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sábado, 8 de agosto de 2015

“vai lá e prende aquele filho da p…”


O caso do Almirante Othon: coragem e a honra são bons sinais num militar.




8 de agosto de 2015 | 03:15 
Autor: Fernando Brito





O Estadão publica a narrativa de um delegado da Polícia Federal sobre a reação do vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear,à chegada da Polícia Federal em sua casa.

É descrita como “violenta”, mesmo sendo a de um homem de 76 anos. E quem tem 76 anos ou um ente próximo nesta idade sabe que é difícil chamar de violência qualquer reação de alguém tão fragilizado fisicamente.

É bom pensar em como uma equipe da Polícia Federal, já admitida em sua casa (como fica claro quando o delegado diz que “a equipe sacou suas armas e se abrigou nos demais cômodos”) mandou abrir a porta ou esta seria arrombada.

Não há nenhuma menção a tentativa de diálogo – “Almirante, eu sou o delegado Fulano de Tal, e tenho aqui um mandado de prisão e outro de busca e apreensão, e gostaria que o senhor colaborasse com as ordens que temos de cumprir”, por exemplo – e sim um “abre ou vamos arrombar”.

Ao melhor estilo do que nossa polícia está acostumada a fazer.

Não é despropositada a reação de um militar de 76 anos, ameaçado assim em sua própria casa, com dois chutes na porta de seu quarto, reagir dizendo que “meteria bala”.

Ao contrário, é o que faria um oficial digno e corajoso, que não se assusta com gritos.

Agora, imagine a cena: meia dúzia de policiais, fortemente armados, já no inteiro controle de um apartamento, diante da resistência verbal de um homem de idade provecta têm como única atitude ” desferir dois chutes na porta”, como não dispunha de ferramentas.

Se o Almirante Othon estivesse mesmo reagindo com violência, com a arma e a experiência de usá-la que sua condição de militar dá, tivesse mesmo “metido bala”, teríamos a esta altura dois mortos, pelo menos, senão mais, como uma arma automática – uma pistola – poderia fazer entre os próprios policiais, pois os alvos, na passagem pela porta, são fáceis de atingir por quem sabe atirar.

Portanto, a possibilidade de que ele estivesse mesmo armado seria mais uma razão, além de todas, para uma ação ponderada, não um meter o pé na porta.

Uma tragédia estúpida, a pique de ser provocada por gente estúpida.

Dá para entender que sejam policiais treinados para atirar só em ultimo caso? Dá para entender que ainda que fosse um bandido comum, encurralado, não seria assim que se deveria agir? Dá para aprender isso só assistindo seriado policial, desde que não seja aquele do Charles Bronson. Que perigo de fuga havia ali? Em que prejudicaria a missão policial gastar dez minutos argumentando, oferecendo garantias de integridade, agindo com calma?

Tanto é assim que, em seguida, o almirante,, como o próprio delegado registra em seu relatório, que o “cumprimento do mandado seguiu sem problemas, tendo senhor Othon Luiz Pinheiro da Silva auxiliado em tudo que lhe foi solicitado, tendo, inclusive fornecido senha de acesso seu computador combinação do cofre do imóvel”.

Aliás, nem sequer se cogitou de convocá-lo a depor, a apresentar documentos, a explicar as acusações que lhe são feitas. Ou será que acham que o Almirante ia fugir, ia fazer uma reunião com empreiteiros que estão presos para forjar uma história? Como, se já tinham – ou dizem que tinham – as provas materiais de seus favorecimentos?

É a era da meganhagem, do promotor que combina com o juiz e chama os policiais para lhes dizer: “vai lá e prende aquele filho da p…”

Nós, que aprendemos que não é aceitável que militares ajam assim contra qualquer pessoa não podemos aceitar que um delegado de polícia aja assim contra um militar, sobretudo um de idade provecta.

Mas há algo que me impressionou bem na atitude do Almirante Othon. É que reagir não é apenas um ato de coragem – talvez insana, em tais condições – mas também de dignidade. Não significa que seja, por isso, inocente, mas é certamente um sinal de honradez, destes que brotam sem controle de nosso interior.

Os canalhas, pode reparar, são todos mansos diante da força.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

e ocê... vai ajudar “devolver o Brasil a seu lugar”?

Pedradas contra o Brasil

Há uma verdadeira campanha contra o Brasil, na mídia alemã e na europeia, que atinge jornais, revistas, rádio e TV. Há campanhas sistemáticas na internet.

Carta Maior

Flávio Aguiar


Na madrugada de domingo para segunda feira e Embaixada do Brasil em Berlim, que também é a residência da Embaixadora, foi alvo de um ataque a pedradas por parte de um grupo de mascarados, por volta da uma hora. As primeiras informações falavam em quatro apedrejadores, mais tarde houve informações de que eram mais, até dez. Foram filmados pelas câmaras de segurança, mas sem possibilidade de identificação. Fugiram antes que a polícia chegasse.

No dia seguinte apareceu na internet uma mensagem ( Kämpferische Botschaft nach Brasilien, em linksunten-indymedia.org) em alemão, dizendo que o ataque – usando “as armas do povo – as pedras” eram um protesto contra a realização da Copa no Brasil e os altos gastos decorrentes.

Seria um acontecimento apenas ridículo (não houve vítimas, somente danos materiais) se não fosse pela moldura em que ele se dá.

Há uma verdadeira campanha contra o Brasil, na mídia alemã e na europeia, que atinge jornais, revistas, rádio e TV. Há campanhas sistemáticas na internet. Parte da campanha, a mais ideológica, é contra o governo de Dilma, contra Lula e contra o PT. Parte dela é contra o Brasil mesmo, o país em que nada funciona, tudo é precário, campeão da corrupção, da violência, homofóbico, cujo governo não tem preocupação pelo meio-ambioente, país apenas de miséria e pobreza, favelas e cortiços, país que é um fracasso de qualquer ponto de vista que se olhe, até do futebol.

Todos os dias pinga uma matéria na mídia ou na internet falando mal do Brasil, do seu governo. Até nas discussões sobre os 50 anos da ditadura militar sobrou para o Brasil atual. Uma das sessões a que fui contou com a participação de uma professora universitária vinda especialmente do Brasil para pontificar que o nosso país era um país sem memória, despolitizado, violento em todas as dimensões, etc., motivando até mesmo uma senhora do público a dizer que, de fato, o nosso país era uma país sem cultura, onde só havia “samba e música”(sic). Sem comentários.


Pior do que o Brasil na América do Sul, só a Venezuela.

Nunca se escreveu, disse, projetou em áudio-visual, nunca se repetiu tanta estupidez, ofensa, bobagem, nunca se construiu tanta desinformação ignorante disfarçada de informação e “denúncia”, sobre o nosso país como agora. É claro que para o lado mais politizado da campanha – que não precisa de conspiração, bastando apenas orquestração – qualquer referência ao Brasil de hoje, incluindo a Copa, tem na verdade por alvo o Brasil de outubro, para ajudar a desacreditar o governo de Dilma Rousseff e favorecer a oposição, seja ela qual for. O lado menos politizado, mas não menos campeão em matéria de construir a desinformação e a ignorância, tem por fulcro visível um desejo de “devolver o Brasil ao seu lugar”, de onde, pelo visto, ele não deveria ter saído.

Reconheçamos que o mesmo até acontecendo na nossa querida velha mídia, monopolista e oligárquica, dentro do país. Parte, portanto, destas campanhas, é uma ressonância do que aparece dentro das nossas próprias quatro linhas. Nossa velha mídia vem mobilizando constantemente o desejo de retorcesso por parte de quem acha seus privilégios – sejam lá quais forem, ilusórios ou não – ameaçados pelas melhorias sociais que mudaram o perfil do nosso país. São pessoas e mídias que reproduzem uma imagem usada, com outros propósitos, por Marshall McLuhan, em seu livro dos anos sessenta, The Medium is the Message”: avançam para o futuro de olho no espelho retrovisor. Acham que é possível abafar o país e voltar a uma época em que, por exemplo, andar de avião era privilégio de poucos. Isto para falar o mínimo, diante de temas como entrar na universidade, desfrutar lazer e espaços culturais, ganhar mais no salário, ver os filhos educados no Bolsa Família quebrando o círculo vicioso da miséria que tende a se auto-reproduzir.

Fazendo um amálgama de má-fé, ingenuidade, desinformação construída, ignorância, etc., também nunca se escreveu, falou, se divulgou em todos os meios tanta estupidez sobre o Brasil no próprio Brasil também. Talvez nunca também com tanto ódio ressentido, e desprezo enrustido por nossa própria terra e nosso próprio povo. E também com ajuda de vozes da extrema-esquerda, que sistematicamente desqualificam todas as melhoras por que o país vem passando.

No plano internacional a parte mais politizada da campanha (e aí é campanha mesmo, no sentido estrito da palavra) é liderada pelos porta-vozes da City financeira londrina, The Economist e Financial Times, mas com a participação mais eventual de articulistas em outros jornais, como o New York Times e o El País, por exemplo, embora a linha destes jornais compreenda uma pequena, mais maior diversificação do que a daqueles dois panfletos anti-Brasil, anti-Dilma, e – last but not least – anti-Guido Mantega. É a campanha contra o fracassado governo “intervencionista” do Brasil e da louvação desmedida do governo “de sucesso” do México, porque este segue o receituário (neo)liberal que, na realidade, catapultou a pobreza em seu território, que hoje chega a pouco mais de 50% da população.

A parte mais “generalista” da campanha põe suas fichas em devolver o país a uma imagem que era mais cômoda para as abaladas consciências eurocêntricas, neste momento em que este continente vem se revelando um dos campeões do empobrecimento mundial. (Sou muito preciso nesta observação: empobrecimento, ainda não pobreza, embora esta venha aumentando de modo assustador e desolador). Num período em que o mundo perdeu 60 milhões de postos de trabalho (mais ou menos de 2002 a 2012, com acentuação das perdas a partir da crise de 2007/2008) o Brasil criou 16 milhões de novos postos de emprego formal.

Num momento em que na Europa se corta na carne dos direitos sociais e portanto da cidadania de fato, os trabalhadores brasileiros vêm tendo os salários melhorados, graças à política de aumento do salário mínimo, à situação considerada como de pleno emprego (para desespero dos economistas ortodoxos) e vêm aumentando sua participação na renda nacional. Mais: o Brasil se tornou um porta-voz não oficial dos países emergentes no G-20 e passou de devedor a credor no FMI – emprestando dinheiro (ainda que pouco diante das gigantescas injeções de verbas que necessárias para atender seu abalado sistema financeiro) à velha Europa! Eu poderia continuar citando “perturbações da velha imagem”, mas estas bastam para dar conta de onde vem este verdadeiro sentimento, esta necessidade ressentida, de “devolver o Brasil a seu lugar”, que ora é consciente mas também é inconsciente.

Dentro desta moldura, não dá para deixar de se considerar que, mesmo que involuntariamente, as pedradas que a Embaixada levou são uma extensão – ainda que atravessando a fronteira da retórica em direção ao “desforço físico” – das pedradas que o Brasil vem levando e que alimentam o ressentimento e o desprezo pelo nosso país.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

e continuam sem mostrar o darf?


Bloomberg e os bilionários da Globo

Blog do Miro




Por Altamiro Borges

Na semana passada, o jornal Valor divulgou o chamado índice “Bloomberg Billionaires”, o ranking das 300 maiores fortunas do mundo. Em plena crise mundial da economia capitalista, ele confirmou que “as pessoas mais ricas do planeta ficaram ainda mais ricas em 2013 após aumentarem o seu patrimônio líquido coletivo em US$ 524 bilhões” e ainda indicou que “os ricos continuarão ficando mais ricos em 2014”, segundo declaração arrogante de um dos incluídos no ranking. A mídia nativa, porém, não deu maior destaque para os ricaços brasileiros – talvez porque na lista apareçam com destaque os três filhos de Roberto Marinho, donos das Organizações Globo, o maior império de comunicação da América do Sul.

Nesta semana, a edição brasileira do jornal espanhol El País abriu o jogo no artigo intitulado “Quem e quantos são os ricos na América Latina?”. Segundo a matéria, “na região há 111 multimilionários que superam 1 bilhão de dólares de patrimônio. O Brasil lidera ranking de ultrarricos”. Jorge Paulo Lemann, acionista da cervejaria Ambev, da rede da fast food Burger King e da fabricante de Ketchup Heinz, é o maior ricaço brasileiro e o 34º no mundo, com uma fortuna avaliada em US$ 22,3 bilhões. Na sequência surgem o banqueiro Joseph Safra, no posto 92, com US$ 12,4 bilhões; e os empresários Marcel Telles (posto 113, com US$ 10,4 bilhões) e Carlos da Veiga (posto 138, com US$ 8,9 bilhões), ambos sócios de Lemann.

Logo em seguida, no quinto, sexto e sétimo lugares dos mais ricos do Brasil, aparecem os filhos de Roberto Marinho, numa estranha contabilidade. “João Roberto Marinho (Organizações Globo), no número 165 do ranking mundial, com US$ 7,7 bilhões; José Roberto Marinho (Organizações Globo), no posto 166, com os mesmos dados que seu irmão; e Roberto Irineu Marinho (Organizações Globo), no número 177, com os mesmos dados de João e José Roberto”. Será que a estranha contabilidade tem alguma relação com a sonegação de impostos e desvio de grana para os paraísos fiscais, como foi denunciado recentemente pelo jornalista Miguel do Rosário, do blog O Cafezinho? De qualquer forma, somando as três fortunas, os três filhos do Marinho poderiam disputar o primeiro lugar no Brasil.

Como observa a matéria do El País, “desde a última crise de Wall Street, muitos cidadãos no mundo e, sobretudo nos EUA, protestaram contra este 1% da população global que domina a riqueza”. Fica a indagação: já que estão sendo planejados tantos protestos contra a Copa do Mundo no Brasil, inclusive com o discurso carbonário de vários “calunistas” da mídia golpista, não seria o caso de se organizar algumas manifestações contra os bilionários brasileiros, principalmente contra os donos das Organizações Globo? O motivo seria bem mais nobre e justo!


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Leia também:

- Globo rebaixa a nota do Brasil

- CBN quer sabotar a Copa do Mundo?

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- Quem vai fazer o serviço da direita?

- Os golpistas e a jogada da Copa

- Impostos e a visão predadora da Globo

Os direitos territoriais dos povos indígenas


Territórios indígenas ameaçados pela morosidade do Estado.



Entrevista especial com Maria Denise Fajardo e Luisa Girardi



“Assim como a história do Brasil pode ser lida como uma história de conquistas territoriais, também pode ser lida como uma história de perdas territoriais”, afirmam pesquisadoras



Foto: http://bit.ly/J5rdMV


A pesada engrenagem burocrática da formalização legal das Terras Indígenas no Brasil não é o único desafio à garantia dos direitos dos índios. Conforme Maria Denise Fajardo e Luisa Girardi, que concederam entrevista por e-mail à IHU On-Line, a Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, situada na região norte do Pará, encontra-se formalmente ainda na etapa de identificação, uma vez que foram cumpridas cinco das sete etapas do processo legal, faltando a homologação presidencial e o registro em cartório.

“O relatório antropológico de identificação deste território, entretanto, encontra-se devidamente concluído e tecnicamente aprovado pela Funai desde abril de 2013. A presidência tem prometido sua assinatura e publicação desde essa época, mas infelizmente tem encontrado dificuldades para fazê-lo. A morosidade deste processo de regularização fundiária vem produzindo uma situação de extrema insegurança, tendo, nos últimos anos, instaurado um clima de desconfiança entre os povos indígenas e quilombolas da região, vizinhos há mais de 150 anos”, apontam as pesquisadoras. O Estado argumenta que não procedeu o registro, pois há uma sobreposição territorial de terras para índios e quilombolas, mas o argumento não foi aceito pelo Ministério Público Federal - MPF. “O MPF instaurou um inquérito para acompanhar o processo de demarcação em 2011 e, não por acaso, recomendou que a Funai proceda à assinatura e publicação do relatório, uma vez que não há justificativa técnica para que o mesmo não seja assinado e publicado”, sustentam. Os indígenas e quilombolas da região recolhem assinaturas em uma petição pública pedindo mais agilidade da União.

Compreender a complexidade do tema requer ter em conta o processo histórico de constituição do Brasil. Segundo as pesquisadoras, a distribuição das Terras Indígenas no país reflete o padrão histórico de exploração econômica e que remonta a 1500. “De tal modo que assim como a história do Brasil pode ser lida como uma história de conquistas territoriais, também pode ser lida como uma história de perdas territoriais. Tudo depende do ponto de vista que adotemos: indígena ou não indígena. Do ponto de vista dos povos indígenas a história do Brasil se confunde com a história de suas lutas, principalmente da luta pelo direito à terra.”

Maria Denise Fajardo Grupioni possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo - USP. É pesquisadora do Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da USP. Atualmente integra o Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia Social desta mesma Universidade, onde realiza atividade docente e de pesquisa, com apoio daFundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - Fapesp.

Luisa Gonçalves Girardi, Bacharel em Ciências Sociais e mestre em Antropologia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. É Pesquisadora do Núcleo de Antropologia e Arqueologia da Amazônia - Naada/UFMG, possui experiência entre os povos indígenas da bacia do Trombetas, na Amazônia Setentrional, região à qual dedica-se desde 2010.

Confira a entrevista.


Foto: http://bit.ly/J5rdMV


IHU On-Line- Em que consiste o processo da Funai para liberar a homologação de área de mais de 2 milhões de hectares na região norte do Pará? Qual a atual situação desse processo?

Maria Denise Fajardo e Luisa Girardi - Os direitos territoriais dos povos indígenas que vivem no Brasil estão previstos no Artigo 231 da Constituição de 1988. Até hoje são regulamentados pelo Decreto 1775/1996. Este dispositivo – atualmente ameaçado pela pressão de setores econômicos ligados ao agronegócio e à mineração – prevê que a regularização fundiária dasTerras Indígenas brasileiras deve passar por um longo processo, que inicia-se com a realização de estudos antropológicos de identificação e delimitação e termina com a homologação e registro do território identificado.

Resumidamente, conforme o Decreto, os processos devem atender às seguintes etapas: (1) produção de estudos antropológicos de identificação e delimitação; (2)aprovação dos estudos e publicação no Diário Oficial da União pela Presidência da Fundação Nacional do Índio - Funai; (3) abertura de período de contestação dos estudos por quaisquer interessados (90 dias a partir da publicação do resumo do relatório no Diário Oficial da União); (4) expedição de portaria que declara os limites da Terra Indígena pelo Ministro da Justiça; (5) realização da demarcação física da área declarada; (6) homologação da Terra Indígenapor decreto presidencial; (7) registro da TI em cartório.

A Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, situada na região norte do Pará, encontra-se formalmente ainda na etapa de identificação. O relatório antropológico de identificação deste território, entretanto, encontra-se devidamente concluído e tecnicamente aprovado pela Funai desde abril de 2013. A presidência tem prometido sua assinatura e publicação desde essa época, mas infelizmente tem encontrado dificuldades para fazê-lo. A morosidade deste processo de regularização fundiária vem produzindo uma situação de extrema insegurança, tendo, nos últimos anos, instaurado um clima de desconfiança entre os povos indígenas e quilombolas da região, vizinhos há mais de 150 anos. O governo chegou a afirmar que aguarda que seja resolvida a questão da sobreposição de terras indígenas e quilombolas para publicar o relatório, desconsiderando que, na verdade, é a própria indefinição que tem produzido a tensão na região.

O Ministério Público Federal instaurou um inquérito para acompanhar o processo de demarcação em 2011 e, não por acaso, recomendou que a Funai proceda à assinatura e publicação do relatório, uma vez que não há justificativa técnica para que o mesmo não seja assinado e publicado. Portanto, neste, como em vários outros processos de regularização fundiária de terras indígenas atualmente parados, não estamos diante de uma questão técnica, e sim claramente diante de uma questão de vontade política.


IHU On-Line - Qual a situação da terra indígena de Oriximiná, onde vivem cerca de 3,5 mil índios?

Maria Denise Fajardo e Luisa Girardi - Oficialmente vinculadas ao município de Oriximiná, existem hoje três Terras Indígenas devidamente homologadas (TI Zo’é, TI Nhamundá-Mapuera e TI Trombetas-Mapuera) e outra em processo de demarcação (TI Kaxuyana-Tunayana). As quatro áreas são tradicionalmente ocupadas por diversos povos indígenas que, em conjunto, possuem uma população estimada em 3.500 pessoas. Na TI Kaxuyana-Tunayanaexistem 15 aldeias, distribuídas ao longo da calha dos rios Nhamundá, Trombetas e seus afluentes, Cachorro e Mapuera. Estas aldeias são tradicionalmente ocupadas pelos Kaxuyana e Tunayana – que dão nome às áreas–, mas também pelos Hixkaryana e Waiwai. Juntas, as aldeias possuem uma população estimada em 500 pessoas, conforme levantamento realizado em 2010. Também existem evidências que sugerem a presença de povos indígenas isolados, isto é, de grupos que, voluntariamente, têm evitado o contato com outros índios e não índios na região.

A TI Kaxuyana-Tunayana faz fronteira com as outras Terras Indígenas existentes na região e é vizinha de Unidades de Conservação de Proteção Integral, Uso Sustentável (Reserva Biológica Trombetas, Estação Ecológica Grão-Pará,Floresta Estadual do Trombetas, Floresta Estadual de Faro) e de Territórios Quilombolas (Cachoeira Porteira e Alto Trombetas). A região em que as aldeias localizam-se é de difícil acesso, e por isso mantiveram-se, até hoje, preservadas da exploração agropecuária, hidroelétrica, madeireira e minerária. A existência e permanência deste conjunto de áreas protegidas é extremamente importante para a manutenção do modo de vida dos povos locais, que dependem, sobretudo, da agricultura familiar, caça, coleta e pesca. Os serviços de educação e saúde nas aldeias das Terras Indígenas já homologadas são existentes, ainda que precários. Embora a maioria das aldeias possua escolas de ensino fundamental e pequenos postos de saúde, faltam equipamentos, infraestrutura e materiais. Já nas aldeias da TI Kaxuyana-Tunayana, em processo de regularização, a presença de dentistas, enfermeiros e médicos é rara e as aldeias mais distantes não possuem sequer Agentes Indígenas de Saúde - AISs ou Agentes Indígenas de Saneamento - AISANs. Neste sentido, a regularização fundiária é importante também para que estes serviços sejam garantidos com mais facilidade.


IHU On-Line- Quando o processo de regularização fundiária desta terra foi iniciado?

Maria Denise Fajardo e Luisa Girardi - A demanda indígena pela regularização de seu território de ocupação tradicional remonta ao início dos anos 2000. Em 2003, as lideranças indígenas protocolaram na Coordenação Geral de Identificação e Delimitação da Funai documento no qual apresentaram um mapa detalhado de sua área de ocupação tradicional e solicitaram o reconhecimento pelo órgão indigenista de sua terra tradicionalmente ocupada. No mês de agosto de 2005, foi formalizada, na Coordenação de Identificação e Delimitação da Funai, sua demanda de estudo e regularização fundiária em área contígua à Terra Indígena Trombetas/Mapuera. Mas somente em julho de 2008 a Funai constituiu Grupo Técnico com o objetivo de realizar o estudo de identificação e delimitação da Terra Indígena Kaxuyana e Tunayana (Portaria 875 de 31/07/2008). Esse estudo, tecnicamente aprovado em abril de 2013, está à espera de assinatura pela Presidência da Funai e da publicação no Diário Oficial da União.

IHU On-Line - Em que consiste a proposta de mudança do Ministério da Justiça no processo de demarcação de terras indígenas?

Maria Denise Fajardo e Luisa Girardi - No último mês, José Eduardo Cardozo, Ministro da Justiça, fez circular entre as lideranças indígenas que integram o Conselho Nacional de Política Indigenista - CNPI uma minuta de portaria ministerial para encaminhar a mudança do procedimento que orienta a demarcação das Terras Indígenas no Brasil, o que vem sendo anunciado desde maio deste ano. A minuta propõe o acréscimo de diversos procedimentos administrativos ao Decreto 1775/1996 – que, como mencionado, hoje regulamenta os processos de demarcação – e, de acordo com o discurso oficial, tem o objetivo de “diminuir a judicialização”.

A proposta, entretanto, burocratiza os procedimentos necessários para a regularização fundiária das Terras Indígenas, além de propor a formalização da intervenção de interessados nos processos de demarcação desde o seu início. Na prática, essa burocratização deve paralisar as demarcações, e por isso a proposta não foi bem recebida pelo movimento indígena.


IHU On-Line- Há uma solução jurídica para a demarcação e homologação das terras indígenas?

Maria Denise Fajardo e Luisa Girardi - Para a demarcação e homologação das áreas existe solução jurídica, desde que não haja nenhum tipo de sobreposição em termos de ocupação e uso.

Em havendo sobreposição, tanto devido à presença de outras populações tradicionais (quilombolas, ribeirinhos, etc.) quanto de unidades de Conservação, como é o caso da TI Kaxuyana-Tunayana, que encontra-se sobreposta por uma comunidade quilombola (Cachoeira Porteira) e por uma Floresta Estadual (Flota Trombetas) no Pará, neste caso até hoje não existe solução jurídica. Os problemas causados por tal sobreposição têm tensionado as relações entre índios e quilombolas na região e não foram até o momento equacionados. Se por um lado os processos de regularização fundiária, tanto da ocupação indígena quanto quilombola, remontam ao início dos anos 2000, em dezembro de 2006 o governo estadual criou as Florestas Estaduais Trombetas (Decreto 2.607, de 04/12/2006) eFaro (Decreto 2.605, de 04/12/2006) sobrepostas às terras ocupadas não só pelos quilombolas de Cachoeira Porteira mas também pelos índios Kaxuyana e Tunayana. E, no caso da Flota Trombetas, também pela comunidade quilombola Ariramba (no limite leste, no município de Óbidos). A criação dessas Flotas desrespeitou os direitos constitucionais destas populações às suas terras bem como o direito à consulta livre, prévia e informada assegurado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho - OIT. A sobreposição com a Unidade de Conservação permanece como mais uma questão a ser equacionada nesse processo. Os índios e quilombolas dessa região se conhecem há mais de 150 anos, mais precisamente, desde a época da Cabanagem (1836), quando os quilombolas subiram o rio Trombetas em busca de refúgio, e foram dar em territórios indígenas. Avizinhando-se, estranharam-se, confrontaram-se, e por fim aliaram-se, estreitando relações não só em torno da atividade castanheira (os índios extraíam castanha em troca das mercadorias levadas pelos negros a partir de Óbidos e Oriximiná), como também em torno de laços de compadrio, reciprocidade e, eventualmente, de casamentos. Laços estes que, com o tempo e as mudanças no contexto geopolítico e econômico da região, enfraqueceram-se, dando lugar, tanto da parte dos índios quanto dos quilombolas, a novas relações com novos agentes, focadas não mais na interação preexistente, mas na quase ausência de interação. Mais recentemente, no início dos anos 2000, a demanda pela regularização fundiária acabou por colocar índios e quilombolas em lados opostos uma vez que trouxe a necessidade de se estabelecer limites claros num espaço até então compartilhado em uma convivência regida por regras próprias, baseadas na busca de bom senso por ambas as partes e na informalidade. A nosso ver, o processo foi acirrado pela dificuldade dos órgãos governamentais em estabelecer uma agenda positiva de diálogo na busca da construção de uma solução acordada, na falta de uma solução jurídica predefinida para esse tipo de situação fundiária.


IHU On-Line - Qual é hoje a situação mais complicada em torno da demarcação e homologação de terras indígenas no país? Entre as etnias, quais vivem em condição mais difícil no que se refere ao direito à terra?

Maria Denise Fajardo e Luisa Girardi - Basta olharmos para a distribuição das Terras Indígenas no mapa do Brasil para vermos que as maiores terras indígenas encontram-se na Amazônia, e as menores espalham-se rarefeitamente pelo resto do país. Isso é reflexo de um processo histórico de avanço da exploração econômica, de toda costa em direção ao interior, e do sul em direção ao norte do Brasil, que remonta a 1500. De tal modo que, assim como a história do Brasil pode ser lida como uma história de conquistas territoriais, também pode ser lida como uma história de perdas territoriais. Tudo depende do ponto de vista que adotemos: indígena ou não indígena. Do ponto de vista dos povos indígenas, a história do Brasil se confunde com a história de suas lutas, principalmente da luta pelo direito à terra. Neste sentido, o artigo 231 da Constituição de 1988 representa uma vitória no âmbito dessa luta. Mesmo assim, ainda hoje, os povos indígenas que habitam regiões exploradas por setores econômicos vinculados à agropecuária, às hidroelétricas, à indústria madeireira e à mineração vivenciam situações bastante delicadas. OsGuarani Kaiowá e os Terena, no Mato Grosso do Sul, e os Tupinambá, no sul da Bahia, têm experimentado um cotidiano extremamente violento, marcado pelo constante confronto com latifundiários. Conforme relatório publicado pelo Conselho Indigenista Missionário - CIMI, 60 índios foram assassinados no país em 2012, 37 dos quais no Mato Grosso do Sul. Este ano não foi muito diferente: no último mês recebemos notícias sobre o incêndio de um ônibus escolar que transportava alunos terena, sobre o assassinato de Ambrósio Vilhalva, importante liderança guarani-kaiowá e, por fim, sobre o “Leilão da Resistência”, em que os ruralistas angariaram mais de R$ 640 mil para “resolver a questão indígena” no Mato Grosso do Sul. A situação é impressionante e preocupante, e evidencia o flagrante desrespeito dos direitos dos povos indígenas que vivem no país.

PARA LER MAIS:

10/12/2013 - Demarcação de terras indígenas é ponto sensível

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Eduardo teria peso (e coragem) para confrontar a “candidata do Lula” em 2014?

Cenários eleitorais
O caminho para 2014: perdas e ganhos


publicada quarta-feira, 31/10/2012 às 12:03 e atualizada quarta-feira, 31/10/2012 às 14:18


Escrevinhador


por Rodrigo Vianna

Na eleição mais importante do país, o PSDB de São Paulo tentou fugir para Serra maestra. Fustigado pela rejeição de seu líder maior (?!), não soube reagir. Os tucanos (de São Paulo) não sabem lutar quando acuados. Covas sabia. Os que sobraram não sabem. Só conseguem avançar em terreno inimigo se tiverem a infantaria protegida pela aviação (mídia velha) e a artilharia (velha mídia). Na disputa em São Paulo, até contaram com artilharia pesada. Mas ela mirou para o lado errado: Mensalão, kit gay… Os tucanos paulistas – capturados pela irracionalidade de blogueiros medonhos da “Veja” e de pastores com estranhas fixações sexuais - falam cada vez mais apenas para convertidos. Caíram no gueto, e ali chafurdam.

A primeira conclusão óbvia que a eleição municipal nos traz é essa: o PSDB só vai sobreviver se trocar o eixo de comando. Saem os paulistas de calças sociais e camisas azuis. Entram os mineiros joviais. Alckmin não tem fôlego para pensar em Brasília, terá que se concentrar em São Paulo: o tucanato paulista está sob fogo serrado e cerrado, e pode perder seu bastião – como escrevi aqui.

Nesse giro para fora do gueto, Aécio ganha alguns aliados importantes: ACM Neto e um DEM que comandará a terceira cidade brasileira; Arthur Virgílio e a coragem de quem não foge de brigas amazônicas; o PPS com algumas cidades de médio porte conquistadas país afora.

Eduardo Campos e o PSB
Os tucanos também acham que podem atrair Eduardo Campos e o fortalecido PSB para uma aliança de ocasião contra o lulismo. Como eu havia escrito aqui, logo após o primeiro turno, o mais provável é que o PSDB vire linha auxiliar do neto de Arraes. Vejamos…

O PSB conquistou o maior número de capitais. Virou o quarto partido brasileiro, atrás apenas de PT, PSDB e PMDB. Isso é fato. E há mais: ao contrário dos tucanos, Eduardo pode – legitimamente – ensaiar um discurso “pós-Lula”, do tipo “gostamos do Lula, respeitamos o legado dele, mas é hora de seguir para uma nova fase”. Aécio dizer isso não cola, porque ele estará cercado por fantasmas dos velhos tempos fernandistas. Eduardo Campos dizer isso cola, sim!

Portanto, Eduardo tem base eleitoral de saída (Nordeste e algumas cidades grandes Brasil afora), e tem discurso. A questão é: a hora é 2014? Ou 2018? Isso depende do que acontecer com o PT.

Lula, Dilma e o PT
Lula colheu uma vitória maiúscula com a eleição de Haddad. Lula só perdeu na Globonews. A derrota tucana em São Paulo é tão séria que já começou o acerto de contas entre Serra e outras lideranças tucanas – que pretendem jogar toda a conta pelo fracaso nas costas do bravo líder da Mooca.

O PT vive uma situação curiosa, que merece análise mais aprofundada em outro momento. De um lado, consolidou-se no Sul/Sudeste com vitórias e/ou grandes votações em cidades importantes de São Paulo, Minas, Paraná, Rio… Podemos listar, além da capital paulista: Guarulhos (segundo município paulista), São Bernardo do Campo, Osasco, São José dos Campos, Uberlândia e Niterói – onde venceu; além de Campinas, Belo Horizonte, Ponta Grossa e Maringá – onde não venceu mas teve mais de 40% dos votos.

Ao mesmo tempo, no Norte/Nordeste o PT conquistou mais Prefeituras de pequeno porte, mas fracassou nas cidades grandes (com execeção de João Pessoa e Rio Branco). Qual a explicação? Erros políticos apenas (como se viu no Recife e Fortaleza)? Ou há motivação econômica?

A hipótese que se levanta é que as melhorias econômicas provocadas pelo Bolsa-Família, crédito consignado, Luz Para Todos estariam se esgotando nas cidades grandes do Norte/Nordeste. Nas pequenas, esses programas ainda fazem a diferença.

O PT viveria a aparente contradição de ser – ao mesmo tempo – um partido dos “grotões” nordestinos e das cidades grandes e médias com ampla população industrial ou já na era dos serviços.

Quem ocupa o lugar que o PT perdeu no Norte/Nordeste? PSB em boa parte (ou seja, o povo não está tão satisfeito com o PT, mas vê PSDB/DEM como passado).

Dilma tenta inaugurar nova fase de crescimento – com juros baixos, obras públicas, redução de impostoes. Os reflexos só devem aparecer em 2013/2014. Se a economia se acelerar, os primeiros a sentir a arrancada seriam moradores dos grandes centros. Assim, o PT poderia recuperar parte do eleitorado “perdido” em 2010 e 2012.

Nesse caso, sobraria pouco espaço para uma “aventura” de Eduardo Campos.

Mas e se a economia andar “de lado”, com crescimento tímido?

Aí, teríamos uma eleição mais aberta. Imaginem um quadro com Dilma (PT/PMDB), Aécio (PSDB/DEM/PPS), Eduardo Campos (PSB/PSD) e a incógnita de Marina Silva…

Eduardo tiraria parte do eleitorado petista do Nordeste. Com boas alianças com PSD e lideranças desgarradas, conquistaria (pequenos) nacos do Sul/Sudeste. Candidatura para 15% ou 20% dos votos.

Aécio tiraria (boa) parte do eleitorado mineiro do PT, sairia forte de São Paulo com apoio de Alckmin (que travará batalha de vida ou morte com PT) e conquistaria pedaços do Norte/Nordeste (com lideranças sobreviventes do DEM/PSDB). É candidatura para 20% ou 25% dos votos no primeiro turno.

Dilma teria uma votação espalhada pelo país. Poderia chegar a 40% ou 45%. Dificilmente venceria no primeiro turno.

O melhor para Aécio e Eduardo não seria uma aliança no primeiro turno. Mas candidaturas separadas, com possibilidade de apoio num segundo turno, a depender da conjuntura.

Eduardo teria peso (e coragem) para confrontar a “candidata do Lula” em 2014? Hoje, acho pouco provável. Mas não é um cenário de todo improvável.





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sábado, 4 de agosto de 2012

o “mensalão tucano” e o “mensalão petista”


Quem impede o impedimento de Toffoli é Gilmar Mendes

Posted by eduguim on 03/08/12 • Blog da Cidadania





Como antecipou este blog no post anterior, apesar de a mídia estar exercendo seu direito legal, democrático e constitucional ao “jus esperneandi” diante da banana que o ministro do STF José Antonio Dias Toffoli lhe deu ao ignorar solenemente a sua cobrança para que se declare impedido de atuar no julgamento do mensalão, a continuidade da pressão sobre o juiz, mesmo após ele ter deixado claro que decidiu atuar, não passa de jogo de cena.

No máximo, o que a mídia espera é semear o argumento que usará no caso de José Dirceu ser absolvido, o que lhe furtaria o discurso para acusar o Partido dos Trabalhadores e o governo Lula inteiros de terem instituído o que ela diz, sem nem ao menos corar, que teria sido “o maior escândalo de corrupção da história brasileira”, afirmação sobre a qual nenhum historiador, por mais tucano que seja, ousaria apor um mísero grama de aprovação.

Como já foi explicado aqui, o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, que vai deixando cada vez mais claro que representa a mídia e o PSDB no julgamento, sabe que, estrategicamente, pedir o impedimento de Toffoli não apenas atrasaria o resultado do julgamento para depois das eleições – o que iria contra os interesses eleitorais demo-tucano-midiáticos –, mas arrastaria o ministro Gilmar Mendes para o centro desse debate.

Arrastar Mendes para a mídia é tudo que ele, bem como ela e os partidos dos quais ele já provou ser aliado, não querem. Aliás, a mídia ousa muito ao insistir no impedimento de Toffoli, que parece preocupá-la sobremaneira. Isso porque, mesmo que os réus do mensalão evidentemente não queiram citar Mendes para não lhe provocarem o espírito revanchista, alguma voz política de peso e independente pode decidir fazê-lo.

De fato, arrastar Mendes para o debate sobre impedimento de juízes por conflito de interesses só ocorrerá, por ação dos réus, se houver uma mísera ação concreta – em vez de falatório –para impedir Toffoli. Eis a razão pela qual a mídia insiste na cobrança a ele e tenta esconder a cobrança idêntica que sofre Mendes.

Todos conhecem, de cor e salteado, as razões da mídia, do PSDB, do DEM, do PPS e do procurador-geral da República para pregarem o impedimento de Toffoli, mas ainda estão restritas aos círculos mais politizados as razões muito mais graves que podem ser esgrimidas para impedir Mendes.

Note-se que, apesar de que mídia, oposição e PGR tentam pinçar regras que, em tese, só atingiriam Toffoli, o conceito de impedimento de juízes é muito mais amplo. O que pode ser questionado legalmente é o conflito de interesses que pode sofrer um juiz. Se esse juiz serviu a grupos políticos que têm interesse no desfecho de um julgamento, materializa-se o conceito de impedimento.

Ora, Gilmar Mendes foi Advogado-Geral da União do governo Fernando Henrique Cardoso, que o indicou como ministro do Supremo Tribunal Federal em 20 de junho de 2002, a poucos meses do término daquele governo. Desde então, Mendes vem tendo uma atuação marcadamente de oposição aos governos que sucederam aquele ao qual serviu.

Casos como o grampo sem áudio, em que Mendes acusou Lula de mandar a Polícia Federal grampear seu gabinete, ou como a sua recente denúncia de que o ex-presidente tentou chantageá-lo para que absolvesse os réus do mensalão – denúncia, é sempre bom dizer, que foi desmentida pela única testemunha presente –, caracterizam, inequivocamente, que esse juiz padece de conflito de interesses para atuar no julgamento em tela.

Para a mídia, para a oposição e para o procurador-geral da República compensaria retrasar o julgamento para eliminar um voto a favor de José Dirceu tido como certo, o de Toffoli. Como dificilmente o ministro Cezar Peluso poderá ficar no cargo tempo suficiente para votar contra Dirceu devido ao fato de que o julgamento deve ultrapassar com folga a data-limite para ele participar (3 de setembro), valeria a pena o retraso.

Então por que o procurador-geral da República declarou, na última quinta-feira, que não irá pedir o impedimento de Toffoli para não retrasar o julgamento? Algumas semanas a mais não fariam diferença, porque, de um jeito ou de outro, Peluso não deverá ficar no cargo tempo suficiente para votar.

Gurgel não pedirá o impedimento de Toffoli, portanto, em primeiro lugar porque sabe que dificilmente os pares do ministro abririam um precedente que pode se voltar contra eles. Mas não é essa a razão que mais pesou para Gurgel. O que de fato pesa é que se a PGR, como parte do processo, pode pedir impedimento de um juiz, a outra parte, os réus, detém igual direito de pedir o impedimento de Mendes.

Arrastar o juiz da oposição e da mídia para o centro do debate sobre o julgamento do mensalão é tudo o que nem ele nem seus aliados querem. Se isso ocorrer, muita gente que ainda não enxerga irá enxergar que a mídia pede o impedimento de um só dos dois juízes que padecem de possível conflito de interesses e deixa o outro sem qualquer questionamento apenas porque ele deve votar como ela quer.

Ou alguém acredita no conto da mídia de que Mendes votaria a favor de Dirceu após se engalfinhar durante uma década com os governos federais do PT?

Para quem quer que o julgamento do mensalão transcorra à luz do melhor Direito, portanto, é positivo que a mídia esteja produzindo sinais de que se dá conta das limitações de seu projeto político-eleitoral de condenar José Dirceu. Apesar de ser prematuro afirmar que o STF não cometerá condenação política para agradar a mídia, tais sinais demonstram ser falsa a confiança que ela exibe em um desfecho do julgamento ao seu agrado.

*

Lewandowski promete ser a voz dos censurados pela mídia

Não poderia deixar de fazer um comentário sobre a primeira sessão do julgamento do mensalão. E o que há para comentar não é o tema que o plenário do STF discutiu, o desmembramento do processo que deixaria só três réus com foro privilegiado para aquela Corte julgar, pois os processos dos réus sem foro privilegiado iriam para instâncias inferiores da Justiça.

Em primeiro lugar, há que notar quão oportuno foi o voto do revisor do processo do mensalão, ministro Ricardo Lewandowski, pelo desmembramento do processo, em anuência à questão de ordem levantada pelo advogado Marcio Thomas Bastos. Até então, a mídia vinha escondendo – e continua escondendo – do público o inquérito do mensalão do PSDB. O voto foi oportuno porque desmascarou o gigantismo do processo do mensalão – e Lewandowski disse isso.

Explico: o processo do mensalão vem sendo apresentado pela mídia como “o maior da história” da Via Láctea por conta de seu tamanho e da quantidade de réus envolvidos. O que a mídia não diz é que esse processo é grande graças a uma manobra que impediu seu desmembramento, que a lei e o devido processo legal exigiam que ocorresse.

Lewandowski, além de ter citado as pressões midiáticas que a Corte que integra vem sofrendo, citou, textualmente, o “mensalão tucano” e a similaridade desse inquérito com o inquérito do “mensalão petista”, ou seja, citou um inquérito (o tucano) que a mídia tenta esconder de qualquer jeito. E denunciou a diferença de tratamento que a Justiça deu a dois casos quase idênticos.

Claro que a mídia não citou, em suas colunas e editoriais, a alusão de Lewandowski à diferença inexplicável de tratamento que a Justiça, por pressão midiática, vem dando a dois casos idênticos. Todavia, além de as pessoas mais politizadas já saberem disso, por certo não será a última vez que esse juiz deverá tocar em um escândalo que alguns especialistas consideram até mais grave que o “mensalão petista” devido à maior consistência das provas.

Há uma miríade de fatos sobre o “mensalão petista” que a mídia tenta esconder da sociedade. O julgamento desse caso, portanto, permitirá que um juiz que esteja disposto a defender a verdade e a justiça informe a sociedade sobre tudo o que meia dúzia de empresários inescrupulosos do setor de comunicação tentam esconder em benefício de grupos políticos decadentes.

*

Fernando Lugo diz que sofreu 23 tentativas de golpe



Na noite da última quinta-feira, o Blog da Cidadania participou de coletiva de imprensa que o ex-presidente do Paraguai Fernando Lugo concedeu em São Paulo no âmbito de visita que fez à cidade para se tratar do câncer que o acomete.

Ao todo, éramos vinte veículos, entre os quais as revistas Carta Capital e Caros Amigos e a Agência Brasil. Além destes, destaco as presenças da companheira de blogosfera Conceição Oliveira, do editor do Portal Vermelho, José Reinaldo, e do radialista da Rede Brasil Atual, o Colibri, entre outros.

Lugo é uma simpatia. Está tranqüilo e bem-humorado. Todavia, a pergunta do Blog a ele – cada veículo presente teve direito a uma pergunta – revelou que a situação no Paraguai está longe de ser animadora.

Perguntei ao ex-presidente que esperança pode ter um país que tem hoje a pior situação político-institucional, pois a medida de exceção do congresso paraguaio, que lhe interrompeu o mandato, pode se repetir no futuro caso o povo paraguaio eleja outro presidente progressista.

Lembrei a Lugo que ele começou a sofrer tentativas de golpe antes do fim do primeiro ano de seu mandato, na questão dos filhos que teve com algumas mulheres apesar de ser bispo da Igreja Católica. Afinal, por conta disso, a oposição tentou arrancar seu impeachment.

A resposta de Lugo foi impressionante e, para mim, desalentadora. Primeiro, revelou que não foi só aquela tentativa de golpe que sofreu. Sem especificar, afirmou que, ao todo, foram inacreditáveis 23 tentativas de impeachment (!). Além disso, disse que há esperança, sim, mas que conseguir fazer um governo progressista e eleger um legislativo decente “irá demorar”.

Como pré-condição, disse que o país precisa reformar a constituição elegendo uma assembléia nacional constituinte. Isso em um país em que a elite conservadora e a direita controlam com folga a máquina eleitoral.

Apesar disso, Lugo relatou que os golpistas já começam a perceber o custo da aventura em que se meteram.

Como resultado da suspensão do Paraguai do Mercosul, os produtos de exportação paraguaios que tinham como destino Brasil e Argentina não contam mais com redução de tarifas que os países-membros do bloco desfrutam, o que torna mais caros os produtos do país suspenso e, assim, os torna inviáveis comercialmente, o que está gerando demissões e pode levar a quebradeiras de empresários golpistas e não-golpistas.

A esperança que o Paraguai pode ter apesar de seu quadro político desalentador, portanto, é justamente que seja imposto duro castigo aos golpistas onde eles mais sentem, no bolso, de forma a desestimular novas aventuras antidemocráticas contra outros governos progressistas que o povo paraguaio venha a conseguir eleger.

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Assista, abaixo, a entrevista que o blogueiro deu ao Programa Desculpe a Nossa Falha



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terça-feira, 24 de julho de 2012

E você? perdeu o paraíso? ganhou inteligência?


O dilema entre o prazer e a realidade

Por Assis Ribeiro
Eu perdi o paraíso, mas ganhei inteligência.
Zeca Baleiro
Alessandro Marimpietri
Este texto tocará a todos nós, eu creio. Ele servirá de reflexão aos adolescentes, aos que já foram adolescentes, aos que são pais de adolescentes e àqueles que se recusam à assunção compulsória do papel de adulto.
Já sabemos que essa noção de adolescência é uma invenção cultural e, portanto, se modifica com o impiedoso passar do tempo. Não vivemos mais uma adolescência que preparava o sujeito para uma vida adulta onde lá se poderia ser amigo do rei. O que vemos estampada em nossos dias é uma adolescência que precisa resgatar um prazer perdido que dá o tom das vivências desses meninos e meninas. Eles já podem, se quiserem, ser amigos do rei. Nossa Pasárgada[2] juvenil se depara com uma nova bifurcação na qual tem ficado cada vez mais difícil conciliar prazer e realidade, liberdade e responsabilidade, desejo e dever.
Vivemos num tempo de elogio do prazer, de um hedonismo que se mostra mal costurado às entrelinhas do processo socializador e que nos faz acreditar sermos livres na medida quase exata em que somos um mais além de nós mesmos.
Desatados das amarras de uma moral verticalizada, excessivamente rígida e orientada para e pela razão, entoamos cânticos de louvor às expressões mais amplificados do nosso desejo.
Quem se esquece de Cazuza? Ele que nos obrigava a cada estrofe de uma canção sua, ou a cada passagem de sua vida sempre juvenil a questionar se vale mais a pena a vida curta de um só fôlego, ou sorve-la pouco a pouco a um preço de privações e abstenções mais ou menos significativas. Ou seja, querer um eterno hoje ou preferir uma chance de amanhã.
Quero criar um filho que seja capaz de tolher suas inquietudes juvenis em prol de uma vida mais longa e, por que não dizer, mais civilizada, ou por contraponto quero criar meu filho senhor absoluto do seu desejo e capaz de viver a vida às dentadas em frutas com sabor de já mordidas? Como conjugar expressões do tipo “aproveite agora enquanto você é jovem” com “seja responsável e cumpra com suas obrigações”?
Estamos mesmo diante de um dilema cuja resposta certa está a sete palmos sobre a terra, pois se escolhemos, sempre perdemos. As duas proposições são igualmente verdadeiras e necessárias. Freud já nos alertou para as conjugações entre princípio do prazer e princípio de realidade…
Sim Cazuza é verdade, o tempo não para. Mas será que temos que viver como o coiote atrás da lebre dos desenhos animados sempre em busca desse tempo?
Sendo assim basta colocarmo-nos diante das infinitas possibilidades da vida contemporânea, magistralmente representadas pelos muitos e muitos canais televisivos, nos empoderarmos do fálico controle remoto, sentarmos com boca escancarada cheia de dentes e passar por todos os canais e não assistir a nenhum deles. Basta criarmos o que muitos estão chamando da geração zapping. Zapeando pela vida estaremos ainda mais presos ou às contínuas possibilidades ou a uma única chance moderada de viver bem, mas ainda presos. Não continuamos, de um jeito ou de outro, como nos disse Raul Seixas, esperando a morte chegar?
O, já quase embolorado, Carpe Diem, popularizado pelo Sociedade dos Poetas Mortos travestiu-se num mantra dos tempos atuais e atrás dele vimos outras palavras de ordem com cara de receita da felicidade: “seja do tamanho dos seus sonhos!”, “junte seu primeiro milhão de dólares antes dos 40!”, “obtenha muitos orgasmos numa única relação!”, “alise o cabelo e seja poderosa!”… paremos por aqui.
Será que precisamos mesmo aproveitar tanto assim a vida? Ou será, por outro lado, que ela tem que ser uma enfadonha sucessão de acontecimentos sem muito sentido?
Pessoas regidas pelo marco exclusivo do prazer não são necessariamente mais felizes e nem mais livres, assim como viver sob a égide racional do certo e do planejado também em nada garante uma vida melhor.
Façamos com a vida o mesmo que fazemos com a morte. Sabemos de sua inexorável existência, mas para viver precisamos negá-la um pouquinho e admiti-la um pouquinho. Negá-la o suficiente para planejar algum futuro e admiti-la o suficiente para podermos nos dar ao luxo de alguns momentos intensos e interessantes.
Assim, penso que mais importante do que nós, pais ou filhos, respondermos a estas perguntas seja perguntar por que fazermo-nos estas perguntas. Este dilema oculta a demanda desenfreada por uma vida feliz.
Prazer ou realidade? Que venham os dois! De tanto buscar essa (desde sempre perdida) felicidade, nossa vida corre o risco é de ficar muito chata!
[1] In: Piercing (2001)
[2] Referência o poema “Vou-me embora pra Pasárgada” de Manuel Bandeira (1954)
ALESSANDRO MARIMPIETRI
Psicólogo, psicanalista, professor universitário, doutorando em Ciências da Educação

terça-feira, 17 de julho de 2012

os ricos estão pagando o imposto que deveriam pagar?

Enormes desigualdades
Quanto merecem ganhar os superexecutivos?


Escrevinhador

Por Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

Quanto merecem ganhar os presidentes de empresas? Esta é uma pergunta cada vez mais feita, sob apaixonada controvérsia, em países como Estados Unidos e Inglaterra. Nos últimos trinta anos, a remuneração executiva entre os americanos e os ingleses – e em menor grau em outras partes — subiu à estratosfera. Em 1980, um presidente de empresa nos Estados Unidos ganhava 42 vezes mais que a média dos funcionários comuns. Em 2010, a diferença passara de 42 para 343. Na Inglaterra, aconteceu um processo parecido – e uma comissão independente de estudar o assunto chamou de “corrosivo” o atual estado das coisas. Segundo a comissão, os ingleses estão por causa disso enfrentando uma situação de desigualdade social não vista desde os tempos vitorianos – na segunda metade do século 19, sob a Rainha Vitória e em plena infância da Revolução Industrial.

A novidade não está nos salários e bônus milionários dos altos executivos – e sim nas circunstâncias que os cercam. Enquanto a economia global ia bem, as recompensas nababescas pareciam fazer parte do cenário do mundo novo. Mas eis que no final da década de 2000 uma crise financeira coloca em recessão boa parte dos países desenvolvidos. Os líderes instam as pessoas a fazer sacrifícios – mas como convencê-las quando uma casta privilegiada continua intocada?

Os supersalários, se inspiravam antes admiração e inveja, passaram a transmitir uma mistura incendiária de raiva e indignação. Foi como se a chamada voz rouca das ruas acordasse para o seguinte ponto: se os executivos são tão bons assim a ponto de receber milhões de dólares por ano, como as empresas que eles comandam não tiveram força suficiente para impedir ou ao menos mitigar a crise econômica?

Em alguns casos, o que se viu foi exatamente o oposto. Um dos mais bem pagos executivos britânicos, o banqueiro Fred Goodwin, por exemplo, com um conjunto de ações desastradas, levou o banco RBS a quebrar sob um buraco de mais de 20 bilhões de libras. O governo britânico salvou o RBS com dinheiro do contribuinte para evitar um trauma ainda maior na economia – enquanto Goodwin saía de cena com uma pensão vitalícia de 700 mil libras por ano.

Foi dentro desse quadro que surgiram os movimentos de protesto que marcaram tão intensamente 2011. O primeiro deles, o “Ocupe Wall Street”, consagraria uma expressão que conquistaria rapidamente repercussão internacional: “Somos os 99%”. Dias atrás, o primeiro ministro britânico, David Cameron, admitiu que o “sangue ferve” quando as pessoas, num cenário de austeridade forçada, vêem o tamanho dos salários dos executivos. O governo de Cameron estuda como coibir o avanço da desigualdade. Uma das medidas cogitadas é estipular um limite na diferença entre a remuneração dos executivos e o ganho médio dos funcionários comuns.

Curiosamente, a mesma desproporção tomou conta do futebol inglês – e isso começa a gerar um debate em torno dos salários dos jogadores. Em 1992, quando foi criada a Premier League, a divisão de elite inglesa, os jogadores mais bem pagos ganhavam cerca de 15 vezes mais que a média dos torcedores. Hoje, este número vai chegando a 200. As estrelas da Premier League, como Wayne Rooney, atacante do Manchester United, ganham por volta de 200 000 libras por semana. (Uma das consequências disso é o estado lastimável das finanças de quase todos os times ingleses.)

Os especialistas concordam em que para resolver o problema é necessária uma mudança de mentalidade na admnistração das corporações. O foco obsessivo no curto prazo que se instalou nas últimas décadas se revelou um veneno. Acima de tudo, levou os executivos a buscar resultados imediatos à base de corte de gastos que geram bônus – mas que não raro sacrificam o futuro ao minar a qualidade.

Compare com o ambiente no Vale do Ruhr, a região que congrega boa parte da pujante indústria da Alemanha – um caso único, entre os países desenvolvidos, de prosperidade em meio ao caos econômico. Lá, as empresas costumam trabalhar em novos projetos com uma perspectiva de quatro ou cinco anos até obter retorno. Como desmontar a cultura do curto prazo é uma questão que mesmeriza hoje o mundo corporativo. Criá-la parece ter sido bem mais fácil do que é, agora, o desafio de destruí-la.

O debate em torno dos salários dos executivos nos Estados Unidos e em parte da Europa está acompanhado de um outro que contém a mesma essência: os ricos estão pagando o imposto que deveriam pagar? A discussão explodiu sensacionalmente quando o magnata americano Warren Buffett escreveu, num artigo publicado no New York Times, que bilionários como ele estavam sendo mimados demais pelo governo americano. “Nossos líderes pedem que compartilhemos o sacrifício”, afirmou ele. “Mas ao fazer o pedido eles me poupam.” Buffett mostrou que, comparativamente, sua secretária paga mais imposto que ele: 36% contra 17,4%. O gesto inusitado de Buffett inspirou outros parecidos. Na França, um grupo de ultrarricos – entre eles a herdeira do grupo L’Oreal, Lilianne Bettencourt – se dispôs publicamente a contribuir com taxas maiores para os cofres públicos.

Um levantamento da UFE, uma organização americana dedicada à causa de uma “economia justa”, mostra o quanto as empresas americanas têm-se dedicado a influenciar as decisões em Washington. Em 1983, os gastos com lobby alcançavam 200 milhões de dólares. Hoje, eles estão em 3,87 bilhões de dólares. Há 30 anos, a lista com os nomes dos lobistas nos Estados Unidos tinha 531 páginas. Agora, são mais de 2 100. Em 1950, quase um terço da arrecadação do governo americano derivava das corporações. Em 2009, a contribuição já baixara para menos de 7%. Apenas na gestão de George W. Bush, benesses fiscais para as empresas representaram uma perda de receita de 1,8 trilhão de dólares. Quarenta por cento disso, segundo o estudo da UFE, acabaram nas contas bancárias de pessoas que ganham mais de 500 000 dólares por ano – o “1%” feliz das manifestações de protesto.

A redução da desigualdade interna nas corporações tende a se transformar num imperativo para sua sobrevivência. O caminho é longo e pedregoso. Um dos fundadores da administração moderna, Peter Drucker, dizia que a máxima diferença salarial que deveria existir numa empresa estava na casa de 25 para 1. Mais que isso, de acordo com Drucker, fica virtualmente impossível estimular uma atmosfera de time e de cooperação entre as pessoas – uma coisa que é essencial para o sucesso das empresas. Que diria Drucker da Viacom? Em 2010, o presidente da companhia, Philippe Dauman, ganhou 84,5 milhões de dólares – 1 990 vezes mais que um funcionário médio.

Pode funcionar a economia de um país cujas empresas têm tal grau de inequidade? Os números sugerem que não. A crise econômica americana parece se ampliar em vez de diminuir. Não à toa, já foram revistos os prognósticos em torno da data em que a China removerá os Estados Unidos do posto de maior potência econômica do mundo. Agora, a aposta é que isso ocorrerá em 2018. Aos que objetam que a repartição do bolo entre bilhões de chineses torna tudo isso ilusório cabe lembrar que a média salarial americana pode levar a erros de conclusão – como se vê tão claramente no caso da Viacom.



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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Lula vai ser processado?


Gilmar tem que processar Lula.
Com Johnbim de testemunha


Conversa Afiada





Se fosse verdade o que Gilmar Dantas (*) disse à Veja – clique aqui para ler sobre a “armadilha da Veja”- ele não poderia correr o risco de se incriminar como um prevaricador.

Um Ministro do Supremo não poderia eximir-se da responsabilidade de tentar punir o reles chantagista.

Se isso for verdade, Gilmar Dantas (*) não tem alternativa.

Entrar na Justiça nesta segunda-feira com uma denúncia contra o chantagista e arrolar como testemunha a única pessoa que assistiu à chantagem.

Gilmar tem que processar Lula e Nelson Johnbim tem que ser sua testemunha.

O perigo é o acusado arrolar a mesma testemunha, Nelson Johnbim, aquele que foi Ministro cerrista da Dilma.

Ao Estadão, Johnbim desmentiu Gilmar insofismavelmente e desmontou a armadilha.

Chamou Gilmar de mentiroso.

No Globo, também desmentiu, mas, ali, notável colonista (**) social percebeu no tom de voz uma inclinação mentirosa, uma contradição entre o que dizia e a forma pela qual dizia.

Um fonoaudiólogo, infiltrado no Globo !

E concluiu o crítico de hábitos brasilienses: Johnbim me mentiu quando me disse que Gilmar mentiu.

Um jenio !

(Observa, amigo navegante, que este global colonista de costumes tem essa mania: dá uma informação que talvez desagrade os patrões, e, lá no fim, desdiz o que disse.

Foi o que fez no rumoroso episódio em o Globo se arrependeu de acusar o Policarpo.)

O Johnbim também ficou numa sinuca.

Caiu também na armadilha.

Se não a armou.

Johnbim terá que chamar um dos dois de mentiroso: o Gilmar ou o Lula.

Sem menosprezar o fato de Gilmar, ao confirmar as declarações, chamar o Johnbim, que o desmentiu, de mentiroso.

Amigo navegante, veja a gravidade do que o Gilmar e a Veja fizeram: transformaram dois ministros do Supremo em mentirosos.

Até que um processo judicial movido por Gilmar esclareça tudo.

Se não esclarecer, o destemido advogado do Espírito Santo, o Dr Piovesan se verá na contingência de reiniciar no Senado e no Supremo o pedido de impeachment de Gilmar.

Por que Gilmar jogou essa cartada audaciosa ?

Isso é assunto para o Profeta Tirésias: clique aqui para ler “Como Gilmar tentou melar a CPI”.


Paulo Henrique Amorim



(*) Clique aqui para ver como um eminente colonista (**) do Globo se referiu a Ele. E aqui para vercomo outra eminente colonista (**) da GloboNews e da CBN se refere a Ele.

(**) Não tem nada a ver com cólon. São os colonistas do PiG que combateram na milícia para derrubar o presidente Lula e, depois, a presidenta Dilma. E assim se comportarão sempre que um presidente no Brasil, no mundo e na Galáxia tiver origem no trabalho e, não, no capital. O Mino Carta costuma dizer que o Brasil é o único lugar do mundo em que jornalista chama patrão de colega. É esse pessoal aí.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Brizola, Ministro do Trabalho?


Brizola, a CUT e as escolhas de Dilma


Escrevinhador




Um Brizola ministro? Tristeza na Globo

por Rodrigo Vianna

Se a presidenta Dilma confirmar nos próximos dias o nome de Brizola Neto (PDT-RJ) como novo Ministro do Trabalho, terá dado mais um sinal da recomposição de forças que vai colocando em prática desde o início de 2012 – o sinal mais claro foi tirar Jucá (e, portanto, “minar” o velho grupo sarneyzista que tinha a hegemonia no PMDB do Senado) da liderança do governo.

Antes de entrar nesse ponto, algumas informações sobre Brizola Neto. Ele não fala sobre a possível nomeação. ”A hora é de discrição”, diz-me um assessor. Quem tem falado, e muito, é “O Globo”. Claro, o jornal carioca lança balões de ensaio e armadilhas na tentativa de barrar a nomeação. Um Brizola no Ministério deve ser dolorido demais para a família Marinho.

O interessante é que o nome de Brizola tem o apoio das principais centrais sindicais brasileiras. A Força Sindical (que tem em Paulinho, do PDT-SP, o principal líder), a CTB (que tem ligações com o PCdoB) e a CUT já sinalizaram que apóiam o nome de Brizola Neto.

Conversei ontem com Artur Henrique, presidente da CUT. Ele foi cuidadoso, mas absolutamente claro: “Não cabe à CUT nomear nem indicar ministro, isso é com os partidos e com o Poder Executivo; mas temos simpatia, sim, pelo nome do Brizola Neto porque ele poderia adotar um novo perfil para o Ministério do Trabalho”.

Que perfil seria esse?

Artur diz que o Ministério, na gestão Lupi, virou um “grande cartório” para criação de sindicatos. Perdeu o papel de articulador das demandas trabalhistas. A CUT acha que Brizola poderia assumir essa função, por exemplo, coordenando Mesas Nacionais de Negociação – como a criada recentemente na área da construção civil.

“A atuação do Brizola Neto como secretário do Trabalho no Rio mostra que ele tem esse perfil. Além disso, pode ser um ministro que tenha interlocução com todas as centrais, e não com uma só”, espetou Artur, numa referência à relação preferencial de Lupi com a Força Sindical.

Esse blogueiro apurou que o Palácio do Planalto já consultou as centrais sobre o nome de Brizola. E recebeu sinal verde.

O que falta? O PDT. Muita gente no entorno de Lupi teme que Brizola, chegando ao Ministério, imponha uma nova correlação de forças no PDT. Numa palavra: Brizola Neto no ministério viraria, de fato, a principal liderança pedetista, “engolindo” a turma de Lupi.

O ex-ministro (hoje “apenas” presidente do PDT) fez o partido lançar uma nota ontem (ler aqui), enviando um recado ao governo: oficialmente, não há veto “a qualquer companheiro”, mas a negociação terá que ser feita ”pela via institucional das instâncias partidárias”. Ou seja, Lupi quer ser ouvido. O fato é que ainda há resistências no partido. O embate deve ser resolvido até o fim dessa semana, início da próxima.

Qual o significado político da possível nomeação de Brizola Neto? Significa um aceno de Dilma para setores mais à esquerda que, desde o início do governo, têm recebido péssimos sinais do Planalto.

O retrocesso na área de Cultura, a inação nas Comunicações (com a rendição à lógica das teles), o fracasso da Reforma Agrária, o diálogo truncado com os sindicatos e também com as chamadas “minorias” provocam um mal-estar em setores que cumpriram um papel importante na reta final das eleições de 2010, defendendo Dilma do bombardeio conservador.

O deputado Jean Willys acaba de publicar um artigo que dá voz a esse mal-estar. Pode fazer isso publicamente, porque é do PSOL. Mas há muita gente na base petista com sensação idêntica. Os altos índices de popularidade de Dilma não refletem uma fragilidade política que, a essa altura, vai-se tornando preocupante.

No início de 2011, esse Escrevinhador escreveu um texto em que mostrava o movimento claro de Dilma rumo ao centro.

Resumi, assim, as escolhas e os riscos aí embutidos: “Lula e Dilma jogam de tabelinha. Ele mantém apoio forte entre a “esquerda tradicional”, e também entre sindicalistas e movimentos sociais, além do povão deserdado que vê em Lula um novo “pai dos pobres”. Ela joga para a classe média urbana e pragmática que – em parte – preferiu Marina no primeiro turno de 2010. Dilma, com essas ações, deixa muita gente confusa e irritada na esquerda. Mas reconheça-se: é estratégia inteligente. Qual o risco disso tudo? O risco é embaralhar a política e apagar as diferenças. Relembremos o que ocorreu no Chile, ao fim do governo Bachelet. Ela tinha claro compromisso com direitos humanos, com a civilidade e com os valores tradicionais da esquerda… Mas na política e na gestão da economia no dia-a-dia, o governo da “Concertación” assumiu o programa liberal da direita. Embaralhou-se tudo. Bachelet saiu do governo bem avaliada, mas não fez o sucessor.”

Sendo ainda mais claro. Se Dilma seguir a ser bombardeada (ou chantageada?) por “aliados” do PMDB e PR, poderia correr pra base de apoio tradicional do lulismo. Hum… Hoje, tenho minhas dúvidas.

Dilma precisa reconstruir as pontes com a esquerda tradicional. Ainda mais porque Lula permanece distante do jogo.

A nomeação de Brizola poderia ser um movimento nessa direção. Para tristeza da família Marinho. E para alegria dos blogueiros: teríamos no ministério um político que -com o “Tijolaço” – tem ajudado a fortalecer um novo campo nas Comunicações brasileiras.



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quarta-feira, 14 de março de 2012

Futebol & Cia Ltda!


Globo e Teixeira.
Dependência mútua

Conversa Afiada





O Conversa Afiada reproduz entrevista do professor Luiz Gonzaga Belluzzo, que presidiu o Palmeiras:


Belluzzo: Globo e Teixeira viveram relação de mútua dependência

Nesta entrevista em que comenta a queda do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, e as mudanças que podem ocorrer no esporte a partir de agora, o ex-presidente do Palmeiras Luiz Gonzaga Belluzzo diz que a TV Globo manteve uma relação forte com o ex-mandatário para não correr o risco de perder o principal item de sua programação. “O problema são todos esses interesses privados, que não levam em conta o interesse público”, afirma o economista.

Marcel Gomes

São Paulo – Ex-presidente do Palmeiras (2009/10) e um apaixonado pelo futebol, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo se encontrou apenas duas vezes com o ex-mandatário da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, que renunciou nesta segunda-feira (12).

O ano era 2010 e ocorria a eleição para o comando do Clube dos 13, entidade que representa as mais importantes equipes do país. Teixeira articulava a candidatura do ex-presidente do Flamengo, Kléber Leite, contra Fábio Koff. Na ocasião, Belluzzo “trombou” com o então comandante da CBF.

“Eu defendi que a entidade dos clubes precisava ser autônoma, e não vinculada à CBF”, lembra ele. No fim, Koff venceu, mas o Clube dos 13 saiu enfraquecido. Era cada vez mais previsível o racha, que acabou ocorrendo em 2011, na disputa pelo dinheiro do futebol pago pela TV Globo.

Nesta entrevista à Carta Maior, Belluzzo diz que espera por mudanças no futebol brasileiro, mas afirma que dificilmente elas virão dos clubes, verdadeiras “casamatas que reúnem os interesses mais díspares, dos maiores aos mais mesquinhos.

Carta Maior – Quem foi Ricardo Teixeira para o futebol brasileiro?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Para entender o papel dele precisamos voltar no tempo, até a eleição de João Havelange na Fifa, em 1974, quando ele substituiu Stanley Rous. A partir dali houve uma mudança importante na administração do futebol, na relação com os patrocinadores. A direção do futebol deixou de ser feita de maneira amadora e se tornou um grande negócio, sobretudo para a área de marketing, que aproveitou o fato de o esporte ter se tornado uma impressionante manifestação de massa. Esse processo tomou corpo nos anos 80 e se acentuou nos 90.

CM – Foi essa transformação que ocorreu no Brasil em 1989, com a eleição de Ricardo Teixeira para a CBF?
LGB – Exatamente. O futebol se tornou um grande centro de negócios, legais e ilegais, e atraiu aventureiros interessados em ganhar dinheiro. Os escândalos começaram aí, e não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Se você deixa a lógica do dinheiro dominar, precisa tomar cuidado para não perder a natureza da atividade. Esse é o problema do futebol, o mais interessante de todos os esportes quando é bem jogado.

CM – Isso afetou o esporte dentro de campo?
LGB – No Brasil e em todo o mundo. Houve o caso da Copa do Mundo na França, em 1998, quando a Nike teria se envolvido na escalação de Ronaldo no jogo final. E o campeonato brasileiro de 2005, com a questão das apostas e a manipulação de resultados.

CM – Ricardo Teixeira sempre dependeu muito de sua relação com a TV Globo, não?
LGB – Era uma relação muito forte, de mútua dependência. A Globo tem o futebol como o principal item de sua programação, então seria muito complicado ficar sem ele. O problema são todos esses interesses privados, que não levam em conta o interesse público.

CM – O futebol é um bem material e imaterial da cultura brasileira. Sua gestão não teria de ser mais pública?
LGB – Você tem razão. Os clubes de futebol são entidades semipúblicas, responsáveis por um esporte que interessa a todos os brasileiros. Uma mudança de gestão, porém, teria de passar por uma mudança da organização desses clubes. Mas isso é muito difícil, porque eles são controlados por oligarquias que não querem que algo mude. Falo por experiência própria, como ex-presidente do Palmeiras. Os clubes são casamatas que reúnem os interesses mais díspares, dos maiores aos mais mesquinhos.

CM – É difícil que a democratização venha debaixo?
LGB – Muito difícil. Sem uma regulação geral, os clubes têm se enfiado nas mais complicadas negociações financeiras. Se sou presidente do Palmeiras e o Corinthians gasta muito com um jogador, eu tenho de fazer o mesmo. Veja o caso do Flamengo, que está em uma situação difícil e, mesmo assim, segue contratando jogador. Países como Alemanha e França já criaram regulações coletivas para fazer o controle financeiro do clube, impor teto de endividamento e levá-los a segunda divisão se eles quebrarem. Precisamos de algo similar aqui.

CM – O senhor discutiu alguma vez esses assuntos com Ricardo Teixeira?
LGB – Eu me encontrei com ele apenas duas vezes, uma em São Paulo e outra no Rio, quando havia a eleição do Clube dos 13 em 2010. Ele articulou a candidatura do Kleber Leite contra o Fábio Koff, mas felizmente os clubes barraram. Venceu o Koff. Naquela época, eu defendi que a entidade dos clubes precisava ser autônoma, e não vinculada à CBF.

CM – E a CBF sem Ricardo Teixeira? Muda algo?
LGB – A CBF é um pote de ouro, uma arca perdida que todo mundo quer. Minha esperança é que surja alguém mais isento. Mas é difícil, porque a eleição depende dos presidentes das federações. E aí é um jogo de compromissos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Nós quem, cara pálida?


Mr Teixeira vira a Madre Teresa na Globo


Escrevinhador


O blog do Mello lembra do recado de Paulo Preto aos tucanos, em 2010: “não se abandona um líder ferido no meio da estrada”. A frase serve para a reportagem (?!) do “Jornal Nacional”, na memorável edição desta segunda-feira. A Globo não abandonou Mr Teixeira ferido. Acolheu o pobre líder desamparado, e o tratou com os cuidados típicos de Madre Teresa. (RV)

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do Blog do Mello

Publiquei aqui uma crítica ao necrológio que Merval, o Imortal, Pereira fez ao ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira. Mal sabia que o Jornal Nacional iria adiante, faria ainda mais pelo homem que esteve à frente da CBF por razões que sabemos, lá permaneceu por 23 anos, por essas mesmas razões, e agora sai para “tratamento de saúde”, e todos nós sabemos de que saúde se trata.

As Organizações Globo sabem. O Jornal Nacional também sabe. A Rede Globo sabe, tanto que fez um Globo Repórter todo dedicado ao ex-capo.

Mas as OG aprenderam a lição do sábio Paulo Preto, aquele caixa do Serra acusado de se apropriar de milhões, que ameaçou o eterno candidato com a frase: “Não se abandona um líder ferido na estrada”. O necrológio de Merval e a ainda mais veemente edição de ontem do JN mostram que as OG não abandonaram o agora ex-líder ferido.

Fica no ar a pergunta: Se todos sabemos por que Ricardo Teixeira está saindo da CBF, como anteriormente seu sogro também abandonou o cargo no Comitê Olímpico, por que esse comportamento das OG? Por que a edição de ontem do Jornal Nacional só faltou indicar Ricardo Teixeira para o cargo espiritual de Madre Teresa de Calcutá? Por que do panegírico para o homem que foi flagrado na CPI da Nike pronunciando a imortal frase ‘Se o relatório for aprovado, nós estamos fodidos’?

Nós, quem?



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segunda-feira, 12 de março de 2012

a leoa ruge pra caravana...


Delfim e Nassif: calma que
a indústria não vai acabar

Conversa Afiada





Saiu na Carta Capital:

Tsunami de Liquidez
Defesa legítima

Não restou dúvida que Dilma Rousseff soube aproveitar a oportunidade de sua visita à feira de ciências em Hannover e as conversas com a chanceler alemã, Angela Merkel, para sustentar com clareza que o Brasil não vai deixar de usar todo o arsenal de medidas que julgar adequado para defender sua economia dos danos colaterais causados pelo aumento de liquidez decidido pelos países desenvolvidos para livrar do sufoco suas combalidas economias.

Em entrevista à mídia internacional, a presidenta disse que manifestou diretamente a Merkel sua preocupação com a expansão monetária (o tsunami de liquidez) que ajuda a resolver problemas internos dos sistemas financeiros na Europa e também nos Estados Unidos, mas que resulta na desvalorização das moedas, com efeitos adversos para o comércio exterior brasileiro e de muitos outros países emergentes. A chanceler alemã já fizera circular que ia dizer a Dilma Rousseff que ela tem razão, explicando que as megaoperações de liquidez são para dar tempo aos países do euro de realizarem suas reformas. E que tais operações não mais se repetiriam.

O problema dramático é que a perspectiva do tempo para as reformas é de três anos no mínimo e o tsunami está aí e vai continuar produzindo destruição com o excesso de entrada dos dólares nos emergentes, dentre os quais o Brasil. Estamos recebendo muito mais capitais, a título de “investimento”, mas que na realidade são empréstimos intercompanhias ou pura especulação em busca de resultados pelo diferencial de juros. É certo que o processo de redução da Selic ajuda (a taxa caiu 0,75 na reunião do Copom da quarta-feira 7), mas ainda leva tempo para neutralizar a diferença.

Uma coisa é certa: o Brasil não tem outra saída a não ser se defender desse capital, porque a desvalorização do dólar tem um efeito prejudicial nas exportações de nossa indústria e afeta o emprego em todo o sistema produtivo. O Brasil precisa pensar em dar empregos de boa qualidade a 150 milhões de brasileiros em 2030 e não vai poder fazer isso com o atual sistema de exportação e sem expandir o setor de serviços. E não vai conseguir sem proteger a sofisticação da estrutura industrial que estamos permitindo ser destruída pela supervalorização cambial.

Um pouco disso é que eu penso que a presidenta Dilma foi dizer para Merkel: compreendemos os problemas europeus, o drama que vocês estão passando, mas os danos causados na indústria brasileira não são suportáveis. Então, não venha a Europa com essa história de que o Brasil toma medidas que violam as normas, as leis, a teoria… Eu estou simplesmente me defendendo dos efeitos de falsas teorias que vocês europeus desenvolvidos estão usando.

Aqui é preciso dizer sem receio que esse é um jogo de enorme cinismo: tanto os Estados Unidos quanto a Europa, esta com a cobertura do Banco Central Europeu, estão sim numa competição feroz para melhorar suas exportações. Os americanos pelo menos foram claros: o presidente Barack Obama, em campanha pela reeleição, disse aos trabalhadores que “estamos apoiando o setor exportador e pretendemos dobrar as exportações da indústria em cinco anos”, enquanto a Europa simplesmente está escondendo esse fato. O aumento das exportações da Grécia, da Itália, da Espanha e de Portugal é uma das poucas posssibilidades de minorar o seu sofrimento dentro do euro.

Agora, exportar para onde? Para mercados de países emergentes, como o brasileiro. Não para a China, que está surfando a taxa de câmbio que deseja, ligada a um “dollar standard”, e não dá a menor atenção para reclamações, sem vergonha e sem remorso. Nós só estamos tentando levar o real para um nível que permita defender a indústria, que está sendo alvo de um processo de destruição por conta da sobrevalorização cambial. Não estamos fazendo nada errado, não estamos violando nenhuma regra do comércio internacional, estamos nos defendendo. Quero que alguém aponte alguma violação importante sob quaquer aspecto. Aliás, seis meses atrás, o FMI ainda insistia que não se devia fazer controle de capital. Hoje, o mesmo Fundo Monetário Internacional diz o seguinte: os países emergentes têm, sim, o direito de recorrer a medidas que limitem o ingresso de capitais que não estejam identificados com investimentos na produção, com a necessidade de crescimento…

O governo tenta separar aquilo que é investimento que vai aumentar a produção daquilo que é pura especulação. Não é uma coisa simples, mas ele está fazendo isso com cuidado, usando medidas milimétricas.

NAVALHA



Na importante entrevista que concedeu a Luis Nassif, a presidenta tocou no mesmo ponto: vamos defender a indústria brasileira.

Disse Dilma ao Nassif:

(…)

No Brasil, vamos ter que perceber duas coisas: Primeiro, as condições do mercado internacional mudaram. Estamos vivendo situação diferenciada. Não se pode perder a consciência do tsunami monetário. Tem que fazer avaliação sobre as estratégias a serem tomadas, e não se faz de forma abrupta e apaixonada. Com muita cautela, frieza, tranquilidade, iremos acompanhar o desenrolar da situação e tomar as medidas cabíveis. Não tenho como adiantar as medidas cabíveis, mas para o governo brasileiro esta é a questão principal. Se perguntar hoje qual é o maior cuidado do governo, respondo: é acompanhar como o Brasil se defende dessas políticas que são abertamente protecionistas praticadas pelos governos desenvolvidos.
(…)

No Brasil, anda estamos na fase de acelerar investimento. Em breve pretendo fazer uma reunião pessoal com os maiores empresários do país sobre a questão do investimento, Uma parte da decisão depende da expectativa, do que Delfim gosta de chamar de “espírito animal”. O Brasil oferece todas as condições. Em todos os lugares que vamos são as mesmas avaliações dos empresários internacionais. No último dia na Alemanha tivermos reunião com Angela Merkel na ABDI (o equivalente à nossa Confederação Nacional da Indústria). A reunião foi para que nos falassem como pretender investir no Brasil. Havia uma porção de setores, quase uma rodada de negócios. E todos eles vinham, diziam que tinham empresa tal, na área tal, e todo interesse em investir no Brasil. Hoje em dia a maior parte da população alemã é de aposentados e crianças. E o Brasil tem o bônus demográfico. Eles olham para isso, para nosso mercado, para a estabilidade macroeconômica e política, para nossa tradição de respeitar contratos. 

(…)

A situação atual não é a mesma de 2011. Nós tínhamos absorvido a expansão monetária dos Estados Unidos que de uma forma ou outra foi encaixada. Agora é absolutamente diferente, é recessão com uma gigantesca expansão monetária acumulada e uma tendência a uma volta aos mercados domésticos. Vamos ter uma política clara em relação ao Brasil, da qual o melhor exemplo é a revisão do acordo automotivo com o México. Foi feito em 2002, em outra conjuntura, na qual cabia o acordo. E está em vigor até agora, em condições não adequadas ao Brasil. O Brasil vai institucionalmente tomar medidas para garantir que nosso mercado interno não seja canibalizado. Tem queda na indústria, mas dá para reverter. Não daria se deixássemos continuar por dois, três anos. Agora dá e vamos fazer o possível e o impossível para defender a indústria nacional.

(…)

A redução dos juros, pelo Banco Central, não é só para esquentar a economia brasileira. Cumprimento o BC porque a intenção maior é equilibrar a taxa interna com a internacional. Hoje em dia esse diferencial é responsável pela maior arbitragem que existe no mundo. Iremos fazer isso sem comprometer a luta contra a inflação.

(…)

Como diria Mark Twain, as notícias sobre a morte da indústria brasileira são um exagero. (PHA)