quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

literatura é escolher palavras... hihihihihi, o carinha é d+

Notas de rodapé, por Paulo Candido

biscoito fino e a massa

"A single sentence could run for three pages, and a footnote even longer"
(“Jacques Derrida, Abstruse Theorist, Dies at 74”, obituário do New York Times)

A Internet sempre teve seus textos escuros e seus parágrafos esquisitos, suas narrativas alimentadas por tipos suspeitos, gente incapaz de ler uma frase simples sem pensar nos seus pressupostos últimos. Se a explosão da blogoseira (termo roubado do Hermenauta, um dos nossos muitos Dons Sebastiões) já havia insinuado um boom imobiliário, as tecnologias de compartilhamento e de criação de micro-redes sociais transformaram o cenário em uma bolha especulativa de proporções alarmantes. Foi em um destes cantos que o Idelber foi encontrar este texto, comentários a links compartilhados pelo Google Reader, um de meus inúmeros vícios. Digo “encontrar o texto” porque as pessoas, se existirem, nunca se viram. Sim, eu tenho um e-mail (paulo ponto candido arroba gmail ponto com), um twitter (PauloCOF) e toda a tralha acessória.
Mas em 2010 isto quase não garante mais nada.

Claro que me intimidou um pouco o convite para escrever no Biscoito, um dos meus blogs preferidos. Eu que nem tenho um blog propriamente dito, que não sou “escritor” nem “acadêmico”. No fim, qualquer leitor daqui saberia que o convite era irrecusável. Mas fica o aviso: o que segue, até que alguém se canse, são apenas observações algo casuais e extremamente pessoais sobre outros textos que me chamaram a atenção. Textos sobre textos. Pequenas notas de rodapé à Narrativa, se vocês quiserem.

"Eu não consigo ler o que está escrito nas letras incandescentes", disse Frodo numa voz trêmula.
"Não", disse Gandalfo, "mas eu consigo. As letras são de uma forma arcaica de Élfico, mas a língua é aquela de Mordor, que eu não pronunciarei aqui. Mas o que está escrito, na Língua Comum , é isto:"

(J.R.R. Tolkien. “O Senhor do Anéis – A Companhia do Anel”)

Um segundo aviso é que vão aparecer por aqui links para blogs onde o ar é pesado, a conversa circunspecta e os frequentadores respeitáveis. Textos escritos por pessoas sérias que sabem distinguir o certo do errado, uma gente admirável em sua Vontade de Verdade. Uma gente grande, Reinaldos, Mervais, Leitões, Hipólitos, até quem sabe Carvalhos. Entre outros. Estes links, que o Idelber acertadamente evita e eu propositamente cultivo, servem apenas de suporte às citações. Mas algum cuidado é sempre válido. A leitura continuada de alguns destes senhores e senhoras pode causar danos permanentes à sua capacidade de entendimento do mundo.

Mas hoje eu começo mais perto de casa. Bem perto.

A busca incansável por um feminismo dócil

Na última semana eu me envolvi bastante em uma discussão sobre linguagem que assumiu rumos quase surrealistas mas muito sintomáticos e “surpreendentes”.

Terça-feira passada surgiu na home do blog do Nassif um artigo intulado “O poder das mulheres”. Esse artigo era na verdade um comentário de um usuário (chamado Andre) elevado a post na página principal pelo Nassif ou pelo seu “editor assistente” (como soubemos depois).

Não quero comentar muito este texto aqui, não há muito a dizer. Basta observar que ele começa com a frase “meu medo em relação às feminazis (sempre lembrando que este é apenas e tão somente um termo que ganhou popularidade por sua eficiência em resumir feministas radicais) é justamente pelo fato de elas me verem como um inimigo a ser exterminado”. Os itálicos são todos meus e cada um deles, pela marca que trazem de um machismo desenfreado e ignorante, mereceriam um post à parte.

Mas felizmente a Cynthia já explicou tudo melhor do que eu conseguiria aqui e aqui. Tambem a Lola e a Barbara (aliás, interlocutora original do autor no blog do Nassif) mostraram o absurdo que estava em curso.

Foram seis dias até que Luiz Nassif se dignasse a escrever uma espécie de retratação muito leve. Eu expus minha opinião em dois comentários no próprio artigo. A “retratação” inclui uma série de argumentos infantis, indo desde o inacreditável “eu não conhecia este termo” até “eu promovo mulheres na minha empresa, tenho filhas, mulher, tias e avós bem-sucedidas e defensoras dos direitos das mulheres”. Este último coroado com a divertida condição “sem nenhuma necessidade de se valer da agressividade como ferramenta de auto-afirmação” (eventualmente elevado a título de uma brilhante resposta da Lola). Interessante observar também que as duas respostas aos meus comentários defendendo ou minimizando o uso do termo “feminazi” são de homens. É como dizia Freud, onde há sintoma há fogo...

No decorrer da semana dois posts me chamaram a atenção, ambos pela maneira como tentam dar a questão por “superada” em nome de algum bem maior (volto a isto daqui a pouco). A conceituada Conceição Oliveira escreveu no Vi o Mundo um texto que flertava com igualar os desiguais: “A meu ver o nível acalorado que tomou conta do debate foi desgastante com a desqualificação nos dois pólos. Talvez os ânimos não tivessem se acirrado e  pudessem ter sido amenizados com um pouco de conhecimento sobre o feminismo por parte de Nassif e entre as feministas o conhecimento sobre as próprias diferenças presentes no amplo espectro progressista que agrega os blogs ’sujos’ ou o que passou a ser denominado (após o primeiro encontro de blogueiros em agosto de 2010) de ‘blogosfera progressista’. Mas, infelizmente, sobrou generalizações de toda a sorte.

Sinceramente me escapa como “as próprias diferenças presentes no amplo espectro progressista que agrega os blogs ’sujos’ ou o que passou a ser denominado (após o primeiro encontro de blogueiros em agosto de 2010) de ‘blogosfera progressista’” podem servir de justificativa para a defesa do uso do termo “feminazi” em qualquer debate que se queira sério, produtivo ou mesmo possível (lembrando que foi assim que isto começou).

O Renato Rovai escreveu lembrando que o Nassif tem toda uma história de enfrentamento da grande mídia que precisa ser levada em consideração. Mas resta um detalhe sutil: “Menos honesto ainda é tentar transformar o post do Nassif numa ação de quadrilha, num movimento machista “dos blogueiros progressistas”. Esse é um comportamento típico de quem tem dificuldade de conviver com construções coletivas e busca fazer do protagonismo alheio escada para seus desejos de sucesso.
Este pequeno parágrafo inocente, solto ali, com o qual o autor novamente desqualifica uma objeção original de algumas blogueiras (notamente a Cynthia e a Lola, mas também do próprio Idelber) quanto à composição de gênero marcadamente desequilibrada do grupo que realizou a histórica entrevista com o presidente Lula, também pode ser facilmente invertido. Pois ele (o parágrafo) faz exatamente o que nega. Mostra que estas duas palavras, blogueiros e progressistas, escondem sentidos que aqueles que os carregam talvez não suspeitem, com os quais talvez não concordem, que talvez não queiram ver. E a leitura que o Rovai tenta descartar, BlogueirOS “Progressistas”, parece estar perseguindo este nome desde sua inserção no debate, ali pelo meio do ano. Mas questões de nomes, acho que merecem um exame mais vagaroso. Outro dia, outro texto. Só para discutir “Progressista”.

Para não dizer que não falei de flores

Eu não queria me alongar tanto no assunto anterior, mas “feminazi” é uma daquelas palavras que dá vontade de passar o dia escrevendo. Escrever posts, artigos, livros. Deixo duas observações finais já em direção aos meus temas prediletos.

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Um dos motivos que me levaram, há muitos e muito anos, a parar de ler a revista Veja foi o estilo de redação. Ninguém naqueles textos falava nada. Toda elocução era necessariamente adjetivada. Os entrevistados “indignavam-se”, “espantavam-se”, “ensinavam”. Nunca diziam. O verbo “filosofar” era usado para indicar que a fala seguinte continha algum lugar-comum de natureza geral (“quem espera sempre alcança”, filosofa Fulano) ou alguma platitute metafísica (“O amor sempre vence o ódio”, filosofa Beltrana). Mas é apenas este sentido do verbo “filosofar” que permite compreender a notícia da posse de Merval Pereira na cadeira de 48 de algo chamado Academia Brasileira de Filosofia.

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Nas últimas semanas Reinaldo Azevedo dedicou vários posts a uma polêmica irrelevante criada e mantida por ele mesmo, o prêmio Jabuti de Livro do Ano de Ficção dado a “Leite Derramado” de Chico Buarque. Sem entrar no mérito da substância destes textos (ou melhor, da falta de), eles proporcionaram uma pequena janela para determinados pressupostos deste colunista tão popular entre os mitológicos 4% que acham Lula e seu governo ruim ou péssimo . Em um post do final de novembro Reinaldo nos brinda com sua definição de literatura: “Literatura é escolher palavras”. Agora ficou simples, isto de literatura. É como o molho do macarrão, o importante é escolher os tomates. O resto do texto do Rei é engraçadinho, críticas específicas à escolha das palavras em um parágrafo de Budapeste. Será que ele poderia se dedicar a fazer isto com os Lusíadas, verso a verso? Não sei se a língua portuguesa ganharia um crítico fundamental, mas a Internet brasileira ganharia uma saudável ausência de blogueiro. Mas brinco. O espírito serro-tucano-paulisto-católico (exatamente nesta ordem) do Reinaldo é uma das maiores preciosidades da blogoseira anaeróbica.

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