesa.

    Ironicamente, a partir desse processo surge, talvez, uma das melhores chances em décadas para que seja encaminhada a questão da democratização da comunicação oligopolizada que infecta o Brasil – e que parecia não ter solução.

    Eis que ganha sentido adequado uma máxima que, até onde me lembro, é de autoria do historiador, poeta, diplomata e músico italiano do Renascimento Nicolau Maquiavel: “Se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

    Durante anos, a ONG criada a partir deste Blog, o Movimento dos Sem Mídia, tentou levar às ruas um sentimento de inconformismo com a comunicação de quinto mundo que tem o Brasil, onde meia dúzia de famílias conservadoras detêm o controle de praticamente toda a comunicação de massa e das principais concessões públicas de rádio e televisão.

    Todavia, nunca logramos reunir mais do que algumas centenas de pessoas. Não havia clima para as pessoas irem às ruas. Isso porque os movimentos sociais e sindicais tradicionais nunca encamparam com decisão a necessidade de se levar uma demanda dessa importância à rua por conta de cálculos políticos, pois os governos do PT, que poderiam encampar tais demandas, colocaram-nas em segundo plano ou as sepultaram.

    Ora, os protestos que estão surgindo encampam demandas genéricas “contra a corrupção” e tantas outras que não têm significação prática, pois ser contra a corrupção do Poder todo mundo é, mas esse discurso vem sendo usado pela mídia e por partidos de oposição de direita e de esquerda contra um único grupo político, como se corrupção existisse só em governos petistas, enquanto se sabe que não há governo de partido algum que possa se dizer imune a ela.

    Uma demanda como a democratização da comunicação, considerada maldita pela direita e inconveniente pela esquerda mais radical porque serviria ao PT, ganha, no âmbito desses protestos (agora) sem dono a melhor chance que já teve. Um debate interditado desde sempre pelos donos da mídia e pela direita pode, sim, ganhar as ruas.

    Convencer os manifestantes das mais diversas orientações de que a comunicação oligopolizada que há no Brasil é o que os obriga a irem às ruas para dizer o que poderiam dizer na televisão e no rádio será moleza, se alguém levar essa premissa a eles.

    Eis que chega o momento, pois, de se começar a pensar em como fazer do limão uma limonada.

    Se, por um lado, não é bom que tendo tantos eventos esportivos de importância internacional imensa acontecendo no país vigore nele um clima de convulsão social, já que não se pode mudar um sentimento que já se consolidou para muito além dos partidos que engendraram esse processo cumpre aos que querem mudar o Brasil de verdade que participem dele.

    Com base nas premissas aqui elencadas é que este Blog e o Movimento dos Sem Mídia passam a se guiar pela filosofia de que “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Se os protestos são, de fato, contra “Tudo isso que está aí”, o que está “aí” e prejudica muito os que querem se manifestar e não podem é a concentração da propriedade de meios de comunicação.

    Chegou a hora, pois, de ir à rua. Então, só se for agora.

    Como vai terminar? Não sabemos...


    O futuro se escreve nas ruas


    Escrevinhador

    publicada segunda-feira, 17/06/2013 às 19:08 e atualizada segunda-feira, 17/06/2013 às 20:21


    por 


    Rodrigo Vianna

    Às 19h já era possivel afirmar que a onda de manifestações pelo Brasil é a maior desde o movimento pelo impeachment de Collor. 40 mil pessoas em São Paulo (e crescendo). Outras 40 mil no Rio de Janeiro. Belo Horizonte teve milhares nas ruas, com bombas jogadas dos helicópteros pela PM mineira. Em Brasília, a marcha avançava em direção ao Congresso Nacional.

    Tudo isso acontecendo e a Globo passava novela das sete. Fingia que nada estava acontecendo no Brasil. Talvez, para não estragar a Copa das Confederações. Os jovens nas ruas parecem ter deixado a direita indignada e a esquerda perplexa. Ninguém entendeu nada.

    Durante o dia, setores do conservadorismo mudaram o discurso. Arnaldo Jabor, que na semana passado havia avacalhado os manifestantes com um comentário boçal no ar, mostrava-se arrependido (ou foi o “comitê central” global que mudou as orientações?), pediu até desculpas. Outros comentaristas da CBN pareciam confiantes na estratégia de levar Dilma para o centro dos protestos. Mesmo assim, a Globo escondia as manifestações. Tudo confuso. A família Marinho parecia não saber bem pra que lado correr.

    Às 19h15, a Globo em São Paulo entrou ao vivo com a manifestação. O repórter dizia: “tudo tranquilo, único prejuízo é para o trânsito”. Pela Globo (na TV aberta) não se tinha noção do tamanho das manifestações que corriam o país. A GloboNews privilegiava a cobertura em Brasília. E aos poucos, a Esplanada se encheu de gente. Manifestantes tomaram por alguns minutos a Cúpula do Congresso (foto acima – Portal Terra).

    Record e Band mostravam as manifestações Brasil afora. Pela internet, informações transbordavam pelas redes sociais.

    Via twitter, ficamos sabendo que manifestantes ergueram faixas dizendo “Não existe Jabor em SP”.

    Haddad também apanhou. ““Haddad eu não me engano / esse aumento tem bico de tucano”, grita a multidão (via @mairakubik, no Twitter).

    A idéia de que a manifestação pudesse ser “usada” pela direita ou pelo lulismo não parecia fazer sentido. O mais provável é que as manifestaçõe sejam um sintoma de que algo vai mal no sistema político brasileiro. O país cresceu, os mais pobres foram incorporados no mercado de consumo. Mas os jovens, Brasil afora, mandam um recado claro: queremos mais do que isso.

    Quem vai sair vitorioso dessa batalha? A quem interessa?

    A direita faz o cálculo: governadores tucanos podem ser atingidos, mas o que interessa é levar Dilma junto. Isso igualaria o jogo político, deixando tudo em aberto para 2014.

    Na Espanha (numa conjuntura muito diferente, com desemprego e crise), os jovens ocuparam praças, fizeram barulho e no fim o que vimos? O PP (partido de direita, franquista) foi pro poder.

    Na Argentina, o povo gritou “que se vayán todos”. E terminou em que? A esquerda ganhou com Kirchner.

    Ou seja, um quadro como esse que vemos no Brasil pode terminar numa vitória rotunda do conservadorismo. Mas pode significar também uma retomada do movimento de massas, a possibilidade de criar um novo modelo de desenvolvimento.

    Como vai terminar? Não sabemos. A disputa está nas ruas.

    E não adianta a Globo esconder. Porque agora já se fala em cem mil pessoas no Rio (imagens impressionantes no centro carioca) e mais de 60 mil em São Paulo. Na capital paulista, fala-se que os manifestantes poderiam caminhar em direção ao Palácio, onde Alckmin deve estar arrependido das ordens que deu pra PM, na semana passada…




    Leia outros textos de Palavra Minha

    domingo, 16 de junho de 2013

    Espera-se que a polícia desminta...


    PM paulista quebra o vidro de viatura militar durante protesto

    Diário Gauche





    O flagrante foi colhido durante a manifestação popular na cidade de São Paulo, em 13 de junho de 2013.

    Certamente inspirado no amor de Santo Antônio (santo do dia, pelo calendário católico romano), o policial militar "vandaliza" o carro da Polícia Militar paulista.

    Supõe-se que a passeata dos manifestantes por um transporte urbano decente e eficiente, naquele momento, estivesse muito morna. Talvez por esse motivo o policial tenha tentado esquentar os ânimos com a finalidade de justificar a interverção da força bruta do aparelho repressivo do estado de São Paulo, governado pelo tucano Geraldo Alckmin.

    sábado, 15 de junho de 2013

    O direito de manifestação! Primeiro, foi preciso apanhar... que pena!


    Uma virada na cobertura




    Por Luciano Martins Costa em 14/06/2013 na edição 750



    De repente, não mais que de repente, o noticiário sobre as manifestações que paralisam grandes cidades brasileiras há uma semana sofre uma reviravolta: agora os jornais começam a enxergar os excessos da polícia e mostrar que no meio da tropa há agentes provocadores e grupos predispostos à violência.

    Um dos relatos mais esclarecedores sobre o momento em que a passeata realizada na capital paulista na quinta-feira (13/06) deixou de ser pacífica é feito pelo colunista Elio Gaspari, na Folha de S.Paulo e no Globo(ver "A PM começou a batalha na Maria Antônia"). Ele descreve como uma equipe da tropa de choque se posicionou e agiu deliberadamente para provocar o tumulto.

    Há também, na rede social digital, um vídeo mostrando um PM, aparentemente por orientação de um oficial, quebrando o vidro da viatura. A imagem, cuja autenticidade só pode ser confirmada pela própria Polícia Militar, está disponível no Youtube.

    No Facebook, registro para a legenda colocada sob cenas dos conflitos, no noticiário da GloboNews durante a noite: “Polícia fecha a Avenida Paulista para evitar que manifestantes fechem a Avenida Paulista”. Nessa linha de raciocínio, pode-se imaginar também a seguinte manchete: “Polícia usa violência para evitar violência de manifestantes”.

    Truculência e irresponsabilidade

    Foi preciso mais do que evidências para a imprensa cair na real: os repórteres testemunharam dezenas de ações abusivas de policiais, como a retirada e o espancamento de um casal que tomava cerveja num bar, alheio à passeata, ou o lançamento de granadas de gás em meio aos carros travados nos congestionamentos.

    Claramente, não se trata de bolsões descontrolados, mas de uma ação organizada dentro da corporação policial, o que mostra o esgarçamento da disciplina e do controle na Polícia Militar. A única possibilidade de desmentir tal observação é a ação imediata do comando, identificando e afastando das ruas os oficiais responsáveis por esses grupos.

    A violência gratuita e excessiva ficou registrada nas páginas dos jornais, entre outras razões, porque desta vez houve mais jornalistas entre as vítimas de agressões. Sete deles são repórteres da Folha de S. Paulo. Isso talvez explique a mudança de tom nas reportagens, mas o relato da violência não esgota o assunto, apenas instala algum equilíbrio na visão dos fatos por parte da imprensa.

    Para ampliar sua compreensão do que realmente se passa nas ruas da cidade por estes dias, o leitor tem que se valer de outras fontes além dos jornais e do noticiário da TV. Por exemplo, o vereador Ricardo Young, que acompanhou o indiciamento de alguns manifestantes detidos, registrou no Facebook um fato preocupante: policiais fizeram a revista de mochilas e bolsas longe de testemunhas, trocando conteúdos e inserindo em algumas delas materiais estranhos, como pedras e pacotes com maconha. Assessores do vereador denunciam que houve tentativa de “plantar” provas contra alguns dos manifestantes detidos.

    É notória a má vontade da polícia, como instituição, contra jovens em geral, talvez ainda um resquício da ideologia de segurança pública que se consolidou durante a ditadura militar e que ainda orienta a formação nas academias. Os indicadores de agressões cometidas por agentes públicos contra homens jovens são um dos aspectos mais evidentes nos estudos sobre a violência nas grandes cidades brasileiras. O encontro dessa mentalidade com a irresponsabilidade de grupos de manifestantes que se julgam autores de uma revolução política pode resultar em tragédia.

    Ações ilegais

    Se algum fato mais grave vier a ocorrer em futuras manifestações, pode-se contar como grande a probabilidade de haver alguns desses policiais envolvidos. Portanto, a responsabilidade pelo que virá a partir de segunda-feira (17/6), quando nova manifestação está marcada para o Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo, tem um peso maior na Secretaria de Segurança Pública.

    Isso não quer dizer que a prefeitura e os líderes do Movimento Passe Livre, bem como os dirigentes dos partidos cujas bandeiras são agitadas por alguns ativistas, estejam isentos de arcar com sua parte na tarefa de prevenir o desastre.

    A imprensa, que finalmente despertou para o fato de que há vândalos em ambos os lados do conflito, pode ajudar a identificar os comandantes dessas ações ilegais, assim como tem sabido apontar os autores de depredações durante os protestos.

    Foi preciso que alguns jornalistas sofressem a violência no próprio corpo para que os jornais se dessem conta de que nem tudo é o que parece.




    Leia também

    Muito além dos 20 centavos – Sylvia Debossan Moretzsohn

    Gás de provocação – Mauro Malin

    A cidade fora dos eixos – L.M.C.

    Rebeldes sem causa – L.M.C.

    O que querem os manifestantes – L.M.C.

    sexta-feira, 14 de junho de 2013

    Quem viver... verá depois da poeira baixar


    DENÚNCIA DO NASSIF: POR QUE
    DANTAS ESCAPOU DO MENSALÃO


    Dantas é o dono do Brasil, “foi brilhante”, como disse o FHC, ou ele …

    Conversa Afiada





    Foi dono ...



    Daniel Dantas move dezenas de ações contra este ansioso blogueiro.

    Perde.

    Clique aqui para ler na aba “Não Me Calarão”, com a exuberante “Galeria de Honra Daniel Dantas”.

    Diz-me quem te processa e dir-te-ei quem és.

    Uma derrota irreversível, que se ampliará para todas as ações, foi a decisão histórica do Ministro Celso de Mello.

    Às vezes Dantas vence.

    Ou melhor, a Justiça do Brasil perde, se mancha.

    É quando ele consegue – provisoriamente – bloquear as contas bancárias do ansioso blogueiro.

    Ou quando tenta vasculhar a vida financeira do ansioso blogueiro – que, aliás, não tem nada a esconder do Fisco ou do Banco Central – do Brasil ou da Inglaterra -, como certos imaculados banqueiros …

    Um dos ramos empresariais de Dantas é ganhar na Justiça.

    Mas, ele foi longe demais.

    O truque se esgotou.

    Como comprova essa devastadora denuncia do Nassif:




    PROCURADOR GERAL QUE LIVROU DANTAS DO MENSALÃO GANHOU CONTRATO DA BRASIL TELECOM



    Do Jornal GGN

    Em sua sabatina no Senado, o jurista Luiz Roberto Barroso considerou o julgamento do chamado mensalão “ponto fora da curva”. Barroso é considerado o maior constitucionalista brasileira, unanimidade, saudado tanto pela direita quanto pela esquerda. Sua opinião foi corroborada pelo Ministro Marco Aurélio de Mello, um dos julgadores mais implacáveis.

    Externou o que todo o meio jurídico comenta à boca pequena desde aquela época: foi um julgamento de exceção. E não apenas pelo rigor inédito (para crimes de colarinho branco) das condenações, mas pela excepcional seletividade na escolha das provas, sonegando informações essenciais para a apuração completa do episódio.

    Houve o pagamento de despesas de campanha dos novos aliados do PT. Utilizaram-se recursos de caixa dois para tal. Havia o intermediário das transações – o publicitário Marcos Valério e a agência DNA. Na outra ponta, os beneficiários. E, no comço do circuito, os financiadores.

    Se poderia ter se obtido a condenação fazendo o certo, qual a razão para tantas irregularidades processuais anotadas? Não se tratou apenas dos atropelos à presunção da inocência e outros princípios clássicos do ordenamento jurídico brasileiro. Há também a suspeita de ocultação deliberada de provas.

    1. Ignorou-se laudo comprovando a aplicação dos recursos da Visanet.

    2. Esconderam-se evidências de que o contrato da DNA com a Visanet era anterior a 2003.

    3. Desmembrou-se o processo para que outros diretores do Banco do Brasil – que compartilharam decisões com o diretor de marketing Antonio Pizolato e assumiram responsabilidades maiores – não entrassem na AP 470.

    4. Ignoraram-se evidências nítidas de que a parte mais substancial dos fundos do DNA foi garantida pelas empresas de telefonia de Daniel Dantas.

    O contrato de Antonio Fernando

    Aparentemente, desde o começo, a prioridade dos Procuradores Gerais da República Antônio Fernando (que iniciou as investigações), de Roberto Gurgel (que deu prosseguimento) e do Ministro do STF Joaquim Barbosa (que relatou a ação) parece ter sido a de apagar os rastros do principal financiador do mensalão: o banqueiro Daniel Dantas. Inexplicavelmente, ele foi excluído do processo e seu caso remetido para um tribunal de primeira instância.

    Excluindo Dantas, não haveria como justificar o fluxo de pagamentos aos mensaleiros. Todos os absurdos posteriores decorrem dessa falha inicial, de tapar o buraco do financiamento, depois que Dantas foi excluído do inquérito.

    Responsável pelas investigações, o procurador geral Antônio Fernando de Souza tomou duas decisões que beneficiaram diretamente Dantas. A primeira, a de ignorar um enorme conjunto de evidências e excluir Dantas do inquérito – posição mantida por seu sucessor, Roberto Gurgel e pelo relator Ministro Joaquim Barbosa. A segunda, a de incluir no inquérito o principal adversário de Dantas no governo: Luiz Gushiken. Aliás, com o concurso de Antonio Pizolatto – que acabou tornando-se vítima, depois de diversas decisões atrabiliárias dos PGRs.

    Foi tal a falta de provas para incriminar Gushiken, que o PGR seguinte, Roberto Gurgel, acabou excluindo-o do inquérito.

    Pouco depois de se aposentar, Antônio Fernando tornou-se sócio de um escritório de advocacia de Brasília – Antônio Fernando de Souza e Garcia de Souza Advogados -, que tem como principal contrato a administração da carteira de processos da Brasil Telecom, hoje Oi, um dos braços de Dantas no financiamento do mensalão. O contrato é o sonho de todo escritório de advocacia: recebimento de soma mensal vultosa para acompanhar os milhares de processos de acionistas e consumidores contra a companhia, que correm nos tribunais estaduais e federais.

    Os sinais de Dantas

    Qualquer jornalista que acompanhou os episódios, na época, sabia que a grande fonte de financiamento do chamado “valerioduto” eram as empresas de telefonia controladas por Dantas, a Brasil Telecom e a Telemig Celular. Reportagens da época comprovavam – com riqueza de detalhes – que a ida de Marcos Valério a Portugal, para negociar a Telemig com a Portugal Telecom, foi a mando de Dantas.

    Dantas possuía parcela ínfima do capital das empresas Telemig, Amazônia Celular e Brasil Telecom. O valor de suas ações residia em um acordo “guarda-chuva”, firmado com fundos de pensão no governo FHC, que lhe assegurava o controle das companhias. Tentou manter o acordo fechando aliança com setores do PT – que foram cooptados, sim. Quando o acordo começou a ser derrubado na Justiça, ele se apressou em tentar vender o controle da Telemig, antes que sua participação virasse pó.

    No livro “A Outra Historia do Mensalão”, Paulo Moreira Leite conta que a Polícia Federal apurou um conjunto de operações entre a Brasil Telecom e a DNA. A executiva Carla Cicco, presidente da BT, encomendou à DNA uma pesquisa de opinião no valor de R$ 3,7 milhões. Houve outro contrato, de R$ 50 milhões, a ser pago em três vezes. Era dinheiro direto no caixa da DNA – e nao apenas uma comissão de agenciamento convencional, como foi no caso da Visanet.. Pagaram-se as duas primeiras. A terceira não foi paga devido às denúncias de Roberto Jefferson que deflagraram o mensalão.

    Apesar de constar em inquérito da Polícia Federal – fato confirmado por policiais a Paulo Moreira Leite – jamais esse contrato de R$ 50 milhões fez parte da peça de acusação. Foi ignorado por Antônio Fernando, por seu sucessor Roberto Gurgel e pelo relator Ministro Joaquim Barbosa. Ignorando-o, livrou Dantas do inquérito. Livrando-o, permitiu-lhe negociar sua saída da Brasil Telecom, ao preço de alguns bilhões de reais.
    As gambiarras no inquérito

    Sem Dantas, como justificar os recursos que financiaram o mensalão? Apelou-se para essa nonsense de considerar que a totalidade da verba publicitária da Visanet (R$ 75 milhões) foi desviada. Havia comprovação de pagamento de mídia, especialmente a grandes veículos de comunicação, de eventos, mas tudo foi deixado de lado pelos PGRs e pelo relator Barbosa.

    Em todos os sentidos, Gurgel foi um continuador da obra de Antonio Fernando. Pertencem ao mesmo grupo político – os “tuiuius” – que passou a controla o Ministério Público Federal. Ambos mantiveram sob estrito controle todos os inquéritos envolvendo autoridades com foro privilegiado. Nas duas gestões, compartilhavam as decisões com uma única subprocuradora – Cláudia Sampaio Marques, esposa de Gurgel. Dentre as acusações de engavetamento de inquéritos, há pelos menos dois episódios controvertidos, que jamais mereceram a atenção nem do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) nem da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) – esta, também, dominada pelos “tuiuius”: os casos do ex-senador Demóstenes Torres e do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda.

    Tanto na parte conduzida por Antonio Fernando, quanto na de Gurgel, todas as decisões pareceram ter como objetivo esconder o banqueiro.

    É o caso da “delação premiada” oferecida a Marcos Valério. O ponto central – proposto na negociação – seria imputar a Lula a iniciativa das negociações com a Portugal Telecom. Sendo bem sucedido, livraria Dantas das suspeitas de ter sido o verdadeiro articulador das negociações. A “delação premiada” não foi adiante porque, mesmo com toda sua discricionariedade, Gurgel não tinha condições de oferecer o que Valério queria: redução das penas em todas as condenações.

    Quando iniciaram-se as investigações que culminaram na ação, Antônio Fernando foi criticado por colegas por não ter proposto a delação premiada a Marcos Valério. Acusaram-no de pretender blindar Lula. A explicação dada na época é que não se iria avançar a ponto de derrubar o presidente da República, pelas inevitáveis manifestações populares que a decisão acarretaria. Pode ser. Mas, na verdade, na época, sua decisão blindou Daniel Dantas, a quem Valério servia. Agora, na proposta de “delação” aceita por Gurgel não entrava Dantas – a salvo dos processos – mas apenas Lula.

    O inquérito dá margem a muitas inteerpretaçòes, decisões, linhas de investigação. Mas como explicar que TODAS as decisões, todas as análises de provas tenham sido a favor do banqueiro?

    Os motivos ainda não explicados

    Com o tempo aparecerão os motivos efetivos que levaram o Procurador Geral Roberto Gurgel e o relator Joaquim Barbosa a endossar a posição de Antonio Fernando e se tornarem também avalistas desse jogo.

    Pode ter sido motivação política. Quando explodiu a Operação Satiagraha – que acusou Daniel Dantas de corrupção -, Fernando Henrique Cardoso comentou que tratava-se de uma “disputa pelo controle do Estado”.

    De fato, Dantas não é apenas o banqueiro ambicioso, mas representa uma longa teia de interesses que passava pelo PT, sim, mas cujas ligações mais fortes são com o PSDB de Fernando Henrique e principalmente de José Serra.

    Uma disputa pelo poder não poderia expor Dantas, porque aí se revelaria a extensão de seus métodos e deixaria claro que práticas como as do mensalão fazem parte dos (péssimos) usos e costumes da política brasileira. E, se comprometesse também o principal partido da oposição, como vencer a guerra pelo controle do Estado? Ou como justificar um julgamento de exceção.

    Vem daí a impressionante blindagem proposta pela mídia e pela Justiça. É, também, o que pode explicar a postura de alguns Ministros do STF, endossando amplamente a mudança de conduta do órgão no julgamento. Outros se deixaram conduzir pelo espírito de manada. Nenhum deles engrandece o Supremo.

    Poderia haver outros motivos? Talvez. Climas de guerra santa, como o que cercaram o episódio, abrem espaço para toda sorte de aventureirismo, porque geram a solidariedade na guerra, garantindo a blindagem dos principais personagens. No caso de temas complexos – como os jurídicos – o formalismo e a complexidade dos temas facilitam o uso da discricionariedade. Qualquer suspeita a respeito do comportamento dos agentes pode ser debitada a uma suposta campanha difamatória dos “inimigos”. E com a mídia majoritariamente a favor, reduz a possibilidade de denúncias ou escândalos sobre as posições pró-Dantas.

    É o que explica os contratos de Antonio Fernando com a Brasil Telecom jamais terem recebido a devida cobertura da mídia. Não foi denunciado pelo PT, para não expor ainda mais suas ligações com o banqueiro. Foi poupado pela mídia – que se alinhou pesadamente a Dantas. E foi blindado amplamente pela ala Serra dentro do PSDB.

    Com a anulação completa dos freios e contrapesos, Antonio Fernando viu-se à vontade para negociar com a Brasil Telecom.

    De seu lado, todas as últimas atitudes de Gurgel de alguma forma vão ao encontro dos interesses do banqueiro. Foi assim na tentativa de convencer Valério a envolver Lula nos negócios com a Portugal Telecom. E também na decisão recente de solicitar a quebra de sigilo do delegado Protógenes Queiroz – que conduziu a Satiagraha – e do empresário Luiz Roberto Demarco – bancado pela Telecom Itália para combater Dantas, mudando completamente em relação à sua posição anterior.

    A quebra do sigilo será relevante para colocar os pingos nos iis, comprovar se houve de fato a compra de jornalistas e de policiais e, caso tenha ocorrido, revelar os nomes ou interromper de vez esse jogo de ameaças. Mas é evidente que o o resultado maior foi fortalecer as teses de Dantas junto ao STF, de que a Satiagraha não passou de um instrumento dos adversários comerciais. Foi um advogado de Dantas – o ex-Procurador Geral Aristisdes Junqueira – quem convenceu Gurgel a mudar de posição.

    Com seu gesto, Gurgel coloca sob suspeitas os próprios procuradores que atuaram não apenas na Satiagraha como na Operação Chacal, que apurava envolvimento de Dantas com grampos ilegais.

    Em seu parecer pela quebra do sigilo, Gurgel mencionou insistentemente um inquérito italiano que teria apurado irregularidades da Telecom Itália no Brasil. Na época da Satiagraha, dois procuradores da República – Anamara Osório (que tocava a ação da Operação Chacal na qual Dantas era acusado de espionagem) e Rodrigo De Grandis – diziam claramente que a tentativa de inserir o relatório italiano nos processos visava sua anulação.. Referiam-se expressamente à tentativa do colunista de Veja, Diogo Mainardi, de levar o inquérito ao juiz do processo. Anamara acusou a defesa de Dantas de tentar ilegalmente incluir o CD do relatório no processo.


    Dizia a nota do MPF de São Paulo:
    “Para as procuradoras brasileiras, a denúncia na Itália é normal e só confirma o que já havia sido dito nos autos inúmeras vezes pelo MPF que, a despeito dos crimes cometidos no Brasil por Dantas e seus aliados e pela TIM, na Itália, “a investigação privada parecia ser comum entre todos, acusados e seus adversários comerciais”. Além disso, o MPF não pode se manifestar sobre uma investigação em outro país, por não poder investigar no exterior, e vice-versa.

    Para o MPF, as alusões da defesa de que a prova estaria “contaminada” não passam de “meras insinuações”, pois a prova dos autos brasileiros foi colhida com autorização judicial para interceptações telefônicas e telemáticas, bem como, busca e apreensão. Tanto é assim que outro CD entregue à PF, em julho de 2004, por Angelo Jannone, ex-diretor da TIM, também foi excluído dos autos como prova após manifestação do MPF, atendendo pedido da defesa de Dantas”.


    Agora, é o próprio PGR quem tenta colocar o inquérito no processo que corre no Supremo e, automaticamente, colocando sob suspeição seus próprios procuradores.. E não se vê um movimento em defesa de seus membros por parte da ANPR.

    Quando a Satiagraha foi anulada no STJ (Superior Tribunal de Justiça), o Ministério Público Federal recorreu, tanto em Brasília quanto em São Paulo. Na cúpula, porém, Dantas conseguiu o feito inédito de sensibilizar quatro dos mais expressivos nomes do MInistério Público Federal pós-constituinte: os ex-procuradores gerais Antonio Fernando e Aristides Junqueira (que ele contratou para atuar junto a Roberto Gurgel), o atual PGR e o ex-procurador e atual presidente do STF Joaquim Barbosa.

    Levará algum tempo para que a poeira baixe, a penumbra ceda e se conheçam, em toda sua extensão, as razões objetivas que levaram a esse alinhamento inédito em favor de Dantas.