Folha briga com Folha para desconstruir Lula
Jornalismo B
O título da primeira matéria, publicada na editoria de “Poder”, é “A classe C mora ao lado”, e a linha de apoio afirma que “Sem ajuda do governo, três famílias de catadores de papel que moravam em barracos perto do Palácio do Planato ascenderam à classe média” (grifo meu).
Resumindo a história, a Folha entrevistou, em 2003, quatro famílias que moravam no meio do mato, nos arredores do Palácio do Planalto. Dessas quatro famílias, três subiram à classe média, enquanto a outra passou a receber Bolsa Família. O texto inteiro, de Johanna Nublat e Lula Marques, gira em torno de dois eixos: o governo não ajudou na ascensão social; e Lula deixou de lado seus pares após chegar ao poder.
Sobre este último eixo, os dois primeiros parágrafos são exemplares:
Geovânia Silva tinha acabado de fazer um ano quando o migrante nordestino e ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência e virou seu vizinho.
Enquanto Lula se instalava no Alvorada, ela vivia com a família num barraco de lona a poucos metros dali.
Sobre o eixo “o governo não ajudou na ascensão social”, além da linha de apoio já citada, os exemplos são muitos, a começar pelo seguinte parágrafo, também com grifo meu:
Durante os mandatos de Lula, mas sem ajuda direta do governo, as três famílias fizeram parte do movimento que levou 29 milhões de pessoas a subir à classe C entre 2003 e 2009, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas.
Depois, a fala de um morador une os dois eixos: “Quando pensa no ex-vizinho ilustre, a mágoa de Martins aflora. ‘Passei por tudo isso sem ajuda nenhuma, o presidente nunca quis enxergar a gente ali’, diz ela”. Ao lado dessa matéria, uma análise de Gustavo Patu, repórter da Folha. Ele critica o PT por não apresentar a ascensão social “como mérito dos indivíduos, mas como feito dos governantes”. E arremata: “Crescimento econômico, que não depende só das políticas domésticas, aparenta ser mais crucial que o salário mínimo ou o Bolsa Família”. É, ele diz que “aparenta”.
Na página B3 do caderno Mercado da mesma edição, porém, a Folha desmascara sua própria reportagem e seu próprio analista. O título é “Renda sobe mais para quem ganha menos”, e o subtítulo diz que “Rendimento de profissões que pagam salários mais baixos cresce mais que o de atividades que remuneram melhor”. Depois, a abertura do texto de Pedro Soares completa: “Reajuste do mínimo e falta de profissionais explicam aumento maior em setores como construção e comércio”.
Mais alguns trechos derrubam a tese da matéria do “Poder”. Logo no início, por exemplo, “Sinal da melhora na distribuição de renda, os trabalhadores que ganham salários mais baixos (…) viram em 2010 seu rendimento crescer mais do que as atividades que pagam melhor (…)”. E em seguida: “Segundo especialistas, o resultado se deve principalmente à escassez de profissionais nesses setores e ao reajuste real do salário mínimo”.
Os trechos citados aqui, tanto de uma matéria como de outra, são apenas alguns exemplos, é importante destacar. As construções inteiras dos dois textos se contrapõem. A segunda reportagem derruba completamente a tese da primeira. Em seu esforço para desconstruir a imagem de Lula, a Folha briga com as notícias que ela mesma publica.
*Fotos de Sebastião Salgado
Postado por Alexandre Haubrich
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