terça-feira, 14 de dezembro de 2010

agora os soldados devem e precisam retornar para os quartéis



Em entrevista à Carta Maior, o ex-ministro da Justiça e governador eleito do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), afirma que, no Rio de Janeiro, está se jogando não apenas o futuro da segurança pública deste Estado, mas sim o destino das políticas de segurança pública em todo o país. “Não podemos alimentar a ideia de que as Forças Armadas são instituições que têm como papel prover segurança à população”, defende. Segundo Tarso, a preocupação em relação ao Rio de Janeiro não é com o que está acontecendo agora, mas sim com o que vai acontecer daqui para frente. “A experiência de substituição da polícia pelas Forças Armadas no enfrentamento do crime organizado, como ocorreu no México, é desastrosa”. Ele detalha assim sua preocupação:

Nos acontecimentos do Rio de Janeiro, era necessário o uso daqueles aparatos militares para derrubar as barreiras, algumas delas de concreto, colocadas pelos criminosos. Também era necessário – e continua sendo – um apoio logístico e um apoio na retaguarda dos policiais. O grande problema que o Rio de Janeiro terá que enfrentar agora é sobre quem deverá permanecer nas áreas ocupadas: as forças armadas ou as forças de segurança do Estado? Isso tem efeitos completamente diferentes. A presença ostensiva e permanente das Forças Armadas substituindo a Polícia baixa a autoestima dos policiais e reduz a confiança da população nos policiais que são treinados especificamente para cumprir essa função de policiamento.

Estou fazendo essa colocação, não partindo do pressuposto de que há um sentido de permanência das Forças Armadas naquela região, mas atento a determinadas declarações de oficiais que chegam a dizer: “viemos aqui para ficar”. Essa formulação, na minha opinião, é equivocada, por dois motivos. Em primeiro lugar, porque leva um militar a falar sobre segurança pública, que não é sua função. Em segundo, cria na comunidade uma expectativa de que a presença do Exército pode ser permanente na região. Para essa presença ser correta, como está sendo até agora, ela tem que ser provisória, previsível e para dar sustentação à entrada das forças policiais do Estado, devidamente treinadas para isso.

Na entrevista, Tarso Genro também fala sobre alguns dos conceitos gerais que pretende implementar na Segurança Pública do Estado:

A situação do Rio Grande do Sul é muito diferente da do Rio de Janeiro. Nós não temos aqui nenhum território em que a polícia não possa entrar. Apesar das dificuldades e até da degradação sofrida pelas políticas de Segurança Pública no Estado, não existe nenhum território onde a polícia não entre de maneira ostensiva ou reservada, seja a Brigada Militar ou a Polícia Civil. Ou seja, o nosso caso não é de ocupação militar prévia, mas sim de presença da polícia, de presença ostensiva do Estado, com a elaboração e introdução de programas voltados aos jovens para retirá-los do caminho das ofertas de “boa vida” dos traficantes, e de alocar quadros altamente preparados para o policiamento comunitário.

Além do que está sendo feito no bairro Guajuviras, temos outros exemplos positivos aqui no Rio Grande do Sul, que foram implementados nos últimos três anos. Um deles é o sistema de vídeo-monitoramento no Litoral Norte, que está começando; outro é o trabalho que vem sendo realizado na área de Segurança Pública pelo prefeito de São Leopoldo, Ari Vanazzi. Neste último caso, com muita dificuldade, aliás, pois a Brigada Militar, não sei por ordem de quem, se recusava a participar do Gabinete Integrado de Segurança Pública. Isso não vai ocorrer no meu governo. A Brigada Militar e a Polícia Civil vão participar de todos os aparatos necessários à implementação do Pronasci. Vamos definir quais são os territórios prioritários – que, na minha opinião, estão situados na Região Metropolitana -, estimular e consolidar os programas que estão começando ou em transição em diversas prefeituras e também estender o conceito de território para a área turística, como pretendemos fazer na Metade Sul do Estado, aqui na costa doce.

(A íntegra da entrevista)


Foto: Caco Argemi

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