quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Cedo ou tarde, lembramos e contamos... Palavra por palavra."

Cunha: a força da palavra “tortura”


Conversa Afiada





Balza era argentino. Que inveja !

O Conversa Afiada reproduz do Observatorio da Imprensa palestra do jornalista Luiz Cláudio Cunha:


A força da palavra, a palavra da força

Por Luiz Cláudio Cunha

Palestra de encerramento do XIV Congresso Internacional de Humanidades realizado na Universidade de Brasília (19-21/10/2011), também publicado na revista Intercâmbio, da UnB

Agradeço à Prof. Dra. Elga Pérez Laborde o convite para falar neste Congresso Internacional de Humanidades cujo tema maior é “Palavra e cultura na América Latina: heranças e desafios”, com o foco específico na “Dimensão espacial e temporal da linguagem e da cultura nos contextos latino-americanos”.

Eu tento aqui ligar os dois temas mostrando que a dimensão espacial de uma cultura latino-americana passa pela dimensão temporal da palavra usada nesse contexto. Não faço aqui uma construção teórica, apenas uma narrativa jornalística, contrapondo a resistência da palavra à truculência da força. Ou, a força da palavra contra a palavra da força.

Enfoco neste texto episódios ocorridos na América do Sul, particularmente na região do Cone Sul. Nos episódios narrados, identifico a deturpação, a omissão, a censura ou o completo silenciamento da palavra diante da força bruta sob a ditadura em cinco países da região – Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai – durante a segunda metade do século 20.

Inicio minha narrativa não com uma palavra, mas com um palavrão:

– Me cago en Dios!

Ninguém conhece o nome do jovem estudante que pronunciou a blasfêmia. Nem mesmo quem ouviu a frase, o jornalista uruguaio Rodolfo Porley Corbo. Ambos estavam lado a lado, mas encapuzados, pendurados como gado numa cela do Comando Geral do Exército, em Montevidéu, num dia qualquer de 1977. O que impressionou o jornalista de 31 anos não foi o desabafo angustiado do jovem, mas a indignada reação do militar que comandava a tortura:

– Respete las ideas ajenas, mocito!

Seria cômico, se não fosse trágico. A cena é talvez a lembrança mais marcante e surreal dos três anos e meio que Porley passou encarcerado em quatro estabelecimentos militares do país, somando 325 dias de prisão incomunicável, 149 deles vendado, paralisado pela dor, destroçado pela violência. Ao desembarcar na Suécia como asilado, em 1979, o jornalista foi recebido como “um embaixador perigoso dos vivos e dos mortos no cárcere”. Sua primeira entrevista em Estocolmo escancarou o perigo:

– En mi país gobierna el poder de la locura ciega. Son los brutos, asesinos y verdugos quienes gobiernan. Las cárceles de mi país están llenas. Lo que vemos ahora es la deformación de la propia vida.

Frase final

Porley deixara para trás o Uruguai, o segundo menor país da América do Sul, com menos de três milhões de habitantes e cerca de 40 mil detidos em prisões e quartéis. Um uruguaio de cada 100 era vítima de torturas. No Brasil de hoje seria uma multidão de quase 2 milhões de torturados, o suficiente para lotar 25 estádios como o Maracanã. Aquele era o Uruguai que devia respeitar as ideias alheias, na cínica frase do torturador de Porley e seu companheiro de cela.

Não era um drama particular do país que tinha o melhor padrão de prosperidade econômica da região, o maior nível de educação do continente. Era uma tragédia coletiva, transnacional, das ditaduras que em apenas uma ou duas décadas rebaixaram, em absurda ordem unida, os cinco países do Cone Sul na segunda metade do Século 20. Eram as nações de maior expressão política e força econômica da região, onde hoje vivem mais de 250 milhões de pessoas, duas vezes e meia a população dos outros oito países e três territórios da América do Sul. Ondas sucessivas de governos militares afogaram a democracia e a razão durante quase um século de arbítrio.

Foram exatos 92 anos somados de ditaduras que eram de um e eram de todos: Paraguai (1954-89), Brasil (1964-85), Chile (1973-90), Uruguai (1973-85) e Argentina (1976-83).

Na quimera do combate ao pensamento, as ditaduras caçaram o suspeito de sempre: a palavra – expressão das vozes, território da cultura, pátria da liberdade. A palavra é sempre perigosa, porque alarga as fronteiras, os idiomas, as ideias, hasta las ideas ajenas. A palavra ensina, mostra, revela, e por isso precisa ser escondida, aprisionada, silenciada. Em nome de sua santa cruzada contra a subversão, militares do Cone Sul conseguiram contrariar a lógica, inverter o pensamento, confundir a razão, subverter a palavra. A força da palavra, de repente, ficou encarcerada pela palavra da força. A força das ditaduras no Chile e no Uruguai conseguiu deformar pelo absurdo o significado de dois ícones da civilização: dignidade e liberdade.

Dignidad era o nome de uma colônia agrícola, 300 km ao sul de Santiago do Chile, fundada nos anos 1960 por um ex-enfermeiro da Luftwaffe nazista, acusado de abuso sexual contra crianças. Ali, o Exército de Pinochet fabricava gás sarin e a repressão treinava agentes em técnicas de interrogatório e tortura.

Libertad era o maior presídio masculino do Uruguai, 50 km a oeste de Montevidéu, um depósito de gente onde mofavam 600 presos políticos espremidos num prédio lúgubre de cinco andares povoados por gritos, medo, sofrimento, dor.

A ditadura daqueles tempos conseguiu a proeza de transformar Dignidad em sinônimo de tortura no Chile, conseguiu a façanha de tornar Libertad um endereço de prisão no Uruguai. Naqueles tempos, naqueles lugares, Dignidad e Libertad machucavam a carne, sangravam a alma. A ditadura, só a ditadura, tem a força para deturpar a palavra, para inverter o sentido moral das coisas, para converter o nexo das ideias no seu avesso.

Era “o avesso do avesso do avesso do avesso”, como cantava Caetano Veloso no verso final de Sampa, a mais completa tradução de São Paulo, onde “alguma coisa acontece no coração/… só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”. Quatro quilômetros ao sul da mais popular esquina paulistana estava o cruzamento das ruas Tomás Carvalhal e Tutóia, endereço do prédio mais sinistro da maior cidade do continente, a sede do DOI-CODI do II Exército, o mais notório centro de torturas do Brasil. O verso de Caetano capta o melhor retrato daquele antro: “Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto /Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto”. Ali sucumbiam os homens e as palavras diante do “horror, o horror!”, como na frase final de Kurz, a personagem de Joseph Conrad em Coração das Trevas.

Perguntas e respostas

O DOI-CODI da rua Tutóia foi criado e administrado por um major de Exército oculto pelo codinome de “major Tibiriçá”, o nome mais temido da repressão militar brasileira.

Nos 40 meses em que comandou aquele lugar, símbolo mais sangrento dos anos de chumbo do Governo Médici, o então major Carlos Alberto Brilhante Ustra amargou 502 denúncias de tortura, uma a cada 60 horas, e lamentou 40 mortes de presos políticos, uma por mês. Apesar disso, hoje aposentado e refém de seu passado, o coronel da reserva Ustra continua livre, solto, impune.

Na Argentina, um companheiro de farda de Ustra teve menor sorte. O general Jorge Rafael Videla, que começou em 1976 a ditadura de sete anos que eliminou pela força a palavra e a vida de 30 mil argentinos, foi destituído de sua patente militar e condenado em 2010 à prisão perpétua por crimes de lesa-humanidade, o que inclui a responsabilidade direta pelo fim de 31 pessoas – nove mortes menos do que as ocorridas na repartição de trabalho do major brasileiro.

A força mata pessoas e palavras, mas também inventa um novo léxico para tentar abarcar a dura realidade que ela produz. No Chile de Pinochet, emergiu uma nova palavra no dicionário da repressão, já coalhado de presos e mortos. Surgiu a figura intermediária e angustiante do “desaparecido” – que quase sempre era uma coisa e outra, preso ou morto, sequência e consequência um do outro, e que tinha sobre eles a vantagem de isentar o Estado de explicações e justificativas.

Um “desaparecido” era uma dúvida, quem sabe um equívoco, talvez uma fatalidade, sempre um mistério que não incriminava ninguém e absolvia a todos – com exceção dos familiares da vítima, condenados ao desespero, subjugados pelo luto iminente, esmagados pela dor incessante. Um “desaparecido” só levantava suspeitas e mais perguntas, sem a garantia de certezas ou possíveis respostas. O “desaparecido” disseminava o medo. Do medo brotava o terror – e novas palavras.

O dicionário do terror fabricava uma palavra ainda mais assustadora, mais aflita: os no-nombrados, os N.N., cadáveres sem nome, sem cara, sem história, exumados por um regime de força sem coragem, sem caráter, sem futuro, sem passado. As pessoas com nomes desapareciam separadamente e, de repente, emergiam do solo covas coletivas apinhadas de mortos sem nome. No auge de seu poder, em 1979, Videla fez uma contorcida exegese do que seria esta estranha criação do regime dos generais:

– O que é um desaparecido? Como tal, o desaparecido é uma incógnita… Enquanto desaparecido, não pode ter nenhum tratamento especial: é uma incógnita, é um desaparecido, não tem identidade. Não está nem morto, nem vivo. Está desaparecido…

Duas décadas depois, já no ostracismo, o general Videla foi menos hermético com as palavras que tentavam disfarçar a força bruta, estúpida, assassina. Confessou o general:

– No, no se podia fusilar. ­Não haviaoutra maneira. É o que ensinavam os manuais da repressão na Argélia, no Vietnã. Estávamos todos de acordo. Dar a conhecer onde estão os restos mortais? Mas, o que é que poderíamos apontar? O mar, o rio da Prata, o Riachuelo? Pensamos, em dado momento, informar sobre a lista [de mortos]. Mas, aí, se os damos por mortos, em seguida virão as perguntas que não se podem responder. Quem matou? Onde? Como?

O general mostrou que esse é o drama maior das ditaduras: agem e fazem coisas que geram perguntas para as quais não existem respostas, que não permitem explicações, que não resistem a dúvidas, que não admitem palavras.

Neologismo afrontoso

Em junho de 1977, em plena ditadura brasileira, o MDB, o partido da oposição, teve espaço para um programa institucional em rede nacional de TV. Alencar Furtado, o líder da bancada na Câmara dos Deputados, desenterrou os no-nombrados dosBrasil num dos mais pungentes discursos da história brasileira, mostrando com palavras as perguntas sem respostas que a força do regime produzia. Com coragem, emoção e lirismo, disse o líder:

– Hoje, menos que ontem, ainda se denunciam prisões arbitrárias, punições injustas e desaparecimento de cidadãos. O programa do MDB defende a inviolabilidade dos direitos da pessoa humana para que não haja lares em prantos; filhos órfãos de pais vivos – quem sabe?; mortos? – talvez. Órfãos do talvez e do quem sabe. Para que não haja esposas que enviúvem com maridos vivos, talvez; ou mortos, quem sabe? Viúvas do quem sabe e do talvez.

A ditadura respondeu horas depois às perguntas do líder do MDB, cassando o mandato do deputado Alencar Furtado – apenas um dos 4.862 políticos cassados no Brasil por usar palavras que a ditadura não queria ouvir ou por fazer perguntas que a ditadura não podia responder.

A ditadura brasileira fez isso, e fez muito mais. Investigou 500 mil cidadãos, deteve 200 mil por suspeita de subversão, prendeu 50 mil só nos primeiros cinco meses do golpe de março de 1964. Acusou 11 mil civis nos tribunais militares, condenou quase a metade deles. Torturou 10 mil pessoas só no DOI-CODI da rua Tutóia, exilou outro tanto, aposentou funcionários públicos insubmissos, expulsou professores inconvenientes, baniu estudantes indomáveis, reformou militares dissidentes, colocou interventores em 1.200 sindicatos insubordinados, expurgou 49 juízes dos tribunais e afastou três ministros rebeldes da Suprema Corte brasileira. Fechou o Parlamento por três vezes, colocou sete Assembleias estaduais em recesso, matou 400 opositores na tortura e legou ao país o fantasma de 144 pessoas que ainda hoje são uma incógnita, seres que não têm identidade, não estão mortos, nem vivos, estão apenas “desaparecidos”.

A incapacidade para responder às perguntas leva ao cinismo, um atalho rápido para a mentira, o embuste, a fraude – que deturpam as palavras para camuflar a força que as silencia.

Um documento revelado pelo jornal O Globo ­em março passado mostra que os atuais comandantes militares do Brasil da democracia continuam se enrolando com as palavras necessárias para definir o Brasil da ditadura. Protestando contra o projeto do próprio governo para a Comissão Nacional da Verdade, destinada a investigar violações aos direitos humanos, os chefes do Exército, Marinha e Aeronáutica escreveram: “Passaram-se quase 30 anos do fim do governo chamado militar…”.

Fizeram, desfizeram, cometeram tudo aquilo e os oficiais-generais brasileiros, 30 anos depois do fim do arbítrio, ainda simulam uma dúvida existencial sobre o que seria um governo chamado militar.

Como o amor de Oscar Wilde que “não ousa dizer o seu nome”, os cínicos herdeiros do regime de força imposto ao país por longos 21 anos não ousam dizer o nome que o define por sua correta acepção: ditadura. Um Brasil que não tem a coragem de cumprir esse rito de passagem não tem condições, nem palavras, para fazer a travessia da história, deixando a força para trás até alcançar a margem segura da verdade.

Um grave sintoma desse cinismo aflorou em 2009, justamente em quem tem o compromisso de zelar pelas palavras e o dever de combater a mentira: a imprensa. Num inusitado editorial, o jornal Folha de S.Paulo abrandou o vernáculo e torturou a verdade carimbando a ditadura brasileira com um afrontoso neologismo: “ditabranda”.

O editorialista se esqueceu de dizer que, no auge da repressão, a empresa emprestava as caminhonetes que distribuíam o jornal para gentilmente transportar presos políticos até a repartição nada branda do DOI-CODI do major Ustra.

Corações monitorados

A palavra perde força e se perde pela força do poder, não pela roupa ou pelo uniforme de quem a pronuncia. Um militar pode subverter a verdade com o mau uso da palavra, mas também pode resgatá-la pela estrita obediência aos fatos e pela firme imposição sobre a mentira.

Foi o que aconteceu na histórica noite de 25 de abril de 1995, quando um general de uniforme, porte altivo, voz serena e cabelos brancos aos 61 anos, foi à TV para uma rara entrevista ao vivo.

Ao final, antes das despedidas, tirou um papel do bolso e acrescentou uma inesperada declaração, que eletrizou o país.

Estas foram as palavras do general:

– Nosso país viveu a década de 70, uma década assinalada pela violência, pelo messianismo e pela ideologia. Sem buscar palavras inovadoras, mas apelando aos velhos regulamentos militares, aproveito esta oportunidade para ordenar uma vez mais ao Exército, na presença de toda a sociedade: ninguém está obrigado a cumprir uma ordem imoral ou que se afaste das leis e dos regulamentos militares. Quem o fizer incorre em uma conduta viciosa, digna da sanção que sua gravidade requeira.

E continuou o general:

– Sem eufemismos, digo claramente: delinque quem vulnera a Constituição nacional. Delinque quem emite ordens imorais. Delinque quem cumpre ordens imorais. Delinque quem, para cumprir um fim que crê justo, emprega meios injustos e imorais. A compreensão desses aspectos essenciais faz a vida republicana de um Estado.

E reforçou o general:

– Se não pudermos elaborar a dor e cicatrizar as feridas, não teremos futuro. Não devemos mais negar o horror vivido, e assim poder pensar em nossa vida como sociedade que avança, superando a pena e o sofrimento. Em nome da luta contra a subversão, o Exército derrubou o governo constitucional e se instalou no poder em forma ilegítima, num golpe de Estado. Venho pedir perdão por isso e assumir a responsabilidade política pelo desatino cometido no passado. No poder, o Exército cometeu ainda outros delitos. O Exército prendeu, sequestrou, torturou e assassinou – tal qual o fizeram os delinquentes subversivos – e muitos de seus membros viraram delinquentes como eles.

O espantoso ato de contrição do general só não emocionou o Brasil porque, infelizmente, não aconteceu aqui. E o general, evidentemente, não era brasileiro.

O autor dessas palavras era o comandante supremo do Exército argentino, Martín António Balza, entrevistado pelo jornalista Bernardo Neustadt no mais importante programa de TV da Argentina, o Tiempo Nuevo. A fala firme, límpida do general Balza impressionou sobretudo por acontecer justamente no país que mais sangrou no turbulento Cone Sul da década de 1970, com seus 30 mil desaparecidos.

O pronunciamento de fé democrática do comandante argentino numa região marcada pelos pronunciamientos militaresgolpistas prova que a boa, justa palavra não é uma prerrogativa de civis ou militares, mas um apanágio dos homens de bem, de bom caráter.

Ao longo do tempo, a palavra no Cone Sul foi acossada pela hipocrisia – para proteger a fronteira do arbítrio – e foi resgatada pela coragem – para ampliar os limites da resistência. Este imemorial confronto entre a força da palavra e a palavra da força assinala os avanços e os retrocessos da democracia em nosso continente.

O político brasileiro Carlos Lacerda (1914-1977), um visceral conspirador contra a democracia, não economizou palavras e intenções para externar seu ímpeto golpista nos idos de 1950, quando ficou claro que Getúlio Vargas, o ditador deposto do Estado Novo, tentaria voltar ao poder pelo voto popular. Lacerda deu sua palavra:

– O sr. Getúlio Vargas (…) não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, deveremos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.

O general argentino Ibérico Saint Jean foi ainda mais cortante, empregando apenas 25 palavras para montar o mais rombudo obelisco à barbárie e à boçalidade política. Em maio de 1976, dois meses após o golpe que o nomeou interventor no governo da província de Buenos Aires, o general trovejou:

– Primeiro, mataremos todos os subversivos. Depois, seus colaboradores. Mais tarde, os seus simpatizantes. Então, mataremos os que permanecerem indiferentes. E, finalmente, vamos matar os indecisos.

Aqui, longe de ser cínico, o militar usa a palavra dura, crua e nua não para esconder, mas para escancarar a doutrina de um serial killer fardado que não respeita las ideas ajenas. Para quem ainda tinha dúvidas, Saint Jean aproveitou uma conferência em 2008 sobre “Democracia e Ética”, no Rotary Club de Mar del Plata, para reafirmar sua despótica visão do mundo com uma desconcertante, transtornada aritmética. Este foi o cálculo do general:

– O voto serve para impor a ditadura da maioria. Assim, quando os tiranos são muitos pode ser muito pior do que quando é apenas um.

Ainda em 2008, aos 86 anos, Saint Jean foi preso para responder a processo por prisões ilegais, sequestros, tortura e desaparecimento forçado. Seu crime mais famoso foi o sequestro em 1977 do jornalista Jacobo Timerman, fundador do jornal mais crítico e influente do país, o La Opinión. Fichado nos arquivos de inteligência do Exército argentino como “un judío muy peligroso”,Timerman ficou detido durante dois anos. Visitado na prisão por congressistas norte-americanos, o jornalista descreveu alguns momentos que padeceu na unidade policial de La Plata, sob jurisdição de Saint Jean. Contou o jornalista:

– Fui torturado e atado a uma cama, todo encharcado de água, para receber choques elétricos pelo corpo. É impossível descrever o efeito devastador da picana elétrica. Eles usavam um modulador para reduzir o choque de 220 volts, para evitar que os prisioneiros morressem instantaneamente. Dois médicos participavam para monitorar o coração das vítimas – lembrou Timerman.

Última publicação

Opinião tem a força de uma palavra maldita, que sempre amedronta os regimes que se sustentam na palavra da força e da violência.

La Opinión incomodava na Argentina, o jornal Opinião perturbava no Brasil.

O simples anúncio do lançamento do semanário, em novembro de 1972, assustou a ditadura em Brasília.

O editor do jornal, Fernando Gasparian, foi preventivamente convocado à sede da Polícia Federal, no Rio. Medindo as palavras para camuflar o constrangimento, o major Braga falou:

– Eu quero avisar ao Sr. que aqui no Brasil não existe censura prévia, a não ser por problemas morais. O Sr. pode publicar o que quiser.

Em seguida, o major tirou da gaveta uma lista com 210 assuntos que Gasparian e toda a imprensa não podiam publicar – mesmo que quisessem.

O editor pediu uma cópia para conhecer a lista, mas ela lhe foi negada.

– A lista é secreta – explicou o major, com os termos exatos para definir o absurdo da situação. Era o arbítrio negando a censura e, ao mesmo tempo, recusando a lista que provava sua existência. Era a palavra da força que temia a força da palavra.

O major Braga era o bruto que faltava na manada de rinocerontes de Ionesco.

E assim, secretamente, o regime asfixiou o Opinão a partir do oitavo número. Primeiro, mandando recados. Depois, com o censor dentro da redação. Por fim, exigindo a remessa do jornal impresso para Brasília, antes de liberar a venda nas bancas. Em quatro anos e meio, Opinião sofreu ameaças, prisões, apreensões de edições inteiras, processos judiciais, o lançamento de uma bomba na redação e um decreto presidencial, baseado num ato de força – o AI-5 –, ratificando a censura prévia que o jornal tinha derrubado, como ilegal, no Tribunal Federal de Recursos. O semanário publicou 5.796 páginas, mas teve que produzir quase o dobro – 10.548 páginas – para suprir a falta do material vetado pela censura que não existia, pela lista que ninguém conhecia.

Gasparian cansou da censura e, em 8 de abril de 1977, mandou para as bancas uma edição diferente da que enviara a Brasília para revisão da polícia. Corajosamente, abaixo do título de Opinião, o jornal trazia um carimbo desafiante, retumbante, triunfante: “Livre”.

A primeira edição de Opinião sem censura foi apreendida. O jornal nunca mais voltou às bancas. A palavra final do regime de força matou o jornal que ousou ser, pela primeira vez, o Opinião liberado, libertado pela força das palavras.

O Uruguai, o algodão incrustado entre os cristais cortantes de Brasil e Argentina, pensou na palavra antes de se pensar como país. O decreto que garantia a liberdade de escrever nasceu em outubro de 1811, 14 anos antes do Uruguai se declarar independente pela insurreição libertadora dos Treinta y três orientales, 19 anos antes de sua primeira Constituição. Até que o advogado Gabriel Terra, eleito presidente em 1931, dois anos depois jogou no chão esta bela história.

Em março de 1933, com o apoio do Corpo de Bombeiros (!) e da Polícia, dirigida por seu cunhado, Terra instaurou a sua ditadura.

Seu primeiro ato de força foi um decreto que reconhecia a força das palavras. Dizia:

Decretase la censura previa de los órganos de publicidad que hayan atribuido o atribuyan propósitos dictatoriales al Presidente de la República.

Quarenta anos depois, quase as mesmas palavras ressuscitaram para escancarar a mesma força bruta:

“Proíbe-se a divulgação pela imprensa oral, escrita ou televisionada, de todo tipo de informação, comentário ou gravação (…) atribuindo propósitos ditatoriais ao Poder Executivo”.

Era o Art. 3º do decreto 467 de 27 de junho de 1973, o dia do golpe civil-militar na terra de Gabriel Terra, que já não era a nação livre sonhada pelos 33 Orientales e pelo libertador Artigas.

Até as palavras da meteorologia assustavam a ditadura. O locutor da rádio já não podia falar sobre o inverno mais rigoroso no país. A censura proibia a palavra correta sobre a previsão do tempo – “mucho frio”–,ignorando a inclemência da estação e reafirmando a impenitência dos quartéis. Os militares mandavam dizer assim:

– Hace frio, pero no mucho. Hay países que están peores…

Em apenas cinco meses de 1973, entre julho e novembro, o Uruguai fechou 23 jornais, 273 edições foram confiscadas nas bancas. Foi pior no ano seguinte, 1974: 96 redações destruídas, 8 por mês, duas por semana, uma a cada 3 dias. Na véspera do réveillon de 1975, foi invadida a última publicação, a revista de um padre jesuíta, Andrés Assandri, intitulada Perspectivas de Diálogo.

Nada estranho empastelar uma revista com palavras tão provocativas.

Afinal, perspectivas, não havia: diálogo, muito menos.

Etiqueta macabra

A falta de comunicação estava expresso no encontro improvável de 1977 entre um dos maiores rinocerontes da repressão no Uruguai e um dos maiores virtuoses da música na Argentina.

Miguel Ángel nem existia quando seus avós chegaram do Oriente Médio. O funcionário da Imigração de Buenos Aires perguntou seu nome várias vezes, mas o avô não entendia bem o espanhol. Limitou-se a apontar para o céu, sem dizer uma palavra. O funcionário, irritado, mandou anotar no documento:

– Póngale Estrella a estos turcos de mierda!

Sem querer, ele tinha acertado: Najmah, em árabe, significa estrela. Anos depois, em 1940, nascia em Tucumán o neto predestinado pela harmonia do cosmos: Miguel Ángel Estrella, encantado pela música de Chopin, começou aos 12 anos a estudar o piano que o transformaria numa estrela da música clássica no mundo.

Artista consagrado, alternava seus espetáculos entre a plateia elegante das maiores salas de concerto do mundo e os shows gratuitos para o público humilde das favelas e dos povoados do interior que não tinham música em suas vidas miseráveis.

Ele estava em Montevidéu, em dezembro de 1977, quando caiu nas mãos da maior estrela da repressão uruguaia, o major José Nino Gavazzo.

Preso sob a falsa acusação de ser um guerrilheiro montonero, Estrella foi levado para uma casa clandestina de interrogatório, próxima ao aeroporto de Carrasco, onde foi torturado com choques elétricos, suspenso do solo por uma roldana.

Durante seis dias seguidos, teve suas mãos delicadas atadas às costas, enquanto seus algozes simulavam cortar seus dedos com uma serra elétrica. A tortura fez com que o pianista perdesse a sensibilidade nos braços e nas mãos por 11 meses. O major Gavazzo, racista e prepotente, explicou o motivo de tanta violência:

– Você não é um guerrilheiro. É algo pior: com um piano e um sorriso você põe a negrada no bolso e faz os negros acreditarem que podem escutar Beethoven. Formaram você para tocar para nós e agora você prefere tocar para a negrada!

Estrella ouvia a ameaça do major:

– Não te matamos porque não podemos, mas vamos te destruir totalmente. Nunca mais serás o pai de teus filhos. Nunca mais serás amante de uma mulher. Nunca mais tocarás piano. Temos métodos muitos sofisticados. Se daqui a 18 anos, que é o tempo que vamos te prender aqui, ainda continuares com esse sorriso, vamos te matar. Porque és uma pessoa que tem fé e essa fé nós vamos arrancar.

Estrella e sua arte só sobreviveram pela força de um movimento internacional que exigiu a libertação do pianista, em 1980.

Aos 71 anos, Miguel Ángel ainda é uma estrela que brilha, fulgurante, com a mesma fé que a tortura não conseguiu arrancar, com o mesmo sorriso que a força bruta não pôde matar.

Aos 72 anos, o major Gavazzo não pode nem mesmo sorrir. É um dos primeiros militares processados por crimes de direitos humanos na ditadura e está preso em Montevidéu, condenado desde 2010 a 25 anos de prisão pela morte de 28 uruguaios, sequestrados em Buenos Aires um ano antes da prisão de Estrella.

Os profissionais da força têm sérios problemas com as palavras e uma patológica obsessão com as mãos.

Isso ficou claro um dia depois do bombardeio do Palácio de La Moneda, onde sucumbiram o presidente Salvador Allende e a dem0cracia. Em 12 de setembro de 1973, no ginásio fechado do Estádio Chile, foram detidos 600 estudantes e professores da Universidad Técnica del Estado (UTE). Entre eles estava Victor Jara, que aos 40 anos usava as mãos e a voz para dar força e lógica às palavras.

No seu testamento musical, Manifiesto, no disco póstumo Tiempos que Cambian (de 1974), Jara apregoava:

Yo no canto por cantar/ ni por tener buena voz,/

Canto porque la guitarra/ tiene sentido y razón.

Jara vivia das palavras, como professor de jornalismo, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e ativista político. Tinha todos os pecados, portanto, para ser odiado pelas palavras de força que iriam caçar e silenciar a força das palavras. No Chile de Pinochet, Victor Jara tinha o mesmo e único prognóstico de Federico García Lorca na Espanha de Franco: a morte

O oficial que reconhece Jara na multidão de presos o ataca com pontapés, chutando as costas, a cabeça, o corpo todo. Jogado num corredor, Jara resiste com a arma que lhe resta, que sempre será sua: a palavra. Pede lápis e papel e, superando o sangue e a dor, escreve os últimos versos de sua vida breve:

Canto que mal que sales/ Cuando tengo que cantar espanto/

Espanto como el que vivo/ Espanto como el que muero.

Jara ainda tem tempo de repassar o poema a um companheiro, antes que dois soldados o arrastem para nova seção de golpes, ainda mais brutais. Um oficial da Força Aérea pergunta ao preso estirado no chão se ele fuma. Jara nega, o oficial insiste: “Pois agora vais fumar!”. E lhe joga um cigarro aceso. Tremendo, Jara estende o braço para pegar a bagana. O militar ergue o pé e esmaga a mão do artista com o seu coturno. A palavra amaldiçoada explica a violência:

– Ahora, vamos a ver si aún tocas la guitarra, comunista de mierda! – grita o oficial.

No quinto dia após o golpe, Jara foi trucidado com 44 disparos e seu corpo jogado num matagal próximo ao Cemitério Metropolitano, às margens de uma rodovia.

O mais conhecido cantor do país foi levado para o depósito de cadáveres e ganhou a etiqueta macabra daqueles tempos sinistros: N.N, mais um no-nombrado. Jara só perdeu o anonimato quando teve seus restos reconhecidos pela viúva.

Palavra que fala

O Brasil também era varrido por aquela estranha sanha assassina contra as mãos. No início dos anos 1960, o jornalista Antônio Maria (1921-1964) era um artífice das palavras, o maior cronista do Rio de Janeiro. Escrevia no jornal getulista Última Hora, adversário direto da Tribuna da Imprensa, do eterno conspirador Carlos Lacerda.

Irritados com os constantes ataques de Maria ao seu chefe, capangas de Lacerda atacaram o jornalista e lhe quebraram os dedos das duas mãos. No dia seguinte, para surpresa de todos, Maria voltou com outro artigo impiedoso, que não falava do espancamento.

Na última linha, porém, o cronista escreveu:

– Que tolos! Eles pensam que os jornalistas escrevem com as mãos…

Os tolos de todos os lugares, de todas as eras, imaginam que os homens e mulheres produzem com as mãos, ou só com as mãos, as maravilhas do pensamento e os monumentos das artes que marcam o processo civilizatório.

Censurando a imprensa, reprimindo as artes, silenciando os dissidentes, disseminando o medo e o terror de Estado, tentaram esmagar o homem e seus direitos. A partir de meados dos anos 1980, as ditaduras foram expostas nas suas entranhas, desabando uma a uma num efeito dominó que resgatou a esperança e a dignidade no extremo sul do continente.

A versão vazia e triunfalista da história oficial no Cone Sul, que deturpava a palavra pela força, foi confrontada pela palavra liberta e liberada de quem antes se calara pela força da violência, do medo.

Surgia o outro lado da história, a história do outro lado.

Na palavra do jornalista, do historiador, do político, do escritor, do poeta, do músico, um novo continente de ideias e de verdade aflorou na América, livre dos simbolismos, das metáforas, das alegorias, dos subtextos, das codificações poéticas de letras e músicas que recuperaram sua capacidade de contar livremente o desafio da vida.

As novas narrativas da América Latina das décadas de 60 a 80 do século passado surgem, agora, com o testemunho que preenche lacunas e desfaz lendas do poder.

Esta é a alentadora herança que fica: qualquer que seja o desafio imposto pela força, pelo silêncio, pelo arbítrio, sempre restará a palavra que redime, a palavra que honra, a palavra que fala.

Cedo ou tarde, lembramos e contamos.

Palavra por palavra.

***

[Luiz Cláudio Cunha é jornalista]

terça-feira, 1 de novembro de 2011

a pimenta e os olhos... arde, mas nos dos outros é colírio

Alexandre Frota briga com Zé Américo durante gravação

Parece que Alexandre Frota cansou de levar na brincadeira as piadas sobre sua sexualidade. Durante gravação do programa 'Vc Tem Que Ver', do SBT, que iria ao ar nesta terça-feira (1º), Zé Américo fez uma piadinha sobre o filme adulto que ele fez com a travesti Bianca, deixando Frota muito bravo, a ponto de chutar a bancada. Olha só:




'Qual é o negócio, mermão?!'
#Podeisso, Claudia Raia?

não é difícil fazer jornalismo

Kennedy Alencar: A doença é mais um desafio na trajetória do Lula

novembro 1st, 2011 by mariafro

A avaliação que Kennedy Alencar faz é bem próxima do que disse desde o primeiro momento que soube do câncer do Lula: para oposição golpista na imprensa, para o PT, para o governo, mas principalmente para essa direita raivosa Lula vivo é bem melhor. Morto ele será indestrutível.

Como disse Helder ao me mandar o link via twitter: ‘o comentário do Kennedy Alencar na CBN hoje é  puro jornalismo’.





Fotos: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

não tem pra ninguém

Os quatro maiores

 Correio do Povo

 Juremir Machado da Silva

<br /><b>Crédito: </b> ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY

Crédito: ARTE PEDRO LOBO SCALETSKY
Correio do Povo


Não tem para ninguém. Os quatro maiores presidentes da história do Brasil são Getúlio, JK, Jango e Lula. Avançamos de um nome, tratado, às vezes, pelo sobrenome, para uma sigla e finalmente chegamos aos apelidos. Sintomas de uma evolução da democracia. Deixamos para trás os sobrenomes pomposos da elite quatrocentona paulista. O povo saiu da planície para o Planalto. Lula está com câncer. Alguns abutres vibram sem muita discrição. Imaginam-no fora do jogo. Nunca poderão, no entanto, apagar a sua figura imensa da biografia do Brasil. Getúlio e Lula são os maiores personagens políticos de todos os tempos em nossa história. Se Cabral descobriu o Brasil, se D. Pedro I o tornou independente, se D. Pedro II deu-lhe algum ar de civilização, se a República caiu no colo de Deodoro da Fonseca, Getúlio reinventou o Brasil. Arrancou-o do atraso mais profundo e imobilizador. Empurrou-o para a sua industrialização.

Não conseguiu, contudo, nem na ditadura nem na democracia, arrumá-lo totalmente. As resistências foram poderosas. Enfrentou quatro inimigos: os "carcomidos" paulistas, derrotados de 1930, os comunistas, os integralistas e alguns dos seus aliados de primeira hora. JK entrou no jogo como um campeão da modernidade, do dinamismo e da renovação tecnológica. Deu ao Brasil uma nova capital e uma nova maneira de se ver. Melhorou a nossa autoestima e fez-nos crer que o futuro havia chegado. Sempre tivemos a impressão de viver no passado. Com JK, passamos a viver no futuro. Jango tentou completar Getúlio e ir além de JK. Quis criar um presente satisfatório para os brasileiros. As reformas de base eram necessidades vitais. Como disse Darci Ribeiro, Jango caiu pelos seus acertos, não pelos seus erros. É perigoso demais estar certo antes do tempo. Jango pagou caro.

Passaram-se 40 anos até um homem do povo ser eleito para retomar as iniciativas de Getúlio, JK e Jango. Conta-se com a ciência para curar Lula e mantê-lo firme e forte para os próximos combates. Aos que já o estão secando, salivando pelos cantos da boca, é preciso lembrar que hoje Dilma é o segundo chefe de Estado mais popular da América Latina. O Brasil só melhora realmente quando um presidente consegue distribuir renda, desconcentrar a riqueza e gerar inclusão. Um assessor de Tancredo Neves escreveu para ele discursar: "Esforçar-nos-emos para criar uma nação mais inclusiva". Tancredo traduziu: "Lutaremos por um país em que ninguém fique de fora". Jango tentou. JK nem tanto. Getúlio e Lula conseguiram. Não tudo. Mas um grande salto. Atenção aos corvos: isto não é um obituário. É um elogio em vida. Os grandes também adoecem. Felizmente a medicina evoluiu.

Dentro de 500 anos, os historiadores ainda falarão de Getúlio, o maior de todos, de JK, o modernista, de Jango, o injustiçado, e de Lula, o metalúrgico desqualificado como semianalfabeto que, com seu apelido povão, fez mais e melhor do que a maioria dos doutores tratados por nome e sobrenome sonoros. Ah, antes que alguém tenha essa ideia, não sou petista nem pedetista.

Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br

"Sentimentos de humanidade e solidariedade devem ser a argamassa da construção de uma sólida democracia"

Maria Inês Nassif: guia de boas maneiras na política. E no jornalismo



Por Maria Inês Nassif, na Carta Maior

A cultura de tentar ganhar no grito tem prevalecido sobre a boa educação e o senso de humanidade na política brasileira. E o alvo preferencial do “vale-tudo” é, em disparada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por algo mais do que uma mera coincidência, nunca antes na história desse país um senador havia ameaçado bater no presidente da República, na tribuna do Legislativo. Nunca se tratou tão desrespeitosamente um chefe de governo. Nunca questionou-se tanto o merecimento de um presidente – e Lula, além de eleito duas vezes pelo voto direto e secreto, foi o único a terminar o mandato com popularidade maior do que quando o iniciou.

A obsessão da elite brasileira em tentar desqualificar Lula é quase patológica. E a compulsão por tentar aproveitar todos os momentos, inclusive dos mais dramáticos do ponto de vista pessoal, para fragilizá-lo, constrange quem tem um mínimo de bom senso. A campanha que se espalhou nas redes sociais pelos adversários políticos de Lula, para que ele se trate no Sistema Único de Saúde (SUS), é de um mau gosto atroz. A jornalista que o culpou, no ar, pelo câncer que o vitimou, atribuindo a doença a uma “vida desregrada”, perdeu uma grande chance de ficar calada.

Até na política as regras de boas maneiras devem prevalecer. Numa democracia, o opositor é chamado de adversário, não de inimigo (para quem não tem idade para se lembrar, na nossa ditadura militar os opositores eram “inimigos da pátria”). Essa forma de qualificar quem não pensa como você traz, implicitamente, a ideia de que a divergência e o embate político devem se limitar ao campo das ideias. Esta é a regra número um de etiqueta na política.

A segunda regra é o respeito. Uma autoridade, principalmente se se tornou autoridade pelo voto, não é simplesmente uma pessoa física. Ela é representante da maioria dos eleitores de um país, e se deve respeito à maioria. Simples assim. Lula, mesmo sem mandato, também o merece. Desrespeitar um líder tão popular é zombar do discernimento dos cidadãos que o apoiam e o seguem. Discordar pode, sempre.

A terceira regra de boas maneiras é tratar um homem público como homem público. Ele não é seu amigo nem o cara com quem se bate boca na mesa de um bar. Essa regra vale em dobro para os jornalistas: as fontes não são amigas, nem inimigas. São pessoas que estão cumprindo a sua parte num processo histórico e devem ser julgadas como tal. Não se pode fazer a cobertura política, ou uma análise política, como se fosse por uma questão pessoal. Jornalismo não deve ser uma questão pessoal. Jornalistas têm inclusive o compromisso com o relato da história para as gerações futuras. Quando se faz jornalismo com o fígado, o relato da história fica prejudicado.

A quarta regra é a civilidade. As pessoas educadas não costumam atacar sequer um inimigo numa situação tão delicada de saúde. Isso depõe contra quem ataca. E é uma péssima lição para a sociedade. Sentimentos de humanidade e solidariedade devem ser a argamassa da construção de uma sólida democracia. Os formadores de opinião tem a obrigação de disseminar esses valores.

A quinta regra é não se deixar contaminar por sentimentos menores que estão entranhados na sociedade, como o preconceito. O julgamento sobre Lula, tanto de seus opositores políticos como da imprensa tradicional, sempre foi eivado de preconceito. É inconcebível para esses setores que um operário, sem curso universitário e criado na miséria, tenha ascendido a uma posição até então apenas ocupada pelas elites. A reação de alguns jornalistas brasileiros que cobriram, no dia 27 de setembro, a solenidade em que Lula recebeu o título “honoris causa” pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, é uma prova tão evidente disso que se torna desnecessário outro exemplo.

No caso do jornalismo, existe uma sexta regra, que é a elegância. Faltou elegância para alguns dos meus colegas.

Leia outros textos de Outras Palavras

o jeitutu brutucu do PSDB governar

Professora Ana Fani e a aula que não aconteceu

Viomundo

por Ana Fani Alessandri Carlos, por sugestão do professor Ricardo Musse


Caros estudantes

Foi com grande indignação e imensa tristeza que vi na última quinta  feira a PM invadir o espaço da universidade e, ao fazê-lo, impor sua violenta racionalidade à vida cotidiana do campus. As “forças da ordem” instauraram o caos, usurpando a liberdade necessária e indispensável à realização de nosso trabalho, com o discurso da manutenção da mesma “ordem” que ele subverteu.

Não é difícil reduzir sua ação ao combate do tráfico de drogas sob o argumento de que o tratamento ao usuário de droga pego em flagrante deve ser o mesmo para todos os cidadãos sejam eles estudantes ou não, estejam eles no campus universitário ou fora dele.

A questão está longe de se resumir a esta ação/atitude. A situação em que nos encontramos é muito mais complexa. Trata-se do modo como o uso da força é justificado pelas autoridades. Assim a presença impositiva de uma fileira de motos, um despropositado número de PMs no estacionamento do prédio da História/Geografia, para autuar três estudantes (antecedidos por blitz constrangedoras e cada vez mais freqüentes aos estudantes da USP) com seus gadgets, somados á bombas de “efeito moral” instauram o caos e impediram que a atividade fim da universidade se realizasse. Além do que acabaram gerando mais violência e, com ela, um impasse, cujo desfecho certamente recaíra – como de hábito, pela punição aos mais fracos.

Consequentemente, trata-se de buscar a real origem de todo este caos que invade a vida cotidiana do campus subtraindo-lhe o sentido, e não poderia ser outra senão a lógica que orienta as atitudes da atual gestão universitária. Tal atitude vem revelando um desconhecimento do papel e sentido histórico desta instituição pública, preocupada que esta em atender as exigências do mercado – no discurso tratado como aproximação entre universidade-sociedade (seja lá o que isto quer dizer!)

Os crimes de todos os tipos e assassinatos não podem e devem ser aceitos passivamente, nem no campus, nem fora dele, mas suas origens parecem não estar suficientemente claros, o que parece certo, todavia que com violência e negação de direitos civis estaremos cada vez mais distante da busca de possíveis e desejadas soluções.

Certamente, trata-se de formar nossos estudantes na busca da compreensão do fato de que o consumo inocente de um baseado reproduz o circuito do narcotráfico fundado numa violência ainda maior do que a da PM, e cuja existência impede o mais simples convívio social nas áreas de sua atuação direta, bem como, no plano da sociedade a realização de um projeto que busque a realização do direto à cidade, a realização da cidadania plena e a subversão da situação de desigualdade que funda a sociedade brasileira.

Certamente os estudantes envolvidos nesta batalha devem ser totalmente favoráveis à superação desta condição de desigualdade que inclusive impede que a maioria daqueles que se encontram na mesma faixa etária tenham acesso à mesma universidade pela qual estamos todos engajados em sua defesa.
Abrir os portões da USP para a PM, vem revelando – em curto espaço de tempo – esta foi uma saída é, no mínimo, irresponsável.

A gestão da USP, ao abrir mão de suas atribuições, vem de forma consistente destituindo a universidade de seus conteúdos e sentido.

Para citar um caso dos mais graves, lembramos, aqui, os programas de pós-graduação deixados – pesquisadores e estudantes, com suas pesquisas – à mercê das instituições de fomento que vem impondo, no lugar do debate acadêmico, a competição entre programas e pesquisadores em busca de linhas em seus currículos lattes.

Competição esta, agora exacerbada pela nova lógica da carreira docente que faz com que o vizinho de sua porta se torne o inimigo a ser combatido por pontos pela progressão na carreira.
Na busca por estes objetivos, os prazos se tronam cada vez mais apertados esvaziando o ato de conhecer como ato de habitar o tempo lento da reflexão, agora, invadida pela quantificação.

Com isso é nosso trabalho que é completamente destituído de sentido, e o conhecimento produzido redunda em mera banalidade ou meras constatações. Agora, na mesma lógica que terceiriza a pós-graduação, a Universidade terceiriza mais uma das atividades que permite a
realização de seus objetivos – a segurança do/no campus.

A cada passo as sucessivas gestões parecem perder pouco a pouco sua legitimidade para levar a universidade para o futuro, prolongando uma história de conquistas tanto no plano do conhecimento da realidade brasileira – agora comprometido pelo tempo veloz com que precisamos produzir textos,artigos, orientações, patentes, etc- quanto no cenário político brasileiro em sua luta contra a ditadura.

Que projeto vislumbrar? Que futuro podemos construir? Sem dúvida o coletivo desta grande universidade precisa apontar novas possibilidades e caminhos mirando o futuro, mas aprendendo com nossa  história…..

Professora Dra. Ana Fani Alessandri Carlos
Departamento de Geografia da FFLCH/USP


Leia também:


você é a favor do CAIXA DOIS? e o cara pálida? ah, é pelo voto distrital

Financiamento público de campanha.
PSDB e PMDB preferem Caixa Dois

No próximo dia 9, a Comissão Especial de Reforma Política da Câmara deve votar o relatório do deputado Henrique Fontana (PT-RS) que recomenda o financiamento público da campanha política.

Se for derrotada, a proposta será arquivada.

E a eleição de 2014 será como é hoje: o império do Caixa Dois.

Em 2002, as eleições para Presidente, Governador, Senador e deputados Federal e Estadual custaram R$ 827 milhões.

Isso é o que foi DECLARADO.

Fora o Caixa Dois.

Como se sabe, uma boa parte do financiamento das campanhas, hoje, é em dinheiro vivo, não contabilizado.

Como diz este ansioso blog, o Caixa Dois na política é tão brasileiro quanto a goiabada com queijo.

Em 2010, o custo dessas campanhas foi de R$ 4,9 bilhões.

Portanto, houve um aumento DECLARADO de 591%.

Assim, se não houver o financiamento público, só vai ser político quem for muito rico, ou se submeter aos interesses dos financiadores.

Ou seja, o Congresso brasileiro será o espelho dos interesses das empreiteiras, dos bancos, da indústria farmacêutica – mais do que hoje.

Das 513 campanhas mais caras para deputado federal, em 2010, 369 foram eleitos.

Ou seja, com grana o candidato tem 72% de chances de ser eleito.

É por isso que a Maria da Conceição Tavares, o Florestan Fernandes, o Milton Temer (o primeiro a pedir informações ao Banco Central sobre as operações do banco Opportunity, ainda no Governo FHC) e o Delfim Netto não conseguem mais se eleger.

Quanto será distribuído sob a forma de financiamento público ?

Segundo o relatório de Fontana, o limite de gastos será fixado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Quanto irá para cada partido ?

25% do dinheiro serão distribuídos igualmente entre TODOS os partidos.

O resto será proporcional ao número de votos – porque, numa democracia, quem tem mais votos vale mais, não é isso Padim Pade Cerra ?

O financiamento público é a única forma de partidos como o DEMO e o PP sobreviverem.

Porque não têm candidato próprio à Presidência da República, o DEMO e o PP morrem na praia, na primeira pesquisa do Globope ou do Datafalha.

Na primeira pesquisa do Globope e do Datafalha, o Cerra sai sempre na frente.

(Notável coincidência.)

Aí, a grana vai para o PSDB …

Quem são os maiores adversários do financiamento público ?

O PMDB e o PSDB.

Dentro do PMDB, quem são os mais ferrenhos adversários do financiamento público ?

O (vice) Presidente Michel Temer, que defende um estapafúrdio “plebiscito”.

E Eduardo Cunha, por uma questão de princípios filosóficos.

Ele é a favor da livre iniciativa.

Especialmente em Furnas.

No PSDB, o baluarte da campanha contra o financiamento público é o Padim Pade Cerra.

Ele tenta fulminar o relatório Fontana pelo lado errado.

Cerra defende o voto distrital, para atacar o voto fechado em lista, que não faz parte do projeto Fontana.

O Cerra e seus arautos no PiG (*) são contra esse moinho de vento: o voto fechado em lista.

Na verdade, o objetivo de Cerra e seus arautos é derrotar o financiamento público.

Um desses arautos é quem Leandro Fortes, na Carta Capital, chamou de Brucutu: um senhor Graeff, que, na derrota de 2010, operou as redes sociais para o Cerra.

É essa turma, amigo navegante: Michel Temer, Eduardo Cunha, um Brucutu e o Padim Pade Cerra.

Você é favor do que está aí, amigo navegante ?

O que está aí é o Caixa Dois no centro da política brasileira.


Paulo Henrique Amorim



(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

Juremir: o pezinho do louro

Louro José e eu

Postado por Juremir
 
 
Estou preocupado com o Louro José.
Ou seria Loro José?
Ele é objeto de disputa judicial entre Ana Maria Brega e dos designers.
Ou coisa assim.
Louro José é o maior intelectual brasileiro da atualidade depois de mim.
Na programa em que trabalha, duramente, é o mentor, o cérebro, a cabeça pensante.
Louro José tem ideias, ideologia e frases geniais.
Se entrasse no esoterismo, venderia mais do que Paulo Coelho.
Como apresentador, dá de relho em Jô Soares.
Tem um ar de bom moço que bota William Bonner no chinelo.
Louro José é a principal estrela da Rede Globo.
A única confiável, autêntica e pura.
Se Ana Maria perder o Louro José, o mundo global acaba.
Que se faça justiça.
Se Louro José entrar na justiça contra a Ana Maria e a Globo, leva um caminhão.
Já está na hora do Louro José escrever novela das nove.
Tenho certeza de ele bolaria alguma coisa mais original.
Louro José para prêmio Nobel da Literatura.

o baitasar apoia essa Campanha

Apoie a campanha “Respeitem Lula, o Estadista que Ergueu o Brasil”




Se você acha que o ex-presidente Lula ergueu o Brasil do poço em que estava mergulhado até 2002 e que o mínimo que este país lhe deve é pagar por seu tratamento de saúde, ainda que o próprio Lula não esteja pedindo isso, deixe seu comentário de apoio e fique entre os cidadãos lúcidos e humanos que têm a decência de tratar com respeito não só o ex-presidente, mas a qualquer pessoa, independentemente de cor, sexo, classe social, idade, crença (ou não), sexualidade, partido político ou time de futebol. Tenho certeza de que a maioria esmagadora dos brasileiros apoiaria essa campanha, se soubesse dela. Cabe a você que enxerga o que Lula fez por este país aderir à campanha e divulgá-la como puder. É só uma questão de justiça.

Você pode deixar comentário de apoio aqui no blog, mas se tiver conta no Facebook deixe seu apoio lá também clicando aqui

Santayana: mais outra vez... perfeito!

Santayana e a saúde
dos homens públicos


O Conversa Afiada publica o artigo de Mauro Santayana, do JB online:

As tensões da política


por Mauro Santayana


Os médicos ouvidos nestes últimos três dias debitam ao fumo e ao álcool a enfermidade que castiga Lula. As terríveis verdades são muitas, como as cabeças da hidra. A enfermidade, desde Hipócrates, tem sido vista como o resultado de um conflito. Em primeiro lugar, há o conflito entre o desenho evolutivo do homem e sua construção individual. As descobertas recentes mostram que esse conflito se inicia na combinação genética. Mas é preciso também ver a doença, como indicam outros estudiosos, no confronto entre o organismo e o ambiente, como atestam as doenças profissionais. O ambiente não é só o físico, com as alterações do clima e a poluição. Mais duro talvez seja o ambiente da vida em comum – a circunstância moral em que os homens se movem.


No caso dos homens públicos, as pressões do dia-a-dia e as noites indormidas,  nas duras exigências da política, costumam ser fatais. Essas pressões, quando as saídas se estreitam, podem levar muitos ao suicídio, como ocorreu a Getúlio Vargas, em 1954, a José Manuel Balmaceda, do Chile em 1891, e provavelmente a Allende, em 1973. No caso, essa fatalidade costuma ser indiferente às questões éticas. Tanto podem levar ao suicídio as grandes causas quanto a demência, como ocorreu a Nero, entre outros.


Normalmente, essas tensões  são indutoras de enfermidades graves. Em nossa contemporaneidade – à parte casos suspeitos, como os da morte de Jango, Lacerda e Juscelino – assistimos ao sofrimento e ao fim de Teotônio Vilela, Mário Covas, Quércia, José Alencar,  e Itamar Franco, todos eles atingidos pelo traiçoeiro, como ao câncer se referiu outra de suas vítimas, José Aparecido de Oliveira. Com Itamar, que estava em seu momento mais alto da vida, a leucemia foi mais cruel, não lhe dando muita chance para a luta. José Aparecido estava fora do poder, mas as vicissitudes dos últimos anos, quando viu a grande criação de sua vida política – a CPLP – estiolada pela sabotagem do governo Fernando Henrique – devem ter contribuído para a vitória do traiçoeiro.


O caso de Tancredo – que poderia ter exercido a Presidência,  não fossem os erros médicos, tão toscos que levam à suspeição – foi de outra etiologia e diferente patologia, mas é  evidente que as duras tensões acumuladas, ao longo da vida, contribuíram para que o seu organismo fosse menos resistente, naqueles 38 dias fatais.


Naqueles sete meses, que vão de 14 de agosto de 1984 – quando deixou o governo de Minas – à véspera da frustrada posse na Presidência, Tancredo foi exposto a pressões que nenhum outro político brasileiro sofrera. Elas foram quase intoleráveis, nas articulações para a consolidação  da Aliança Democrática e, em seguida à eleição, na formação do Ministério. Testemunha daqueles dias finais, em que as tensões se fizeram mais duras, sei que os constrangimentos – por mais resistente ele fosse – ajudaram a arranhar-lhe os nervos, debilitar suas células e provocar o intenso conflito entre a força de seu caráter e as injunções da inesperada enfermidade.


A História está repleta desses dramas. O caso de Evita Perón é um deles, o de Kirchner, outro. Antes deles, também na Argentina, houve Yrigoyen, o pioneiro da política antiimperialista continental e hoje esquecido. O grande presidente, o primeiro a nacionalizar o petróleo, com a criação do YPF, foi destituído em sua segunda presidência – tal como Vargas, pelas pressões da Standard Oil, e tal como Vargas, com a traição de generais a serviço de Washington. É bom anotar que o YPF, a Petrobrás argentina, assumiu o monopólio do mercado do petróleo em 1º de agosto de 1930, e em 6 de setembro o general Uriburu deu o golpe de Estado. Yrigoyen não se matou, mas foi confinado na Ilha de Martin Garcia, onde  a depressão lhe corroeu a saúde, para matá-lo em 1933. Eva pode ter sido, e foi, a adolescente sonhadora, que se aproximou de um homem poderoso e o tornou mais poderoso ainda, instigando-o com sua própria determinação e coragem. Uma vez no poder, ela recuperou a ligação com o povo a que pertencia, como filha bastarda de um capataz de fazenda e de uma dona de pensão, e neta de  carroceiro basco e de uma vivandeira, durante a guerra de extermínio contra os índios do norte, movida pelo general Julio Roca. No poder, ela se confrontou não só com os inimigos de Perón, mas também com correligionários do general, que não suportavam a sua influência ideológica. Foram pressões fortes, algumas talvez do próprio Perón, que alimentaram o câncer que a matou.


Estamos agora assistindo à resistência de Hugo Chávez à doença. Seus inimigos exultam e esperam. Seus partidários temem o pior, mas é certo que ele vem lutando com coragem, como lutaram, e lutam os nossos.


Felizmente, uma providencial dor de garganta levou Lula aos médicos, e as suas chances de cura são iguais às que ajudaram Dilma, que venceu a enfermidade e está em plena e bem conduzida atividade como presidente da República – uma república que, de acordo com a síntese dura de Jânio Quadros, “está, desde Deodoro, sob o signo do infortúnio”. Mas não há dúvida que, também em seu caso, as tensões atuaram a fim de abrir-lhe o corpo à doença.


Polícia contra polícia


É constrangedor que, no mesmo dia em que observadores internacionais anunciam que o Brasil, neste fim de ano, ultrapassará a orgulhosa Grã Bretanha, como a sexta economia do mundo, o deputado Marcelo Freixo seja obrigado a refugiar-se no exterior, ameaçado de morte por “milicianos”, ou seja, por políticos e  bandidos, associados às forças policiais do Rio de Janeiro.


É um desaforo e um desafio ao Estado, que não pode continuar sem resposta dura e definitiva. A solução está em criar  nova organização policial civil, subordinada diretamente ao governo da União, bem remunerada, formada por homens de coragem e  idoneidade moral, que possa, a pedido dos estados, identificar e levar à justiça esses criminosos. A lei penal deve ser também revista, a fim de punir, com mais rigor e celeridade, os que, pagos para proteger a sociedade, tornam-se matadores vulgares, como os assassinos dos pobres da periferia, e de juízes, como Patrícia Acioly – e que pretendem matar o deputado Marcelo Freixo.


Riscos do Enem vêm das escolas privadas


Tijolaço

A educadora Paula Bouzan, doutora em Políticas Educacionais pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e pesquisadora da Fundação Lemann, deu nesta segunda-feira uma entrevista à CBN, nesta segunda-feira, que foi extremamente didática e séria sobre os problemas que ocorreram com o Enem.

Paula aponta o interesse das escolas privadas em usarem seu ranqueamento no Enem como elemento de marketing como um dos principais problemas de segurança do exame.

Ela explica a grandeza do exame, o maior realizado simultaneamente em todo o mundo, sua seriedade metodológica e as vantagens que tem, sobretudo para os estudantes de mais baixa renda, sobre o vestibular.
Confesso que só depois de sua entrevista fui entender, com mais exatidão, o que está em jogo nesta prova.
Recomendo a todas as pessoas preocupadas com a educação que a escutem.

E que cobrem dos jornais que dêem atenção ao fato de que uma instituição que, dez dias antes do Enem distribuiu a seus alunos questões idênticas às de um pré-teste aplicado no ano passado, com compromisso de confidencialidade, como fez o Colégio Christus, de Fortaleza…

Cinco quilômetros em 55 minutos !

Cidade do México hoje é a
SP de amanhã. Uma obra prima tucana

Conversa Afiada

O ansioso blogueiro pega um táxi no Zócalo, a monumental praça central da cidade do México.

Tinha acabado de rever os murais de Diego Rivera, no Palácio Nacional, e pretendia conhecer o Mercado de la Merced, que fica a uns 5 quilômetros dali.

Pegou o táxi de Sanchez Castro Primitivo, que trabalha 12 horas por dia e se reveza com Martin Cruz Angeles.

Era sábado, às 13h30.

Gastou 55 minutos para percorrer os 5 quilômetros, sem qualquer acidente nas ruas.

Algo anormal ?, perguntei.

- Normal. Assim é, sempre, respondeu Sanchez, impassível.

Um calor infernal.

E ele nem suar suava.

O trânsito caótico.

Não existe mão ou contra-mão no centro velho da Cidade do México.

É a lei do mais forte.

Ou destemido.

Sanchez diz que passa entre três ou quatro horas por dia trancado no trânsito.

O problema maior é o engarrafamento provocado por ambulantes que estreitam as ruas.

Ouvi de outro motorista que, para ele, o que distingue um candidato a Presidente de outro – a eleição é ano que vem – é ser mais ou menos condescendente com o comércio ambulante.

O litro da gasolina corresponde a R$ 2.

Só que a gasolina sobe todo mês, de forma quase imperceptível: centavo a centavo.

A PEMEX tem o monopólio total sobre o petróleo e a distribuição.

Mas, Sanchez me explica que há alguns anos está em curso o que ele chama de “estratégia diabólica, super diabólica”.

Consiste em fatiar a PEMEX em pequenos pedaços, tirar a musculatura dela.

E não deixar o Estado – que Sanchez chama de “nós, os mexicanos” – nem empresários mexicanos investirem em petróleo, petroquímica, fertilizantes ou distribuição.

Aos poucos, diz Sanchez, a PEMEX “dos mexicanos” fica do tamanho de uma cebola.

E a outra, “de los gringos”, floresce.

(Pensei com meus botões: não era essa a “estratégia diabólica” para transformar a Petrobrax numa cebola ?)

(Não foi o Fernando Henrique quem quase entregou toda a indústria petroquímica à Odebrecht, financiada pela Petrobrax, a Petrobrecht  ?)

(Com o Cerra seria mais simples: entregava logo o pré-sal à Chevron.)

Nas ruas, carros novíssimos e velhíssimos.

A certa altura parece que você está em Havana, entre modelos GM de 1950.

E carros que estalam de novos, reluzentes, montados nas maquiladoras, a prestações de perder de vista.

Tudo empacotado entre barracas que vendem de tudo: vestido de noiva, sorvete, pimenta de variadas espécies e flores para el dia de los muertos.

Só que a cidade do México tem uma diferença crucial em relação a São Paulo: o transporte público.

A passagem do metrô corresponde a R$ 0,50.

Há onze linhas de metrô e a décima segunda está em construção.

São Paulo tem quatro linhas que correm sobre um mar de suspeitas de corrupção.

(O Ministério Público tem sérias duvidas sobre a probidade do presidente do metrô de São Paulo.)

E São Paulo constrói um quilômetro de metrô por ano.

A cidade do México ainda tem um metrô de superfície.

Imagine o que seria a cidade do México sem um sistema de transporte público !

O cidadão paulistano gasta de duas a duas horas e meia por dia para chegar e voltar do trabalho.

Uma espécie de “Escravidão Neolibelês (*)”.

O ansioso blogueiro chega finalmente ao Mercado de la Merced.

Inacreditável !

Impossível passar entre as ruelas.

Cada barraca anuncia seus produtos aos gritos.

Além do sistema de som do Mercado, que opera tão alto quanto num forró.  

La Merced é, digamos, cem vezes a rua 25 de março em São Paulo.

Mil vezes o Saara, no Rio.

Não tem comparação.

(E se houver um incêndio aqui dentro, como se escapa ?)

O ansioso blogueiro procurou a área de comedores, de restaurantes, vivamente recomendada pelo caderno “Paladar”, do Estadão.

Como tudo o que o Estadão recomenda, não é bem assim.

Quem manda ler o Estadão.

Se mente sobre o Brasil, imagine, amigo navegante, sobre o México !

A cidade do México, hoje, é o que a cidade de São Paulo será em breve.

Com um obstáculo adicional: a cidade do México tem transporte público e São Paulo, uma obra-prima malúfica-tucana, não tem.

Mario Vargas Llosa chamou o reinado do Partido Revolucionário Institucional, que ficou 70 anos no poder no México, de “a ditadura perfeita”.

É São Paulo, nos últimos 17 anos: uma ditadura perfeita.

Cinco quilômetros em 55 minutos !

Clique aqui para ler “O que o FHC queria para o Brasil: a ALCA. Você me dá a sua soberania e em troca eu compro a tua cocaína”.


Paulo Henrique Amorim


(*) “Neolibelê” é uma singela homenagem deste ansioso blogueiro aos neoliberais brasileiros. Ao mesmo tempo, um reconhecimento sincero ao papel que a “Libelu” trotskista desempenhou na formação de quadros conservadores (e golpistas) de inigualável tenacidade. A Urubóloga Miriam Leitão é o maior expoente brasileiro da Teologia Neolibelê.

Lampião: um cangaceiro que gostava de ler



PREDILEÇÃO POR ROMANCES POLICIAIS

 

Esta foto surpreendeu a muitos contemporâneos de Lampião, pois o mostrava lendo. Ele se empenhava em ser fotografado com um livro ou uma revista na mão ou lendo os artigos publicados sobre ele na imprensa (…) Um artigo publicado em 20 de fevereiro de 1937 no Diário de Pernambuco menciona sua predileção por romances policiais e, em particular, os de Edgard Wallace e Georges Simenon.
 ”Esta foto, pouco convencional, mostra Lampião com seus óculos, cigarro na boca, o olhar voltado para baixo, numa pose natural, com seu uniforme de cangaceiro. Ao contrário da maioria das fotos em que posa, Lampião aparece com o fuzil ao ombro, a mão pousada sobre sua arma. Segura um exemplar do jornal O Globo, que trazia um artigo sobre ele. Sabe-se que freqüentemente solicitava jornais do Rio de Janeiro e do litoral nordestino que trouxessem notícias suas. Lia-os em público, comentava-os, manifestando satisfação ou ódio, de acordo com a situação. É provável que Benjamin Abrahão tivesse a intenção de tirar proveito de uma imagem como aquela junto ao diretor do jornal. Por outro lado, Lampião segura o jornal de manfeira ostensiva: aponta um artigo na primeira página, chamando a atenção do observador. Como contraponto a esse gesto, pressiona o gatilho de seu fuzil. Os poderes que o cangaceiro atribuiu a si mesmo são resumidos nessa foto: de um lado, o poder sobre os meios de comunicação; de outro, o poder das armas.” (Pág.137) ***** Benjamin Abrahão, 1939 coleção Ruy Souza e Silva, São Paulo,  Acervo AbaFilm, Fortaleza ***** do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, editora Terceiro Nome.
 ”Setenta anos depois do primeiro clique que o mascate libanês Benjamin Abrahão fez do bando de Lampião, este livro publica pela primeira vez no Brasil um conjunto significativo de fotografias do cangaço. Benjamin Abrahão conquistou a confiança de Lampião e tornou-se o fotógrafo ‘oficial’ dele e de seu bando. Muitas de suas imagens, agora restaurdas, assim como de outros fotógrafos, nem sempre identificados, já foram amplamente publicadas na imprensa, mas nunca na extensão e com o tratamento gráfico que recebem agora” (trecho do texto de apresentação do livro )

lampião, um cabra que gostava de ler

Você tem TV a cabo?... é ruim, menos pior que o canal aberto?

TV a cabo: vigarice e desrespeito ao consumidor


Diário Gauche





Mais do mesmo na TV a cabo


Não estou nem um pouco animada com a perspectiva de controle de todo o segmento de TV por assinatura pelas empresas de telefonia. O que é ruim, na melhor das hipóteses, continuará claudicante, uma vez que as operadoras de telefonia fixa e móvel destacam-se negativamente nos rankings de reclamação dos consumidores.

A perspectiva, então, é de mais concentração de mercado nas mãos de quem já não respeita o cliente em suas atividades atuais.

Hoje, o consumidor pena para conseguir migrar para pacotes de TV digital, oportunidade da qual as empresas se aproveitam para impor contratos mais caros e com menos canais, ou com menor qualidade.

Também empurram ponto extra para quem não o solicitou, sob a alegação de isenção de pagamento. Na verdade, nas letras miúdas, fica claro que a fatura virá mais adiante, geralmente dentro de um ano.

O consumidor Anderson Martins Borges teve dissabores com a Sky ao mudar de endereço. Foram mais de dois meses para que a empresa fizesse a nova instalação, período em que marcou e não cumpriu atendimentos técnicos.

Cancelar o serviço? Só se pagasse multa. Os desrespeitos continuaram com espera na linha para ouvir desculpas esfarrapadas e agendamentos descumpridos. Mas a conta de R$ 300 chega direitinho, mensalmente.

Outra consumidora escolheu contratar a TVA ao alugar um apartamento e foi induzida a adquirir o combo de TV por assinatura, acesso à banda larga e telefone para que a mensalidade pesasse menos no orçamento.

Embora tenha comprado um pacote, as instalações foram feitas isoladamente, em três dias. E, para sua surpresa, a TV a cabo veio com ponto adicional. Quando reclamou, sofreu com artifícios da operadora que a lei do SAC se propunha a banir: sua ligação foi passada para vários atendentes, esperou muito tempo na linha e teve de refazê-la algumas vezes.

Ao final, foi informada de que teria de entregar o receptor do ponto extra -que não contratara- na empresa. Algo como ser obrigada a devolver um cartão não solicitado à agência bancária.

A arquiteta S.M. também se incomodou muito ao tentar, sem sucesso, cancelar a assinatura da Net. Recebeu oferta de 30% de desconto, que não aceitou. Foi combinado, então, que os aparelhos seriam retirados, mas não foram. Semanas depois de a operada assegurar que havia cancelado o serviço, chegou nova fatura.

Esses são apenas alguns exemplos de como as empresas tratam seus assinantes, o que poderá até piorar, porque as teles terão, em seu domínio, telefonia, TV a cabo e acesso à banda larga. Ou seja, mais poder com pouca concorrência.

Dificilmente, então, melhorarão a programação, hoje entediante para quem contrata o serviço, pois os filmes se repetem com intensidade irritante. Os melhores filmes e jogos de futebol só são disponíveis por "pay-per-view" - comprados à parte. Ao mesmo tempo, cresce a quantidade de comerciais nas emissoras pagas.

Há muitas queixas de demora na visita técnica, de cobranças indevidas, de dificuldade para fazer reclamações por telefone e de falhas nos combos.

Nada diverso do que ocorre no acesso à banda larga prestado pelas teles, que é lento e sofre frequentes interrupções.

Má perspectiva para os assinantes, que podem esquecer o sonho de bons pacotes por preços mais competitivos. Também não devem apostar em melhores serviços.

Com a troca de controle da TVA e da Net, respectivamente, para Telefônica e Telmex (Embratel), haverá apenas mudanças de razões sociais do duopólio.

A Anatel deveria, ao menos, cobrar uma transformação radical nas relações com os consumidores para autorizar as alterações de controle acionário.

As operadoras são tão semelhantes, e atuam de maneira tão similar, que os brasileiros, provavelmente, só tenham na TV paga a opção de trocar seis por meia dúzia. Mais do mesmo, portanto, em preços, em serviços e em qualidade.


Artigo da advogada Maria Inês Dolci, especializada em direito do consumidor e coordenadora institucional da ProTeste Associação de Consumidores. Publicado hoje naFolha.

SUS: Rede Nacional de Desenvolvimento e Inovação de Fármacos Anticâncer

Carta ao Lula


Oct 31st, 2011 by Marco Aurélio Weissheimer no RS Urgente



De Elvino Bohn Gass para Lula:

Lula, meu irmão,

permita-me chamá-lo assim, afinal, estamos juntos há mais de 30 anos, desde a fundação do PT, da CUT, na luta pelas diretas, em todas as tuas campanhas eleitorais, na vitória de 2002, em teus dois governos.

Escrevo-te sob o impacto da notícia de que te diagnosticaram um câncer. Num primeiro momento, confesso, nem pensei em tua saúde, mas na tua importância política. O Brasil precisa de Lula, pensei. A América Latina precisa de Lula. O mundo precisa de Lula.

É, irmão, de sapo barbudo a presidente-operário, tu, que já foste preso pelos milicos, que já foste chamado de analfabeto; tu, o sem-diploma, hoje és doutor honoris causa. Sim, tua trajetória de vida, a forma como fazes política, o jeito como governaste o Brasil, as posturas que adotaste diante dos problemas e dos conflitos mundiais, fizeram de ti um doutor. Um doutor que honra a causa que defendes, a igualdade. E é por isso que o mundo precisa de ti, porque ainda carecemos muito de igualdade.

Pois bem, irmão Lula, só uns instantes depois de pensar em ti como ser político é que pensei em ti como ser humano. No desconforto, nas dores, nos enjôos, nas conseqüências do tratamento que te será imposto. E então, irmão, rezei por tua saúde. E só Deus sabe o quanto tenho visto e ouvido das pessoas que elas também estão ao teu lado neste momento.

Não sei se te deste conta, Lula, mas hoje, 31 de outubro de 2011, faz exatamente um ano que a nossa Dilma elegeu-se a primeira presidenta do Brasil. E todos nós sabemos que foi pelas tuas mãos que ela se tornou candidata. Sim, nós, petistas, confiamos na tua indicação. Porque sabíamos que Dilma, além das qualidades que demonstrara no governo, carregava uma história de coragem e luta que dignificaria a presidência da nossa República. Sim, Lula, nós sabíamos. E por isso nos perfilamos ao teu lado na tentativa correta de mostrar ao povo que ali estava uma mulher em quem se podia confiar. Uma mulher que, como tu, nos daria orgulho. Porque jamais mudaria de lado. Porque conduziria este país com a seriedade que ele necessita. Porque, como tu, fez uma escolha de vida que a colocou sempre ao lado dos oprimidos pela força e pela fome. Hoje, nós temos a certeza de que tu, mais uma vez, estavas certo. Enquanto a crise mundial destroça as nações ricas, o Brasil segue crescendo e distribuindo renda sob a condução magnífica da nossa Dilma.

E então, meu irmão, exatamente no dia em que celebramos um ano da eleição dessa mulher exemplar, tu começas a enfrentar o desafio de vencer uma doença que ainda mata demais no Brasil e no mundo. E eu escrevo esta carta para te dar a certeza de que jamais estarás sozinho nesta que é apenas mais uma das muitas batalhas da tua vida. Vida que nunca foi fácil pra ti, não é mesmo Lula? E a prova é que mesmo depois de teres feito os melhores governos da história do Brasil, ainda há quem viva te criticando. Mas tu, que aprendeste desde cedo a transformar adversidade em garra, a fazer da dificuldade um estímulo, farás de mais este desafio, uma vitória da esperança sobre o medo.

E como sei que o que te anima de verdade é ver os brasileiros mais felizes, quero te dar uma boa nova. O companheiro Alexandre Padilha, hoje nosso ministro da Saúde, criou, na semana passada, a Rede Nacional de Desenvolvimento e Inovação de Fármacos Anticâncer. Pois é, Lula, o Padilha está articulando todos os grandes centros de referência na luta contra o câncer. Assim, chamou o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a Fiocruz, o Laboratório Nacional de Biociências, a Finep e a Fundação Ary Fauzino para trabalharem juntos. No mês passado, já havia acertado uma parceria com o governo cubano para a transferência de tecnologias. É uma iniciativa que faz o Brasil entrar na produção de tratamentos inovadores para o câncer. E isso, irmão Lula, vai facilitar o acesso da população ao que há de mais moderno no enfrentamento da doença. E se te dou esta notícia, justamente nesta hora, é porque sei que emotivo como és, exageradamente humano como és, certamente estás feliz de saber que estamos fazendo o possível para que todos os brasileiros tenham um tratamento digno quando enfrentarem uma doença como a tua.

Tu sabes mais do que ninguém; o Brasil tem feito o possível para melhorar a saúde de seu povo. E sei que sabes, também, o quanto é caro e difícil fazer com que as mudanças nesta área cheguem à população. Afinal, antes de chegar às pessoas, precisamos recuperar um sistema que por anos foi sucateado, corrompido, degradado. Mas estamos caminhando, companheiro.

Bem, meu querido irmão, por aqui vou me despedindo. Antes, porém, quero te falar de uma outra coincidência: hoje é o Dia D. D, de Drummond, nosso poeta maior. Se estivesse vivo, ele completaria neste 31 de outubro, 109 anos. E foi ele quem disse “tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. E tu, que és reconhecidamente um dos maiores líderes do mundo, hoje, precisas saber: o sentimento do mundo todo está canalizado para tua pronta e breve recuperação. Saúde, Lula!

Um grande e fraterno abraço do teu irmão

Elvino Bohn Gass

Orgulhosamente, deputado federal gaúcho, do nosso PT.

Espanha: uma homenagem ao passado nefasto


Espanha: a volta gloriosa da direita furiosa


Escrevihador


A Espanha prepara a volta gloriosa da direita furiosa

Por Eric Nepomuceno, na Carta Maior

Na Espanha, há duas dúvidas concretas sobre o que acontecerá depois do domingo, 20 de novembro, dia de eleições gerais. A primeira dúvida: qual a extensão da tremenda sova que os socialistas levarão nas urnas? A segunda: até que ponto o programa da direita mais rançosa, a do Partido Popular, irá acabar de sacudir um país que já está tremelicante?

Mariano Rajoy, candidato do PP à presidência do governo (a Espanha não tem primeiro-ministro: tem presidente de governo), já deixou claro que haverá cortes nos salários, menos impostos ao capital, que a lei de aborto será mudada, mas tudo que ele diz é tão ambíguo que mesmo mudanças tão radicais como essas são anunciadas sem deixar claro o que ele realmente pretende fazer.

A questão fiscal, por exemplo, é tão nebulosa que ninguém se arrisca sequer a adivinhar o que o PP está pretendendo. Mas já é possível prever um forte incentivo ao capital especulativo, às inversões na bolsa de valores, um favorecimento claro aos planos privados de aposentadoria – enfim, tratarão com o devido carinho quem tem (ainda tem) dinheiro e vive relativamente acomodado. Exatamente o contrário do que anunciam os socialistas: aumento de impostos ao capital, aos bancos, aos grandes patrimônios.

Dois portos até pouco tempo seguros no cotidiano dos espanhóis – a saúde e a educação públicas – estão vendo seus recursos minguarem rapidamente. A direita não anuncia nenhum novo corte nesses orçamentos, mas nem pensa em apresentar mecanismos que devolvam os recursos que estão sendo reduzidos com a queda na arrecadação fiscal, graças à crise que varre o país. A proposta que até a direita francesa defende – aumentar o imposto às grandes fortunas para manter serviços públicos de educação e saúde – nem passa perto da direita espanhola.

Ninguém, na Espanha, acredita nessa história de que não haverá cortes. Da mesma forma que são esperadas mudanças drásticas na legislação laboral, embora, uma vez mais, o candidato do Partido Popular não deixe pistas claras indicando o que pretende fazer. A tal flexibilização da legislação significará, na prática, cortes de salários, menos espaço para negociação com as patronais, perda de direitos adquiridos ao longo das últimas muitas décadas.

Para cativar ainda mais os setores conservadores do eleitorado, Rajoy assegura que fará profundas revisões na lei de aborto. Não diz quais, nem como.

Quanto aos socialistas, que tiveram com José Luis Rodríguez Zapatero um governo cada vez mais distante da social-democracia, resta ver qual a dimensão de sua derrota. É como se o eleitorado já tivesse decidido quem deverá ser duramente punido pela crise: o Partido Socialista Operário Espanhol.

O candidato do PSOE, Alfredo Pérez Rubalcaba, se esforçou ao máximo, durante sua campanha, para se situar à esquerda de Zapatero, deixando claro que pretendia retomar princípios e programas da social-democracia. No fundo, estava e está correndo atrás dos eleitores indecisos. O problema é que a crise é drástica. Há cinco milhões de desempregados, ou seja, pouco mais de dez por cento da população (22% da força de trabalho).

Entre os jovens com menos de 29 anos, essa cifra ronda a casa dos 34%. O desgaste é evidente, a falta de qualquer perspectiva também. Ainda assim, vale recordar que o seguro-desemprego beneficia 80% dos desempregados. Até quando será possível manter essa situação, ninguém sabe, dentro ou fora do governo.

Em 2008, o PSOE conseguiu 169 deputados. Agora, espera conseguir pelo menos 130. As pesquisas eleitorais dizem que a vantagem da direita sobre os socialistas será de uns 15 pontos. Se esse panorama se confirmar, o PSOE não conseguirá mais do que 120. A sova deverá ser mais drástica na Andaluzia e na Catalunha, tradicionais zonas de alta votação para a esquerda, mas os analistas prevêem que os socialistas terão perdas por todo o mapa da Espanha..

A crise econômica fará, então, sua primeira grande vítima na Espanha: o partido que oscilou entre seus princípios e a capitulação total aos desígnios de um cenário que não favorece, sob nenhum aspecto, aquele que seria seu eleitorado natural. Há centenas de milhares de eleitores do PSOE dispostos ao voto de castigo contra os que consideram responsáveis pela situação que enfrentam.

Resta ver se, ao castigar o governo socialista e levar a direita de volta ao poder – especialmente num momento tão especialmente difícil –, não estarão castigando sobretudo a si próprios.

Há, enfim, uma ironia nesse quadro: foi num 20 de novembro que morreu o ditador Francisco Franco, o de 1975. Dar à direita, nesse dia, uma vitória tão contundente como a que se insinua, será uma homenagem ao passado nefasto.



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Propaganda do PSDB fica sem Serra e sem Aécio

Vermelho

Nem Aécio, nem Serra. Para evitar novos conflitos na legenda, o comando nacional do PSDB decidiu que nem o mineiro Aécio Neves, nem o paulistano José Serra (SP) serão protagonistas nas inserções partidárias de 30 segundos, que serão veiculadas em cadeia nacional de rádio e televisão em novembro. No total, serão 35 filmes.


A briga entre os dois por conta do espaço no último programa partidário acabou desgastando entre dirigentes e explicitou, mais uma vez, a falta de unidade da legenda para o projeto presidencial de 2014. As inserções, segundo dirigentes do partido envolvidos nas negociações sobre o formato e conteúdo das peças, terão foco em três linhas de ação já exploradas no programa partidário que foi ao ar no último dia 13.

A primeira: reforçar realizações do partido e o legado de Fernando Henrique Cardoso, com destaque para o Plano Real e o controle da inflação, a privatização das telecomunicações e a criação da Lei de Responsabilidade Fiscal.

A segunda: ressaltar ações dos governos estaduais do PSDB, cuja média de avaliação é positiva.

A terceira: o partido adotará o discurso de oposição ao atual governo, explorando as recentes crises de corrupção que abateram ministros.

Uma pesquisa encomendada pelo PSDB para formular uma nova ação de marketing surpreendeu com algumas constatações. A principal é que o eleitor tem pouco conhecimento do comportamento do partido na esfera estadual, apesar de as administrações tucanas serem bem aceitas pela população local. Além disso,o partido não conseguiu fixar na cabeça do eleitor uma linha histórica das realizações políticas do governo Fernando Henrique Cardoso.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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Paulo Teixeira: Dimenstein e o sentimento da minoria

Viomundo

por Paulo Teixeira

O jornalista Gilberto Dimenstein quis solidarizar-se com o ex-presidente Lula, mas não conseguiu. Em sua coluna “O câncer de Lula me envergonhou”, publicado pela Folha Online deste domingo (30/10), ele condena o preconceito de uma minoria que, neste momento, diz que Lula deveria se tratar no SUS, o Sistema Único de Saúde.

Em seu texto, Dimenstein faz alguns elogios a Lula e diz que o ex-presidente foi conivente com a corrupção. Baseado em quê?

Lula tomou uma série de providências no combate à corrupção durante o seu governo. Se não, vejamos.

Os procuradores gerais indicados pelo então presidente foram indicados sem o compromisso de aliviar a vida do governo, diferentemente do que ocorreu no governo FHC, quando o procurador geral era chamado de “engavetador geral da república”.

A Polícia Federal atuou com independência e autonomia funcional, prendendo inclusive um irmão do então presidente, que sequer foi indiciado depois.

A Controladoria Geral da República (CGU) foi instalada em todos ministérios, atuando como órgão de controle interno com mãos fortes.

Lula enviou para o Congresso Nacional duas legislações importantes de combate à corrupção: a legislação de acesso aos dados públicos, recentemente aprovada, e que exigirá a máxima transparência do Estado brasileiro; e a outra legislação importante, tramitando na Câmara Federal, pune o corruptor.

O texto do jornalista é paradoxal na medida em que, ao condenar tal minoria, a acompanha nos seus preconceitos.

Paulo Teixeira é Deputado Federal e líder do PT na Câmara

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Conversa Afiada





O jornal nacional desta segunda-feira dedicou mais espaço aos 7 bilhões de habitantes da Terra do que ao início da quimio do Nunca Dantes.

O que interessa ao brasileiro saber que há mais um chinês ou indiano na face da Terra ?

Especialmente, porque o aumento da população brasileira hoje é parecido com a de países europeus.

Irrelevante.

Por quê ?

A Globo perdeu o senso ?

Não, amigo navegante.

No jn do Ali Kamel não há coincidências.

Vamos construir uma hipótese.

A Globo já percebeu que o Nunca Dantes vai sair dessa.

É o Lula que saiu do Governo com 80% de popularidade, mais uma vitoria contra o câncer.

É o Lula mais o Super Lula.

O PiG (*) não vai aguentar !

Não adianta o PiG torcer ou inventar especialistas pessimistas.

O câncer foi localizado a tempo.

Ele não perderá a voz – que sempre foi rouca.

O cabelo e a barba vão voltar a crescer.

E ele vai subir nos palanques como quem renasceu.


Outro tiro no peito da Globo.

E do PiG (*).

É por isso que a Globo deu mais destaque ao nascimento de um Ching Ling na China.

E o Bernardo ainda transfere a Ley de Medios para 2099

Paulo Henrique Amorim

(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.