Jornalismo B
A matéria de Adriana Araújo vai a Georgetown, capital da Guiana, atrás de Lula, e entrevista duas vezes o presidente, no hotel onde ele ficou hospedado e, depois, no avião, o tal Aerolula. Como reportagem política, é um desastre: não discute o governo em si, nem as conquistas nem as derrotas. Mas, claramente, não é a isso que se propõe. Uma entrevista com um político não precisa ser política. Lula é um personagem extremamente rico, e é no homem Lula que está presidente que fica o foco durante os 18 minutos de matéria.
Os dois mandatos de Lula são relembrados em conversas descontraídas, que abordam temas como o medo do presidente em seu primeiro encontro com líderes internacionais, as diversas quebras de protocolo, o preconceito de classe que Lula sofre por parte das elites brasileiras, os lado chorão do presidente. A única polêmica abordada também é um assunto mais pessoal do que político: a reportagem do jornalista norte-americano Larry Rother que dizia que Lula bebe demais.
São duas entrevistas (na mesma matéria) leves, tranquilas, interligadas por imagens de Lula como popstar, tanto na Guiana quanto em Manaus, para onde segue o avião presidencial conduzindo também a repórter. Também aparecem imagens de Lula operário e recém empossado, assim como um pouco sobre o hotel em que ficou em Georgetown. Tudo isso faz da matéria um perfil, e retira dela o peso de uma reportagem política. Como perfil, a condução é exemplar.
É preocupante, porém, o esvaziamento político de matérias assim. Solta no ar, sem ligação com outras reportagens que tratem de Lula como presidente, vira quase peça de propaganda. É necessário um contexto maior para que os telespectadores saiam informados de forma completa, com mais do que pão e circo – que também são bons, mas insuficientes.
Postado por Alexandre Haubrich
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